FEMINA 2021;49(3):134-41134 |
CAPA
1. Departamento de Ginecologia e Obstetrícia, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto,
Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil.
Descritores
Endometriose; Diagnóstico; Tratamento
Autor correspondente:
Julio Cesar Rosa e Silva
Av. Bandeirantes, 3.900, Vila Monte Alegre, 14049-900, Ribeirão Preto, SP, Brasil.
[email protected]
Como citar:
Rosa e Silva JC, Valerio FP, Herren H, Troncon JK, Garcia R, Poli Neto OB. Endometriose –
Aspectos clínicos do diagnóstico ao tratamento. Femina. 2021;49(3):134-41.
Endometriose
Aspectos clínicos do
diagnóstico ao tratamento
Julio Cesar Rosa e Silva1, Fernando Passador Valerio1,
Helmer Herren1, Julia Kefalás Troncon1, Rodrigo Garcia1,
Omero Benedicto Poli Neto1
CAPA
RESUMO
A suspeita clínica de endometriose geralmente
envolve a história clínica da paciente e exame
físico, abordando sua sintomatologia e histó-
ria pessoal e familiar. Entretanto, a apresenta-
ção clínica da doença varia consideravelmente,
sem características clínicas patognomônicas,
fato que dificulta o seu diagnóstico. Um diag-
nóstico presuntivo de endometriose pode ser
fortemente sugerido pela ultrassonografia
transvaginal e pela ressonância magnética em
casos de endometrioma ou endometriose in-
filtrativa profunda. No entanto, esses exames
de imagem não possuem a sensibilidade e
a especificidade necessárias quando se tra-
ta de endometriose peritoneal superficial. O
biomarcador sérico mais utilizado na investi-
gação da endometriose foi o CA-125, que não
apresenta sensibilidade (70%-75%) suficiente
para sua indicação na prática clínica. Portan-
to, apesar de seu risco e alto custo, a video-
laparoscopia e a análise anatomopatológica
subsequente ainda se apresentam como o
procedimento padrão-ouro para o diagnósti-
co definitivo de endometriose. Assim, com o
objetivo de demonstrar quais exames seriam
necessários para o diagnóstico dessa doença,
realizamos uma revisão sistemática da litera-
tura, cujos dados estão descritos a seguir.
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ENDOMETRIOSE – ASPECTOS CLÍNICOS DO DIAGNÓSTICO AO TRATAMENTO
INTRODUÇÃO
A endometriose é uma afecção clínica e recorrente ca-
racterizada pela presença de tecido endometrial fun-
cional fora da cavidade uterina e do miométrio. Embo-
ra seja considerada uma doença do século XX, é uma
entidade reconhecida desde o século XVII, tendo sido
detalhadamente descrita pela primeira vez por Von Ro-
kitansky, em 1860, porém sua visão moderna surgiu com
Sampson, em 1927.(1)
Acredita-se que 6% a 10% das mulheres em idade re-
produtiva, 50% a 60% de adolescentes e adultas com
dores pélvicas e até 50% de mulheres com infertilidade
sejam afetadas pela doença. (2) Contudo, em seus está-
gios iniciais ou em mulheres inférteis assintomáticas e
oligossintomáticas, pode ser subdiagnosticada.
É considerada uma doença benigna, ocasionalmente
acompanhada por tumores ovarianos malignos, espe-
cialmente endometrioides e adenocarcinomas de célu-
las claras, dependendo do nível de progressão, órgãos
adjacentes afetados e recorrência. (3-6) Tal doença tem
sido considerada atualmente como um problema de
saúde pública, tanto por seu impacto na saúde física e
psicológica como pelo impacto socioeconômico decor-
rente dos custos para o seu diagnóstico, tratamento e
monitoramento.
Nos últimos 30 anos, estudos estão sendo realizados
com o objetivo de desvendar essa enigmática e com-
plexa doença, buscando entender que diferentes meca-
nismos etiopatogênicos e fisiopatológicos estão envol-
vidos, bem como novas terapias.
ETIOPATOGENIA
Durante a metade do século XX, foram propostas vá-
rias teorias envolvendo a histogênese da endometrio-
se, baseadas em evidência clínica e experimental. Há
três principais teorias, revisadas por Ridley,(7) que foram
agrupadas nas categorias:
1. Transplantação;
2. Metaplasia celômica; e
3. Indução metaplásica devida a fatores bioquímicos
e endógenos da cavidade peritoneal.
Entretanto, nenhuma dessas teorias isoladamente
consegue justificar a localização de lesões em todos os
casos descritos na literatura.(7)
A teoria mais aceita é a postulada por Sampson, em
1927,(1) de que haveria aderência de tecido endometrial
pós-menstrual na cavidade peritoneal e demais órgãos,
decorrente de fluxo tubário retrógrado. Praticamente 90%
das mulheres com tubas uterinas pérvias apresentam
fluxo retrógrado, no entanto somente 10% delas apresen-
tariam endometriose. Portanto, outros fatores associados
a tal fluxo seriam capazes de permitir a implantação de
tecido endometrial fora da cavidade uterina. A metapla-
sia de células da linhagem peritoneal explica a endome-
triose em homens, em pré-púberes e em mulheres que
nunca menstruaram e a presença de lesões em sítios atí-
picos, como cavidade pleural e meninges.
A presença de células endometriais viáveis na luz
de vasos sanguíneos e linfáticos sugere que focos en-
dometrióticos distantes podem surgir, em decorrência
da disseminação dessas células por via hematogênica
e linfática, explicando, assim, lesões na pleura, cica-
triz umbilical, espaço retroperitoneal, vagina e colo do
útero.(8,9) Os mecanismos envolvidos associando endo-
metriose e infertilidade ainda não foram plenamente
esclarecidos; as propostas compreendem: alterações no
microambiente folicular ou no oócito, falência na im-
plantação, disfunção ovulatória, defeitos imunológicos,
hiperativação de macrófagos peritoniais,(10) alteração das
citocinas no fluido folicular e na circulação sanguínea,
síndrome do folículo luteinizado não roto, alterações
no desenvolvimento embrionário precoce, aumento da
apoptose celular em células da granulosa, além de alte-
rações endócrinas como fase lútea inadequada e hiper-
prolactinemia.(11) Há tendência à predisposição genética
e constitucional à doença. (12) Além das alterações cita-
das, é plausível que distorções anatômicas pélvicas es-
tejam relacionadas à redução da fertilidade encontrada
em pacientes portadoras de endometriose. Alguns es-
tudos observacionais de fertilização in vitro, com ciclos
naturais, demonstraram que a fase folicular é significati-
vamente mais longa e a taxa de fertilização é menor em
pacientes com endometriose mínima ou leve, quando
comparadas àquelas com fator tubário e infertilidade
sem causa aparente.(13)
Recentemente, uma hipótese para a etiopatogênese
da endometriose vem sendo estudada. Ela sugere que
células-tronco endometriais (denominadas endometrial
Mesenchymal Stem Cells ou eMSC) alteradas atingem a
cavidade peritoneal com a menstruação retrógrada e se
implantam no peritônio; ou que eMSCs normais pode-
riam implantar-se em peritônio com receptividade au-
mentada; ou ainda as duas coisas combinadas.
A origem do endométrio ectópico tem sido objeto de
muita investigação. Estudos propõem elucidar as alte-
rações moleculares, tanto no endométrio tópico quanto
no microambiente peritoneal, que favoreçam a forma-
ção de lesões endometrióticas. Possivelmente, ambos
se encontram alterados, permitindo adesão, invasão,
proliferação e crescimento das lesões.
Assim, a suscetibilidade das mulheres que padecem
de endometriose depende da interação de fatores ge-
néticos, imunológicos, hormonais e ambientais. (8,9) Sen-
do assim, temos uma doença enigmática e de difícil
compreensão, cuja etiopatogenia complexa nos impõe
a necessidade de conhecimento profundo de diferentes
aspectos fisiopatológicos.
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CAPA
QUADRO CLÍNICO E DIAGNÓSTICO
A endometriose pode se mostrar assintomática em 2% a
22% das mulheres,(14) mas, na maioria dos casos, a sinto-
matologia envolve dismenorreia, dispaurenia, dor pélvi-
ca não cíclica, disquesia, disúria, alterações nos hábitos
intestinais e, frequentemente, infertilidade.(15) No entan-
to, a apresentação clínica é muito variável e nenhum
desses sintomas é específico para a endometriose, difi-
cultando o seu diagnóstico.(16)
Inicialmente a endometriose é investigada com base
na história clínica da paciente, questionando-se sobre
sintomatologias e antecedentes pessoais e familiares, e
no exame físico.(17) No entanto, por causa da sintomato-
logia variada, da similaridade de sintomas entre várias
doenças ginecológicas, da inexistência de um achado clí-
nico patognomônico, da alta prevalência de endometrio-
se assintomática e da sua fraca correlação com a gravida-
de da doença, esse tipo de diagnóstico é inconclusivo.(18)
Um histórico completo com a identificação de sinto-
mas altamente sugestivos de endometriose, apesar de
não ser de grande significado diagnóstico, pode ser im-
portante para determinar um grupo de alto risco para
endometriose. Assim, apenas esse grupo será conduzido
para procedimentos diagnósticos detalhados. Além dis-
so, a identificação da população de alto risco aumentará
a especificidade e a sensibilidade dos testes diagnósti-
cos subsequentes da endometriose.(16)
O diagnóstico da endometriose pode ser fortemen-
te sugerido por meio de ultrassonografia transvaginal
e ressonância magnética. No entanto, esses exames
não apresentam sensibilidade e especificidade ade-
quadas.(16) O único biomarcador sérico usado com certa
frequência em pacientes com endometriose é o CA-125,
que mostrou potencial diagnóstico para endometriose
moderada/grave. No entanto, o CA-125 apresentou baixa
sensibilidade, com valores de 24% a 94% na concentra-
ção de corte de 35 U/mL.(19)
Assim, até o momento, o padrão-ouro para o diagnós-
tico de endometriose consiste na laparoscopia e no diag-
nóstico histológico baseado nas lesões, sendo este último
de importância controversa.(20) Dessa forma, a identificação
visual ou histológica do tecido endometriótico na cavida-
de pélvica durante a cirurgia não é apenas o melhor teste
disponível, mas o único teste de diagnóstico para endo-
metriose que é usado rotineiramente na prática clínica.(20)
O diagnóstico cirúrgico tem muitas desvantagens,
quando comparado com um diagnóstico minimamente
invasivo, tais como riscos inerentes ao próprio procedi-
mento (dano ao órgão, hemorragia, infecções e formação
de aderência), complicações anestésicas e alto custo fi-
nanceiro associado ao paciente e ao sistema de saúde.(15)
Além disso, apenas um terço das mulheres que realizam
um procedimento laparoscópico receberá diagnóstico de
endometriose, portanto muitas mulheres livres de doen-
ças são desnecessariamente expostas a esse risco.
Ainda, uma situação que agrava o quadro para o diag-
nóstico de endometriose é o tempo, pois ainda hoje o
tempo médio desde o início dos sintomas até o diag -
nóstico cirúrgico varia de cinco a dez anos. (21) E esse
atraso tem consequências significativas para a progres-
são da doença, uma vez que impede o tratamento pre-
coce, que é importante para a melhora dos níveis de dor,
bem como para o funcionamento físico e psicológico.(15)
ALTERNATIVAS DIAGNÓSTICAS NÃO
INVASIVAS POR IMAGEM
Os exames de imagem mais utilizados para confirmação
diagnóstica em pacientes com suspeita de endometrio-
se são a ultrassonografia transvaginal e a ressonância
magnética da pelve, por sua sensibilidade e especifi-
cidade, que variam de 80% a 94%. Ambos os métodos
têm suas indicações e limitações, não existindo até o
momento superioridade de um método sobre outro.(22,23)
A ultrassonografia tem como principais limitações
a identificação de lesões em região de abdome supe-
rior, ser operador dependente e difícil treinamento de
ultrassonografistas para a investigação de lesões, com
curva de aprendizado para a realização de exame espe-
cializado mais longa. Por outro lado, estudos apontam
que a ressonância magnética é superior à ultrassono-
grafia transvaginal na interpretação de imagens, porém
tem como barreiras o alto custo e a impossibilidade de
realização da avaliação dinâmica de sinais indiretos de
acometimento pélvico, como aderências.(24,25)
Apesar da grande aplicabilidade de métodos radioló-
gicos no auxílio do diagnóstico e da programação cirúr-
gica da paciente com endometriose, o rastreio de lesões
frequentemente é realizado de maneira inadequada,
subnotificando lesões, e, quando feito adequadamente,
por vezes as descrições são realizadas de forma incor -
reta ou incompleta, o que pode comprometer a realiza-
ção correta do seguimento clínico e do planejamento
de procedimentos invasivos. Dessa forma, estudos pro-
põem medidas tanto para exames ultrassonográficos
quanto para ressonância magnética, a fim de padronizar
os passos técnicos para sua realização e descrição das
lesões encontradas e, dessa maneira, permitir um pla -
nejamento cirúrgico mais adequado, com dados mais
fidedignos aos achados intraoperatórios.(26)
ULTRASSONOGRAFIA TRANSVAGINAL
E PROTOCOLO IDEA
Pela fácil acessibilidade, inocuidade e baixo custo, a
ultrassonografia é a primeira escolha em exames não
invasivos para avaliação de pacientes com suspeita clí-
nica de endometriose. Tanto ultrassonografia transvagi-
nal quanto transretal são capazes de identificar lesões
intestinais com precisão na descrição de suas carac -
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ENDOMETRIOSE – ASPECTOS CLÍNICOS DO DIAGNÓSTICO AO TRATAMENTO
terísticas e localização, porém, a aplicabilidade da via
transretal se torna limitada uma vez que é menos to-
lerada pelas pacientes e outros possíveis sítios de le-
sões pélvicas são mais facilmente identificados pela via
transvaginal.(27)
A ultrassonografia transvaginal é capaz de identificar
tanto lesões propriamente ditas, evidenciadas como no-
dulações ou espessamentos em estruturas acometidas,
como sinais indiretos de comprometimento pélvico, por
meio da avaliação da mobilidade dos órgãos pélvicos.
Em 2016, foi proposta, em um consenso de especialistas,
a realização do International Deep Endometriosis Analysis
(IDEA), uma avaliação ultrassonográfica sistemática da pel-
ve feminina com suspeita clínica de endometriose com o
intuito de pormenorizar os passos técnicos para que to-
dos o sítios de maior incidência da doença pudessem ser
rastreados e descrever adequadamente as lesões, quando
encontradas, quanto à sua localização e características,
permitindo maior abrangência na investigação.(26)
Esse estudo preconiza a realização do exame ultras -
sonográfico em quatro etapas, não importando a sua
ordem de realização; são elas:
• Avaliação de útero e anexos: como habitualmente
é realizada, verificando-se a mobilidade uterina
em relação às estruturas adjacentes;
• Avaliação de soft markers: avaliação de regiões
com alteração na consistência da estrutura
avaliada e verificação da mobilidade ovariana;
• Avaliação do comprometimento do fundo
de saco de Douglas: com a utilização do
sinal do deslizamento em tempo real;
• Avaliação de compartimentos anterior e
posterior: a fim de identificar lesões em região
vesical e vias urinárias e alças intestinais.
Quando são encontradas lesões, devem-se identificar
o local em que elas se encontram, a distância da borda
anal e se são intestinais, bem como aferir o tamanho
delas, com medidas em três planos ortogonais, devendo
constar no laudo final.
O emprego de pressão com o transdutor sobre o colo
uterino e fundo de saco vaginal ou a utilização da pal -
pação abdominal com a mão livre em fundo uterino
pode auxiliar na observação do deslizamento dessas
estruturas e possivelmente evidenciar ovários fixos à
parede lateral abdominal, medialmente ao útero ou ao
ligamento uterossacro.
Em regiões anexiais, a presença de massas sugestivas
de endometriomas tem grande importância, pois, além
de elas acarretarem transtornos de infertilidade e dor
pélvica crônica, também podem ser indicativas de pos -
síveis outras lesões de endometriose, como nódulos de
endometriose profunda e aderências.
O achado ultrassonográfico denominado kissing ova-
ries, que consiste na visualização de ambos os ovários
se tocando na região posterior uterina, está relacionado
com 18,5% dos casos de endometriose em alças intesti-
nais, contra 2,5% das pacientes sem esse achado ultras-
sonográfico, e a 92,5% dos casos de acometimento das
trompas uterinas, contra 33% das que não apresentam
tal alteração radiológica.(28)
O endometrioma é identificado no exame ultrasso-
nográfico como uma lesão cística, de conteúdo espesso,
homogêneo, com pouca vascularização ao estudo Do-
ppler e com a aparência denominada padrão em “vidro
fosco”. Na gestação, pode ocorrer a decidualização, com
mudanças de suas características, mostrando-se como
lesão irregular, com papilas vascularizadas e conteúdo
de baixa ecogenicidade, por vezes sendo confundida
com lesão maligna.
A depender do local de acometimento da comorbida-
de, a lesão de endometriose pode ser evidenciada ul -
trassonograficamente como áreas de diferentes formas
de ecogenicidade.
Lesões retrocervicais e em ligamentos uterossacros
se caracterizam como áreas irregulares, com ecogenici-
dade iso ou hipoecogênicas. Habitualmente, os ligamen-
tos uterossacros são de difícil visualização pelo exame
ultrassonográfico, porém, quando acometidos por foco
de endometriose, tornam-se espessados e passíveis de
visualização, que pode ser facilitado se houver líquido
livre em cavidade, mesmo que em pequena quantidade.
Frequentemente, as pacientes com comprometimento
dessa região apresentam dor ao se pressionar o trans -
dutor contra a lesão. O acometimento do nervo hipogás-
trio e do plexo sacral pode ocorrer quando há endome-
triose retro e paracervical.(29)
Lesões acometendo a parede vaginal podem ser de
difícil percepção à primeira vista, pois podem ocorrer
como um espessamento da região hipoecoica da pare-
de vaginal e ser hipo ou isoecoica, e, em alguns casos,
podem surgir acompanhadas de áreas císticas em con-
junto com a nodulação. A infusão de 20-50 mL de gel
em fundo de saco vaginal, previamente à introdução do
transdutor, pode gerar uma interface com melhor evi-
dência dessas lesões. É aconselhável a suspeita, e por -
tanto a avaliação mais pormenorizada da parede vagi-
nal, quando é evidenciada alteração de ecotextura em
região de septo retovaginal, definida anatomicamente
como a região que se estende do introito vaginal até a
porção inferior do colo uterino, e em fórnice vaginal, de-
finido como a área entre a porção inferior do colo uteri-
no e a dobra peritoneal em fundo de saco de Douglas.(30)
A definição da localização precisa da lesão de endo-
metriose, que pode estar acima ou abaixo da reflexão
do peritônio, é de extrema importância na programação
cirúrgica, uma vez que lesões acometendo fórnice va -
ginal e septo retovaginal não são visualizadas durante
laparoscopia sem a correta dissecção desses espaços,
o que torna esse procedimento mais trabalhoso e com
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CAPA
mais riscos de complicações no intraoperatório, deven-
do ser realizado por profissionais experientes. A refle-
xão peritoneal do fundo de saco de Douglas se encontra
aproximadamente à 7 cm da borda anal.
A avaliação do compartimento posterior segue com a
varredura das alças intestinais desde o septo retovagi-
nal, como descrito anteriormente, até o sigmoide. O pre-
paro intestinal por vezes pode auxiliar na investigação
de lesões intestinais, porém estudos recentes mostram
que, quando a investigação é realizada por profissional
experiente, resultados semelhantes são encontrados
tanto com preparo intestinal prévio quanto sem ele, ou
seja, o preparo intestinal deve ser reservado para casos
específicos em que o exame é de difícil execução. Para
melhor padronização da localização da lesão, o IDEA
propôs a divisão das regiões intestinais em reto baixo,
sendo essa a região não visualizada laparoscopicamen-
te, e, portanto, abaixo da reflexão peritoneal do fundo
de saco de Douglas, desse limite até próximo ao tórus
uterino como reto alto, acima do tórus uterino até re-
gião de fundo uterino como transição retossigmoide, e
acima do fundo uterino como sigmoide.(26)
As lesões de endometriose normalmente são eviden-
ciadas no trato digestivo na parede anterior das alças,
notando-se um espessamento hipoecoico da camada
muscular intestinal. Elas podem se manifestar como
lesões únicas, multifocais (mais de uma lesão acome-
tendo o mesmo segmento intestinal) ou multicêntricas
(lesões ocorrendo em mais de uma região intestinal). A
descrição adequada do número de lesões, seus tama -
nhos, distância da borda anal e acometimento ou não
de camadas mais profundas da parede da alça é de ex-
trema importância para a programação de realização de
shaving intestinal, ressecção com grampeador intestinal
discoide ou ressecção com grampeador linear.
O exame em compartimento anterior abrange a ava -
liação de bexiga, espaço vesicuterino e ureteres. O aco-
metimento vesical se dá mais frequentemente na base
e cúpula da bexiga, e em menor proporção nas regiões
de trígono e bexiga extra-abdominal. As lesões de endo-
metriose profunda em compartimento anterior podem se
apresentar como nódulos hipoecoicos, regulares ou não
e acometimento muscular ou da submucosa vesical.(29)
A obliteração ou não do espaço vesicuterino pode ser
evidenciada com a realização do teste do deslizamento,
com evidência de deslizamento entre a parede posterior
vesical e a parede anterior uterina. A presença de sinal de
deslizamento negativo não necessariamente está corre-
lacionada com endometriose, visto que outras situações,
como cesárea prévia, podem se apresentar dessa forma.
A avaliação de ureter distal deve ser realizada e se-
guida desde sua porção intravesical até a altura das
artérias ilíacas comuns. A distância da lesão da junção
vesicoureteral deve ser descrita a fim de programar ci-
rurgicamente a necessidade de reimplante ou reanas -
tomose primária ureteral. A evidência da dilatação em
seu trajeto e a não visualização de peristalse podem
sugerir obstrução por compressão extrínseca ou infiltra-
ção intrínseca pela doença. Em todas as mulheres com
endometriose profunda, a complementação ultrasso-
nográfica com exame via abdominal para identificação
renal deve ser realizada, a fim de avaliar a existência
de hidronefrose causada por estenose ureteral, uma vez
que a evidência de endometriose acometendo ureter
pode ser subestimada quando somente for utilizada a
via transvaginal.
Sítios raros de acometimento por endometriose, como
pleura e diafragma, não devem ser rastreados rotineira-
mente, por sua baixa incidência, sendo reservada a inves-
tigação aprofundada dessas localidades caso a paciente
tenha queixas compatíveis com tal acometimento.
RESSONÂNCIA MAGNÉTICA NA ENDOMETRIOSE
A ressonância magnética é usualmente realizada como
forma adicional em casos complexos de endometriose
e para programação cirúrgica mais precisa em determi-
nados casos em que a ultrassonografia mantiver incer -
tezas.
Em 2017, a European Society of Urogenital Radiology
(ESUR) propôs protocolos para a padronização das in-
terpretações dos exames e da indicação de ressonância
magnética em endometriose.(30)
As recomendações propostas propõem que seja rea-
lizada a manutenção da ultrassonografia transvaginal
como primeira escolha para a investigação da paciente
com suspeita clínica de endometriose e que a ressonân-
cia seja solicitada em casos de queixas típicas com re-
sultados negativos na ultrassonografia ou em casos de
lesões em andar superior de abdome ou de múltiplos
sítios de lesões.(30)
Outro benefício reportado é a curva mais rápida de
aprendizado no diagnóstico por imagem de endome-
triose, em comparação com a ultrassonografia, e a van-
tagem de poder ser realizada por diversos profissionais
em tempos distintos, pois a investigação é feita com
imagem após o exame, e não durante ele.
As lesões ovarianas, a depender de sua etiologia,
podem ser mais bem diferenciadas pelas imagens ob-
tidas por ressonância magnética, bem como as lesões
em plexo sacral podem ser mais bem identificadas do
que quando comparadas com imagens obtidas por ul -
trassonografia.
TRATAMENTO
O tratamento deve ser individualizado, levando-se em
conta sempre os sintomas da paciente e o impacto da
doença e de seu tratamento sobre a sua qualidade de
vida. Uma equipe multidisciplinar especializada deve
ser, sempre que possível, envolvida, na tentativa de for-
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ENDOMETRIOSE – ASPECTOS CLÍNICOS DO DIAGNÓSTICO AO TRATAMENTO
necer um tratamento capaz de abranger todos os aspec-
tos biopsicossociais da paciente.
O uso de terapias medicamentosas para endometrio-
se é baseado no fato de que a endometriose é respon-
siva aos hormônios. Duas condições fisiológicas – gravi-
dez e menopausa – estão frequentemente associadas à
resolução da dor provocada pela endometriose. Os aná-
logos farmacológicos dessas condições são os proges -
tagênios e os contraceptivos orais combinados (COCs),
que levam a condições hormonais semelhantes à ob-
servada durante a gravidez, e os androgênios e agonis -
tas do GnRH (GNRHa), que promovem a supressão do
estrogênio endógeno.
Conforme as evidências documentadas a seguir, po-
demos concluir que o tratamento clínico medicamento-
so para a dor pélvica associada à endometriose é alta -
mente eficaz, com taxas de sucesso que variam de 80%
até 100% de melhora e intervalo livre dos sintomas, que
pode chegar a até dois anos. As drogas hormonais in-
vestigadas – progestagênios isolados, anticoncepcionais
orais combinados, gestrinona, danazol e GnRHa – mos -
tram-se igualmente efetivas no alívio da dor. Contudo,
os efeitos adversos apresentados e os custos são dife-
renciados e devem ser levados em consideração quan-
do da escolha terapêutica.(31)
PROGESTAGÊNIOS E CONTRACEPTIVOS
ORAIS COMBINADOS
Embora a progesterona cause alterações secretoras no
endométrio durante a fase lútea do ciclo menstrual
normal, os progestagênios sintéticos causam atrofia en-
dometrial por diminuição da síntese de receptores de
estrogênio. Kistner, em 1958,(32) foi o primeiro a usar essa
classe de medicamento para tratar a endometriose com
altas doses de progestagênios, levando a um estado de
pseudogravidez.
O acetato de medroxiprogesterona (AMP) é um dos
progestagênios mais utilizados com o objetivo de tratar
a dor pélvica associada a endometriose, porém os da -
dos da literatura são controversos. Luciano et al.(33) mos-
traram melhora da dismenorreia e da dispaurenia em,
respectivamente, 88% e 83% das pacientes usuárias de
50 mg/dia de AMP oral.(33) Os implantes de endometrio-
se apresentavam atrofia e pseudodecidualização após
biópsia realizada durante uma laparoscopia diagnóstica
posterior.(33) Porém, Harrison e Barry-Kinsella, em 2000,(34)
mostraram, em um estudo prospectivo, randomizado e
placebo-controlado, que essa medicação não apresen-
tou melhora significantemente maior que o placebo no
controle da dismenorreia em pacientes com endome-
triose depois de 12 semanas de uso contínuo e oral de 50
mg/dia, além de apresentarem alta incidência de efeitos
colaterais (40%), como acne, dor localizada e vasodilata-
ção, que não foram bem descritos nesse trabalho.
O AMP de depósito é uma formulação contracepti-
va que tem sido adotada por alguns pesquisadores no
tratamento da endometriose. Em um estudo controlado
comparativo entre o AMP de depósito de 150 mg a cada
90 dias e o uso de COC associado ao danazol 50 mg/dia,
os autores mostraram que os dois tratamentos foram
igual e altamente efetivos no controle da dor, princi-
palmente após seis meses de tratamento, atingindo-se
o máximo de satisfação das pacientes após 12 meses.
Porém, promoveram alta incidência de efeitos colate-
rais, apresentados por cerca de 30% das usuárias, e não
houve avaliação da eficácia dessa abordagem após os 12
meses de tratamento.(35)
A gestrinona, um progestagênio com atividade an-
drogênica, também tem sido utilizada no tratamento da
endometriose e, quando comparada ao GnRHa, parece
ter efeito semelhante no controle da dor e na satisfa -
ção das pacientes.(36,37) Porém, essa medicação apresenta
efeitos colaterais, que muitas vezes não são suportados
pelas pacientes, tais como amenorreia, spotting, acne,
hirsutismo, edema e ganho de peso, que pode chegar
a até 3 kg em seis meses de tratamento. A posologia
adequada é de 200 a 300 mg/semana e deve ser sempre
seguida pelo parâmetro clínico da amenorreia.
Outros progestagênios orais podem ser usados e já
foram testados no tratamento da endometriose, tais
como acetato de ciproterona, desogestrel, acetato de
noretindrona, levonorgestrel, didrogesterona, entre ou-
tros, porém mais estudos devem ser realizados para de-
finir a sua utilização em pacientes com dor pélvica e
endometriose.(38,39)
Outras vias de administração de progestagênios têm
sido testadas, tais como o implante subdérmico de eto-
norgestrel e o sistema intrauterino com liberação de
levonorgestrel (SIU-LNG). Existem alguns estudos na li-
teratura que evidenciam a boa eficácia do SIU-LNG no
alívio da dor associada à endometriose. Vercellini et al.,
em 1999,(40) e Fedele et al., em 2001,(41) foram os primeiros
a testar o SIU-LNG em endometriose, mostrando a sua
boa efetividade no controle da dor. Porém, Petta et al.,
em 2005,(42) em um estudo prospectivo, randomizado e
controlado, mostraram uma diminuição importante, já
no primeiro mês de uso, da dor pélvica crônica secundá-
ria à endometriose. Associada à melhora clínica, obser-
vou-se também a diminuição dos valores séricos de CA-
125, marcador tumoral utilizado na prática clínica para o
acompanhamento da endometriose.(42)
Os COCs são a primeira escolha de tratamento clínico
em muitos centros. Vercellini et al., em 1993, (43) realiza-
ram o primeiro estudo controlado utilizando essa tera -
pêutica e a compararam ao uso do GnRHa, demonstran-
do que o uso de COC, mesmo que cíclico, tem eficácia
similar à administração de GnRHa na redução da dor
pélvica associada à endometriose. (43) Por ser um trata -
mento simples, barato, de fácil manejo e com bons re-
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CAPA
sultados embasados pela literatura, os COCs têm sido
amplamente utilizados no controle da dor pélvica asso-
ciada à endometriose. Porém, ainda não está claro qual
seria o mecanismo pelo qual esse regime de tratamento
age sobre os focos de endometriose.
Seria interessante notar que, em pacientes cujo prin-
cipal sintoma é a dismenorreia, o uso contínuo de COC,
isto é, sem pausa, levando à amenorreia, deve ser consi-
derado, promovendo melhores resultados em curto pra-
zo no controle da dismenorreia e na melhora da quali-
dade de vida das pacientes.(44)
AGONISTAS DO GNRH
Seu uso em endometriose foi descrito pela primeira vez
em 1982, em um estudo-piloto em que cinco pacientes
utilizaram essa medicação subcutânea diariamente por
um mês e apresentaram melhora clínica significativa.(45)
Desde então, vários estudos foram realizados, compa -
rando essa classe de drogas com os tratamentos para
endometriose já existentes, mostrando excelente res -
posta terapêutica, com melhora significativa na dor
pélvica associada à endometriose e maior tempo para
recidiva dos sintomas e para o aparecimento de lesões
císticas ovarianas (endometriomas).
O tempo exato de utilização dessa classe de medica-
mento no tratamento clínico da dor associada à endo-
metriose ainda não está definido na literatura. Alguns
autores preconizam o uso por seis meses, outros, por
três meses, porém a tendência parece ser utilizar pelo
menor tempo necessário. Hornstein et al.(46) compararam
o uso de GnRHa por três e seis meses de tratamento em
pacientes com dor pélvica associada à endometriose e
evidenciaram não haver diferença entre os dois perío-
dos de tratamento no que se refere a melhora da dor,
tempo de recidiva dos sintomas ou necessidade de tra-
tamento clínico ou cirúrgico posterior.(46)
Mas, com certeza, o grande inconveniente do uso de
GnRHa no tratamento da dor associada à endometriose
é a ocorrência de efeitos adversos secundários ao hi-
poestrogenismo, sendo os principais as ondas de calor
e o ressecamento vaginal, que podem estar presentes
em até 90% dos casos. Porém, esses não são os úni-
cos efeitos colaterais; entre os menos frequentes, pode-
mos citar cefaleia, tontura, labilidade emocional, acne,
mialgia, edema, redução do volume mamário, ganho de
peso, diminuição da libido e insônia. Outro grande pro-
blema é a perda de massa óssea decorrente do hipoes-
trogenismo induzido por seu uso, que pode variar de
3% a 6% em um período de seis meses de uso e até 12%
em um ano. Para evitar essa perda óssea e minimizar os
efeitos colaterais, pode-se utilizar a terapia add-back,
que é a utilização de baixas doses de progestagênios
isolados ou associados a estrogênios durante o uso de
GnRHa.(47) Todavia, considerações cautelosas devem ser
feitas quando da análise da prescrição de agonistas do
GnRH para mulheres jovens, antes da aquisição do pico
de massa óssea.
CONCLUSÃO
A prevalência da endometriose é bastante elevada, es -
pecialmente em pacientes portadoras de infertilidade
e dor pélvica crônica. O impacto biopsicossocial dessa
intrigante e enigmática doença é elevado, tanto em nível
individual como de saúde pública. O tratamento sempre
deve ser individualizado, levando em consideração não
apenas as evidências existentes em relação à eficácia
dos diferentes regimes terapêuticos, mas também todas
as demais variáveis determinantes do sucesso terapêu-
tico, visando, em última instância, à promoção da me-
lhoria global da qualidade de vida das pacientes.
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