endometriosis, levonorgestrel, cardiovascular diseases, leuprolide, risk factors.
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Características dos grupos SIU- LNG e aGnRH (acetato de Leuprolide) pré-
tratamento................................................................................................................. 41
Tabela 2- Efeitos do SIU-LNG e do aGnRH (A cetato de Leuprolide) sobre marcadores
clínicos de risco cardiovascular em mulheres com endometriose ........................... 42
Tabela 3- Efeitos do SIU-LNG e do aGnRH (acet ato de Leuprolide) sobre os marcadores de
risco cardiovasculares séricos em pacien tes com endometriose em seis meses de
tratamento................................................................................................................. 44
Tabela 4- Efeitos do SIU-LNG e do aGnRH (acetato de Leuprolide) sobre o perfil lipídico em
pacientes com endometriose em seis meses de tratamento...................................... 44
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1- Fluxograma do estudo............................................................................................... 37
LISTA DE ABREVIATURAS
aGnRH - agonista do hormônio liberador de gonadotrofinas
COCs – contraceptivos orais combinados
CT – colesterol total
DP – desvio padrão da média
DPC – dor pélvica crônica
DCV – doenças cardiovasculares
FC – freqüência cardíaca
HDL – lipoproteína de alta densidade
HDL-C – HDL colesterol
HHO – eixo hipotálamo hipófise ovariano
LDL – lipoproteína de baixa densidade
LDL – C – LDL colesterol
Fig. - figura
GnRH - hormônio liberador de gonadotrofinas
ICAM-1 – molécula intra-celular de adesão tipo 1
IL-1 – Interleucina-1
IL-6 – Interleucina-6
IMC – índice de massa corporal
LCT – leucócitos
LNG – levonorgestrel
MPA – acetato de medroxiprogesterona
MMPs - metaloproteases
NK – células natural killers
PAD – pressão arterial diastólica
PAS – pressão arterial sistólica
PCR – proteína C reativa
PDGF – fator de crescimento derivado de plaquetas
SIU – sistema intra-uterino
SIU-LNG – sistema intra-uterino liberador de levonorgestrel
TIMPs – inibidores teciduais de metaloproteases (tissue inhibitors of metalloproteases)
TNF – fator de necrose tumoral (Tumoral necrosis factor)
TNF-α – fator de necrose tumoral alfa
TNF-β – fator de necrose tumoral beta
TGF-β - fator de crescimento transformador β
TGL – triglicérides
VCAM-1 – molécula de adesão de célula vascular tipo 1
VEGF - fator de crescimento endotelial vascular
SUMÁRIO
SUMÁRIO∗
INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 22
1. Endometriose........................................................................................................................ 23
1.1 1.3.Endometriose e inflamação .......................................................................................... 24
1.2 Endometriose e Sistema Cardiovascular ............................................................................ 26
1.3 Opções terapêuticas para endometriose.............................................................................. 28
1.3.1. Sistema intra-uterino liberador de levonorgestrel (SIU-LNG) ...................................... 30
1.3.1.1. SIU-LNG no tratamento da dor pélvica associada à endometriose............................. 31
OBJETIVO ............................................................................................................................. 33
CASUÍSTICA E MÉTODOS ................................................................................................ 35
RESULTADOS ....................................................................................................................... 40
DISCUSSÃO ........................................................................................................................... 45
CONCLUSÕES....................................................................................................................... 51
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS** ............................................................................. 52
ARTIGO.................................................................................................................................. 56
∗ A redação desta tese foi realizada segundo as “Diretrizes para apresent ação de dissertações e teses da USP”
(UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Diretrizes para a apresentação de dissertações e teses da USP:
documentos eletrônicos ou impressos. São Paulo: SIBi-USP, 2004, 110p.). **As referências bibliográficas foram
redigidas conforme normas da International Comittee of Medical Journal Editors (Vancouver Style) - Grupo de
Vancouver.
INTRODUÇÃO
23
1. Endometriose
A presença de tecido endometrial funci onante ectópico, ou seja, fora da cavidade
uterina, caracteriza a endometriose. Em mulheres no menacme, estima-se a prevalência de
endometriose de 5 a 10% (1, 2), porém essa in cidência é controvers a devido ao grande
número de subdiagnósticos e à grande variação entre as populações estudadas. Pacientes com
endometriose podem apresentar dor pélvica crôni ca, dismenorréia, infertilidade e distúrbios
menstruais (3), interferindo significantement e na qualidade de vida das mulheres que a
apresentam (4).
Apesar de descrita há vários anos, os conhecimentos sobre a fisiopatologia, a
patogênese e a evolução espontânea dessa doenç a ainda são escassos. Existem muitas teorias
que tentam explicar o aparecimento dos focos de endometriose, mas nenhuma delas consegue
isoladamente justificar os diferentes comportamentos da endometriose.
Uma das hipóteses mais propagadas para a sua etiologia, ch amada teoria de Sampson, é
a de que haveria aderência de tecido endometr ial pós-menstrual na cavidade peritoneal e
demais órgãos devido ao fluxo tubário retrógrado. Porém, com a realização de um número
maior de laparoscopias, surgiu a comprovação de que praticamente 90% das mulheres têm
trompas pérvias com fluxo retrógrado e, no enta nto, a maioria não apresenta endometriose,
fazendo com que essa hipótese não tenha força suficiente para explicar completamente a
etiologia dessa moléstia. Baseado nisso, alguns autores vem defendendo a presença de que
algum outro fator, ou fatores associados ao fluxo retrógrado, seriam capazes de permitir a
implantação deste tecido na cavidade abdominal . Discute-se a idéia de que a endometriose
seria decorrente de um desequilíbrio entre fatores pró e antiinflamatórios que
comprometeriam a integridade da matriz extr acelular favorecendo a implantação do tecido
endometrial descamado na cavidade abdominal, promovendo o desenvolvimento dos focos de
endometriose (5).
24
1.1. Endometriose e inflamação
Já foi descrito que a adesão entre o tecido endometrial e o peritôni o ocorreria por meio
das integrinas, que modulam a adesão celular (6), como a molécula intra-celular de adesão
tipo 1 (ICAM-1) e a molécula das células vasc ulares de adesão tipo 1 (VCAM-1) (7). A
matriz extracelular peritoneal é invadida pelas células do e ndométrio aderido ao peritônio,
provavelmente devido a uma diferença de co ncentração entre enzimas de degradação de
componentes da matriz extracelular e seus reguladores. As metaloproteases (MMPs) são
enzimas zinco-dependentes com capacidade de promover a remode lação da matriz
extracelular quando associados a seus inibidores (TIMPs- tissue inhibitors of
metalloproteases). Vários estudos demonstraram um aumento na quantidade de algumas
MMPs e redução de TIMPs produzidos pelo endo métrio tópico e ectópico de paciente com
endometriose quando comparados com o endométrio de pacientes sem a doe nça, justificando
uma maior capacidade invasora deste tecido no fluxo menstrual retrógrado (5).
Outros marcadores inflamatórios, como as citocinas e fatores de crescimento, também
apresentam papel importante no surgimento e desenvolvimento dos implantes endometriais.
Citocinas e fatores de crescimento são proteína s ou glicoproteínas, em geral sintetizados por
leucócitos e outras células pa ra o meio extracelular, levando a atividades autócrina e
parácrina, além de promoverem comunicação ce lular com o sistema imunológico. À citocina
Interleucina-1 (IL-1), produzida por macróf agos e monócitos ativados, é atribuída a
estimulação da angiogênese em lesões endomet rióticas, através da estimulação de outros
fatores angiogênicos, como a IL-6 e o fator de crescimento endotelial vascular (VEGF) (8), e
também promoveria maior atividade das ICAMs- 1 (9). Células epiteliais e estromais do
endométrio produzem a IL-6, ao serem estimuladas, dentre outros, pela IL-1 e pelo fator de
crescimento tumoral (TGLF) (8, 10). As concen trações de IL-6 durante o ciclo menstrual são
variáveis, isto é, são menores durante a fase proliferativa e maiores na fase secretora (11).
25
Zarmakoupis e cols. demonstraram que a IL-6 inibe a proliferação das células estromais
endometriais (12). Assim, como o estrogênio estim ula a proliferação endo metrial, acredita-se
que isso ocorra pela redução da síntese de inibidores do crescimento celular endometrial como
a IL-6. Estudos in vitro, em pacientes com endometriose, demonstraram alterações na resposta
da IL-6 em macrófagos presentes no sangue e no peritônio e no estroma endometrial (13, 14,
15). Os resultados são conflitantes em relação ao que foi encontrado no fluido peritoneal de
pacientes com endometriose, onde alguns estudos demonstraram aumento na concentração de
IL-6 (16, 17) enquanto outros revelaram diminuição (18, 19) e um estudo não encontrou
diferenças entre pacientes com endometrios e e o grupo controle ( 20). O VEGF produzido
pelos implantes endometrióticos estimula a ne ovascularização (21). A IL-1 estimula a
produção de VEGF, assim como a hipóxia teci dual, o fator de crescimento derivado de
plaquetas (PDGF), fator de crescimento transformador β (TGLF-β) e as prostaglandinas. (8,
22, 23). Os fatores de necrose tumoral (TNF) sã o citocinas que apresentam ações diversas no
organismo. Enquanto a TNF- β é produzida pelos linfócitos, a TNF- α é sintetizada pelos
macrófagos, monócitos ativados, células natural-killers (NK), neutrófilos, células
endometriais, dentre outras. Estudos demonstraram que a concentração elevada de TNF- α no
fluido peritoneal de pacientes com endometriose se relaciona com o estágio da doença (24) e
seja devida a maior atividade dos macrófagos e monócitos (13, 25).
Outras evidências também relacionam o estresse oxidativo e o estado inflamatório
intrínsecos com o aparecimento e desenvolvime nto da endometriose (26, 27, 28, 29). Além
disso, a endometriose também tem sido asso ciada a outras doenças metabólicas, como
dislipidemia, resistência insulínica e aterosclerose (30, 31).
26
1.2. Endometriose e sistema cardiovascular.
As doenças cardiovasculares (DCV) repres entam a principal causa de morte em
mulheres após a menopausa (32). O evento pr imordial para o desenvolvimento de doenças
cardiovasculares é a presença de ateroscleros e, que é um processo crônico, progressivo e
sistêmico, caracterizado por resposta inflamatór ia e fibroproliferativa da parede arterial a
agressões ao endotélio (33). Os principais fatores de risco relacionados com lesão arterial são:
obesidade, hipercolesterolemia, hipertensão arte rial sistêmica, diabetes mellitus, tabagismo,
hiperhomocisteinemia, envelhecimento e suscetibilidade genética (34).
As lesões iniciais dessa moléstia já estão presentes em adolescentes e adultos jovens,
levando décadas para manifestar sintomatologia clínica (35). A disfunção endotelial causada
pelos fatores de risco anteriormente citados se ria o primeiro passo para o desenvolvimento da
aterosclerose, alterando as propriedades homeostáticas no rmais do endotélio. Assim, as
diferentes formas de agressão endotelial aumentam permeabilidade endotelial e a adesão do
mesmo a leucócitos e plaquetas. Além disso, a injúria ao endotélio faz com que este apresente
propriedades pró-coagulantes ao invés de anti -coagulantes e sintetize moléculas vasoativas,
citocinas e fatores de crescimento. Se a res posta inflamatória não remover ou neutralizar
efetivamente os agentes promotores de disf unção, ela pode se perpetuar e estimular a
migração e proliferação de células musculares lisas na área de inflamação (34). A manutenção
dessa resposta leva ao espessamento da parede arterial, a migração de macrófagos e linfócitos
para área afetada, aumentando o dano arterial pela produção de enzimas hidrolíticas e
citocinas que podem promover necrose focal co m conseqüente fibros e (36). Esse ciclo
contínuo de acumulação de células mononucleares, migração e proliferação de células
musculares lisas e formação de fibrose, leva a formação da placa composta por uma capa
fibrosa sobre uma camada lipídic a e de células necróticas, re sponsável pelas manifestações
clínicas da aterosclerose devido à obstrução ao fluxo sangüíneo na artéria acometida.
27
A possível associação entre endometriose e aterosclerose tem sido aventada (31). A
endometriose afeta mulheres jovens, enquanto a aterosclerose é considerada doença de idades
mais avançadas. No entanto, ambas as doenças são caracterizadas por aumento da atividade
macrofágica e produção de citocinas inflamatórias. Devido ao fato da inflamação exercer
papel crucial no desenvolviment o da aterosclerose, acre dita-se que pacientes com
endometriose, que se traduz por uma doença in flamatória crônica, possam apresentar risco
aumentado para doenças cardiovasculares (DCV) (31).
Alguns marcadores inflamatórios, comume nte descritos em pacientes de risco
aumentado para DCV, como a IL-6, o fator de necrose tumoral α (TGLF-α) (37, 38), presença
de macrófagos ativados, expressão de mol éculas de adesão celular (ICAM e VCAM),
marcadores de estresse oxidativo (39, 40, 41) , entre outros, vêm sendo descritos como
aumentados tanto no fluido peritoneal como no soro de pacientes portadoras de endometriose.
Também foi descrito aumento de metaloprotei nases (MMPs), importante para destruição da
matriz extracelular, tanto em pacientes ateroscleróticas (42) como em pacientes
endometrióticas (5) e aumento de proteína C reativa, preditor bioquímico inflamatório de
maior valor para DCV (43, 44). Por outro lado, alterações do metabolismo lipídico são
fortemente relacionadas a risco cardiovascular (45). Atualmente, poucos autores compararam
o perfil lipídico basal de mulheres portadoras de endometriose com controles, porém nenhum
deles avaliou as pacientes sem o efeito de medicações que potencialmente podem alterar a
síntese de lipoproteínas (1, 10, 11). Devido a esta limitação, têm sido descritos desde um
perfil lipídico desfavorável até ausência de alteração nestas variáveis (1, 30, 46, 47).
Já vimos que alguns dos tratamentos clínicos atualmente propostos para a endometriose,
com melhora significativa da dor pélvica provocada pela doen ça, são os análogos do GnRH
(aGnRH) e o sistema intra-uterino liberador de levonorgestrel (SIU-LNG) (48) e que,
enquanto o primeiro atua através do bloqueio do eixo hipotálamo-hipófise-ovariano levando a
28
um quadro de hipoestrogenismo, com repercussões negativas sobre o metabolismo lipídico
(46), o SIU-LNG provoca atrofi a das glândulas endometriais (49). Existem, entretanto,
especulações de que o progestágeno abso rvido sistemicamente poderia influenciar
negativamente o metabolismo lipídico (50) embora exista relato com resultado diferente (51).
Assim, como as pacientes portadoras de endo metriose são jovens e assintomáticas do ponto
de vista cardiovascular, a av aliação de disfunção endotelial, um evento precoce no
aparecimento da aterosclerose, irá contribuir para a investigação da associação dessas duas
doenças que apresentam várias características fisiopatológicas comu ns. Além disso, caso
exista associação, possibilita a intervenção precoce preventiva do aparelho cardiovascular
nesse grupo de pacientes. Como a proposta de tratamento de pacientes com endometriose é
em geral por períodos prolongados, e estas pacientes podem já apresentar elevação de
marcadores inflamatórios e de disfunção endotelia l, torna-se importante avaliar os efeitos dos
diferentes tratamentos sobre eventuais fatore s de risco de doença cardiovascular, como
marcadores inflamatórios e lipoproteínas. Dessa forma, o objetivo deste estudo foi avaliar a
influência do SIU-LNG sobre os marcadores in flamatórios e de risco cardiovascular em um
período de seis meses, comparado ao tratamento clássico com aGnRH.
1.3. Opções terapêuticas para a endometriose
Os esquemas terapêuticos atualmente pr opostos variam de ci rúrgico a clínico,
exclusivos ou associados, na dependência do quadro clínico da paciente e do desejo ou não de
concepção.
Ao contrário dos procedimentos cirúrgicos, os medicamentos hormonais não reduzem
as lesões, apenas realizam a supressão da função ovariana. Também são utilizados anti-
inflamatórios não esteroidais, visando espe cificamente à melhora da sintomatologia
envolvendo a dor pélvica e a dismenorréia. Tr atamento hormonal inclui o uso do análogo do
29
GnRH (aGnRH), considerado o padrão ouro (52), progestágenos, de rivados do androgênio
(Danazol) e contraceptivos orais combinados (COC). Os análogos do GnRH são drogas
sintéticas com estrutura molecular semelhante à do próprio GnRH, com a substituição de um
dos aminoácidos da cadeia do polipeptídio orig inal. A ligação inicial ao receptor produz um
efeito positivo de liberação de gonadotrofinas chamado de efeito "flare-up". Depois, a
permanência no receptor leva a um bloqueio do mesmo com um efeito inibidor que cursa com
a supressão do eixo hipotálamo- hipófise-ovário (HHO) (53). O uso de análogos do GnRH,
com bloqueio hipofisário prolongado e criação de um estado hipoestrogênico, acarreta
melhora significativa nos quadros de dor pélv ica e melhora nas taxa s de fertilidade nas
pacientes submetidas a procedimento de Reprod ução Assistida (54), porém apresenta efeitos
colaterais importantes. Com a s upressão da atividade ovariana, o estado de hipoestrogenismo
criado acarreta sintomatologia i gual à observada em mulheres na pós-menopausa, além de
levarem a redução da massa óssea, principalm ente se utilizadas po r período superior a 6
meses (55), muito embora a terapia de add-back possa ser utilizada concomitantemente ao
tratamento prolongado com aGnRH (56).
Os contraceptivos orais combinados (COCs), em uso contínuo ou cíclico, também têm
apresentado um efeito equivalente ao dos an álogos de GnRH, quando usados por um período
maior do que seis meses. Provavelmente é o efei to simultâneo e contínuo da progesterona que
permite o tratamento da endometriose (57). Tem a vantagem de repor os estrogênios não
produzidos pela hipófise supressa, mas aprese nta limitações, contra-indicações e efeitos
colaterais dos estrogênios sintéticos e progest agênios. Já é bem estabelecido o aumento do
risco de episódios tromboembólic os relacionados ao uso do CO Cs (58) e interferência no
sistema imunológico relacionado com reagudização ou piora na evolução de doenças auto-
imunes como o Lúpus Eritematoso Sistêmico e a Síndrome de Anticorpo Anti-Fosfolípides
(59).
30
Um progestágeno também utilizado em pacientes com endometriose é o acetato de
medroxiprogesterona (60), na forma intramuscular de depósito, que também acarreta o
hipoestrogenismo e logo, a redução da massa óssea em longo prazo. Por outro lado, quando a
queixa principal é a dor pélvica ou a paciente nã o tem o desejo de uma gestação, o MPA e os
COC são utilizados visando o alívio sintomático (61). Porém, estes também tem seus efeitos
colaterais bem conhecidos: ganho de peso, acne, mastodinia e irregularidade menstrual.
Por tudo isso, o maior desafio a ser enfrenta do é a aderência ao tratamento prolongado
da endometriose.
1.3.1. Sistema Intra-útero liberador de levonorgestrel (SIU-LNG)
Houve, então, a necessidade de se pesquisa r novas altern ativas terapêuticas. E uma
bem promissora foi inicialmente desenvolvida por Luukainen et al., em 1970 (62). Trata-se de
um dispositivo plástico com formato de um “T” (SIU-LNG), medindo 32mm, envolvido em
sua haste vertical por um cilindro contendo 52mg de levonorgestrel, um potente progestágeno,
derivado da 19-nortestosterona, que é coberto por uma membrana sintética
(polydimethylsiloxane) a qual promove a liberação intra-uterina de 20 µg do esteróide por dia,
durante 5 anos. Tal possibilidade de um tratamento prolongado, sem a necessidade do uso
diário do medicamento, coloca-o em uma situ ação favorável à sua aderência. O SIU-LNG
age, promovendo a atrofia e inatividade do endométrio, através de sua atividade
progestagênica (60), sem no entanto inibir a ovulação e a produção estrogênica ovariana (63,
64).
31
1.3.1.1. Sistema Intra-útero liberador de levonorgestrel (SIU-LNG) no
tratamento da dor pélvica associada à endometriose
Apesar de inicialmente desenvolvido como contraceptivo, o SIU-LNG vem sendo
utilizado em outras situações. Fedele et al., em 1997, estudou 23 mulheres portadoras de
adenomiose e que já após 1 ano de util ização do SIU-LNG, foi observado redução do
sangramento menstrual em 16 delas e diminuição significativa do volume uterino (65). Foram
observados resultados semelhantes em outros estudos que também avaliaram mulheres com
esta mesma patologia (66, 67).
Vercellini et al. acompanharam 20 paci entes com diagnóstico laparoscópico de
endometriose, identificando uma considerável redução da perda sanguínea menstrual bem
como da dismenorréia (68) após a utili zação do SIU-LNG por 12 meses. O mesmo autor
comparou dois grupos de mulheres com endo metriose, após terem sido submetidas à
laparoscopia cirúrgica, reali zando o tratamento com o SI U-LNG (n=20) versus conduta
expectante (n=20), observando-se recorrência de dismenorréia moderada ou severa em 10%
das pacientes no primeiro gr upo contra 45% nas do segundo (69). Em um estudo clínico
randomizado publicado por Petta et al. (48), 82 pacientes co m dor pélvica crônica (DPC) e
endometriose foram divididas em dois grupos de tratamento: um recebeu o SIU-LNG (n=39)
e o outro se submeteu a aplicações intramusculares mensais de aGnRH (Lupron depot
3,75mg) (n=43). Já após o primeiro mês de tratamento, foi observada a diminuição
significante da DPC, através da análise da escala visual de dor, sem diferença entre os grupos,
permanecendo assim até o sexto mês desse estudo. As taxas de amenorréia foram de 70% e
98% ao final do estudo, respectivamente no grupo do SIU-LNG e do aGnRH. Fedele et al.
encontraram redução da dismenorréia e da disp areunia bem como das lesões presentes em 11
mulheres portadoras de endometriose do sept o retovaginal, após 12 meses de uso do SIU-
LNG (70). Em 2004, Lockhat et al avaliaram 34 mulheres com diagnóstico laparoscópico de
32
endometriose submetidas à colocação do SIU-LNG, identificando melhora significante na
DPC e além da redução do estádio da doença no “second look” laparoscópico, realizado após
6 meses de tratamento nas 29 pacientes que permaneceram no estudo (71). Três pacientes
desistiram devido a DPC, uma devido ao apar ecimento de acne e uma por razões pessoais.
Aquelas que continuaram usando o SIU-LNG fora m avaliadas semestralmente, durante mais
30 meses (72). A taxa de continuidade do uso do SIU-LNG foi de 68%, 62% e 56%,
respectivamente após 12, 24 e 36 meses do início do tratamento. As razões mais freqüentes
para a descontinuação do método foram irregula ridade menstrual (14 ,7%), dor abdominal
(11,8%) e ganho de peso (8,8%). No entanto, o controle da DPC e da perda sanguínea
menstrual permaneceram menores até o final do estudo entre aquelas que continuaram com o
SIU-LNG.
Existem diversos estudos que demonstraram benefícios tais como redução do
sangramento menstrual e do volume uterino em mulheres portadoras de miomatose uterina
(73, 74, 75, 76).
OBJETIVO
34
O objetivo deste estudo foi avaliar a infl uência do SIU-LNG sobre os marcadores
inflamatórios e de risco cardiovascular em um período de seis meses, comparado ao
tratamento clássico com GnRHa.
CASUÍSTICA E MÉTODOS
36
Trata-se de um ensaio clínico aberto, randomizado, prospectivo e controlado, no qual foram
avaliadas 40 pacientes portadoras de endometriose com idade entre 18 e 40 anos e com a função
ovariana preservada, selecionadas de maneira consecutiva no ambulatório de dor pélvica e
endoscopia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. O diagnóstico
de endometriose foi confirmado por laparoscopia e histologia realizadas entre 3 e 24 meses antes
da inclusão no estudo. Todas apresentavam dor pélvica crônica e estavam sem tratamento
medicamentoso no momento da randomização, há pe lo menos três meses para contraceptivos
hormonais orais e há seis meses para progestágenos de depósito e análogos do GnRH.
O tamanho amostral foi calculado pelo pr ograma GraphPad StatMate® (Graphpad
Software, San Diego Califórnia, USA). Com um a inclusão de 16 pacientes com endometriose
e sem tratamento, detectaríamos uma alteração superior ou igual a 20% na média do low-
density lipoprotein colesterol (LDL-C) consider ando os resultados de Al-Omari et al. (77),
com α = 5% e poder de teste de 90% , durante o período de seis meses de tratamento. Foi
incluído um número maior de pacientes do que o necessário considerando a possibilidade de
perda ao longo do seguimento.
Foram excluídas pacientes obesas (Índice de Massa Corporal – IMC>30Kg/m
2), tabagistas,
diabéticas, etilistas ou usuárias de drogas, pacientes com desejo atual de concepção, portadoras de
doenças crônicas, portadoras de processos inflamatórios e/ou infecciosos agudos e/ou crônicos,
pacientes com antecedente pessoal e/ou familia r de eventos tromboem bólicos ou em uso de
medicações que conhecidamente interfiram nos marcadores de inflamação em período inferior a
15 dias (como antiinflamatórios hormonais e não hormonais).
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de É tica em Pesquisa do referido hospital e todas
as pacientes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.
Foram selecionadas 62 pacientes para a rea lização desse estudo. No entanto, seis não
quiseram participar e 12 foram excluídas por nã o se enquadrarem nos critérios de inclusão.
37
Realizou-se a alocação das 44 pacientes restan tes através de uma seqüência de randomização
gerada pelo software GraphPad StatMate for Windows (GraphPad StatMate version 1.01i,
GraphPad Software, San Diego California USA, www.graphpad.com), tendo sido 22
colocadas no grupo SIU-LNG e 22 no grupo aGnR H. No grupo aGnRH, uma das pacientes
engravidou antes da aplicação do medicamento e três pacientes mudaram-se para outra
cidade, perdendo o seguimento nesse estudo. Ao final, o grupo SIU-LNG foi composto de 22
pacientes submetidas à colocação do SIU-LNG, realizada conforme todas as instruções
criadas pelo laboratório fabricante e sempre por um único examinador, enquanto o grupo
aGnRH constituiu-se de 18 pacientes tratad as com acetato de leuprolida 3,75mg, com
aplicações intra-musculares mensais, por um período de seis meses. (Fig. 1).
Women assessed for eligibility (n=62)
Excluded (n=18)
Not meeting inclusion criteria (n=12)
Refused to participate (n=6)
Randomized: 44
Allocated to SIU-LNG (n=22)
Received SIU-LNG (n=22)
Allocated to GnRHa (n=22)
Received GnRHa (n=21)
Did not received GnRHa (n=1)
Patient became pregnant before
insertion
Lost to follow up (n=0)
Discontinued intervention (n=0)
Analyzed (n=22)
Lost to follow up (n=3)
Patients have moved to another town.
Discontinued intervention (n=0)
Analyzed (n=18)
Figura1: Fluxograma do estudo
38
As pacientes foram avaliadas quanto ao IMC, pressão arterial sistólica e diastólica (PAS
e PAD), freqüência cardíaca (FC), escore de do r e a dosagem de marcadores inflamatórios e
de lesão endotelial previamente ao início do tratamento e após seis meses de uso das
medicações. Foi utilizada a escala visual analógica para avaliação do escore de dor. As
pacientes relatavam a intensidade da dor apresentada diariamente. A escala visual consiste em
uma avaliação subjetiva da dor em uma escala en tre 0 e 10, onde 0 representa ausência de dor
e 10 a maior intensidade de dor (78). A paciente anotava em uma linha não graduada de 10
cm a intensidade da dor apresentada.
Foram colhidos 20 mL de sangue total para análise dos marcadores inflamatórios e de
risco cardiovascular, após jejum de 12 horas. Os marcadores séricos analisados foram: a
interleucina 6 (IL-6), o fator de necrose tumoral- α (TNF-α) e a homocisteína, todos avaliados
através do método de quimiluminescênci a, utilizando-se o aparelho DPC Immulite
® 1000
(Diagnostic Products Corporation, Siemens ®, Los Angeles, CA, USA ®). A proteína C reativa
foi realizada pelo método de imunoensaio turb idimétrico com látex, com aparelho Konelab
60i (Wiener lab., Rosário, Argentina). O leucograma foi dosado por contagem automatizada,
utilizando-se o aparelho Coulter Gens e Cou lter STKS (Florida, USA). Do perfil lipídico,
foram dosados: colesterol total (CT), high-density lipoprotein colesterol (HDL-C), low-
density lipoprotein colesterol (LDL-C) e triglicérides (T GL). O aparelho utilizado foi o BT
3000 plus (Wiener lab
®, Rosario, Argentina). Para o colesterol total, TGL e HDL-C o método
empregado foi o enzimático. O LDL-C foi calcula do a partir da fórmula de Friedewald: LDL-
C = colesterol total – (HDL-C + TGL/5), uma vez que não havia, nas amostras, dosagem de
TGL superior a 400mg/dL (79). A molécula de adesão das células vasculares (VCAM) foi
dosada pelo método de Elisa (R &D Systems, Minneapolis, MN, EUA). Todas estas variáveis
foram dosados imediatamente antes do início das medicações e após 6 meses de uso das
medicações.
39
Foi utilizado o teste de Kolmogorov-Smirnov para verificação da normalidade das
amostras. Para as variáveis cuja distribuição era normal, utilizou-se o teste t não pareado para
a comparação inter-grupos e o teste t pareado pa ra intra-grupo. Na ausência de distribuição
normal, os testes utiliza dos foram o Mann-Whitney e o Wilcoxon, respectivamente para
comparações inter-grupos e intra-grupo. As aná lises estatísticas foram realizadas com o
auxílio dos softwares SPSS 16.0 for Windows (SPSS Inc., Chicago, Illinois, USA) e
GraphPad 5.0 for Windows (GraphPad Software, San Diego, California, USA). O nível de
significância adotado foi de 5%.
RESULTADOS
41
A média de idade das pacientes foi de 28,8 + 4,9 anos e 31,4 + 5,8 anos nos grupos SIU-
LNG e aGnRH, respectivamente, sem diferença estatística entre ambos (p=0,14). Não houve
diferença pré-tratamento entre os marcadores cl ínicos e laboratoriais de risco cardiovascular
bem como no perfil lipídico entre os dois grupos (Tabela 1).
Tabela 1 – Características dos grupos SIU-LNG e aGnRH pré-tratamento.
SIU-LNG
(n=22)
aGnRH
(n=18)
Valor p
Basal
(media + DP)
Basal
(média + DP)
basal SIU-LNG x
basal aGnRH
Dor (Escala de dor) 7,3+ 1,6 7,2+ 1,5 0,66
IMC (Kg/m2) 23,6±4,3 24,5±4,5 0,97
PA sistólica (mmHg) 107,7±9,7 112,8±13,2 0,29
PA diastólica (mmHg) 72,3±6,1 75,5±7,8 0,14
FC (bpm) 74,2±4,6 76,8±5,9 0,12
Homocisteína(µmol/L) 12,4±3,7 11,5±2,9 0,56
IL-6 (pg/mL) 2,26 +
0,67 2,98±1,5 0,07
VCAM (ng/mL) 93,0±3,3 93,9±4 0,36
Leucócitos(x 10
3 células) 7,3±2,1 7,5±2,6 0,83
PCR (mg/dL) 0,39±0,3 0,4±0,3 1,0
TNF-α (pg/mL) 6,0±1,5 5,83±1,8 0,76
CT (mg/dL) 242,3 +
82,2 228,6 + 57,7 0,95
TGL (mg/dL) 115,3 + 75,8 128,9 + 91,4 0,93
LDL-C (mg/dL) 158,7 + 65 142,7 + 40 0,81
HDL-C (mg/dL) 60,5 + 19,3 60 + 15,6 0,94
IMC= Índice Massa Corporal, PA= Pressão Arterial, FC= Freqüência Cardíaca, IL-6: Interleucina-6, VC AM-1: molécula de adesão de célula
vascular, PCR: proteína C reativa; TNF: fator de necrose tumora l, CT: colesterol total, TGL: triglicérides, LDL-C: LDL colester ol e HDL-C:
HDL colesterol.
42
Entre as variáveis clínicas analisadas (Tabela 2), não houve variação entre o período pré
e o pós-tratamento dos dois grupos de estudo.
Tabela 2 – Efeitos do SIU-LNG e do aGnRH (A cetato de Leuprolide) sobre marcadores
clínicos de risco cardiovascular em mulheres com endometriose
SIU-LNG
(n=22)
aGnRH
(n=18)
Basal
(media + DP)
6 meses
(média + DP)
Basal
(média + DP)
6 meses
(média + DP)
IMC (Kg/m2) 23,6±4,3 23,8±4,5 24,5±4,5 24,3±4,5
PA sistólica
(mmHg)
107,7±9,7 105,9±10,1 112,8±13,2 111,7±12,9
PA diastólica
(mmHg)
72,3±6,1 71,8±6,6 75,5±7,8 75,0±6,2
FC (bpm) 72,4±4,6 72,8±5,8 76,8±5,9 78,0±7,9
IMC= Índice Massa Corporal, PA= Pressão Arterial, e FC= Freqüência Cardíaca.
p>0,05 para todas as variáveis
Em ambos os grupos, houve redução signi ficativa do escore de dor de 7,3+ 1,5 para
1,2+1,75 (grupo SIU-LNG) e de 7,1+ 1,46 para 0,7+ 1,37 (grupo aGnRH) após seis meses de
tratamento (p<0,001). Porém, essa melhora nã o foi diferente entre as duas medicações
avaliadas (p=0,21).
Quanto à dosagem dos marcadores sérico s, não houve diferença nos valores pré-
tratamento entre os grupos (Tabela 3). O gr upo SIU-LNG apresentou redução dos níveis
séricos de VCAM e da PCR (Tabela 3). Em re lação ao lipidograma, observou-se, durante o
período de tratamento, redução de 25,4% dos níveis de CT (Basal: 242,3 + 82,2mg/dL vs. 6
meses: 180,8 + 31,6mg/dL, p=0,0007), de 20,8% dos níveis de HDL-C (Basal: 60,5 +
43
19,3mg/dL vs. 6 meses: 47,9 + 10,8mg/dL, p=0,0048), de 27,2% dos níveis de LDL-C (Basal:
158,7 + 65mg/dL vs. 6 meses: 115,6 + 25,3mg/dL, p=0,0016) e 25,8% dos níveis de TGL
(Basal: 115,3 + 75,8mg/dL vs. 6 meses: 85,5 + 41,2mg/dL, p=0,0079) (Tabela 4).
O grupo de usuárias de aGnRH apresentou elevação dos níveis de homocisteína,
diminuição do número de leucócitos totais e da IL-6 (Tabela 3). Os demais marcadores não
apresentaram modificação no período de tratamento nesse grupo (Tabela 3).
Em relação aos níveis lipídicos, houve 25 pacientes com o nível de CT acima do
recomendado (200mg/dL) no início do estudo, sendo 13 do grupo SIU-LNG e 12 do grupo
aGnRH, o que contribuiu para a média ter sido elevada. Em ambos os grupos, sete pacientes
possuíam valores superiores à 300mg/dL, se ndo cinco do grupo SIU-LNG. Avaliando-se os
resultados do grupo aGnRH (tabela 4), não houve variação nos valores do CT (Basal: 228,6 +
57,7mg/dL vs. 6 meses: 223,5 + 58,4mg/dL, p=0,58), do HDL-C (Basal: 60 + 15,6mg/dL vs. 6
meses: 54,7 + 16,6mg/dL, p=0,08), do LDL-C (Basal: 142,7 + 40mg/dL vs. 6 meses: 138,9 +
42,8mg/dL, p=0,54) e dos TGL (Basal: 128,9 + 91,4mg/dL vs. 6 meses: 149,2 + 76,9mg/dL,
p=0,26).
Comparando-se os resulta dos pós-tratamento entre os grupos, o grupo SIU-LNG
apresentou menores níveis de CT (SIU-LNG: 180,8 + 31,6 mg/dL vs. aGnRH: 223,5 + 58,4
mg/dL, p=0,0055), TGL (SIU-LNG: 85,5 + 41,2 mg/dL vs. aGnRH: 149,2 + 76,9 mg/dL,
p=0,0011) e de LDL-C (115,6 + 25,3 mg/dL vs. 138,9 + 42,8 mg/dL, p=0,0144). Nas demais
variáveis, não houve diferença entre os grupos no período pós-tratamento (Tabelas 3 e 4).
44
Tabela 3 – Efeitos do SIU-LNG e do aGnRH (acetato de Leuprolide) sobre os marcadores de
risco cardiovasculares séricos em pacientes com endometriose em seis meses de tratamento
SIU-LNG
(n=22)
aGnRH
(n=18)
Basal
(média+DP)
6 meses
(média+DP)
Basal
(média+DP)
6 meses
(média+DP)
Homocisteína(µmol/L) 12,4±3,7 11,4±3,8 11,5±2,9 13,1±2,6*
IL-6 (pg/mL) 2,26 + 0,67 2,24 + 0,56 2,98±1,5 2,15 + 0,3*
VCAM (ng/mL) 93,3±3,3 91,5±2,5* 93,7±4 92,2±1,5
Leucócitos(x 10
3 células) 7,3±2,1 6,9±1,7 7,5±2,6 6,5±1,8*
PCR (mg/dL) 0,39±0,3 0,29±0,2* 0,4±0,3 0,37±0,30
TNF-α (pg/mL) 6,0±1,5 6,3±1,3 5,83±1,8 5,81±1,7
IL-6: Interleucina-6, VCAM-1: molécula de adesão de célula vascular, PCR: proteína C reativa e TNF: fator de necrose tumoral.
* p<0,05 comparado ao pré-tratamento
Tabela 4 – Efeitos do SIU-LNG e do aGnRH (acetato de Leuprolide) sobre o perfil lipídico
em pacientes com endometriose em seis meses de tratamento
SIU-LNG (n=22) aGnRH (n=18)
Basal 6 meses Basal 6 meses
CT (mg/dL) 242,3 + 82,2 180,8 + 31,6* τ 228,6 + 57,7 223,5 + 58,4
TGL (mg/dL) 115,3 + 75,8 85,5 + 41,2*τ 128,9 + 91,4 149,2 + 76,9
LDL-C (mg/dL) 158,7 + 65 115,6 + 25,3* τ 142,7 + 40 138,9 + 42,8
HDL-C (mg/dL) 60,5 + 19,3 47,9 + 10,8* 60 + 15,6 54,7 + 16,6
CT: colesterol total, TGL: triglicérides, LDL-C: LDL colesterol e HDL-C: HDL colesterol.
Os valores estão expressos em média+ DP.
* p<0,05 comparado ao pré-tratamento.
τ p<0,05 comparando-se os pós-tratamentos.
DISCUSSÃO
46
Nesse trabalho, avaliamos as alterações do perfil lipídico em paci entes portadoras de
endometriose submetidas ao tratamento com SI U-LNG, comparativamente ao uso de aGnRH,
modalidade já consagrada de tratamento. Nossos dados mostraram que o uso do SIU-LNG em
portadoras de endometriose promoveu uma redução significativa nos níveis de CT, TG, LDL-
C e HDL-C, além de uma diminuição dos marca dores inflamatórios VCAM e PCR após seis
meses de avaliação, enquanto que o uso de aGnRH não promoveu modificações das variáveis
lipídicas após o mesmo período de tratamento, embora tenha tido efeitos favoráveis sobre os
marcadores inflamatórios IL-6 e leucócitos e desfavoráveis sobre a homocisteína.
Não há estudos prévios em pacientes co m endometriose envolvendo comparação
randomizada dos tratamentos utili zados nesse trabalho (SIU-LNG versus a GnRH) para
avaliação de marcadores de risco cardiovascul ar. Porém há estudos que avaliaram os efeitos
do aGnRH portadoras de endometriose. À se melhança de nossos achados, estes estudos
mostraram que o uso de aGnRH não promoveu al teração dos níveis da s lipoproteínas (80,
81),. Entretanto, há relatos at é de piora do perfil lipídico após o uso de leuprolida em
pacientes com leiomiomatose (82, 83) e do uso de triptorrelina em pacientes com
endometriose (84, 85).
Os esteróides sexuais atuam de maneira ma rcante sobre perfil lipídico, e algumas
alterações podem ter um impacto sobre a aterogên ese. Os efeitos dos progestágenos sintéticos
sobre o perfil lipídico variam conforme a resp ectiva atividade androgênica, a dose e a via de
administração e associação ou não com estrogêni o. Quando combinado com o etinilestradiol,
o levonorgestrel oral está associado a um aumento do LDL- C e diminuição do HDL-C (1, 45,
86, 87). Em contraste, o uso de combinações com desogestrel, progestágeno de menor
afinidade androgênica, resulta em aumento do HDL-C, sem modificação do LDL-C (46, 88).
O uso de levonorgestrel exclusivo, sob a form a de implantes, promove diminuição do CT,
TG, LDL-C e HDL-C em mulheres normais (30, 47, 48, 89, 90, 91), em bora outros estudos
47
mostrem apenas redução dos níveis de CT e do HDL-C, quando comparado aos níveis
encontrados em não-usuárias de métodos hormona is (51), sem alteração dos níveis de LDL-C
e TGL. Por outro lado, ao contrário dos nosso s achados, o uso de levonorgestrel sob a forma
de dispositivo intra-uterino nã o promoveu diferenças significant es nas concentrações séricas
de CT, TGL, LDL e HDL, quando estudado em população normal ou em pacientes com
menorragia (50, 92), e promoveu em outro est udo com mulheres norma is, com desejo de
anticoncepção, aumento nos níveis de HDL, co mparadas com outras que não utilizavam
nenhum contraceptivo hormonal (93).
Em nosso estudo, o uso do SIU-LNG esteve as sociado a um decréscimo de todas as
lipoproteínas após 6 meses de sua inserção quando comparado ao período pré-medicação, ao
contrário do observado no grupo em uso de aG nRH e diferente do encontrado nos estudos
anteriores citados, quando o SIU-LNG foi u tilizado em populações com mulheres normais.
Embora o SIU-LNG produza altas concentrações locais de LNG no tecido endometrial com
baixas concentrações plasmáticas, há sempre uma chance de ter um efeito metabólico, a
depender do tempo de uso e da população estudada. O uso de progestágenos ganha
importância em populações de maior risco meta bólico, como possivelmen te são as pacientes
com endometriose. Modificações dos valores do lipidograma são importantes, pois alteram o
risco de arteriosclerose e doença coronariana, ressaltan do-se o papel do LDL-C na
aterogênese, sendo, por isso, o parâmetro mais importante a ser normalizado em casos de
dislipidemia (85).
A importância clínica de uma diminuição de LDL-C se deve ao seu envolvimento na
aterogênese. Situações como tabagismo, hiperten são arterial, diabetes mellitus e dislipidemia
podem promover a lesão endotelial, que contribui para a expressão de moléculas de adesão
(VCAM, P-selectina) e a liberação de citocinas (interleucina 1, TNF- α). Conseqüentemente,
ocorre a migração de células mononucleares (leucócitos e monócitos) e a penetração das
48
partículas do LDL que serão oxidadas no esp aço subendotelial. Quando os monócitos se
localizam no espaço subendotelial, ocorre a tr ansformação destas células em macrófagos, que
fagocitam as partículas de LDL oxidadas e formam as células espumosas. Estas células
perpetuam o status inflamatório aumentado, predispõem a migração de miócitos modificados
da camada média para a camada íntima arterial e a formação de colágeno, contribuindo para a
formação da placa ateromatosa. Assim, o níve l elevado de LDL pode ser o gatilho para um
processo proliferativo celula r nos vasos arteriai s, culminando com o desenvolvimento da
aterosclerose (94).
É possível que as mulheres com endometri ose apresentem maior predisposição à
aterogênese, mas esta associação ainda não foi comprovada. Níveis elevados de LDL-C foram
observados no fluido peritoneal (FP) de mulher es com endometriose (31). Entretanto, estes
autores não correlacionaram as dosagens plasmá ticas de LDL-C com os seus níveis no FP e
também não avaliaram os outros parâmetros do perfil lipídico. Se a quantidade de
lipoproteínas presentes no FP tiver relação com os seus níveis plasmáticos (95), pode-se
esperar que os níveis séricos de LDL-C sejam mais elevados em mulheres com endometriose.
A ação do SIU-LNG favorável, com diminuição do LDL-C, se contrapõe à ação do
aGnRH, que não mostrou efeitos sobre o CT e LDL-C, o que poderia trazer vantagens
metabólicas desse tipo de tratamento, além de outras vantagens clínicas de seu uso em tempo
prolongado sobre aceitabilidade e adesão ao tratamento, já comprovadas (48, 96). A
diminuição de HDL-C não é desejável do ponto de vista metabólico, mas há evidências de
que, após um ano de tratamento, os níveis de HDL-C tendem a se normalizar novamente em
usuárias de SIU-LNG (97)
Obtivemos uma diminuição significativa nos níveis de VCAM e PCR nas pacientes
usuárias do SIU-LNG, o que pode corrobo rar uma ação favorável sobre o processo
inflamatório. A PCR é um marcador sensível de atividade inflamatória e tem sido utilizada
49
como um fator de risco independente para DCV, particularmente coronariopatia. Nos
hepatócitos, a produção de PCR é regulada pela ação do fator de necrose tumoral e da
interleucina-6 (98). O SIU-LNG foi capaz de diminuir os níve is de PCR sem alterar TNF- α e
IL-6, o que sugere uma ação hepática direta, talvez na redução de síntese protéica.
Efeitos metabólicos do aGnRH são clar amente relacionados ao estado de
hipoestrogenismo, como por exemplo em relaçã o a piora do perfil lipídico, à semelhança do
que ocorre com mulheres na pós menopausa (99, 100, 101). Entretanto, tal resultado pode não
ter sido observado nesse estudo pelo curto período de uso do aGnRH. Além disso, houve um
aumento de 14% da homocisteína, que tem si do associada à maior ocorrência de eventos
aterotrombóticos. Diversos artigos demonstraram aumento nos níveis séricos de homocisteína
em mulheres na pós-menopausa e que reduziram após a realização de terapia de reposição
estrogênica (102, 103, 104, 105). Em relação ao levonorgestrel, artigos que avaliaram
contraceptivos orais que continham este progest ágeno demonstraram não haver alteração na
homocisteinemia (106, 107), o qu e vai de encontro aos nossos achados no grupo SIU-LNG,
embora reconheçamos a limitação desse achado, pois não foram avaliados os níveis séricos de
folato em ambos os grupos.
Houve diminuição dos leucócitos totais ap enas no grupo aGnRH, embora esse dado
isolado não tenha um grande significado clínic o. A resposta inflamatória sistêmica envolve
alterações nos níveis de leucócitos circul antes, mas recentes estudos têm proposto que a
avaliação de subpopulações leucocitárias, como a taxa neutrófilo-linfócito, seja um melhor
índice de resposta inflamatór ia em pacientes com doenças crônicas ou com endometriose
(108, 109).
Os níveis séricos de TNF- α não variaram em nenhum dos grupos de tratamento.
Numerosos investigadores tem sugerido que há uma associação entre a presença de
endometriose e um sistema imune alterado (110, 111). Um aumento da inflamação peritoneal,
50
evidenciado por elevação das citocinas per itoneais, é bem estabelecido (112). Citocinas
inflamatórias, especialmente a TNF- α, que são produzidas pelos macrófagos, tem um
importante papel na fisiopatol ogia da endometriose. O TNF- α podem ativar leucócitos
inflamatórios que podem levar a produção de outra s citocinas pró-inflamatórias, como IL-1,
IL-6 e mais TNF-α (113), que estimulam a adesão de células endometriais e também induzem
as metaloproteinases, ambas necessárias para o desenvolvimento da doença (114). Entretanto,
essas alterações ocorrem em tecidos e FP, e os níveis séricos nem sempre refletem essas
alterações teciduais.
Pode-se questionar se o efeito benéfico obti do sobre os níveis de lipoproteínas após o
uso de SIU-LNG seja decorrente apenas da intervenção terapê utica, que envolvia orientação
dietética e prática de exercícios físicos. Estas orientações er am semelhantes aos dois grupos
de estudo, e não se observou variação significativa do peso corporal em nenhum dos grupos, o
que seria esperado se a aderência fosse satisfatória. Assim, esp eculamos que esse efeito seja
decorrente da ação direta do levonorgestrel. Uma hipótese seria a mediação da redução
hepática da síntese e/ou catabolismo das lipoproteínas, uma vez que a redução atingiu todas as
variáveis lipídicas analisadas (115).
CONCLUSÕES
52
Nossos dados permitem concluir que, em paci entes portadoras de endometriose, o uso
de SIU-LNG, promoveu uma redução significativa nas lipoproteínas, além de uma diminuição
de alguns marcadores inflamatórios após seis meses de avaliação. Obviamente, não podemos
inferir sobre esses efeitos em tempo prolongado de tratamento. En tretanto, essa perspectiva é
favorável, tendo em vista que o tratamento cla ssicamente empregado para a endometriose, o
aGnRH, não promoveu modificações das vari áveis lipídicas após o mesmo período de
tratamento. Dados anteriores de nosso grupo mostram que o uso de SIU-LNG tem efeito
comparável ao uso de aGnRH em relação à dor associada a endometriose em curto (48) e
longo prazo (96), tendo sido capaz de reduzir também os níveis de CA-125 (116).
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ARTIGO
1
Effects of the levonorgestrel-releasing intrauterine system on cardiovascular risk
markers in patients with endometriosis: a comparative study with GnRH analogue
Rodrigo Alves Ferreiraa,b*, Carolina Sales Vieiraa, Júlio César Rosa-e-Silvaa, Ana Carolina J.
Sá Rosa-e-Silvaa, Antonio A. Nogueiraa, Rui A. Ferriania.
aDepartment of Obstetrics and Gynecology, University of São Paulo, Ribeirão Preto School of Medicine,
Ribeirão Preto, SP, 14049-900, Brazil
bDepartment of Medicine, Federal University of São Carlos (UFSCar), São Carlos, SP, 13565-905, Brazil
*Corresponding author: Rodrigo Alves Ferreira
Rodovia Washington Luis, Km 235 - Cx. Po stal 676 - São Carlos, SP, Brasil, CEP-
13565-905
Tel: +55 16 33518340 Fax: +55 16 32536075
Email:
[email protected]
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