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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
FACULDADE DE MEDICINA
ALESSANDRA DE ARAUJO SILVA BEDIN
Captação de nanopartícula lipídica marcada radioativamente por receptores de
LDL em membrana celular de focos de endometriose
São Paulo
2017
Alessandra de Araujo Silva Bedin
Captação de nanopartícula lipídica marcada radioativamente por receptores de
LDL em membrana celular de focos de endometriose
Dissertação apresentada à Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo para obtenção do título de Mestre
em Ciências
Programa de Obstetrícia e Ginecologia
Orientador: Prof. Dr. Sergio Podgaec
São Paulo
2017
DEDICATÓRIA
Com todo carinho e amor, dedico primeiramente esta conquista aos meus
pais, Roberto e Celina . A gradeço pela paciência , pelo incentivo e pela
dedicação, sempre inesgotáveis. Agradeço pelas inúmeras vezes que me
disseram que o sucesso só vem com esforço, e que me encorajaram a lutar
sempre. Que seja esta uma forma de retribuir tudo o que sempre fizeram por
mim, e o seu exemplo de vida.
Com todo amor do mundo, também dedico esta vitória aos meus filhos ,
Alexandre e Ana Beatriz , agradeço pela paciência e pela compreensão n os
momentos que aceitaram privar -se de minha companhia. Desejo que para os
dois, que estão em formação , isto represent e al ém do orgulho da etapa
concluída, um grande incentivo ao caminho que ainda devem trilhar.
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente ao amigo e orientador, Prof. Dr. Sergio
Podgaec, pela brilhante e dedicada ajuda em todos os momentos deste trabalho.
É muito gratificante e incentivadora a sua participação, não me deixando desistir
diante dos obstáculos.
Também agradeço à equipe do Laboratório de Metabolismo de Lípides do
Incor-HCFMUSP, pela enorme colaboração em todas as etapas do projeto,
destacando o Prof. Dr. Raul C. Maranhão, a Dra. Elaine R. Tavares, a Dra
Débora F. Deus e aos demais participantes da equipe.
Agradeço ao Prof. Dr. Edmund C Baracat, do Depto de Obstetrícia e
Ginecologia do HC-FMUSP, pela abertura dos caminhos para que este projeto
pudesse ser desenvolvido.
E também aos grandes amigos que acumulei nestes caminhos da vida,
cujos nomes não caberiam em uma página e cujo amor não cabe no peito.
Muito obrigada a todos, de verdade.
RESUMO
Bedin AA S. Captação de nanopartícula lipídica marcada radioativamente por
receptores de LDL em membrana celular de focos de endometriose [Dissertação].
São Paulo: Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo; 2017.
Entre 5,3 e 12% das mulheres com endometriose apresentam a forma mais severa da
doença, com comprometimento profundo do intestino, cujo pri ncipal tratamento é
cirúrgico, porém com alta taxa de complicações: recorrência das lesões, fístulas,
hemorragias, infecção, suboclusão intestinal e disfunção vesical e/ou intestinal. O
tratamento medicamentoso visa inibir o crescimento dos focos por meio do bloqueio
ovariano, com boa redução da dor, mas sem diminuição dos nódulos endometrióticos, e
maiores efeitos colaterais pela longa duração do tratamento. Atualmente, drogas podem
ser acopladas a nanopartículas que tenham afinidade com tecidos doentes, d e forma a
serem entregues diretamente aos mesmos, sem efeitos sistêmicos significativos e com
eficácia superior no controle das lesões. Há evidências de que células em alta divisão
apresentam maior captação de LDL que células normais, para síntese de membr ana. Em
diversos tipos de câncer, doenças reumatológicas, aterosclerose, mieloma múltiplo e na
cardiomiopatia diabética, a necessidade significativamente maior de LDL permitiu bons
resultados terapêuticos acoplando -se um quimioterápico à LDE (nanoemulsão a rtificial
semelhante à LDL e que se liga ao mesmo receptor). Na endometriose, assim como no
câncer, há fatores de crescimento e citocinas associados à multiplicação celular, e também
há superexpressão dos receptores de LDL nas lesões de endometriose. Além disso,
mulheres com endometriose intestinal apresentam níveis plasmáticos menores de LDL
que o grupo sadio. Este estudo avaliou a captação da emulsão de LDE marcada
radioativamente pelos receptores na superfície do foco endometriótico, para
posteriormente testar a capacidade da LDE de interiorização celular. Tratou -se de um
estudo-piloto comparativo entre três grupos: endometriose intestinal e não -intestinal, e
sem endometriose. Antes do tratamento cirúrgico, foi determinado o perfil lipídico das
pacientes e foi injetada a LDE marcada. Foi dosada a radioatividade das amostras de
tecidos coletados (endometriose intestinal e não -intestinal, peritôneosadio e endométrio
tópico). Na comparação entre os grupos, não houve diferença significativa nos parâmetros
(p>0,01), possivelmente devido à amostra pequena. Mas o grupo com endometriose
intestinal tendeu a apresentar um IMC mais baixo que os demais, com maior
sintomatologia álgica e níveis mais altos de LDL. A captação de LDE no peritôneosadio
foi maior no grupo c om endometriose não intestinal. O endométrio tópico e os focos de
endometriose intestinal captaram mais LDE que os de não -intestinal, sugerindo maior
divisão celular e menos fibrose. A comparação da captação da LDE por local mostrou
uma tendência a captação decrescente entre endométrio tópico, peritôneo sadio e lesão de
endometriose. Como os focos de endometriose (intestinal ou não) captaram de maneira
significativa a LDE, conclui --se que há consumo aumentado de LDL nas lesões de
endometriose, assim como no câncer e nas doenças inflamatórias. Não houve diferença
dos níveis de colesterol plasmático na captação da LDE, comprovando a entrega direta
da nanoemulsão aos tecidos em alta divisão celular, independente das lipoproteínas
séricas. Estes resultados abrem caminho para novos estudos de avaliação da
nanotecnologia como opção terapêutica às cirurgias radicais, com menores complicações
e sem efeitos colaterais sistêmicos.
DESCRITORES: endometriose; receptores de LDL; nanotecnologia; colesterol;
nanopartícula; lipoproteínas; terapêutica
ABSTRACT
Bedin AAS. Uptake of radiolabeled lipid nanoparticle by LDL receptors on the cell
membrane of endometriosis foci [Dissertation]. São Paulo: "Faculdade de Medicina,
Universidade de São Paulo"; 2017.
Between 5.3% and 1 2% of women with endometriosis present the most severe form of
disease, with deep intestinal involvement, mainly treated by surgery, which has a high
rate of complications: recurrence of lesions, fistulas, hemorrhage, infection, intestinal
subocclusion and bladder and / or bowel dysfunction. Drug treatment aims to inhibit foci
growth by means of ovarian blockage, with good reduction of pain, but with no effect on
endometriotic nodules, and frequent side effects due to the long duration of treatment.
Currently, drugs can be coupled to nanoparticles that have affinity with compromised
tissues, in order to be delivered directly to them, without significant systemic effects and
with superior efficacy in the control of lesions. There are evidences that cells in h igh
division have higher uptake of LDL than normal cells, for membrane synthesis. In several
types of cancer, rheumatic diseases, atherosclerosis, multiple myeloma and in diabetic
cardiomyopathy, the significantly greater need for LDL allowed good therapeutic results
by coupling a chemotherapeutic to LDE (an artificial nanoemulsion similar to LDL that
binds to the same receptor). In endometriosis, as well as in cancer, there are growth factors
and cytokines associated with cell multiplication, and there is also overexpression of LDL
receptors in endometriosis lesions. In addition, women with intestinal endometriosis have
higher plasma LDL levels than healthy ones. This study evaluated the uptake of
radioactively labeled LDE emulsion by receptors on the surface of endometriotic foci, to
later test the LDE capacity of cellular interiorization. It was a comparative pilot study
between three groups: patients with intestinal and non -intestinal endometriosis, and
without endometriosis. Before surgical treatment, th e lipid profile of patients was
determined and labeled LDE nanoemulsion was injected. The radioactivity of the
collected tissue samples (intestinal and non-intestinal endometriosis, healthy peritoneum
and topical endometrium) was measured. In the compariso n between groups, there was
no significant difference in parameters (p> 0.01), possibly due to the small sample. But
the group with intestinal endometriosis tended to present a lower BMI than others, with
greater pain symptomatology and higher levels of LD L. LDE uptake in healthy
peritoneum was higher in the non -intestinal endometriosis group. The topical
endometrium and foci of intestinal endometriosis uptaked more LDE than non-intestinal
ones, suggesting greater cell division and less fibrosis. Comparison of LDE uptake per
site showed a tendency toward decreasing uptake between topical endometrium, healthy
peritoneum and endometriosis lesion. As endometriosis foci (intestinal or not) have
uptaked LDE on a significant level, the conclusion might be that the re is an increased
consumption of LDL by endometriosis lesions, as well as in cancer and inflammatory
diseases. There was no difference between plasma cholesterol levels and LDE uptake,
demonstrating the direct delivery of the nanoemulsion to tissues in hi gh cell division,
independent of serum lipoproteins. These results open the way for new studies evaluating
nanotechnology as a therapeutic option for radical surgeries, with lower complications
and no systemic side effects.
DESCRIPTORS: endometriosis; LDL receptors; nanotechnology; cholesterol;
nanoparticles; lipoproteins; therapeutics
Figura
Figura 1 Valores de captação da nanopartícula lipídica marcada (LDE), divididos
por grupos (Controle, Endometriose Intestinal e Endometriose Não Intestinal) e em cada
grupo, por local avaliado (Peritônio, Endométrio Tópico e Endometriose)
Lista de Tabelas
Tabela 1. Parâmetros clínicos expostos em média e desvio padrão dos diferentes grupos:
sem endometriose, com endometriose intestinal e com endometriose em outros locais
(não intestinal).
Tabela 2. Quadro clínico de pacientes dos diferentes grupos: sem endometriose, com
endometriose intestinal e com endometriose em outros locais (não intestinal).
Tabela 3. Resultados das concentrações de colesterol total e suas frações e de triglicérides
em mg/dl (expostos em média e desvio padrão) realizados nos três grupos de pacientes:
sem endometriose, com endometriose intestinal e com endometriose em out ros locais
(não intestinal).
Tabela 4. Captação da emulsão nanolipídica marcada nos locais de interesse (Peritôneo,
Lesão de Endometriose e Endométrio), exposta em média e desvio padrão, segundo
grupos de pacientes: sem endometriose, com endometriose intestinal e com endometriose
em outros locais (não intestinal) e resultados dos testes comparativos.
Tabela 5. Captação da emulsão nanolipídica marcada, exposta em média e desvio padrão,
segundo grupos de pacientes: sem endometriose, com endometriose intestina l e com
endometriose em outros locais (não intestinal), nos locais de interesse (Peritôneo, Lesão
de Endometriose e Endométrio) e resultados dos testes comparativos.
Tabela 6. Valores de correlações entre a nanopartícula encontrada nos locais de
interesse (Peritôneo, Lesão de Endometriose e Endométrio) e as concentrações de
colesterol total e suas frações e de triglicérides nas pacientes com endometriose.
Lista de Abreviaturas
ApoB 100 Apolipoproteína B 100
ApoE Apolipoproteína E
CT Colesterol Total
GnRH Gonadotrophins Releasing Hormone, Hormônio Liberador de
Gonadotrofinas
HC-FMUSP Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo
HDL High Density Lipoprotein, Lipoproteína de Alta Densidade
LDE Nanopartícula Lipídica
LDL Low Density Lipoprotein, Lipoproteína de Baixa Densidade
TGL Triglicérides
VLDL Very Low Density Lipoprotein, Lipoproteína de Densidade Muito
Baixa
Sumário
1. Introdução ......................................................................................................... 15
1.1. Endometriose ................................................................................................. 16
1.2. Participação do colesterol nas doenças neoplásicas ...................................... 18
1.3. A nanotecnologia em Medicina ..................................................................... 19
1.4. Endometriose, câncer e drogas anti proliferativas ......................................... 20
1.5. Hipótese do Estudo ........................................................................................
21
2. Objetivo ............................................................................................................ 22
3. Métodos ............................................................................................................ 24
3.1. Local de estudo e pacientes ........................................................................... 25
3.2. Cálculo da Amostra ....................................................................................... 25
3.3. Critérios de inclusão ...................................................................................... 26
3.4. Quadro Clínico .............................................................................................. 26
3.5. Dinâmica do Estudo ....................................................................................... 27
3.6. Dosagem de Triglicérides e Colesterol .......................................................... 28
3.7. Preparação da Nanopartícula ......................................................................... 29
3.7.1. Determinação da captação da LDE ............................................................ 29
3.7.2. Segurança Radiológica ............................................................................... 30
3.8. Análise estatística .......................................................................................... 32
4. Resultados ........................................................................................................ 33
5. Discussão .......................................................................................................... 41
6. Conclusão ......................................................................................................... 49
7. Referências Bibliográficas .............................................................................. 51
8. Anexos .............................................................................................................. 67
Anexo 1. Carta de Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do HC-FMUSP. 68
Anexo 2. Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – Pacientes com
Endometriose ........................................................................................................
70
Anexo 3. Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – Pacientes sem
Endometriose (Grupo Controle) ............................................................................
74
Anexo 4. Tabela Completa de resultados por paciente: idade, parâmetros
clínicos e laboratoriais ..........................................................................................
78
Anexo 5. Tabela Completa de resultados por paciente: peso do tecido coletado,
captação da nanopartícula (LDE) bruta e captação calculada (ajustada para 1g
de tecido) ...............................................................................................................
79
15
1. Introdução
16
1. Introdução
1.1 Endometriose
Endometriose, definida como presença de glândula e/ou estroma endometrial
fora da cavidade uterina, pode ser classificada em superficial ou profunda de acordo
com sua capacidade de infiltração nos tecidos ( Cornillie et al., 1990). As lesões com
profundidade acima de 5 mm situadas em fundo de saco de Douglas, reflexão
vesicouterina e outros locais da pelve, representam o tipo de doença onde as pacientes
apresentam mais que ixas clínicas e com eventual necessidade de cirurgias mais
complexas (Cornillie et al., 1990).
A endometriose representa afecção ginecológica de alta morbidade. Sabe-se que
acomete cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva e pode promover
sintomatologia álgica muitas vezes incapacitante, assim como ser causa de infertilidade
feminina, havendo, por vezes, indicação de tratamento cirúrgico como principal
estratégia terapêutica (Redwine et al. , 1992 ; Triolo et al. , 2013; Cao et al. , 2015;
Darwish & Roman, 2016; Lagana et al., 2016). Estimam-se que 5,3 a 12% das mulheres
com endometriose apresentam a forma mais severa da doença com comprometimento
profundo do intestino, o que pode tornar o tratamento cirúrgico complexo, levando a
eventual persistência dos focos, além das possibilidades de recorrência das lesões
(Konickx et al., 1991; Chapron et al., 2003; De Cicco et al., 2010; Kondo et al., 2011;
Nezhat et al., 2011; Abrao et al., 2015; Magrina et al., 2015; Rausei et al., 2015; Lagana
et al., 2016) e alteração na qualidade de vida (Bassi et al, 2011 ; Mabrouk et al., 2011;
Simoens et al., 2012; Ribeiro et al., 2014; Selvi Dogan et al., 2016; Giussy et al., 2017).
A taxa de complicações após cirurgia laparoscópica na endometriose profunda
é estimada em 3,4% , elevando -se a té a 10 a 22% quando é necessária a ressecção
intestinal segmentar (Armengol-Debeir et al., 2011; Kondo et al., 2011; English et al.,
2014; Rausei, 2015 et al.; Seracchioli et al., 2015). O envolvimento ureteral, apesar de
considerado raro, chega a uma frequência estimada de 10 -14% dos casos quando há
nódulos retrocervicais maiores que 3 cm e pode, eventualmente, levar a perda de função
renal assintomática (Munoz et al., 2012).
Embora seja considerada doença benigna, a endometriose possui características
típicas de doença neoplásica, como a capacidade de invasão em estruturas adjacentes e
17
associação com lesões à distância (Stern et al., 2001). Como o câncer, a endometriose
pode aderir a outros tecidos, invadi-los e deformá -los (Abrão et al., 2006), apesar de
não estar demonstrado estado de alto consumo metabólico (Thomas et al., 2000). Além
disso, os conceitos etiopatogênicos incluem fatores de crescimento e citocinas
associados com a regulação de multiplicação celular e angiogênese, com funçã o
semelhante na carcinogênese (Thomas et al., 2000; Stern et al. 2001; Podgaec et al.,
2007; Machado et al., 2008; Olovsson , 2011). Na endometriose, doença de
características inflamatórias, ocorre relativo aumento de citocinas representativas de
padrão de resposta imune humoral (Podgaec et al., 2007; Olovsson, 2011; Podgaec et
al., 2012; Bellelis et al., 2013; Chaudhury et al., 2013; Salmeri et al., 2015; Sofo et al.,
2015). Além disso, foi demonstrado que o fator de crescimento endotelial vascular
evolui com variações cíclicas no fluido peritoneal (Pupo-Nogueira et al.,2007). Assim
como seu receptor, a distribuição e a densidade vascular estão significativamente mais
altos em pacientes com endometriose profunda envolvendo o reto (Machado et al. ,
2008).
Outra característica importante da endometriose é a composição histopatológica
dos nódulos endometrióticos profundos, que se diferenciam dos implantes peritoneais
e ovarianos, já que contêm uma alta proporção de tecido fibro-conectivo (41%) e fibras
musculares lisas (35%), quando comparados com o endométrio (24%) (Roman et al.,
2011).
Considerando-se que a endometriose é uma doença estr ogênio-dependente
(Giudice, 2010) , o tratamento medicamentoso atualmente disponível visa inibir o
crescimento dos focos por meio da interrupção da atividade ovariana (com os análogos
do GnRH) ou através de pílulas anticoncepcionais, que t êm demonstrado boa atuação
na redução de sintomas (Seracchioli et al., 2010). Novas modalidades terapêuticas vêm
sendo testadas com o objetivo de redução dos focos e da sintomatologia da
endometriose, como dispositivos intrauterinos liberadores de levonorgestrel, inibidores
da aromatase, antagonistas do GnRH, moduladores seletivos dos receptores
estrogênicos (SERMs) e progestagênicos (SPRM), inib idores da angiogênese e
imunomoduladores, entre outros (Elnashar, 2015).
Entretanto, tais medidas eventualmente melhoram a sintomatologia álgica, mas
não promovem diminuição dos nódulos endometrióticos (Roman et al., 2011). Por ser
doença crônica e requere r tratamento de longa duração, a terapêutica clínica
18
antiestrogênica ainda enfrenta limitações pelos potenciais efeitos colaterais, como
sintomas climatéricos e diminuição da densidade mineral óssea, além de não
proporcionar o desaparecimento definitivo do s focos e não beneficiar pacientes com
história de infertilidade (Elnashar, 2015).
Como consequência destes resultados insatisfatórios no controle clínico da
endometriose, modelos experimentais vêm sendo desenvolvidos nos últimos anos com
nanopartículas p ara entrega direcionada de drogas, diretamente nas lesões de
endometriose, com resultados promissores em relação a menores efeitos colaterais
sistêmicos e diminuição das lesões (Chaudhury et al. , 2013; Singh et al. , 2015; de
Almeida Borges et al., 2016).
1.2 Participação do colesterol nas doenças neoplásicas
Vários autores têm publicado evidências de que células tumorais apresentam
maior captação de LDL quando comparados às células normais (Ho et al., 1978; Vitols
et al., 1992; Maranhao et al., 1992; Maranhao et al., 1994; Guo et al., 2011; Liu et al.,
2013). A LDL é o maior transportador de colesterol do organismo, representando cerca
de 70% do total de colesterol plasmático (Vitols et al., 1992; Gabitova et al., 2013).
Alguns tumores sólidos, principalmen te os de proliferação rápida, apresentam maior
consumo e, consequentemente, maior necessidade de colesterol (Vitols et al., 1992;
Rudling et al., 1990; Lepalla et al., 1995; Kitahara et al., 2011; Llaverias et al., 2011;
Silvente-Poirot & Poirot, 2014; Touvier et al., 2015). A explicação deste fenômeno é a
necessidade aumentada de colesterol da célula tumoral para síntese de membrana no
crescimento e divisão celular (Gabitova et al., 2013).
Em 1978, Ho et al associaram a leucemia com a hipocolesterolemia sérica.
Demonstraram que células leucêmicas tinham atividade de receptores para LDL três a
100 vezes maior do que leucócitos normais. Outros estudos posteriores corroboraram a
relação entre câncer e baixos níveis plasmáticos de colesterol (Pinheiro et al., 2006;
Kok et al., 2011; Simko, 2014). Este foi o principal impulso para o estudo da LDL como
veículo de transporte específico de drogas antineoplásicas, participando da revolução
do uso da nanotecnologia em diversos setores da Medicina.
19
1.3 A nanotecnologia em Medicina
Partículas de dimensões variáveis, entre 1 e 100 nm, vêm sendo projetadas e
progressivamente mais utilizadas para distribuição direcionada de drogas ou agentes de
imagem diretamente no tecido -alvo na quantidade desejada (Medina et al. , 2007).
Atualmente este recurso tem sido empregado em diversas doenças como câncer,
diabetes, infecções fúngicas, virais e terapia genética (Bayford, 2017 ). Além disso,
limitam os efeitos colaterais e previnem o desenvolvimento de resistência
farmacológica (Bayford, 2017).
A proposta original do us o da nanotecnologia aplicada à M edicina visa
incorporar moléculas estranhas à LDL original. Esse processo envolve a substituição
dos lípides internos do núcleo da LDL por outros compostos hidrofóbicos (Saad et al.,
2008; Versluis et al., 1996).
A LDL é uma partícula esférica com peso molecular de 3 x 106 d e diâmetro de
22 nm, que contém em seu núcleo cerca de 1500 moléculas de ésteres de colesterol
envoltas por uma proteína, a apolipoproteína B (apoB100), responsável pel o
reconhecimento da estrutura pelo receptor de membrana específico (Vallabhajosula et
al., 1990).
O uso da molécula de LDL natural obtida do plasma, no entanto, mostrou -se
muito dispendioso. O processo de isolamento a partir do sangue é muito trabalhoso e a
obtenção de grandes quantidades , difícil. Isso fez com que fossem desenvolvidas
emulsões lipídicas artificiais , com comportamento metabólico similar à LDL , e
captação pelos mesmos receptores de membrana (Maranhao et al., 1992).
A emulsão lipídica denomin ada LDE assemelha -se estruturalmente com a
porção lipídica da LDL original, porém não possui apoB100. Em contato com o plasma,
a LDE adquire a apoE, proteína presente na HDL, VLDL e quilomí crons. A ApoE,
como outras apolipoproteínas móveis, migra das lipop roteínas originais para as
partículas de LDE. Como a ApoE também pode ser reconhecida pelos receptores de
LDL, permite que a LDE seja interiorizada pelas células pela mesma trajetória da LDL
(Ginsburg et al., 1982; Maranhao et al., 1993; Wilson et al., 1991).
Uma maneira de verificar esta interiorização da LDE é a marcação da mesma
com 14C, dosando sua captação pelas células dos diversos tecidos (Maranhao et al,
1993). Outros estudos avaliaram a distribuição plasmática da LDE radiomarcada após
20
injeção intravenosa, sua ligação com os receptores de LDL e posterior absorção celular,
confirmando ter ela a mesma afinidade que a LDL com os receptores de membrana
(Maranhao et al, 1993; Maranhao et al, 1994; Graziani et al, 2002).
Em 2001, foi avaliada a interiorizaç ão in vitro do complexo
LDE/Daunorrubicina por células de Leucemia Mielóide Aguda (Dorlhiac -Llacer,
2001). Este estudo evidenciou alta afinidade da LDE pelos receptores de LDL
superexpressos na membrana celular dos blastócitos, boa capacidade de destruição
celular pela droga, evidenciando que o complexo droga/nanocarreador não influenciou
na citotoxicidade da Daunorrubicina. Também se observou proteção efetiva das células
sadias dos efeitos tóxicos da droga livre (Dorlhiac-Llacer, 2001).
Desde então, Maranhao et al. têm demonstrado a capacidade de acoplamento de
drogas como Daunorrubicina, Paclitaxel, Carmustina e Etoposide na LDE e a
possibilidade de utilização em doenças como Mieloma Múltiplo, Cardiomiopatia
Diabética, Câncer de Ovário, Câncer de Mama, Lin foma Hodg kin e N ão-Hodgkin,
Melanoma e Aterosclerose (Rodrigues et al., 2002; Maranhao et al., 2002; Azevedo et
al., 2005; Pinheiro et al., 2006; Maranhao et al., 2008; Pires et al., 2009; Graziani et al.,
2017; Lima et al., 2017; Maranhao et al., 2017).
1.4 Endometriose, câncer e drogas anti proliferativas
Considerando-se que na endometriose os mecanismos de crescimento e invasão
têm pontos coincidentes com o comportamento das neoplasias, acredita -se que a
endometriose possa ter correlação fisiopatológica com as lesões tumorais (Stern et al.,
2001; Abrao et al. , 2006) . Recentemente, observou -se que as mulheres com
endometriose intestinal apresentam níveis plasmáticos de LDL mais baixos que o grupo
sem a doença (Gibran et al, 2017), característica comparável aos resultados de alguns
tipos de câncer (Kitahara et al, 2011; Kok et al, 2011; Llaverias et al, 2011; Silvente -
Poirot & Poirot, 2014; Simko, 2014).
Nesse mesmo estudo, Gibran et al (2017) avaliaram a expressão de receptores
de LDL na membrana celular das lesões de endometriose. Observaram superexpressão
dos receptores de LDL nas lesões de endometriose, comparativamente ao endométrio
tópico, sugerindo a necessidade aumentada de LDL para formação de membrana celular
das células em divisão. Este é o mesmo princípio do câncer, onde também há aumento
21
nos receptores da LDL, para interiorização da mesma pela célula e posterior formação
de membranas celulares na divisão mitótica aumentada. Este estudo (Gibran et al, 2017)
foi a primeira etapa do modelo racional para avaliação do tratamento da endometriose
através da nanotecnologia.
1.5 Hipótese do Estudo
Assim, t endo sido observada a superexpressão dos receptores de LDL pelas
células de endometriose, foi dada sequência nesse modelo, através do presente projeto
de pesquisa com o objetivo de avaliar a captação da emulsão de LDE marcada
radioativamente pelos receptores na superfície do foco endometriótico . A hipótese do
estudo é de haver captação da emulsão de LDE marcada pelos receptores do foco
endometriótico, e, a partir dos resultados obtidos com esta avaliação, será possível
testar a capacidade da LDE de interiorização celular e, com isso, selecionar uma droga
para acoplamento nesta emulsão lipídica que seja capaz de destruir o foco
endometriótico sem, no entanto, causar danos ao tecido sadio adjacente, nem apresentar
efeitos colaterais e complicações características dos procedimentos cirúrgicos.
22
2. Objetivo
23
2. Objetivo
Avaliação da captação da nanopartícula lipídica de LDL marcada com 14C pelo
tecido endometriótico de pacientes com endometriose ovariana e profunda, pelo
peritônio sadio adjacente às lesões e pelo endométrio , relacionando tal captação com
os locais de acometimento da endometriose;
24
3. Métodos
25
3. Métodos
3.1. Local de estudo e pacientes
O presente estudo caso-controle prospectivo exploratório foi realizado na
Clínica Ginecológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo (HC-FMUSP), onde as pacientes foram divididas em dois
grupos: grupo A, formado de pacientes com endometriose e grupo B, formado de
pacientes sem endometriose. O estudo foi aprovado pela Comissão de análise de
projetos de pesquisa (CAPPesq) do HCFMUSP ( Aprovação número 435.641), as
pacientes foram previamente informadas sobre o conteúdo da pesquisa e o material só
foi coletado após a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido (Anexos 2
e 3). A coleta das amostras respeitou os princípios éticos, práticos e de biossegurança
estipulados pelo Ministério da Saúde e pela CAPPesq da instituição , bem como os
protocolos técnicos do hospital e dos médicos envolvidos.
3.2 Cálculo da amostra
Visando encontrar diferença n a presença do marcador em paciente s com
endometriose ovariana e profunda, além do endométrio tópico e do peritônio sadio em
relação a mulheres do grupo controle, supondo que cada grupo foi considerado um
estudo de incidência específico e como não se conhec e nada a respeito do marcador
nesses grupos , foi considerada amostra conservadora , onde em 50% dos casos seria
encontrado o marcador com precisão (erro) de 5% (Kirkwood e Sterne, 2006). Usando
a fórmula abaixo, a amostra de pacientes necessária em cada grupo seria de 384
mulheres.
Onde: Z é o valor da distribuição normal padrão com nível de significância
/2; erro é a imprecisão desejada para a incidência da presença do marcador; p é a
estimativa da incidência do marcador em cada local.
2
2
α/2
erro
p)p(1Zn
26
Considerando-se o grande número de pacientes necessário sugerido pelo cálculo
amostral, não sendo então possível alcançar o n calculado, optou-se pela realização de
estudo piloto neste modelo. Assim, trata -se de estudo caso -controle prospectivo
exploratório, onde foram incluídas pacientes submetidas a tratamento cirúrgico da
endometriose e laqueadura tubárea em período de 6 meses, resultando em 14 pacientes
com endometriose (grupo A) e 3 pacientes sem a doença (grupo B).
3.3 Critérios de inclusão
Determinou-se para o grupo A os seguintes critérios de inclusão:
Idade entre 18 e 45 anos;
Endometriose ovariana ou profunda comprovadas histologicamente;
Ciclos menstruais eumenorréicos, com o intervalo entre os ciclos variando de
26 a 34 dias;
Não utilização de terapêutica hormonal nos três meses que anteced eram a
cirurgia, incluindo análogos de GnRH, progestagênios e contraceptivos
hormonais orais.
Para o grupo B, foram selecionadas mulheres respeitando os mesmos critérios
do grupo A, com exceção da confirmação histológica de endometriose.
3.4 Quadro Clínico
Todas as pacientes foram questionadas quanto aos seis sintomas mais
frequentemente relacionados à endometriose:
1. Dismenorréia – dor em cólica durante o período menstrual
2. Dispareunia de profundidade – dor pélvica durante o ato sexual
3. Dor pélvica acíclica – dor pélvica sem relação com o período menstrual,
constante, sem melhora com o uso de analgésicos
27
4. Infertilidade – dificuldade para um casal engravidar, sem o uso de métodos
contraceptivos, por pelo menos um ano de tentativa com vida sexual ativa (duas
ou mais relações por semana)
5. Alteração intestinal cíclica – dor e/ou sangramento à evacuação no período
menstrual
6. Alteração urinária cíclica – dor e/ou sangramento à micção no período
menstrual
Todos os quadros álgicos tiveram sua intensidade avaliada de acordo com uma
escala analógica de dor que varia de 0 a 10.
3.5. Dinâmica do Estudo
Todas as pacientes foram avaliadas do ponto de vista clínico pela anamnese,
exame físico e de imagem (ultrassonografia transvaginal e ressonância magnética,
quando apropriado), sendo incluídas nesse estudo, para o grupo A (com endometriose),
aquelas com indicação de videolaparoscopia por suspeita de endometriose. Os critérios
para indicação de videolaparoscopia para a endometriose foram: suspeita de
acometimento ureteral obstrutivo; intestinal (íleo terminal, apêndice e /ou
retossigmóide, com sinais de sub-oclusão), endometriomas ovarianos acima de 6,0 cm
e/ou pacientes sem melhora clínica (dor pélvica) após 12 meses de tratamento clinico
hormonal.
O grupo B (sem endometriose) foi composto de pacientes submetidas a
laqueadura tubária, de acordo com indicação apropriada do Setor de Planejamento
Familiar da Clínica Ginecológica do HC-FMUSP. Para inclusão nesse grupo, a paciente
não apresentava endometriose, nem outras doenças ginecol ógicas, comprovando -se
com exames de imagem e durante o procedimento cirúrgico.
Antes do tratamento cirúrgico, foi determinado o perfil lipídico das pacientes
dos dois grupos, em amostras de soro obtidas após jejum de 12 horas.
No dia anterior à cirurgia , 0,1 ml da nanopartícula lipídica sólida (LDE)
marcada radioativamente com [14C] -oleato de colesterol foram injetados por via
intravenosa em cada paciente de ambos os grupos.
No dia da cirurgia foi anotado o dia do ciclo menstrual, sendo considerado como
fase folicular do primeiro ao décimo quarto dia do ciclo e fase lútea do décimo quinto
28
até o último dia do ciclo menstrual. Após os procedimentos anestésicos e o
posicionamento da paciente, foi coletada amostra de endométrio tópico com auxílio de
cureta de Pipelle.
No grupo A, as pacientes foram submetidas a videolaparoscopia para
confirmação diagnóstica, ressecção das lesões acometidas e obtenção de amostra de
tecido peritoneal sadio adjacente a uma das lesões de endometriose. Foram anotados os
locais de acometimento das lesões, dividindo -se em ovário, região retrocervical,
vagina, bexiga e retossigmóide. Na avaliação dos resultados, os grupos de
acometimento foram classificados em intestinal e não -intestinal. No grupo B, as
pacientes foram submetidas a videolaparoscopia para realização da laqueadura tubária
e foi coletada amostra de peritônio sadio.
Com a realização do procedimento cirúrgico proposto, o patologista e o
cirurgião, que acompanharam todos os procedimentos, selecionaram amostras de tecido
endometriótico e de peritônio sadio, por meio de análise macroscópica do espécime
cirúrgico. Esse mesmo patologista realizou dateamento do endométrio tópico para
comprovar a fase do ciclo em que a paciente se encontrava. O tecido endometrial tópico,
o foco de endometriose e o fragmento de peritônio sadio adjacente foram divididos em
duas partes e encaminhados separadamente, sendo uma parte para o Departamento de
Patologia do HCFMUSP, onde realizou-se a análise histopatológica, e a outra
encaminhada para análise de radioatividade no Laboratório de Metabolismo de Lípides
do Instituto do Coração da FMUSP. Da mesma maneira, as amostras de tecido
endometrial tópico e fragmento de peritônio das pacientes do grupo B (sem
endometriose) foram divididas em duas partes e encaminhadas para datação do
endométrio e para análise de radioatividade.
3.6 Dosagem de triglicérides e colesterol
Os triglicérides e o colesterol total foram determinados pelo método
colorimétrico-enzimático, utilizando-se os kits comerciais (Labtest, São Paulo, Brasil).
A concentração de HDL foi medida pelo mesmo método, após precipitação da LDL e
29
LDL. A concentração de LDL foi calculada pela fórmula de Friedewald et al (1972):
LDL = Colesterol Total – (VLDL+HDL) e a de VLDL pela fórmula VLDL=TGL/5.
3.7 Preparação da Nanopartícula
A nanopartícula lipídica (LDE) foi preparada segundo a técnica modificada por
Maranhao et al. (1993): em um frasco, foram pipetados 40 mg de fosfatidilcolina, 20
mg de oleato de colesterol, 1 mg de trioleína e 0,5 mg de coles terol, diluídos em
clorofórmio:metanol (2:1). Posteriormente, foram adicionados à mistura de lípides os
isótopos 14C–colesterol esterificado e 3H–colesterol livre. Os solventes residuais foram
então evaporados da mistura sob fluxo de nitrogênio e dessecaçã o a vácuo por 16 h, a
4oC. Após a adição de 10 ml de tampão tris-HCL 0,01M, pH 8, a mistura de lípides foi
emulsificada por irradiação ultrassônica, utilizando -se equipamento Branson, modelo
450A (Arruda Ultrassom, São Paulo, Brasil) potência 125 watts, du rante 3 h, sob
atmosfera de nitrogênio, com temperatura variando entre 51 a 55 oC. Para obtenção da
LDE na faixa de diâmetro e tamanho desejado, a solução lipídica foi purificada em duas
etapas de ultracentrifugação (ultracentrífuga, rotor Beckman SW-41).
Na primeira etapa, o material da parte superior do tubo, resultante da
centrifugação a 200.000 x g por 30 minutos a 4oC, foi removido por aspiração (1mL) e
desprezado. Ao restante do material foi adicionado brometo de potássio (KBr),
ajustando a densidade para 1,21 g/mL. Após a segunda centrifugação (200.000 x g por
2 horas a 4oC), a LDE foi recuperada no topo do tubo por aspiração. O excesso de KBr
foi removido por diálise, contra duas trocas de 1000 volumes tampão tris-HCL 0,01M,
pH 8. Finalmente, a emulsão foi esterilizada por filtração em membrana Milipore (0,22
μ de porosidade), sob fluxo laminar e armazenada a 4oC por até trinta dias.
3.7.1 Determinação da captação da LDE
Os lípides foram extraídos das amostras de tecidos coletados seguindo o método
convencional descrito por Folch et al. (1957). Os fragmentos foram limpos em
condições adequadas sob placa de gelo, em seguida pesados e então macerados de
forma a ficarem com o aspecto pastoso. Os fragmentos foram transferidos para tubos
grandes (20x160), onde foram adicionados 10 mL de metanol e 20 mL de clorofórmio.
30
As amostras ficar am em repouso “overnight” a 4 ºC. Depois, por duas vezes foram
filtradas, lavadas com 2,5 mL de clorofórmio e adicionados 7 mL de água bidestilada.
A fase sobrenadante foi aspirada a vácuo e descartada. Foram adicionados 4 mL de
“Clear Folch” (CHCl3/ MEOH/ H 2O, na proporção de 3:48:47), a amostra fic ou mais
uma vez em repouso “overnight” à temperatura ambiente, e novamente o sobrenadante
foi descartado. Em seguida, as amostr as foram secas sob fluxo de nitrogênio (N 2),
dissolvidas em solução de Folch, transferidas para tubos menores lavando -se várias
vezes, e foram, mais uma vez, secas sob fluxo de nitrogênio e reconstituídas em 500
L de solução de Folch em gelo.
Os componen tes marcados da LDE foram separados por cromatografia em
camada delgada (CCD) em placa de silicagel 60H (Sigma S -6628), onde foram
aplicados 100 L de amostra. Hexano/éter etílico/ácido acético, na proporção 70:30:1,
foram utilizados como fase móvel. As pl acas foram reveladas com iodo sublimado,
demonstrando as áreas das bandas referentes às frações lipídicas. As faixas
correspondentes às bandas de interesse foram removidas para frascos de cintilação,
foram adicionados 4 mL de solução cintiladora, e a radioatividade foi medida com um
espectrômetro de cintilação líquida (Packard 1600 TR, Palo Alto, CA).
3.7.2 Segurança Radiológica
A dose radiol ógica injetada foi avaliada de acordo com as normas da
"International Commission on Radiological Protection" (ICRP) (Paquet et al., 2016). O
parâ metro "Annual Limit for Intake" (ALI) de radionuclídeo é definido como a
quantidade de radiois ótopo que induz a uma dose equivalente de 50 mSv. Para
componentes orgânicos marcados com 14C ou 3H, os valores de ALI são 9 x 107 e 3 x
109 Bq, respectivamente. No presente estudo, a dose injetada de 14C foi de 22,2x104
Bq, o que equivale a: (22,2x104 Bq/9x107 Bq)x50mSv= 0,1233msV. Para o 3H, a dose
injetada foi de 44,4 x 104 Bq, portanto a dose equivalente: (44,4 x 104 Bq / 3 x 109 Bq)
x 50 mSv = 0,0075 mSv. A dose equivalente incorporada no corpo inteiro, em
consequê ncia da exposi ção aos l ípides radioativos, foi estimada em 0,04 mSv,
conforme avaliado pelo m étodo MIRD - Medical Internal Radiological Dosimetry
(Smith et al., 1977). Os dados descritos para ratos pesando 0,4 kg foram ajustados para
31
seres humanos, estimando -se um peso m édio de 70 kg, utilizando -se um fator de
correção com a seguinte equação:
KHomen = kRato x (70kg/ 0,4kg) 1-x
O valor exponencial X rep resenta uma escala de varia ções interesp écies da
farmacocinética, levando em consideração o tempo biológico de cada espécie, que varia
de 0,65 a 0,95. Considerando o valor de X=0,86, estima-se para os seres humanos, um
nível plasmático total de 204 mg/dL e uma excreção diária de colesterol de 1250 mg/dia
(Boxenbaum, Ronfeld, 1983). Esse valor est á dentro da média descrita em avalia ções
laboratoriais desses parâmetros, em seres humanos (Maranhao & Quintao,1983).
O m étodo acima descrito pe rmite estimar que os participantes deste estudo
receberam por dose injetada de 14-C oleato de colesterol, 0,26 mGy no intestino grosso
inferior, 0,5 mGy no intestino grosso superior, 0,18 mGy na pele, 0,13 mGy na
superfície dos ossos e 0,13 mGy no f ígado. A dose recebida pelos pulm ões, coração,
ovários ou testículo é desprezível. A dose-equivalente incorporada no corpo inteiro, em
consequência à exposição aos lípides radioativos, foi estimada em 0,02 mSv, conforme
avaliado pelo método MIRD (Medical International Radiological Dosimetry)
(Maranhao et al., 1994). A dose máxima de exposição à radioatividade para o público
geral (não -ocupacional), segundo as diretrizes de proteção radiológica (Comissão
Nacional de Energia Nuclear – CNEM – Brasil, 2011), é de 5 mSv ao ano (CNEM,
2011).
Comparativamente, uma radiografia de tórax equivale a 0,1 mSv de dose -
equivalente incorporada; uma tomografia computadorizada de corpo inteiro, a 11 mSv;
e uma viagem aérea de 10 horas, a 0,05 mSv.
Desta forma, os estudos anteriore s foram eticamente aprovados, incluindo nos
mesmos o uso da nanopartícula em controles saudáveis, já que a biossegurança da
nanopartícula está comprovada, tanto em portadores das doenças / neoplasias – grupo
alvo, quanto em grupos -controle saudáveis (Maranhao et al., 1994; Maranhao et al.,
1996; Ades et al., 2001; Graziani et al., 2002; Paquet et al., 2016) e, desta forma, o risco
de efeito radioativo lesivo é desprezível.
32
3.8 Análise estatística
As características pessoais e exames avaliados foram descritos segundo grupos
com uso de medidas resumo (média, desvio padrão, mediana e quartis) e comparadas
entre os grupos com uso de testes Kruskal-Wallis (Kirkwood e Sterne, 2006).
A quantidade da emulsão injetada encontrada nos locais de interesse
padronizadas para 1g foram descritas segundo grupos e comparadas entre os grupos
com uso de testes Kruskal -Wallis e entre os locais para cada grupo com uso de testes
de Friedman ou teste de Wilcoxon pareado (Kirkwood e Sterne, 2006), para essas
comparações o nível de s ignificância adotado foi de 1% para corrigir as múltiplas
comparações realizadas.
Foram calculadas as correlações de Spearman (Kirkwood e Sterne, 2006) entre
os exames laboratoriais e a quantidade de fluído encontrada nos locais de interesse
apenas para as mulheres com endometriose para verificar se migração de substância
para esses locais sofre influência dos níveis dos exames laboratoriais.
Foram empregados apenas testes não paramétricos devido ao pequeno número
de amostras em cada grupo e com isso não assumir qualquer suposição sobre os dados
avaliados. Os testes foram realizados com nível de significância de 5%.
33
4. Resultados
34
4. Resultados
Foram avaliados os resultados de 17 pacientes, sendo 3 do grupo control e
(laqueadura tubária, sem endometriose) e 14 do grupo endometriose. Destas pacientes,
6 apresentavam endometriose intestinal e 8 não eram portadoras de lesões intestinais,
sendo que uma paciente apresentava lesão retrocervical, uma endometrioma ovariano,
quatro tinham lesões retrocervicais e endometriomas ovarianos e duas apresentavam
lesões retrocervicais e de bexiga. Na Tabela 1, observa -se que a mé dia de idade foi
pouco superior nos grupos Endometriose Intestinal e Não intestinal (36 e 39,6 anos
respectivamente, p=0,136) em relação ao grupo sem a doença, sem diferença
estatisticamente significante. De forma similar, não houve diferença significativa no
índice de massa corpórea entre os diferentes grupos (p=0,730). Em relação à fase do
ciclo menstrual, 3 pacientes do grupo endometriose intestinal, 5 do não -intestinal e 2
do grupo controle encontravam-se na fase folicular. Em duas pacientes, não foi possível
a determinação da fase do ciclo.
Tabela 1. Parâmetros clínicos expostos em média e desvio padrão dos diferentes
grupos: sem endometriose, com endometriose intestinal e com endometriose em outros
locais (não intestinal).
Grupo
p Variável Controle Intestinal Não intestinal
(n = 3) (n = 6) (n = 8)
Idade (anos) 30,3 ± 2,9 36 ± 9,4 39,6 ± 5,8 0,136
Peso (Kg) 75,1 ± 25 67,8 ± 12,2 74,5 ± 14,7 0,788
Índice de Massa
Corpórea (Kg/m2) 28,8 ± 7,0 27,3 ± 4,2 28,8 ± 3,7 0,730
Teste Kruskal-Wallis
35
Na Tabela 2 são descritos os percentuais de pacientes em cada grupo que
apresentavam os sintomas sugestivos de endometriose.
Tabela 2. Quadro clínico de pacientes dos diferentes grupos: sem endometriose, com
endometriose intestinal e com endometriose em outros locais (não intestinal).
Grupo
Variável Controle Intestinal Não intestinal
(n = 3)
%
(n = 6)
n (%)
(n = 8)
n (%)
Dismenorréia 0 5 (87,5) 5 (62,5)
Dispareunia de
profundidade 0 5 (87,5) 8 (100,0)
Dor pélvica crônica 0 4 (66,7) 5 (62,5)
Infertilidade 0 3 (50,0) 4 (50,0)
Alteração intestinal
cíclica 0 4 (66,7) 2 (25,0)
Alteração urinária
cíclica 0 1 (16,7) 4 (50,0)
Na Tabela 3, são apresentados os parâmetros laboratoriais avaliados no estudo . O
grupo Endometriose não intestinal mostrou tendência a ter colesterol total (CT), LDL
colesterol e Triglicérides (TGL) mais baixos. Não houve diferença estatística na
comparação realizada entre os grupos (p>0,05).
36
Tabela 3. Resultados das concentrações de colesterol total e suas frações e de
triglicérides em mg/dL (expostos em média e desvio padrão) realizados nos três grupos
de pacientes: sem endometriose, com endometriose intestinal e com endometriose em
outros locais (não intestinal).
Grupo
P
Variável
(mg/dL)
Controle Intestinal Não intestinal
(n = 3) (n = 6) (n = 8)
CT 226 ± 49 198 ± 35 154 ± 53 0,26
HDL 45 ±14 47 ± 3 46 ± 15 0,83
LDL 112 ± 26 121 ± 24 87 ± 40 0,21
TGL 115 ± 20 155 ± 59 107 ± 40 0,29
Teste Kruskal-Wallis / mg/dL- miligrama por decilitro
Na Tabela 4 pode ser observada a comparação da captação da nanopartícula nos
diferentes tecidos entre os grupos (controle, endometriose intestinal e endometriose
nao-intestinal). Na análise estatística destes valores não houve diferença significativa
da quantidade de nanopartícula captada entre os grupos (p > 0,01).
37
Tabela 4. Captação da emulsão nanolipídica marcada nos locais de interesse (Peritônio,
Lesão de Endometriose e Endométrio), exposta em média e desvio padrão, segundo
grupos de pacientes: sem endometriose, com endometriose intestinal e com
endometriose em outros locais (não intestinal) e resultados dos testes comparativos.
Grupo
p* Variável Controle Intestinal Não intestinal
(cpm/g) (N = 3) (N = 6) (N = 8)
Peritônio 665 (739,9) 316,7 (511,9) 712,3 (1069,1) 0,538
Endometriose -- 180,8 (169,8) 197,5 (403,5) 0,651
Endométrio 1152,3 (1332,2) 1340,4 (2220,4) 709,9 (1275,5) 0,941
* Teste Kruskal-Wallis. Em razão da múltiplas comparações os testes devem ser
analisados com nível de significância de 1% (
= 0,01). Cpm/g (contagem
radioativa/grama de tecido)
Na Tabela 5, cada grupo foi avaliado separadamente, comparando -se o
endométrio tópico e os tecidos endometrióticos intestinal e não intestinal. Os tecidos
endometrioticos captaram a nanopartícula de maneira semelhante Ainda que não
significante estatisticamente, a captação foi maior no endométrio, seguido pelo
peritônio e, por último, pelo tecido endometriótico (p > 0,01). Da Tabela 5, extraiu-se
a Figura 1, para melhor visualização.
38
Tabela 5. Captação da emulsão nanolipídica marcada , exposta em média e desvio
padrão, segundo grupos de pacientes: sem endometriose, com endometriose intestinal
e com endometriose em outros locais (não intestinal), nos locais de interesse (Peritônio,
Lesão de Endometriose e Endométrio) e resultados dos testes comparativos.
Variavel (cpm/g)
Grupo Peritonio Endometriose Endometrio p*
Media±DP Media±DP Media±DP
Controle 665±739,9 --- 1152,3 ± 1332,2 0,655#
(N=3)
Intestinal 316,7 ± 511,9 180,8 ± 169,8 1340,4 ± 2220,4 0,449
(N=6)
Não
Intestinal
712,3 ± 1069,1 197,5 ± 403,5 709,9 ± 1275,5 0,156
(N=8)
* Teste de Friedman; # Teste Wilcoxon pareado. Em razão da múltiplas comparações
os testes devem ser analisados com nível de significância de 1% (
= 0,01) / DP =
desvio padrão / Cpm/g (contagem radioativa/grama de tecido)
39
Figura 1. Valores de captação da nanopartícula lipídica marcada (LDE), divididos por
grupos (Controle, Endometriose Intestinal e Endometriose Não Intestinal) e em cada
grupo, por local avaliado (Peritônio, Endométrio Tópico e Endometriose)
*=valores fora da curva (outliers)
Foram calculadas as correlações de Spearman (Kirkwood e Sterne, 2006) entre
os exames laboratoriais e a quantidade de fluido encontrada nos locais de interesse
apenas para as mulheres com endometriose para verificar se migraçã o de substância
para esses locais sofre influência dos níveis dos exames laboratoriais.
Comparando-se a captação da nanopartícula nos diferentes sítios avaliados, com
os resultados dos exames laboratoriais das pacientes com endometriose (Tabela 6 –
valor r), não houve diferença estatisticamente significante entre os parâmetros (Tabela
6 - p>0,05).
40
Tabela 6. Valores de correlações entre a nanopartícula encontrada nos locais de
interesse (Peritônio, Lesão de Endometriose e Endométrio) e as concentrações de
colesterol total e suas frações e de triglicérides nas pacientes com endometriose.
Correlação Peritônio Endometriose Endométrio
CT
r 0,321 0,333 0,286
p 0,365 0,347 0,493
n 10 10 8
HDL
r 0,201 0,237 0,143
p 0,578 0,510 0,736
n 10 10 8
LDL
r 0,261 0,176 0,143
p 0,467 0,627 0,736
n 10 10 8
TGL
r -0,261 -0,188 -0,405
p 0,467 0,603 0,320
n 10 10 8
Correlação de Spearman
r=relação captação com parâmetro sérico ; p=índice p; n=número de
pacientes
41
5. Discussão
42
5. Discussão
A endometriose, doença que chega a acometer 10% das mulheres em idade
reprodutiva, pode apresentar -se de forma muitas vezes bastante agressiva,
especialmente ao comprometer o funcionamento de órgãos vitais, como o intestino e as
vias urinárias (Cornillie et al., 1990). Além da sintomatologia álgica, muitas vezes
incapacitante, a endometriose pode cursar também com obstruç ão intestinal, perda de
função renal e infertilidade, entre outras complicações (Redwine et al., 1992; Triolo et
al., 2013; Cao et al., 2015; Darwish & Roman, 2016; Lagana et al., 2016). Por esta
razão, seus mecanismos inflamatórios, de invasão e expansão vêm sendo estudados,
como tentativa de controle de suas consequências (Thomas et al., 2000; Stern et a l.,
2001; Abrao et al., 2006; Podgaec et al., 2007; Pupo-Nogueira et al., 2007; Machado et
al., 2008; Olovsson, 2011; Podgaec et al., 2012; Bellelis et al., 2013; Chaudhury et al.,
2013; Salmeri et al., 2015; Sofo et al., 2015). O tratamento cirúrgico e o bloqueio
hormonal ainda são os mais utilizados, mas suas complicações a curto e longo prazo
muitas vezes limitam a utilização, além dos resultados em termos de controle de
sintomas e tamanho das lesões, poderem ser limitados (Konickx et al., 1991; Chapron
et al., 2003; Bassi et al, 2011; De Cicco et al. , 2010; Kondo et al., 2011; Mabrouk et
al., 2011; Nezhat et al., 2011; Simoens et al., 2012; Ribeiro et al., 2014; Abrao et al.,
2015; Magrina et al., 2015; Rausei et al., 2015; Lagana et al., 2016; Selvi Dogan et al.,
2016; Giussy et al., 2017).
Assim, novas modalidades terapêuticas têm sido desenvolvidas, levando-se em
conta as características metabólicas da endometriose, os efeitos colaterais e as
complicações dos tratamentos atualmente disponíveis. Um exemplo das opções de
tratamento clínico da endometriose é o dispositivo intrauterino liberador de
levonorgestrel, que induz atrofia endometrial sem , no entanto suprimir a ovulação,
concorrendo para diminuição da dismenorréia e controle eventual das dimensões d os
nódulos da doença. Entretanto, os resultados do tratamento hormonal exclusivo não são
resolutivos para todas as pacientes (Elnashar, 2015).
Outra opção para tratamento da endometriose é o uso dos inibidores da
aromatase P450, responsável pela biossíntes e local de estr ogênio pelos focos
endometrióticos. As drogas mais utilizadas deste grupo são o anastrozol e o letrozol,
ambos com bons resultados no controle de sintomas e do tamanho dos nódulos
43
endometrióticos, devido ao hipoestrogenismo causado. Entretan to, este estado
hipoestrogênico pode levar a efeitos colaterais sistêmicos , aumentando riscos a longo
prazo, como a ocorrência de osteoporose. Também parece haver recorrência dos
sintomas álgicos e das lesões em caso de interrupção do tratamento, mesmo que este
seja de pelo menos seis meses (Elnashar, 2015).
Os moduladores seletivos de receptores estrogênicos (raloxifeno) e
progestagênicos (mifepristona e onapristona), também vêm sendo estudados em
animais, para controle da endometriose. Assim como os bloqu eadores hormonais
sistêmicos (agonistas GnRH, anticoncepcionais hormonais, progestagênios), têm efeito
positivo sobre a endometriose, porém os resultados são limitados em caso de
acometimento profundo ou extenso, além de não poderem ser mantidos a longo pr azo
(Elnashar, 2015; Vanhie et al, 2016; Wu et al, 2017).
Em animais, também foram testados inibidores da angiogênese (TNP470,
endostatina, anginex, capamicina) para tratamento da endometriose, uma vez que há
estudos que mostram aumento do VEGF (vascular endothelial growth factor ) e das
enzimas Matriz Metaloproteinases nas lesões. Associados ao tratamento cirúrgico,
preveniram neovascularização dos sítios de endometriose e parecem ter bons resultados
na endometriose inicial. Entretanto, na endometriose com maior percentual de fibrose
e envolvimento profundo, os resultados são limitados (Elnashar, 2015).
Alguns destes estudos experimentais foram feitos utilizando -se nanopartículas
acopladas à droga ativa. O objetivo dos mesmos era diminuir o estresse oxidativ o e a
angiogênese através da eliminação dos radicais livres. Em 2013, Chaudhury et al.
avaliaram nanopartículas de óxido de cérium em ratos, com bons resultados, seguidos
por Singh et al (2015), cuja avaliação em ratos também demonstrou bons resultados, ao
acoplar doxiciclina e galato de epigalocatequina, à nanopartícula de ácido poli -latico-
co-glicólico. Em 2016, o estudo de De Almeida Borges et al demonstrou diminuição
da proliferação das células de endometriose em cultura in vitro, utilizando silicatos
lamelares contendo resina de óleo de copaíba.
Também foi revisado o uso de estatinas para o tratamento da endometriose
(Gibran et al, 2014). Nesta revisão, foram levantados treze estudos, com resultados
positivos, uma vez que as estatinas atuam em quatro ní veis relacionados à patogênese
da endometriose: inibição das enzimas Matrizes M etaloproteinases (envolvidas na
implantação tissular), atividade antiangiogênica, inibição da proliferação endometrial,
44
além de sua atividade antiinflamatória e controladora do estresse oxidativo. Entretanto,
todos os estudos foram realizados em animais ou in vitro , e as estatinas têm riscos
potenciais de efeitos colaterais, como rabdomiólise, desconforto gastrointestinal e
diabetes em altas doses (Gibran et al, 2014).
Outros tra tamentos, como imunomoduladores e metformina, também foram
testados, porém com resultados inferiores e necessariamente associados à cirurgia
(Gibran et al., 2014; Nothnick et al, 2016).
Desta forma, a observação de que os novos tratamentos têm resultados limitados
ou não foram testados sem a associação com a cirurgia permite concluir que o
tratamento clínico hormonal atual ainda tem papel importante no controle da
sintomatologia álgica. Por outro lado, não promove diminuição dos nódulos
endometrióticos profundos (Roman et al., 2011). Além disso, por ser doença crônica e
requerer tratamento de longa duração, a terapêutica clínica ainda enfrenta limitações
pelos potenciais efeitos colaterais e por não beneficiar pacientes com queixa de
infertilidade (Elnashar, 2015; Vanhie, 2016).
Portanto, o tratamento cirúrgico da endometriose permanece como opção
terapêutica,em diversas situações, mas muitas vezes há dificuldades técnicas e as
complicações podem ser graves . As taxas de complicações variam entre os estudos,
mas as principais são recorrência das lesões (5,8 a 20%), fístulas (1,8 a 2,6%) ,
hemorragias (2,0 a 2,5%) , infecção (0,5 a 1,0%) , suboclusão intestinal (0,2 a 2,7%) ,
disfunção vesical e/ou intestinal (3,6 a 9,8%) , entre outras ( De Cicco et al., 2010 ;
Kondo et al., 2011; Mabrouk et al., 2011; Ribeiro et al., 2014 ; Magrina et al., 2015;
Rausei et al., 2015; Lagana et al., 2016 ). Além disso, há a necessidade de equipes
especializadas para a realização dos casos de maior complexidade , demonstrando a
necessidade de outras alternativas para controle dos nódulos endometrióticos
profundos, bem como da sintomatologia clínica.
Uma das linhas de desenvolvimento deste tratamento apóia -se na
nanotecnologia, onde drogas são acopladas a partículas que tenham afinidade c om o
tecido afetado, de forma a serem entregues diretamente às células doentes, sem efeitos
sistêmicos significativos e com uma eficácia superior no controle das lesões. Em
diversos tipos de câncer ( linfoma Hodgkin, melanoma, carcinoma de mama e de
ovário), em doenças reumatológicas (artrite reumatoide), na aterosclerose, no mieloma
múltiplo e na cardiomiopatia diabética, onde há proliferação celular intensa e/ou
45
atividade inflamatória aumentada, a necessidade significativamente maior de LDL
permitiu bons r esultados utilizando -se a LDE (nanoemulsão artificial semelhante à
LDL e que se liga ao mesmo receptor desta) acoplada a um quimioterápico, para entrega
direcionada deste, apenas às células comprometidas (Dorlhiac-Llacer, 2001; Rodrigues
et al., 2002; Mara nhao et al., 2002; Azevedo et al., 2005; Pinheiro et al., 2006;
Maranhao et al., 2008; Pires et al., 2009; Graziani et al., 2017; Lima et al., 2017;
Maranhao et al., 2017).
Neste sentido, para haver lógica em estudar esse modelo em pacientes com
endometriose, o estudo preliminar (Gibran et al, 2017) avaliou a presença de receptores
de LDL nos focos de endometriose de 20 pacientes (o grupo controle, sem
endometriose, tinha 19 pacientes) . Neste estudo, foi avaliada a expressão gênica dos
receptores de LDL na superfície das células de endometriose e do endométrio tópico.
Também foi avaliado o perfil lipídico de ambos os grupos. Em relação a este último, o
grupo com endometriose apresentou níveis de LDL sérica mais baixos que o grupo
controle, apesar de não ter sido estatisticamente significante. Foi ainda observado que
os receptores de LDL estão superexpressos na membrana das células de endometriose
profunda, mais que no endométrio tópico das mesmas pacientes e dos controles (Gibran
et al, 2017).
A avaliação seguinte do modelo trata-se do presente estudo, um projeto-piloto,
cujo objetivo foi verificar se estes receptores de LDL, superexpressos nos focos de
endometriose, captavam a LDE marcada.
Na comparação entre os grupos (com endometriose intestinal e não int estinal,
grupo controle – tabela 1), não houve diferença significativa nos parâmetros clínicos
(p>0,01), como idade, índice de massa corpórea e fase do ciclo menstrual, sendo, desta
forma, grupos clinicamente semelhantes para comparação. Apesar disto, o gr upo com
endometriose intestinal tendeu a apresentar um IMC mais baixo que os demais ,
compatível com a metanalise de Zhu et al (2016), onde apesar da heterogeneidade dos
grupos analisados, a presença e gravidade da endometriose foi inversamente
proporcional ao IMC.
Esta diferença, apesar de não estatisticamente significante por ser um estudo -
piloto com amostra pequena, também pôde ser observada em relação à sintomatologia
(tabela 2): as mulheres do grupo controle não apresentavam sintomas da endometriose,
e as do grupo endometriose intestinal eram mais sintomáticas do ponto de vista álgico
46
que aquelas com endometriose não -intestinal. Respectivamente, 87,5 e 62,5%
apresentavam dismenorréia, 66,7 e 62,5%, tinham dor pélvica crônica, além de 66,7 e
25,0% queixarem-se de alteração intestinal cíclica. Em contrapartida, as mulheres com
endometriose não intestinal tinham mais sintomas de dispareunia de profundidade
(100,0 versus 87,5% daquelas com endometriose intestinal), e alteração urinária cíclica
50,0 versus 16,7%). Tais achados corroboram os dados da literatura, onde observou-se
que a endometriose profunda, com acometimento extenso, corresponde aos casos de
maior sintomatologia (Cornillie et al., 1990; Konickx et al., 1991; Radhika et al, 2016;
Soliman et al, 2017).
Em relação ao nível de colesterol, que indiretamente pode demonstrar o estado
de alto metabolismo devido à inflamação e à alta divisão celular, o grupo com
endometriose intestinal tendeu a apresentar níveis mais altos de LDL, em relação aos
demais gr upos: 121 mg/dL (controle: 112 mg/dL e endometriose não -intestinal, 87
mg/dL, p>0,01 – tabela 3). Estes resultados confirmam estudos anteriores, que sugerem
uma tendência a hipercolesterolemia nas mulheres com endometriose (Melo et al, 2010;
Mu et al, 2017 ) e que também recomendam grupos maiores para esta avaliação no
futuro.
Na Tabela 4, foi feita a comparação da captação da nanopartícula nos diferentes
tecidos entre os grupos (controle, endometriose intestinal e endometriose nao -
intestinal). O peritoneo tendeu a captar mais LDE nas mulheres com endometriose nao
intestinal (média de 712,3U), seguido pelos grupos controle e endometriose intestinal
(p>0,1). Nas lesões de endometriose intestinal, a captação media foi maior que na
endometriose nao-intestinal (p>0,1), mostrando uma interiorização da LDL maior, o
que sugere menos tecidos fibroticos na endometriose intestinal. No endométrio tópico,
a tendência foi a média de captação da emulsão de LDE ser maior no grupo
endometriose intestinal (1340,4 cpm/g), seguido pelo grupo controle (1152,3 cpm/g) e
por último, o de endometriose nao -intestinal (709,9 cpm/g; p>0,1). Apesar destas
tendências, na análise estatística destes valores, não houve diferença significativa da
quantidade de nanopartícula captada entre os diferentes tecidos (p > 0,01), uma vez que
este estudo se tratou de um estudo piloto, com n pequeno. Da mesma forma, a
comparação da captação da LDE por cada local de avaliação (peritôneo sadio, lesão de
endometriose e endométrio tópico) também não mostrou diferença estatística entre os
grupos (tabela 5 e figura 1 ), apesar da observação de uma tendência a captação
47
descrescente entre endométrio tópico (1067,5 cpm/g), peritônio sadio (564,7 cpm/g) e
lesão de endometriose (189,2 cpm/g). Não há dados na literatura a respeito da captação
da nanopartícula na endometriose.
Entretanto, o resultado de que os focos de endometriose (intestinal ou não)
captaram de maneira significativa a LDE permite a conclusão de que há consumo
aumentado de LDL nas lesões de endometri ose, assim como no câncer e nas doenças
inflamatórias onde a LDE foi testada como carreador de droga (Dorlhiac-Llacer, 2001;
Rodrigues et al., 2002; Maranhao et al., 2002; Azevedo et al., 2005; Pinheiro et al.,
2006; Maranhao et al., 2008; Pires et al., 2009; Graziani et al., 2017; Lima et al., 2017;
Maranhao et al., 2017). Destes estudos, os mais recentes demonstram ausência de
efeitos tóxicos clínicos e laboratoriais, além de resultados promissores em relação ao
resultado do tratamento. No câncer de ovári o, Graziani et al (2017) observaram
desaparecimento do tumor em 28,6% das pacientes tratadas com o quimioterápico
paclitaxel acoplado à LDE. Em roedores, os estudos em aterosclerose e miocardiopatia
diabética (pós-infarto agudo) também demonstraram ótimos resultados em relação ao
grupo controle, utilizando respectivamente paclitaxel e metotrexate acoplados à LDE
(Lima et al., 2017; Maranhao et al., 2017).
Os resultados deste estudo são preliminares, mas ainda indicaram uma alta
absorção da LDE marcada també m pelo endométrio tópico (tabelas 4 e 5). Uma
possível interpretação deste resultado é que o endométrio tópico é um tecido em grande
divisão celular, ao proliferar, espessar e descamar ciclicamente num curto intervalo de
tempo. Tal renovação cíclica de tod o o tecido endometrial também sugere que a
eventual captação da droga pelo mesmo não comprometeria sua função, uma vez que a
apoptose celular aconteceria independentemente do tratamento e novas células
surgiriam logo após o mesmo. Ainda assim, novos estudo s são necessários para esta
avaliação e, para tal, devem ser selecionados casos de mulheres sem desejo reprodutivo.
Também novos estudos devem ser realizados para avaliar outras possibilidades de
efeitos colaterais do tratamento, como alteração da reserva ovariana pela droga de
bloqueio acoplada à LDE. A sequência deste estudo, avaliará estes efeitos quando da
utilização do quimioterápico metotrexate acoplado à LDE.
No presente estudo, também foi avaliada a possibilidade de a captação da
nanopartícula marca da pelos tecidos testados ter influência dos níveis de colesterol
plasmático (tabela 6), e não houve diferença estatística entre os diversos grupos/tecidos,
48
comprovando a entrega direta da nanoemulsão aos tecidos em alta divisão celular,
independente das lipoproteínas séricas.
Estes resultados abrem caminho para novos estudos de avaliação da
nanotecnologia como opção terapêutica às cirurgias radicais e suas complicações. Além
disso, por haver pouco ou nenhum efeito colateral sistêmico, quando esta tecnolog ia é
comparada com os bloqueios hormonais sistêmicos atualmente disponíveis como opção
terapêutica, novos estudos são estimulados na tentativa de desenvolvimento de um
tratamento mais eficaz e com menos complicações que os atualmente disponíveis.
Desta for ma, por haver uma captação significativa da LDE pelos tecidos
endometrióticos, o seguimento do modelo racional já está em andamento. Na sequência
deste estudo, o projeto, já em fase de coleta de dados, avaliará o resultado terapêutico
da LDE acoplada ao metotrexate, nas lesões de endometriose intestinal e na dor pélvica
refratária ao tratamento clínico hormonal.
Neste estudo, a observação de que as lesões de endometriose têm boa afinidade
pela LDE e a mesma é captada pelo tecido doente permite a continuaç ão da avaliação
da nanotecnologia como opção de tratamento não -cirúrgico para as lesões de
endometriose profunda. Apesar de novos estudos serem necessários, com amostras
maiores, o tratamento da endometriose com a utilização da LDE acoplada a drogas
capazes de inibir a proliferação celular dos focos de endometriose, parece ser uma
opção viável e promissora, como forma de diminuir os efeitos colaterais e as
complicações dos tratamentos atualmente disponíveis.
49
6. Conclusão
50
6. Conclusão
Houve captação da nanopartícula lipídica de LDL marcada com 14C pelo tecido
endometriótico de pacientes com endometriose ovariana e profunda, pelo peritôneo
sadio adjacente às lesões e pelo endométrio, sendo que nas lesões de endometriose
intestinal a captação média foi maior que na endometriose não-intestinal.
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67
8. Anexos
68
8. Anexos
ANEXO 1. Carta de Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do HC-FMUSP
69
70
ANEXO 2. Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – Pacientes com
Endometriose
71
72
73
74
ANEXO 3 . Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – Pacientes sem
Endometriose (Grupo Controle).
75
76
77
78
ANEXO 4. Tabela Completa de resultados, por paciente: idade, parâmetros clínicos e
laboratoriais
Paciente Idade PESO ALTURA IMC LOCAL CT HDL LDL TGL
Fase
Ciclo
1 44 84,95 1,63 32 RC
17
2 38 69,9 1,58 28 IN+RC+OV
10
3 40 54 1,49 24,3 RC + OV 224 76 129 76 -
4 45 64 1,51 28,1 IN + OV 215 50 138 137 11
5 32 58,5 1,51 25,7 0 261 55 93 100 9
6 39 96,6 1,66 35,1 OV 129 37 68 120 4
7 47 65 1,55 27,1 RC + OV 151 46 86 97 10
8 27 103,8 1,68 36,8 0 191 35 130 129 7
9 32 68 1,62 25,9 RC + OV 103 33 49 106 13
10 30 72,1 1,62 27,5 IN 158 44 93 107 14
11 32 63 1,62 24 0
15
12 46
1,52
RC + OV 219 41 152 130 19
13 36 63,5 1,6 24,8 IN + OV
-
14 46 87 1,6 34 IN 221 46 131 221 21
15 32 85 1,73 28,4 BX + OV 89 35 45 46 18
16 37 68,2 1,53 29,1 BX + RC 164 53 77 171 4
17 21 50 1,53 21,4 IN + OV
5
RC=retrocervical / IN=intestinal / OV=ovariana / BX=bexiga
79
ANEXO 5. Tabela Completa de resultados, por paciente: peso do tecido coletado,
captação da nanopartícula (LDE) bruta, e captação calculada (ajustada para 1g de
tecido).
Paciente
LOCAL PTP PTE PTEN
CP
bruta
CE
bruta
CEN
bruta CP* CE*
CEN
*
1 RC 1,24 1,91 0,26 728 75 143 523 0 242
2 IN + RC + OV 1,3 1,52 0,16 149 754 937 38 431 5238
3 RC + OV 0,22 0,33 0,25 820 492 988
327
7
119
1 3556
4 IN + OV 0,5 1,905 0,52 137 88 122 50 0 19
5 0 0,3
0,12 96
96 0
0
6 OV 0,26 0,22 0,05 119 132 111 54 123 120
7 RC + OV
0,04
8 0,59
126 153
333 73
8 0
0,02
6
0,13 148
220
146
2
846
9 RC + OV 0,6 1,34 0,11 438 164 192 542 38 718
10 IN
0,05
13 0,27
0,037
6 81 73 53
134
5 226 1090
11 0 0,03
0,018 28
59 533
2611
12 RC + OV
0,01
8 0,77 0,25 26 76 65 778 83 212
13 IN + OV
0,09
58
0,582
9
0,056
9 26 46 17 146 58 88
14 IN 0,67 0,98
46 73
46 59
15 BX + OV 0,85 1,07 0,78 19 22 31 5 7 21
16 BX + RC 0,07 0,17 0,05 26 24 18 186 65 100
17 IN + OV 0,04 0,09 0,03 24 41 21 275 311 267
RC=retrocervical / IN=intestinal / OV=ovariana / BX=bexiga /
PTP=peso tecido peritoneal / PTE=peso tecido endometriótico / PEN=peso tecido endometrial
CP=captação peritoneal / CE=captação endometriose / CPEN=captação endométrio
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