Keywords
Endometriosis; Clinical Diagnosis; Pelvic Pain; Women’s Health; Gynecology.
Resumen
Objetivo: describir las vivencias de las mujeres en sus trayectorias desde el inicio de los síntomas hasta el diagnóstico de
endometriosis. Método: investigación descriptiva cualitativa realizada con diez mujeres diagnosticadas con endometriosis
en la ciudad de Río de Janeiro (RJ), Brasil. Se recogieron entrevistas semiestructuradas grabadas en audio y posteriormente
se sometieron a Análisis de Contenido utilizando el software Atlas.ti 8. Resultados: sin el diagnóstico de endometriosis, las
mujeres experimentan síntomas fuertes desde la menarquia. Esta situación tiene un impacto negativo en diferentes ámbitos
de la vida, incluso por la devaluación de sus quejas en sus círculos de convivencia. Así, se comprende la importancia de la
red de apoyo en esta situación. Ante este contexto, las mujeres deambulan por diferentes profesionales hasta el diagnóstico
definitivo. Consideraciones finales e implicaciones para la práctica: las trayectorias de estas mujeres están marcadas por
la devaluación de sus quejas por parte de los profesionales de la salud y personas cercanas, por la naturalización del dolor
femenino y por la dificultad para establecer un diagnóstico diferencial. Sin embargo, la capacidad del individuo para reconocer
la presencia de una patología, el conocimiento sobre la endometriosis y la experiencia del profesional facilitaron el diagnóstico.
En el contexto del cuidado de enfermería, comprender esta trayectoria puede promover la escucha activa, mejor valoración de
las quejas, evaluación clínica y la derivación para diagnóstico precoz.
Palabras clave: Endometriosis; Diagnóstico Clínico; Dolor Pélvico; Salud de la Mujer; Ginecología.
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Experiência de mulheres com endometriose
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INTRODUÇÃO
A endometriose é uma afecção ginecológica, decorrente da
presença de tecido endometrial ectópico, que afeta entre cinco e
15% de mulheres em idade reprodutiva no mundo.1-3 No Brasil, as
estimativas de prevalência da endometriose apontam que cerca
de sete milhões de brasileiras sofrem com essa patologia.4 Apesar
disso, acredita-se que os dados epidemiológicos informados ainda
são inconclusivos. A dificuldade em levantar informações fidedignas
deve-se principalmente à dificuldade de acesso ao diagnóstico
definitivo, cirúrgico, e à banalização dos sintomas femininos pela
sociedade, bem como pelos profissionais de saúde.5,6
Em nível nacional, a doença é relativamente desconhecida
pela população em geral. Os pacientes frequentemente recebem
seus diagnósticos tardiamente, apesar de a maioria desenvolver
os sintomas iniciais durante a adolescência. Sem um diagnóstico
definitivo para as suas queixas, a maioria das mulheres apresenta
dificuldade para relatar suas irregularidades menstruais ou procura
ocultá-las para evitar uma estigmatização devido aos traços culturais,
que tendem a naturalizar a dor durante o período menstrual.5
A análise do tempo médio de diagnóstico da endometriose
em países desenvolvidos e em desenvolvimento identificou um
atraso de 6,7 anos entre o início dos sintomas até o diagnóstico
definitivo. Ressalta-se que as mulheres procuraram consultas
médicas em um tempo médio de até um ano após os primeiros
sintomas e aquelas que utilizaram os serviços de saúde pública
apresentaram maior atraso, em média, de 8,5 anos, quando
comparadas àquelas que fizeram uso de serviços privados, com
média de 5,5 anos.7 Além disso, a caracterização sociodemográfica
dessas mulheres permitiu identificar uma predominância da
população branca e com alto grau de escolaridade, o que contribui
para compreender que o acesso ao diagnóstico de endometriose
pode ser um processo bastante excludente.8
A demora quanto ao diagnóstico deve ser tratada como um
ponto de intensa preocupação, uma vez que pode resultar em um
tratamento tardio ou inadequado, bem como desenvolver desfechos
mais graves, como um maior risco de infertilidade e lesões em
órgãos subjacentes. Os sinais e os sintomas da endometriose,
quando não gerenciados, afetam diretamente a qualidade de vida
das mulheres e contribuem para a perda de produtividade ou a
incapacidade de desempenhar atividade laboral.9,10
Desse modo, este artigo justifica-se pela necessidade de
preencher uma lacuna na literatura nacional com relação à
trajetória até o diagnóstico da endometriose sob a ótica das
mulheres. Entende-se que a temática permeia questões que
vão além do modelo biomédico, como a construção cultural
do feminino e a relação profissional-paciente. Por isso, esses
relatos ganham relevância para explicar a negligência referente
a essa afecção. No contexto da assistência de Enfermagem, as
experiências das mulheres podem estimular os profissionais a
prestar um cuidado mais humanizado e a promover a escuta
ativa, a valorização das queixas da paciente, a avaliação clínica
e o encaminhamento para o diagnóstico precoce.
Diante disso, a questão norteadora é: “Qual a experiência
de mulheres sobre as suas trajetórias desde o surgimento dos
sintomas até o diagnóstico definitivo de endometriose?”. Objetiva-
se descrever as experiências das mulheres sobre as trajetórias
desde o início dos sintomas até o diagnóstico da endometriose.
MÉTODO
T rata-se de uma pesquisa descritiva com abordagem qualitativa.
A escolha por esse método surgiu para as descrições sobre as
experiências das participantes, sendo o fenômeno do estudo.
Busca-se descrever os achados provenientes dos significados,
motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes dessas mulheres.11
Recrutaram-se mulheres, de forma intencional, com base
nos critérios de inclusão: ter 18 anos ou mais de idade com
diagnóstico de endometriose; ser residente no município do Rio
de Janeiro; participar de grupos fechados de uma rede social
da internet e aceitar participar do estudo. Estabeleceu-se como
critério de exclusão: ter endometriose, mas ser assintomática.
A interlocução com os atores sociais na coleta dos depoimentos
desta pesquisa permitiu uma aproximação com o fenômeno
estudado. Apesar da homogeneidade da amostra, ela reflete a
subjetividade e as relações interpessoais desse grupo específico,
corroborando o perfil socioeconômico identificado nos contextos
nacional e internacional.8 Dessa forma, o ponto de saturação ocorreu
tanto pelo volume de dados quanto pelo nível de detalhamento e
aprofundamento sobre as trajetórias dessas mulheres, demonstrando
as diversas dimensões do objeto de pesquisa.12
A captação de potenciais participantes do estudo ocorreu
por meio de uma rede social de acesso via on-line. Inicialmente,
realizou-se uma busca inicial por grupos fechados na rede social
utilizando a palavra “endometriose”; em seguida, selecionaram-se
apenas os grupos formados por mulheres diagnosticadas com
endometriose, observando o teor de postagens ou os comentários
que abordassem a temática. Após o processo de seleção do
grupo, solicitou-se a autorização para participar como membro
do grupo fechado selecionado.
Posteriormente, ocorreu a etapa de recrutamento das
participantes e os pesquisadores criaram uma postagem no grupo
em que foram esclarecidos a justificativa da pesquisa, os objetivos
e os critérios de inclusão e exclusão para participar do estudo.
À medida que as possíveis candidatas a participar do estudo
manifestaram interesse em contribuir, os pesquisadores entraram
em contato individualmente por mensagem privada, ainda na rede
social, e marcaram um posterior encontro para a realização de
entrevistas. Vale destacar que nenhuma participante se recusou
a participar ou interrompeu a sua participação na pesquisa.
O período de coleta de dados ocorreu entre dezembro
de 2016 e janeiro de 2017. As entrevistas foram realizadas de
forma individual e presencial em locais públicos escolhidos
pelas entrevistadas com o intuito de promover o acolhimento e
a segurança à participante. Os ambientes selecionados foram
locais distantes do trânsito de pessoas para garantir o máximo de
privacidade das entrevistadas. Os diálogos foram gravados em
áudio, por meio de um gravador digital, e transcritos literalmente
para posterior análise. O tempo médio da entrevista foi de
40 minutos. As transcrições foram disponibilizadas às respectivas
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entrevistadas para fins de verificação, mas não houve qualquer
solicitação de alteração de conteúdo.
O instrumento de coleta de dados continha um roteiro de
entrevista semiestruturada. As questões disparadoras foram:
“Conte-me como foi a sua vivência no início dos sintomas. Como
chegou ao diagnóstico de endometriose?”. T ais questionamentos
foram acompanhados de tópicos, introduzidos ao longo da
entrevista, com o intuito de conduzir a discussão e direcionar as
questões e as informações não esclarecidas, como os sintomas,
as repercussões na vida pessoal, as repercussões no trabalho,
a peregrinação até o diagnóstico, os custos, os exames, as
consultas e a desvalorização das queixas.
Antes de responderem aos questionamentos, todas as
participantes foram informadas sobre os objetivos da pesquisa
e consentiram participar por meio da assinatura do T ermo de
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
As análises do conteúdo das entrevistas foram conduzidas usando
o software de análises qualitativas Atlas.ti 8 e, para o tratamento de
dados, utilizou-se o levantamento de conteúdo temático/categorial
de Bardin.13 Com base na leitura e na interpretação das mensagens,
ocorreu a compreensão dos significados, seguida pelo processo
de codificação e finalizada pela inferência dos dados.
A abordagem de codificação foi realizada por dois codificadores
independentes e ocorreu em três etapas: identificação de códigos
e Unidades de Registro (UR), trechos das entrevistas destacados
com diferentes cores, por meio do método indutivo de análise
de dados; agrupamento das UR para a elaboração dos temas;
formação de categorias e subcategorias.
As discrepâncias que surgiram foram resolvidas por consenso
entre ambos os codificadores. Os resultados dessa etapa foram
disponibilizados às participantes do estudo a fim de avaliar a
confiabilidade, a credibilidade e a generalização dos achados.
As inferências ocorreram com base nos agrupamentos
semânticos. Categorias e subcategorias foram descritas por
textos explicativos, ilustradas com as árvores de codificação
elaboradas no software e exemplificadas com as UR para cada
subcategoria correspondente. Por fim, a discussão do conteúdo
analisado nas categorias foi realizada com base na literatura
científica com o intuito de validar os achados deste estudo.
Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (CAAE: 1.650.425/2016).
T odos os preceitos éticos da Resolução nº 466/2012, do Conselho
Nacional de Saúde, foram respeitados, garantindo o sigilo e a
integridade das participantes. Para manter o anonimato nas falas,
adotou-se a nomeação com a letra inicial “E” de endometriose,
seguida pelo número de ordem de realização da entrevista, por
exemplo, “E1, E2, E3...”.
RESULTADOS
Entrevistaram-se dez mulheres no estudo com faixa etária entre
18 e 38 anos de idade e com situação conjugal majoritariamente
composta por casadas (n=7). Houve uma predominância (n=7) da
população branca e a prevalência de alto grau de instrução, em que
cinco possuíam o Ensino Superior completo, seguidas de duas com
Ensino Superior incompleto e duas com Ensino Médio completo.
A média de tempo entre o início dos sintomas e a data do
diagnóstico foi de 6,5 anos. A maioria das mulheres (n=6) referiu
a dor pélvica como queixa principal; em seguida, houve queixas
de dismenorreia (n=4), dispareunia (n=3), infertilidade (n=3) e
fluxo intenso (n=2).
No total, identificaram-se 104 unidades de registros nas
transcrições das entrevistas, que foram agrupadas em duas
categorias e seis subcategorias. Sistematizaram-se as vivências
das mulheres com relação às trajetórias ao diagnóstico de
endometriose nas categorias temáticas: “Sofrendo com os
sintomas sem o diagnóstico de endometriose” e “Peregrinando
até o diagnóstico de endometriose” (Figura 1).
Sofrendo com os sintomas sem o diagnóstico de
endometriose
Nesta categoria, identificou-se um total de 50 unidades
de registro e três subcategorias. O sofrimento inicial de quem
convive com os sintomas de endometriose perpassa por três
importantes condições: os fortes sintomas vivenciados desde a
primeira menstruação, as repercussões negativas em diferentes
esferas da vida das mulheres e a importância de uma rede de
apoio perante essa situação.
Sintomas fortes desde a primeira menstruação,
denominada menarca
As participantes relataram que, desde a menarca, sofriam com
dores acima do limiar aceitável, nunca tiveram um ciclo menstrual
sem dor, referente a cólicas fortes, incapacitantes e presentes até
mesmo fora do período menstrual. Acreditam que a endometriose
começou a se desenvolver a partir da primeira menstruação.
Então, desde a primeira menstruação, foi com dor. Eu
nunca, na minha vida, lembro de ter tido uma menstruação,
um ciclo sem dor. (E10)
Os sintomas físicos comumente mencionados foram dor
pélvica, dismenorreia, dispareunia e infertilidade. T ambém
descreveram os sintomas associados à fisiologia intestinal, como
diarreia, prisão de ventre, dor e sangramento ao evacuar. Além
disso, disfunções ginecológicas como a irregularidade menstrual
e o fluxo menstrual intenso.
Eu falava com ele que sentia dor, muita dor na penetração
e muita cólica. (E5)
Dor nas costas, dor nas pernas, dor para evacuar [...] um
fluxo absurdo, longo e intenso [...] com muito vômito. Só
que isso não passou. (E10)
Além dos sintomas físicos, as mulheres também apresentaram
sintomas psicológicos. As experiências psicológicas mais
discutidas incluíram estresse e angústia em relação ao contexto
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em que estavam inseridas, caracterizados como “dor na alma”
e “dor emocional”.
Então, além da dor física, a dor emocional também, né? (E2)
É complicado, né? Não é uma dor só física, é uma dor
na alma... É muito ruim... (E7)
Repercussões negativas dos sintomas.
Muitas mulheres transmitiram a sensação de que os seus círculos
de convivência desvalorizavam as suas queixas. As participantes
percebiam julgamentos pessoais sobre os seus sintomas vistos
como “bobagem”, “frescura” ou “coisa de mulherzinha”. A percepção
de que seus sintomas eram ignorados revela a falta de empatia por
parte de quem deveria acolhê-las. A ausência real ou percebida de
apoio social repercute diretamente no estado emocional dessas
mulheres.
E a pessoa, no trabalho, diz que entende, mas não
entende: “Porque ter cólica é frescura” [...] então, assim
é complicado, porque as pessoas ficam: “não, eu super
entendo”, mas não entendem nada. (E1)
Acha que é bobeira, frescura, mas eu não conseguia
nem me levantar da cama, dava vontade de desmaiar
[...] aí, sempre ouvia gracinha, né? Porque as pessoas
não entendem o que é... (E8)
Durante a conversa, revelou-se que os sintomas da doença
pioravam com o passar do tempo e que os intervalos entre as
crises de dor eram cada vez menores. Não somente a doença
agravava a condição de saúde das mulheres, mas também
despertava um sentimento de impotência ao perceber que o
uso de analgésicos e antiespasmódicos proporcionava um alívio
nas dores relacionadas à endometriose, mas não era suficiente
para eliminar o sintoma ou curar a doença. As experiências
compartilhadas mencionam que os fármacos deixavam de
fazer o efeito desejado e, por isso, periodicamente, havia troca
de medicação.
Nunca passava, por mais remédio que eu tomasse [...]
demorava muito tempo. (E6)
Só foi piorando [...] fora remédio para dor... porque um
[antiespasmódico e analgésico] não dá para nada... Nenhum
remédio cura... Nenhum remédio tira a dor... nenhum alivia
[...]não aliviava nada... T udo história de fantasia. (E7)
Com a ineficácia dos analgésicos, as participantes iam
frequentemente ao pronto-socorro, durante as crises, onde
faziam o uso de fármacos por via intravenosa para o alívio
imediato da dor. Apesar da concepção social e pessoal de que
os sintomas eram considerados normais, a baixa efetividade dos
medicamentos e a frequente procura por serviços de urgência
apontavam para o fato de que o quadro não era fisiológico.
Figura 1. Árvore de codificação das trajetórias de mulheres até o diagnóstico de endometriose elaborada no software Atlas.ti 8.
Fonte: Atlas.ti.8.
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Parava em pronto-socorro porque tinha vez que o remédio
já não fazia efeito [...] todo mês, era pronto-socorro para
tomar injeção na veia [...] aí, na adolescência mesmo é
que foi piorando, né? T odo mês era pronto-socorro, isso
não podia ser normal. (E4)
Além disso, dentre as histórias compartilhadas, observou-se
que a endometriose repercute também no âmbito laboral, quando
reduz o desempenho profissional e as suas percepções dos
sintomas são desvalorizadas. As frequentes queixas álgicas
parecem ser irrelevantes em meio à necessidade de produção do
mercado de trabalho. Como resposta a esse contexto, percebe-se
o absenteísmo ou o presenteísmo devido à falta de condições
físicas e emocionais para trabalhar.
Porque, por mais que você justifique que você passa
mal, que você desmaia, a pessoa não está preocupada.
Ela quer saber se, no final, o número vai estar batendo
e se vai ter feito a quantidade que o contrato diz. Então,
assim, isso é muito difícil. (E1)
Mas, já fui sim (para o trabalho) me arrastando [...] aí,
eu vou dopada de remédio, mas vou [...] já fui, muitas
vezes, pedindo para morrer no metrô com muita cólica...
Me esvaindo em sangue. [...] Eu sempre vou porque eu
acho que vou ser mal-vista, entendeu? (E2)
Algumas mulheres transmitiram a ideia de que os sintomas
têm impacto sobre a vida social quando as impedem de realizar
atividades prazerosas ou afetam seus relacionamentos amorosos.
Mas, eu vi que estava ficando só ruim e estava me
afastando do meu esposo. (E5)
Eu até fui viajar com o meu esposo, para casa do meu
irmão, lá em Rio das Ostras. No meio de uma festa, eu
tive que ir embora porque eu passei muito mal e foi de
repente. (E7)
Rede de apoio diante dos sintomas
Apesar das queixas sobre a desvalorização dos intensos
sintomas de endometriose por pessoas do seu grupo social
próximo, reconheceram um suporte social específico, principalmente
por parte das pessoas com mais vínculo afetivo. Em diferentes
graus e formas, a família, os companheiros e as amigas foram
mencionados como a principal rede de apoio em meio aos
sintomas.
Mas, eles sempre me apoiaram muito: “Vamos procurar
outro médico”; “Não gostou? vamos procurar outro”;
“Faz exame”. Na questão familiar, tudo tranquilo, graças
a Deus. (E1)
Então, eu tenho um maridão... Eu tenho um marido
maravilhoso e ele me ajuda... ele é muito compreensivo. (E7)
T eve um dia que eu não aguentei. Aí, minhas amigas me
orientaram: “Você deve estar com endometriose” (...) aí,
eu fui ao médico. (E3)
Peregrinando até o diagnóstico
Nesta categoria, identificou-se um total de 54 unidades de
registro e três subcategorias. As trajetórias das mulheres até
obter o diagnóstico de endometriose possuem pontos favoráveis
e dificultadores que foram levantados na análise dos relatos.
Peregrinação por diversos profissionais
Na busca por profissionais que respondessem às suas
demandas, muitas mulheres perceberam que alguns não
valorizavam as suas queixas como deveriam. Esse problema é
interpretado como descaso ou falta de interesse por parte dos
profissionais, conforme se observa nas unidades de registro
analisadas.
Ah, naquela época, era cólica menstrual... só isso que
falavam... T oma ali um [antiespasmódico] na veia e vai para
casa... Era só isso que eu ouvia: “ah, cólica menstrual”. (E4)
Foi onde eu falei: é o descaso...é falta de interesse dos
médicos [...] Então, muitos não tinham paciência... então,
logo cortavam: “Ah, essa daí é uma cólica, coloca uma
bolsa de água quente”.(E7)
Apesar de haver uma variedade de exames para identificar
a endometriose, existem muitas incertezas no diagnóstico.
A dificuldade em realizar um diagnóstico diferencial foi um dos
problemas apontados pelas participantes em que, muitas vezes,
os seus sintomas eram associados a infecções sexualmente
transmissíveis ou a qualquer outro tipo de infecção.
T oda vez que você vai ao ginecologista, ele sempre passa
antibiótico, pomada. É sempre a mesma coisa. [...] você
está com uma ferida no útero, “ah, é inflamação”. (E8)
E, depois disso, eu comecei a sentir dor na relação e
procurei a ginecologista e, a princípio, ela investigou
DST . Então, fiz todos os exames de clamídia, gonorreia,
exames que o plano de saúde não cobria [...] porque a
médica batia na tecla da clamídia, principalmente. (E9)
Investimento financeiro em busca do diagnóstico
As dificuldades dos profissionais em identificar o quadro
clínico da endometriose desencadeiam custos financeiros para as
pacientes. Gastos com especialistas da rede privada e diversos
exames solicitados foram observados nos relatos das mulheres.
De acordo com essas experiências, os planos de saúde são
alternativas que ajudam a diminuir os custos com a doença, e
o atendimento pelo serviço púbico de saúde foi definido como
“demorado” e de “difícil acesso”.
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Já gastei acho que uns três mil reais em médico... Por
cima [...] e para ter um diagnóstico decente, tem que ir
a um médico particular. (E2)
Não, os custos são sempre; com o plano de saúde não é
tanto porque os exames são caros e o plano cobre. (E3)
E demorou porque, como eu te falei, o negócio de hospital
público... Mandavam fazer exames que não tinham nada
a ver. (E7)
Os gastos com alguns exames pareceram ser inviáveis
quando, apesar de acessar diversas tecnologias, não foi possível
identificar sinais da doença. No entanto, os exames funcionaram
como peça-chave para confirmar o diagnóstico de endometriose.
Fazia exame, não acusava nada. (E6)
A primeira coisa foi uma ultra e ele colocou como indicação
que poderia ser endometriose. Mas, eu teria que fazer
um exame mais específico, que foi a ressonância com
preparo intestinal. O que indicou mesmo foi a ressonância
e o CA-125 que, na época, se eu não me engano, o meu
estava quinhentos e pouco, bem alto. (E8)
Enfim, descobrindo a endometriose
Nas trajetórias das mulheres, para conseguir o diagnóstico
definitivo, alguns pontos foram extremamente importantes
para esses desfechos positivos. Algumas mulheres discutiram
sobre infertilidade, citando a dificuldade de concepção como
um dos fatores que permitiram a descoberta da endometriose,
pois, a partir dessa condição, procuraram se informar e buscar
profissionais especializados.
Eu falei: “Ah, mas eu quero engravidar”. Mas, não
engravidava [...] aí, meu marido fez o espermograma e
tudo bem... Estava tudo certo e eu nada de vir a criança
[...] foi em outubro de 2014 que eu comecei a querer ser
mãe. O diagnóstico foi agosto de 2015. (E2)
Diante da complexidade em estabelecer o diagnóstico
diferencial e da dificuldade de alguns profissionais em reconhecer
o quadro clínico, destaca-se que a experiência e a competência
profissional foram fatores primordiais para poder identificar e
conduzir a endometriose.
Mas, foi só com ajuda desse, o experiente... Dos 13 aos
25 anos, ninguém descobria. (E7)
T em um centro de endometriose em São Paulo, minha
mãe marcou e nós fomos [...] lá, eu comentei o que
estava passando, sofrendo. Aí, ela fez todo o inquérito
de endometriose e tudo batia. Aí, ela falou para mim: “eu
acho que você tem endometriose”. (E10)
Dentre os principais fatores que possibilitaram findar essa
trajetória, ressalta-se que a capacidade individual das mulheres
em reconhecer a presença de uma patologia instaurada é o mais
importante. Assim, laudos de exames equivocados e profissionais
que desvalorizam suas queixas sintomáticas não são impeditivos
da busca pelo diagnóstico da doença.
Eu sabia que não era normal essa dor esquisita, eu sabia
que não era normal e continuei buscando. (E3)
Eu vou procurar, isso não é da minha cabeça. Aí, eu
comecei a procurar o tratamento a partir daí. (E5)
E aí eles diziam que era ovulação dolorosa, fazia uma
ultra: “Ah, é ovulação dolorosa”. Aí, eu falava: “Gente, mas
ninguém sente a mesma dor que eu sinto... tinha alguma
coisa diferente.” [...] mas, eu passei sete anos dizendo que
eu sentia muita dor... vendo que não era normal. (E10)
DISCUSSÃO
Neste estudo, a caracterização sociodemográfica das mulheres
entrevistadas com o diagnóstico de endometriose permitiu verificar
que houve uma predominância da população branca e com alto
grau de escolaridade, sendo que a maior parte da população
no Brasil é de mulheres pardas e negras. 14 Esses achados
são semelhantes aos de um estudo de revisão sistemática 2 e
pode-se sugerir que as mulheres não brancas e com menos
grau de escolaridade podem ter mais dificuldade em ter acesso
ao diagnóstico de endometriose do que as mulheres brancas.
Em pesquisa que objetivou avaliar a experiência de
4.334 mulheres que tiveram o diagnóstico de endometriose por
meio de uma intervenção cirúrgica, os resultados identificaram
que elas eram predominantemente de cor branca (3.696 - 94,4%).
Outras pesquisas realizadas no Brasil também verificaram que
algumas intervenções cirúrgicas, como a cesariana, são muito
mais frequentes entre as mulheres brancas do que entre as não
brancas e menos frequentes entre as usuárias do setor público
e com menor grau de escolaridade.8,14-16
Os resultados deste e de outros estudos possibilitaram compreender
como é a experiência de mulheres que têm endometriose, mas
enfrentam um tortuoso caminho até obter o diagnóstico definitivo.
Essa dificuldade em estabelecer um diagnóstico produz impacto
negativo em suas vidas, uma vez que, até consegui-lo, tendem
a conviver com os sintomas sem um tratamento adequado.2,6,8,17
Embora as participantes tenham relacionado a origem de suas
queixas ao início da adolescência, essa experiência não foi um fator
suficiente para levantar suspeitas quanto à presença da endometriose.
Segundo a American College Obstetricians and Gynecologists, a
prevalência de endometriose em adolescentes ainda é desconhecida.
No entanto, dois terços das adolescentes que referiram sofrer com a
dor pélvica crônica ou a dismenorreia, sem responder corretamente
ao uso de anti-inflamatórios não esteroidais ou à terapia hormonal,
foram futuramente diagnosticadas com endometriose por meio da
laparoscopia.18 Assim sendo, os sintomas manifestados no princípio
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da idade fértil devem ser mais bem observados e valorizados quando
se objetiva um diagnóstico precoce e adequado.
Conforme as recomendações do National Institute for Health
and Clinical Excellence (NICE), são consideradas, como casos
suspeitos de endometriose, mulheres, incluindo jovens com idade
igual ou inferior a 17 anos, que apresentem um ou mais dos
seguintes sinais e sintomas: dor pélvica crônica; dismenorreia
que impeça realizar atividades diárias; dispareunia profunda;
sintomas gastrointestinais que ocorram de forma periódica;
sintomas cíclicos de disfunção urinária como a disúria e a
hematúria; infertilidade associada a uma ou mais das queixas
anteriores.3 Nesse sentido, observou-se que todas as experiências
discutidas neste estudo tratavam-se de quadros clínicos de
endometriose em que as participantes apresentaram sinais e
sintomas esperados para essa suspeita, desde o princípio da
doença, assim como identificado em outros estudos também.2,6,8,17
O impacto psicológico da doença também foi outro ponto
levantado pelas mulheres como algo além dos sintomas físicos
enfrentados e esses resultados assemelham-se aos de outras
pesquisas, permitindo compreender que as repercussões negativas
na saúde mental das participantes deveram-se ao aspecto
crônico da dor, a diagnósticos incorretos e às opções limitadas
de tratamento. A construção cultural influencia a forma como a
sociedade encara as queixas álgicas femininas, e a falácia de
que a mulher deve estabelecer proximidade identitária com suas
sensações dolorosas impede que as queixas características da
endometriose sejam consideradas genuínas. Desse modo, as
dores do parto e das cólicas menstruais são encaradas como
símbolos ideais do gênero feminino e aquelas que não conseguem
suportá-las tendem a ser vistas como inferiores ou frágeis.2,6,17
Mulheres diagnosticadas com endometriose apresentaram
níveis superiores de depressão quando comparadas às mulheres
saudáveis. Aquelas que referiam queixas intensas de dor pélvica
também apresentavam níveis superiores e estatisticamente
significativos em relação às que não relataram esse sintoma.5,19
Essa situação é agravada com as crises que tendem a piorar com
o tempo, tornando os analgésicos e antiespasmódicos totalmente
ineficazes. O tratamento empírico da dor consiste na terapia hormonal
combinada com o uso de anti-inflamatórios não esteroidais, sendo
uma opção viável enquanto o tratamento cirúrgico não está acessível.
As mulheres têm demonstrado interesse em buscar o alívio da
dor pelo uso de práticas integrativas e complementares, como a
acupuntura, a homeopatia, a meditação e a dieta.20,21
Os resultados deste estudo apontam para a procura das
mulheres por serviços de urgência para o tratamento dos sintomas
da endometriose e isso pode revelar uma falha quanto à organização
das redes de atenção primária de saúde. O acesso periódico ao
pronto-socorro contribui para o atraso no diagnóstico, uma vez
que esses serviços apresentam foco apenas na atenção imediata
às queixas e não ao tratamento. A condução adequada das
pacientes nesse sistema deveria promover o alívio das queixas
álgicas, seguido do encaminhamento à devida especialidade.6
Na esfera ocupacional, estudos congêneres ratificaram os
achados deste estudo, em que se destacaram o presenteísmo e
o absenteísmo do trabalho. O absenteísmo esteve relacionado a
situações extremas nas quais se esgotavam as possibilidades de
licenças médicas ou condições em que não se recebeu suporte
por parte dos empregadores. Em contrapartida, o presenteísmo
esteve atrelado a condições nas quais a família dependia
unicamente da fonte de renda das mulheres.5,10
As mulheres escondem suas próprias condições de seus
colegas do sexo masculino. Assim, percebe-se que as questões
da fisiologia reprodutiva feminina ainda são consideradas “tabus”,
tendo em vista que, assim como neste estudo, há uma preocupação
com relação às acusações e aos julgamentos dos colegas de
trabalho. Muitas vezes, os fortes sintomas são interpretados
equivocadamente como pretextos para não desempenhar suas
tarefas ou apenas “fraqueza do sexo feminino”.22
A endometriose pode afetar negativamente a vida social
das mulheres, pois os resultados mostraram que as mulheres
desta pesquisa referiram sentir dor e desconforto em um nível
que as impediu de realizar as atividades diárias. Um estudo de
revisão sistemática de métodos qualitativos evidenciou que há
uma redução na participação de atividades sociais associada
principalmente aos sintomas debilitantes e às questões estruturais
como a necessidade de um banheiro disponível e o medo de
manifestar os sintomas em público.22
O impacto no aspecto social reflete na qualidade de vida
das mulheres. Estudos avaliativos identificaram a associação da
presença de endometriose com uma avalição negativa quanto ao
domínio “funcionamento social”. O caráter limitador da doença
em suas atividades cotidianas dificulta a realização de suas
próprias atividades ou o comparecimento em eventos sociais,
o que desenvolve um nível de ansiedade nas pacientes devido
à imprevisibilidade dos surgimentos das crises que culmina no
sentimento de impotência quanto ao seu estado de saúde e, muitas
vezes, à incompreensão por parte do seu ciclo de convivência.17,23
O amparo social foi fundamental para o enfrentamento da
doença, pois muitas mulheres destacaram receber apoio dos
parceiros, amigos e familiares. Uma metassíntese de estudos
de países em desenvolvimento evidenciou que a presença ou a
ausência do apoio social poderia ditar o enfrentamento quanto
às experiências menstruais. Essa influência torna-se importante
quando auxilia a concluir atividades, promove o suporte emocional
ou até mesmo funciona como fonte de informação.24
No que se refere ao investimento financeiro, identificaram-
se gastos específicos com relação à intensa peregrinação das
mulheres por procura de profissionais e à realização de diversos
exames, bem como aos problemas de ordem laboral. Na literatura
científica, há um consenso nos casos de endometriose para que
as mulheres priorizem a realização de um plano de saúde.5,17
Um grande estudo transversal, considerado a maior pesquisa
multicêntrica prospectiva sobre os efeitos da endometriose realizada
até o momento, evidenciou que a banalização das queixas das
mulheres pelos profissionais é um problema de ordem mundial.
Quando as pacientes peregrinam pelo diagnóstico, são informadas,
pelos seus médicos, que os sintomas apresentados são considerados
normais, tendo em vista a fisiologia do ciclo menstrual. Resultado
8
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Experiência de mulheres com endometriose
Silva CM, Cunha CF , Neves KR, Mascarenhas VHA, Caroci-Becker A
de como os serviços de saúde incorporam os estereótipos de
gênero reflexos de uma visão social deturpada com relação ao
feminino. Dessa forma, os sintomas narrados são sistematicamente
desvalorizados pelos profissionais e as informações quanto à
patologia seguem sem ter a devida divulgação.6,7
Algumas atitudes e comportamentos dos profissionais de
saúde foram descritos pelas mulheres do estudo atual como
problemas. Muitas vezes, não houve interesse, por parte dos
profissionais, em identificar os aspectos importantes da dor,
como a quantidade, a intensidade, a duração, a natureza ou o
impacto. Classificar a dor da endometriose como normal revela
uma falta de treinamento ou atualização por parte de alguns
profissionais, falta de escuta ativa, tratamento de seus sintomas
e devidos encaminhamentos. Compreende-se que essa forma de
condução e atendimento não está diretamente relacionada a uma
possível imperícia profissional, mas se entende que, apesar de os
especialistas conhecerem sobre a patologia, isso não é suficiente
para a identificação da doença. Por isso, atribui-se grande parte
dos atrasos de diagnóstico à negligência profissional.6,22,25
Uma pesquisa holandesa apontou que a experiência e
a competência dos profissionais, a boa relação com os seus
pacientes, a orientação e a colaboração profissional foram os
principais fatores que contribuíram para a descoberta do diagnóstico
precocemente.9 Além disso, as diferentes apresentações clínicas
da endometriose exigem a presença de um corpo multidisciplinar
para elaborar um adequado plano de atenção e diferentes olhares
e vertentes do cuidado contribuem para a integralidade do
atendimento às mulheres. A construção de protocolos desenvolvidos
por diferentes especialidades para o diagnóstico e o tratamento
da endometriose também é uma ferramenta que pode contribuir
para uma melhor resolutividade na condução clínica.17,23
Outro ponto abordado neste estudo é a dificuldade para
engravidar como importante na obtenção do diagnóstico de
endometriose de forma mais rápida. Esse tipo de associação
expressa uma questão de gênero institucionalizada na assistência:
o paradigma da necessidade de função reprodutiva feminina
em detrimento das demais queixas apresentadas. O impacto
da endometriose na fertilidade pode afetar não apenas o bem-
estar das pacientes, mas também suas relações pessoais.
A possibilidade de haver infertilidade com a doença manifesta
sentimentos de preocupação e melancolia nas pacientes, tendo
em vista que a construção social da ideia de que a mulher deve
ser capaz de conceber uma vida resulta em julgamentos internos
e externos em volta do conceito de “mulher de verdade”.6,17,22,26
A European Society of Human Reproduction and Embryology
(ESHRE) recomenda que a sequência preconizada para o
diagnóstico de endometriose constitui-se de, inicialmente,
considerar caso suspeito com base no histórico, sinais e sintomas;
seguidamente, corroborar a suspeita com exame físico e os
exames de imagem; finalmente, comprovar a partir da análise
histológica de amostras colhidas durante a laparoscopia, esse
último considerado padrão-ouro para o diagnóstico da doença.
Nos casos sem o resultado da laparoscopia, recomenda-se o
tratamento empírico com base em exames secundários, como a
ultrassonografia transvaginal, a ressonância magnética pélvica
e os biomarcadores sanguíneos, dentre eles, o CA-125.20
Então, os exames de imagem têm papel dúbio no diagnóstico
da endometriose, pois, apesar de serem peças fundamentais
para confirmar casos suspeitos, não são sinais de certeza para
a patologia. Quanto aos relatos em que, apesar de realizar os
testes, não foi possível identificar a patologia, se atribui o fato
de que muitas vezes as lesões são microscópicas, impedindo
a visualização até mesmo por meio da laparoscopia.4
Independentemente do contexto geográfico, os profissionais
enfrentam dificuldades similares e a endometriose é um problema
de saúde pública que merece maior destaque e repercussão.
Os resultados aqui apresentados apontam para a necessidade
de uma melhor divulgação de informações sobre endometriose
à população e aos profissionais de saúde. Por isso, necessita-
se de pesquisas futuras sobre intervenções para disseminar o
conhecimento e sensibilizar a sociedade sobre essa situação
bastante relevante, porém, amplamente negligenciada.
CONSIDERAÇÕES FINAIS E IMPLICAÇÕES
PARA A PRÁTICA
As trajetórias das mulheres desde os primeiros sintomas
na menarca até o diagnóstico definitivo de endometriose são
permeadas por duas vertentes: as barreiras e os facilitadores.
Apontam-se, como principais fatores dificultadores desse caminho,
a desvalorização das queixas das pacientes por profissionais e
pessoas do convívio, a naturalização da dor feminina, o impacto
financeiro da doença e a dificuldade em estabelecer um diagnóstico
diferencial. Por outro lado, as queixas de infertilidade, a capacidade
individual de reconhecer a presença de uma patologia instaurada,
o conhecimento sobre a endometriose e a experiência/capacitação
do profissional permitem findar essas histórias.
Dentre as limitações deste estudo, ressalta-se a baixa
abrangência de mulheres com diferentes perfis socioeconômicos.
No entanto, isso reflete a realidade referente à dificuldade de
acesso universal e à desigualdade social relacionadas ao
diagnóstico de endometriose no Brasil, uma vez que a pesquisa
estava disponível, via internet, para toda a população. Além disso,
o caráter retrospectivo na coleta de dados pode interferir na
memória das participantes ao contar suas próprias experiências,
apesar de que todos os relatos analisados mantiveram uma
coerência, compartilharam experiências semelhantes e puderam
ser corroborados pela literatura científica.
Os resultados apoiam a realização de pesquisas futuras sobre
a sensibilização da população geral acerca da endometriose e a
construção de instrumentos que facilitem o diagnóstico precoce
da patologia, como questionários de triagem específicos para
dor pélvica crônica, escalas de avaliação da dor ginecológica
e algoritmos de condução clínica.
No que tange a implicações para a prática, esta pesquisa
contribui para o avanço científico por divulgar, de forma inédita,
o caminho percorrido por mulheres até o diagnóstico clínico da
endometriose no contexto dos serviços de saúde disponíveis
9
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Experiência de mulheres com endometriose
Silva CM, Cunha CF , Neves KR, Mascarenhas VHA, Caroci-Becker A
no Brasil. Demonstraram-se os aspectos psicológicos e os
impactos em diferentes níveis que podem ser acessados para criar
experiências construtivas com relação à saúde da mulher. Além
disso, reflexões sobre o papel da sociedade e dos profissionais
podem ser levantadas por quem acessa esses resultados.
CONTRIBUIÇÕES DOS AUTORES
Desenho do estudo. Carla Marins Silva, Camilla Freitas da
Cunha, Karoline Rangel Neves
Coleta ou produção dos dados. Carla Marins Silva, Camilla
Freitas da Cunha, Karoline Rangel Neves
Análise de dados. Carla Marins Silva, Camilla Freitas da
Cunha, Karoline Rangel Neves, Victor Hugo Alves Mascarenhas.
Adriana Caroci-Becker
Interpretação dos resultados. Carla Marins Silva. Camilla
Freitas da Cunha, Karoline Rangel Neves, Victor Hugo Alves
Mascarenhas, Adriana Caroci-Becker.
Redação e revisão crítica do manuscrito. Carla Marins Silva,
Camilla Freitas da Cunha, Karoline Rangel Neves, Victor Hugo
Alves Mascarenhas, Adriana Caroci-Becker
Aprovação da versão final do artigo. Carla Marins Silva,
Camilla Freitas da Cunha, Karoline Rangel Neves, Victor Hugo
Alves Mascarenhas, Adriana Caroci-Becker
Responsabilidade por todos os aspectos do conteúdo e
a integridade do artigo publicado. Carla Marins Silva, Camilla
Freitas da Cunha, Karoline Rangel Neves, Victor Hugo Alves
Mascarenhas, Adriana Caroci-Becker
EDITOR ASSOCIADO
Stela Maris de Mello Padoin
EDITOR CIENTÍFICO
Ivone Evangelista Cabral
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