Material
E MÉTODOS ..............................................................................39
CASUÍSTICA ............................................................................................................................... ......................... 39
MATERIAL............................................................................................................................... ............................ 40
MÉTODOS............................................................................................................................... ............................ 41
Preparação das Células Metafásicas ....................................................................................................... 41
Extração de DNA de tecido endometrial ................................................................................................ 42
Amplificação e Marcação do DNA por SCOMP....................................................................................... 43
Hibridação Genômica Comparativa......................................................................................................... 45
Análise de Imagens............................................................................................................................... .... 47
Análise por Bioinformática........................................................................................................................ 48
RESULTADOS..............................................................................................50
DISCUSSÃO................................................................................................67
CONCLUSÕES .............................................................................................77
REFERÊNCIAS ............................................................................................78
MANUSCRITO SUBMETIDO PARA PUBLICAÇÃO.........................................88
10
Introdução
11
INTRODUÇÃO
De acordo com Berne e Levy (1990) o ci clo menstrual apresenta três fases
fisiologicamente distintas: a fase foli cular, começando no primeiro dia do
sangramento menstrual, com duração variável; a fase ovulatória, com duração média
de dois dias e a fase luteínica, com duração de 13 a 14 dias, terminando com o inicio
de um novo período menstrual. Esse ciclo normalmente varia de 21 a 35 dias,
dependendo da duração da fase folicular. O ciclo começa com aumento gradativo do
nível de FSH (hormônio folículo estimulante) pouco antes do início da menstruação,
que se mantém durante a primeira metade da fase folicular. Em seguida observa-se
um aumento do nível de LH (hormônio lute inizante). Durante a segunda metade da
fase folicular, o nível de FS H diminui rapidamente, porém o LH continua aumentado.
Devido ao estímulo do FSH, a concentração de estradiol no sangue também aumenta
gradativamente durante os primeiros 6 a 8 dias do ciclo, aumentando
progressivamente e atingindo um pico antes da fase ovulatória. Os níveis elevados
de estradiol exercem efeito de
feedback, diminuindo a concentração de FSH no
sangue durante a segunda metade da fase folicular. Em seguida, a fase ovulatória é
caracterizada por um pico elevado de LH no sangue, que precede um aumento do
nível plasmático de progesterona. Após a ovulação, durante a fase luteínica, os níveis
de LH e FSH diminuem até o final desta fase devido ao feedback negativo dos
hormônios esteróides produzidos pelo corp o lúteo. Esta fase é caracterizada pelo
intenso aumento dos níveis plas máticos de progesterona e pelo aumento do
estradiol, ambos secretados pelo corpo lúteo. Na ausência de gravidez, o corpo lúteo
é degenerado, levando à queda dos níveis de progesterona e estradiol até seus
12
níveis mínimos ao final da fase luteínica. A secreção de FSH aumenta, dando início a
um novo ciclo menstrual.
No início de cada ciclo menstrual, o endométrio apresenta-se fino, com poucas
e retilíneas glândulas. Ao final da mens truação, a elevação da concentração
plasmática de estradiol durante a fase fo licular aumenta de três a cinco vezes a
espessura do endométrio, caracterizando a fase proliferativa. O estradiol altera o
muco produzido no colo uterino, tornando -o mais aquoso, elástico e produzido em
maior quantidade, o que irá facilitar a entrada dos espermatozóides na cavidade
uterina. Logo após a ovulação, o aument o acentuado de progesterona altera o
endométrio, inibindo seu crescimento rápi do e atividade mitó tica e provocando
aumento da secreção das glândulas. Essa s alterações, características da fase
secretora, permitem a implantação e nutriç ão do embrião no endométrio. Ao mesmo
tempo, a progesterona diminui a quantida de de muco cervical, que volta a ser
espesso e não-elástico. Caso não haja concepção, a queda brusca de progesterona e
estradiol leva a contrações espasmódicas das artérias espiraladas e esta perda do
suprimento sanguíneo prod uz morte celular e conseq üente descamação dessas
células com o sangue coagulado, constituindo o fluxo menstrual.
Endometriose
A endometriose é uma doença ginecológica benigna comum, embora bastante
agressiva, caracterizada pela presença de tecido endometrial ectópico, i.e., tecido
endometrial implantado fora da cavidade uterina (Yang et al. , 2004).
Histologicamente, o tecido ectópico é idêntico ao normal (eutópico), diferenciando-se
13
apenas por aspectos funcionais e bioquí micos como receptividade a esteróides e
potencial invasivo (Gaetje et al., 1995).
A endometriose é caracterizada por sint omas como dismenorréia, dispaneuria,
dor pélvica e infertilidade (Poliness et al. , 2004). No entanto, muitas mulheres são
assintomáticas (Nap et al., 2004).
Embora a endometriose seja uma da s alterações ginecológicas mais
estudadas, sua etiologia e origem ainda não foram esclarecidas. A teoria mais aceita
para explicá-la é a teoria da implantaçã o de Sampson (1927), a qual postula que o
tecido endometrial liberado durante a me nstruação sofre refluxo através das tubas
uterinas, adere-se e prolifera em loca is ectópicos da cavidade peritoneal
(principalmente peritônio, ovários e septo retovaginal). No entanto, as teorias da
metaplasia do epitélio celôm ico, da indução, dos restos embrionários, da imunidade
celular alterada e da metástase das lesões, também têm sido consideradas (Witz,
1999; Giudice e Kao, 2004).
Vários estudos epidemiológicos susten tam a teoria de Sampson. Ciclos
menstruais curtos e longa duração do fluxo menstrual são considerados dois fatores
de risco predominantes para a endometriose. Também se sugere que pacientes
nulíparas ou com menarca precoce apresent em um maior risco para desenvolver a
doença (Darrow et al., 1993; Missmer e Cramer, 2003). Acredita-se que em torno de
10% da população feminina (Dabrosin et al. , 2002) e 50% das pacientes com
infertilidade e dor pélvica (Cornillie et al. , 1990) apresentem endometriose. Essa
incidência aumenta durante a idade reprodut iva, é rara antes da menarca e tende a
diminuir após a menopausa (Houston et al. , 1988). Também foi relatada uma
14
tendência poligênica e multifatorial para a endometriose, sendo estimado maior risco
(5 a 8%) para mulheres com história fam ilial da doença em parentes de primeiro
grau (Bischoff e Simpson, 2004), bem co mo uma concordância aumentada entre
irmãs gêmeas (Hadfield et al., 1997). Ainda, o fluxo menstrual retrógrado foi descrito
na literatura em 76% das mulheres submet idas à laparoscopia durante o período
menstrual (Liu e Hitchcock, 1986) bem como a viabilidade do endométrio menstrual
em cultura (Keettel e Stein, 1951) e a capa cidade do endométrio menstrual de se
fixar e proliferar em locais ectópicos (Ridley e Edwards, 1958).
Por outro lado, considerando-se a menstruação retrógrada como um
fenômeno bastante comum, o fato de ap enas parte das mulheres desenvolverem
endometriose ainda não foi esclarecido. Foi proposto que, em mulheres saudáveis, a
maioria das células menstruais sofre mo rte celular programada e não sobrevive
(Gebel et al. , 1998). Entretanto, a porcentage m de células endometrióticas
menstruais que sofre apoptose em mulheres com endometriose é bastante reduzida,
levando a um aumento do número de cél ulas que sobrevivem e que poderiam
continuar apresentando atividade fisiológica. Esses autores também observaram que
o tecido endometrial de mulheres com en dometriose é significativamente menos
susceptível à apoptose espontânea do que o tecido endometrial de controles férteis.
Healy e colaboradores (1998) sugeriram que o endométrio de mulheres com
endometriose sofre um aumento da prolif eração celular e da capacidade de se
implantar e sobreviver em locais ectópicos . Os autores chamaram a atenção para a
proliferação endotelial aumentada, consid erando-se que a angiogênese é essencial
para a sobrevivência do endo métrio fora do útero, além do fato de a angiogênese
15
excessiva não ser encontrada apenas na endometriose, mas também em uma
variedade de doenças como tumores sólidos, artrite reumatóide e psoríase.
A expressão do VEGF (fator de crescime nto endotelial vascular) em implantes
endometrióticos evidenciou um mecani smo para a neovascularização, que é
comumente observada ao re dor dessas lesões (Donnez et al. , 1998). Altas
concentrações de VEGF-A também foram id entificadas no fluido peritoneal de
mulheres com endometriose, apresentando níveis mais elevados durante a fase
proliferativa do ciclo (Mclaren et al. , 1996). Tan e colaboradores (2002) relataram
uma correlação positiva entre a severidade da endometriose e a concentração de
VEGF-A no fluido peritoneal. Em 2006, Fe rrero e colaboradores revisaram vários
agentes anti-fator de crescimento endotelia l vascular e outras drogas angiostáticas
como TNP470, endostatinas, anginex e anticorpo anti-VEGF humana, que foram
estudadas em laboratório e em modelos animais de endometriose. Os autores
concluíram que esses agentes inibem sign ificativamente a resposta angiogênica e
reduzem o estabelecimento, manutenção e progressão das lesões endometrióticas .
Por outro lado, a segurança e eficácia dessa s substâncias antiangiogênicas deveriam
ser avaliadas em um modelo primata não- humano de endometriose, visando futuras
aplicações.
Al-Fozan e Tulandi (2003) avaliaram a di stribuição lateral da endometriose e
do endometrioma ovariano em mulheres com endometrio se. Os autores observaram
que a endometriose é mais freqüente na he mi-pelve esquerda (64,3%) em relação à
direita, bem como um maior número de im plantes endometrióticos no lado esquerdo
da pelve. Essa predisposição poderia ser ex plicada pela presença do cólon sigmóide
16
no lado esquerdo da cavidade abdomina l. Segundo essa teoria, ele retarda a
passagem do fluxo menstrual retrógrado, fazendo com que as células
endometrióticas tenham mais tempo para se implantar na hemi-pelve esquerda. As
observações apóiam a teoria de que a or igem da endometriose está nas células
endometrióticas que sofreram refluxo. No entanto, suas implicações clínicas
permanecem desconhecidas.
Por outro lado, apenas o refluxo tubário não é suficiente para o
estabelecimento da doença e vários estudos sugerem uma etiologia multidimensional
incluindo fatores hereditários, hormonai s e imunológicos (Olive e Schwartz, 1993;
Brinton et al. , 1997). Em nível celular, a doença é caracterizada por crescimento
monoclonal e pode apresentar aspectos de comportamento maligno como invasão
local e metástase (Olive e Schwartz, 1993; Jimbo, Hitomi et al. , 1997; Jimbo,
Yoshikawa et al. , 1997). Estima-se que a patogêne se da endometriose esteja
associada à capacidade das células endo metrióticas em reagir a uma resposta
imunológica local. Vários resultados de estudos in vivo e in vitro mostraram que as
respostas imunológicas desencadeadas pela endometriose assemelham-se às
respostas de células tumorais que evadir am a imunovigilância (Braun e Dmowski,
1998). Sugere-se que células natural killer (NK), por exemplo, inibam a implantação
ectópica e o crescimento de células endo metrióticas menstruais retrógradas e,
conseqüentemente, uma falha nesse sistem a possa contribuir para a iniciação e
progressão da endometriose (D'hooghe et al. , 1995). Outras características
moleculares da doença incluem al guns genes superexpressos como c-MYC (v-myc
myelocytomatosis viral oncogene homolog [avian]) e ERBB2 (v-erb-b2 erythroblastic
leukemia viral oncogene homolog 2, neur o/glioblastoma derived oncogene homolog
17
[avian]) (Bergqvist et al. , 1991; Schenken et al. , 1991) e a desregulação da
expressão de fatores de crescimento (Huang e Yeh, 1994).
Dados epidemiológicos, ci rúrgicos e patológicos qu estionam se as lesões
peritoneais, ovarianas e do septo retovaginal apresentam uma etiologia comum única
ou se representam três entidades com patogêneses diferentes (Vigano et al., 2004).
Embora a teoria do fluxo retrógrado seja a mais aceita, outros autores (Nisolle e
Donnez, 1997) sugerem uma origem diferente para cada um dos três tipos de
endometriose. A endometriose peritoneal realmente poderia ser explicada pela teoria
do refluxo de células menstruais do endomé trio que sofreriam adesão e proliferação
na cavidade peritoneal. No entanto, a metaplasia celômica de inclusões epiteliais
invaginadas poderia ser responsável pe lo desenvolvimento da endometriose
ovariana, já que o epitélio de revestimen to do ovário aprese nta grande potencial
metaplásico. Por fim, o nódulo endometr iótico retovaginal poderia ser mais bem
explicado pela metaplasia de remanesc entes mullerianos localizados no septo
retovaginal.
A endometriose sofre transformação malig na em uma freqüência que varia de
0,7% a 1%; no entanto, esta freqüência pode ser considerada maior, uma vez que o
tumor pode destruir o tecido endometrióti co de origem e eliminar as evidências
histopatológicas da endometriose (Nishida et al. , 2000). Os três critérios definidos
para a transformação maligna da endometriose são: (a) a presença de endometriose
e carcinoma no mesmo ovário; (b) o carcinoma deve ter sua origem no tecido
endometriótico, porém sem invasão endome trial, mantendo limites nítidos entre
18
ambos e (c) a confirmação histopatológica de uma transição entre a endometriose e
o carcinoma (Sampson, 1925).
Endometrioma Ovariano e Tumores de Ovário
Dada a complexidade da doença e as limitações para a determinação de sua
causa, três modelos diferentes foram propostos para explicar a origem do
endometrioma ovariano típico (Vigano et al. , 2004): invasão do córtex ovariano e
invaginação progressiva após o acúmulo de debris menstruais derivados de
hemorragia de implantes endometrióticos superficiais; envolvimento de cistos
ovarianos funcionais por implantes endome trióticos localizados na superfície do
ovário; e metaplasia celômic a, que propõe a transformação metaplásica de células
mesenquimais submesoteliais em um fenótipo endometriótico.
De modo geral, a endometriose não pa rece estar associada a maior risco para
câncer. Por outro lado, evidências têm suge rido a endometriose ovariana como fator
precursor de tipos específicos de câncer de ovário. Esta informação corrobora o fato
de fatores de risco para endo metriose e malignização ovariana serem similares e
incluírem menarca precoce, menstruação regula r, ciclos menstruais curtos e poucas
gestações. Embora nenhum estudo forneça uma evidência genética conclusiva para
sustentar uma linhagem celular comum entre a endometriose e o câncer de ovário, a
endometriose de ovário tem sido rela cionada a alterações genéticas e é
freqüentemente encontrada em associação com carcinomas ovarianos endometriais e
de células claras, sugerindo que esses dois tipos de carc inoma possam ter surgido
diretamente de depósitos endometrióti cos (Feeley e Wells, 2001). McMeekin e
19
colaboradores (1995) descreveram uma sé rie de pacientes com adenocarcinomas
endometrióticos associados à endometriose (EAEA) onde 30% dos tumores de
adenocarcinomas endometrióticos do ová rio (ECO) surgiram em associação à
endometriose, uma proporção levemente ma ior do que a relatada na maioria das
séries de pacientes. Este dado pode re fletir um maior reco nhecimento da ligação
entre endometriose e adenoc arcinoma endometriótico. A associação entre a doença
no estágio inicial, idade precoce e o EAEA sustenta a idéia de que o EAEA é um
subtipo histológico distinto do ECO, com um comportamento biológico menos
agressivo em relação ao adenocarcinoma endo metriótico típico. De acordo com os
autores, a relação entre os dados histológic os associados e o estadio da doença foi
menos clara. Um número substancial de casos de ECO apresentou uma mistura de
elementos epiteliais em proporções va riadas, juntamente com o componente
endometriótico.
A associação entre endometriose e câ ncer ovariano também foi investigada
em estudos caso-controle (Ness et al. , 2000; Ness et al. , 2002; Modugno et al. ,
2004). A maioria desses estudos sugere uma associação entre endometriose e
câncer ovariano, embora seja difícil quan tificar o efeito com precisão, devido a
variações de risco.
Valenzuela e colaboradores (2007) apresentaram uma análise retrospectiva de
22 casos de carcinoma ovariano endometrió ide em uma tentativa de identificar a
endometriose e sua transformação maligna. A endometriose foi detectada em três
casos (3/22 = 14%), sendo que um deles apresentou claramente uma área de
transformação benigna-maligna e em outro, a zona de transição era abrupta e
20
estava presente em ambos os ovários. No terceiro caso, foi observada endometriose
ovariana com carcinoma endometriótico ap enas focal. Todas as três pacientes
apresentavam um componente de carcinom a ovariano de células claras. A presença
desse componente foi significantemente ma ior em pacientes com endometriose do
que em pacientes sem endometriose. Os autores sugerem a associação desta
condição com os carcinomas endometrióides e de células claras do ovário e que a
mesma deve ser considerada sempre qu e haja suspeita de diagnóstico de
endometriose, independentemente da situação pré- ou pós-menopausa da paciente.
A literatura relata o comportamento clínico e os fatores prognósticos em
pacientes com câncer de ovário com ou se m endometriose concomitante. Pacientes
com endometriose tendem a ser mais jove ns e a ser diagnosticadas em estágios
precoces, com lesões de grau mais baixo e melhor prognóstico (Depriest et al., 1992;
Mcmeekin et al. , 1995; Erzen e Kova cic, 1998; Komiyama et al. , 1999; Erzen et al. ,
2001). Entretanto, ainda não foi totalmente esclarecido se o aumento da sobrevida
está relacionado à idade precoce e/ou ao diagnóstico precoce relatado em mulheres
com endometriose (Somigliana et al., 2006).
Outros autores (Komiyama et al. , 1999) avaliaram retrospectivamente dados
clinicopatológicos da associação entre carcinoma ovariano de células claras e
endometriose pélvica em 35 pacientes ja ponesas. Os autores observaram que
pacientes com carcinoma ovariano de células claras e endometriose pélvica exibiram
um melhor prognóstico em relação àque las sem endometriose, especialmente as
pacientes com câncer de grau I. Eles também sugeriram que alguma interação ou via
metabólica poderia existir entre o carc inoma ovariano de células claras e a
21
endometriose pélvica, ajudando a inibir a proliferação ou disseminação do carcinoma
ovariano de células claras para a cavidade intraperitoneal nos eventos iniciais da
progressão do câncer.
A hipótese de que andrógenos circ ulantes possam estar envolvidos no
desenvolvimento do câncer de ovário já foi relatada (Risch, 1998). A medicação
androgênica, danazol, e a medicação antiandrogênica, leuprolide e nafarelin, são
comumente usadas no tratamento da endo metriose (Moghissi, 1999; Olive e Pritts,
2001). Cottreau e colaboradores (2003) avaliaram as associações entre o uso desses
medicamentos e o câncer de ovário, e co ncluíram que o danazol aumentava o risco
de câncer ovariano, sustentando a hipóte se de que o excesso de andrógeno possa
estar associado ao desenvolvimento de câncer ovariano.
Mulheres com endometriose parecem ap resentar um risco maior para outros
tumores malignos da pelve (Blumenfel d, 2004; Van Gorp, 2004). A ocorrência
simultânea de endometriose e câncer ovariano e carcinoma de células claras (41%) e
subtipos endometrióticos (38%) sugere uma transformação de componentes da
endometriose em células tumorais. Esta tr ansformação pode ser devida à perda de
heterozigose e à mutação somática de ge nes supressores tumorais, em especial,
PTEN/MMAC/TEP1 (Jimbo, Hitomi et al., 1997; Jimbo, Yoshikawa et al., 1997; Obata
et al., 1998; Toki e Nakayama, 2000; Swiersz, 2002). Dados da literatura também
mostram uma alta freqüência de mu tação do gene supressor tumoral TP53 em
endometriose atípica e câncer ovariano re lacionado à endometriose (Sainz De La
Cuesta et al. , 2004). Cistos endometrióticos também apresentam perda de
heterozigose e deleções parciais envolvendo os cromossomos 9p, 11q e 22q (Jiang et
22
al., 1996). Clonalidade e altos ní veis de aneuploidia têm sido sugeridos como fatores
de predisposição para transformação maligna de lesões endometrióticas,
especialmente para os subtipos endometr ióide e de células claras (Jimbo, Hitomi et
al., 1997; Jimbo, Yoshikawa et al. , 1997; Tamura et al. , 1998; Blumenfeld, 2004).
Entretanto, também foi re latado que mutações no TP53 não estavam associadas à
endometriose (Omori et al., 2004), enfatizando a necessidade de novos estudos para
uma avaliação precisa de regiões crític as envolvendo genes candidatos para
endometriose.
Desde que a endometriose foi associada à infertilidade, a associação entre a
doença e o câncer deve ser interpretada com cautela, já que um risco aumentado
pode ser devido à nuliparidade e não à endometriose em si (Somigliana et al., 2006).
Em resumo, a literatura relata várias ev idências indicando que o mesotélio da
superfície ovariana normal desempenha um papel complexo na fisiologia ovariana,
com funções reguladoras proteolíticas, de síntese e crescimento, as quais influenciam
na ovulação e no reparo a danos ovulató rios (Feeley e Wells, 2001). Dessa forma, é
possível que aberrações dessas funções co ntribuam para o desenvolvimento da
malignidade.
Endometriose e Infertilidade
As várias questões fisiopatológicas e terapêuticas a respeito da associação
endometriose-infertilidade permanecem não esclarecidas até o momento. O
23
mecanismo dessa associação é complexo, devido aos polimorfismos clínicos e à
ausência de confirmações bem estabelecidas.
A literatura relata que 25 a 50% das mulheres inférteis apresentam
endometriose e que 30% a 50% das mulh eres com endometriose são inférteis (The
Practice Committee of the American Soci ety for Reproductive Medicine, 2004). A
hipótese de que a endometriose cause infe rtilidade ou uma diminuição na fertilidade
permanece controversa. Vários mecanismos têm sido propostos no intuito de
esclarecer a associação entr e endometriose e infertilidade: alterações anatômicas,
alterações citológicas e bioquímicas do lí quido peritoneal, alterações da resposta
imune local, alterações funcionais do ovário e do endométrio e redução da qualidade
do embrião (Collinet et al. , 2006). No entanto, deve se r enfatizado que nenhum
desses mecanismos diminui confirmadamente a fertilidade feminina.
As classificações da American Societ y for Reproductive Medicine (1997) são
únicas porque fornecem uma forma padronizad a de registro dos dados patológicos e
avaliam, em escala, o status da doença na tentativa de predizer a probabilidade de
gravidez após o tratamento. De acordo com os critérios da Sociedade Americana, o
formulário de classificação da endometriose inclui o regi stro de informações sobre a
morfologia da doença, recomendando foto grafias coloridas para documentação. As
lesões devem ser categorizadas como verm elhas, brancas e negras. A porcentagem
de envolvimento da superfície em cada ti po de lesão deve ser documentada. Além
disso, para aumentar a precisão do sistema de pontuação, um endometrioma
ovariano deve ser confirmado por histologia ou pela presença de (a) tamanho do
cisto < 12 cm; (b) adesão à parede lateral pélvica; (c) lesões de endometriose na
superfície ovariana; (d) fluido persistente, espesso, cor de chocolate. De acordo com
24
esse sistema de pontuação, a endometriose é classificada em grau I (mínima, de 1 a
5 pontos), II (leve, de 6 a 15 pontos), III (moderada, de 16 a 40 pontos) ou IV
(severa, mais de 40 pontos). É provável que os esquemas de classificação para
endometriose continuem a evoluir e que ou tros fatores associados à endometriose
que contribuam para a infertilidade sejam in cluídos na classificação, permitindo uma
previsão mais precisa de gravidez.
Investigação Diagnóstica
O diagnóstico inicial da endometriose é realizado pela história clínica, variando
desde ausência completa de sintomas até dor pélvica incapacitante durante o
período menstrual e infertilidade. A dosa gem das glicoproteínas séricas CA-125 e
CA19-9, devido à maior concentração de sses marcadores no endométrio ectópico
comparado ao normal, em associação a exames de imagem como ultra-som
endovaginal e ressonância magnét ica também são utilizadas como ferramentas
diagnósticas. Entretanto, devido à ba ixa especificidade desses métodos, o
diagnóstico da endometriose só pode ser confirmado por laparoscopia, considerada
um método bastante invasivo (Brosens et al., 2004).
A remoção cirúrgica das lesões melhora significativamente alguns sintomas,
como a dor, porém pode haver recorrência da doença e as pacientes podem rejeitar
ou adiar uma segunda cirurgia, preferindo outro tipo de terapia. No momento, dentre
os tratamentos disponíveis estão os supr essores da síntese de estrógeno, que
induzem a atrofia de implantes ectópicos ou interrompem o cicl o de estimulação.
Contraceptivos orais, agentes androgênicos , progesterona e análogos do hormônio
25
liberador de gonadotrofina também têm sido utilizados com sucesso no tratamento
da endometriose, porém nenhuma dessas drogas elimina a doença, e em alguns
casos, os efeitos colaterais provocados limitam seu uso a longo prazo (Ferrero et al.,
2006).
Atualmente, a avaliação histológica do endométrio durante a investigação de
rotina para infertilidade feminina não tem sido recomendada. O conceito de
anormalidades endometriais, não refletid o pelas alterações histológicas, tem
enfatizado as deficiências analíticas não diagnosticadas pela avaliação histológica
clássica, que podem levar à falha de impl antação embrionária. De fato, a relação
entre as alterações bioquímicas e a histolog ia normal enfatiza a necessidade de uma
abordagem molecular do endométrio, além da análise histológica, para testes
diagnósticos de fertilidade em mulheres com endometriose e outras causas de
infertilidade (Giudice e Kao, 2004).
Um dos maiores desafios da investigação genética da endometriose é a busca
por métodos de análise precisos e rápidos que revelem o máximo de informação
sobre a amostra. As técnicas de citogenética convencional permitem uma informação
detalhada sobre cada cromossomo e, portan to são bastante utilizadas com sucesso.
Entretanto, a necessidade de obtenção de células metafásicas requer um número
significante de células vivas para cultura, e dessa forma, a dificuldade de se obter
preparações cromossômicas metafásicas de boa qualidade e o tempo de cultura
celular prejudicam a aplicação desta metodologia.
A técnica de Hibridação Fluorescente in situ (FISH) é uma boa opção, pois
células interfásicas podem ser analisadas com sondas específicas para determinadas
26
regiões cromossômicas, evitando assim a cu ltura celular e reduzindo o tempo para a
obtenção dos resultados. Por outro lado , o número de cromossomos que pode ser
avaliado por FISH no mesmo experimento é limitado devido à probabilidade de falha
na hibridação e sobreposição de sinais fluorescentes de dois cromossomos.
Hibridações seqüenciais, ou seja, mais de uma hibridação na mesma célula com
sondas para cromossomos diferentes, também têm sido usadas para aumentar o
número de cromossomos a serem investig ados. No entanto, a eficiência da
hibridação diminui consistentemente a cada ciclo de hibridação (Liu et al., 1998).
A Hibridação Genômica Comparativa (CGH) é um método que permite a
produção de um mapa detalhado das diferenças entre cromossomos em diferentes
células, sem qualquer conhecime nto prévio sobre as regiõe s alteradas. Este método
detecta ganhos (amplificações) e perdas (deleções) de segmentos de DNA. A CGH
tem o potencial de investigar o acúmulo de alterações cromossômicas como uma
medida da estabilidade genética, bem como de monitorar as complexas alterações
citogenéticas detectadas em doenças humanas (Squire e Perlikowski, 1998).
Hibridação Genômica Comparativa e Endometriose
Nenhuma alteração cromossômica especí fica foi identificada em tecido
endometriótico por análise citogenética convencional, provavelmente devido às
limitações relacionadas à cultura de tecido (Dangel et al. , 1994). A técnica de FISH
tem a vantagem de não exigir cultura de células endometriais, já que pode ser
realizada em tecido fresco ou fixado (Vigano et al. , 2006). Shin e colaboradores
(1997) relataram que a freqüência de aneuploidia foi significativamente mais alta em
27
três de quatro amostras frescas de endome triose provenientes de mulheres afetadas
pela doença em estadio avançado (8,8 e 14,8% respectivamente para monossomia
dos cromossomos 16 e 17 em um caso; 14,8% para trissomia do cromossomo 11 no
segundo caso e 14,1% para monossomia do cromossomo 16 no terceiro caso)
quando comparado à freqüência média obse rvada em amostras de tecido normal
(3,4% para monossomia e 1,2% para tri ssomia). A CGH é uma técnica versátil que
supre as deficiências do FISH e da cito genética convencional, permitindo que o
genoma inteiro seja analis ado em um só experimento, sem a necessidade de
cromossomos metafásicos da amostra. (Kallioniemi et al., 1992).
Resumidamente, na metodologia de CGH, o DNA teste é marcado com um
fluorocromo verde, misturado em uma ra zão 1:1 com DNA normal marcado com um
fluorocromo vermelho, e ambos são hibridados em preparações metafásicas
humanas normais. O DNA normal e as me táfases são obtidos de um voluntário
saudável ou adquiridos comercialmente. Os fragmentos de DNA marcados em verde
e vermelho competem pela hibridação em seus locos de origem na preparação
metafásica. A proporção de fluorescência ve rde e vermelha medida ao longo do eixo
cromossômico representa perda (razão 1) de material
genético na célula da amostra em estudo , naquela região específica. Além do
microscópio de fluorescência, a técnica requer um software para a análise dos
resultados. A Hibridação Genômica Comparativa (CGH) permite um screening
completo do genoma com o objetivo de descobrir e mapear perdas e ganhos
cromossômicos (Squire e Perlikowski, 1998).
28
Diversas publicações utilizaram a CG H como ferramenta para detecção de
alterações genéticas na endometriose. Go gusev e colaboradores (1999) examinaram
18 lesões endometrióticas obtidas de paci entes em estadio avançado, e alterações
recorrentes no número de cópias de genes foram encontradas em 15 de 18 casos
(83%). Perdas de material genômico no s cromossomos 1p e 22q foram detectadas
em 50% dos casos. Outras perdas comuns foram observadas nos cromossomos 5p
(33%), 6q (27%), 7p (22%), 9q (22%), 16 (22% ), e 17q em um caso. Ganhos de
seqüências de DNA foram encontrados em 1q, 6q, 7q e 17q em quatro casos. Em um
trabalho subseqüente, o mesmo grupo (Gogusev
et al., 2000) avaliou por CGH uma
linhagem celular permanente derivada de endometriose (FbEM-1) e observou que
ganhos cromossômicos eram mais comumente observados do que perdas, sendo que
um aumento significativo do número de cópias de seqüên cias de DNA foi detectado
em 1q, 5p, 6p e 17q correspondendo a amplificações.
A metodologia de CGH também foi utilizada na avaliação de alterações
genéticas em casos de carcinomas de ovário com origem na endometriose (Mhawech
et al. , 2002). Foram observadas alterações cromossômicas em três casos de
carcinoma de ovário sendo ganhos em 1q, 8q e 13q e perda em 10p. No entanto,
nenhuma alteração cromossômica foi detectada no tecido endometriótico de nenhum
dos três. Os autores concluíram que essa s regiões alteradas podem conter genes
supressores tumorais ou oncogenes respon sáveis pela transformação maligna da
endometriose.
Mais recentemente, a metodologia de CGH-array, que substitui os
cromossômicos metafásicos por regiões de DNA genômico, começou a ser utilizada
29
em estudos de endometriose (Guo et al. , 2004) para detecção de perdas e ganhos
genômicos.
Apesar de alguns trabalhos terem avaliado a endometriose em relação a
possíveis alterações crom ossômicas detectadas por CGH, somente um estudo
comparou o tecido endometr iótico ovariano e o endomé trio normal das mesmas
pacientes. Wu e colabora dores (2006) investigaram tecidos ectópicos e eutópicos,
porém utilizando a técnica de array-CGH, tanto em endometrioses peritoneais quanto
ovarianas.
Genes Candidatos em Endometriose
Aproximadamente 50% das lesões en dometrióticas poderiam produzir
alterações genéticas somáticas em re giões cromossômicas que supostamente
conteriam genes envolvidos na tumorigê nese ovariana, especialmente do tipo
endometrióide (Jiang et al. , 1996). Alterações genéticas comuns foram detectadas
em casos de endometriose concomitante com cânceres, apoi ando o modelo de
progressão da carcinogênese a partir de um precursor benigno ao tumor de ovário
(Jiang et al., 1998; Thomas e Campbell, 2000a; b).
Um número cada vez maior de pesquisa s tem sido realizado na procura por
associações entre a endometriose e altera ções/polimorfismos em genes candidatos.
Dentre as associações descritas estão:
- Galactose–I-fosfatase uridiltransferase ( GALT): Localizado em 9p13, foi o
primeiro gene candidato a ser a ssociado à endometriose (Cramer et al. , 1996). O
30
polimorfismo específico de scrito foi uma transição ad enina-guanina, onde uma
mutação no códon 314 do éxon 10 levari a a uma substituição de aspartato por
asparagina. Entretanto, esta associação não foi confirmada por outros autores
(Morland et al., 1998; Hadfield et al., 1999; Stefansson et al., 2001).
- Genes de Detoxificação de Fase I (receptor Ah, CYP1A1, NAT2): Enzimas do
metabolismo de drogas da fase I, que ag em introduzindo um grupo funcional em
seus substratos endógenos e exógenos, po dem estar relacionadas à ativação de
compostos pro-carcinogênicos. Aproxi madamente 10% da população humana
apresenta “alta” inducibilidade do CYP1A1 como resultado do polimorfismo A2, e
poderiam apresentar um maior risco pa ra o desenvolvimento de tumor ou, por
analogia, de endometriose (Bischoff e Simpson, 2004).
- Genes de Detoxificação de Fase II ( GSTs, NAT2): os genes GSTs, GSTMI e
GSTT, cruciais para a detoxificação de prod utos do estresse oxidativo, são de
relevância específica já que são produzid os durante o reparo do epitélio ovariano
(Sarhanis et al., 1996).
- Genes relacionados a esteróides (receptor de estr ógeno, gene da
aromatase): A relação entre endometriose e o aumento da produção de estrógeno é
uma hipótese largamente difundida e bi ologicamente plausí vel. O receptor de
estrógeno (ER) e o gene da aromatase (CYP19) são prováveis genes candidatos. Eles
podem tanto aumentar o acúmulo de estr ógeno quanto produzir um ambiente
hormonal mais rico do que o convencional (Bulun et al., 2000).
- Genes de Adesão Intracelular ( ICAM-I), matriz de metaloproteinases e
fatores angiogênicos: Genes candidatos baseados em estudos imunohistoquímicos in
31
vivo e in vitro (Henriet et al., 2002; Lessey, 2002; Osteen et al., 2002). Moléculas de
adesão celular, principalmente integrinas e caderinas, são os principais mediadores
de adesão célula-célula e célula-matriz e su a expressão pode ser importante para a
adesão inicial do tecido esfoliado (Beliard et al., 1997).
- Citocinas: Lebovic e colaboradores (2002) relataram que o gene de ciclo
celular Tob-1 estava menos expresso em amostras de endometriose (48%) quando
comparado ao controle (16%), após tratamento com IL1-β.
- Genes de reparo a DNA mismatch: A metilação alterada nesses genes tais
como hMLHI foi observada em 4/46 casos de endo metriose de grau III/IV (8,6%)
(Martini et al., 2002).
- Genes supressores tumorais: Bischo ff e Simpson (2004) sugeriram como
principais genes candidatos os oncogene s e genes supressores tumorais mapeados
no cromossomo 17, especificamente BRCAI e TP53. Por outro lado, alguns autores
concordam que a imunorreatividade da p 53 não é detectável em amostras de
endometriose não associadas a carcinomas (Vercellini et al. , 1994; Schneider et al. ,
1998; Okuda et al., 2003). Outro gene supressor tumoral estudado em endometriose
é o PTEN, mapeado em 10q23. Mutações no PTEN foram relatadas em tumores
endometrióticos (Obata et al. , 1998) e em tumores epiteliais ovarianos relacionados
à endometriose (Campbell e Thomas, 2001). Mutte r e colaboradores (2000)
enfatizaram que a perda da função do PTEN seria um evento primário na
tumorigênese endometriótica. Enquanto nenhuma amostra de endométrio normal
apresentou mutações no PTEN, uma taxa de mutação de 83% foi encontrada em
32
adenocarcinomas endometriais endometrióid es e de 55% em lesões intraepiteliais
endometriais pré-malignas.
- Oncogenes: Nezhat e colaborado res (2002) compararam padrões de
coloração de bcl-2 em cistos endometrió ticos benignos, tumores ovarianos e áreas
de endometriose associadas aos tumores, em uma tentativa de identificar uma
correlação seqüencial e etiológica. Apenas 23% dos cistos endometrióticos foram
corados positivamente para bcl-2 enquanto 67% dos tumores endometrióides e 74%
dos carcinomas ovarianos de células claras apresentaram resultado positivo. Das 12
amostras de endometriose de áreas adjace ntes a carcinomas endometrióides e das
11 amostras de endometriose adjacentes a neoplasias de células claras, 42 e 73%
respectivamente expressaram bcl-2.
Bischoff e Simpson (2004) criaram a hipótese de que duas ou mais alterações
gênicas concomitantes são necessárias para o surgimento da endometriose.
Diferentemente da neoplasia em si, os genes alterados na endometriose não
necessariamente precisam ser oncogenes ou genes supressores tumorais. Os autores
acreditam que o primeiro passo envolve um gene que aumenta a predisposição para
adesão e implantação do tecido endometrial menstrual que sofreu refluxo. Esse gene
pode estar envolvido com citoesquel eto (MMPs) ou adesão celular (
ICAMI). O
segundo passo deve considerar genes de crescimento endometrial como receptor de
estrógeno (ER) ou de regulação de esteróides ( CYP19). Eles também sugerem que
em passos adicionais possa haver a participação de um oncogene, o que então
levaria a uma proliferação celular descontrolada.
33
A endometriose realmente apresenta al guns aspectos de malignidade como
crescimento e vascularização aumentados e invasão tecidual, mas características
importantes do câncer como expansão monoclonal e alterações genéticas
permanecem não esclarecidas. A presença de mutações gênicas deve ser investigada
não apenas em casos de endometriose co ncomitante ao câncer de ovário ou a
formas de transição histológica, mas tamb ém em cistos endometrióticos isolados.
Devido à etiologia complexa e multifatoria l, envolvendo herança familial e múltiplos
genes candidatos, a endometriose é considerada alvo ideal para estudos de
screening genômico.
34
Justificativa
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JUSTIFICATIVA
A endometriose é uma doença gineco lógica benigna comum que afeta em
torno de 10% das mulheres em idade repr odutiva. As pacientes podem apresentar
desde ausência completa de sintomas até dor pélvica, dismenorréia, dispaneuria e
infertilidade.
A literatura relata que 50% das pacien tes com dor pélvica e infertilidade
apresentam endometriose, e há 1% de risco de transformação maligna da
endometriose. Devido à dificuldade de estabelecer um diagnóstico preciso, e por ser
considerada um problema de saúde pública, torna-se importante identificar
marcadores biológicos para triagem de mu lheres com predisposição à endometriose,
assim como para o diagnóstico precoce e não invasivo da doença.
Apesar de alguns trabalhos terem avaliado a endometriose em relação a
possíveis alterações cromossômicas, util izando a metodologia de CGH, nenhum
desses comparou o tecido endometriótico ovariano e o endométrio normal das
mesmas pacientes. Até o mome nto, não existem relatos na literatura de estudos de
perdas e ganhos genômicos utilizando a metodologia de CGH em amostras brasileiras
de endometriose ovariana.
36
Objetivos
37
OBJETIVOS
O objetivo principal deste trabalho é determinar o diagnóstico citogenético
molecular de amostras de endometrio mas ovarianos e de tecido eutópico
(endométrio) das mesmas pacientes, por me io da técnica de Hibridação Genômica
Comparativa.
Os objetivos intermediários são:
(a) Detecção de perdas e/ou ganhos de regiões cromossômicas em
amostras de endometriose;
(b) Comparação entre os result ados obtidos nas lesões
endometrióticas ovarianas e no t ecido endometrial eutópico de
pacientes com diagnóstico de endometriose;
(c) Identificação das regiões cr omossômicas preferenciais e
conseqüentemente de genes que possam estar envolvidos no
processo de desenvolvimento da doença.
38
Material
Foram utilizadas 20 amostras teciduais de endométrio eutópico e ectópico das
10 pacientes na fase proliferativa do ciclo menstrual (1 ˚ ao 12 ˚ dia). Durante a
laparoscopia, exame para diagnóstico da endometriose, foram coletadas biópsias das
diferentes lesões endometrióticas, send o 10 amostras de endometrioma ovariano e
41
10 amostras de endométrio eutópico das mesmas pacientes utilizando Cureta de
Novak. Por se tratar de um procedimento rotineiro para diagnóstico, não acarretou
desconforto adicional às pacientes.
Todos os casos foram histopatologic amente confirmados. A doença foi
estadiada de acordo com a classificação da American Society for Reproductive
Medicine (1997). As amostras foram armazenadas em freezer a -80 ˚C após
tratamento com criopreservador Tissue-T eck® O.C.T. Compound (Sakura Finetek
USA. Inc., Torrance, CA).
Métodos
Preparação das Células Metafásicas
Amostras de sangue periférico de indi víduos normais do sexo feminino foram
cultivadas durante 72 horas a 37 °C segundo a técnica de obtenção de células
metafásicas a partir da cultura temporária de linfócitos de sangue periférico
(Moorhead et al. , 1960) modificada por Ferrari (1968). Em resumo, a cultura de
sangue periférico foi estimulada com fitohemaglutinina (Difco) por 71 horas a 37 °C.
Adicionou-se colchicina 0,0016% permanecendo por 1 hora a 37 °C. A hipotonização
foi feita com solução de KCl (0,075M) e interrompida ap ós 20 minutos com fixador
(metanol/ácido acético 3:1). O procedimento de fixação do sedimento foi repetido
duas vezes, sendo que a última repetição foi realizada com fixador na proporção
metanol/ácido acético 1:1. Após o gotejamento do material nas lâminas, estas foram
armazenadas a -20°C até sua utilização.
42
Extração de DNA de tecido endometrial
O DNA foi isolado utilizando o reagente TRIzol LS (Invitrogen) de acordo com
as normas do fornecedor, para posterior amplificação e marcação por SCOMP.
Após a retirada da fase aquosa com RN A, os tubos contendo a interfase/fase
orgânica com TRIzol foram centrifugad os a 12.000 RPM durante 5 minutos a 4 ˚C.
Qualquer resquício da fase aquosa foi cuidadosamente removido evitando assim a
contaminação do DNA com RNA. Foram ad icionados 5 mL de tampão BEB (back
extraction buffer) para cada 1 mL de TRIz ol utilizado para a extração de RNA em
cada tubo. Durante pelo menos 3 minutos, as amostras foram homogeneizadas por
inversão dos tubos. Os tubos foram centrifugados a 12.000 RPM durante 30 minutos
em temperatura ambiente. A fase aquosa su perior foi transferida para outro tubo
onde foram adicionados 0,4 mL de isopropanol para cada 1 mL de TRIzol. A amostra
foi misturada por inversão durante 5 minu tos à temperatura ambiente. Em seguida
as amostras foram centrifugadas a 12.000 RPM durante 15 minutos a 4 ˚C. O
sobrenadante foi removido e 0,5 mL de etanol 70% para cada 1 mL de TRIzol
utilizado na extração de RNA foi adiciona do ao DNA precipitado para lavagem. A
amostra foi centrifugada a 12.000 RPM durante 15 minutos a 4 ˚C. O etanol foi
removido e o DNA foi ressuspendido em 20µL de água. O DNA foi então armazenado
a -80˚C até sua utilização.
43
Amplificação e Marcação do DNA por SCOMP
- Single Cell Comparative Genomic Hybridization -
O protocolo utilizado para marcação por SCOMP foi proposto em 2002
(Stoecklein et al., 2002). Para a ligação de adaptadores, foi utilizado um total de 150
a 300 ng do DNA purificado. As reações de clivagem com a endonuclease de
restrição MseI, ligação dos adaptadores e a primeira amplificação pela PCR foram
realizadas no mesmo tubo para prevenir a perda de fragmentos genômicos.
Inicialmente, o DNA foi submetido à clivagem com 24 unidades da
endonuclease de restrição MseI (New England Biolabs ), em tampão universal One-
phor-All buffer plus (OFA pl us) (10mM de Tris-acetato pH 7,5, 10mM de acetato de
magnésio, 50mM de acetato de potássio). Incubou-se a 37°C durante 3 horas e em
seguida a 65°C, durante 5 minutos, para inativação da enzima.
Em um tubo separado, os adaptadores foram formados pelo pareamento dos
oligonucleotídeos LIB1 (5’-AGTGGG ATTCCTGCTGTCAGT-3’) e ddMseI (5’-
TAACTGACAGCdd-3’). O pareamento de base s dos oligonucleotídeos adaptadores foi
realizado em tubo separado, submetido a um gradiente de temperatura de 65°C a
15°C com rampa de 1 min/°C. Em seguida, adicionou-se 1 µL de ATP 10mM
(Invitrogen) e 1 µL de T4 DNA ligase (Roche) 5U/µL. Esta mistura foi transferida ao
DNA previamente tratado com a endonuclease MseI e incubada a 15°C overnight.
Após a ligação dos adaptadores, o kit Elongase Amplification System (Roche)
foi utilizado para a amplificação primária. A reação foi realizada em um volume final
de 50 µL contendo 2,5 mM de cada dNTP, 60 mM de Tris-SO 4 pH 9,1, 10 mM de
44
(NH4)SO4, 1,5 mM de MgSO4 e 1 unidade da enzima Expand Long Template (Roche).
Adicionamos 40 µL desse mix aos 10 µL da reação de ligação. A amplificação foi
realizada em um termociclador programá vel PTC-200 (MJ Research) e consistiu de:
(a) 68°C por 3 minutos, (b) 15 ciclos de 94°C por 40 segundos, 57°C por 30
segundos e 68°C por 1 minuto e 30 segundos (com 1 segundo adicional por ciclo
para a temperatura de extensão), (c) 8 ciclos de 94°C por 40 segundos, 57°C por 30
segundos (com 1 segundo adicional por ciclo) e 68°C por 1 minuto e 45 segundos
(com 1 segundo adicional por ciclo), (d) 22 ciclos de 94°C por 40 segundos, 65°C por
30 segundos e 68°C por 1 minuto e 53 segundos (com 1 segundo adicional por ciclo)
e (e) 1 ciclo de 68°C por 3 minutos e 40 segundos.
Os produtos de amplificação foram pu rificados utilizando-se o QIAquick PCR
Amplification Kit (QIAGEN) de acordo com as instruções do fornecedor.
Para a amplificação secundária, 2 µL do produto previamente purificado foram
utilizados como molde em uma segunda reaç ão de amplificação para marcação dos
fragmentos. A solução de reação foi composta por 60 mM de Tris-SO4 pH 9,1, 10 mM
de (NH 4)SO4, 1,5 mM de MgSO 4, 2 unidades da enzima Elongase, 1,4 µM do
oligonucleotídeo LIB1, 330 µM de dGTP, dATP e dCTP, 290 µM de dTTP e 40 µM de
digoxigenina 11-dUTP (para o DNA de refe rência) ou biotina 16-dUTP (para o DNA
teste).
As condições de amplificação foram de 1 ciclo de 94°C por 1 minuto, 60°C por
30 segundos, 68°C por 2 minutos; 10 ciclos de 94°C por 30 segundos, 60°C por 30
segundos e 68°C por 2 minutos com 20 segundos adicionais por ciclo.
45
O oligonucleotídeo LIB1 foi removido pelo tratamento com a enzima de
restrição TruI (Fermentas) conforme as instruções reco mendadas pelo fornecedor. A
enzima foi inativada a 65°C por 5 minutos.
Para a reação de precipitação, 8 µg de DNA teste (marcado com biotina 16-
dUTP) foram colocados em um tubo de reação, juntamente com 8 µg de DNA de
referência (marcado com digoxigenina 11-dUTP), 10 µL de Human Cot-1 DNA (1
mg/mL), 10 µL de DNA de esperma de salmão (10 µg/µL), 10 µL de acetato de sódio
3 M, 400 µL de etanol absoluto gelado. O tubo foi mantido a -20ºC overnight ou a -
70ºC durante 1 hora. Centrifugou-se a 14.000 RPM, a 4ºC durante 45 minutos,
adicionou-se 300 µL de etanol 70%, centrifugou-se novamente e depois o material
permaneceu secando à temperatura ambien te. O mesmo foi ressuspendido em 6 µL
de solução 30% dextran sulfato/4xSSC durante 15 minutos a 37 ˚C e em seguida
foram adicionados 6 µL de formamida 100%. A sonda foi desnaturada por 6 minutos
a 78ºC e incubada a 37ºC por 1 hora (pré-anelamento).
Hibridação Genômica Comparativa
Metáfases normais do sexo feminino foram tratadas em uma solução 10%
pepsina/0,01M HCl a 37°C durante 2 minutos para eliminação do citoplasma. Em
seguida, as lâminas foram incubadas em PBS/MgCl 2 durante 5 minutos em
temperatura ambiente, desidratadas em uma série de etanóis (70%, 90% e 100%
por 2 minutos cada) e deixadas à temperatur a ambiente para secagem. As lâminas
foram então incubadas em solução 2xSSC a 72°C durante 30 minutos e depois em
uma nova solução 2xSSC a temperatura am biente durante 5 minutos e em solução
46
0,1xSSC a temperatura ambiente dura nte 1 minuto. Em seguida ocorreu a
desnaturação das lâminas em solução NaOH à temperatura ambiente durante 45
segundos e a incubação seqüencial das lâ minas em 0,1xSSC a 4°C durante 1 minuto
e em 2xSSC a 4°C durante 1 minuto. As pr eparações foram então desidratadas em
uma série de etanóis (70%, 90% e 100% por 2 minutos cada). Quando as lâminas
estavam completamente secas, a sonda foi aplicada às lâminas e coberta com
lamínula, que foi selada com rubber cement. A hibridação ocorreu em câmara úmida
a 37°C durante 72 horas.
Após a hibridação, as lâminas fora m lavadas seqüencialmente em 50%
formamida / 2xSSC pH 7,0, a 45 ˚C durante 5 minutos por 3 vezes; 0,1% SDS /
0,1xSSC a 45 ˚C durante 5 minutos por 3 vezes e 2xSSC a 45 ˚C durante 5 minutos
por 3 vezes. Em seguid a, uma solução de 20 µL de tampão TNB (0,1 M TRIS pH
7,5/0,15 M NaCl/0,5% blocking reagente – Roche) e 20 µL de tampão block I (3%
BSA e 4xSSC pH 7,0/0,1% Tween 20) foi apli cada às lâminas e estas foram cobertas
com lamínula e incubadas a 37°C em câma ra úmida durante 45 minutos. Após este
procedimento, as lamínulas foram reti radas e foi aplicada uma solução de 10 µL de
tampão block I, 10 µL de tampão TNB, 5 µL de anti-digoxigenina-rodamina e 8 µL de
FITC-avidina. As lâminas foram cobertas com lamínulas e incubadas a 37°C em
câmara úmida durante 30 minutos. Finalizando, as lamínulas foram retiradas e as
lâminas foram lavadas em solução 4xSSC/0,1% Tween 20 a 45 ˚C durante 5 minutos
por 3 vezes e contracoradas com 20 µL de DAPI (VECTOR, CA) para a coloração dos
cromossomos e núcleos.
47
Análise de Imagens
Esta técnica utiliza uma estratégia de hibridação no qual o material genético a
ser investigado, geralmente o DNA da amos tra, é usado como uma sonda. Este DNA
é marcado com uma cor (por exemplo, verde, FITC), e uma quantidade igual de DNA
normal é marcada com uma cor diferente (c omo o corante vermelho rodamina). As
duas sondas de DNA são hibridadas simu ltaneamente a uma preparação metafásica
de cromossomos normais. Quando a amos tra contém cromossomos normais, ambas
as sondas estarão presentes em quanti dades iguais, e os dois corantes se
combinarão para produzir uma terceira cor, ou serão canceladas uma pela outra, e
removidas pelo computador. Quando a am ostra contém um excesso de material
cromossômico, como cromossomos ou re giões cromossômicas adicionais, ou
amplificações de genes, a cor será verde. Regiões genômicas deletadas na amostra
resultarão no excesso de sonda de DNA normal, produzindo um sinal vermelho. A
taxa de intensidade de cada fluorocromo é medida através do uso de um sistema de
análise de imagens digital, associado a um software apropriado (Blancato, 1999).
As preparações metafásicas foram examinadas em microscópio de
epifluorescência Axioskop 2 Plus (Zeiss), ca pturadas e analisadas pelo programa de
CGH Isis FISH Imaging System V 5.0 (M etasystem Gmbh, Althussheim, Germany).
Para cada hibridação, de 20 a 30 imagen s foram capturadas, 10 das quais foram
utilizadas para análise. O
software permite a comparação da quantidade de DNA
teste (verde) com a quantidade de DNA cont role (vermelho) hibridados ao longo da
extensão de cada cromossomo e dete rmina a razão média de fluorescência
vermelho/verde para cada cromossomo. Em regiões onde o núme ro de cópias de
seqüências de DNA teste e referência é idêntico, espera-se que a razão de
48
fluorescência seja 1,0; quando o número re lativo de cópias de seqüências de DNA é
maior no teste, a razão é maior do que 1,0; e quando o número relativo de cópias de
seqüências de DNA é menor no teste, a ra zão é menor do que 1,0. Desvios da razão
abaixo ou acima dos limites de 0,8-1,25 são classificados como representações
significantes de sub- ou sobre-representação do número de cópias das seqüências de
DNA na amostra teste.
Como controle interno, testes de hibr idação utilizando DNA normal masculino
(verde) versus feminino (vermelho) e depois, DNA normal masculino (vermelho)
versus feminino (verde) foram utilizados para confirmar a eficiência da hibridação.
Todos os cariótipos foram analisados por mais de um observador para garantir a
confiabilidade do teste.
Análise por Bioinformática
As listas de genes reconhecidos nas re giões de interesse foram obtidas nos
bancos de dados Ensembl (Sanger Institute,
http://www.ensembl.org/Homo_sapiens/index.html). Após a obtenção dessas listas
de genes, a ferramenta FatiGO Plus (FatiG O+), do utilitário on-line Babelomics (Al-
Shahrour et al. , 2006), foi utilizada para estratific ar todos os locos existentes nas
regiões de interesse, de acordo com suas propriedades biológicas, bioquímicas e
funcionais. A ferramenta on-lin e PDQ-Wizard v.0.1 (Grimes et al., 2006) foi utilizada
para cruzar a lista dos genes com palavras-chave de interesse.
49
Resultados
50
RESULTADOS
Vinte amostras de tecido endometrial foram analisadas pe la metodologia de
CGH. A Figura 1 representa o padrão de hibridação obtido. Estas amostras foram
divididas em dois grupos, sendo dez amostr as de tecido endometrial eutópico no
primeiro grupo e dez de tecido endometrial ectópico ovariano no segundo grupo.
A análise do software Metasystem ap ontou alterações cromossômicas em
ambos os grupos analisados (Tabela 2). No grupo eutópico, 6/10 amostras
apresentaram alterações e no grupo ectóp ico foram encontradas alterações em 7/10
casos. As alterações observadas no grupo eutópico foram perda em 9q (dois casos) e
ganhos em 1p (dois casos), 1q (três caso s), 2q, (um caso), 9q (dois casos), 11q
(dois casos), 12q (um caso), 13p, (um caso ), 14p (dois casos), 14q (um caso), 15p
(um caso), 16q (um caso), 17p (dois casos), 17q (dois casos), 19p (quatro casos),
19q (três casos), 20q (um caso), 21p (um caso), 21q (um caso) e 22q (três casos). O
grupo ectópico apresentou perdas em 8p (u m caso), 9p (um caso ), 9q (três casos),
15q (um caso) e ganhos em 1p (um caso), 1q (três casos), 11q (dois casos), 13p,
(um caso), 14p (um caso), 15p (um caso), 16q (três casos), 17p (três casos), 18p
(um caso), 19p (três casos), 19q (dois ca sos), 20q (um caso), 21p (um caso), 22q
(um caso) e Xq (um caso).
51
Figura 1: Padrão de hibridação obtido pe la técnica de CGH. No alto, da esquerda
para a direita, metáfase observada ao mi croscópio de epifluorescência Axioskop 2
Plus (Zeiss), no filtro para DAPI, FITC, Rodamina e a sobreposição de cores. Abaixo,
perfil obtido após a captura das metáfases do caso ON1.
52
Tabela 2: Alterações cromossômicas de tectadas por CGH nos dois grupos: dez
amostras de tecido endometrial ectópic o e 10 amostras de tecido endometrial
eutópico.
ECTÓPICO EUTÓPICO
O1 -9q ON1 sem alterações
O2 -9q ON2 -9q
O3 -9q ON3 -9q, +19p, +22q
O4 +1q, -8p, +11q, +13p,
+14p, +15p, -15q, +16q,
+17p, +19p, +19q, +21p,
+Xq
ON4 +1q, +13p, +14p, +15p,
+16q, +17p, +19p, +19q,
+21p
O5 sem alterações ON5 +1q
O6 sem alterações ON6 sem alterações
O7 +1p, +1q, -9p, +11q, +16q,
+17p, +18p, +19p, +19q,
+20q, +22q
ON7 +1p, +2q, +9q, +11q,
+12q, +14q, +17q, +19p,
+19q, +21q, +22q
O8 sem alterações ON8 sem alterações
O9 +17p ON9 sem alterações
O10 +1q, +16q, +19p ON10 +1p, +1q, +9q, +11q,
+14p, +17p, +17q, +19p,
+19q, +20q, +22q
(-) = perda; (+) = ganho; vermelho = perda; verde = ganho.
O = tecido de endometriose ovariana; ON = tecido de endométrio normal das mesmas
pacientes com endometriose ovariana.
Quando as amostras foram separadas por paciente, foram formados 10 grupos,
cada um contendo uma amostra de tecido eutópico e ectópico de uma mesma paciente.
Duas pacientes (O6/ON6 e O8/ON8) não apresentaram nenhuma alteração em ambos
53
os tecidos. Duas pacientes (O1/ON1 e O9 /ON9) apresentaram alteração apenas no
tecido ectópico, sendo perda em 9q na paciente O1 e ganho em 17p na paciente O9.
Uma paciente (O5/ON5) apresentou alteração apenas no tecido eutópico, sendo um
ganho em 1q. Foram observadas alterações cromossômicas em ambos os tecidos em
cinco pacientes (O2/ON2, O3/ON3, O4/ON4, O7/ON7 e O10/ON10). A paciente O2/ON2
apresentou a mesma alteração (perda em 9q) tanto no te cido eutópico quanto no
ectópico. A paciente O3/ON3 mostrou perda em 9q como alteração comum nos dois
tecidos, entretanto, ganhos em 19p e 22q foram encont rados apenas no tecido
eutópico. Na paciente O4/ON4, todas as alterações encontradas no tecido eutópico
(ganho de 1q, 13p, 14p, 15p, 16q, 17p, 19p, 19q e 21p) também foram encontradas no
ectópico, no qual também se observou perda de 8p e 15q, e ganho de 11q e de Xq. A
paciente O7/ON7 apresentou ganhos em 1p, 11q, 19p, 19q e 22q nos dois tecidos, mas
foram encontrados ganhos em 2q, 9q, 12q, 14q, 17q e 21q apenas no tecido eutópico e
ganhos em 1q, 16q, 17p, 18p e 20q, bem como perdas em 9p apenas no tecido
ectópico. Por fim, a paciente O10/ON10 apresentou ganho de 1q e 19p em ambos os
tecidos, porém, ganho em 16q foi encontrado no tecido ectópico e ganhos em 1p, 9q,
11q, 14p, 17p, 17q, 19q, 20q e 22q foram encontrados apenas no tecido eutópico.
As Figuras 2 e 3 ilustram as alteraçõ es encontradas somando-se todas as
lesões ectópicas e eutópicas, respectivamen te. Os cromossomos 3, 4, 5, 6, 7 e 10
não apresentaram quaisquer alterações. As Figuras 4 a 20 representam as alterações
cromossômicas para o tecido eutópico e ectópico em cada um dos 10 pares de
amostras. As regiões cromossômicas 1p 33-pter, 11q12-q13.1, 17p11.1-p12, 17q25-
qter, 19, 20q11.23-qter e 22q11.2-qter apre sentaram alterações significativas, que
estão descritas nas Figuras 4, 8, 14, 16, 17 e 19.
54
Figura 2: Alterações cromossômicas detectadas por CGH no grupo de 10
amostras de tecido ectópico. Perdas em vermelho e ganhos em verde.
55
Figura 3: Alterações cromossômicas detectadas por CGH no grupo de 10
amostras de tecido eutópico das pacientes com endometriose. Perdas em vermelho e
ganhos em verde.
56
Figura 4: Alterações detectadas por CGH no cromossomo 1 no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. As barras
verdes representam ganho.
Figura 5: Alterações detectadas por CGH no cromossomo 2 no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. A barra
verde representa ganho.
57
Figura 6: Alterações detectadas por CGH no cromossomo 8 no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. A barra
vermelha representa perda.
Figura 7: Alterações detectadas por CGH no cromossomo 9 no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. As barras
vermelhas representam perda e as verdes representam ganho.
58
Figura 8: Alterações detectadas por CGH no cromossomo 11 no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. As barras
verdes representam ganho.
Figura 9: Alterações detectadas por CGH no cromossomo 12 no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. A barra
verde representa ganho.
59
Figura 10: Alterações detectadas por CGH no cromossomo 13 no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. As barras
verdes representam ganho.
Figura 11: Alterações detectadas por CGH no cromossomo 14 no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. As barras
verdes representam ganho.
60
Figura 12: Alterações detectadas por CGH no cromossomo 15 no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. As barras
verdes representam ganho e a vermelha representa perda.
Figura 13: Alterações detectadas por CGH no cromossomo 16 no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. As barras
verdes representam ganho.
61
Figura 14: Alterações detectadas por CGH no cromossomo 17 no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. As barras
verdes representam ganho.
Figura 15: Alterações detectadas por CGH no cromossomo 18 no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. A barra
verde representa ganho.
62
Figura 16: Alterações detectadas por CGH no cromossomo 19 no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. As barras
verdes representam ganho.
Figura 17: Alterações detectadas por CGH no cromossomo 20 no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. As barras
verdes representam ganho.
63
Figura 18: Alterações detectadas por CGH no cromossomo 21 no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. As barras
verdes representam ganho.
Figura 19: Alterações detectadas por CGH no cromossomo 22 no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. As barras
verdes representam ganho.
64
Figura 20: Alterações detectadas por CGH no cromossomo X no grupo de 10
amostras de tecido eutópico e ectópico das pacientes com endometriose. As barras
verdes representam ganho.
As alterações cromossômicas significat ivas envolveram os cromossomos 1p,
11q, 17p, 17q, 19, 20q e 22q. De vido ao fato de alguma s alterações terem sido
previamente detectadas em tecidos normais em 1p, 19 e 22, regiões ricas em G-C, já
descritas na literatura como resultados falso-positivos por CGH (Mhawech et al. ,
2002), essas regiões foram excluídas para futuras investigações. As regiões 11q, 17p
e 17q não envolvem regiões de seqüências repetitivas e apresentaram alterações em
mais de uma amostra, sendo, portanto selecionadas como re giões cromossômicas
preferenciais para futura identificaçã o de genes envolvidos no processo de
desenvolvimento da doença.
65
As listas dos genes reconhecidos nessas regiões de interesse (regiões pré-
selecionadas a partir dos ensaios de CG H) foram obtidas nos bancos de dados
Ensembl (Sanger Institute, http://www.ense mbl.org/Homo_sapiens/index.html),
especificando-se os intervalos de band a G de interesse. Foram obtidas listas de
genes, exportadas em formato textual, das regiões: 11q12.3- q13.1, 17p11.1-p12 e
17q25.3-qter. As listas foram utilizadas para triagens de genes com funções
relevantes que poderiam de alguma forma influenciar a ocorrência ou
comportamento das lesões endometrióticas. Após a obtenção das listas de genes, a
ferramenta FatiGO Plus (FatiGO+), do utilitário on-line Babelomics (Al-Shahrour et
al., 2006), foi utilizada para estratificar todos os locos existentes nas regiões de
interesse, de acordo com suas propriedades biológicas, bioquímicas e funcionais. A
ferramenta on-line PDQ-Wizard v.0.1 (Grimes et al., 2006) foi utilizada para cruzar a
lista dos genes com palavras-chave de interesse, obtendo-se o número total e a
identificação de cada pub licação pré-existente envolve ndo um determinado gene e
termos como “endometriose”, “endomé trio” ou “carcinoma de ovário”. A
sobreposição das duas ferramentas (FatiGo+ e PDQ Wizard) possibilitou a seleção de
vários genes relevantes nas regiões de interesse, entre eles, os genes VEGFB, BIRC5
e TNFRSF13B.
66
Discussão
67
DISCUSSÃO
A endometriose é uma doença ginecoló gica benigna agressiva, caracterizada
pela presença de tecido endometrial ectópico (Yang et al. , 2004). Embora muitas
mulheres possam apresentar focos da doença, mesmo assintomáticas (Nap et al. ,
2004), ela é caracterizada por sintomas como dismenorréia, dispaneuria, dor pélvica
e infertilidade (Poliness et al. , 2004). Acredita-se que cer ca de 10% da população
feminina total seja afetada (Dabrosin et al. , 2002) e que 50% das pacientes com
infertilidade e dor pélvica tenham endometriose (Cornillie et al., 1990).
A literatura relata que de 25% a 50% das mulheres inférteis apresentam
endometriose, e que de 30% a 50% das mu lheres com endometriose são inférteis
(The Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine, 2004).
No entanto, várias questões fisiopatológicas e terapêuticas a respeito da associação
entre endometriose e infertilidade permanecem não esclarecidas.
Até o momento, a etiologia da doença permanece desconhecida. A
endometriose na cicatriz após a cirurgia cesariana representa a única localização de
implantes endometrióticos cuja etiologi a é conhecida. Acredita-se que durante o
procedimento cirúrgico, quando a cavidade uterina está aberta, haja um alto risco de
decidualização da implantação do endométrio (Tarkowski et al., 2001).
Várias teorias têm sido propostas para explicar a etiologia da endometriose,
sendo as três principais a) implantação e crescimento de tecido endometrial em
locais ectópicos após o refluxo menstr ual retrógrado; b) desenvolvimento de
metaplasia; c) desenvolvimento a partir de remanescentes Müllerianos. Dados
epidemiológicos, cirúrgicos e patológicos questionam se as lesões peritoneais,
68
ovarianas e do septo retovaginal apresentam uma etiologia comum única ou se
representam três entidades com etiolo gia e patogênese distintas (Vigano et al. ,
2004). Embora a teoria do fl uxo retrógrado seja a mais aceita, diversos autores
sugerem uma origem diferente para cada um dos três tipos de endometriose (Nisolle
e Donnez, 1997; Giudice e Kao, 2004; Vigano et al., 2004).
Diversos fatores de risco já foram de scritos para endometriose, entre eles,
ciclos menstruais curtos, longa duração do fluxo menstrual, nuliparidade ou menarca
precoce bem como história familial da doen ça em parentes de primeiro grau. No
entanto, as causas genéticas da endome triose ainda são desc onhecidas, e pouca
informação existe acerca de riscos constitutivos individuais, tais como
hereditariedade e alterações genéticas so máticas que poderiam predispor à doença.
Discute-se que a endometriose possua um componente genético, e que alterações
cromossomo-específicas adquiridas possam estar envolvidas em sua patogênese.
Dada essa origem genética desc onhecida, estudos que promovam um
screening completo das alterações genômicas presentes em amostras de tecido
endometriótico, bem como de tecido norm al de pacientes com endometriose, podem
ser informativos na busca por um possível marcador genético para a doença, além
de contribuir para a definição de su a origem. Dessa forma, optamos pela
metodologia de CGH, que permite um screening total para perdas e ganhos
genômicos de uma amostra determinada.
Neste estudo avaliamos 20 amostras, sendo 10 de endometriose ovariana
(tecido ectópico) e 10 de tecido endometr ial normal (tecido eutópico) das mesmas
pacientes. Diversas alterações envolve ndo principalmente ganhos de regiões
69
cromossômicas foram observadas em ambos os tecidos, após análise citogenética
molecular por CGH.
A literatura é bastante controversa em relação aos aspectos genéticos da
endometriose e poucos estudos, utilizando a metodologia de CGH, foram realizados.
Utilizando a técnica de CGH, existem rela tos da total ausência de alterações
cromossômicas em todas as amostras de endometriose analisadas (Mhawech et al. ,
2002), bem como a detecção de perdas e ganhos de regiões cromossômicas em
15/18 amostras (83%), sendo principalm ente perdas em 1p 32-36, 5p, 6q, 7p14-
p22ter e 22q12.3-qter e ganhos em 6q e 17q (Gogusev et al. , 1999). Em nosso
estudo, encontramos alterações em 7/ 10 amostras (70%) de endometriomas
ovarianos, e diferentemente dos outros auto res, observamos principalmente ganhos
em 1p, 1q, 11q, 13p, 14p, 15p, 16q, 17p , 18p, 19p, 19q, 20q, 21p, 22q e Xq e
perdas em 8p, 9p, 9q e 15q (Figura 2).
Essa discrepância de resultados pode ser explicada pela diferença no número
amostral utilizado e pela heterogeneidad e da origem da amostra. Mhawech e
colaboradores (2002) avaliaram tecido endo metriótico de pacientes com carcinomas
de ovário provenientes da endometriose e, apesar do quadro clínico agressivo,
nenhuma alteração cromossômica foi encont rada no tecido endometriótico. Isto
sugere que não há uma associação estabel ecida entre alterações genômicas e pior
prognóstico, embora o estudo tenha sido realizado com apenas três pacientes. Nossa
análise também não encontrou nenhuma correlação entre a presença ou ausência de
alterações cromossômicas e um mau prog nóstico, de acordo com os dados do
seguimento clínico dessas pacientes. O fato das pacientes O4/ON4, O7/ON7 e
70
O10/ON10 apresentarem mais alterações cromossômicas que as outras não foi
relacionado com nenhuma complicação ou agravante da sintomatologia clínica.
Nenhuma das pacientes evoluiu para quadro de tumor de ovário após seguimento
clínico de três anos. Não foi observad a nenhuma diferença clínica, tanto nas
pacientes com perfil cromo ssômico normal, quanto na quelas que apresentaram
várias alterações.
O outro estudo (Gogusev et al. , 1999) analisou tecido endometriótico de
origens diferentes, sendo 6 implantes pe ritoneais, 2 nódulos endometrióticos
umbilicais e 10 endometriomas ovarianos. Nosso estudo inclui u apenas tecido
endometriótico ovariano, visando diminuir a heterogeneidade amostral, já que a
endometriose nas diferentes localizações pode apresentar alterações genéticas
distintas entre si, bem como diferentes origens.
A investigação do tecido endometrial eutópico de mulheres com endometriose
é outra questão bastante interessante. Um estudo utilizando a técnica de CGH array
mostrou que todas as cinco amostras estu dadas apresentaram diversas alterações
em vários cromossomos, sendo 1p, 3p e 4p as regiões mais comumente envolvidas
em alterações genômicas (Guo et al. , 2004). Além disso, houve uma
heterogeneidade considerável nas alteraçõ es entre as pacientes, já que nenhuma
alteração foi comum entre elas, provavelmente um resultado da heterogeneidade em
relação à idade do surgimento da doença, estadio e outros fatores desconhecidos.
Em nosso estudo, dentre as 10 amostras de tecido endometrial eutópico das
pacientes com endometriose, seis aprese ntaram alguma alteração cromossômica,
envolvendo perda em 9q e ganhos em 1 p, 1q, 2q, 9q, 11q, 12q, 13p, 14p, 14q, 15p,
71
16q, 17p, 17q, 19p, 19q, 20q, 21p, 21q e 22q (Figura 3). Estes resultados confirmam
que o endométrio histologicamente no rmal de mulheres com endometriose
apresenta alterações genômicas, como prev iamente descrito na literatura (Giudice e
Kao, 2004). A presença de alterações nas am ostras de tecido eutópico de mulheres
afetadas confirma a predisposição desse en dométrio ao desenvolvimento da doença,
podendo ser consideradas como alterações primárias para a doença.
Além disso, observamos que na maiori a dos nossos casos, as alterações
encontradas no tecido eutópico não fo ram as mesmas observadas no tecido
ectópico, com exceção do caso O2/ON2 onde a alteração no tecido eutópico foi a
mesma no ectópico (perda de 9q). Em um caso (O4/ON4), todas as alterações
encontradas no tecido normal foram observ adas também no tecido endometriótico,
porém este apresentou algumas outras al ém das que foram encontradas no tecido
eutópico. Em outros três casos (O3/ON3, O7/ON7 e O10/ON10), ambos os tecidos
compartilharam apenas algumas das al terações. Esta aparente falta de
homogeneidade poderia ser devido à possib ilidade de múltiplas vias que levam à
endometriose. A observação de alterações diferentes nos dois tecidos da mesma
paciente coloca em dúvida a aplicabilidade da teoria de Sampson em nossas
amostras. Pela teoria do fluxo reverso, supõe-se que as mesmas alterações
encontradas no endométrio normal fossem encontradas no tecido endometriótico e
que este pudesse apresentar alterações extras que seriam responsáveis por
características favoráveis ao desenvolvi mento da endometriose, como adesão,
proliferação celular, controle negati vo da apoptose e an giogênese, que o
diferenciariam do tecido histologicamente normal.
72
Embora a teoria mais aceita seja a teoria da implantação de Sampson
(Sampson, 1927), existem linhas de pesq uisa sugerindo que a endometriose
ovariana possui uma origem diferente da peritoneal. Postula-se que a origem da
lesão peritoneal ocorra, de fato, por impl antação de células provenientes do fluxo
retrógrado, e que a lesão ovariana origina-se por metaplasia do tecido ovariano, isto
é, indiferenciação e rediferenciação da célula ovariana, com mudança de
características adquirindo um fenótipo endometrial (Nisolle e Donnez, 1997). Ou
seja, a lesão seria originada de células ovarianas alteradas, e não do endométrio.
Um dos argumentos que sustenta m essa teoria é a presença de
endometriomas em pacientes com a síndrome de Rokitansky-Küster-Hauser, que não
possuem útero e, portanto, não sofrem menstruação retrógrada (Rosenfeld e Lecher,
1981). Dessa forma, nossos resultados ev idenciando alterações cromossômicas
diferentes entre os tecidos ectópico e eu tópico podem corroborar com os dados da
literatura, que sugerem origen s diferentes para as lesões peritoneais e ovarianas. O
fato não exclui a possibilidade das pa cientes que apresentaram um tecido
endometrial geneticamente alterado, apresentarem uma maior predisposição para
desenvolvimento de endometr iose peritoneal devido ao mecanismo da menstruação
retrógrada.
A metaplasia do epitélio celômico é uma das três teorias que tem sido
propostas para explicar a patogênese da endometriose ovariana típica, além da
inversão e progressiva invaginação do córtex ovariano após o acúmulo de
fragmentos menstruais derivados do sa ngramento de implantes endometrióticos
superficiais localizados na superfície ov ariana, e do envolvimento secundário de
cistos ovarianos funcionais por implantes endometriais localizados na superfície
73
ovariana (Vigano et al. , 2004). A hipótese da metaplasia celômica propõe que a
membrana celômica original sofre meta plasia formando glândulas e estroma
endometriais típicos. Essa teoria é su stentada pela descrição de casos de
endometriose nas quais não ocorre menstruação retrógrada.
As alterações cromossômicas significativas nas amostras analisadas
envolveram os cromossomos 1p, 11q, 17p, 17q, 19, 20q e 22q. As regiões 1p, 19 e
22 não foram consideradas para análise, devi do à alta freqüência de polimorfismos e
a região 20q apresentou-se alterada em somente uma amostra. Desta forma, as
regiões 11q, 17p e 17q foram consideradas regiões alvo, justificando a aplicação de
ferramentas de bioinformática para seu mapeamento.
Entre os inúmeros genes contidos nessa s regiões de interesse, identificamos
vários deles relacionados à angiogênese, regulação do ciclo celular, resposta
imunitária e adesão celular. Na região 11q12.3-q13.1, encontram-se diversos genes
relevantes, entre eles:
RELA (v-rel reticuloendotheliosis viral oncogene homolog A,
nuclear factor of kappa light polypeptide gene enhancer in B-cells 3, p65 [avian] ),
que atua no desenvolvimento tecidual e como regulador negativo da apoptose; CFL1
(cofilin 1[non-muscle]), que atua na diferenciação celular e na regulação negativa da
apoptose; SYVN1 ( synovial apoptosis in hibitor 1, synoviolin ), responsável pela
regulação negativa da apoptose; VEGFB (vascular endothelial growth factor B ), que
atua na regulação positiva da proliferaç ão celular e regulação do ciclo celular;
MARK2 (MAP/microtubule affinity-regulating kinase 2 ), atuando na morfogênese da
célula e nas cascatas de sinalização intracelular; e HTATIP ( HIV-1 Tat interacting
protein) responsável pela regulação do crescime nto celular e pela via de sinalização
do receptor de andrógeno e hormônios esteróides.
74
A região 17p11.1-p12 também contem genes relevantes, como UBB (ubiquitin
B), responsável pela morfogênese celular durante a diferenciação, desenvolvimento
celular e migração celular; MAP2K3 (mitogen-activated protein kinase 3 ), que atua
em respostas inflamatórias, processos me tabólicos de citocinas e como regulador
positivo da transcrição; SREBF1 ( sterol regulatory element binding transcription
factor 1), atuando em processos metabólico s de esteróides e do colesterol; TOP3A
(topoisomerase [DNA] III alpha ), atuando na fase M do ciclo celular meiótico e na
duplicação do DNA; TNFRSF13B (tumor necrosis factor receptor superfamily,
member 13B), que atua na resposta imunitária como receptor do Fator de Necrose
Tumoral ( TNF); e MAPK7 ( mitogen-activated protein kinase 7 ), responsável pela
morfogênese de órgãos e angiogênese.
Na região 17q25-qter encontramos os seguintes genes cujas funções são
relevantes: PDE6G (phosphodiesterase 6G, cGMP-specific, Rod, gamma) que atua na
cascata de sinalização intracel ular e na transdução de si nais ligados a receptores de
superfície celular; BIRC5 (baculoviral IAP repeat-containing 5 [survivin]), responsável
principalmente pela regulação negativa da apoptose, regulação do ciclo celular e
checkpoint do ciclo celular; CARD14 ( caspase recruitment do main family, member
14), atuando principalmente na regulação da apoptose; SOCS3 ( suppressor of
cytokine signaling 3), que atua na regulação negativa da apoptose e na regulação do
crescimento celular; CBX4 (chromobox homolog 4 [PC class homolog, Drosophila] )
também atuando na regulação negativa da apoptose bem como na organização dos
cromossomos; PSCD1 (pleckstrin homolog, Sec7 and coiled-coil domains 1 [cytohesin
1]) responsável por adesão celular e tran sdução de sinal da proteína ras; MAFG (v-
maf musculoaponeurotic fibrosarcoma oncogene homolog G [avian] ), que atua na
75
morfogênese de tecidos e no desenvolvimento epidérmico; e LGALS3BP ( lectin,
galactoside-binding, soluble, 3 binding protein ), responsável pela adesão celular e
comunicação celular.
Estes dados evidenciam que as regi ões alteradas mais significativas
observadas neste trabalho contêm gene s candidatos que controlam processos
celulares.
A metodologia de CGH mostrou-se efic az para a identificação de regiões
críticas e genes possivelmente relacionados à fisiopatologia da endometriose. Em
estudo piloto realizado, investigamos três genes - VEGFB, BIRC5 e TNFRSF13B –
presentes nessas regiões críticas, pela técnica de PCR em tempo real. No entanto, os
resultados preliminares obtidos não foram conclusivos (Meola, 2008; personal
communication).
Esta foi a primeira investigação de perdas e ganhos cromossômicos utilizando
a metodologia de CGH em amostras de pacientes brasileiras com endometriose.
Também não há na literatura relatos de um estudo caso-c ontrole autólogo
envolvendo amostras de endometriose ova riana e endométrio normal das mesmas
pacientes, investigadas pela técnica de CGH. A detecção de regiões cromossômicas é
etapa fundamental para a identificaçã o futura de genes relacionados ao
desenvolvimento da doença e de marcadores moleculares para diagnóstico da
doença.
76
Conclusões
77
CONCLUSÕES
(1) A técnica de CGH permitiu a iden tificação de perdas e ganhos em
diferentes regiões cromossômicas, sendo que o cariótipo foi normal em 30% das
amostras de endometriomas ovarianos e em 40% das amostras de endométrio
eutópico das pacientes com diagnóstico de endometriose.
(2) A presença de perdas e ganhos de regiões cromossômicas no endométrio
eutópico, histologicamente normal, de mu lheres com endometriose ovariana, pode
ser considerada como alteração primária ao desenvolvimento da doença.
(3) As regiões cromossômicas de alte rações significativas detectadas em
amostras de tecido endometrial eutópi co e ectópico contém diversos genes
relacionados à adesão celular, resposta imun itária, proliferação celular e controle da
apoptose.
(4) A metodologia de CGH permitiu a detecção das regiões cromossômicas
11q12.3-q13.1, 17p11.1-p12 e 17q25.3-qter como regiões críticas, direcionando
investigações futuras para identificação de genes associados à endometriose.
78
Referências
79
REFERÊNCIAS
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Manuscrito submetido
para publicação
89
Title Page
Running Title: Genomic imbalance and endometriosis
Title: Genomic alterations detected by Comparative Genomic Hybridization in Ovarian
Endometriosis
Authors: Luciana Caricati Veiga, MSc. a
Julio César Rosa e Silva, MD, PhD.b
Juliana Meola, MSc.a
Jeremy Squire, PhD.c
Rui Alberto Ferriani, MD, PhD.b
Maisa Yoshimoto, PhD.c
Silvio Avelino dos Santos a
Lucia Martelli, MD, PhD.a
This study was performed in the Laboratory of Molecular Cytogenetics, Department of
Genetics, School of Medicine of Ribeirão Preto (FMRP-USP), Brazil and in the Division of
Applied Molecular Oncology from the Princess Ma rgaret Hospital, Ontario Cancer Institute,
University Health Network, Toronto, Canada.
Department affiliations:
a Department of Genetics, School of Medicine of Ribeirão Preto, University of São Paulo,
Ribeirão Preto, 14049-900, Brazil.
b Department of Gynecology and Obstetrics, School of Medicine of Ribeirão Preto, University
of São Paulo, Ribeirão Preto, 14049-900, Brazil.
c Division of Applied Molecular Oncology from the Princess Margaret Hospital, Ontario Cancer
Institute, University Health Network, Toronto, Canada.
Financial support: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq),
Brasília, Distrito Federal, Brazil; and Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Assistência
90
(FAEPA/HCFMRP-USP), Ribeirão Preto, São Paulo, Brazil. JAS and MY were supported by the
National Cancer Institute of Canada with funds from the Canadian Cancer Society.