endometriosis; infertility; oxidative stress; serum; follicular fluid; ICSI;
predictor of pregnancy.
Lista de Figuras
Figura 1. Esquema das pnnc1pais reações ocorridas durante o processo de
peroxidação lipídica (LIMA, 2001) ............................................................................. 30
Figura 2. Esquema representativo da peroxidação lipídica, enfocando as
principais substâncias formadas durante o processo e as metodologias
disponíveis para a sua avaliação (LIMA, 2001) . ....................................................... 30
Figura 3. Fluxograma do Estudo ............................................................................... 52
Figura 4. Curvas ROC das medidas das concentrações de marcadores de
estresse oxidativo no soro e fluido folicular (FF) considerados adequados
discriminadores (Área sob a curva -AUC ;;;: 70) de ocorrência de gestação clínica
(GC) e nascidos vivos (NV) após ICSI para pacientes com e sem endometriose
submetidas à estimulação ovariana. 8OHdG: 8-hidroxideoxiguanosina, expressa
em ng/ml; GSH: glutationa reduzida, expressa em nmol/g proteína; CAT:
capacidade antioxidante total, expressa em mEq Trolox/L. A) e B): grupo com
endometriose; C), D), E) e F): grupo sem endometriose . ......................................... 73
lista de Tabelas
Tabela 1. Variáveis clínicas, resposta à estimulação ovariana e resultados de
ICSI em pacientes inférteis com e sem endometriose submetidas à estimulação
ovariana controlada . ................................................................................................. 67
Tabela 2. Marcadores de estresse oxidativo no soro e fluido folicular de mulheres
inférteis com e sem endometriose submetidas à estimulação ovariana controlada
com gonadotrofinas no dia da captação oocitária ..................................................... 69
Tabela 3. Área sob a curva (AUC), valores de corte, sensibilidade, especificidade,
valores preditivo positivo e negativo e acurácia dos marcadores de estresse
oxidativo dosados no soro do dia da captação oocitária e fluido folicular de
pacientes inférteis sem endometriose e com endometriose submetidas à
estimulação ovariana controlada, considerados adequados preditores de
ocorrência de gestação clínica e nascidos vivos após ICSI.. .................................... 72
lista de Abreviaturas
AOPP
CAT
CC
coe
CP
CuZn-S0D
DEPC
D11-
DI11-
DNA
DTNB
EDCs
EDTA
EO -
ESCA
FIV
FMRP
FOX1
FSH
FSHr
GnRH
GnRHa
GR
GSH
GSSG
H202
hCG
Produtos Avançados de Oxidação Protéica
Capacidade Antioxidante Total
Células do Cumu/us oophorus
Complexo Cumulus oophorus
Corpúsculo Polar
Cobre-Zinco Superóxido Dismutase
Dietilpirocarbonato
Segundo dia de desenvolvimento embrionário
Terceiro dia de desenvolvimento embrionário
Ácido Desoxirribonucleico
Ácido Ditionitrobenzóico
Desreguladores Endócrinos (Endocrine Disrupting Chemicals)
Ácido Etilenodiamino Tetra-Acético
Estresse Oxidativo
Esterilidade Sem Causa Aparente
Fertilização in vitro
Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto
Total de Hidroperóxidos
Hormônio Folículo Estimulante
Hormônio Folículo Estimulante recombinante
Hormônio Liberador de Gonadotrofinas
Agonista do Hormônio Liberador de Gonadotrofinas
Glutationa Redutase
Glutationa (Reduzida)
Glutationa Oxidada
Peróxido de Hidrogênio
Gonadotrofina Coriônica Humana
hCGr
HEPES
HPLC
HTF
ICSI
IM
IMC
IVM
LOOH
MOA
MIi
Mn-SO0
NOS
RNA
RNS
ROS
SHO
soo
TBARS
TCLE
TNF-a
TRA
USP
USTV
VIT E
13-hCG
Gonadotrofina Coriônica Humana recombinante
Ácido N-(2-hidroxietil)piperazina-N'-2-etanossulfónico
Cromatografia Líquida de Alta Eficiência
Meio de Cultura Fluido Tubário Humano (Human Tuba/ Fluid)
Injeção lntracitoplasmática de Espermatozóide
lntramuscular
Índice de Massa Corporal
Maturação in vitro
Hidroperóxido Lipídico
Malondialdeído
Metáfase li
Manganês Superóxido Dismutase
Óxido Nítrico Sintetase
Ácido Ribonucleico
Espécies Reativas de Nitrogênio
Espécies Reativas de Oxigênio
Síndrome da Hiperestimulação Ovariana
Superóxido Dismutase
Substâncias Reativas ao Ácido Tiobarbitúrico (Thiobarbituric acid
reactive substances)
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
Fator de Necrose Tumoral Alfa
Técnicas de Reprodução Assistida
Universidade de São Paulo
Ultrassonografia Transvaginal
Vitamina E
Subunidade Beta da Gonadotrofina Coriônica Humana
Sumário
1. INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 26
Espécies reativas do oxigênio, antioxidantes, estresse oxidativo e trato
reprodutivo feminino .............................................................................................. 27
Endometriose e Estresse Oxidativo ...................................................................... 33
E d t • • f rtld d I·d d • , • n orne nose, In e 1 1 a e e qua I a e ooc1tana .................................................. 36
2. JUSTIFICATIVA ................................................................................................... 42
3. OBJETIVOS ......................................................................................................... 46
OBJETIVOS GERAIS ............................................................................................ 47
OBJETIVOS ESPECÍFICOS ................................................................................. 47
4. PACIENTES E MÉTODOS ................................................................................... 49
Pacientes ............................................................................................................... 50
Casuística e Fluxograma do Estudo ...................................................................... 51
Protocolo de Estimulação Ovariana e Suplementação de Fase Lútea .................. 53
Captação Oocitária e Denudamento Oocitário ...................................................... 54
ICSI, Taxas de Fertilização, Implantação, Gestação Clínica e Nascido Vivo ........ 56
Amostras Obtidas e Processamento ..................................................................... 57
Sangue ............................................................................................................... 57
Fluido Folicular ................................................................................................... 58
Metodologias ......................................................................................................... 58
1. Determinação da concentração total de hidroperóxidos (FOX1) .................... 58
2. Mensuração da concentração de malondialdeído (MOA) ............................... 59
3. Determinação da concentração dos produtos avançados de oxidação
protéica (AOPPs) ............................................................................................... 60
4. Determinação da 8-Hidroxi 2 deoxiguanosina (8-OHdG) ............................... 60
5. Determinação da concentração de vitamina E (Vit E) .................................... 61
6. Determinação da concentração de glutationa (GSH) - concentração total
de grupos tióis ou sulfidrilas ............................................................................... 62
7. Determinação da Superóxido Dismutase (SOO) ............................................ 63
8. Determinação da Capacidade Antioxidante Total (CAT) ................................ 63
9. Determinação de Proteínas Totais (MOA, GSH e FOX são expressos por g
proteína) ............................................................................................................. 64
Análise Estatística ................................................................................................. 64
5. RESULTADOS ..................................................................................................... 66
6. DISCUSSÃO ......................................................................................................... 74
7. CONCLUSÕES ..................................................................................................... 85
8. REFERÊNCIAS ····························································································••N••·· 87
MANUSCRITO .......................................................................................................... 98
1. Introdução
Introdução 1 27
Espécies reativas do oxigênio, antioxidantes, estresse oxidativo e trato
reprodutivo feminino
As espécies reativas, substâncias que possuem elétrons desemparelhados e
alta capacidade de reagir com outros substratos, são formadas como produtos
intermediários da metabolização celular e em concentrações fisiológicas parecem ter
importância na modulação de inúmeros processos fisiológicos do trato reprodutivo
feminino, como a foliculogênese e maturação oocitária, a função do corpo lúteo, a
interação gamética, a fertilização, o desenvolvimento e a implantação embrionária,
bem como o declínio da fertilidade relacionado à idade (AGARWAL, A.;GUPTA, S.;
SHARMA, R., 2005; AGARWAL, A.;GUPTA, S.; SHARMA, R. K., 2005; SHKOLNIK
et ai., 2011; AGARWAL et ai., 2012).
Quando há um desequilíbrio entre os agentes pró-oxidantes (radicais livres) e os
mecanismos antioxidantes de defesa do organismo, pode ocorrer o estresse oxidativo
(EO), que tem sido envolvido na etiopatogênese da infertilidade de causa tubária, sem
causa aparente e tubo-peritoneral, com destaque para a endometriose (AGARWAL,
A.;GUPTA, S.; SHARMA, R., 2005; AGARWAL, A.;GUPTA, S.; SHARMA, R. K., 2005;
GUPTA et ai., 2008; AGARWAL et ai., 2012). Os fluidos peritoneais, foliculares e das
hidrossalpinges são microambientes reprodutivos, que abrigam gametas, zigotos e
embriões por tempo variável. Alterações em sua composição química podem ter efeitos
adversos nos processos reprodutivos, sendo que a presença de ROS e antioxidantes já
foi demonstrada nestes microambientes reprodutivos (AGARWAL, A.;GUPTA, S.;
SHARMA, R., 2005; AGARWAL, A.;GUPTA, S.; SHARMA, R. K., 2005; AGARWAL et
ai., 2008; AGARWAL et ai., 2012).
Os mecanismos que envolvem a produção e ação dos radicais livres, bem
como a prevenção da gênese do estresse oxidativo por antioxidantes endógenos,
Introdução 1 28
em processos fisiológicos e patológicos do sistema reprodutivo feminino, ainda
necessitam de maior elucidação. O equilíbrio oxidativo do trato reprodutivo depende
de alguns tipos de radicais livres e dos diferentes mecanismos antioxidantes que os
neutralizam. Existem dois grandes grupos de radicais livres: as espécies reativas de
oxigênio (ROS) e espécies reativas de nitrogênio (RNS). Devido a sua instabilidade
e sua alta reatividade, precisam adquirir elétrons de algum substrato, levando à
oxidação de componentes como áddos nucléicos, lipídios, proteínas, carboidratos,
tióis, cofatores enzimáticos ou qualquer molécula em sua volta para se tornarem
estáveis, causando uma reação em cadeia que pode culminar em dano celular e
tecidual dalla(LIMA, 2001; AGARWAL, A.;GUPTA, S.; SHARMA, R. K., 2005).
As ROS são geradas a partir de reações orgânicas enzimáticas ou não
enzimáticas. As reações biológicas via transferência de elétrons ou via oxigenase,
que utilizam moléculas de oxigênio (02) como substrato, geram grande quantidade
de ROS. Como a cadeia respiratória mitocondrial é o principal sistema de consumo
de 02 celular, a maior parte de ROS é produzida por este sistema sob condições
fisiológicas (FUJll;IUCHI; OKADA, 2005). O radical superóxido (02-) é produzido
quando há vazamento da cadeia de transporte de elétrons por redução-(O 2 + e - -+
02) (AGARWAL, A.;GUPTA, S.; SHARMA, R. K., 2005). A dismutação de
superóxidos e algumas enzimas oxidases podem gerar diretamente peróxido de
hidrogênio (H2O2) (2 02-+ 2 H
+ -+ H2O2 + 0 2) (AGARWAL, A.;GUPTA, S.; SHARMA,
R. K., 2005), que também pode ser gerado pela redução do 02- (02-+e-+ 2 H
+
-+
H2O2)(BABIOR, 1997). O íon hidroxila (OH-) é formado da aquisição de um elétron
pelo H2O2 (H2O2 + e-+ H +
-+ OH + H 2O) (BABIOR, 1997) e este radical é altamente
reativo e pode modificar purinas e pirimidinas causando quebras no feixe de ácido
desoxiribonucleico (DNA) (AGARWAL, A.;GUPTA, S.; SHARMA, R. K., 2005).
Introdução 1 29
As ROS estão envolvidas em eventos bioquímicos como a peroxidação
lipídica, onde cascatas de reações podem levar a dano oxidativo nos lipídios
insaturados em membranas, levando à destruição de sua estrutura, falência dos
mecanismos de troca de metabólitos e, em condições extremas, à morte celular
(LIMA, 2001 ). Nos sistemas biológicos a peroxidação lipídica consiste na
incorporação de oxigênio molecular a um ácido graxo poliinsaturado para produzir
um hidroperóxido lipídico (LOOH) como produto primário inicial, e pode ocorrer
principalmente por duas vias: uma via enzimática envolvendo as ciclooxigenases e
lipoxigenases; e a peroxidação não enzimática, que envolve a participação de ROS,
RNS, metais de transição e outros radicais livres (AL-MEHDI et ai., 1993;
PORTER;CALDWELL; MILLS, 1995; LIMA, 2001). Este processo pode ser dividido
em três etapas: iniciação, propagação e terminação (Figura 1 ). A fase de iniciação
representa o início da peroxidação, em que o ácido graxo poliinsaturado sofre
ataque de uma espécie que é suficientemente reativa para abstrair um átomo de
hidrogênio a partir de um grupo metileno (-CH2-), formando um radical de carbono.
Este radical é estabilizado por um rearranjo molecular para formar um dieno
conjugado, ou seja, duas duplas ligações intercaladas por uma ligação simples
(HALLIWELL; GUTTERIDGE, 1989). Em meio aeróbio, o radical alquila inicialmente
formado se combina com o oxigênio formando o radical peroxila, o qual pode
abstrair um hidrogênio alílico de outro ácido graxo, gerando outro radical de carbono
e promovendo a etapa de propagação. A reação do radical peroxila com o átomo de
hidrogênio abstraído gera um hidroperóxido lipídico (LOOH). Estes hidroperóxidos
formados são prejudiciais para a estrutura e função das membranas celulares, como
para estruturas protéicas, como receptores e enzimas (KATSIKI; MANES, 2009).
Peróxidos cíclicos também podem ser formados, quando o radical peroxila reage
com uma dupla ligação na mesma cadeia de ácido graxo, o que também pode
propagar a peroxidação lipídica (HALLIWELL; GUTTERIDGE, 1989).
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Introdução 1 30
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Figura 1. Esquema das principais reações ocorridas durante o processo de peroxidação
lipídica (LIMA, 2001)
A terceira e última etapa da reação, a fase de terminação, dá-se pela aniquilação
dos radicais formados originando produtos não radiculares (GARDNER, 1989;
HALLIWELL; GUTTERIDGE, 1989). Os radicais peroxila e alcoxila também podem sofrer
dismutação ou clivagem formando aldeídos, como o malondialdeído (MOA) (Figura 2).
Figura 2. Esquema representativo da peroxidação lipídica, enfocando as principais
substâncias formadas durante o processo e as metodologias disponíveis para a sua
avaliação (LIMA, 2001 ).
Introdução 1 31
As ROS, além de gerarem dano a lipídios, podem levar a dano protéico com
extensas lesões tissulares e alterações no DNA. Proteínas oxidadas são mais sensíveis à
proteólise e o aumento destas proteínas oxidadas e dos produtos de sua oxidação pode
ser responsável pela perda de funções bioquímicas e fisiológicas (ZADAK et ai., 2009). O
processo de estresse oxidativo que leva a formação de produtos avançados de oxidação
protéica (AOPP) envolve a ação de oxidantes cloradas, principalmente ácido hipocloroso
e cloraminas, produzidas por mieloperoxidases em neutrófilos ativados. Acredita-se que
os AOPP possam induzir citocinas inflamatórias e moléculas adesivas
(KALOUSOVA;SKRHA; ZIMA, 2002), de modo que seus níveis estão relacionados com
marcadores de ativação de monócitos e resposta inflamatória (WITKO-SARSAT et ai.,
1998a; WITKO-SARSAT et ai., 1998b; KELL Y et ai., 2002).
Em condições normais, todos os organismos têm mecanismos enzimáticos e não
enzimáticos capazes de neutralizar as espéeies pró-oxidantes e/ou reparar os danos
causados pelas espécies reativas, convertendo-as em H2O, para prevenir a sua
superprodução. Muitos antioxidantes de baixo peso molecular como vitaminas e
polifenóis estão normalmente presentes em nutrientes, embora a neutralização
enzimática das espécies reativas seja o mecanismo mais eficiente (AGARWAL,
A.;GUPTA, S.; SHARMA, R., 2005; AGARWAL, A.;GUPTA, S.; SHARMA, R. K., 2005;
FUJll;IUCHI; OKADA, 2005). Os antioxidantes não-enzimáticos também são conhecidos
como antioxidantes sintéticos ou suplementos dietéticos, este grupo influencia de maneira
exógena o sistema de defesa antioxidante do organismo. Os mais comuns são:
Vitaminas C e E, selênio, zinco, taurina, hipotaurina, glutationa, beta-caroteno e caroteno.
A vitamina C é um antioxidante que tanto interrompe a propagação do
processo peroxidativo, como ajuda a reciclar a vitamina E e a glutationa oxidada
(GSSG). A vitamina E (Vit E) pode tanto bloquear o início da peroxidação lipídica,
Introdução 1 32
como inibir, primariamente a sua etapa de propagação (ZINGG, 2007). Estudos
mostram que a depleção nutricional de vitamina E é responsável pela diminuição da
capacidade de combater as espécies reativas de oxigênio (ZADAK et ai., 2009).
A glutationa (GSH) está presente no oócito e no fluido tubário. Após a
fertilização, a glutationa participa no processo de descondensação espermática
paralelamente ao processo de ativação oocitária, bem como na transformação da
cabeça espermatozóide no pronúcleo masculino (PERREAULT;BARBEE; SLOTT,
1988; YOSHIDA, 1993). A GSH também desempenha importante função permissiva
para o desenvolvimento do zigoto além do estágio de duas células, até os estágios
de mórula e de blastocisto (AGARWAL, A.;GUPTA, S.; SHARMA, R., 2005;
AGARWAL, A.;GUPTA, S.; SHARMA, R. K., 2005). A GSH é o principal componente
sulfidril não protéico em células de mamíferos e tem papel importante na proteção
celular ao estresse oxidativo, atuando na neutralização de peróxidos (MEISTER,
1983), além de participar na reciclagem e manutenção dos níveis fisiológicos da Vit
E, auxiliando na eliminação indireta do tocoferol oxidado (NWOSE et ai., 2008).
As células do cumulus (CC) participam da neutralização de ROS aumentando
o conteúdo de GSH no ovário, que agiria juntamente com as enzimas antioxidantes,
na inibição de apoptose (TATEMOTO et ai., 2004). Os oócitos, células da granulosa,
células luteínicas e epitélio tubário expressam altos níveis de glutationa redutase
(GR), responsável pela conversão da glutationa oxidada (GSSG) em reduzida. A
GSH gerada protegeria os oócitos contra a produção excessiva de ROS durante a
maturação oocitária e a ovulação, preservando o potencial de fertilização oocitário
(KANEKO et ai., 2001).
As defesas enzimáticas responsáveis pela neutralização de espécies reativas
do oxigênio são representadas, principalmente, pela superóxido dismutase (SOO),
Introdução 1 33
catalase, glutationa peroxidase (GPx), dependente e independente de selênio, e
glutationa redutase (GR) (FUJll;IUCHI; OKAOA, 2005).
O ânion superóxido é produzido pela redução de um elétron de uma molécula
de oxigênio, o que inicia a reação em cadeia. Acredita-:se que o papel da SOO na
conversão do ânion superóxido em peróxido de hidrogênio (2 0 2- + 2 H+ ---+ H 20 2 +
02) seja fundamental nas reações antioxidativas (VALENTI et ai., 2004). Três
isoenzimas são produzidas em mamíferos (FUJll;IUCHI; OKAOA, 2005): a CuZn
SOO, a Mn-SOO e a EC-SOO (codificada pelo gene SOD3), que é a forma
extracelular, estruturalmente similar a CuZn-SOO.
Há evidências de que os níveis proteicos da Mn-SOO (S0O2) e da CuZn
SOO (SOO1) nas células da teca e da granulosa estejam intimamente
correlacionados com a esteroidogênese ovariana humana (SUZUKI et ai., 1999;
SUGINO et ai., 2000). A atividade de SOO está presente no fluido folicular pré
ovulatório em níveis mais altos que no soro. Esses altos níveis parecem conferir
proteção contra o dano oxidativo oocitário (TATEMOTO et ai., 2004). Um das
conseqüências observadas em camundongos com deficiência de S0O1 é a
infertilidade, sugerindo um potencial papel desta enzima na fertilidade feminina. A
SOD2 é induzida sob várias condições de estresse oxidativo em processos
inflamatórios (FUJll;IUCHI; OKADA, 2005).
Endometriose e Estresse Oxidativo
A endometriose é uma doença ginecológica dependente de estrogênio que
afeta 6-10% das mulheres em idade reprodutiva (ESKENAZI; WARNER, 1997).
Caracteriza-se por implante e crescimento de tecido endometrial (glândulas e/ou
Introdução 1 34
estroma) fora -da cavidade uterina, principalmente no peritônio pélvico, ovários e
septo reto-vaginal. Pode apresentar quadro clínico bastante diversificado, variando
desde assintomático, até caracterizado pela presença de dor pélvica crônica,
dismenorréia, dispareunia, sangramento uterino anormal e infertilidade (GIUDICE;
KAO, 2004; BULUN, 2009). Tanto por seu impacto na saúde física e psicológica,
como pelo impacto sócio-econômico diante dos custos para o seu diagnóstico e
tratamento, a endometriose tem sido considerada um problema atual de saúde
pública (SIGNORILE; BALDI, 201 O).
A etiologia e a patogênese da endometriose são ainda desconhecidas,
havendo diversas teorias e hipóteses tentando justificar a origem desta enigmática
doença. De modo geral, há teorias propondo que os implantes se originam do
endométrio uterino e outras sugerindo que os implantes surgem de tecidos
extrauterinos (BURNEY; GIUDICE, 2012). lntrinsicamente a estas teorias têm sido
estudados fatores desencadeadores e potencial susceptibilidade genética, cujos
papéis estão começando a ser delineados, apesar de, até o presente, estarem
insuficientemente estabelecidos para confirmar uma relação causa-efeito no
desenvolvimento da doença. Estudos correlacionando desreguladores endócrinos
com endometriose (CRAIN et ai., 2008), sugerem que estes, juntamente com
estrogênios endógenos/exógenos, possam ser potenciais candidatos a propiciar
transformação, indução e estimulação envolvidos na patogênese da endometriose. A
ação destes agentes e suas influências em outros sistemas que predispõem a
endometriose, como endócrinos, células tronco progenitoras, sistema imune e
modificações epigenéticas, devem ser considerados em contextos tanto de
antecedentes genéticos, assim como de estímulos responsáveis pela
reprogramação do trato reprodutivo feminino (BULUN, 2009).
Introdução 1 35
Associadamente a isto, sabe-se que a endometriose está associada com
inflamação crônica, e ROS são mediadores inflamatórios que modulam a
proliferação celular (NGÔ et ai., 2009). NGÔ et ai. (2009) mostraram que células
endometrióticas podem sofrer maior EO endógeno devido ao aumento na produção
de ROS, alteração das vias de detoxificação de ROS, e uma queda nos níveis de
catalase, como observado nas células tumorais. Por outro lado há evidências de que
a ocorrência de alterações genômicas no endométrio eutópico, passíveis de
predispor à endometriose, pode ser conseqüente a fatores epigenéticos ou ao
estresse oxidativo (GUO et ai., 2004). Neste contexto, alguns autores sugeriram a
possibilidade da endometriose ser uma patologia originada ou associada ao EO
(MURPHY;SANTANAM; PARTHASARATHY, 1998; AGARWAL;SALEH; BEDAIWY,
2003; SZCZEPANSKA et ai., 2003; AGARWAL, A.;GUPTA, S.; SHARMA, R. K.,
2005; GUPTA et ai., 2006; AGARWAL et ai., 2008; RUDER et ai., 2008; NGO et ai.,
2009; AGARWAL et ai., 2012).
Na vigência de endometriose pélvica, haveria a ativação dos macrófagos na
cavidade peritoneal, o que poderia promover aumento da produção de ROS e RNS,
citocinas,prostaglandinas-e-fatores de crescimento e, conseqüentemente, EO gerando
peroxidação dos lipídeos, de seus produtos de degradação e dos produtos formados pela
sua interação com as lipoproteínas de baixa densidade e outras proteínas. O estresse
oxidativo também pode danificar células mesoteliais e pode induzir o aparecimento de
sítios de adesão para células endometriais, favorecendo o desenvolvimento e a
progressão dos focos de endometriose (ALPAY;SAED; DIAMOND, 2006).
Alguns autores evidenciaram maiores níveis de Manganês-superóxido dismutase
(Mn-S00) e Cobre-Zinco-superóxido dismutase (CuZn-S00) no fluido peritoneal de
mulheres inférteis com adenomiose quando comparadas a mulheres inférteis com
Introdução 1 36
endometriose e sem a doença (ISHIKAWA et ai., 1993). Estes mesmos autores
(ISHIKAWA et ai., 1993) detectaram a Mn-SOD no endométrio ectópico de mulheres
inférteis com adenomiose, além de evidenciarem maior expressão do gene que codifica a
Mn-S00 no endométrio ectópico de mulheres inférteis com endometriose, sugerindo que
o estresse oxidativo participe da etiopatogênese da endometriose. Em mulheres com
endometriose e adenomiose foi evidenciada, por meio de imunohistoquímica, uma maior
expressão da Mn-S00 e CuZn-S00, no endométrio eutópico durante todo o ciclo
menstrual, além de níveis aberrantes de glutationa peroxidase (GPx) e de xantina oxidase
(XO), tanto em endométrio eutópico quanto ectópico (OTA et ai., 1999). A atividade da
superóxido dismutase (SOO) parece estar significativamente mais alta no endométrio
ectópico de endometriomas do que no endométrio eutópico (ONER-IYIDOGAN et ai.,
2004; ALPAY;SAED; DIAMOND, 2006). Todavia, este aumento dos níveis de enzimas
antioxidantes, tanto no endométrio eutópico, como ectópico, de mulheres com
endometriose, poderia ser tanto um evento primário, como ser secundário ao aumento da
produção de espécies reativas, como uma tentativa de prevenir o dano oxidativo.
Os dados acima sugerem uma tendência a maior produção de radicais livres
nas- porta0oras de- endometriose, associada a uma potencial alteração da sua
capacidade antioxidante, o que, supostamente, poderia contribuir para a ocorrência
de estresse oxidativo, que, por sua vez, poderia estar relacionado à etiopatogênese
da doença e à sua progressão.
Endometriose, infertilidade e qualidade oocitária
Outro aspecto muito interessante em portadoras de endometriose é a sua
enigmática associação com a inferti lidade (OZKAN;MURK; ARICI, 2008). A doença
Introdução 1 37
está presente em 25 a 40% das mulheres inférteis, sendo que 30 a 50% das
portadoras de endometriose têm dificuldade em ter filhos (HOLOCH; LESSEY,
201 O). Até o presente momento, pouco é conhecido acerca dos mecanismos
envolvidos na etiopatogênese da infertilidade relacionada a esta doença,
especialmente nos casos de endometriose mínima e leve, em que não se observam
alterações significativas da anatomia pélvica.
Novas abordagens terapêuticas ao problema da infertilidade relacionadas a
esta afecção têm surgido, destacando-se a aplicação, cada vez mais rotineira, das
técnicas de reprodução assistida (TRA) de alta complexidade. A introdução da
fertilização in vitro (FIV) no tratamento da infertilidade secundária à endometriose
tornou-se uma importante ferramenta para o estudo dos efeitos potenciais da
endometriose em alguns estágios específicos do processo reprodutivo, incluindo a
foliculogênese, a fertilização, o desenvolvimento embrionário e a implantação.
Se por um lado há evidências de associação entre endometriose e
infertilidade, por outro, encontramos resultados controversos acerca dos resultados
da FIV em pacientes com endometriose, o que vem sendo foco de diversos estudos
e hipóteses-nos--últimos anos�(GARCIA-VELASCO; ARICI, 1999; GARRIDO et ai.,
2000; BARNHART;DUNSMOOR-SU; COUTIFARIS, 2002; AL-FADHLI et ai., 2006;
OPOIEN et ai., 2012; HARB et ai., 2013). Resultados conflitantes de alguns estudos
têm sugerido a ocorrência de menores taxas de fertilização, implantação e/ou
gestação em portadoras de endometriose (BARNHART;DUNSMOOR-SU;
COUTIFARIS, 2002; AL-FADHLI et ai., 2006; LIN et ai., 2012; HARB et ai., 2013),
que poderiam ser decorrentes do comprometimento da qualidade oocitária e,
conseqüentemente, embrionária, de defeitos endometriais e/ou anomalias da
interação entre o endométrio e o embrião. Contudo, o achado de taxas de
Introdução 1 38
implantação semelhantes as do grupo controle em ciclos de doação de oócitos de
pacientes saudáveis para pacientes com endometriose (SUNG et ai., 1997; DIAZ et
ai., 2000), tem reforçado o potencial papel crucial da piora da qualidade oocitária e,
consequentemente embrionária, no comprometimento da implantação verificado
neste grupo de pacientes (BRIZEK et ai., 1995; PELLICER et ai., 1995; GARRIDO et
ai., 2000; PELLICER et ai., 2001; KATSOFF et ai., 2006). Alguns autores sugeriram
alterações na qualidade do oócito como responsáveis pelo comprometimento
(BRIZEK et ai., 1995; SUNG et ai., 1997; DIAZ et ai., 2000) ou completo bloqueio do
desenvolvimento embrionário (PELLICER et ai., 1995), em mulheres com
endometriose, quando comparadas a controles saudáveis, reforçando o papel da
piora da qualidade oocitária nos resultados dos procedimentos de reprodução
assistida nestas pacientes. Todavia, a maioria dos estudos que objetivaram avaliar a
qualidade oocitária em pacientes com endometriose, utilizaram _apenas parâmetros
indiretos, como a análise de fatores parácrinos múltiplos presentes no fluido folicular,
avaliação de apoptose nas células da granulosa, análise do número e atividade dos
leucócitos circunjacentes, entre outros (GARRIDO et ai., 2000; GARRIDO et ai.,
2002). Estudos que--tenham avaliado a qualidade oocitária em portadoras de
endometriose por meio da análise de critérios morfológicos mais objetivos são
bastante escassos (BARCELOS et ai., 2008; BARCELOS et ai., 2009).
Sabemos que embriões com habilidade para implantar e desenvolver
adequadamente originam-se de oócitos de boa qualidade, que, por sua vez, são
provenientes de folículos com um adequado meio ambiente, condicionado tanto pelo
conteúdo do fluido folicular, como pela influência das células vizinhas, ressaltando
se o papel crucial das células da granulosa murais e do Cumu/us oophorus (CC) na
aquisição da competência oocitária (CANIPARI, 2000; FERREIRA et ai., 2009). O
Introdução 1 39
microambiente folicular, que circunda os oócitos, pode ter um papel crítico na
qualidade oocitária, fertilização e desenvolvimento embrionário. Há alguns dados
associando hipoxigenação de folículos pré-ovulatórios com altas freqüências de
defeitos citoplasmáticos oocitários, clivagem prejudicada e anormalidades na
segregação cromossômica (VAN BLERKOM;ANTCZAK; SCHRADER, 1997). Como
a redução do suprimento de oxigênio modifica diversas vias metabólicas, a
peroxidação intensa poderia ser um dos processos envolvidos na geração desses
danos (BARNHART;DUNSMOOR-SU; COUTIFARIS, 2002; KUIVASAARI et ai.,
2005), o que precisa ser mais extensamente investigado.
O microambiente folicular tem um papel crucial na determinação da qualidade
oocitária, que se reflete nas taxas de fertilização e na qualidade embrionária
(WIENER-MEGNAZI et ai., 2004). Convém ressaltarmos que não dispomos de
estudos que tenham avaliado os níveis fisiológicos de espécies reativas do oxigênio
e de antioxidantes no fluido folicular de mulheres normais férteis em ciclos não
estimulados com gonadotrofinas exógenas. Desta forma, não dispomos de dados
acerca da potencial influência de níveis fisiológicos de ROS e antioxidantes no fluido
folicular sobre a qualidade oocitária e, conseqüentemente, sobre a qualidade
embrionária e o sucesso da gestação subseqüente. Os dados disponíveis acerca
dos efeitos deletérios e/ ou benéficos das ROS sobre a qualidade oocitária, taxa de
fertilização, qualidade embrionária e outros marcadores do sucesso das TRA são
inconsistentes e conflitantes. Apesar de alguns autores terem recentemente
demonstrado que elevados níveis de ROS no fluido folicular de mulheres inférteis
submetidas a FIV/ TE associaram-se a redução do potencial de fertilização oocitário
e aumento da produção de embriões de pior qualidade, existem dados controversos
(DAS et ai., 2006; JANA et ai., 2010). Diversas variáveis podem justificar as
Introdução 1 40
diferenças encontradas na literatura, entre elas os diferentes critérios de seleção das
pacientes, os protocolos de estimulação ovariana utilizados, os diferentes
marcadores e métodos utilizados para sua mensuração, características particulares
dos diferentes laboratórios de FIV, entre tantos outros. Assim, certamente estudos
com maiores casuísticas, metodologicamente bem delineados, serão cruciais para
elucidarem o papel das ROS no fluido folicular na fisiologia reprodutiva e na
etiopatogênese da infertilidade (PASQUALOTTO et ai., 2004; APPASAMY et ai.,
2008; PASQUALOTTO et ai., 2009).
A qualidade oocitária é decorrente de fatores correlacionados às
competências citoplasmática e nuclear (ALBERTINI, 1992; FERREIRA et ai., 2009).
Há evidências de que o estresse oxidativo possa promover comprometimento da
qualidade oocitária, anomalias na meiose e no desenvolvimento embrionário pré
implantação (LIU et ai., 2003; NAVARRO;LIU; KEEFE, 2004; AGARWAL et ai., 2006;
NAVARRO et ai., 2006; MANSOUR et ai., 2009). Assim, hipotetizamos que a
ocorrência de estresse oxidativo sistêmico e/ou no microambiente folicular de
mulheres inférteis com endometriose submetidas a estimulação ovariana para
procedimentos de reprodução assistida promova comprometimento da qualidade
gamética e, consequentemente, do sucesso gestacional, estimulando a realização
do presente estudo. Associadamente a isto, questionamos se o EO poderia
favorecer o comprometimento da qualidade gamética também em ciclos naturais,
participando da etiopatogênese da infertilidade relacionada à endometriose.
Questionamos, assim, a ocorrência de um possível papel do estresse
oxidativo na etiopatogênese da infertilidade relacionada à endometriose,
particularmente associado à piora da qualidade oocitária, e, conseqüentemente,
envolvido nas menores taxas de implantação e gestação observadas em portadoras
Introdução 1 41
desta afecção submetidas a procedimentos de RA (BARNHART;DUNSMOOR-SU;
COUTIFARIS, 2002; LIN et ai., 2012; HARB et ai., 2013). Todavia, não encontramos
estudos avaliando conjuntamente diferentes marcadores pró e antioxidantes no soro
e fluido folicular (FF) de mulheres com infertilidade relacionada à endometriose e
correlacionando-os aos resultados dos. procedimentos de reprodução assistida.
Se confirmada a presença de estresse oxidativo, sistemicamente e/ou no
microambiente folicular de mulheres inférteis com endometriose submetidas a
estimulação ovariana para a realização de fertilização in vitro, este achado
justificaria, pelo menos parcialmente, a piora da qualidade oocitária, contribuindo
para o entendimento da etiopatogênese da infertilidade relacionada à endometriose
e dos piores resultados de TRA nestas pacientes. Associadamente a isto, a
avaliação do valor preditivo de diferentes marcadores de EO no sucesso das TRA,
seria de grande valia para a determinação do prognóstico gestacional e para a
fundamentação de novas estratégias terapêuticas a serem testadas em grupos
selecionados de pacientes.
2. Justificativa
Justificativa 1 43
Os mecanismos da infertilidade associada à endometriose permanecem
pouco elucidados. Associadamente a isto, resultados conflitantes de alguns estudos
têm sugerido a ocorrência de menores taxas de implantação e gestação em
portadoras de endometriose submetidas à estimulação ovariana para a realização
de procedimentos de reprodução assistida de alta complexidade, o que, poderia ser
secundário, pelo menos parcialmente, à piora da qualidade oocitária.
O EO parece participar da etiopatogênese da endometriose. Dados
provenientes de estudos com diferentes modelos animais tem evidenciado que, por
meio de mecanismos até o momento não completamente estabelecidos, o EO pode
promover anomalias meióticas, comprometimento da qualidade oocitária e do
desenvolvimento embrionário pré e pós-implantação. Questionamos assim um
potencial papel do EO na etiopatogênese da infert1lidade relacionada à doença,
relacionado ao comprometimento da qualidade oocitária.
Todavia, não dispomos de estudos analisando conjuntamente diferentes
marcadores estresse oxidativo no soro e fluido folicular de mulheres inférteis com
endometriose submetidas a EOC para procedimentos de reprodução assistida.
Assim, com a finalidade de avaliar, de uma maneira conjunta, os principais
marcadores pró-oxidantes (indicadores de produção de ROS e de dano oxidativo),
propomos a análise do total de hidroperóxidos (FOX1), considerado um marcador de
produção de ROS, além de produtos finais do dano oxidativo aos lipídios, proteínas
e DNA, importantes alvos celulares da ação do estresse oxidativo, que, quando
lesados, podem levar a comprometimento da função e viabilidade celulares. O MOA
é um dos produtos finais da peroxidação lipídica e, por ser um produto estável, pode
ser utilizado como medida cumulativa deste processo (HALLIWELL; GUTTERIDGE,
1989; CAMPOS PETEAN et ai., 2008). A determinação dos grupos carbonil ou dos
Justificativa 1 44
produtos avançados de oxidação proteica (AOPP) permite uma estimativa da
oxidação protéica (WITKO-SARSAT et ai., 1996). A quantificação da 8-hydroxi-2'
deoxiguanosina (8hOG), um nucleosídio modificado, possibilita a análise do dano
oxidativo ao ONA (EVANS;DIZDAROGLU; COOKE, 2004). Ao mesmo tempo,
propomos avaliar antioxidantes não enzimáticos (GSH e vitamina E), um importante
antioxidante enzimático (SOO), além da capacidade antioxidante total (CAT). A
glutationa é um importante antioxidante não enzimático, potencialmente envolvido na
aquisição de competência oocitária para o desenvolvimento. Em contrapartida, a
vitamina E, sobretudo na forma de a-tocoferol, pode tanto bloquear o início da
peroxidação lipídica (PL), como inibir, primariamente, a etapa de propagação da PL,
sendo conhecida como um eficiente antioxidante (BORNODEN, 1994). A atividade
de SOO está presente no fluido folicular pré-ovulatório em níveis mais altos que no
soro e parece conferir proteção contra o dano oxidativo oocitário (TATEMOTO et ai.,
2004). Uma das conseqüências observadas em camundongos com deficiência de
SOD1 é a infertilidade, sugerindo um potencial papel desta enzima na fertilidade
feminina. A SOD2 é induzida sob várias condições de estresse oxidativo em
processos inflamatórios (FUJll;IUCHI; OKAOA, 2005). A CAT, por sua vez, tem sido
utilizada com a finalidade de se avaliar o balanço antioxidante total, que é resultante
das defesas antioxidantes enzimáticas e não enzimáticas, permitindo uma avaliação
global deste processo (EREL, 2004; COSTA;SANTOS; LIMA, 2006).
A análise conjunta de todos estes marcadores permitirá uma avaliação global
do balanço oxidante-antioxidante, tanto no soro no dia da captação oocitária, como
no fluido folicular, de pacientes com infertilidade relacionada à endometriose
submetidas à EOC para ICSI, possibilitando identificarmos a ocorrência ou não de
estresse oxidativo relacionado à infertilidade em portadoras de endometriose, assim
Justificativa 1 45
como a determinação de quais seriam os principais alvos do dano oxidativo nestas
mulheres. Assim, se confirmada a presença de estresse oxidativo, sistemicamente
e/ou no microambiente folicular de mulheres inférteis com endometriose submetidas
a estimulação ovariana para a reatização de fertilização in vitro, este achado
justificaria, pelo menos parcialmente, a piora da qualidade oocitária, contribuindo
para o entendimento da etiopatogênese da infertilidade relacionada à endometriose.
Associadamente a isto, a avaliação do valor preditivo destes diferentes marcadores
de EO na ocorrência de gestação clínica e nascidos vivos após a ICSI, seria de
grande valia para a determinação do prognóstico gestacional e para a
fundamentação de novas estratégias terapêuticas a serem testadas em grupos
selecionados de pacientes.
3. Objetivos
Objetivos 1 47
OBJETIVOS GERAIS
1. Comparar oito marcadores de estresse oxidativo, no soro do dia da captação
oocitária e no fluido folicular, entre mulheres inférteis com e sem endometriose
(infertilidade de causa tubária e/ou masculina) submetidas a EOC para ICSI.
2. Comparar oito marcadores de estresse oxidativo entre soro do dia da captação
oocitária e fluido folicular intra-grupos (com endometriose e sem endometriose).
3. Avaliar o valor preditivo dos marcadores de estresse oxidativo analisados, no
soro e no fluido folicular, na ocorrência de gestação clínica e de nascidos vivos de
mulheres inférteis com e sem endometriose submetidas à EOC para ICSI.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
1. Comparar as concentrações séricas e foliculares de total de hidroperóxidos
(FOX1), malondialdeído (MOA), produtos avançados de oxidação proteica (AOPPs),
8-hydroxi-2'-deoxiguanosina (8hOG), glutationa (GSH), vitamina E (Vit E), SOO
(superóxido dismutase) e capacidade antioxidante total (CAT) de pacientes inférteis
com e sem endometriose.
3. Comparar as concentrações séricas e foliculares de total de hidroperóxidos
(FOX1), malondialdeído (MOA), produtos avançados de oxidação proteica (AOPPs),
8-hydroxi-2'-deoxiguanosina (8hOG), glutationa (GSH), vitamina E (Vit E), SOO
(superóxido dismutase) e capacidade antioxidante total (CAT) entre soro do dia da
Objetivos 1 48
captação oocitária e fluido folicular intra-grupos ( com endometriose e sem
endometriose).
4. Avaliar o valor preditivo de total de hidroperóxidos (FOX1), malondialdeído (MOA),
produtos avançados de oxidação proteica (AOPPs), 8-hydroxi-2'-deoxiguanosina
(8hDG), glutationa (GSH), vitamina E (Vit E), SOO (superóxido dismutase) e
capacidade antioxidante total (CAT) no soro e no fluido folicular, na ocorrência de
gestação clínica de mulheres inférteis com e sem endometriose submetidas à EOC
para ICSI.
4. Pacientes e Métodos
Pacientes e Métodos 1 50
Foi realizado um estudo transversal prospectivo que foi submetido e aprovado
pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital das Clínicas da Faculdade de
Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), Universidade de São Paulo (USP)-SP, processo
número 10187/2007.
O estudo foi realizado junto ao Laboratório de Ginecologia - Setor de
Reprodução Humana do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia - FMRP-USP,
Laboratório de Nutrição e Metabolismo - Laboratório Multiusuário de Pesquisas da
FMRP-USP e Laboratório de Biologia Molecular - Laboratório Multiusuário de
Pesquisas da FMRP-USP, de outubro de 2009 a outubro de 2010.
Pacientes
a) Critérios de elegibilidade
GRUPO CONTROLE:
• Pacientes submetidas à estimulação ovariana para realização de injeção
intracitoplasmática de espermatozoide, indicada pela presença exclusivamente de
fator masculino e/ou fator tubário (excluindo-se a presença de hidrossalpinge);
• Ausência de quaisquer doenças pélvicas associadas à infertilidade, quando
da realização da laparoscopia diagnóstica, utilizada como parte da propedêutica da
investigação de infertilidade.
GRUPO DE ESTUDO- Endometriose
• Pacientes submetidas à estimulação ovariana para realização de ICSI,
indicada pela presença exclusivamente de endometriose;
• Diagnóstico de endometriose por videolaparoscopia realizada no Hospital das
Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, segundo os critérios definidos
pela Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (Revised American Society for
Reproductive Medicine classification of endometriosis: 1996, 1997);
Pacientes e Métodos 1 51
• Ausência de tratamento clínico ou cirúrgico para a endometriose nos últimos
seis meses.
b) Critérios de elegibilidade para ambos os grupos
• Idade < 38 anos;
• FSH do terceiro dia do ciclo menstrual < 1 O mUl/mL;
• IMC < 30 kg/m2 ;
• Ausência de doenças como diabetes mellitus ou quaisquer outras
endocrinopatias, doença cardiovascular, dislipidemia, lupus eritematoso sistêmico e
outras doenças reumatológicas;
• Ausência de infecção pelo vírus HIV ou qualquer infecção ativa;
• Ausência de tabagismo ou o uso de medicações hormonais e
antiinflamatórios hormonais e não hormonais e suplementos vitamínicos de qualquer
natureza, nos últimos seis meses, previamente à programação para o procedimento
de reprodução assistida.
Casuística e Fluxograma do Estudo
Como não dispúnhamos de dados na literatura relativos ao desvio padrão das
diferentes variáveis a serem estudadas, não foi possível a determinação do
dimensionamento amostral previamente ao início do estudo. Desta forma,
realizamos inicialmente um estudo piloto, incluindo todas as pacientes elegíveis para
o estudo que aceitaram participar do mesmo, no período compreendido entre
outubro de 2009 a outubro de 201 O.
Pacientes e Métodos 1 52
De outubro de 2009 a outubro de 201 O, 275 pacientes participaram do
Programa de Reprodução Assistida do Hospital Universitário da Faculdade de
Medicina de Ribeirão Preto e foram submetidas à estimulação ovariana para ICSI.
Destas, 124 não foram elegíveis para o estudo. As 151 pacientes elegíveis (76 do
grupo controle e 75 do grupo endometriose) foram entrevistadas e 132 assinaram o
termo de consentimento livre e esclarecido (65 do grupo controle e 67 do grupo
endometriose). Trinta e três das 132 pacientes não foram submetidas à captação de
oócitos. Das 99 que captaram oócitos, foram obtidas amostras de sangue de 50
pacientes sem endometriose e 49 com endometriose e FF de 32 pacientes sem
endometriose e 35 com endometriose. Oitenta e sete amostras de soro (43 com E e
44 sem E) e 61 amostras (FF 29 com E e 32 sem E) tiveram dados analisados no
presente estudo (Figura 3).
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Avaliados para
elegibilidade (n= 275)
-1r-
Não elegíveis (n= 124)
Elegíveis (n= 151)
Incluídos (n= 132)
Incluídos no grupo
endometriose (n= 67)
Incluídos no grupo
controle (n= 65)
Soros doados 1(n= 49)
1
Analisados
(n= 43)
FF doados
(n= 35)
l
Analisados
(n= 29)
Soros doados
(n= 50)
l
Analisados
(n=44)
Figura 3. Fluxograma do Estudo
FF doados
(n= 32)
Analisados
(n= 32)
Pacientes e Métodos 1 53
Protocolo de Estimulação Ovariana e Suplementação de Fase Lútea
Com o objetivo de sincronizar e programar o início do ciclo de estimulação
ovariana controlada utilizamos a programação da menstruação, que consiste em se
administrar anticoncepcionais orais combinados diariamente, iniciados no período
menstrual do ciclo precedente até cinco dias antes do previsto para o início da
estimulação ovariana, suspendendo sua administração de tal forma que o início do
sangramento menstrual coincida com a realização da ultrassonografia transvaginal
(USTV) basal para se observar o padrão endometrial e afastar a presença de cistos
ovarianos que possam interferir na resposta à administração das gonadotrofinas
exógenas e na monitorização ultrassonográfica do crescimento folicular.
O bloqueio hipofisário com GnRHa foi iniciado dez .dias antes do dia de
realização da ultrassonografia transvaginal (USTV) basal (protocolo longo), no
período vespertino, por meio da administração de acetato de leuprolide (Lupron®,
Abott, Brasil; Reliser®, Serona, Brasil) na dose de 0,5mg/dia (1 O UI), por via
subcutânea, que foi mantida durante todo o período de estimulação ovariana
controlada até o dia da administração do hCGr (Ovidrel®, Serona, Brasil).
A hiperestimulação ovariana controlada foi iniciada entre o segundo e o
terceiro dia do ciclo menstrual. As pacientes receberam 150 a 300 UI por dia de FSH
recombinante (FSHr) (Gonal-F®, Serona, Brasil; Puregon®, Organon, Brasil), via
intramuscular (IM), nos primeiros 6 dias da indução. A partir do sétimo dia da
indução da ovulação, a dose foi ajustada de acordo com o crescimento folicular e a
espessura endometrial, monitorados com USTV diariamente ou em dias alternados.
Quando pelo menos dois folículos atingiram 18 mm de diâmetro médio, foi
administrada 250 µg de hCGr (Ovidrel®, Serona, Brasil) às 22:00. A captação dos
oócitos foi realizada 34 a 36h após a administração do hCGr.
Pacientes e Métodos 1 54
A suplementação da fase lútea foi realizada com progesterona natural
micronizada (Utrogestan®, Enila, Brasil) por via oral na dose de 200mg, três vezes
ao dia, a partir do dia da captação oocitária e mantida até a décima segunda
semana da gestação, nas pacientes que engravidaram.
Captação Oocitária e Denudamento Oocitário
A captação dos oócitos foi realizada mediante prévia anestesia geral
endovenosa com propofol (Diprivan®, Astra-Zeneca, Brasil), associado ao citrato de
fentanil (Fentanil®, Janssen-Cilag, Brasil). A aspiração dos folículos por via
endovaginal guiada por transdutor ultrassonográfico transvaginal, foi realizada
utilizando-se uma agulha de lúmen simples padrão, com 300 mm de comprimento,
1, 1 mm de diâmetro interno, duplo bizel cortante, ranhurado nos dois centímetros
terminais para uma maior ecogenicidade (Laboratório CCD, França), com pressão
aspirativa artificial constante de 100 mmHg, por meio de bomba de sucção com
controle eletrônico (Craft® Suction Pump, Rocket Medical, Inglaterra). Cada folículo,
cujo FF foi utilizado neste estudo (critérios descritos a seguir), foi aspirado
individualmente em tubos Falcon, previamente aquecidos a 37 ° C, não contendo
meio de cultivo. Os demais folículos foram aspirados em pool, ou seja, foi realizada
a aspiração do maior número possível de folículos em cada punção, observando-se
o esvaziamento completo de cada folículo e puncionando-se o ovário o menor
número de vezes possível. A punção foi realizada sob aspiração contínua, tomando
se o cuidado de tirar a pressão durante a entrada e retirada da agulha na parede
vaginal, para evitar aspiração de células vaginais. Os fluidos aspirados destes
folículos (cujos FF não foram usados no presente estudo) foram coletados em tubos
Pacientes e Métodos 1 55
de ensaio, previamente aquecidos a 37°C, contendo 1 mi de meio de cultivo HTF
HEPES.
Para a identificação e o isolamento dos coe, o material aspirado foi
transferido para placas de Petri com 1 O cm de diâmetro, previamente aquecidas em
platina térmica a 37ºC, não contendo meio de cultivo. Depois de identificados, os
coe foram isolados do FF e colocados em placa separada. Os coe foram lavados
cuidadosamente em meio de cultura HTF-HEPES (HTF, lrvine Scientific), para a
remoção de sangue e debris. A seguir foram colocados em placas NUNC (Multidish
4 wells Nuclon, Delta SI), preenchidas com o meio de cultura HTF e cobertas com
óleo mineral, e levados à incubadora em mistura gasosa de CO2 a 5%, sob
condições ideais de temperatura (37ºC) e umidade (95%) por um período de 3 a 4
horas. Após este período, para realizarmos a remoção do cumulus oophorus e da
carona radiata, os coe foram colocados em micro-gotas de 25µL de hialuronidase
(H4272 tipo IV-S, Sigma), na diluição de 80 Ul/ml de HTF/HEPES (lrvine Scientific),
por no máximo 30 segundos e, então, lavados 2 ou 3 vezes com o meio HTF
modificado (HTF/HEPES, lrvine Scientific) suplementado com Soro Sintético
Substituto (SSS) a 10%. A remoção mecânica dos-restos- celulares foi feita com o
auxílio de uma pipeta de desnudação (stripper pipette 130 µm denuding pipette,
Cook, Melbourne, Australia).
Após a realização do desnudamento oocitário (remoção do cumu/us
oophorus), realizamos a identificação do grau de maturidade dos oócitos, sob
visualização ao estereomicroscópio invertido. Os oócitos imaturos (em estágio de
vesícula germinativa ou metáfase 1) foram descartados e os oócitos maduros
(caracterizados morfologicamente pela presença de um corpúsculo polar extruso)
foram injetados como descrito a seguir.
Pacientes e Métodos 1 56
ICSI, Taxas de Fertilização, Implantação, Gestação Clínica e Nascido Vivo
Os oócitos maduros, caracterizados pela extrusão do CP, foram submetidos à
ICSI 3 a 4 horas após a captação oocitária. Cerca de 16 a 18 horas após a ICSI foi
avaliada a fertilização, caracterizada pela presença de 2 pró-nucleos e 2 corpúsculos
polares (a taxa de fertilização corresponde ao número de oócitos fertilizados,
divididos pelo número de oócitos injetados X 100). Cerca de 43 a 45 horas após a
ICSI (segundo dia de desenvolvimento embrionário - D2) foi avaliada a qualidade
embrionária (quanto ao número e simetria de blastõmeros, percentagem de
fragmentação e presença ou não de multinucleação). Para os casos em que a
transferência embrionária não ocorreu no DII, cerca de 67 a 69 horas após a ICSI
(D3) foi realizada novamente a análise da qualidade embrionária.
Foram considerados como embriões de boa qualidade em D2 os que
apresentaram 4 blastômeros, simétricos, sem fragmentação e sem multinucleação
(The lstanbul consensus workshop on embryo assessment: proceedings of an expert
meeting, 2011). Foram considerados de boa qualidade no D3 os embriões com 8
blastõmeros simétricos, sem fragmentação e sem multinucleação (The lstanbul
consensus workshop on embryo assessment: proceedings of an expert meeting,
2011).
Realizou-se a transferência embrionária em D2 ou D3, de acordo com a
individualização de cada caso. Quatorze dias após a transferência embrionária
realizou-se a análise do 13-hCG sanguíneo, sendo considerada como gravidez
química a presença de 13-hCG positivo (maior ou igual a 25 UI/mi). Avaliou-se a taxa
de implantação, caracterizada pelo número de sacos gestacionais divididos pelo
número de embriões transferidos X100 e a taxa de gravidez clínica por ciclo com
Pacientes e Métodos 1 57
transferência, caracterizada pelo número de pacientes com embrião com batimento
cardíaco visualizado ao USTV realizado 4 a 5 semanas após a transferência
embrionária dividido pelo número de ciclos com transferência embrionária X 100.
Foram avaliados também a quantidade total de FSH usado para estimulação
ovariana, o número de dias de estimulação ovariana, a espessura endometrial no dia
da captação, o número total de oócitos captados e maduros (com extrusão do
primeiro CP), de embriões de boa qualidade e total de embriões produzidos e
nascidos vivos.
Amostras Obtidas e Processamento
Sangue
Para a coleta sanguínea foram utilizados tubos estéreis, a vácuo, com ácido
etilenodiamino tetra-acético (EDTA), para coleta de 5 ml de sangue venoso das
pacientes no dia da captação oocitária.
As amostras foram centrifugadas a 3000 rpm por 1 O minutos e o soro foi
armazenado a - 80ºC, dividido em quatro alíquotas, para posterior análise. As
amostras de soro armazenadas foram posteriormente encaminhadas para o
Laboratório de Nutrição da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, onde foram
dosados os marcadores de estresse oxidativo descritos a seguir. Todas as dosagens
foram realizadas em duplicata, no mesmo momento, pelo mesmo técnico, com
experiência comprovada nas metodologias empregadas. O responsável técnico
pelas dosagens não teve acesso aos dados clínicos das pacientes, não conhecendo
o grupo ao qual pertenciam as mesmas.
Pacientes e Métodos 1 58
Fluido Folicular
Cerca de 34 a 36 horas após a administração do hCG, as pacientes foram
submetidas à captação oocitária, sob sedação endovenosa com propofol e fentanil.
A aspiração folicular foi reàlizada por meio de USTV com transdutor transvaginal de
5 MHz, acoplado a guia de punção.
Foi aspirado todo o conteúdo do primeiro folículo com diâmetro médio ;;;:: 15 mm
do primeiro ovário puncionado, em um tubo previamente aquecido a 37ºC. Apenas os
FF livres de contaminação sanguínea à inspeção visual (LEVAY et ai., 1997) e que
apresentaram células da granulosa (CG) ou células da granulosa e um oócito maduro
captado foram considerados adequados para análise. Cada amostra de FF adequado
foi centrifugada a 300 g por 7 minutos, para remover os componentes celulares, e
estocada a - B0ºC, aliquotada em 2 ou 3 criotubos, para posterior análise.
As amostras dos FF armazenadas foram posteriormente encaminhadas para
o Laboratório de Nutrição da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, onde foram
dosados os marcadores de estresse oxidativo descritos a seguir. Todas as dosagens
foram realizadas em duplicata, no mesmo momento, pelo mesmo técnico, com
experiência comprovada nas metodologias empregadas. O responsável técnico
pelas dosagens não teve acesso aos dados clínicos das pacientes, não conhecendo
o grupo ao qual pertenciam as mesmas.
Metodologias
1. Determinação da concentração total de hidroperóxidos (FOX1}
A concentração total de peróxidos foi determinada pelo método FOX1 (GALLI
et ai., 2005). O sistema de teste FOX1 é baseado na oxidação do Fe+2 (íon ferroso) a
Pacientes e Métodos 1 59
Fe+3 (íon férrico) por vários tipos de peróxidos contidos nas amostras analisadas. Na
presença de xylenol orange forma-se um complexo colorido (xylenol orange-férrico)
de cor azul púrpura, cuja absorbância pode ser medida (COSTA;SANTOS; LIMA,
2006). Neste método utiliza-se uma substância preparada no dia da leitura (o
reagente FOX1). A solução 1 é preparada com 7,6mg de xylenol orange e 88mg de
BHT (butil-hidroxitolueno ) em 90ml de metanol . A solução 2 é preparada com
9,8mg de sulfato ferroso em 10 ml de ácido sulfúrico 250mM (O, 13ml de ácido
sulfúrico em 10ml de água). As duas soluções devem ser misturadas em
concentração 9:1 somente no dia da leitura. Para a análise são necessários 100µL
de soro ou fluido, 1 00µL de água (para o branco) e 1 ml da solução, que reagem
por 30 minutos ao abrigo da luz à temperatura ambiente. Após este período,
centrifuga-se por 5 minutos a 3500 rpm e a absorbância do sobrenadante é medida
em 560nm. A curva foi realizada com H202 em concentrações de 1 O a 200µM. O
resultado foi expresso em µmol/g proteína.
2. Mensuração da concentração de malondialdeído (MDA)
O soro e o fluido folicular, previamente estocados, foram descongelados até
atingir 37°C. Cerca de 1 ml de cada amostra foi misturado com 2 mi de TCA-TBA
HCL (15% de ácido tricloracético, 0,375 % de ácido tiobarbitúrico e 0,25 N de ácido
clorídrico) e aquecido em banho-maria por 15 minutos. Após resfriamento, o
precipitado foi centrifugado em 1.000g por 10 min. A absorbância do produto foi
medida em espectofotômetro (Spectronic 601-Milto Roy) com comprimento de onda
de 535 nm. O cálculo da concentração das substâncias reativas ao ácido
tiobarbitúrico (TBARS) foi realizado considerando-se o coeficiente de absortividade
Pacientes e Métodos 1 60
molar do produto (E535=1,56 x 1 O -5 M - 1 cm -1), sendo os resultados expressos em
nmol de malondialdeído /litro. Uma curva padrão foi realizada, utilizando-se uma
solução estoque de malondialdeído a 1 O mM, preparada a partir do
tetrametoxipropano (SIGMA), sendo que as concentrações encontradas nas
amostras apresentaram-se dentro desta curva, mostrando uma boa linearidade com
o padrão. O resultado foi expresso em nmol MDA/g proteína.
3. Determinação da concentração dos produtos avançados de oxidação
protéica (AOPPs)
Os produtos de oxidação protéica presentes no soro e FF foram determinados
pelo método descrito por WITKO-SARSAT et ai. (1996), conforme sumarizado a seguir.
Uma amostra de 40 µL de soro ou FF foi misturada a 160 µL de PBS (tampão fosfato
salino) e 20 µL de ácido acético glacial (ultra puro). A leitura da absorbância foi
realizada com comprimento de onda de 340 DM. A curva para a realização desta
leitura foi feita com o uso de cloramina T (curva de 10 a 100 mM) e iodeto de
potássio (1,16 M), misturando-se 200 µL dos padrões a 10 µL de iodeto de potássio
e 20 µL de ácido acético e agitando a placa por 6 minutos antes da leitura. O
resultado final foi expresso em µmol/L.
4. Determinação da 8-Hidroxi 2 deoxiguanosina (8-0HdG)
A determinação e a quantificação da 8-hidroxi- 2- deoxiguanosina (8-OHdG)
será realizada pelo método de ELISA (Stressgen® DNA Damage ELISA Kit, Ann
Arbor, MI), seguindo as recomendações do fabricante, sumarizadas a seguir.
Pacientes e Métodos 1 61
Previamente à detecção, as amostras de soro ou fluido devem ser diluídas em um
diluente específico do Kit em concen tração 1 :20 (v/v), devendo ser preparado no
mínimo 150 µL desta solução (amostra diluída) para que a detecção possa ser
realizada em duplicata. Durante a preparação dos reagentes, a amostra diluída
permanece em temperatura ambiente. A curva de calibração é feita com padrão
conhecido de 8-OHdG nas concentrações de 0,94 ng/ml a 1 O ng/ml. Para o
procedimento, em uma placa previamente sensibilizada com anticorpos anti-8-
OHdG, adiciona-se 50µL das amostras e dos padrões em cada poço, realiza-se uma
primeira lavagem da placa e a seguir adiciona-se 50 µL de anticorpo anti-8OHdG
previamente diluído em cada poço, exceto no branco. Após incubação à temperatura
ambiente por 1 hora, realizam-se 6 lavagens da placa com solução tampão.
Adiciona-se 100 µL do conjugado HRP - anti-lgG de camundongo a cada poço,
exceto no branco e incuba-se por mais 1 hora à temperatura ambiente. Após mais
uma lavagem, adiciona-se 100µL do substrato TMB em cada poço, incuba-se por 10
minutos no escuro e adiciona-se 1 00µL da solução de parada. A cor obtida é estável
por 30 minutos e a absorbância é medida em 450 nm. A intensidade da cor amarela
é inversamente proporcional a concentração de 8-OHdG expressa em ng/ml.
5. Determinação da concentração de vitamina E (Vit E)
A determinação da concentração de Vit E ( a.-tocoferol) no soro e no FF foi
realizada segundo o método descrito por ARNAUD et ai. (1991), como detalhado a seguir.
Uma amostra de 0,5 ml de soro ou FF foi homogeneizada em 2,0 ml de etanol. Em
seguida foi colocada em 1,0 ml de n-hexano e agitada por 2 min. Uma alíquota de 0,5
ml do sobrenadante (n-hexano) foi pipetada, cuidadosamente, em tubo de ensaio seco
Pacientes e Métodos 1 62
em nitrogênio, ressuspensa em 0,5 ml de fase móvel, composta por acetonitrila/
diclorometanol/ metanol (70:10:20, v/v/v) e filtrada. Uma quantidade de 100 µL foi
injetada na HPLC (Cromatografia Líquida de Alta Eficiência) e a leitura efetuada como
descrito a seguir. Para a determinação das concentrações da Vit E foi utilizado um
HPLC modelo Shimadzu LC-9\ usando uma coluna tipo C-18 (Simpack CLC-O0S 4,6
x 25 cm), uma pré-coluna de 4 mm x 1 cm, com fluxo de 2 mUmin. A leitura foi realizada
por espectofotometria com um detector UVNis a 292 nm. O equipamento foi calibrado
com soluções padrões de a-tocoferol (SIGMA), nas concentrações de 1 O, 20 e 200
µmol/L. Antes de cada leitura foi injetada uma solução padrão de a-tocoferol na
concentração de 20 µmol/L. O equipamento foi programado para que os resultados
fossem expressos em µmol/L para o soro e FF.
6. Determinação da concentração de glutationa (GSH) - concentração total de
grupos tióis ou sulfidrilas
A GSH do soro e FF foi medida por um método descrito originalmente por
ELLMAN (1959) e modificado por HU (1994), no qual os grupos tióis interagem com o
ácido ditionitrobenzóico (DTNB) formando um ânion altamente colorido com um pico
máximo a 412 DM (e412 = 13,600M-1cm-1)_ Nesse ensaio, uma alíquota de 25 µL de
soro ou fluido é misturada a 1 ml de tris-EDTA buffer (25 nmol/L Tris-base, 20
mmol/L EDTA, pH 8,2) e a leitura da absorbância é realizada em um comprimento de
onda de 412 DM. Após esta leitura, uma alíquota de 25 µL de solução estoque de
DTNB (10 nmol/L em etanol absoluto) é adicionada à solução, que é mantida a
temperatura ambiente durante 15 minutos. Após este período, nova leitura é
realizada utilizando como branco o DTNB (COSTA;SANTOS; LIMA, 2006). A
Pacientes e Métodos 1 63
concentração de grupos sulfidril foi calculada utilizando-se a glutationa reduzida e o
resultado foi expresso em nmol/g proteína.
7. Determinação da Superóxido Dismutase (SOD)
A SOO foi avaliada seguindo o protocolo do Kit Frutosamina da Labtest
Diagnóstica S.A. modificado. Para a dosagem com inibição foram preparados dois
tubos eppendorfs, no primeiro tubo foi colocado 50 µI de fluido, 50 µI de HCL a 2N e
incubado por dois minutos a temperatura de 37°C, em seguida adicionou-se 100 µI
de Na OH 1 M. No segundo tubo foi colocado 500 µI de reagente do kit e incubado
por dois minutos a temperatura de 37 °C, depois foi adicionado 100 µI da solução do
primeiro tubo e incubada por to minutos a temperatura de 37 °. Os dois tubos foram
lidos separadamente em 530nm, sendo lido o primeiro e cinco minutos depois o
segundo tubo. Para a dosagem sem inibição foi feito um tubo eppendorf onde foi
colocado 500 µI de reagente do kit e incubado por dois minutos a temperatura de
37C, logo em seguida foi adicionado 25 µI da amostra, mais 25 µIde HCL a 2N e 50
µ! de NaOH a 1 M, essa mistura foi homogeneizada e incubada a temperatura de
37°C por dez minutos e foi realizada a leitura.
Os cálculos foram: sem inibição=A2-A 1 (S); com inibição=A2-A 1 (C);
%inibição=(CX100)/S; U/mL =(%inibiçãoX500)/(%inibição do padrão).
8. Determinação da Capacidade Antioxidante Total (CAT)
A CAT do soro e fluido folicular foi medida por um método baseado na 2, 2-
azinobis-3-etilbenzotiazolina-6-sulfonato (ABTS) (EREL, 2004; COSTA;SANTOS; LIMA,
Pacientes e Métodos 1 64
2006). Nesse ensaio, ATBS é incubada com potássio persulfato para produzir a
oxidação do ATBS. Em resumo, uma amostra de 10 mg de ATBS será dissolvida em
1 O ml de uma solução aquosa contendo 2,5 mmol/L de persulfato de potássio. Esta
solução será deixada no escuro em temperatura ambiente, de uma a quatro horas,
antes de ser usada. Para o estudo das amostras, a solução de estoque ATBS
oxidada será diluída em água deionizada em absorvância de 0,70 a 734 m. Cerca de
1 O minutos após a adição de 1 ml de ABTS oxidado diluído em 1 O µL de soro ou
fluido folicular, será realizada a leitura da absorvância. A CAT foi calculada utilizando
Trolox® (OXIS lnternational lnc., USA) como padrão e o resultado será expresso em
mEq Trolox® /L.
9. Determinação de Proteínas Totais (MDA, GSH e FOX são expressos por g
proteína)
As determinações de proteínas nas amostras de soro e FF foram realizadas
pelo kit Proteínas Totais Labtest®. O princípio dessa metodologia está na reação
entre- o íon cobre do reagente biureto, que reage em contato com as ligações
peptídicas da proteína, produzindo uma cor púrpura, que deve ser lida a 540rim no
espectrofotômetro.
Análise Estatística
Foi realizada uma análise descritiva a fim de caracterizar a amostra estudada.
Para comparação das variáveis idade, peso, estatura, IMC, FSH basal, total de FSH
usado, número de dias de indução, endométrio e número de oócitos captados entre
Pacientes e Métodos 1 65
os grupos foi aplicado o Teste t. As variáveis número de oócitos maduros, taxa de
fertilização, número de embriões de boa qualidade, total de embriões formados,
número de embriões transferidos e taxa de implantação foram comparadas entre os
grupos através do teste de Mann-Whitney. O teste Exato de Fisher foi utilizado para
comparar as taxas de gestação clínica e de nascidos vivos entre os grupos. Para as
comparações dos marcadores entre os grupos e os compartimentos sérico e
folicular, foi aplicado o modelo de regressão linear com efeitos mistos (efeitos
aleatórios e fixos) e o pós-teste por contrastes ortogonais. Para estas análises foram
utilizados a PROC MEANS e PROC MIXED do programa estatístico SAS® 9.0.
Para as análises de valor de corte, sensibilidade, especificidade, valor
preditivo positivo, valor preditivo negativo e acurácia, foram realizadas Curvas ROC,
através do software R. Para definir os marcadores adequados para predição de
gestação clínica e nascidos vivos, foram selecionados aqueles com área sob a curva
(AUC) maior ou igual a 70% e, para estes, foram determinados os valores de corte
que apresentaram maior sensibilidade e acurácia para predizer gestação clínica e
nascidos vivos.
Foi considerado o nível de significância de 5% (p<0,05).
5. Resultados
Resultados 1 67
5.1. Variáveis clínicas, resposta à estimulação ovariana e resultados de ICSI
em pacientes inférteis com e sem endometriose
Não observamos diferença significativa entre os grupos avaliados com
relação à média de idade, peso, estatura, FSH basal, dose total de FSH usada,
duração da EOC, espessura endometrial no dia da transferência embrionária,
número de oócitos captados e maduros, número de embriões de boa qualidade, total
de embriões formados e número de embriões transferidos (Tabela 1 ). Tambem não
se evidenciou diferença entre as taxas de fertilização, implantação, gestação clínica
e nascidos vivos entre os grupos (Tabela 1 ).
Tabela 1. Variáveis clínicas, resposta à estimulação ovariana e resultados de ICSI em
pacientes inférteis com e sem endometriose submetidas à estimulação ovariana controlada.
Variável
Com
Endometriose
n = 43
DP
Sem
Endometriose
N =45
DP p
Idade 32,91 3,33 33,04 4,49 0,87
Peso 62,01 9,76 63,64 11,26 0,53
Estatura 1,62 0,07 1,62 0,07 0,92
IMC 23,75 3, 18 24, 11 3,51 0,66
FSH basal 5,83 2,71 5,41 1,92 0,41
Total de FSH usado 2070,51 714,85 2092,21 838,73 0,90
Número de dias de indução 8,98 1,75 8,53 1,98 0,28
Endométrio (mm) 10,53 1,67 1 O, 73 2,57 0,67
Número de oócitos captados 7,53 5,28 5,82 3,6 0,08
Número de oócitos maduros 5,52 3,58 4,44 3,08 O, 13
Taxa de Fertilização (%) 7 4,49 24,32 80,9 23,08 O, 15
Número de embriões boa qualidade 1,71 1,03 1,57 1,05 0,75
Número total de embriões formados 2,64 1,23 2,38 1,09 0,39
Número de embriões transferidos 1,88 0,63 1,89 0,75 0,99
Taxa de implantação(%) 68,62 24,21 79,51 23,71 0,20
Taxa de gestação clínica(%)* 18/40 (45%) 13/42 (30,95%) 0,26
Taxa de nascidos vivos* 11 /40 (27,5%) 10/42 (23,8%) 0,81
Nota: Dados apresentados como média ± desvio padrão (DP). Taxa de fertilização: número de oócitos
fertilizados dividido pelo número de oócitos injetados X 100; taxa de implantação: número de sacos
gestacionais dividido pelo número de embriões transferidos X100; taxa de gestação clínica: número de ciclos
com presença de pelo menos 1 embrião com batimento cardíaco visível ao US realizado 4 a 5 semanas após
a transferência embrionária X100; taxa de nascidos vivos: número de ciclos com nascidos vivos dividido pelo
número de ciclos com transferência embrionária X 100. Dados analisados pelo Test t ou teste de Mann
Whitney. *Dados analisados pelo Teste exato de Fisher. Nível de significância de 5% (p<0,05).
Resultados 1 68
5.2. Marcadores de estresse oxidativo no soro e fluido folicular de pacientes
inférteis com e sem endometriose submetidas à estimulação ovariana
controlada para ICSI, no dia da captação oocitária
No soro, o grupo com endometriose apresentou maiores concentrações de
GSH (p=0,03) e SOO (p=0,02) e menores de CAT (p<0,01) comparado ao sem
endometriose. Além disso, foi observada uma tendência a maiores concentrações de
FOX1 no grupo endometriose, comparado ao sem endometriose (p=0,05; Tabela 2).
No fluido folicular, o grupo com endometriose apresentou maiores
concentrações de 8OHdG (p<0,01) e Vit E (p=0,03) comparado ao grupo sem
endometriose (Tabela 2).
As comparações entre as concentrações séricas e foliculares dos oito
marcadores de estresse oxidativo intra-grupos também estão apresentadas na
Tabela 2. No grupo com endometriose, observaram-se maiores concentrações de
FOX1 (p<0,01), AOPP (p=0,03), Vit E (p<0,01) e SOO (p<0,01) e menores
concentrações de 8OHdG, GSH e CAT (p<0,01) no soro do que no FF. Já no grupo
sem endometriose, foram encontradas-maiores-concentrações de FOX1 (p<0,01), Vit
E (p<0,01) e SOO (p=0,02) e menores concentrações de GSH (p<0,01) no soro do
que no FF (Tabela 2).
Resultados 1 69
Tabela 2. Marcadores de estresse oxidativo no soro e fluido folicular de mulheres inférteis
com e sem endometriose submetidas à estimulação ovariana controlada com gonadotrofinas
no dia da captação oocitária.
Marcador
FOX1
MOA
AOPP
Soro 80HdG
FF
GSH
Vit E
soo
CAT
MOA
AOPP
80HdG
GSH
Vit E
soo
CAT
Com
Endometriose
8,30ª
18,55
133,50b
17,00C
220,32d
23,77e
677,9d
0,34g
5,72ª
20,44
97,19b
23,19c
276,9i
13,10·
504,931
Sem
DP DP p Endometriose
12,66 17,97 11,25
0,05
0,75
0,50
0,14
0,03
7�68 12L69 6�24
4,62
43,2
6,93
282,21
0,17
1,11
4,86
47,04
6,8
70,94
5,33
108,39
0,08
18,98
193,92b
21,18c
563,04d
0,46
5,85ª
20,64
104,61
17,22
265,66b
8,71c
435,44d
0,48
6,74
43,25
7,01 0,06
169,82 0,02
0,15 <0,01
0,74 0,71
4,81 0,93
39,43 0,35
5,6
71,66
2,51
181,07
0,11
<0,01
0,47
0,03
0,27
0,55
Poder do teste
0,37
0,06
0,05
0,26
0,81
0,37
0,44
0,88
0,05
0,05
0,05
0,69
0,09
0,68
0,24
0,10
Nota: Grupo com endometriose: soro n=43; fluido folicular (FF) n=29. Grupo sem
endometriose: soro n=44; FF n = 32. FOX 1 : total de hidroperóxidos, expresso em µmol/g
proteína; MOA: malondialdeído, expresso em nmol/g proteína; AOPP: produtos avançados
de oxidação proteica, expressos em µmol/L; 8OHdG: 8-hidroxideoxiguanosina, expresso
em ng/ml; GSH: glutationa reduzida, expressa em nmol/g proteína; Vit E: vitamina E,
expressa em µmol/L; SOO: superóxido dismutase, expressa em U/ml; CAT: capacidade
antioxidante total, expressa em mEq Trolox/L. Dados apresentados como média ± desvio
padrão (DP). p: valores de p para as comparações inter-grupos. Mesmos superescritos na
mesma coluna indicam diferença significativa (p<0,05) entre soro e fluido folicular em cada
grupo. Dados analisados com o modelo de regressão linear com efeitos mistos (efeitos
aleatórios e fixos) e pós-teste por contrastes ortogonais. Nível de significância de 5%
(p<0,05).
Resultados 1 70
5.3. Análise das curvas ROC
Foram realizadas curvas ROC e calculadas a área sob a curva (AUC) para
todos os marcadores analisados no soro e FF nos grupos com e sem endometriose.
Consideramos como marcadores adequados para discriminação de ocorrência de
gestação clínica e nascidos vivos aqueles AUC ;:: 70%. Na tabela 3 estão
apresentados a AUC, valores de corte, sensibilidade, especificidade, valores
preditivo positivo e negativo e acurácia apenas dos marcadores de EO considerados
adequados preditores de ocorrência de gestação clínica e nascidos vivos após ICSI
nos grupos com e sem endometriose.
No grupo com endometriose, nenhum marcador de EO foi identificado como
bom preditor sérico de ocorrência de gestação clínica e de nascidos vivos. No FF
deste grupo, a 8OHdG foi o único marcador que se apresentou como adequado
preditor de ocorrência de gestação clínica (AUC = 87,5%) (Figura 4A; Tabela 3).
Concentrações foliculares de 8OHdG de 28,02 ng/ml apresentaram discriminação
máxima de ocorrência de gestação clínica (sensibilidade de 87,5%, especificidade
de 100% e acurácia de 89%) (Figura 4A; Tabela 3). O único marcador no FF que
apresentou área sob a curva 2:: 70% para discriminar a ocorrência de nascidos vivos
foi a CAT (AUC = 74,26%). Níveis foliculares de CAT de 0,53 mEq Trolox/L
apresentaram discriminação máxima de ocorrência de nascidos vivos, com
sensibilidade de 100%, especificidade de 52,94% e acurácia de 62%. (Figura 4B;
Tabela 3).
No grupo sem endometriose, a 8OHdG foi o único marcador considerado
adequado preditor sérico de ocorrência de gestação clínica (AUC = 74,03%; Figura
4C; Tabela 3) e de nascidos vivos (AUC = 81,82%; Figura 4D; Tabela 3). Para
Resultados 1 71
predizer gestação clínica, valores séricos de 8OHdG de 15,59 ng/ml apresentaram
sensibilidade de 78,57%, especificidade de 54,55% e acurácia de 72% (Figura 4C;
Tabela 3). Já para predizer nascidos vivos, valores séricos de 8OHdG de 18, 11
ng/ml apresentaram sensibilidade de 81,82%, especificidade de 67,86% e acurácia
de 72% (Figura 4D; Tabela 3). Dos marcadores avaliados no FF do grupo sem
endometriose, a GSH foi o único considerado adequado preditor de ocorrência de
gestação clínica (AUC = 72,05; Figura 4E; Tabela 3) e de nascidos vivos (AUC =
72,05; Figura 4F; Tabela 3). Concentrações foliculares de GSH de 277,25 nmol/g
proteína apresentaram discriminação máxima de ocorrência de gestação clínica
(sensibilidade de 73,91%, especificidade de 85,71% e acurácia de 77%) e de
nascidos vivos (sensibilidade de 85,71 %, especificidade de 73,91 % e acurácia de
77%) (Figuras 4E e 4F; Tabela 3).
Resultadas 1 72
Tabela 3. Área sob a curva (AUC), valores de corte, sensibilidade, especificidade, valores preditivo positivo e negativo e acurac1a dos
marcadores de estresse oxidativo dosados no soro do dia da captação oocitária e fluido folicular de pacientes inférteis sem endometriose e
com endometriose submetidas à estimulação ovariana controlada, considerados adequados preditores de ocorrência de gestação clínica e
nascidos vivos após ICSI.
Variável Cut Acurácia Grupo Amostra Marcador AUC Sensibilidade Especificidade VPP VPN analisada off
Gestação
Clínica 8OHdG 87,50 28,02 87,50 100,00 100,00 50,00 0,89
Endometriose FF
Nascidos CAT 74,26 0,53 vivos 100,00 52,94 33,33 100,00 0,62
-
Gestação
Clínica 8OHdG 74,03 15,59 78,57 54,55 81,48 50,00 0,72
Soro
Nascidos 0,72 8OHdG 74,03 18,11 81,82 67,86 50,00 90,48 Vivos
Controle
Gestação
Clínica GSH 72,05 277,25 73,91 85,71 94,44 50,00 0,77
FF
Nascidos GSH 72,05 277,25 Vivos 85,71 73,91 50,00 94,44 0,77
Nota: 8OHdG: 8-hidroxideoxiguanosina, expressa em ng/ml; GSH: glutationa reduzida, expressa em nmol/g proteína; CAT: capacidade
antioxidante total, expressa em mEq Trolox/L; FF: fluido folicular; AUC: área sob a curva; VPP: valor preditivo positivo; VPN: valor preditivo
negativo. Considerou-se como adequado preditor de gestação clínica e nascidos vivos o marcador com AUC;;: 70.
Resultados 1 73
Figura 4. Curvas ROC das medidas das concentrações de marcadores de estresse
oxidativo no soro e fluido folicular (FF) considerados adequados discriminadores (Área sob
a curva - AUC � 70) de ocorrência de gestação clínica (GC) e nascidos vivos (NV) após
ICSI para pacientes com e sem endometriose submetidas à estimulação ovariana. 8OHdG:
8-hidroxideoxiguanosina, expressa em ng/ml; GSH: glutationa reduzida, expressa em
nmol/g proteína; CAT: capacidade antioxidante total, expressa em mEq Trolox/L. A) e B):
grupo com endometriose; C), D), E) e F): grupo sem endometriose.
A) 8OHdG no FF como preditor de GC
100 80
Sensibilidade: 87,5%
Especificidade: 100%
Cut off: 28,02
1
ASC(IC95%)= 87.5 {NaN; NaN)
60 40 20
Especificidade(%)
C) 8OHdG no soro como preditor de GC
o o
100
�---' Sensibilidade: 78,57%
Especificidade: 54,55%
Cut off: 15,59
ASC(IC95%)= 74.03 (58 .73; 89.32)
80 60 40 20
Especificidade(%)
E) GSH no FF como preditor de GC
100
..----� Sensibilidade: 73,91%
Especificidade: 85, 71%
Cut off: 277,25
ASC (IC 95%) = 72.05 ( 48.53 : 95.57)
80 60 40 20
Especificidade(%)
B) CAT no soro como preditor de NV.
o
N
100 80 60
Sensibilidade: 100%
Especificidade: 52,94%
Cut off: 0,53
ASC OC 95%)= 7426 ('7 .35: 100)
40 20
Especlflctdade (%)
D) 8OHdG no soro como preditor de NV.
100 80
Sensibilidade: 81,82%
Especificidade: 67,86%
Cut off: 18,11
ASC OC 95%) = 7'.03 ( 58.73 : 89 32)
60 'º 20
Especificidade(%)
F) GSH no FF como preditor de NV.
o
o
100 80
Sensibilidade: 85, 71%
Especificidade: 73,91%
Cut off: 277,25
ASC (IC 95%) = 72.05 ( 48.53 ; 95.57)
60 'º 20
Especincidade (%)
6. Discussão
Discussão 1 75
Os mecanismos envolvidos na etiopatogênese da infertilidade em pacientes
com endometriose ainda não foram completamente elucidados (HOLOCH; LESSEY,
201 O). Entretanto, alguns autores apontam a possibilidade da endometriose ser uma
doença relacionada ao EO (AGARWAL;SALEH; BEDAIWY, 2003; SZCZEPANSKA
et ai., 2003; GUPTA et ai., 2008). Questionamos, assim, o papel do EO na
etiopatogênese da infertilidade relacionada à endometriose, particularmente
associado à piora da qualidade oocitária, o que poderia estar envolvido no
comprometimento da fertilidade natural e, também, nas controversas menores taxas
de implantação e/ou gestação observadas em portadoras desta afecção submetidas
a FIV (BARNHART;DUNSMOOR-SU; COUTIFARIS, 2002; HARB et ai., 2013).
Todavia, não encontramos estudos avaliando conjuntamente diferentes marcadores
pró e antioxidantes no soro e FF de mulheres com infertilidade relacionada à
endometriose, e avaliando seu papel nos resultados da FIV e ICSI. Diante disso e da
importância em se fundamentar novas abordagens passíveis de melhorar a
fertilidade natural e otimizar os resultados dos procedimentos de reprodução
assistida nestas pacientes, o presente estudo comparou os níveis de oito
marcadores de EO (FOX 1, MOA, AOPP, 8OHdG, GSH, Vit E, SOO e CAT) no soro
do dia da captação oocitária e no FF de mulheres inférteis com e sem endometriose
(infertilidade de causa tubária e/ou masculina) submetidas à EOC para ICSI. Além
disso, foi avaliado o possível papel destes marcadores no soro e no FF nos dois
principais resultados da ICSI (gestação clínica e nascidos vivos) nos dois grupos.
Demonstramos maiores níveis de GSH e SOO e menores níveis da CAT no
soro do grupo com endometriose, sugerindo a ocorrência de EO sistêmico em
pacientes inférteis com a doença, corroborando estudos de LAMBRINOUOAKI et ai.
(2009), BORDIN et ai. (201 O) e ANDRADE et ai. (201 O) que associam a
Discussão 1 76
endometriose ao EO sistêmico, analisando outros marcadores de EO distintos dos
aqui avaliados. O aumento de GSH e SOO sugere haver uma mobilização do
sistema antioxidante sérico na tentativa de neutralizar o prévio aumento de agentes
pro-oxidantes, sugerido _neste estudo pela tendência a maiores níveis de FOX1
circulantes, uma vez que este marcador, quando elevado, é indicador de maior
produção de espécies reativas (MIER-CABRERA et ai., 2008). O único estudo na
literatura que analisou o total de hidroperóxidos no soro de portadoras de
infertilidade relacionada à endometriose foi publicado pelo nosso grupo (ANDRADE
et ai., 2010), analisando este marcador na fase folicular precoce do ciclo natural,
com achados similares aos aqui apresentados analisando amostras séricas obtidas
após EOC, no dia da captação oocitária. Os menores níveis da CAT indicam
consumo de outros antioxidantes presentes, culminando com diminuição da
capacidade antioxidante total no compartimento sérico. A GSH, por ter importante
papel na neutralização do peróxido de hidrogênio e dos peróxidos orgânicos, estes
produzidos abundantemente em processos inflamatórios (EL-SHAHAT; KANDIL,
2012), pode indicar uma resposta antioxidante sistêmica frente às reações
inflamatórias provocadas pelos implantes endometriais ectópicos (GUPTA et ai.,
2008). Entretanto, contrariamente aos presentes achados, JANA et ai. (2013)
encontraram menores níveis de GSH em soro de mulheres com endometriose
comparadas a controles. Da mesma forma, os maiores níveis de SOO no soro de
mulheres com endometriose evidenciados no presente estudo contrariam os
resultados de JANA et ai. (2013) e também os de PRIETO et ai. (2012), que
observaram menores níveis deste marcador no grupo com endometriose. No
entanto, o trabalho de Jana e colaboradores foi realizado com amostras coletadas
na fase folicular precoce do ciclo menstrual (JANA et ai., 2013), diferentemente do
Discussão 1 77
presente estudo, em que as amostras sanguíneas foram coletadas no dia da
captação oocitária, o que dificulta a comparação dos dados e pode justificar as
discrepâncias encontradas, uma vez que a EOC parece promover aumento da SOO
em mulheres submetidas a FIV ou IUJ (YOUNIS et ai., 2012). PRIETO et ai. (2012),
por sua vez, avaliaram apenas pacientes com endometriose moderada e grave,
sendo que o avanço no estadiamento da doença pode estar relacionado à
ocorrência de estresse oxidativo mais pronunciado (JACKSON et ai., 2005), com
maior consumo de antioxidantes. Os menores níveis da CAT encontrados no
presente estudo corroboram os achados de JANA et ai. (2013) e de SZCZEPANSKA
et ai. (2003), os quais evidenciaram menores níveis deste marcador,
respectivamente, no soro e fluido peritoneal de mulheres com a doença, sugerindo,
também, que o compartimento sérico esteja refletindo o status redox do
microambiente peritoneal.
Com relação ao compartimento folicular, o grupo com endometriose
apresentou maiores níveis de 8OHdG e Vit E no FF comparado ao grupo sem
endometriose, sugerindo ocorrência de estresse oxidativo também neste
microambiente reprodutivo de pacientes inférteis com a doença submetidas a EOC.
Esta é a primeira vez em que a 8OHdG é avaliada no FF de mulheres com
endometriose, sendo este um achado de grande importância para o entendimento
da etiopatogênese da infertilidade relacionada à doença. A presença de elevados
níveis da 8OHdG no FF de mulheres inférteis com endometriose sugere a ocorrência
de dano oxidativo ao DNA neste microambiente reprodutivo, que pode promover
comprometimento da qualidade gamética, como sugerido pelos estudos que serão
apresentados a seguir. Segundo SEINO et ai. (2002), níveis elevados da 8OHdG
nas células da granulosa de mulheres inférteis submetidas a FIV têm correlação
Discussão 1 78
negativa com taxa de fertilização e formação de embriões de boa qualidade.
Corroborando estes achados, TAMURA et ai. (2008) demonstraram que elevados
níveis da 8OHdG no FF de mulheres submetidas a FIV foram correlacionados com
maiores taxas de oócitos degenerados, sugerindo que a elevação deste marcador
de EO a nível folicular tenha efeito tóxico sobre a maturação oocitária. Com base na
análise imunohistoquimica da 8OHdG, MATSUZAKI; SCHUBERT (2010) sugerem
que o córtex ovariano saudável adjacente a um endometrioma é afetado mais
severamente pelo EO do que o córtex adjacente a cistos ovarianos benignos de
outra origem, indicando maior dano ao DNA no ovário de mulheres com a doença.
Somado a isso, um estudo recente POLAK et ai. (2013) aponta haver maiores níveis
de 8OHdG no FP de mulheres com endometriose comparadas a pacientes com
cistos serosas e dermóides, sugerindo que o FP dessas pacientes pode ter efeito na
infertilidade relacionada a endometriose. Estudo publicado por nosso grupo
(BARCELOS et ai., 2009) sugeriu comprometimento e/ou retardo na conclusão da
meiose de oócitos maturados in vitro, provenientes de ciclos estimulados de
mulheres inférteis com endometriose. Um outro interessante estudo realizado pelo
nosso grupo demonstrou que o fluido folicular de mulheres inférteis com
endometriose leve submetidas à EOC para ICSI promove anomalias meióticas
oocitárias em modelo bovino (DA BROI et ai., 2014). Analisando conjuntamente
estes achados e os do presente estudo, hipotetizamos que a presença de estresse
oxidativo no compartimento folicular de mulheres inférteis com endometriose,
representada pela maior concentração de 8OHdG, esteja relacionada a ocorrência
de dano oxidativo e anomalias oocitárias oocitárias, participando da etiopatogênese
da infertilidade relacionada à doença nestas mulheres, corroborando os achados em
células da granulosa e fluido peritoneal apresentados na literatura.
Discussão 1 79
Os maiores níveis de Vit E encontrados no FF de mulheres com a doença, por
sua vez, indicam uma mobilização do sistema antioxidante folicular na tentativa de
neutralizar espécies reativas e evitar danos oxidativos oocitários. Entretanto, essa
mobilização não teria sido capaz de prevenir o dano oxidafüm, como evidenciado
pelos maiores níveis da 8OHdG. Este achado contraria tanto um estudo recente de
SINGH et ai. (2013), que encontrou menores níveis de Vit E no FF de mulheres com
a doença, como os estudos de CAMPOS PETEAN et ai. (2008) e PRIETO et ai.
(2012), nos quais não foi evidenciada diferença nos níveis de Vit E entre o FF de
pacientes inférteis com endometriose e controles. Todavia, os critérios de
elegibilidade dos sujeitos dos referidos estudos são heterogêneos, assim como os
protocolos de estimulação ovariana, dificultando a comparação dos resultados.
Associadamente a isto, nestes estudos não foi apresentado o poder de teste das
análises realizadas. Com base nos presentes achados e considerando ljm estudo
de TAMURA et ai. (2008), no qual, a administração de vitamina E (a-tocoferol, 600
mg/dia), do quinto dia do ciclo anterior ao tratamento até o dia da captação oocitária
de pacientes inférteis submetidas a FIV reduziu as concentrações intrafoliculares da
8OHdG com relação ao ciclo prévio, questionamos a importância de terapias
antioxidantes adicionais, especificamente, da administração de Vit E, visando à
prevenção de danos oxidativos ao DNA em pacientes inférteis com endometriose, o
que necessita de estudos pertinentes.
Quando comparados os marcadores entre soro e FF no grupo endometriose,
evidenciou-se que no soro há maiores níveis de FOX 1, AOPP, Vit E e SOO do que
no FF e no FF há maiores níveis de 8OHdG, GSH e CAT do que no soro. Maiores
níveis séricos de FOX 1 e AOPP sugerem, respectivamente, maior produção de
espécies reativas e maior dano oxidativo proteico a nível sistêmico, não prevenidos
Discussão 1 80
pela maior mobilização dos antioxidantes SOO e Vit E. Os maiores níveis de 80HdG
no FF sugerem dano preferencial ao ONA no microambiente folicular de mulheres
com endometriose, o que poderia estar relacionado a dano oxidativo oocitário
nessas pacientes como previamente mencionado; ao passo que, maiores níveis
foliculares de GSH e CAT em relação ao soro indicam haver uma maior mobilização
do sistema antioxidante no microambiente folicular destas mulheres, que
habitualmente apresenta forte defesa antioxidante para proteção do folículo contra o
EO (ANGELUCCI et ai., 2006). Já no grupo sem endometriose, encontrou-se
maiores níveis de FOX1, Vit E e SOO no soro do que no FF e maiores níveis de GSH
no FF comparado ao soro. Estes achados diferem dos apresentados por SABATINI
et ai. (1999) que afirmam haver maior atividade da SOO no FF comparado ao soro
de mulheres submetidas a EOC para FIV. CAMPOS PETEAN et ai. (2008)
compararam Vit E e MOA entre soro e FF de mulheres com e sem a doença, tendo
encontrado maiores níveis de Vit E no soro tanto no grupo com como no sem
endometriose, corroborando nossos achados. No entanto, os níveis de MOA foram
menores no FF do que no soro do grupo controle, sendo que, no presente estudo,
não evidenciamos-- diferença para este marcador em nenhum dos grupos.
Diferentemente do grupo com endometriose, no grupo sem endometriose não se
observou maiores níveis de AOPP no soro do que no FF, e nem maiores
concentrações de 8OHdG no FF comparado ao soro, sugerindo não haver
evidências de dano oxidativo sistêmico a proteínas e ao ONA em nível folicular em
mulheres inférteis sem a doença.
Com a evidência de EO sistêmico e folicular em pacientes com endometriose
submetidas à EOC e, sabendo-se que baixas concentrações de espécies reativas
têm importância na modulação fisiológica de vários fenômenos do trato reprodutivo
Discussão 1 81
feminino, como a maturação oocitária, a atresia folicular, a função do corpo lúteo, a
interação gamética, a fertilização, o desenvolvimento e a implantação embrionária
(AGARWAL, A.;GUPTA, S.; SHARMA, R. K., 2005; FUJll; IUCHI; OKADA, 2005),
avaliamos o papel dos marcadores de estresse oxidativo analisados no soro e no FF
nos dois principais resultados da ICSI, gestação clínica e nascidos vivos, nos grupos
com e sem endometriose. Foram realizadas curvas ROC e considerados como
marcadores adequados para discriminação de ocorrência de gestação clínica e
nascidos vivos aqueles com AUC ;:: 70%, para os quais foram determinados os
valores de corte com máximo poder discriminatório para estes dois endpoints, sendo
calculados suas respectivas sensibilidade, especificidade, valores preditivo positivo
e negativo e acurácia, sendo estes dados inéditos na literatura. Dispomos de um
estudo que avaliou marcadores de estresse oxidativo no FF para predição de
viabilidade embrionária, tendo identificado valor de corte apenas para os níveis de
espécies reativas de oxigênio, acima do qual, a formação de embriões viáveis não é
favorável (JANA et ai., 201 O). Temos um outro estudo recentemente publicado
(SINGH et ai., 2013) que avaliou se os níveis de espécies reativas de oxigênio no FF
de-mulheres inférteis com e sem endometriose são capazes de discriminar entre
oócitos maduros e imaturos, evidenciando que valores de ERO :;; 105,36 cps
apresentaram máximo poder discriminatório para oócitos maduros (73,68% de
sensibilidade e 89,74% de especificidade) no grupo com endometriose. No presente
estudo, no grupo sem endometriose, o marcador 8OHdG foi identificado como o
melhor preditor sérico e a GSH como o melhor preditor folicular tanto de gestação
clínica como de nascidos vivos. No grupo com endometriose, no entanto, nenhum
marcador foi identificado como bom preditor sérico para os endpoínts avaliados,
assim como, não houve bom preditor folicular de nascidos vivos. A 8OHdG, por sua
Discussão 1 82
vez, foi o melhor preditor folicular de ocorrência de gestação clínica no grupo
endometriose, tendo apresentado a melhor área sob a curva de todos os
marcadores avaliados nos diferentes microambientes e grupos, assim como, alta
acurácia, sensibilidade e especificidade. Estudos com maiores casuísticas são
necessários para confirmar a acurácia dos marcadores identificados no presente
estudo para discriminação de gestação clínica e nascidos vivos, no soro e FF de
mulheres inférteis com e sem endometriose, o que seria de grande valia na
determinação do prognóstico gestacional destas pacientes e no delineamento de
estudos de intervenção avaliando o papel de antioxidantes específicos nos
subgrupos indentificados.
É importante ressaltar que, no presente estudo, foram adotados critérios de
elegibilidade bastante seletivos para os sujeitos da pesquisa, evitando-se a
interferência de outros fatores associados ao estresse oxidativo e piora de qualidade
oocitária e resultados da ICSI, minimizando, assim, possíveis vieses de seleção
amostral. Neste sentido, foram elegíveis para o estudo apenas pacientes submetidas
a videolaparoscopia e que não apresentavam outras condições potencialmente
associadas ao EO e-piorade qualidade oocitária; como idade avançada, aumento do
FSH basal, obesidade, doenças associadas ao EO, uso de medicações e
suplementos vitamínicos. No grupo de estudo o único fator relacionado à infertilidade
identificado era a endometriose, o que também torna este grupo bastante
homogêneo. Além disso, adotou-se um protocolo rígido para a coleta das amostras,
tendo-se optado pela obtenção do sangue previamente à aplicação do anestésico e
pela obtenção e análise do fluido folicular aspirado apenas do primeiro folículo do
primeiro ovário puncionado de cada paciente, com 15 mm ou mais de diâmetro (pela
maior possibilidade de conter um oócito maduro), com ausência de contaminação
Discussão 1 83
sanguínea à inspeção visual e um oócito captado, a fim de evitar possíveis vieses
decorrentes do estresse anestésico e da própria punção ovariana, que pudessem
influenciar os níveis de marcadores de EO analisados no FF. Entretanto, como
principais limitações deste estudo, podemos considerar a pequena casuística
avaliada, decorrente dos critérios de seleção extremamente rigorosos, assim como,
a EOC a que todas as pacientes foram submetidas, persistindo a dúvida se os
presentes achados relativos aos marcadores de EO no soro e FF podem ser
extrapolados para os ciclos naturais de mulheres com e sem a doença. Tem sido
muito pouco estudado se a EOC interfere com o balanço oxidante/antioxidante
sérico e folicular. Em um estudo com pequena casuística foi demonstrado que o
produção de ERO pelas células da granulosa não difere em ciclos estimulados e não
estimulados (JANCAR et ai., 2008), mas persiste a lacuna no conhecimento sobre a
investigação de marcadores locais e sistêmicos de EO em ciclos não estimulados.
Resumidamente, os resultados do presente estudo indicam ocorrência de
estresse oxidativo sistêmico, representado sobretudo pela menor CAT, e folicular,
evidenciado principalmente pelas maiores concentrações de 8OHdG, marcador de
dano oxidativo-ao DNA,-em pacientes-inférteis com endometriose submetidas à EOC
para ICSI. Sendo o folículo ovariano uma estrutura altamente vascularizada durante
os estágios finais da foliculogênese, hipotetizamos que tanto o estresse oxidativo
sistêmico, como o EO no microambiente folicular possam favorecer o
comprometimento da qualidade oocitária, participando da etiopatogênese da
infertilidade em mulheres com endometriose. Evidenciamos diferenças nas
comparações entre os níveis séricos e foliculares dos oito marcadores estudados
dentro dos grupos com e sem endometriose, sugerindo haver diferenças no balanço
oxidante/antioxidante sistêmico e folicular relacionadas à doença. Demonstramos
Discussão 1 84
que alguns dos marcadores de EO estudados mostraram-se bons preditores de
gestação clínica e nascidos vivos após ICSI, abrindo perspectivas de utilização dos
mesmos na determinação do prognóstico gestacional após-lCSI e fundamentação
de novas abordagens terapêuticas. Dessa forma, estudos futuros com casuística
ampliada, avaliando a aplicabilidade destes marcadores na predição de sucesso de
ICSI e o delineamento de estudos que visem abordagens terapêuticas mais
específicas são de grande importância para o manejamento adequado destas
pacientes e o melhor entendimento da etiopatogênese da infertilidade relacionada à
endometriose.
7. Conclusões
Conclusões 1 86
Demonstramos que mulheres inférteis com endometriose submetidas à EOC
apresentam estresse oxidativo sistêmico no dia da captação oocitária, representado
pela menor CAT, indicativa do comprometimento da sua capacidade antioxidante
sistêmica global. Nesta mulheres, demonstramos também a presença de EO no
microambiente folicular, evidenciado principalmente pelas maiores concentrações de
80HdG, marcador de dano oxidativo ao DNA. Sendo o folículo ovariano uma
estrutura altamente vascularizada durante os estágios finais da foliculogênese,
hipotetizamos que tanto o EO sistêmico, como do microambiente folicular possam
favorecer o comprometimento da qualidade oocitária, participando da
etiopatogênese da infertilidade em mulheres com endometriose.
Evidenciamos diferenças nas comparações entre os níveis séricos e
foliculares dos oito marcadores estudados dentro dos grupos com e sem
endometriose, sugerindo haver diferenças no balanço oxidante/antioxidante entre os
compartimentos sistêmico e folicular específicas de cada uma destas condições.
Demonstramos que alguns dos marcadores de EO estudados, com destaque
para a 80HdG no soro e a GSH no FF do grupo sem endometriose e a 80HdG no
FF do grupo com endometriose, mostraram-se-bons-preditores-de gestação clínica
e/ou nascidos vivos após ICSI, abrindo perspectivas de utilização dos mesmos na
determinação do prognóstico gestacional após-lCSI. Dessa forma, estudos futuros
com casuística ampliada, avaliando a aplicabilidade destes marcadores na predição
do sucesso da ICSI e o delineamento de estudos de intervenção testando o impacto
da suplementação de antioxidantes a subgrupos selecionados, são de grande
importância para a otimização do sucesso da ICSI e o melhor entendimento da
etiopatogênese da infertilidade relacionada à endometriose
8. Referências
Referências 1 88
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Manuscrito
Manuscrito 1 99
Oxidative stress markers in serum and follicular fluid of infertile women with endometriosis
undergoing ICSI: predictors of clinicai pregnancy and live boro
Running Title: Endometriosis, inf ertility and oxida tive stress.
Michele Gomes Da Broi\MSc, Felipe Oliveira de Albuquerque MD\ Aline Zyman de Andrade\
Rafaela Lopes Cardoso\ Alceu Afonso Jordão Junior\ Paula Andrea Navarro a,c•, MD, PhD.
ª Human Reproduction Division, Department of Obstetrics and Gynecology, Faculty of Medicine of
Ribeirão Preto, University of São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brazil.
b Nutrition and Metabolism Laboratory, Faculty of Medicine of Ribeirão Preto, University of Sao
Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brazil
cNational Institute ofHormones and Woman's Health, CNPq, Brazil
Institution: Faculty of Medicine of Ribeirao Preto, University of Sao Paulo, .Ribeirao Preto, SP,
Brazil.
*Corresponding author:
Michele Gomes Da Broi
Avenida Bandeirantes, 3 900 - Ribeirao Preto, SP, Brazil.
CEP: 14049-900; Tel: +55 16 3602 28 21; Fax: +55 16 3633 1028
E-mail:
[email protected]
FINANCIAL SUPPORT
This study received financial support from the National Council for Scientific and Technological
Development (CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico;
474858/2009-0; 309056/2009-8; 503867/2010-1) and FAPESP (2008/58197-6).
Manuscrito 1 100