Keywords
Endometriosis. Female i nfertility. Follicular fluid. Oocyte quality. L -carnitine.
Omega-3. Docosahexaenoic acid. Eicosapentaenoic acid. Antioxidant. β-oxidation.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: β-oxidação mitocondrial de ácidos graxos e sua regulação.............................. 42
Figura 2: Estrutura química da molécula de L -carnitina (nome IUPAC: 3 -Hidroxi-4-
trimetilamonio-butanoato; fórmula molecular: C7H15NO3; massa molar: 161,199
g/mol)................................................................................................................................ 44
Figura 3: Estrutura química das moléculas de ácidos graxos ômega -3: A -) Ácido
eicosapentaenoico (EPA) e B-) Ácido docosahexaenóico (DHA)..................................... 47
Figura 4: Vias metabólicas de síntese de ácidos graxos ômega-3 e ômega-6................. 48
Figura 5: Síntese e ações de mediadores lipídicos produzidos a partir dos ácidos
araquidônico (AA), eicosapentaenoico (EPA) e docosahexaenóico (DHA)...................... 48
Figura 6: Estágios de maturação nuclear de oócitos bovinos maturados in vitro e analisados
por microscopia confocal. A -) Metáfase I; B) Telófase I; C -) Metáfase II; D -) Ativação
Partenogenética(TelófaseII).............................................................................................. 61
Figura 7: Posição de visualização do fuso meiótico de oócitos bovinos em metáfase II
maturados in vitro e visualizados por microscopia confocal. A -) Polar (fuso não ana lisável),
B-)Sagital(analisável)........................................................................................................ 62
Figura 8: Classificação de oócitos bovinos maturados in vitro, em metáfase II analisáveis, de
acordo com a organizaç ão do fuso meiótico e alinhamento cromossômico analisados por
microscopia confocal. A -), B -) e C -) representam anormais e D -)
normal............................................................................................................................... 63
Figura 9: Desenho experimental............................................................................ ............65
Figura 10: Fluxograma ilustrando recrutamento, inclusão e seguimento de mulheres inférteis
doadoras de fluido folicular............................................................................................... 69
Figura 11: Alterações meióticas oocitárias mais significativas encontradas em cada grupo: A-
) Metáfase II normal no grupo FFControle; B -) Metáfase I no grupo FFEendometrioma; C-) a
F-) Metáfase II anormal nos grupos FFEI/II, FFEIII/IV, FFEendometrioma e
FFEendometioma+LC+n3, respectivamente ....................................................................74
LISTA DE TABELAS
Tabela 1: Variáveis clínicas e r esposta à estimulação ovariana controlada das
mulheres inférteis doadoras de fluido folicular sem endometriose (controle), com
endometriose em estágios iniciais (EI/II) e em estágios avançados sem
endometrioma (EIII/IV) e com endometrioma
(Eendometrioma)........................................................................................................70
Tabela 2: Estágios de maturação nuclear, e porcentagem de oócitos em MII normais
maturados in vitro em meio sem adição de FF (sem-FF), com adição de 1% de FF de
pacientes inférteis sem endometriose (FFControle), com endometriose leve (FFEI/II),
com endometriose moderada/grave sem endometrioma (FFEIII/IV) ou com
endometriose moderada/grave com endometrioma (FFEndometrioma),
suplementado com 0,6mg/mL de L -Carnitina, 0,4 nM de ácido docosahexaenóico e
0,6 nM de ácido eicosapentaenóico (LC+n3) visualizados por microscopia
confocal......................................................................................................................73
LISTA DE ABREVIATURAS
8OHdG 8-hidróxi-2'-deoxiguanosina
AA Ácido Araquidônico
ACO Anticoncepcional Combinado Oral
ADP Adenosina Difosfato
AL Ácido Linoléico
ALA Ácido α-linolênico
AP Ativação Partenogenética
ASRM Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva
ATP Adenosina Trifosfato
CAT Capacidade Antioxidante Total
CCO Complexo Cumulus Oócito
CFA Contagem de Folículos Antrais
CoA Coenzima A
COX-2 Cicloxigenase-2
CP Corpúsculo Polar
CPT1 Carnitina Palmitoil Transferase I
CPT2 Carnitina Palmitoil Transferase II
DGLA Ácido di-homo-γ-linolênico
DHA Ácido Docosahexaenóico
DMSO Dimetilsulfóxido
DNA Ácido Desoxirribonucléico
DPA Ácido Docosapentaenóico
EO Estresse Oxidativo
EOC Estimulação Ovariana Controlada
EPA Ácido Eicosapentaenóico
ERO Espécie Reativa do Oxigênio
ETA Ácido Eicosatetraenóico
FF Fluido Folicular
FITC Isotiocianato de fluoresceína
FIV Fertilização in vitro
FMRP Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto
FOX1 Total de Hidroperóxidos
FSH Hormônio Folículo Estimulante
GLA Ácido γ-linolênico
GnRH Hormônio Liberador de Gonadotrofinas
GSH Glutationa Reduzida
HC Hospital das Clínicas
hCG Gonadotrofina Coriônica Humana
HIV Vírus da Imunodeficiência Humana
ICSI Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoide
IMC Índice de Massa Corpórea
LC L-carnitina
LOX Lipoxigenase
LT Leucotrieno
MDA Malondialdeído
MI Metáfase I
MII Metáfase II
MIV Maturação in vitro
NAC N-acetil-cisteína
OCTN Transportador Catônico Orgânico
PBS Tampão Fosfato Salino
PG Prostaglandina
PUFA Ácido Graxo Poli-insaturado
RNA Ácido Ribonucleico
RT-PCR Reação quantitativa em cadeia da polimerase
SBF Soro Bovino Fetal
SDA Ácido Estearidônico
SOD Superóxido Dismutase
TCA Ciclo do Ácido Tricarboxílico
THA Ácido Tetracosahexaenóico
TI Telófase I
TPA Ácido Tetracosapentaenóico
TRA Técnicas de Reprodução Assistida
VLPSC Videolaparoscopia
USP Universidade de São Paulo
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ............................................................................................. 27
2. REVISÃO DA LITERATURA ....................................................................... 33
2.1. Endometriose, estresse oxidativo e infertilidade ................................. 34
2.2. Fluido Folicular ........................................................................................ 37
2.3. Competência oocitária e fuso meiótico ................................................. 39
2.4. β-oxidação e qualidade oocitária ........................................................... 41
2.5. L-carnitina ................................................................................................ 44
2.6. Ácidos graxos ômega-3 .......................................................................... 46
3. OBJETIVOS ................................................................................................. 50
3.1. Objetivo geral .......................................................................................... 51
3.2. Objetivos específicos.............................................................................. 51
4. MATERIAS E MÉTODOS ............................................................................ 52
4.1. Seleção de pacientes doadoras de fluido folicular .............................. 53
4.1.1.Critérios de inclusão ................................................................................ 53
4.2. Captação oocitária, coleta e processamento de amostras de fluido
folicular.............................................................................................................54
4.3. Estimulação Ovariana Controlada ......................................................... 55
4.4. Coleta de ovários bovinos, recuperação e classificação dos complexos
cumulus-oócito... ............................................................................................ 56
4.5. Maturação in vitro ................................................................................... 56
4.6. Preparo das soluções de L-carnitina e dos ácidos graxos ômega-3 .. 58
4.6.1 L-carnitina.................................................................................................58
4.6.2 Ácidos graxos ômega-3............................................................................58
4.7. Imunofluorescência para visualização de microtúbulos e
cromossomos..................................................................................................59
4.8. Classificação oocitária baseada na morfologia do fuso meiótico e no
alinhamento cromossômico por microscopia confocal...............................59
4.9. Obtenção da variável primária.................................................................63
4.10. Obtenção de variáveis secundárias......................................................64
4.11.Obtenção das variáveis clínicas secundárias.......................................64
4.12. Desenho experimental............................................................................65
4.13.Análise estatística....................................................................................65
4.14. Cálculo Amostral.....................................................................................66
5. RESULTADOS ......................................................................................... ....67
5.1. Recrutamento de pacientes doadoras de FF ........................................ 68
5.2. Dados clínicos doadoras de FF...............................................................69
5.3. Maturação in vitro e microscopia confocal............................................70
6. DISCUSSÃO..................................................................................................75
7. CONCLUSÕES ............................................................................................ 83
BIBLIOGRAFIA ............................................................................................... 85
APÊNDICE A: Caracterização das pacientes doadoras de fluidos foliculares
utilizados em cada replicata de maturação in vitro de oócitos bovinos............102
APÊNDICE B: Dados de estágios de maturação nuclear, e porcentagem de oócitos
em MII normais de acordo com as oito replicatas de maturação in vitro de oócitos
bovinos realizadas............................................................................................103
MANUSCRITO ...................................................................................... .........104
27
1. INTRODUÇÃO
28
A e ndometriose é uma doença ginecológica, inflamatória e estrógeno
dependente, caracterizada pela presença e pelo crescimento de tecido endometrial
(glândulas e estroma) fora da cavidade uterina (KENNEDY et al., 2005). Dor pélvica,
dismenorreia, dispa reunia e infertilidade são alguns dos sintomas frequentes da
endometriose que, por outro lado, pode ser assintomática (KENNEDY et al., 2005;
BELLELIS et al., 2010; SINGH et al., 2014).
Estudos populacionais estimam uma prevalência de 0,8 -6% de endometriose
na população global (MOEN; SCHEI , 1997; ABBAS et al. , 2012; FULDEORE;
SOLIMAN, 2017). Entretanto, a prevalência da endometriose aumenta para 25 -50%
na população de mulheres inférteis, e entre as mu lheres com endometriose,
aproximadamente, 30 -50% apresentam problemas com infertilidade (MISSMER et
al., 2004) . Um estudo avaliando uma grande coorte de mulheres em idade
reprodutiva (<35 anos), reportou um risco de infertilidade duas vezes maior em
mulheres com endometriose comparado àquelas mulheres sem a doença
(MEULEMAN et al., 2009).
Entretanto, a endometriose é uma doe nça heterogênea com lesões
peritoneais variando de um simples implante peritoneal superficial de 1 mm até a
presença de grandes endometriomas e obliteração do fundo de saco de Douglas
(ASRM, 1997), e ainda mais raro, endometriose fora da cavidade pélvica (CHAMIÉ
et al. , 2018) . A Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) , visando
padronizar os estágios da endometriose, propôs um sistema de classificação
baseado na localização (peritônio, ovários), tamanho e profundidade das lesões de
endometriose, presença de obliteração do fundo de saco de Douglas e presença e
tipos de ade rências afetando ovários e tubas uterinas (ASRM, 1997) . Uma
pontuação é designada para cada tipo de achado, e então, a endometriose é
classificada como mínima (estágio I – pontuação de 1 -5), leve (estágio II –
pontuação de 6-15), moderada (estágio III – pontuação de 16-40) e grave (estágio IV
– pontuação de >40) (ASRM, 1997).
Fica claro que mulheres que apresentam estágios mais avançados da
endometriose (III/IV) podem apresentar um comprometimento anatômico da
cavidade pélvica dificulta ndo a ovulação, a captação do óvulo pelas f ímbrias das
tubas uterinas, a fertilização, o transporte tubário do embrião e, possivelmente, a
implantação embrionária (DE ZIEGLER ; BORGHESE; CHAPRON, 2010),
justificando a infertilidade.
29
Estudo utilizando modelo primata não -humano (babuínos), avaliou o impacto
dos quatro estágios de endometrios e sobre a fertilidade natural após acasalamentos
ao longo de vários ciclos sexuais (D'HOOGHE et al., 1996) e reportaram que a taxa
de fecundidade por ciclo foi maior nas fêmeas livres de endometriose (controle) e
com EI (22%) comparado ao grupo de fêmeas com EII, EIII e EIV (12%)
(D'HOOGHE et al. , 1996) . O grupo controle e EI apresentaram maior taxa de
gestação por ciclo (19% e 24,4%, respectivamente) do que os grupos EII (9,6%), EIII
(7,5%) e EIV (12,5%) (D'HOOGHE et al., 1996). Esses dados sugerem que o avanço
da endometriose apresenta impacto negativo sobre a fertilidade natural.
A presença de endometrioma também parece prejudicar a fertilidade feminina.
O e ndometrioma é considerado um “pseudocisto” formado, na maioria dos casos,
pela invaginação do córtex ovariano (BROSENS et al., 2013). Cerca de 20-40% das
mulheres com endometriose apresentam endometrioma (REDWINE, 1999;
VERCELLINI et al. , 2003) , que pode criar um ambiente citotóxic o ao
desenvolvimento folicular (PAFFONI et al., 2018), diminuindo o número de folículos
maduros no cór tex ovariano adjacente (MANESCHI et al. , 1993; KITAJIMA et al. ,
2011).
Entretanto, mesmo nos estágios iniciais da doença (I/II) , quando não se
observa um comprometimento anatômico da cavidade pélvica, já é observad a uma
diminuição da taxa da fecundidade mensal comparada com mulheres inférteis sem
causa aparente (BÉRUBÉ et al., 1998; PARAZZINI, 1999) evidenciando uma relação
causal entre infertilidade e endometriose mesmo nos estágios iniciais.
É no ambiente folicular que ocorre a maturação e o desenvolvimento
oocitário. O estresse oxidativo ( EO) presente no ambiente peritoneal de mulheres
com endometriose pode refletir no compartimento sistêmico do organismo e afetar o
ambiente folicular, comprometendo a qualidade oocitária e, consequentemente, o
potencial reprodutivo dessas pacientes (DA BROI; NAVARRO , 2016). O EO ocorre
quando há um desequilíbrio entre espéci es reativas e antioxidantes. Espécies
reativas do oxigênio (EROs) são produtos intermediários do metabolismo celular
normal (LOUSSE et al., 2012). Para se auto protegerem dos efeitos deletérios d as
EROs, as células desenvolveram um sistema antioxidante para limitar e inativar as
EROs, além de reparar os danos oxidativos estabelecidos (LOUSSE et al., 2012).
O EO pode danificar diversas proteínas intracelulares (STADTMAN, 1992;
BERLETT; STADTMAN , 1997) importantes para a organização do fuso celular
30
(ANTONIO et al., 2000; FUNABIKI; MURRAY, 2000; ABRIEU et al., 2001) podendo
promover lesões no material genético e induzir o inadequado alinhamento
cromossômico (BECKMAN; AMES , 1998; LIMOLI et al. , 1998) . As anomalias
meióticas podem, por sua vez, contribuir para a falência do desenvolvimento celular
por meio de diferentes vias, que vão desde a inabilidade do oócito em completar a
maturação, tornando-se incapaz de ser fertilizado, até a ocorrência de erros que não
impossibilitem a fertilização, mas comprometam o desenvolvimento embrionário pré
e/ou pós -implantação, bem como a viabilidade futura do concepto (PAVLOK;
LUCAS-HAHN; NIEMANN, 1992; LONERGAN et al., 1994; ARMSTRONG, 2001).
Programas de doação de óvulos indicam que a qualidade oocitária é um fator
relevante no sucesso das Técnicas de Reprodução Assistida (TRA) em mulheres
com endometriose (GARCIA-VELASCO; ARICI , 1999; GARRIDO et al. , 2000) .
Simón e colaboradores (1994) observ aram taxas de implantação e de gestação
semelhantes em mulheres com e sem endometriose que receberam oócitos de
doadoras sem a doença (SIMÓN et al., 1994). Entretanto, as taxas de implantação
foram menores em mulheres sem a doença que receberam oócitos de mulheres com
endometriose (SIMÓN et al., 1994).
Oócitos humanos são extremamente raros e seu uso em estudos invasivos
geralmente não é viável porque impede sua utilização nas TRA. Desta forma,
estudos avaliando células do cumulus ou fluido folicular ( FF) podem auxiliar no
entendimento da aquisição da competência oocitária (DA BROI et al., 2018a).
Estudo prévio de nosso grupo reportou que a adição de FF de mulheres
inférteis com endometriose leve ao meio de maturação in vitro (MIV) de oócitos
bovinos compromete a qualidade dos ó vulos bovinos (avaliada por meio do
alinhamento cromossômico e organização do fuso meiótico ) quando comparado à
adição de FF de mulheres inférteis sem endometriose (DA BROI et al. , 2014). Os
antioxidantes L -carnitina (LC) e N -acetil-cisteína (NAC) preveniram esses danos
meióticos oocitários , indicando que o EO está envolvido na etiopatogênese da
infertilidade relacionada à endometriose , entretanto, a LC foi superior à NAC e
preveniu completamente esses danos (GIORGI et al., 2016).
A LC, além de sua função antioxidante, apresenta papel fundamental na
geração de energia pela célula, pois sua principal função biológica é transportar
ácidos graxos de cadeia longa do citosol para as mitocôndrias onde ocorre a β -
oxidação, um processo qu e resulta na esterificação da LC para formar derivados de
31
acil-Carnitina, produzindo energia na forma de adenosina trifosfato ( ATP) (EVANS;
FORNASINI, 2003). A ꞵ-oxidação é essencial para a retomada da meiose oocitária e
maturação nuclear em camundongos (DOWNS; MOSEY; KLINGER , 2009;
PACZKOWSKI et al. , 2013; VALSANGKAR; DOWNS , 2013) , suínos e bovinos
(PACZKOWSKI et al., 2013).
Ácidos graxos podem ser captados do FF pelas células da granulosa ou
estarem armazenados intracelularmente no oócito em gotas lipídicas na forma de
triacilglicerídeos e em fosfolipídios de membrana (DUNNING; RUSSEL; ROBKER ,
2014), sendo que a oxidação de uma molécula de ácido graxo (ácido palmítico)
gera, aproximadamente, 106 ATPs comparado aos 30 ATPs gerados pela oxidação
de uma molécula de glicose ( DUNNING; RUSSEL; ROBKER, 2014).
Apesar de resultados conflitantes (CHAVARRO et al., 2007; CHAVARRO et
al., 2007; WAKEFIELD et al., 2008; JUNGHEIM et al., 2011), estudos em animais e
humanos sugerem que uma dieta rica em ácidos graxos ômega -3 tem um impacto
positivo na fertilidade, possivelmente devido a efeitos sobre a qualidade oocitária e a
implantação embrionária (HAMMICHE et al., 2011; NEHRA et al., 2012; MORAN et
al., 2016). Estudo utilizando indução de endometriose em modelo murino, observou
que a administração de ômega-3 previne a formação de lesões cística s de
endometriose peritoneal (TOMIO et al., 2013). E estudo in vitro, sugeriu que ômega-
3 suprime a sobrevivência de células de lesão de endometriose, possivelmente por
controlar o EO e a inflamação (GAZVANI et al., 2001) . Dois importantes ácidos
graxos ômega-3 são: o ácido docosahexaenóico (DHA) e o ácido eicosapentaenóico
(EPA).
Há dois estudos avaliando a adição de ômega -3 ao meio de MIV de oócitos
bovinos (OSEIKRIA et al., 2016; NIKOLOFF et al., 2017). Oseikria e colaboradores
(2016) mostraram que, em baixas concentrações , DHA aument a a competência
oocitária avaliada pelo aumento das taxas de clivagem e de formação de
blastocistos após ativação partenogenética. Nikoloff e colaboradores (2017)
mostraram que a adição de EPA melhora a qualidade oocitária observada pelo
aumento da expansão das células do cumulus.
Não há na literatura estudos avaliando o impacto do estágio da endometriose
sobre a qualidade oocitária e a po ssível prevenção de danos oocitários com a
administração combinada de LC, DHA e EPA.
32
Dessa forma, hipotetizamos que: I-) os estágios avançados da endometriose
(III/IV) têm impacto mais negativo sobre a qualidade oocitária do que os estágios
iniciais (I/II) da doença; II-) em mulheres com endometriose em estágios avançados
(III/IV), a presença de endometrioma no ciclo prejudica a inda mais a qualidade
oocitária; e III-) LC e ácidos graxos ômega -3 previnem danos meióticos oocitários
em mulheres inférteis com endometriose;
33
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
34
2.1. Endometriose, estresse oxidativo e infertilidade
A endometriose , como já mencionado anteriormente, é definida como a
presença de tecido endometrial fora da cavidade uterina e pode ser assintomática
ou estar associada à dor (que manifesta -se como dismenorreia, dispareunia
profunda, disque sia e disúria) e à infertilidade (KENNEDY et al. , 2005) . É uma
doença conhecida como estrógeno dependente visto que, em geral, a endometriose
manifesta-se durante os anos reprodutivos da mulher (com um pico entre 25 e 35
anos) (PARAZZINI et al., 2017).
Em meados de 1800, endometriose p eritoneal, extraperitoneal, infiltração
profunda, endometrioma ovariano e adenomiose foram agrupados sob o nome
"adenomioma" (BENAGIANO; BROSENS , 201 1). Somente na década de 1920 a
adenomiose e a endometriose tornaram -se entidades separadas (BENAGIANO;
BROSENS; LIPPI , 2014) . Em 1925, Sampson criou o termo “endometriose” para
relatar a presença de ilhas de mucosa uterina na cavidade peritoneal (BENAGIANO;
BROSENS, 2006).
Há controvérsias sobre a origem dos tipos de endometriose (NISOLLE;
DONNEZ, 1997), e portanto, são inúmeras as teorias que tentam explicar a origem
da doença. A teoria da metaplasia celômica propõe que células mesoteliais
celômicas do tecido peritoneal normal ou da superfície ovar iana sofram metaplasia e
se transform em em tecido endometrial ectópico (IWANOFF, 1898) . As teorias dos
remanescentes embrionários dos ductos de Muller, propõem que células
embrionárias provenientes desses ductos embrionários, quando ativadas por algum
mecanismo desconhecido, originam células seme lhantes às do endométrio original
(VON RECKLINGHAUSEN, 1895; RUSSELL, 1899). A teoria da metástase benigna
explica a endometriose a p artir da disseminação linfática e/ou venosa de células
endometriais (HALBAN, 1924; SAMPSON, 1927). E ainda u ma outra teoria propõe
que células tronco originadas da medula óssea se diferenciam em células
endometriais (SASSON; TAYLOR, 2008).
Sampson é o autor da teoria, atualmente, mais bem aceita s obre a
etiopatogênese da endometriose, a teoria da menstruação retrógrada e implantação
(SAMPSON, 1927). Essa teoria postula que células provenientes da descamação do
endométrio, durante a menstruação , sofrem um refluxo pelas tubas uterinas até a
cavidade pélvica onde se estabilizam e sobrevivem (SAMPSON, 1927). No entanto,
35
menstruação retrógrada acomete a maior ia das mulheres com tubas pérvias, mas a
endometriose se desenvolve somente em 10 -15% delas (LOUSSE et al. , 2012) ,
enfatizando o papel de outros fatores n a patogênese da endometriose (BURNEY;
GIUDICE, 2012).
Também são várias as teorias que tentam explicar a formação do
endometrioma. Uma delas postula que células endo metriais da parede pélvica se
aderem à superfície do ovário, o córtex ovariano invagina e o fluido de cor
“chocolate” típico é formado pelo acúmulo de restos menstruais resultantes do
sangramento dos implantes de endometriose ativos (VIGANÒ et al. , 2013) . Uma
segunda teoria postula que devido aos implantes endometriais, o ovário adere ao
ligamento largo, essa aderência induz inflamação que leva a ovulação nesse local, e
então, as células endometriais invadem o corpo lúteo recém -formado constituindo
um pseudo-cisto (VERCELLINI et al., 2009). E ainda, uma outra teoria apoia a teoria
da metaplasia celômica e diz que o mesotélio do ovário se invaginaria no córtex
ovariano e que a metaplasia dessas células originariam o endometrioma (DONNEZ
et al., 1996).
O conteúdo presente no interior do endometrioma é caracterizado por um
acúmulo de ferro e seus derivados, tornando o ambiente tóxico e hostil à
foliculogênese (SANCHEZ et al., 2014). Através da reação de Fenton, o ferro livre
pode gerar EROs provocando danos a macromoléculas essenciais [ácido
desoxirribonucleico (DNA) , proteínas e lipídios ] para o funcionamento celular
(JOMOVA; VALKO, 2011) e qualidade oocitária.
Independentemente do tipo de lesão e da origem das células endometriais
ectópicas, alguns mecanismos parecem contribuir para o desenvolvimento da
doença, como: número e quantidade de fluxos menstrua is, alterações da sinalização
do estrogênio, resistência a progesterona, inflamação exacerbada e EO (BURNEY;
GIUDICE, 2012; VERCELLINI et al. , 2014; DONNEZ et al. , 2016; PATEL et al. ,
2018).
Em mulheres, com endomet riose há um aumento da ativação de macrófagos
na cavidade peritoneal (GAZVANI; TEMPLETON , 2002) , gerando um ambiente
hostil, que interfere na atividade normal de outras células peritoneais, favorecendo o
desenvolvimento de implantes de endometriose (LOUSSE et al. , 2012) e
contribuindo para a formação de adesões peritoneais e angiogênese (TANBO;
FEDORCSAK, 2017) . Os macrófagos na cavidade peritoneal de mulheres com
36
endometriose acumulam ferro, provavelmente, como resultado da presença
excessiva de sangue na pelve (VAN LANGENDONCKT ; CASANAS-ROUX;
DONNEZ, 2002) . O ferro livre (não conjugado à proteína s) estimula a geração de
EROs, promovendo o EO, que por sua vez favorece a progressão da endometriose
via dano peritoneal, exposição do tecido conjuntivo, neoangiogênese e proliferação
celular endometrial aumentada (LOUSSE et al., 2012; VERCELLINI et al., 2014).
Estudos sugerem que EO esteja relacionado com a patogênese da
infertilidade relacionada à endometriose (AGARWAL; GUPTA; SHARMA , 2005; DA
BROI; NAVARRO, 2016; SCUTIERO et al., 2017). No soro, mulheres inférteis com
endometriose apresentam diminuição da atividade da superóxido dismutase (SOD)
(PRIETO et al. , 2012) e da capacidade antioxidante total ( CAT) (DA BROI et al. ,
2016; NASIRI et al. , 2017; DA BROI et al. , 2018 b), e aumento dos níveis de
malondialdeído (MDA) (NASIRI et al., 2017) e de total de hidroperóxidos (FOX1) (DA
BROI et al., 2018b) comparado a mulheres sem a doença. E no FF, há um aumento
de peróxidos lipídicos (NASIRI et al., 2017), EROs, MDA, óxido nítrico (SINGH et al.,
2013b) e de 8 -hidroxi-2’-deoxiguanosina (8OHdG) (DA BROI et al., 2016; DA BROI
et al., 2018b), e uma diminuição da CAT, SOD, da catalase, glutationa peroxidase,
glutationa redutase e vitaminas A, C e E (PRIETO et al., 2012; SINGH et al., 2013b;
NASIRI et al., 2017) comparado a mulheres sem a doença.
Alterações do ambiente folicular pelo EO na endometriose podem prejudicar a
qualidade oocitária por causar danos diretos ao DNA (DA BROI et al. , 2016) ,
prejudicar a organização do fuso meiótico (DA BROI et al., 2014; GOUD et al., 2014)
e o funcionamento mitocondrial (XU et al. , 2015) , e ainda alterar a zona pelúcida
(GOUD et al., 2014).
37
2.2. Fluido Folicular
O FF é uma solução ligeiramente viscosa, cor de palha e de pH próximo a
7,0 encontrado no interior de folículos ovarianos a partir da fase antral inicial entre as
camadas das células da granulosa (EDWARDS, 1974). Essa solução é derivada do
plasma sanguíneo e de produtos secretados pelo o ócito, células da granulosa e da
teca (RODGERS; IRVING-RODGERS, 2010).
Através da rede de capilares tecais, o plasma sanguíneo forma um exsudato
entre as camadas de células da granulosa, por isso a semelhança na composição do
FF e plasma (RODGERS; IRVING-RODGERS, 2010). Com relação a componentes
de baixo peso molecular, o FF e plasma são extremamente semelhantes, entretanto,
eles diferem com relação a proteínas de tamanho maior que 100kDa, sendo estas
menos concentradas no FF (GOSDEN et al., 1988). Isso acontece, pois a barreira
hemato-folicular, localizada na lâmina basal do folíc ulo e nos capilares tecais,
impede a passagem de compostos maiores que 100kDa do plasma para o FF
(SHALGI et al. , 1973; ZHOU et al. , 2007) . Essa barreira também dificulta a
passagem de grandes moléculas produzidas p elo oócito e células da granulosa do
FF para o sangue, estabilizando assim um potencial gradiente osmótico (RODGERS;
IRVING-RODGERS, 2010) , que possibi lita o crescimento do folículo ovariano
humano até 23 mm podendo apresentar até 5 mL de FF (BÄCHLER et al., 2014).
A composição do FF varia de acordo com o crescimento folicular e reflete
processos fisiológicos e patológicos (EDWARDS, 1974) , sendo considerado um
instrumento para determinaç ão de biomarcadores da qualidade oocitária (REVELLI
et al., 2009; DUMESIC et al., 2015) . O FF também controla o fim da meiose
(SIRARD; RICHARD; MAYES , 1998) , e auxilia na atração (EISENBACH, 1999) ,
motilidade (MBIZVO; BURKMAN; ALEXANDER , 1990) e reação acrossômica (DE
JONGE et al., 1993) dos espermatozoides.
Alguns estudos reportam alterações em marcadores inflamatórios (XU et al.,
2006; FALCONER et al., 2009; LAMAITA et al., 2012; WANG et al., 2012; SINGH et
al., 2013a; CHOI et al. , 2015; SINGH et al. , 2016; SANTANAM, ZONERAICH;
PARTHASARATHY, 2017; WU et al. , 2017; ZHANG et al. , 2017) , hormonais
(PELLICER et al., 1998; SMITH et al., 2002; WUNDER et al., 2005; FALCONER et
al., 2009) e relacionados ao EO (PRIETO et al., 2012; LIU et al., 2013; SINGH et al.,
2013b; CHOI et al., 2015; DA BROI et al., 2016; DE LIMA et al., 2017; NASIRI et al.,
38
2017; DA BROI et al. , 2018b) no FF de mulheres com endometriose comparado
àquelas mulheres sem a doença. Outros estudos comparam a composição do FF de
mulheres com endometriose em estágios iniciais versus endometriose avançada
(PELLICER et al. , 1998; CUNHA-FILHO et al. , 2003; SANTANAM, ZONERAICH;
PARTHASARATHY, 2017; ZHANG et al., 2017). E, também há estudos avaliando o
impacto da presença de endometrioma na composição do FF de mulheres com
endometrioma unilateral (OPØIEN et al., 2013; SANCHEZ; PAPALEO, et al. , 2014;
BENAGLIA et al., 2015; NAKAGAWA et al., 2016; GIACOMINI et al., 2017).
39
2.3. Competência oocitária e fuso meiótico celular
O fuso meiótico de oócitos humanos em metáfase II (MII) é uma e strutura em
forma de barril, temporária e dinâmica, composta por microtúbulos formados por
dímeros de tubulina que se polimerizam e despolimerizam nos diversos estágios do
ciclo celular (CHOI et al. , 2007) e associada ao córtex oocitário e sua rede de
microfilamentos subcorticais (KIM et al. , 1998; WANG; KEEFE , 2002;
MANDELBAUM et al. , 2004) , sendo essencial para garantir a fidelidade da
segregação cromossômica durante a meiose (VOLARCIK et al. , 1998; VAN
BLERKOM; DAVIS, 2001; DE SANTIS et al., 2005). Desta forma, a fecundação e o
desenvolvimento embrionário dependem da integridade morfológica e funcional
desta estrutura celular.
Além disso, o fuso é extremamente sensível à ação de diversos fatores (HU et
al., 2001; EICHENLAUB-RITTER; SHEN; TINNEBERG, 2002; MULLEN et al., 2004),
entre os quais o EO, passível de promover anomalias meióticas, instabilidade
cromossômica, aumento da apoptose e comprometimento do desenvolvimento
embrionário pré -implantação (LIU et al. , 2003; NAVARRO; LIU; KEEFE, 2004;
NAVARRO et al., 2006). Estudos avaliando os potenciais mecanismos envolvidos na
gênese das alterações do fuso celular relacionadas ao EO, evi denciaram que o
mesmo pode danificar diversas proteínas intracelulares (STADTMAN, 1992;
BERLETT; STADTMAN, 1997), algumas das quais, importantes para a organização
do fuso celular (ANTONIO et al., 2000; FUNABIKI; MURRAY, 2000; ABRIEU et al.,
2001) podendo promover lesões no DNA e induzir o inadequado alinhamento
cromossômico (BECKMAN; AMES, 1998; LIMOLI et al., 1998).
As anomalias meiót icas podem, por sua vez, contribuir para a falência do
desenvolvimento celular por meio de diferentes vias, que vão desde a inabilidade do
oócito em completar a maturação, tornando -se incapaz de ser fertilizado, até a
ocorrência de erros que não impossibil item a fertilização, mas comprometam o
desenvolvimento embrionário pré e/ou pós -implantação, bem como a viabilidade
futura do concepto ( PAVLOK; LUCAS-HAHN; NIEMANN, 1992; LONERGAN et al.,
1994; ARMSTRONG, 2001; MIAO et al., 2018).
Um estudo de Mansour e colaboradores (2009) demonstrou que o fluido
peritoneal de mulheres com endometriose pode promover anomalias nos
microtúbulos e cromossomos de oócitos de camundongos, além de aumento da
40
apoptose embrionária (MANSOUR et al. , 2009) . Estas anomalias foram reduzidas
após suplementação do meio de cultivo com LC, um antioxidante, sugerindo que
substâncias presentes no fluido peritoneal de portadoras desta doença promovem
comprometimento da qualidade oocitária e embrionária, tendo o EO como provável
mediador (MANSOUR et al., 2009).
Estudos evidenciaram que o FF de pacientes com endometriose apresenta
aumento dos níveis de espécies reativas e di minuição da CAT (PRIETO et al., 2012;
SINGH et al. , 2013b) . O aumento de EROs no FF pode afetar a qualidade e o
desenvolvimento embrionário (DAS et al., 2006; YALÇINKAYA et al., 2013). Estudos
de nosso grupo mostraram que o FF de mulheres inférteis com endometriose leve
compromete expressivamente o fuso meiótico de oócitos bovinos maturados in vitro,
mesmo na menor concentração testada (1%) (DA BROI et al., 2014; GIORGI et al.,
2016); sendo o EO um fator envolvido , visto que a adição de antioxidantes
preveniram esses danos, ao menos parcialmente (GIORGI et al., 2016).
41
2.4. β-oxidação e qualidade oocitária
Qualidade oocitária pode ser definida como a competência do oócito retomar
a meiose (quebra da vesícula germinativa) atingindo o estágio de MII, acumular
ácidos ribonucleicos (RNAs), proteínas, lipídios e reorganizar as or ganelas de seu
citoplasma, ou seja, ter condições para ser fertilizado por um espermatozoide e ter
recursos suficientes para prover o desenvolvimento embrionário até a implantação.
Durante a maturação oocitária, o oócito cresce e gradualmente adquire
competência de ser fertilizado e de se desenvolver em um embrião e,
subsequentemente, um feto (DUNNING et al. , 2010) . Qualidade oocitária e
competência de desenvolvimento estão intimamente associadas com metabolismo e
taxa metabólica do complexo cumulus oócito (CCO) (BIGGERS, WHITTINGHAM,
DONAHUE, 1967; DOWNS; HUNZICKER -DUNN, 1995; SUGIURA; PENDOLA;
EPPIG, 2005; PREIS; SEIDEL; GARDNER, 2007; THOMPSON; LANE; GILCHRIST,
2007). Lipídios são potenciais recursos de ATP através da ꞵ -oxidação de ácidos
graxos nas mitocôndrias (DUNNING et al., 2010), sendo que a oxidação de um ácido
palmítico (C16H32O2) gera 106 ATP s e de uma glicose (C6H12O6) gera,
aproximadamente, 30 ATPs ( DUNNING; RUSSEL; ROBKER, et al., 2014).
No FF, os ácidos grax os podem estar livres (ligados ou não a proteínas)
ou estarem no interior de lipoproteínas. Dessa forma, os ácidos graxos presentes no
FF podem entrar no CCO de duas formas: I -) podem atravessar diretamente a
bicamada lipídica; ou II-) podem ser carreados por uma proteína transportadora que
ativa receptores específicos na membrana plasmática permitindo a entrada no
interior da célula (células da granulosa e/ou oócito) (DUNNING; RUSSEL; ROBKER,
et al., 2014).
Além das fontes extracelulares, ácidos graxos na forma de triacilglicerol
podem ser armazenados em membranas celulares e no interior das células do
cumulus e oócitos em gotas lipídicas no citosol ( DUNNING; RUSSEL; ROBKER et
al., 2014) . Essas gotas lipídicas são circundad as por uma monocamada de
fosfolipídios coberta por uma capa de proteínas da família perilipina (que regula o
tamanho das gotas e que limita a ação de lipases) permitindo a atividade lipolítica
mediante condições metabólicas e hormonais ( DUNNING; RUSSEL; ROBKER et
al., 2014).
42
A primeira etapa para ocorrer a ꞵ -oxidação é a entrada de ácidos graxos
na matriz mitocondrial (local onde se encontram as enzimas específicas para essa
via metabólica), entretanto, ácidos graxos de cadeia longa presentes no citosol não
conseguem atravessar a membrana mitocondrial (SCHULZ, 1991). Portanto, esses
compostos são ativados pela enzima acil -Coenzima A(CoA) sintetase, gerando acil -
CoA (FRITZ; MARQUIS, 1965; SCHULZ, 1991; EVANS; FORNASINI, 2003). Então,
acil-carnitina é formada a partir da transesterificação d e acil-CoA e pela enzima
carnitina palmitoil transferase I (CPT1) presente na membrana exter na da
mitocôndria (FRITZ; MARQUIS, 1965; SCHULZ, 1991; EVANS; FORNASINI, 2003).
A enzima acil-carnitina translocase age transferindo o complexo acil -carnitina para a
enzima carnitina palmitoil transferase II (CPT2) , presente na membrana interna da
mitocôndria, que então regenera a carnitina e acil -CoA (FRITZ; MARQUIS , 1965;
SCHULZ, 1991; EVANS; FORNASINI , 2003) . A acil -Coa entra na β -oxidação
gerando ATP (FRITZ; MARQUIS , 1965; SCHULZ, 1991; EVANS; FORNASINI,
2003). A Figura 1 ilustra o processo de β-oxidação mitocondrial.
Figura 1: β-oxidação mitocondrial de ácidos graxos e sua regulação
O transporte de ácidos graxos de cadeia longa (acil -CoA) para a matriz mitocondrial é catalisada
pela CPT1, que requer a presença de carnitina para formar acil -carnitina. Dentro da mitocôndria, a
CPT2 restaura a acil -CoA que entra na β -oxidação gerando acetil -CoA que, por sua vez, gera ATP
através do TCA e da cadeia transportadora de elétrons. Nota: ADP: Adenosina Difosfato, ATP:
Adenosina Trifosfato; CPT1: Carnitina Palmitoil Transferase I; CPT2: Carnitina Palmitoil Tr ansferase
II; CoA: Coenzima A; TCA: Ciclo do Ácido Tricarboxílico .. Iimagem adaptada de (DUNNING;
ROBKER, 2012).
43
Dunning e colaboradores (2010) avaliaram a ꞵ-oxidação em CCOs através
da quantificação de 3H2O no meio de cultivo in vitro gerado a partir da oxidação de
[3H]palmitato e pela expressão de mRNA Cptb1 durante a maturação oocitária e
desenvolvimento embrionár io in vivo utilizando modelo murino (DUNNING et al. ,
2010). O estudo mostrou que a expressão de Cptb1 aumenta seguindo a
administração de gonadotrofina coriônica humana ( hCG), que induz a maturação
oocitária e a ovulação, e os níveis de 3H2O também aumentam em CCOs maturados
in vitro comparados àqueles imaturos (DUNNING et al. , 2010) . A importância do
metabolismo de lipídios para a competência oocitária e o desenvolvimento
embrionário foi demonstrada pela taxa de desenvolvimento embrionário in vitro
utilizando um inibidor (etomoxir - inibe CPT1) ou um ativador (L C) da ꞵ -oxidação
(DUNNING et al., 2010). O etomoxir prejudicou o desenvolvimento de blastocistos e
a LC ativou a ꞵ-oxidação e melhorou a taxa de formação de blastocistos (DUNNING
et al., 2010).
44
2.5. L-carnitina
A carnitina é uma amina quaternária (3 -hidroxi-4-N-trimetilamino-butanoato)
cuja fórmula molecular é C 7H15NO3 e peso molecular 161,199 g/mol (Figura 2) . A
síntese de carnitina no organismo ocorre a partir de dois aminoácidos essenciais, a
lisina e a metionina, sendo indispensável a presença de ferro, ácido ascórbico,
niacina e vitamina B6 (EVANS; FORNASINI, 2003), e LC também pode ser obtida a
partir da alimentação, principalmente, através de carnes vermelhas.
Figura 2: Estrutura química da molécula de L -carnitina (nome IUPAC: 3 -Hidroxi-4-
trimetilamonio-butanoato; fórmula molecular: C7H15NO3; massa molar: 161,199 g/mol).
O oócito e as células do cumulus não expressam enzimas relacionadas a
todas as etapas da síntese de L C, entretanto, expressam tod o o maquinário
enzimático necessário para a β -oxidação (MONTJEAN et al. , 2012) . Por ser uma
molécula hidrossolúvel, a LC presente no FF ou adi cionada ao meio de MIV deve
entrar nas células do cumulus e oócitos através dos transportadores catiônicos
orgânicos (OCTN – em inglês Organic Cation Transporters ), localizados na
superfície da membrana plasmática (TAMAI et al., 1998).
Como antioxidante, a L C diminui os níveis de produtos da peroxidação
lipídica e peróxido de hidrogênio (H 2O2) (YAZAKI et al., 2013). A suplementação oral
com LC diminui os níveis de MDA, aumenta a atividade sérica das enzimas catalase,
SOD e glutationa peroxidase em pacientes com doença arterial coronariana (LEE et
al., 2014).
45
Devido a sua função no metabolismo energético e sua propriedade
antioxidante, a LC também tem sido utilizada durante a MIV oocitária. Em modelo
experimental suíno, LC aumentou a taxa de formação de blastocistos após ativação
partenogenética (AP), diminuiu apoptose em blastocistos, diminuiu níveis de EROs
nos oócitos e aumentou os níveis de glutationa reduzida (GSH) oocitário (WU et al.,
2011). Em outro estudo, também utilizando modelo suíno, a LC aumentou a taxa de
maturação nuclear oocitária, aumentou a taxa de clivagem, assim como aumentou a
densidade mitocondrial oocitária e diminuiu os níveis de EROs (SOMFAI et al. ,
2011). Em modelo bovino, a LC aumentou a taxa de maturação nuclear oocitária e
aumentou a taxa de formação de blastocist os (CHANKITISAKUL et al. , 2013;
PHONGNIMITR et al. , 2013) . E em modelo murino, a LC aumentou a taxa de
maturação nuclear oocitária e melhorou a atividade e distribuição mitocondrial de
oócitos (MOAWAD et al., 2014).
Mansour e colaboradores (2009) avali aram o efeito de L C em prevenir
danos ao fuso celular de oócitos murinos em contato com fluido peritoneal de
mulheres com endometriose. Este estudo mostrou que a L C foi capaz de prevenir os
danos meióticos oocitários, além de diminuir apoptose embrionária (MANSOUR et
al., 2009).
46
2.6. Ácidos graxos ômega-3
Ácidos graxos são compostos orgânicos do tipo ácido carboxílico que podem
ser classificados de acordo com sua estrutura molecular em saturados ,
monoinsaturados e poli-insaturados (PUFAs) e de acordo com a possibilidade de ser
ou não sintet izado no organismo em , respectivamente, não-essencial e essencial
(TVRZICKA et al. , 2011) . Ácidos graxos são geralmente apresentados como uma
fórmula esquemática (C:p n -x) que indica o número de carbonos (C), o número de
insaturações (p) e a posição da primeira insaturação a partir do grupo metila terminal
(x). Como exemplo, neste trabalho, utilizamos o ácido eicosapentaenóico (EPA, 20:5
n-3) e o ácido docosahexaenóico (DHA, 22:6 n-3).
Os PUFAs são categorizados em: ômegas-3, ômegas-6 e ômegas-9. PUFAs
são essenciais para garantir uma adequada fluidez de membranas celulares
(TVRZICKA et al. , 2011) . A s duplas ligações entre carbonos, em condições
fisiológicas, preferencialmente, apresentam -se na configuração cis, ou seja, os dois
hidrogênios da ligação covalente posicionam -se do mesmo lado, causando uma
deflexão de 30º na molécula, o que a faz ocupar um maior espaço, diminuindo as
forças de van der Waals e influenciando a fluidez e funcionamento das membranas
biológicas (TVRZICKA et al., 2011).
Intracelularmente, os ácidos graxos armazenados em fosfolipídios de
membrana podem ser liberados com a ativação da enzima fosfolipase A2 mediada
por proteínas quinase C dependentes de Ca2+. O PUFA liberado do fosfolipídio pode
ser metabolizado a eicosanóides ou docosanóides ou pode mediar reações , como
por exemplo, estimular a expressão do maquinário oxidativo mitocondrial e promover
a β-oxidação (FLACHS et al., 2005).
EPA [nome IUPAC: Ácido (5Z,8Z,11Z,14Z,17Z) -eicosa- 5,8,11,14,17-
pentenóico; fórmula molecular:C 20H30O2; massa molar: 302,451 g/mol] e o DHA
[nome IUPAC: Ácido (4Z ,7Z,10Z,13Z,16Z,19Z)-docosa-4,7,10,13,16,19-hexaenoico;
fórmula molecular: C 22H32O2; massa molar: 328,488 g/mol] são representantes dos
PUFAs ômega-3 (Figura 3). Nos mamíferos, a partir da ação de enzimas elongases
e dessaturases é possível sintetizar EPA e DHA a partir de seu precursor ácido α-
linolênico (ALA, 18:3 n -3) encontrado, principalmente, em sementes e folhas de
algumas plantas (soja, linhaça, etc) e em seus óleos (TVRZICKA et al. , 2011) .
Entretanto, a s enzimas necessária para a síntese de PUFAs ômega -3 são as
47
mesmas necessárias para a síntese de PUFAs ômega-6, sendo um processo
bastante limitado, a conversão de ALA a EPA e DHA (WATHES; ABAYASEKARA;
AITKEN, 2007).
Figura 3: Estrutura química das moléculas de ácido s graxos ômega -3: A -) Ácido
eicosapentaenoico (EPA) e B-) Ácido docosahexaenóico (DHA)
Os PUFAs ômega-6 são sintetizados a partir do ácido linoleico (AL, 18:2 n-6).
AL é con vertido em ácido γ -linolênico (GLA, 18:3, n -6) pela ação da enzima Δ -6-
dessaturase e GLA é elongado para formar ácido di -homo-γ-linolênico (DGLA, 20:3,
n-6). DGLA pode também ser convertido a ácido araquidônico ( AA, 20:4, n-6) pela
ação da enzima Δ -5-dessaturase (Figura 4) . AA é o precursor da série 2 de
prostaglandinas ( PGs) e a série 4 de leucotrienos (LTs) , que apresentam alto
potencial inflamatório (Figura 5).
E a síntese de ômega -3 segue a seguinte via: ALA é convertido em ácido
estearidônico (SDA, 1 8:4 n -3) pela enzima Δ -6-dessaturase, que sofre a ação de
elongase convertendo-se em ácido eiscosatetraenóico (ETA, 20:4 n -3) que é, então,
convertido a EPA pela enzima Δ -5-dessaturase (Figura 4). EPA é precursor da série
3 de PGs , série 5 de LTs e série 5 de resolvinas, que apresentam baixo potencial
inflamatório e ação anti-inflamatória (Figura 5).
A via de conversão de EPA a DHA (22:6 n ‐3) envolve a adição de dois
carbonos ao EPA para formar ácido docosapentaenóico (DPA, 22:5 n ‐3), adição de
mais dois carbonos para produzir ácido tetracosapentaenóico (TPA, 24:5 n ‐3) que é
48
então convertido a ácido tetracosahexaenóico (THA, 24:6 n ‐3) pela Δ -6-
dessaturase, o THA é transportado para os peroxissomos onde dois carbonos são
removidos na β ‐oxidação para formar D HA (Figura 4) . DHA é precursor de
docosanóides anti-inflamatórios tais como resolvinas e protectinas (Figura 5).
Figura 4: Vias metabólicas de síntese de ácidos graxos ômega-3 e ômega-6
Figura 5: Síntes e e ações de mediadores lipídicos produzidos a partir dos ácidos
araquidônico (AA), eicosapentaenoico (EPA) e docosahexaenóico (DHA).
Nota: COX: ciclooxigenase; LOX: lipoxigenase; LT: leucotrieno; PG: prostaglandina.
49
Estudos utilizando modelos exper imentais de indução cirúrgica de
endometriose, mostraram efeitos benéficos da suplementação da dieta com ácidos
graxos ômega -3 sobre a redução do tamanho de lesões de endometriose e
diminuição da produção local de mediadores inflamatórios em ratos (NETSU et al.,
2008; AKYOL et al. , 2016) e em coelho (ATTAMAN et al. , 2014) . Estudo in vitro
reportou que ácidos graxos ômega-3 suprimem o crescimento e a sobrevivência in
vitro de células endometriais de mulheres com e sem endometriose (GAZVANI et al.,
2001). Hopeman e colaboradores (2015) avaliaram a relação entre níveis circulantes
de PUFAs em mulheres com e sem endometriose e reportaram que mulheres com
altos níveis séricos de EPA tinham um risco 82% menor em ter endometriose
comparado a mulheres com níveis baixos de EPA (HOPEMAN et al., 2015).
Oseikria e colaboradores (2016) avaliaram a adição de diversas
concentrações de DHA durante a MIV de oócitos bovinos sobre qualidade e
competência oocitária. Os autores observaram que nas concentrações testadas (0,
1, 10 e 100 uM), DHA não teve efeito sobre a viabilidade oocitária e taxa de
maturação (OSEIKRIA et al., 2016). A concentração de 1uM de DHA durante a MIV
promoveu uma maior taxa de clivagem e de formação de blastocisto após AP
comparada com o grupo controle (OSEIKRIA et al., 2016). A concentração de 10 uM
não teve efeito sobre ess as taxas, e a concentração de 100 uM diminuiu
significativamente a clivagem (OSEIKRIA et al., 2016).
E Nikoloff e colaboradores (2017) avaliaram a adição de diversas
concentrações de EPA durante a MIV de oócitos bovinos sobre a taxa de maturação,
genotoxicidade e citotoxicidade. A taxa de maturação não foi alterada pela adição de
1 nM e de 1 uM de DHA, entretanto, 1 mM significativamente diminuiu a taxa de
maturação comparado ao grupo controle (NIKOLOFF et al. , 2017) . 1 nM de DHA
aumentou a expansão das células do cumulus após MIV co mparado ao controle
(NIKOLOFF et al., 2017). Entretanto, 1 nM de DHA aumentou a frequência de danos
ao DNA em células do cumulus (eletroforese em gel de célula única) comparado ao
controle, 1 uM aumentou a taxa de apoptose em células do cumulus (Anexina V)
comparado ao grupo controle e 1 mM diminuiu a viabilidade celular ( Tripan blue ),
aumentou apoptose e diminuiu atividade mitocondrial (teste do MTT) de células do
cumulus comparado ao controle (NIKOLOFF et al., 2017).
50
3. OBJETIVOS
51
3.1. Objetivo geral:
Avaliar o impacto da adição de FF de mulheres inférteis com e sem
endometriose e a suplementação com L C e ácidos graxos ômega-3 ao meio de MIV
sobre a maturação nuclear e as taxas de normalidade meiótica de oócitos bovinos.
3.2. Objetivos específicos:
1. Comparar o impacto do FF de mulheres inférteis com endometriose em
estágios iniciais (EI/II) e avançados [sem endometrioma (EIII/IV) e com
endometrioma (Eendometrioma)] ao do FF de mulher es sem endometriose
(FFControle) adicionados ao meio de maturação in vitro (MIV) sobre a maturação
nuclear e as taxas de normalidade meiótica de oócitos bovinos avaliados por
microscopia confocal.
2. Avaliar se a LC e os ácidos graxos ômega -3 (DHA e EPA) são capazes de
prevenir os danos meióticos em oócitos bovinos induzidos por FF de mulheres
inférteis com endometriose em estágios iniciais (I/II) e avançados (III/IV) durante
a maturação in vitro (MIV).
52
4. MATERIAIS E MÉTODOS
53
Realizamos um estudo experimental previamente aprovado pelo Comitê de
Ética em Pesquisa do Hospital das Clí nicas (HC) da Faculdade de Medicina de
Ribeirão Preto (FMRP), Universidade de São Paulo (USP) (Processo HCRP nº
12201/2008) e pela Comissão de Ética em Experimentação Animal da FMRP - USP
(nº 169/2008). Optamos pelo uso de modelo experimental bovino, em vi rtude da
similaridade no tamanho e morfologia ovarianos de humano e bovino, por ambas as
espécies serem monovulatórias e policíclicas e por ser um material abundante, de
baixo custo, de fácil manipulação (MALHI; ADAM S; SINGH , 2005; SANTOS;
SCHOEVERS; ROELEN, 2014).
4.1. Seleção de pacientes doadoras de fluido folicular
Como doadoras de FF, foram elegíveis todas as pacientes submetidas à
estimulação ovariana controlada (EOC) para a realização de injeção
intracitoplasmática de espermatozoide (ICSI) junto ao Setor de Reprodução Humana
do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da FMRP -USP, no período de Março
a Outubro de 2013 e Maio/2016 a Setembro/2017. Todas as pacientes elegíveis que
não apresentaram cancelamento ini cial do ciclo de EOC e que completaram os
critérios de inclusão (abaixo) foram convidadas a participar da pesquisa.
4.1.1. Critérios de inclusão
• Idade < 40 anos;
• Índice de massa corpórea (IMC) < 30 kg/m²;
• Concentração sérica do hormônio folículo estimulante (FSH) no terceiro dia do
ciclo menstrual < 15 mUI/mL;
• Ausência de anovulação crônica;
• Ausência de hidrossalpinge;
• Ausência de doenças crônicas (tais como diabetes melitus, hipertensão
arterial), doença cardiovascular, dislipidemia, lúpus eritematoso sistêmico ou
qualquer outra doença reumatológica;
• Ausência de endocrinopatias descompensadas e não tratadas;
• Ausência de infecção por vírus da imunodeficiência humana ( HIV) ou
qualquer infecção ativa;
54
• Não ser tabagista e etilista;
• Não ter usado medicações hormonais ou anti-inflamatórios hormonais ou não
hormonais durante os 6 meses subsequentes à inclusão neste estudo.
• Exame de videolaparoscopia prévio.
O grupo controle foi composto por mulheres inférteis devido a fatores tubários
e/ou cujo cônjuge apresentava infertilidade (fator masculino), sendo que todas as
pacientes foram submetidas pr eviamente ao exame de videolaparoscopia para
inspeção da cavidade pélvica/abdominal e exclusão de endometriose.
O grupo endometriose foi subdividido em endometriose em estági os iniciais
(mínima ou leve, EI/II), endometriose avançada (moderada ou grave , III/IV ) sem a
presença de endometrioma no ciclo (EIII/IV) e endometriose avançada com
endometrioma no ciclo (Eendometrioma). O exame de videolaparoscopia prévio foi
realizado pa ra diagnóstico e classificação da endometriose de acordo com os
critérios da ASRM (ASRM, 1997) . As mulheres do grupo Eendometrioma
apresentaram endometrioma no ciclo de EOC visualizado por ultrassonografia
transvaginal.
O recrutamento de pacientes foi realizado em duas etapas: primeiramente, os
prontuários foram analisados para avaliação de elegibilidade, verificação de exames
e condição clínica da paciente, posteriormente, as pacientes foram brevemente
entrevistadas para exclusão de qualquer dúvida com relação ao seu estado de
saúde e estilo de vida.
4.2. Captação oocit ária, coleta e processamento de amostras de fluido
folicular
Amostras de FF foram obtidas durante a captação oocitária para realização
de ICSI. Para evitar possível interferência de sucessivas punções ovarianas , FF foi
obtido apenas do primeiro folículo ( diâmetro ≥ 15 mm) do primeiro ovário
puncionado.
Essas amostras foram imediatamente levadas ao laboratório de embriologia,
onde as embriologistas checaram a presença de oócito e/ou células da granulosa.
Os oócitos foram separados do FF para utilização dur ante a s TRA e o FF foi
centrifugado a 300 g por 10 minutos, aliquotado e armazenado a -80ºC.
55
As amostras que não continham oócito e/ou células da granulosa foram
excluídas, visto que, nesses casos, não seria possível afirmar que o folículo ovariano
puncionado apresentava um oócito em processo de maturação.
FF de uma paciente de cada grupo (grupo controle, grupo endometriose em
estágios iniciais, grupo endometriose em estágios avançados sem endometrioma e
grupo endometriose em estágios avançados com endome trioma) fo i utilizado
individualmente em apenas em um experimento.
4.3. Estimulação ovariana controlada
No Setor de Reprodução Humana do HC -FMRP, todas as pacientes
realizaram um exame de ultrassonografia transvaginal prévio ao início da EOC (pré -
basal), quan do a nticoncepcional oral combinado (ACO) (Miranova®, Bayer ou
Level®, Biolab) foi prescrito com o objetivo de sincronizar e programar o início da
EOC.
Portanto, ACO foi iniciado no período menstrual do ciclo precedente à EOC e
utilizado diariamente até ci nco dias antes da data prevista para o início da EOC .e
realização do ultrassom transvaginal basal.
De acordo com as caracterí sticas de cada paciente, dois protocolos de EOC
distintos foram aplicados como descrito a seguir:
- Protocolo antagonista flexível: gonadotrofinas (150-300 UI/dia) foram administradas
nos primeiros seis dias de EOC, com a dose diária ajustada de acordo com o
crescimento folicular. Antagonistas do hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH -
ganirelix ou cetrorelix 0,25 mg/dia) foram i niciados no dia em que a média do
diâmetro do maior folículo foi ≥ 14 mm.
- Protocolo de estimulação mínima (citrato de clomifeno mais gonadotrofinas e
antagonista de GnRH): citrato de clomifeno (100 mg/dia) foi administrado durante os
primeiros cinco dias de EOC e as gonadotrofinas (150 UI/dia) foram administradas
nos dias dois e quatro, e diariamente a partir do dia seis. O antagonista de GnRH
(ganirelix ou cetrorelix 0,25 mg/dia) foi iniciado no dia em que o diâmetro médio do
maior folículo foi ≥ 14 mm.
O hCG recombinante (250 μg, Ovidrel®, Serono, Brasil) ou hCG urinário
(10,000 IU, Choriomon®, Meizler, Brasil) foi administrado quando pelo menos um
56
folículo com 18 mm de diâmetro médio estava presente. Os oócitos foram captados
34 a 36 horas após a administração do hCG recombinante, e a fase lútea foi mantida
pela administração da progesterona micronizada (600 mg/dia).
4.4. Coleta de ovários bovinos, recuperação e classificação dos complexos
cumulus-oócito
Os ovários bovinos foram coletados no frigorífico Bar ra Mansa S.A, localizado
no muncípio de Sertãozinho – SP (há 20 Km de Ribeirão Preto) e transportados em
recipiente térmico contendo solução salina (NaCl a 0,9%) a 35-38,5ºC.
No laboratório, os ovários foram borrifados com álcool 70% e lavados e
mantidos em solução salina contendo sulfato de estreptomicina (5 µg/mL) em banho-
maria a 38,5º. Utilizando uma seringa de 10 mL e agulha de 22G, os folículos
ovarianos com tamanho entre 2 - 8 mm foram aspirados, e o conteúdo depositado
em cálice cônico estéril manti do a 38,5ºC. Após o término da aspiração folicular, o
conteúdo aspirado permaneceu 10 minutos em repouso para deposição dos CCOs.
Então, o cálice contendo os CCOs foram levados à cabine de fluxo laminar
para serem observados em lupa e classificados de acor do com suas características
morfológicas. Apenas os CCOs com citoplasma homogêneo, circundado por três ou
mais camadas compactas de células do cumulus, mesmo que parcialmente, foram
selecionados (ADONA; LIMA VERDE LEAL, 2004; FERREIRA et al., 2009a).
4.5. Maturação in vitro
Os CCOs selecionados foram lavados e manipulados em meio TCM 199 com
25 mM de HEPES [ ácido N -(2-hidroxietilo)-piperazina-N'-2-etanesulfónico], L -
glutamina e sais de Hank (Life Technologies GIBCO® 12350-039) suplementado com
20 µg/mL de piruvato de sódio, 10 µg/mL de gentamicina e 5% de soro bovino fetal
inativado (SBF - GIBCO 10270-098) (meio de bancada).
Então, após a seleção morfológica, CCOs foram lavados em meio TCM 199
com 25 mM de HEPES, 2,2 g/L de bicarbonato de sódio, L-glutamina e sais de Earle
(Life Technologies GIBCO® 12340-030) suplementado com 50 µg/mL de piruvato de
sódio, 50 µg/mL de gentamicina, 1 µg/mL de estradiol, 20 µg/mL de FSH, 10% de
57
soro bovino fetal (SBF) e 2,5 UI/mL de hCG (C horulon®) (meio de MIV) e foram
separados aleatoriamente em 9 grupos experimentais (conforme abaixo):
1-) sem-FF: sem adição de FF ou LC ou ácidos graxos ômega 3;
2-) FFControle: com 1% de FF de paciente controle;
3-) FFControle+LC+n3: com 1% de FF de paci ente controle + 0,6mg/mL de LC + 0,4
nM de DHA + 0,6 nM de EPA;
4-) FFEI/II: com 1% de FF de pacientes EI/II;
5-) FFEI/II+LC+n3: com 1% de FF de paciente EI/II + 0,6mg/mL de LC + 0,4 nM de
DHA + 0,6 nM de EPA;
6-) FFEIII/IV: com 1% de FF de pacientes com EIII/IV sem endometrioma;
7-) FFEIII/IV+ LC+n3: com 1% de FF de paciente EIII/IV sem endometrioma +
0,6mg/mL de LC + 0,4 nM de DHA + 0,6 nM de EPA;
8-) FFEndometrioma: com 1% de FF de paciente EIII/IV com endometrioma;
9-) FFEndometrioma+LC+n3: com 1% de FF de paciente EIII/IV com endometrioma
+ 0,6mg/mL de LC + 0,4 nM de DHA + 0,6 nM de EPA;
Após 22 -24 horas de MIV, as células do cumulus foram separadas dos
oócitos através de turbilhamento (pipetagem repetitiva) em meio de bancada em
placas de vidro escavad as. Os oócitos desnudos foram fixados e mantidos por 30
minutos a 38,5ºC em um tampão para estabilização de microtúbulos contendo 0,1 M
de Pipes, 5 nM de MgCl2.6H2O, 2,5 nM de EGTA, 0,01% aprotinina, 1 nM DTT, 1 μM
de Taxol, 0,5% Triton -X e 2% de formaldeí do a 37%. O pool de oócito s de cada
grupo foi armazenado em tubos de fundo cônico de 600 μL contendo 100 μL de
solução fixadora em geladeira até a realização dos experimentos de
imunofluorescência.
Visto que, durante a MIV oocitária, de acordo com cada gru po de tratamento,
foi realizada a adição de FF, de LC e de ácidos graxos ômega -3 (DHA e EPA),
optamos por concentrar o meio supracitado (meio de MIV) em 4%. O meio
58
concentrado 4% foi diluído até uma concentração normal naqueles grupos com
adição de FF, LC e ácidos graxos ( FFControle+LC+n3, FFEI/II +LC+n3,
FFEIII/IV+LC+n3 e FFEndometrioma+LC+n3), já nos demais grupos, a concentração
foi normalizada adicionando-se meio TCM 199 (Life Technologies GIBCO® 12340 -
030) puro filtrado; e assim conseguimos um ajuste da s substâncias adicionadas
indispensável ao processo de MIV. Os CCOs foram cultivados em gotas de 400 µL
(aproximadamente, 20 oócitos por gota), a 38,5ºC, 95% de umidade, 5% de CO 2
durante 22-24h, em placas NUNC® em um sistema de cultivo sem óleo mineral.
Durante as MIVs , optamos por utilizar uma concentração de 1% de FF visto
que estudo prévio do grupo (DA BROI et al. , 2014) testou a adição de quatro
diferentes concentrações de FF de mulheres inférteis com endometriose leve ( 1%,
5%, 10% e 15%) ao meio MIV e não reportou efeito dose -dependente. Assim, no
presente estudo, optamos por utilizar a menor concentração de FF testada (1%).
4.6. Preparo das soluções de L-carnitina e dos ácidos graxos ômega-3
4.6.1. L-carnitina:
A concentração de LC ( Sigma Aldrich C0283) utilizada para suplementar os
experimentos de MIV conforme será descrito a seguir foi de 0,6 mg/mL (MANSOUR
et al., 2009; GIORGI et al., 2016).
A solução estoque foi preparada em uma concentração 100 vezes maior que
a solução trabalho (solução estoque: 60 mg/mL de LC) com água de injeção, filtrada
em filtro de poros de 0,22 μm, aliquotada e armazenada a -20ºC.
4.6.2. Ácidos graxos ômega 3
A concentração final de ácidos graxos ômega 3 utilizada para suplemen tar os
experimentos de MIV conforme descritos a seguir foi de 1 nM (NIKOLOFF et al. ,
2017). Sendo que 0,4 nM foi DHA ( Sigma Aldrich D2534) e 0,6 nM EPA ( Sigma
Aldrich E2011). A proporção de 2:3 DHA /EPA foi escolhida baseando-se na
composição de suplementos comerciais a base de óleo de peixe (Omega-3 das
59
marcas Essential®; Sidney Oliveira ®; Equaliv®; Country Life®; Solgar®;
Catarienense®) e em suplementos utilizados em ensaios clínicos randomizados [180
mg de EPA e 120 mg de DHA para mulheres com síndrome dos ovários policísticos
que desejavam realizar TRA (NADJARZADEH et al., 2015), 1200mg de EPA e 800
mg de DHA para mulheres obesas grávidas (HAGHIAC et al., 2015), 180 mg de EPA
e 120 mg de DHA para jovens mulheres com dismenorreia (RAHBAR;
ASGHARZADEH; GHORBANI, 2012)].
As soluções estoques dos ácidos graxos fo ram preparadas em uma
concentração 100 vezes maior que a s concentrações finais (soluções estoque: 40
nM de DHA e 60 nM de EPA) com dimetilsulfóxido ( DMSO), filtrad as em filtro de
poros de 0,22 μm e armazenadas a -20ºC.
4.7. Imunofluorescência para visualização de microtúbulos e cromossomos
Os oócitos fixados foram retirados do fundo do tubo contendo solução
fixadora e foram lavados 2 vezes em meio de lavagem tampão Salina Fosfato (PBS -
Phosphate Buffer Saline) suplementado com 0,02% NaN3, 0,01% Triton X-100, 0,2%
leite seco sem gordura, 2% soro de cabra, 2% de albumina sérica bovina e 0,1 M de
glicina e mantidos nessa solução de lavagem em estufa a 38ºC para bloqueio. Após
2 horas, os oócitos foram incubados com anticorpo primário anti-β-tubulina (Sigma
T5293) overnigth a 4-8ºC.
Então, os oócitos foram novamente lavados em solução de lavagem e
incubados com anticorpo policlonal anti -IgG de camundongo conjugado com
isotiocianato de fluoresceína (FITC) (1:500, MP BIO 0855514) a 38,5º C por 2h. Os
oócitos foram submetidos a mais uma lavagem e, então, foram marcados com
Hoechst 33342 (10 mg/mL) em meio de montagem Vectashield (H-1000, Vector,
Burlingame, CA, EUA) sobre uma lâmina de vidro coberta por uma lamínula. As
amostras foram visualizadas utilizando um microscópio confocal de alta performance
(Confocal Leica TCS SP5, Leica Microsystems, Mannheim, Alemanha) em aumento
óptico de 40X e os lasers Diodo 405 UV e HeNe 543.
4.8. Classificação oocitária baseada na morfologia do fuso meiótico e no
alinhamento cromossômico por microscopia confocal
60
Os oócitos foram classificados de acordo com o estágio de maturação
nuclear: em metáfase I (MI – presença de uma placa metafásica no interior do
oócito), telófase I (TI – presença de dois conjuntos crom ossômicos interligados por
fuso meiótico); ou metáfase II [MII - presença de uma placa metafásica no interior do
oócito e de um corpúsculo polar (CP) entre o oócito e sua zona pelúcida]; ou como
AP (caracterizado pela extrusão espontânea de um segundo CP s em ter ocorrido
fertilização; ou caracterizada por telófase II) (Figura 6).
Os oócitos em MII foram subdivididos como analisáveis e não analisáveis de
acordo com a posição de visualização da placa metafásica. Os oócitos foram
considerados analisáveis quand o o fuso meiótico podia ser visualizado em uma
posição lateral ou sagital (microfilamentos observados em uma posição longitudinal,
sendo possível a visualização dos dois polos do fuso meiótico) e os cromossomos
dispostos em linha na região mediana do fuso e, considerados não analisáveis
quando o fuso foi observado em uma posição polar (JU et al., 2005), que impede
uma visão detalhada do fuso.
Oócitos em MII analisáveis foram classificados como “normais” quando
apresentaram fuso meiótico em forma de barril com microtúbulos organizados de um
polo a outro, cromossomos alinhados na placa metafá sica no equador do fuso e
presença de um CP; ou considerados como “anormais” quando apresentaram fuso
meiótico alterado (dimensão longitudinal reduzida, microtúbulos desorganizados ou
ausentes) e/ou configuração cromossômica alterada (dispersos ou deslocad os do
plano da placa metafásica).
61
Figura 6: Estágios de maturação nuclear de oócitos bovinos maturados in vitro e analisados
por microscopia confocal. A -) Metáfase I; B) Telófase I; C -) Metáfase II; D-) Ativação
Partenogenética(TelófaseII)
Nota: Em verde , marcação para fuso meiótico com anticorpo monoclonal anti -β-tubulina e anticorpo
secundário conjugado com FITC. Em azul, marcação para material genético com Hoechst 33342. CP:
corpúsculo polar. Barra branca no canto direito inferior: escala de 10 µm.
62
Figura 7: Posição de visualização do fuso meiótico de oócitos bovinos em metáfase II
maturados in vitro e visualizados por microscopia confocal. A -) Polar (fuso não analisável),
B-)Sagital(analisável)
Nota: Em verde, marcação para fuso meiótico com anticorpo monoclonal anti -β-tubulina e anticorpo
secundário conjugado com FITC. Em azul, marcação para material genético com Hoechst 33342.
Barra branca no canto direito inferior: escala de 10 µm.
63
Figura 8: Classificação de oócitos bovinos maturados in vitro, em metáfase II analisáveis, de
acordo com a organização do fuso meiótico e alinhamento cromossômico analisados por
microscopia confocal. A -), B -) e C -) representam anormais e D -) normal .
Nota: A-) Fuso normal, cromossomos desalinhados; B -) Fuso inc ompleto e cromossomos alinhados;
C-) Fuso anormal e cromossomos desalinhados e D -) Fuso normal e cromossomos alinhados (MII
normal). Em verde, marcação para fuso meiótico com anticorpo monoclonal anti -β-tubulina e
anticorpo secundário conjugado com FITC. Em azul, marcação para material genético com Hoechst
33342. Barra branca no canto direito inferior: escala de 10 µm. Seta branca indica cromossomos
desalinhados
4.9. Obtenção da variável primária
A porcentagem de MII normais foi obtida dividindo o número de MII normais
pelo número de MII analisáveis.
64
4.10. Obtenção das variáveis secundárias
• Taxa de MI: número de MI dividido pelo número de oócitos visualizados por
confocal
• Taxa de TI: número de TI dividido pel o número de oócitos visualizados por
confocal
• Taxa de AP: número de AP dividido pelo número de oócitos visualizados por
confocal
• Taxa de MII: número de MII dividido pelo número de oócitos visualizados por
confocal
• Taxa de MII analisáveis: número de oócitos MII visualizados em posição
sagital/lateral divididos pelo número total de oócitos MII
4.11. Obtenção das variáveis clínicas secundárias
• Idade: foi obtida a partir da data de nascimento e data da captação oocitária
(anos);
• IMC: divisão do peso em kg pela altura ao quadrado em m (kg/m²);
• FSH: níveis séricos de FSH no 3º dia do ci clo menstrual dosados por
quimioluminescência (UI/L);
• Tempo de infertilidade: intervalo de tempo que o casal mantém relações sexuais
sem uso de contraceptivos (meses);
• Tempo entre videolaparoscopia e captação oocitária: intervalo de tempo entre a
realização do exame de videolaparoscopia e a captação oocitária (meses);
• Contagem de folículos antrais (CFA basal): número total de folículos ovarianos
antrais avaliado por meio de ultrassonografia transvaginal no dia de início da EOC
(n);
• Espessura endometrial: medida da espessura do endométrio avaliada por meio
de ultrassonografia transvaginal no dia de início da EOC (mm)
• Duração da EOC: tempo decorrido do início da EOC até a administração do hCG
recombinante (dias);
• Oócitos captados: número de CCOs obtidos pela punção ovariana após 34 -36 h
da administração do hCG (n);
65
• Oócitos maduros: número de oócitos MII obtidos pela punção ovariana após 34 -
36 h da administração do hCG (n);
4.12. Desenho experimental
Abaixo a Figura 9 ilustra o desenho experimental realizado neste estudo.
Figura 9: Desenho experimental
4.13. Análise estatística
Os dados foram analisados usando o software RStudio versão 1.0.153, 2009 -
2017 [R Core Team (2017). R: A language and environment for statistical computing.
R Foundation for Statistical Computing, Vienna, Austria. URL https://www.R-
project.org/]. Os resultados foram apresentados em tabelas (Tabelas 1 e 2).
A Tabela 1 mostra os dados clínicos referentes às pacientes doadoras de FF.
Os dados foram apresentados como mediana e intervalos interquartis . As variáveis
não paramétrica s: Idade (anos), IMC (kg/m 2), FSH sérico no 3º dia do ciclo
menstrual (UI/mL), temp o de infertilidade (anos), tempo entre realização da
videolaparoscopia e captação oocitária (em meses), CFA basal (nº de folículos),
66
espessura do endométrio no dia de início da EOC (mm), duração da EOC (dias), nº
de oócitos captados e nº de oócitos MII captados foram comparados entre os grupos
Controle, EI/II, EIII/IV e Eendometrioma utilizando o teste de Kruskall Wallis com pós
teste de Dunn.
A Tabela 2 mostra os dados coletados a partir da realização das MIVs e
imunofluorescências dos oócitos bovinos. As variáveis categóricas (porcentagem de
MI, porcentagem de TI, porcentagem de AP, porcentagem de MII, porcentagem de
MII analisáveis, porcentagem de MII normais) foram comparadas entre os grupos
utilizando o teste do qui-quadrado.
Para todos os testes foi adotado um nível de significância em p< 0,05.
4.14. Cálculo amostral
Com base em estudos prévios de nosso grupo (DA BROI et al., 2014; GIORGI
et al., 2016) que demonstraram uma diferença na porcentagem de MII normais de
~30% entre os grupos sem -FF e FFEI/II, e considerando um poder de teste de 80%
(β=0,2 e α=0,05), um total de 87 oócitos em MII analisáveis por grupo seriam
necessários.
67
5. RESULTADOS
68
Oito experimentos foram realizados, e FF de uma paciente de cada grupo
(grupo controle, grupo endometriose em estágios iniciais, grupo endometriose em
estágios avançados sem endometrioma e grupo endometriose em estágios
avançados com endometrioma) fo i utilizado individualmente em cada um dos
experimentos.
5.1. Recrutamento de pacientes doadoras de FF
Entre março de 2013 e outubro de 2013, e entre maio de 2016 a setembro de
2017, um total de 1171 prontuários foram avaliados para elegibilidade no Setor de
Reprodução Assistida do HC-FMRP. Destes prontuários, 630 foram considerados
não elegíveis pois o casal realiz ou outro tratamento que não ICSI (inseminação
intrauterina, transferência de embrião congelado).
Dos 541 casos submetidos à ICSI , 115 apresenta ram os critérios de
elegibilidade, entretanto, 27 tiveram o ciclo de EOC cancelado devido à presença de
folículo dominante. Portanto, 88 mulheres foram convidadas a participar da pesquisa
e 83 delas concordaram e assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.
Destas 83 pacientes, 12 tiv eram o ciclo de EOC cancelado devido à má resposta à
EOC. Portanto, 71 mulheres foram submetidas ao procedimento de captação
oocitária (17 Controle, 16 EI/II, 20 EIII/IV e 18 Eendometrioma).
Das 71 mulheres submetidas à captação oocitária, 32 apresentaram amostra
inadequada devido à contaminaçã o por sangue à inspeção visual ou por não
apresentarem nenhum oócito em MII captado. Um total de 39 amostras (12 Controle,
8 EI/II, 11 EIII/IV e 8 Eendometrioma) foram processadas e armazenadas a -196ºC
até futura utilização (características das amostras d e FF utilizadas estão registradas
no APÊNDICE A).
69
Figura 10: Fluxograma ilustrando recrutamento, inclusão e seguimento de mulheres inférteis
doadoras de fluido folicular
5.2. Dados clínicos doadoras de FF
A Tabela 1 mostra os dados clínicos das 32 pacientes com amostras de FF
utilizadas nos 8 experimentos de MIV. Não houve diferença na idade, IMC, níveis
séricos de FSH , tempo entre videolaparoscopia e captação oocitária, CFA basal,
espessura endometrial, duração da EOC, oócitos capt ados, oócitos maduros e
embriões clivados. Houve uma diferença entre o grupo controle e E endometrioma
com relação ao tempo de infertilidade (p=0,0275).
70
Tabela 1: Variáveis clínicas e resposta à estimulação ovariana controlada das mulheres
inférteis doadoras de fluido folicular sem endometriose (controle), com endometriose em
estágios iniciais (EI/II) e em estágios avançados sem endometrioma (EIII/IV) e com
endometrioma (Eendometrioma).
Controle
(n=8)
E I/II
(n=8)
E III/IV
(n=8)
E
endometrioma
(n=8)
Idade (anos) 36 (35,5 –
37,3) 34 (33,5 - 37) 33 (29 - 34) 34,5 (33 –
36,3) p =0,1907
IMC (kg/m²) 24,6 (23,8 –
27,9)
21,9 (21,8 -
27,4)
24,8 (24,6 –
27,3)
21,8 (20,8 –
25,2) p =0,3259
FSH (UI/L) 8,2 (7,9 – 9,7) 4,4 (4,4 – 5,3) 5,2 (3,8 – 7,8) 5,6 (4,1 - 8,4) p= 0,1890
Tempo infertilidade
(meses)
114 (93 -
135)* 84 (81 - 84) 108 (66 - 111) 48 (45 - 60)* *p=0,0275
Tempo entre
VLPSC e EOC
(meses)
57 (53,8 –
70,5) 23 (32,8 - 75) 68 (10,3 - 79) 34 (30 – 49,5) p =0,3282
CFA basal (n) 8,0 (7,5- 8) 7 (7 – 9,5) 9,0 (3,8 - 11) 8,0 (3- 13) p=0,9533
Endométrio (mm) 3,3 (2,9 – 3,9) 7,3 (2,9 – 5,5) 4,6 (3,2 – 6,9) 4,5 (3,4 – 5,2) p=0,6850
Duração EOC
(dias) 8 (8 – 9,3) 9 (9 – 10,5) 10 (9 - 10) 10 (9,5 – 11,3) p=0,2115
Oócitos captados
(n) 3 (2 - 4) 4 (3,8 – 5,5) 4 (3,5 - 8) 2 (1 – 4,3) p =0,1873
Oócitos maduros
(n) 3 (2 – 3,3) 4 (3,8 – 5,5) 4 (3,5 – 7,5) 2 (1 – 4,3) p =0,2084
Nota: As variáveis são reportadas como mediana e intervalos interquartis. IMC: índice de massa
corpórea; FSH: hormônio folículo esti mulante; CFA basal: contagem de folículos antrais; EOC:
estimulação ovariana controlada ; VLPSC: videolaparoscopia . Grupos comparados por meio do
teste de Kruskall Wallis com pós teste de Dunn (p<0,05).
5.3. Maturação in vitro e microscopia confocal
Para os 8 experimentos de MIV realizados entre novembro/2017 e
janeiro/2018, um total de 240 ovários bovinos foram aspirados, e um total de 1686
CCOs imaturos foram submetidos à MIV. Após a MIV, um total de 1561 oócitos
desnudados foram fixados para realização de i munofluorescência e 1401 oócitos
71
foram visualizados por microscopia confocal (167 oócitos estavam em MI, 25 em TI,
1188 em MII e 21 sofreram AP). Dos 1188 oócitos em MII, 735 foram considerados
analisáveis (isto é, visualizados em uma posição sagital ou la teral) e 453 foram
considerados não analisáveis (visão polar).
Não houv e diferença na taxa de TI (p=0,05467), AP (p=0,8854) e MII
analisáveis (p=0,5651) entre os nove grupos experimentais (Tabela 1).
A taxa de oócitos em MI foi de 6,0% no grupo sem -FF, sendo semelhante a
dos grupos FFControle (6,1%, p=1), FFControle+ LC+n3 (11,7%, p=0,1247), FF EI/II
(12,7%, p=0,07406), FF EI/II+LC+n3 (9,8%, p=0,3085), FF EIII/IV+LC+n3 (7,7%,
p=0,7314) e FFEndometrioma+LC+n3 (11,1%, p=0,166). A taxa de MI foi menor nos
grupos sem-FF e FFControle quando comparad a a dos grupos FFEIII/IV (16,9%; vs
sem-FF: p= 0,00504; vs FFC: p=0,00537) e FFEndometrioma (24,7%; vs sem -FF:
p<0,0001; vs FFC: p<0,0001). A adição de LC e ômega -3 não alterou a taxa de MI
nos grupos FFControle (6,1% vs 11,7%, p=0,1292) e FF EI/II (12,7% vs 9,8%,
p=0,5288), mas reduziu a taxa de MI nos grupos FFEIII/IV ( FFEIII/IV+LC+n3: 7,7%
vs 16,9%, p=0,0259) e FFEendometrioma ( FFEendometrioma+LC+n3: 11,1% vs
24,7%, p=0,0028).
A taxa de MII foi de 91,9% no grupo sem -FF, sendo semelhante aos grupos
FFControle (89,2%, p=0,5389), FFControle+ LC+n3 (89,2%, p=0,06992), FF EI/II
(85,4%, p=0,1069), FF EI/II+LC+n3 (85,3%, p=0,09598), FF EIII/IV+LC+n3 (90,8%,
p=0,8999) e FFEndometrioma+ LC+n3 (86,4%, p=0,1681). A menor taxa de MII foi
encontrada no grupo FFEndometrioma (69,3%) que diferiu dos demais 8 grupos ( vs
sem-FF: p<0,0001; vs FFControle: p<0,0001; vs FFControle+LC+n3: p=0,00194; vs
FFEI/II: p=0,00114; vs FFEI/II+LC+n3: p=0,00117; vs FFEIII/IV: p=0,02681; vs
FFEIII/IV+LC+n3: p<0,0001; vs FFEndometrioma+LC+n3: p=0,00044). O grupo sem-
FF apresentou maior taxa de MII comparado ao s grupos FFEIII/IV (80,7%,
p=0,00681) e FFEendometrioma (p<0,0001). A adição de LC e ômega -3 não alterou
a taxa de MII nos grupos FFControle (FFControle vs FFControle+LC+n3: p=0,3122),
FFEI/II (FFEI/II vs FFEI/II+LC+n3: p=1). No entanto, a adição de LC e ômega -3
aumentou a taxa de MII nos grupos FFEIII/IV (FFEIII/IV vs FFEIII/IV+LC+n3:
p=0,0190) e FFEendometrioma (FFEendometrioma vs FFEendometrioma+LC+n3:
p=0,0004).
A porcentagem de MII meioticamente normais foi de 87,2% no grupo sem -FF,
sendo similar a dos grupos FFControle (87,2%, p=1 , poder de teste: 5% ),
72
FFControle+LC+n3 (82,5%, p=0,54 , poder de teste: 7% ), FF EI/II+LC+n3 (84,5%,
p=0,7615, poder de teste: 6% ), FFEIII/IV+LC+n3 (84,1%, p=0,7122, poder de teste:
6%) e FFEndometrioma+ LC+n3 (75,3%, p=0,0623 , poder de teste: 14%). A
porcentagem de MII normais no grupo sem -FF foi significativamente maior do que
nos grupos FF EI/II (62,2%, p=0,00023), FF EIII/IV (70,2%, p=0,0092) e
FFEndometrioma (72,7%, p=0,03497). A porcentagem de MII normais no grupo
FFControle também foi significativamente maior do que nos grupos FF EI/II
(p=0,00059), FFEIII/IV (p=0,01523) e FFEndometrioma (p=0,0486). A adição de L C
e ácidos graxos ômega-3 durante a MIV não alterou a taxa de MII normais no grupo
FFControle (p=0,5792, poder de teste: 7%) e com FFEndometrioma (p=0,865, poder
de teste: 5% ), mas aumentou essa taxa nos grupos com FF EI/II (p=0,00205) e
FFEIII/IV (p=0,04995). Apesar dos grupo s FFEndometrioma (72,7%) e
FFEndometrioma+LC+n3 (75,3%) não diferirem com relação à porcentagem de MII
normais (p=0,865), o grupo FFEndometrioma+LC+n3 teve porcentagem de MII
normais semelhante aos grupos sem -FF (p=0,062 , poder de teste: 14% ) e
FFControle (p=0,083, poder de teste: 14%).
73
Tabela 2: Estágios de maturação nuclear, e porcentagem de oócitos em MII normais maturados in vitro em meio sem adição de FF (sem -FF),
com adição de 1% de FF de pacientes inférteis sem endometriose (FFControle), com endom etriose leve (FF EI/II), com endometriose
moderada/grave sem endometrioma (FF EIII/IV) ou com endometriose moderada/grave com endometrioma (FFEndometrioma), suplementado
com 0,6mg/mL de L-Carnitina, 0,4 nM de ácido docosahexaenóico e 0,6 nM de ácido eicosapentaenóico (LC+n3) visualizados por microscopia
confocal.
Oócitos
fixados
pós-MIV
n
Visualizados
n
MI
n (%)
T1
n (%)
AP
n (%)
MII
Total de MII
n (%)
Analisáveis
n (%)
Normais
n (%)
sem-FF 167 149 9(6,0%)a 2 (1,3%) 1 (0,7%) 137 (91,9%)a 94 (68,6%) 82 (87,2%)a
FFControle 163 148 9 (6,1%)a 5 (3,4%) 2 (1,4%) 132 (89,2%)ab 78 (59,1%) 68 (87,2%)a
FFControle
+LC+n3 179 163 19 (11,7%)ab 3 (1,8%) 3 (1,8%) 138 (89,2%)ab 80 (58,0%) 66 (82,5%)ab
FFEI/II 178 158 20 (12,7%)ab 1 (0,6%) 2 (1,3%) 135 (85,4%)ab 82 (60,7%) 51 (62,2%)c
FFEI/II
+LC+n3 186 163 16 (9,8%)ab 4 (2,5%) 4 (2,5%) 139 (85,3%)ab 84 (60,4%) 71 (84,5%)ad
FFEIII/IV 185 166 28 (16,9%)bc 2 (1,2%) 2 (1,2%) 134 (80,7%)b 84 (62,7%) 59 (70,2%)bc
FFEIII/IV
+LC+n3 163 142 11 (7,7%)a 1 (0,7%) 1 (0,7%) 129 (90,8%)a 82 (63,6%) 69 (84,1%)ad
FFEndometrioma 163 150 37 (24,7%)c 7 (4,7%) 2 (1,3%) 104 (69,3%)c 66 (63,5%) 48 (72,7%)bcd
FFEndometrioma
+LC+n3 177 162 18 (11,1%)ab 0 (0%) 4 (2,5%) 140 (86,4%)ab 85 (60,7%) 64 (75,3%)abc
Nota: MIV: maturação in vitro; MI = metáfase I; TI = telófase I; MII = metáfase II; AP = ativação partenogenética. Analisáveis: oócitos com fuso fixado em uma
visão lateral ou sagital. Dados são resultados de 8 replicatas utilizando fluido folicular de pacientes controles, com endom etriose leve, com endometriose
grave sem endometrioma e com endometrioma. Letras diferentes na mesma coluna indicam diferença estatística, p<0,05, usando te ste de qui-quadrado.
74
Figura 11: Alterações meióticas oocitárias mais sign ificativas encontradas em cada grupo: A -)
Metáfase II normal no grupo FFControle; B -) Metáfase I no grupo FFEendometrioma; C -) a F -)
Metáfase II anormal nos grupos FFEI/II, FFEIII/IV, FFEendometrioma e FFEendometioma+LC+n3,
respectivamente
Nota: Em verd e, marcação para fuso meiótico com anticorpo monoclonal anti -β-tubulina e anticorpo
secundário conjugado com FITC. Em azul, marcação para material genético com Hoechst 33342.
Barra branca no canto direito inferior: escala de 10 µm. Seta branca indica cromossomos
desalinhados.
75
6. DISCUSSÃO
76
Apesar da estreita relação entre endometriose e infertilidade, os mecanismos
etiopatogênicos envolvidos na diminuição da fertilidade natural dessas mulheres
permanecem desconhecidos. Neste estudo, demonstramos que o FF de mulheres
inférteis com endometriose quando adicionado ao meio de MIV de oócitos bovinos
provoca diminuição da qualidade oocitária (avaliada neste estudo pelo bloqueio da
maturação nuclear e comprometimento da organização do fuso e cromossomos de
oócitos em MII ) quando comparado ao FF de mulheres inférteis sem a doença. A
presença de endometrioma no ciclo de EOC apresenta um impacto ainda mais
prejudicial à qualidade oocitária, afetando, principalmente, a maturação nuclear. A
adição de LC e de ácidos graxos ômega -3 (DHA e EPA) preveniu esses danos,
ressaltando o papel do EO e de alterações da β-oxidação na piora da qualidade de
oócitos de mulheres com endometriose em estágios iniciais e avançados (com e
sem endometrioma).
Independentemente do estágio, nossos achados, usando modelo
experimental bovino, evidenciam que a endometriose afeta a quali dade oocitária
reduzindo a porcentagem de oócitos em MII com fuso normal e cromossomos
alinhados comparada a dos grupos sem-FF e com FF controle. O fuso meiótico de
oócitos é uma estrutura dinâmica, que alinha e segrega os cromossomos durante a
meiose, for mado pela polimerização de subunidades α e β da proteína tubulina
associada a mais de 100 outras proteínas (WITTMANN; HYMAN; DESAI , 2001) .
Vários fatores podem alterar o fuso, sendo o EO, um deles (SHARMA; AZEEM;
AGARWAL, 2013) . Radicais livres são moléculas contendo elétrons
desemparelhados, e que devido a essa instabilidade de elétrons, pode danificar
diretamente as proteínas do fuso (e outras macromoléculas celulares, como o DNA)
provocando desarranjos estruturais e funcionais (SALVI et al. , 2001) . Excesso de
radicais livres também pode alterar o potencial de mem brana da mitocôndria,
levando a uma diminuição da produção de ATP e, consequente, desestruturação do
fuso meiótico (ZHANG et al., 2006).
Nossos achados corroboram achados anteriores do nosso grupo,
demonstrando que adição de 1% de FF de mulheres inférteis com endometriose em
estágios iniciais ao meio de MIV de oócitos bovinos prejudica a organização do fuso
meiótico e o alinhamento cromossômico de oócitos em MII (DA BROI et al., 2014;
GIORGI et al. , 2016) . Pela primeira vez, evidenciamos que o FF de mulheres
inférteis com endometriose em estágios avançados (com e sem endometrioma)
77
também compromete a normalidade meiótica de oócitos bovinos submetidos a MIV
na presença destes FF na concentração de 1%.
Entretanto, Hamdan e colaboradores (2016), utilizando modelo murino, não
observaram alteração de fuso meiótico e alinhamento cromossômico quando os
oócitos foram maturados com FF de mulheres com endometriose grave; discordando
de nossos resultados. No estudo de H amdan e colaboradores (2016), as doadoras
de FF foram previamente submetidas ao exame de videolaparoscopia para
diagnóstico, tratamento e estadiamento da endometriose de acordo com os critérios
da ASRM, entretanto não houve menção da presença de infertilid ade e
endometrioma como critério de inclusão/exclusão. Outras diferenças entre o
presente estudo e o trabalho de Hamdan e colaboradors (2016) são: o tempo de
incubação e a concentração de FF utilizada (Hamdan e colaboradores incubaram os
oócitos em uma con centração de 15 -50% de FF por 18h). Dessa forma,
hipotetizamos que a discordância de resultados entre o nosso estudo e o estudo de
Hamdan e colaboradores (2016) relativos à organização do fuso meiótico deve -se,
principalmente, ao modelo experimental utiliz ado. Morfologicamente e
fisiologicamente oócitos de diferentes espécies apresentam diferenças, mesmo que
sutis (SANTOS; SCHOEVERS; ROELEN , 2014) , entretanto, revisão avaliando as
características oocitárias de bovinos, murinos , suínos e humanos, sugeriu que p ara
estudos avaliando toxicologia reprodutiva (que no nosso caso seria a exposição a
um ambiente com EO) os modelos bovinos e suínos seriam mais adequados que o
modelo murino para representar oócitos humanos (SANTOS; SCHOEVERS;
ROELEN, 2014).
Apesar disso, Hamdan e colaboradores (2016) avaliaram alterações
cromossômicas por outra metodologia, a fosforilação da histona H2AX (marcador de
dano ao DNA e, portanto, ao cromossomo ), e reportaram uma maior quantidade de
focos de fosforilação da histona H2AX nos oócitos incubados com FF de
endometriose grave comparado aos grupos sem FF e com FF controle , indicando
comprometimento dos cromossomos de oócitos de mulheres com endometriose
grave, corroborando , ao menos em parte, os nossos achados (HAMDAN et al. ,
2016).
A taxa de maturação nuclear também foi avaliada no estudo de Hamdan e
colaboradores (2016), que observaram que o FF de mulheres sem endometriose
não afetou a taxa de maturação oocitária comparada ao gru po sem adição de FF
78
(HAMDAN et al. , 2016) . Entretanto, o FF de mulheres com endometriose grave
(tanto a adição de 15% quanto 50%), prejudicou a taxa de maturação oocitária in
vitro (HAMDAN et al., 2016). Os autores desse estudo sugerem que a diminuição da
taxa de extrusão de CP no grupo incubado com FF de endometriose deve ser
resultante de danos ao DNA provocados pelo EO (HAMDAN et al. , 2016) . Um
trabalho de nosso grupo mostrou que o FF de mulheres inférteis com endometriose
apresenta um aumento dos níveis de 8OHdG (marcador de dano oxidativo ao DNA)
comparado a mulheres inférteis sem a do ença (DA BROI et al., 2016). Desta forma,
Hamdan e colaboradores (2016) corroboram nossos resultados que o FF de
mulheres inférteis com endometriose avançada (com e sem endometrioma)
compromete a maturação nuclear oocitária (maior taxa de MI e menor taxa de MII)
quando comparado ao FF de mulheres inférteis sem endometriose e com
endometriose em estágios iniciais.
Mostramos que a adição de FF de mulheres inférteis com endometrioma no
ciclo diminui a taxa de maturação nuclear quando comparado aos demais grupos,
inclusive, aquele contendo FF de mulheres com endometriose III/IV sem
endometrioma no ciclo . Neste contexto, estudos prévios evidenciaram que o FF
obtido de folículos de ovários contendo endometrioma apresentam maiores níveis de
ferro livre e ferritin a comparado s a FF obtido d e ovários livre de endometrioma, e
essa concentração parece aumentar quanto maior a proximidade do folículo com o
endometrioma (SANCHEZ et al., 2014; BENAGLIA et al., 2015).
No presente estudo, no grupo Eendometrioma, utilizamos tanto amostras de
FF obtidas de ovário ipsilateral (2/8) como contralateral ao endometrioma (6/8)
(APÊNDICE A). Estudo avaliando m ulheres com endometrioma unilateral comparou
os resultados de fertilização in vitro (FIV) de oócitos provenientes do ovário
ipsilateral e contralateral ao endometrioma, e não relatou diferenças nos números de
oócitos captados , de embriões viáveis, assim como nas taxas de fertilização e de
clivagem (FILIPPI et al., 2014). Portanto, embora, o conteúdo folicular de ferro seja
alterado pela presença de endometrioma (SANCHEZ et al., 2014; BENAGLIA et al.,
2015), os resultados de TRA parecem não ser alterados comparando ambos ovários
de mulheres com endometriose com endometrioma unilateral (FILIPPI et al., 2014).
Embora o trabalho de Filippi e colaboradores (2014) não tenha comparado os
resultados de FIV entre mulheres com e sem endometrioma, sugerimos que, a lém
do efeito negativo do contato direto do endometrioma com o córtex ovariano
79
adjacente sobre a foliculogênese (KITAJIMA et al., 2011; KURODA et al., 2012), a
presença de endometrioma no ciclo interfere no compartimento sistêmico do
organismo (soro) (CARMONA et al. , 2012; SANTULLI et a l., 2013) , afetando o
ambiente folicular do ovário contralateral (nos casos de endometrioma unilateral)
alterando também o FF. Análise proteômica por espectrometria de massa do FF de
mulheres com endometrioma unilateral (amostra de FF ipsilateral e contra lateral) e
sem endometriose (controle) identificou 535 proteínas expressas, sendo 139 comuns
aos 3 grupos (endometrioma, ovário sem endometrioma e controle) (REGIANI et al.,
2015). Análise de enriquecimento foi realizada a partir da composição do ovário com
endometrioma e ovário sem endometrioma, sendo que ambos grupos apresentaram
proteínas com funções similares, demonstrando o impacto da endometriose (ou
presença de um endometrioma ativo no ciclo, independentemente da proximidade
folicular) sobre a composição do FF (REGIANI et al., 2015).
LC e ácidos graxos ômega -3 prev eniram os danos meióticos oocitários
provocados pelo FF de mulheres inférteis com endometriose, independentemente do
estágio da doença e da presença ou não de endometrioma . Estudo prévio de nosso
grupo mostrou que a adição de LC previne os danos ao fuso meiótico de oócitos
bovinos maturados in vitro na presença de FF de mulheres com endometriose leve
(taxa de MII normais aumentou de 51,35% para 80,61% com LC ) (GIORGI et al. ,
2016). Contudo, p ela primeira vez, mostramos que a adição conjunta de LC e de
ácidos graxos ômega -3 previne os danos oocitários (tanto em nível de maturação
nuclear quanto de organização d o fuso e alinhamento cromossômico em oócitos
MII).
Recente revisão destacou o importante papel da carnitina sobre a f ertilidade
feminina discutindo estudos in vivo e in vitro envolvendo humanos ou modelos
animais, e os possíveis mecanismos de ação da LC na melhora da fertilidade
feminina (AGARWAL;GUPTA; DURAIRAJANAYAGAM, 2018) . Por outro lado,
estudos experimentais mostram que suplementação com ômega -3 melhora a
qualidade oocitária (NEHRA et al. , 2012) , regula o endométrio (WATERS et al. ,
2014) e aumenta a taxa de prenhez (WATHES; ABAYASEKARA; AITKEN, 2007).
Tanto a LC quanto os ácidos graxos estão envolvidos n a β -oxidação que é
uma importante via mitocondrial de produção de energia durante a maturação
oocitária e desenvolvimento embrionário inicial (DOWNS; MOSEY; KLINGER, 2009;
DUNNING et al. , 2010; DUNNING; ROBKER , 2012; PACZKOWSKI et al. , 2013;
80
VALSANGKAR; DOWNS, 2013; DUNNING; RUSSEL; ROBKER, 2014; DUNNING et
al., 2014) . Oócitos de mulheres inférteis com endometriose mínima ou leve
apresentam alterações mitocondriais avaliadas por microscopia eletrônica de
transmissão e por reação quantitativa em cadeia da polimerase (RT-PCR) (XU et al.,
2015). E, embora neste trabalho não investigamos as mitocôndrias oocitária,
sugerimos que o EO presente no FF de mulheres inférteis com endom etriose
(PRIETO et al., 2012; SINGH et al., 2013b; DA BROI; NAVARRO, 2016; HAMDAN et
al., 2016; NASIRI et al. , 2017) , altere o funcionamento mitocondrial, contribuindo
com a piora da qualidade oocitária (ZHANG et al., 2006; XU et al., 2015). A LC e os
ácidos graxos ômega-3 ativariam a β-oxidação, normalizando os níveis de A TP que
é essencial para a aquisição da competência oocitária (VAN BLERKOM ; DAVIS;
LEE., 1995; FERREIRA et al., 2009b).
Também sugerimos que os ácidos graxos ômega -3 tenham agido modulando
a ação da enzima cicloxigenase-2 ( COX-2) (DERECKA et al. , 2008) nos oócitos
maturados in vitro com FF de mulheres com endometrio se. A COX-2 está envolvida
com metabolismo lipídico e inflamação e é codificada pelo gene PTGS2 (O'NEILL;
FORD-HUTCHINSON, 1993) . Estudo de nosso grupo mostrou diminuição da
expressão do gene PTGS2 em células do cumulus de mulheres com endometriose
comparado a mulheres inférteis sem a doença submetidas à EOC pa ra ICSI (DA
LUZ et al., 2017). Desta forma, é possível que o FF de mulheres com endometr iose
(neste estudo, especialmente, III/IV) altere o funcionamento da COX -2 nos CCOs,
diminuindo a expressão de PTGS2, o que afetaria a maturação nuclear oocitária e a
resolução da meiose I. E os ácidos graxos ômega -3 devem ter modulado a COX -2
que poderia promover o funcionamento normal do gene PTGS2, e, por
consequência, normalizar a taxa de maturação nuclear (MAREI et al., 2014)
Embora há estudos controversos (KIM et al., 2013; KHANAKI et al., 2014) e
evidências fracas sobres os efeitos benéficos do ômega -3 para a endometriose
(GAZVANI et al., 2001; MISSMER et al., 2004; NETSU et al., 2008; ATTAMAN et al.,
2014; HOPEMAN et al. , 2015; AKYOL et al. , 2016) , os ácidos graxos ômega -3
parecem estar envolvidos com a supressão da progressão da endometriose,
provavelmente modulando a inflamação em favor da síntese de r esolvinas
(DMITRIEVA; SUESS; SHIRLEY, 2014) o que poderia impactar diretamente no alívio
da dor . Recente estudo clínico registrado no ISRCTN (ISRCTN44202346) pretende
avaliar a eficácia do ômega -3 no tratamento da dor relacionada à endometriose com
81
um estudo duplo-cego utilizando dois braços de estudo: i) uso de ômega -3 (Omacor
1000mg 2 vezes ao dia) e ii) cápsula de azeite de oliva com semelhante aspecto
(ABOKHRAIS et al., 2018).
Entretanto, não há estudos avaliando o uso de PUFA omega -3 na melhora
da in fertilidade relacionada à endometriose. Estudo de coorte prospectivo (n=100)
avaliou a relação entre níveis séricos de PUFA n-6 e n-3 sobre os resultados de TRA
e observou que maiores níveis sérios de ômega -3 estavam associados a uma maior
probabilidade de gestação clínica e nascidos vivos por ciclo iniciado (CHIU et al. ,
2018). Mirabi e colaboradores (2017) também observa ram uma maior concentração
de EPA no soro de mulheres submetidas às técnicas d e TRA que engravidaram
comparadas àquelas que não engravidaram, no entanto, quando essa comparação
foi realizada utilizando amostras de FF, nenhuma diferença foi encontrada (MIRABI
et al., 2017).
Avaliando os dados clínicos dos grupos de doadoras de FF (FFControle,
FFEI/II, FF EIII/IV e FFEendometrioma), observamos uma diferença na duração da
infertilidade entre os grupos FFControle e FFEendometrioma. Acreditamos que essa
diferença não seja importante neste estudo, vi sto que a mediana das idades (este
sim, um fator relacionado a piora da qualidade oocitária) entre os grupos não diferiu.
Nosso estudo trouxe contribuições inéditas para a elucidação da
etiopatogênese da infertilidade relacionada à endometriose. Porém, co ntamos com
algumas limitações. I-) Utilizamos FF de mulheres submetidas à EOC, tornando
questionável a extrapolação dos resultados para ciclos naturais; porém, o grupo
controle também foi submetido a protocolos de bloqueio hipofisário semelhantes. II-)
Para a classificação da endometriose utilizamos os critérios da ASRM, e não
podemos saber se a utilização de outros critérios [como por exemplo o índice de
fertilidade (ADAMSON; PASTA, 2010)] poderiam levar a resultados semelhantes. I II-
) Utilizamos o FF apenas do primeiro folículo aspirado de cada paciente, pois n ão
sabemos se a prorrogação da anestesia e repetidas punções ovarianas
promoveriam EO folicular; todavia, não podemos afirmar que FFs de diferentes
folículos teriam o mesmo impacto durante a MIV sobre o oócito. IV-) Além disso, os
dados obtidos a partir de estudos com modelos animais pode não necessariamente
ser extrapolado s para os seres humanos e estudos com oócitos de mulheres
inférteis com endometriose maturados in vivo seriam importantes para confirmar
nossos resultados. V) Pequena casuística avaliada relativa ao número de amostras
82
de FF dos quatro grupos avaliados, o que limita a generalização de nossos achados.
Todavia, nossos restritivos critérios de elegibilidade para as doadoras de FF,
importante para aumentar a validade interna dos resultados, e a limitada indicação
de videolaparoscopia na abordagem atual da infertilidade, tornaram bastante difícil a
inclusão de mais pacientes e estudos com maiores casuísticas são importantes para
confirmar nossos achados.
Atualmente, os tratamentos disponíveis par a a infertilidade relacionada à
endometriose são cirúrgicos e/ou as TRA (KENNEDY et al., 2005) que são invasivos
e/ou de elevado custo, com consequente baixo acesso populacional. Portanto,
novas abordagens terapêuticas seriam essenciais para auxiliar milhares de mulheres
atingidas por essa doenç a. Devido às propriedades da LC e dos ácidos graxos
ômega-3, a combinação de tratamento cirúrgico com a suplementação dessas
substâncias poderia impedir a recorrência e/ou progressão da endometriose (devido
à ação antioxidante da LC e anti -inflamatória dos ácidos graxos ômega -3) e
melhorar a fertilidade natural (por prevenir o EO, o comprometimento da beta
oxidação e os danos oocitários) visto que o as TRA não são acessíveis a todas as
mulheres. Nossos achados estimulam o delineamento de estudos clínicos
investigando o impacto da suplementação conjunta de LC e ácidos graxos ômega -3
na melhora da fertilidade natural de mulheres inférteis com endometriose.
83
7. CONCLUSÕES
84
I-) O FF de mulheres inférteis com endometriose, independentemente do estágio da
doença, diminui a taxa de MII normais quando adicionado ao meio de MIV de oócitos
bovinos, comparado à adição de FF de mulheres inférteis sem endometriose.
Entretanto, o FF de mulheres inférteis com endometriose em estágios avançados
(III/IV) prejudica a taxa de maturação nuclear comparado ao grupo sem -FF, o que
não é observado no grupo com FF de mulheres inférteis com endometriose em
estágios iniciais. E o FF de mulheres inférteis com endometrioma, quando
adicionado ao meio de MIV de oócitos bovinos, diminui a ta xa de maturação nuclear
comparado à adição de FF de mulheres inférteis sem endometriose, com
endometriose em estágios iniciais e com endometriose em estágios avançados sem
endometrioma. Portanto, a avanço do estágio da endometriose , assim como a
presença de endometrioma no ciclo (mesmo que contralateral), apresentam impacto
mais deletério sobre a qualidade oocitária.
II-) A suplementação do meio de MIV de oócitos bovinos com L C e ácidos graxos
ômega-3 (DHA e EPA) preveniu os danos meióticos oocitários prov ocados pela
adição do FF de mulheres inférteis com endometriose (em todos os estágios). Dessa
forma, sugerimos que o estado inflamatório e de estresse oxidativo ex acerbado,
assim como, a desregulação da β -oxidação podem estar envolvidos na piora da
qualidade oocitária, com consequente prejuízo da fertilidade natural de mulheres
com endometriose.
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