Conclusion
These results suggest that epithelial to mesenchym al transition involved in
the pathogenesis of endometriosis, demonstrating th at the ovary disease behaves
differently disease than peritoneal and deep diseas e, so that the n-cadherin is an
important factor involved in this process, possibly influenced by the action of estrogen.
Descriptors: Endometriosis, epithelial-mesenchymal transition, E -cadherin, N-
cadherin, beta-catenin, Estrogen Receptor and Progesterone Receptor.
SUMÁRIO
Lista de figuras
Lista de tabelas
INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 16
1. Endometriose ................................... .............................................................................. 16
1.1 Etiopatogenia ................................. ................................................................................ 18
2. Transição epitélio-mesênquima .................. ................................................................. 20
2.1 E-caderina, n-caderina e beta-catenina......... .............................................................. 23
2.2 Receptor de estrogênio e receptor de progestero na ................................................... 25
3. Transição epitélio-mesênquima e câncer ......... ........................................................... 28
4. Transição epitélio-mesênquima e endometriose ... ...................................................... 29
OBJETIVOS ........................................................................................................................... 33
PACIENTES E MÉTODOS .................................................................................................. 35
Análise estatística. ............................. ............................................................................ 44
RESULTADOS. ...................................................................................................................... 46
DISCUSSÃO. .......................................................................................................................... 60
CONCLUSÃO. ........................................................................................................................ 69
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. ................................................................................ 72
ANEXOS. ................................................................................................................................ 84
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Fatores indutores da TEM fazem com que a s células epiteliais percam as
junções aderentes, induzindo a perda da polaridade celular, e
consequentemente a constrição apical, a remodelação do citoesqueleto
celular, a desorganização da membrana basal e por f im, possibilitando
que ocorra a migração através da matriz extracelula r e a invasão de
tecidos adjacentes. (Fonte: figura adaptada de Acloque et al, 2009) .............. 22
Figura 2 - Células epiteliais normais possuem junçõ es aderentes que são formadas
por caderinas (e-caderina ou n-caderina), cateninas (beta-cateninas) e
actina, além de complexos de polaridade apical e in tegrinas que
interagem com a membrana basal. (Fonte: figura adap tada de Acloque et
al, 2009) .......................................................................................................... 24
Figura 3 - Representação esquemática da dinâmica do estudo. ...................................... 38
Figura 4 - Classificação da endometriose proposta p ela Sociedade Americana de
Medicina Reprodutiva (ASRM) (revisada em 1996). ..................................... 40
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - Características dos anticorpos relacionados avaliados ............................................ 41
Tabela 2 – Descrição da idade, paridade, IMC, estádio, sintomas e infertilidade das
pacientes de acordo com os três grupos de estudo. .................................................... 46
Tabela 3 - Avaliação das medianas da fase do ciclo menstrual nas pacientes com
endometriose peritoneal, ovariana e intestinal concomitantes (grupo 1). .................. 48
Tabela 4 - Avaliação das medianas da fase do ciclo menstrual nas pacientes com
endometriose ovariana (grupo 2A). ............................................................................ 49
Tabela 5 - Avaliação das medianas da fase do ciclo menstrual nas pacientes com
endometriose intestinal (grupo 2B). ........................................................................... 49
Tabela 6 - Comparação da expressão proteica da n-caderina, e-caderina e beta-
catenina nos diferentes sítios de doença e no epitélio e estroma nas pacientes
do grupo 1 (endometriose peritoneal, ovariana e intestinal concomitantes). ............. 50
Tabela 7 - Comparação da expressão proteica da n-caderina, e-caderina e beta-
catenina nos diferentes sítios de doença e no epitélio e estroma nas pacientes
dos grupos 2A e 2B (endometriose ovariana e intestinal independentes). ................. 52
Tabela 8 - Comparação da expressão proteica dos receptores de estrogênio e
progesterona nos diferentes sítios de doença e no epitélio e estroma nas
pacientes do grupo 1 (endometriose peritoneal, ovariana e intestinal
concomitantes)............................................................................................................ 53
Tabela 9 - Comparação da expressão proteica dos receptores de estrogênio e
progesterona nos diferentes sítios de doença e no epitélio e estroma nas
pacientes dos grupos 2A e 2B (endometriose ovariana e intestinal
independentes). ........................................................................................................... 54
Tabela 10 - Avaliação das medianas da expressão proteica dos marcadores de acordo
com a classificação histológica da endometriose nas pacientes com
endometriose peritoneal, ovariana e intestinal concomitantes (grupo 1). .................. 56
Tabela 11 - Avaliação das medianas da expressão proteica dos marcadores de acordo
com a classificação histológica da endometriose nas pacientes com
endometriose ovariana (grupo 2A). ............................................................................ 57
Tabela 12 - Avaliação das medianas da expressão proteica dos marcadores de acordo
com a classificação histológica da endometriose nas pacientes com
endometriose intestinal (grupo 2B). ........................................................................... 57
INTRODUÇÃO
Introdução 16
1. Endometriose
A endometriose é uma doença caracterizada pelo impl ante de tecido do tipo
endometrial, células epiteliais e/ou estromais, em regiões extrauterinas e é considerada
como uma das principais causas de dor pélvica e inf ertilidade em mulheres em idade
reprodutiva, (Olive; Pritts, 2001; Giudice; Kao, 20 04). Acomete com mais frequência
ovários e ligamentos útero-sacros e também pode afetar porções do tubo digestivo ou do
trato urinário, tendo sido descrita até mesmo em sítios fora da cavidade abdominal como
pulmão e cérebro (D’Hooghe; Debrock, 2002; Donnez; Langendonckt, 2004).
Estima-se que esta doença afete de 10 a 15% da popu lação feminina na menacme,
o que significa cerca de 7 milhões de mulheres nos Estados Unidos, e de mais de 70
milhões no mundo, sendo uma das principais causas d as hospitalizações por causas
ginecológicas (Giudice; Kao, 2004; Vercellini et al , 2007). Entretanto, por ser uma
doença com difícil diagnóstico e tratamento, a endo metriose causa grande morbidade às
mulheres portadoras da doença, pois as mesmas podem percorrer hospitais e
consultórios por até sete anos até que o diagnóstic o e tratamento adequados sejam
estabelecidos (Arruda et al., 2003).
Desde as primeiras descrições da doença realizadas por Von Rokitansky (1860), a
endometriose tem se mostrado uma doença de difícil abordagem diagnóstica e
terapêutica. Apesar de diversos estudos tentarem en contrar métodos não invasivos que
permitam o diagnóstico e o tratamento da doença, es tes ainda dependem de métodos
invasivos, como a vídeo-laparoscopia que possibilit a o diagnóstico definitivo pela
visualização e exérese da lesão e sua subsequente c onfirmação histológica (Podgaec et
al., 2007).
Na tentativa de esclarecer aspectos ainda obscuros como sua etiologia, os fatores
de risco de desenvolvimento da doença e sua relação com a infertilidade, a
endometriose tem sido amplamente estudada nos últim os 20 anos em relação a seus
aspectos clínicos, etiopatogênicos e suas repercuss ões à qualidade de vida da paciente
(Abrão et al., 2003; Abrão et al., 2004; Pupo-Nogueira et al., 2007).
Dismenorreia, dispareunia profunda, dor pélvica crô nica, sangramento anormal e
infertilidade são os principais sintomas associados à endometriose (Kennedy et al.,
2005). Sintomas intestinais como disquezia, hematoq uezia, obstipação intestinal e
distensão abdominal, além de sintomas urinários com o disúria e hematúria também
Introdução 17
podem ocorrer dependendo da localização das lesões (Abrão et al, 2009; Kennedy et al.,
2005; Podgaec et al, 2007).
De acordo com Eskenazi et al (2001), a presença de um entre os principais
sintomas (dismenorreia, dispareunia, infertilidade, dor acíclica, alterações urinarias ou
intestinais cíclicas) apresenta 76% de sensibilidad e e 58% de especificidade no
diagnóstico da doença. Sendo a dismenorreia o sinto ma predominante, manifestando-se
em diferentes intensidades, a infertilidade secunda ria à efeitos inflamatórios, a dor
acíclica decorrente de aderências, inflamação e inf iltração de feixes nervosos, e as
queixas urinárias e gastrointestinais são cíclicas pois apresentam intensidade maior em
determinado período do ciclo menstrual (Eskenazi et al, 2001; Wu et al, 2002;
Siristatidis et al, 2006).
Baseado na observação de diversos aspectos da doenç a, Nisolle e Donnez (1997)
propuseram que a endometriose se apresenta como trê s doenças distintas, com
diferentes patogêneses: doença peritoneal, ovariana e endometriose de septo
retovaginal. A doença peritoneal, ou superficial, c onsiste na presença de focos
superficiais da doença; a doença ovariana inclui im plantes superficiais ou cistos
ovarianos conhecidos como endometriomas ou “cistos chocolate“ e a doença de septo
retovaginal corresponderia a doença profunda, com m ais de 5mm de profundidade,
acometendo o compartimento posterior da pelve. (Nis olle; Donnez,1997; Dias et al.,
2006).
A Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM ) estabeleceu
classificação para a endometriose, dividindo-a em q uatro estádios (I-IV) resultantes da
quantificação de pontos de acordo com a quantidade e tamanho dos focos de doença, e
com a presença de aderências, sendo o estádio IV o mais avançado (Revised American
Society for Reproductive Medicine, 1996).
Quanto às características morfológicas, a endometri ose se mostra uma doença
bastante heterogênea, podendo ser encontrada como i mplantes polipóides, como
estruturas císticas, ou como invasões do tecido con juntivo sub-peritoneal, ou apresentar
lesões fibróticas e inflamatórias (Carvalho; Abrão, 2000). Na interface entre o foco do
tecido heterotópico e o tecido do órgão acometido, podem ser encontradas células
fibroblásticas, musculares, endoteliais e hemosside rófagos como sinais de hemorragia
(Kamergorodsky et al., 2009).
Introdução 18
A classificação histológica possui uma relevante im portância no entendimento da
doença, podendo fornecer informações adicionais com relação ao prognóstico da doença
de acordo com o grau de semelhança das lesões com o endométrio tópico (Abrão et al,
2003). A partir do entendimento de que o tecido end ometrial é dividido em dois
componentes: estroma e epitélio, classificou-se o t ecido epitelial em padrões bem
diferenciado, indiferenciado e misto, de modo que a doença que apresenta os padrões
indiferenciado e misto esteve associada à maior intensidade da dor (Abrão et al., 2003).
Embora considerada uma doença benigna, a endometrio se apresenta
características semelhantes a uma doença maligna, t ais como, um desregulado
crescimento celular, invasibilidade e capacidade de neoangiogênese, podendo se
desenvolver como uma doença local ou apresentar div ersos focos associados, o que
sugere que ocorra uma mobilidade de suas células (A brão et al, 2006; Thomas;
Campbell, 2000a; Thomas; Campbell, 2000b).
1.1 Etiopatogenia
Diversos estudos estão se concentrando na busca dos mecanismos pelos quais
determinadas mulheres desenvolvem a endometriose, o que poderia contribuir para uma
melhor abordagem no diagnóstico e tratamento (Giudi ce; Kao, 2004). Neste contexto,
algumas teorias para explicar o desenvolvimento da endometriose foram propostas,
embora nenhuma delas consiga explicar completamente a etiopatogenia da doença.
Dentre as teorias, duas correntes de hipóteses etio patogenicas se destacam há quase um
século: a teoria da metaplasia celômica (Meyer, 191 9), e a teoria da menstruação
retrógrada (Sampson, 1927).
A teoria da metaplasia celômica, de Meyer (1919), c ontribuiu para tentar elucidar
a etiopatogenia da endometriose, sugerindo que os f ocos de endométrio ectópico se
originam por meio da diferenciação de células epite liais em células características do
tecido endometrial. Esta teoria parte do princípio de que o epitélio celômico dá origem a
diversos epitélios do corpo humano, entre eles o ep itélio germinativo ovariano, o
endométrio e o peritônio. Por terem a mesma origem e por serem constituídos de células
pouco diferenciadas, estes epitélios seriam suscept íveis a sofrer transformações
patológicas induzidas por estímulos inflamatórios e hormonais, dando origem às células
ectópicas do endométrio, e posteriormente às lesões de endometriose (Meyer, 1919).
Introdução 19
A teoria da menstruação retrógrada, sugerida por Sa mpson (1927), consiste na
implantação das células endometriais em sítios extr auterinos por meio do refluxo do
sangue menstrual pelas trompas uterinas para a cavi dade abdominal, o que dependeria
de um ambiente hormonal favorável e de condições im unológicas específicas que
fizessem com que estas células não fossem eliminada s do local impróprio, já que
estima-se que 70 a 90% das mulheres saudáveis apres entam refluxo de sangue
menstrual, e nem todas desenvolvem a doença (Weed; Arquembourg, 1980; Missmer;
Cramer, 2003; Siristatidis et al., 2006). Evidência s como a localização predominante da
doença nos ovários e nos ligamentos útero-sacros, o nde o refluxo de sangue menstrual
ficaria acumulado em maior quantidade, reforçam est a teoria (Sampson, 1927; Giudice;
Kao, 2004).
Contudo, estas teorias não são suficientes para exp licar completamente os casos
em que a endometriose acomete sítios distantes, com o diafragma, pulmão, cérebro e
nervos periféricos, ou nos raros casos identificado s de endometriose em homens
(Donnez; Langendonckt, 2004). Deste modo, outros au tores propõe que o tecido
endometrial pode ser disseminado pela via linfática ou ainda pela via hematogênica,
Abrão et al (2006) conseguiram identificar células endometriais nos linfonodos em um
terço de pacientes com endometriose intestinal.
Mais recentemente estudos vêm contribuindo para des vendar os mecanismos
etiopatogênicos da endometriose, na tentativa de es clarecer os fatores que levam as
células endometriais a sobreviver em um ambiente es tranho, implantar e invadir o
epitélio, criar uma neurovascularização local e con tinuar crescendo continuamente
(Burney; Giudice, 2012). Entre as linhas de pesquis a, destacam-se as que envolvem
fatores genéticos hereditários ou adquiridos que pr edispõe ao desenvolvimento da
doença, o sistema imunológico que permite a sobrevivência das células endometriais em
um ambiente ectópico e alterações moleculares que e xpliquem a adesão, infiltração e
neurovascularização dos tecidos lesionados (Burney; Giudice, 2012).
Em condições normais as células endometriais são el iminadas do ambiente
ectópico pelo sistema imunológico e a desregulação deste mecanismo parece ser uma
das causas do desenvolvimento da endometriose que p ermitiria não só a implantação
destas células como o seu continuo crescimento. Alt erações genéticas podem estar
presentes tanto nas células do endométrio eutópico como no epitélio peritoneal, como
no mecanismo imunológico em questão, podendo ser ad quiridas, como no caso do
Introdução 20
endométrio, que por ser um tecido que apresenta gra nde capacidade de renovação
celular, se torna vulnerável a erros genéticos; e h ereditária demonstrada pelo risco de
desenvolvimento da doença que parece ser seis vezes maior em mulheres com parentes
afetadas do que em familiares de mulheres não afeta das pela doença (Burney; Giudice,
2012; Simpson et al, 1980). Diversas moléculas têm sido estudadas para evidenciar a
criação de um microambiente que estimula a implanta ção das células ectópicas e as
protege da eliminação pelo sistema imunológico, com o por exemplo, as
metaloproteinases de matriz (MMPs), os fatores de c rescimento (TGF-beta, VEGF, IGF
e EGF), e as interleucinas (Burney; Giudice, 2012).
Em todas as teorias descritas acima, a origem e a e volução da endometriose
dependeriam da existência de células com caracterís ticas de células menos
diferenciadas, que teriam habilidades de migração, adesão, invasibilidade e proliferação,
e o mecanismos pelo qual as células endometriais ad quirem estas características no
desenvolvimento da endometriose permanecem obscuros.
2. Transição Epitélio-Mesênquima (TEM)
Estudos recentes têm relacionado propriedades de ma ior capacidade migratória,
capacidade de invasão e elevada resistência a apopt ose que alguns tipos celulares
adquirem com um processo biológico denominado trans ição epitélio-mesênquima
(TEM) (Kalluri; Neilson, 2003). A TEM consiste de uma serie de mudanças no fenótipo
de células epiteliais que fazem com que estas célul as assumam características de células
mesenquimais (Kalluri; Weinberg, 2009; Thiery et al., 2009).
As células epiteliais e as células mesenquimais são os principais tipos celulares
que compõe os organismos multicelulares, diferindo entre si tanto morfológica como
funcionalmente. As células epiteliais formam camada s de células justapostas, ligadas
entre si por complexos de adesão celular, tight junctions , adherens junctions , gap
junctions e desmossomos, e apresentam uma polaridade apicoba sal ligadas à matriz, o
que separa o tecido epitelial dos demais tecidos, e as células mesenquimais podem ser
encontradas como células individuais movendo-se por toda a matriz, pois não possuem
ligações entre si e não apresentam polaridade celul ar (Acloque et al, 2009; Thiery et al,
2009).
Introdução 21
Em etapas específicas da embriogênese e do desenvol vimento de órgãos, as
células de certos epitélios possuem uma capacidade diferenciada de transformação, de
modo que parecem alternar entre as características de células epiteliais e células
mesenquimais, ou seja, indo e voltando no processo de transição epitélio-mesênquima
(TEM). Esse mecanismo demonstra que esta série de m udanças pode ser reversível,
caracterizando também o processo contrário, denomin ado transição mesênquima-
epitélio (TME) (Lee et al., 2006; Gomes et al., 2011).
Conhecidas por sua plasticidade fenotípica devido a o seu aparente envolvimento
com a regeneração de tecidos, as células epiteliais são células justapostas, polarizadas,
unidas entre si através complexos de moléculas de a desão, que interagem com a
membrana basal dos tecidos através de sua aderência à superfície, formando camadas de
revestimento de diversas estruturas do corpo (Zeisberg; Neilson, 2009).
Esta plasticidade se deve justamente à possibilidad e da TEM, processo pelo qual
as células epiteliais passariam por diversas mudanç as, como a perda da capacidade de
adesão celular e da sua polaridade, como o rompimento da membrana basal e constrição
apical, que as tornariam fenotipicamente semelhante s às células mesenquimais, com
capacidade de locomover-se e de invadir outros teci dos, sofrendo o fenômeno de
desdiferenciação, ou seja, um processo em que uma c élula diferenciada, com função
especifica, se transforma em uma célula não especia lizada, com caraterísticas mais
primitivas (Acloque et al., 2009; Thiery et al., 20 09). Ainda que este comportamento
migratório não seja exclusivo das células mesenquim ais, em geral estas células
apresentam uma motilidade e plasticidade superior à s células epiteliais, tornando as
características de migração e invasibilidade estrei tamente relacionadas a TEM (Gomes
et al, 2011; Thompson et al, 2005).
A TEM foi identificada em diferentes situações biol ógicas com diferentes
funcionalidades, o que levou autores a dividi-la em três subtipos de acordo com o
processo em que estão envolvidas (Kalluri; Weinberg , 2009; Zeisberg; Neilson, 2009):
a- implantação e a formação do embrião (Kalluri; Ne ilson, 2003; Kalluri; Weinberg,
2009); b- cicatrização e reparação de tecidos lesad os (Iwano et al., 2002); c-
comportamento invasivo e metastático de neoplasias (Kiemer et al., 2001).
A metástase é um processo que consiste na difusão d e células do tumor e invasão
de órgãos distantes (Geiger; Peeper, 2009). Este pr ocesso depende de um conjunto de
células especializadas capazes de completar todas a s etapas da cascata metastática, que
Introdução 22
inclui a migração do local primário do tumor, a inv asão da membrana basal e estroma
local, interação e adesão do endotélio e proliferaç ão em um tecido distante, (Thompson
et al, 2005). Além do grande numero de etapas que e stas células têm que cumprir, para
cada uma destas etapas da cascata metastática exist em barreiras fisiológicas e
imunológicas a serem superadas, o que mostra a comp lexidade deste processo (Bacac;
Stamenkovic, 2008; Geiger; Peeper, 2009). Portanto, em diversos estágios do processo
de metástase as células têm que passar por alteraçõ es na polaridade celular, alterações
na motilidade e alterações nas interações célula-cé lula e célula-matriz, o que relaciona
este processo com a TEM, já que estas células aumen tam sua capacidade de motilidade
e invasibilidade (Gomes et al, 2011).
Diversos estudos vêm demonstrando que uma série de processos moleculares e
bioquímicos são necessários para que se inicie e se desenvolva a TEM (figura 1), os
quais podem ser ativados por uma associação entre a reparação tecidual e stress,
observados em alguns tipos de inflamação (Gomes et al., 2011). Entre estes processos
moleculares estão: a ativação de fatores de transcr ição, a alteração da expressão de
proteínas específicas de superfície celular, a dimi nuição e aumento de certas proteínas
do citoesqueleto, a produção de enzimas de degradaç ão da membrana extra-celular e
alterações na expressão de microRNAs específicos (Kalluri; Weinberg, 2009).
Figura 1 - Fatores indutores da TEM fazem com que as células e piteliais percam
as junções aderentes, induzindo a perda da polarida de celular, e
consequentemente a constrição apical, a remodelação do citoesqueleto
celular, a desorganização da membrana basal e por f im, possibilitando
que ocorra a migração através da matriz extracelula r e a invasão de
tecidos adjacentes. (Fonte: figura adaptada de Acloque et al, 2009)
Introdução 23
As moléculas de adesão celular são glicoproteínas e xpressas na superfície celular,
responsáveis pela conexão entre duas células ou ent re células e a matriz celular. Pelo
menos quatro classes de moléculas de adesão são con hecidas: integrinas, selectinas,
imunoglobulinas e as caderinas, sendo estas últimas as moléculas que têm adquirido
crescente relevância na TEM, pois relaciona-se a pe rda de adesão célula-célula com o
aumento da invasão e metástase. De acordo com algun s autores, a perda da função da e-
caderina, uma molécula de adesão celular, é um fato r crucial para o processo da TEM
(Jeanes et al., 2008; Moreno-Bueno et al., 2008). A lém da e-caderina, outras moléculas
de adesão da mesma família, a n-caderina e a beta-c atenina, têm se mostrado com
expressão alterada em neoplasias epiteliais infiltr ativas, mostrando as suas importâncias
na alteração da capacidade metastática de alguns ti pos de células malignizadas (Qi et al,
2005).
As respostas celulares envolvidas no processo da TE M podem ser mediadas por
diversos fatores, entre eles, estão os fatores de c rescimento, quimiocinas e citocinas
(Gomes et al, 2011). Sendo a endometriose uma doenç a complexa dependente de
hormônios esteroides, a alteração nos receptores de estrogênio e progesterona pode ser
uma importante influência na mediação da atividade desses hormônios no
desenvolvimento da TEM no endométrio tópico e ectóp ico nas mulheres com
endometriose (Wang et al, 2013).
2.1 E-caderina, N-caderina e Beta-catenina
As caderinas são moléculas localizadas na superfíci e celular, que possuem a
função de adesão celular, e são essenciais para man ter a polaridade celular e para o
desenvolvimento e arquitetura dos tecidos (Patten e t al, 2010). A e-caderina e a n-
caderina se ligam a outra molélula chamada beta-cat enina, que consiste em um
componente essencial das aderências epiteliais, poi s liga as caderinas às actinas do
citoesqueleto das células epiteliais, constituindo, portanto, uma subunidade do
complexo de proteínas denominado ‘junções aderentes ’ (figura 2), atuando como um
transdutor de sinal intracelular (Acloque et al, 2009).
Introdução 24
Figura 2 - Células epiteliais normais possuem junções adere ntes que são
formadas por caderinas (e-caderina ou n-caderina), cateninas (beta-
cateninas) e actina, além de complexos de polaridad e apical e integrinas
que interagem com a membrana basal. (Fonte: figura adaptada de
Acloque et al, 2009)
As ‘junções aderentes’, são essenciais para a criaç ão e manutenção das camadas
de células epiteliais através do controle do cresci mento celular e da aderência célula-
célula e a aderência célula-matriz de diversos teci dos maduros (Goodwin; Yap, 2004).
Conforme dito anteriormente, a TEM consiste em muda nças pelas quais células
epiteliais adquirem habilidades de células mesenqui mais, como de invasão e migração,
que incluem perda das interações célula-célula e da polaridade apico-basal, o que torna
as proteínas e-caderina, a n-caderina e a beta-cate nina particularmente relevantes
quando se trata da TEM (Yoshida et al, 2012).
Especificamente, a diminuição da expressão da e-cad erina parece ser fundamental
para a passagem pela TEM, e especula-se ainda que p ossa ser o seu ponto de partida
(Jeanes et al., 2008; Moreno-Bueno et al., 2008). E studos têm mostrado que a e-
caderina esta reduzida em diversas malignidades hum anas, o que sugere que esta
ocorrência resulte em uma disfunção da junção célul a-célula e desencadeie a invasão de
tumores malignos (Peinado et al, 2007;. Kalluri; We inberg, 2009; Yoshihara et al,
2009).
Alguns sinais já foram identificados como indutores ou participantes da TEM,
muitos relacionados com a regulação de fatores de t ranscrição de genes epiteliais, como
Introdução 25
os da codificação de e-caderina (Moreno-Bueno et al., 2008), alguns relacionados com a
supressão da atividade do promotor de e-caderina, c omo Snail, Slug, Zeb, E47 e KLF8
(Bolos et al., 2003; Wang et al., 2007), e outros r elacionados com a supressão indireta
da transcrição da e-caderina, como Twist, Goosecoid , E2.2 e FOXC2 (Yang et al, 2004;
Sobrado et al, 2009).
Com relação à beta-catenina, em resposta a sinais exógenos, esta proteína pode ser
translocada da membrana celular para o citoplasma, onde pode ser degradada ou ainda
transportada para o núcleo, podendo influenciar na expressão gênica, associada a
diversas vias de sinalização, entre elas a indução da ocorrência da TEM, sendo,
portanto, também uma molécula associada à regulação do fenótipo epitelial (Acloque et
al, 2009).
Quanto à expressão destas moléculas no endométrio t ópico, constatou-se que a e-
caderina mostra-se intensa durante todo o ciclo e q ue a n-caderina parece variar entre as
fases secretora e proliferativa (Poncelet et al, 2002; Paten et al., 2010).
Na endometriose os dados com relação à alteração, o u não, da e-caderina, da n-
caderina e da beta-catenina ainda são inconsistente s, de modo que enquanto alguns
autores encontraram alterações na expressão destas proteínas, outros não identificaram
diferenças significativas (Patten et al, 2010; Mats uzaki; Darcha, 2012; Poncelet et al,
2002; Goodwin; Yap, 2004).
2.2 Receptor de Estrogênio e Receptor de Progesterona
Assim como os demais receptores, os receptores de e strogênio e de progesterona
são proteínas presentes na membrana, no citoplasma ou no núcleo, que permitem a
interação de determinadas moléculas, neste caso os hormônios, com os mecanismos
celulares, desencadeando uma serie de eventos, entr e eles, a multiplicação e o
crescimento celular.
O estrogênio e a progesterona são hormônios crucia is para o controle das
funções do endométrio ao longo do ciclo menstrual, regulando a expressão de milhares
de genes através da ligação com seus receptores, RE e RP, respectivamente (Kao et al,
2002).
Com relação à endometriose, através dos indícios d e que os sintomas da doença
aparecem após a menarca e desaparecem após a menopa usa; e de que a interrupção da
Introdução 26
ovulação por gravidez, por medicamentos inibidores de estrogênio, contraceptivos orais
ou progesterona reduz os sintomas da doença e até m esmo causam uma redução nas
lesões; somado aos resultados de pesquisas clinicas , pode-se presumir o importante
papel destes hormônios na patologia da doença (Oliv e et al, 2001; Missmer; Cramer,
2003; Kim et al 2013). Pode ser observado ainda, qu e quantidades significativas de
estrogênio e progesterona são encontradas na região das lesões, aparentemente
produzidas localmente por uma cascata anormal que i nclui aromatase (Bulun et al,
2005).
É um consenso entre pesquisadores e médicos de que a endometriose é uma
doença complexa dependente de hormônios, na qual, d e acordo com vários estudos, o
estrogênio desempenha um papel chave. O fato do cre scimento dos implantes
endometriais ser dependente de estrogênio é reforça do pelo aumento dos níveis de
estrogênio locais mediados pela aromatase (Noble et al, 1996). Além dos níveis
elevados de estrogênio locais, foi observado que a maior expressão do receptor de
estrogênio no tecido endometrial esta correlacionado com a progressão da endometriose
(Fujimoto et al, 1999; Han et al, 2012).
Foi demonstrado em modelos de endometriose em seres humanos e primatas que
o estrogênio estimula o crescimento dos implantes, enquanto os inibidores de
aromatase, que bloqueiam a formação do estrogênio, e as antiprogestinas tem ação
terapêutica, o que tornou a terapia com inibidores de aromatase e inibidores da produção
de estrogênio, importantes alternativas para o trat amento da endometriose,
demonstrando uma regressão dos implantes e uma redu ção dos sintomas (Attar; Bulun,
2006; Murphy; Castellano, 1994; Ryan; Taylor, 1997; Wang et al, 2013).
O receptor de estrogênio desempenha um papel import ante na sobrevivência e
manutenção destes tecidos mediando a ação estrogêni ca tanto no endométrio tópico
como no ectópico. O receptor de estrogênio (RE) se apresenta em duas formas o RE-
alfa e o RE-beta, aparentemente com estruturas e fu nções diferentes, mas é o ER-alfa
que possui associação com o aumento da sobrevida gl obal e resposta favorável aos
tratamentos clínicos no câncer (Golding et al, 1995; Shaw et al, 2002).
A progesterona é um hormônio esteroide essencial p ara as funções reprodutivas
femininas, como a gravidez e lactação, ovulação, im plantação, decidualização, parto e
desenvolvimento mamário (Gellersen et al, 2009; Xie , 2012). Entretanto, os
mecanismos complexos de ação deste hormônio tem sid o difíceis de decifrar, por
Introdução 27
diversos motivos, entre eles, pela diversidade de e feitos sobre os diferentes tecidos
inclusive efeitos distintos sobre diferentes tipos de células num mesmo tecido, como é o
caso das células estromais e epiteliais do endométr io (Kim et al 2013). Do mesmo
modo, estudos demonstram que as respostas à progest erona são contraditórias em
tecidos normais e doentes, como é o caso do câncer de mama, em que a progesterona
parece promover seu crescimento, enquanto no câncer de endométrio estrogênio-
dependente, sua ação parece ser protetora (Donnez e t al, 2012; Poole et al, 2006; Heiss
et al, 2008; Ishikawa et al, 2010).
Sobre a influência da progesterona na origem e des envolvimento da
endometriose, os dados são igualmente contraditório s. Primeiramente, a exposição à
progesterona induz a diferenciação de células epite liais e estromais, e a proliferação de
células estromais durante a fase secretora. (Kim et al 2013) Por outro lado,
relacionando-se a endometriose com o câncer de endo métrio estrogênio-dependente,
poderia ser dito que a progesterona possui um efeit o protetor na doença, o que pode ser
questionado pelas diversas diferenças entre estas p atologias, mas pode ser reforçado
pelos estudos que encontraram uma resposta escassa e uma expressão
significativamente menor de marcadores relacionados a este hormônio na endometriose
(Bulun et al, 2006; Yin et al 2007; Yin et al, 2012 ). Por ultimo pode ser observado que
somente cerca de metade das pacientes com endometri ose que receberam algum tipo de
tratamento relacionado à progesterona, parece ter a presentado benefícios (Vercellini,
1997; Vercellini, 2011).
As ações da progesterona são mediadas através de su a interação com seu
receptor (RP), que pode ser encontrado expresso em duas isoformas chamadas RP-A e
RP-B, as duas transcritas a partir do mesmo gene, m as com promotores distintos,
conferindo-as tamanhos diferentes e, portanto, ativ idades de transcrição diferentes.
Entretanto, pelo fato de possuírem grande similarid ade, os estudos costumam
compreender as duas formas deste receptor, sem dist ingui-las (Lessey et al, 1983;
Kaster, 1990, Kim et al, 2013).
Por fim, apesar de os receptores hormonais de estr ogênio e progesterona serem
comumente expressos tanto nos tecidos endometriais tópicos quanto nos endometriais
ectópicos, o conhecimento acerca da influência dess es receptores na progressão da
doença ainda não está completamente claro e pode tr azer importantes contribuições no
tratamento da doença.
Introdução 28
Noel et al. (2010) investigaram a presença de recep tores de estrogênio e
progesterona, não no componente endometrial das les ões, mas no tecido fibromuscular,
encontrado na interface entre o tecido acometido pe la doença e o foco de tecido
endometrial, e encontraram a presença desses recept ores no músculo liso em lesões de
ligamento útero-sacro, bexiga, colón e septo retovaginal.
Em um estudo com células epiteliais receptor-de-est rogênio-positivas realizado
por Chen et al (2010), o estrogênio induziu alteraç ões morfológicas destas células para
um fenótipo semelhante a fibroblastos, passando a e xpressar marcadores de células
mesenquimais e apresentando características de migração e invasibilidade.
3. Transição Epitélio-Mesênquima (TEM) e Câncer
O envolvimento da TEM na progressão e metástase de doenças neoplásicas tem
sido amplamente estudado (Gomes et al, 2011). Autor es encontram cada vez mais
evidências de que a TEM desempenha um papel fundame ntal na progressão de tumores
e metástase, processo que consiste na difusão de cé lulas do tumor e invasão de órgãos
distantes (Bacac, 2008).
Alterações na polaridade da célula epitelial e na capacidade de motilidade e
invasibilidade celular, características estreitamen te relacionadas com o processo da
TEM, são essenciais em várias etapas do processo de metástase, além de que parecem
existir diversas moléculas em comum envolvidas em v ias de transdução de ambos os
processos, como fatores de crescimento, citocinas, metaloproteinases de matriz,
receptores tirosina quinase e microRNAs (Yang, 2008 ; Gomes et al, 2011). Entre os
diversos estudos relacionando a TEM com câncer, Alv es et al (2013) investigaram a
expressão de um gene chamado Hotair, que tem sido a ssociado com o processo de
metástase e com o mau prognóstico em diferentes tip os de tumores, no contexto da
TEM e das chamadas células-tronco cancerosas, e sug eriram que a alteração na
expressão deste gene esteja envolvido no controle d os múltiplos mecanismos
relacionados com o processo da TEM na gênese de tumores.
Em conjunto, estes dados sugerem que os fatores env olvidos no processo da TEM
possuem um papel essencial na progressão e metástas e de tumores, o que pode vir a ser
uma importante alternativa de tratamento da doença (Gomes et al, 2011).
Introdução 29
4. Transição Epitélio-Mesênquima (TEM) e Endometriose
Até o momento, poucos estudos relacionaram o proces so da TEM com a
endometriose. Entre eles, Patten et al (2010) analisaram a expressão da e-caderina, da n-
caderina e da beta-catenina por imunoistoquímica, e m 14 casos de endometriose
peritoneal, 21 casos de endometriose gastrointesti nal, 3 casos de carcinoma
endometrióide de cólon e compararam com 10 casos de endométrio proliferativo, 16 de
endométrio secretor e 13 de adenomiose.
Este estudo encontrou uma diminuição significativa da expressão da n-caderina
nos focos de endometriose peritoneal e profunda qua ndo comparados ao endométrio
proliferativo normal, e uma expressão difusa e vari ável da e-caderina tanto em
endométrio tópico quanto ectópico. Ainda de acordo com os mesmos autores, existe
uma diminuição na expressão da n-caderina no endomé trio secretor quando comparado
ao endométrio proliferativo, e os carcinomas endome trióides apresentaram a perda total
da expressão de n-caderina (Paten et al., 2010).
Já que as caderinas são proteínas cruciais para man ter a aderência celular e a
alteração da expressão das mesmas pode estar direta mente relacionada com as
características migração e invasão adquiridas pelas células endometrióticas, Patten et al
(2010) sugerem que as alterações na expressão da n- caderina encontradas no estudo
desempenham um papel relevante na invasibilidade da s lesões de endometriose e
possivelmente na evolução para a malignidade.
Partindo da premissa de que a diminuição da expressão da e-caderina seja uma das
principais evidencias da ocorrência da TEM, Yoshida et al (2012) investigaram a
associação entre polimorfismos do gene da e-caderin a e endometriose na população
japonesa. Este estudo consistiu na análise de 12 po limorfismos de nucleotídeo único
(SNPs), entre eles 7 do gene da e-caderina, 1 relac ionado com a endometriose, 1
associado com a regulação do gene da e-caderina, 1 associado com o câncer de próstata
e 2 polimorfismos de nucleotídeo único não-codificantes através da extração de DNA de
sangue periférico de 511 pacientes com endometriose e 498 controles. Estes autores
encontraram uma diferença na frequência de um alelo em pacientes com endometriose
quando comparadas às controles, indicando que fator es genéticos podem estar
envolvidos com o risco de desenvolvimento da doença e relacionando esta doença com
Introdução 30
uma alteração no gene da e-caderina, um importante fator associado ao processo da
TEM (Yoshida et al, 2012).
Matsuzaki e Darcha (2012) avaliaram o envolvimento dos processos de TEM e
TME na patogênese da endometriose, em lesões de end ometriose peritoneal, ovariana e
profunda diferenciando-as em lesões brancas, vermel has e negras. De acordo com estes
autores, como o tecido endometrial tem sua origem n a mesoderme intermediária e se
transforma, supostamente pelo processo TME, durante o desenvolvimento do sistema
urogenital, estas células poderiam conservar alguma s das características de sua origem
mesenquimal e serem predispostas a retornar as suas características originais através da
TEM (Matsuzaki; Darcha, 2012).
Analisando os marcadores citoqueratina, e-caderina, n-caderina, vimentina,
S100A4, beta-catenina e PAX8 por imunoistoquímica e m 68 amostras de endometriose
profunda, 55 de endometriose ovariana, 76 de endome triose peritoneal, 18 amostras de
endométrio tópico de mulheres com endometriose, 14 de endométrio tópico de mulheres
sem endometriose, 43 amostras de outros cistos ovar ianos e 13 amostras de
endometriose de cicatriz abdominal resultantes de cesariana, Matsuzaki e Darcha (2012)
encontraram uma diminuição significativa na express ão de citoqueratina em lesões
vermelhas, um aumento de e-caderina em lesões perit oneais negras e profundas, e uma
expressão aumentada da proteína beta-catenina em le sões profundas, e um aumento na
expressão de vimentina nas lesões peritoneais e pro fundas em comparação com o
endométrio tópico e com as lesões ovarianas. Result ados estes que sugerem que a TEM
e a TME estejam envolvidas na origem da doença (Mat suzaki; Darcha, 2012).
Entretanto, este estudo não realizou a comparação das doenças em uma mesma paciente,
não avaliou separadamente os dois componentes celulares da doença, epitélio e estroma.
Considerando-se a importância que o processo da TEM vem mostrando na
patogênese de diversas doenças e o seu envolvimento em diversos processos biológicos,
aliado à aparente semelhança das características ce lulares deste processo com as
observadas na endometriose, o pequeno numero de est udos relacionando esses tópicos e
na importância da endometriose infiltrativa como fo rma mais severa da doença, propõe-
se que a TEM esteja envolvida na etiopatogenia e de senvolvimento dessa doença. O
desenvolvimento deste estudo pode contribuir para e lucidar os mecanismos envolvidos
no estabelecimento da endometriose, acrescentado in formações ao processo
Introdução 31
etiopatogênico, ainda pouco elucidado, podendo perm itir o desenvolvimento de novas
estratégias para o diagnóstico precoce e tratamento desta doença.
OBJETIVOS
Objetivos 33
1. Objetivo Geral:
Avaliação dos marcadores relacionados à transição epitélio-mesênquima (TEM)
(e-caderina, n-caderina, beta-catenina) e dos recep tores hormonais (estrogênio e
progesterona) na endometriose pélvica.
2. Objetivos Específicos:
1) Comparar a expressão proteica dos marcadores da TEM e dos receptores
hormonais entre a endometriose superficial, ovarian a e intestinal nas pacientes
acometidas com os três tipos de doença concomitantemente.
2) Comparar a expressão proteica dos marcadores da TEM e dos receptores
hormonais entre a endometriose ovariana e intestina l nas pacientes acometidas com
um dos tipos de doença independentemente.
3) Avaliar a expressão proteica dos marcadores da TEM e dos receptores
hormonais nas células epiteliais e nas células estromais dos focos de endometriose.
4) Correlacionar a expressão dos marcadores da TEM e d os receptores hormonais
em cada um dos grupos de pacientes com:
- a fase do ciclo menstrual;
- a classificação histológica da endometriose.
5) Correlacionar a expressão dos marcadores da TEM com a expressão dos
receptores de estrogênio e progesterona.
PACIENTES E MÉTODOS
Pacientes e métodos 35
1. Local do estudo e casuística
Este estudo foi realizado no Setor de Endometriose da Divisão de Clínica
Ginecológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo. As pacientes propostas foram selecionada s retrospectivamente e
consecutivamente entre 2008 e 2013, e constituíram dois grupos de estudo: 18 mulheres
com endometriose peritoneal, ovariana e intestinal concomitantes, e 85 mulheres com
endometriose ovariana e/ou profunda, dividido em 44 mulheres com endometriose
ovariana e 41 com endometriose intestinal, sendo os três grupos de pacientes
independentes entre si, ou seja, não existem pacien tes em comum entre eles. O projeto
de pesquisa foi aprovado pela Comissão de Ética par a Análise de Projetos de Pesquisa
do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina d a Universidade de São Paulo, e
aprovado sob nº 0547/11 (anexo A). Todas as pacient es assinaram o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), autorizan do a inclusão das amostras ao
estudo. (anexo B).
2. Critérios de inclusão
As pacientes foram selecionadas segundo os seguintes critérios:
- mulheres entre 18 e 45 anos, em idade fértil, com períodos menstruais
eumenorréicos, com intervalo entre os ciclos variando de 26-34 dias;
- ausência de câncer e de doenças auto-imunes, conf irmada por anamnese, exame
físico e por exames laboratoriais quando necessário;
- não utilização de terapêutica hormonal (análogos do GnRH, progestagênios e
contraceptivos hormonais) nos últimos três meses qu e antecederam a coleta das
amostras.
- mulheres que apresentaram concomitantemente os tr ês tipos de doença:
endometriose peritoneal, ovariana e profunda compro vadas histologicamente, para o
grupo 1.
- mulheres que apresentaram doença ovariana, e/ou i ntestinal comprovadas
histologicamente, independentemente, para os grupos 2A e 2B respectivamente.
Pacientes e métodos 36
Os dados provenientes das pacientes portadoras de e ndometriose foram
considerados após exame histológico (estadiamento, local e classificação histológica)
das lesões de endometriose.
A história clínica das pacientes e as característic as intra-operatórias da doença
foram transcritas em formulário específico e tabula dos para uso posterior na análise dos
resultados.
3. Número de Pacientes
Considerando-se os critérios de inclusão acima desc ritos, o número de pacientes
foi obtido por amostra de conveniência, pelo fato d e que a presença dos três locais de
doença concomitantes na mesma paciente não é frequente. Além disso, muitas pacientes
não preenchiam os critérios de inclusão em relação ao uso de medicações hormonais,
que são utilizados como parte do tratamento da doença.
Com isso, de 609 pacientes submetidas à cirurgia de 2008 à 2013, disponíveis
para estudo, foram selecionadas as pacientes que se enquadravam nos critérios de
inclusão, resultando em: amostras de endometriose p eritoneal, ovariana e intestinal
provenientes de 18 pacientes com os três tipos da d oença concomitantemente, e
amostras de endometriose ovariana e intestinal prov enientes de 85 pacientes
consecutivas que não possuíam as três doenças conco mitantes, sendo 44 amostras de
lesão de ovário e 41 amostras de lesão de intestino , de modo que os três grupos são
independentes entre si.
Grupo 1:
- 18 amostras de endometriose peritônio (superficial)
- 18 amostras de endometriose ovariana
- 18 amostras de endometriose intestinal (profunda)
Grupo 2A:
- 44 amostras de endometriose ovariana
Grupo 2B:
- 41 amostras de endometriose intestinal (profunda)
Pacientes e métodos 37
Todos os tecidos coletados foram processados e arma zenados em blocos de
parafina para posterior análise histológica e imuno-histoquímica.
4. Dinâmica do estudo
As pacientes com suspeita de endometriose foram ava liadas pelos sintomas
clínicos, por exames laboratoriais e de imagem (ult rassonografia pélvica transvaginal e
ressonância magnética, quando apropriado), fazendo parte do estudo aquelas que
tiveram indicação de cirurgia para tratamento da doença.
Momentos antes da cirurgia, as informações da idade , raça, numero de
gestações, índice de massa corpórea e dia do ciclo menstrual foram adquiridas. As fases
do ciclo menstrual foram consideradas como: menstru al do 1 ao 4 dia do ciclo,
proliferativa do 5 ao 14, e secretória do 15 ao fim do ciclo.
Para atingir o objetivo deste estudo, os locais de doença: peritoneal (superficial),
ovariana e intestinal (profunda), para o Grupo 1, o variana para o Grupo 2A e intestinal
(profunda) para o Grupo 2B, foram considerados para análise dos marcadores proteicos
para a avaliação da TEM na endometriose (figura 3).
Pacientes e métodos 38
Figura 3 - Representação esquemática da dinâmica do estudo.
4.1 Quadro Clínico
As pacientes incluídas no estudo foram questionadas quanto à existência dos
sintomas comumente associados à endometriose, são eles:
• Dismenorréia: dor em cólica durante o período menstrual, de acordo com a
classificação:
- Leve, quando a paciente referiu dor que melhora sem utilização de
medicação analgésica;
- Moderada, quando a paciente referiu dor que melhora com uso de
analgésicos;
- Severa, quando a paciente referiu que a dor não mel hora
completamente com analgésicos, mas não a impede de exercer suas
atividades habituais;
Pacientes e métodos 39
- Incapacitante, quando a paciente referiu que a dor não melhora e a
impede de exercer suas atividades habituais (Eskenazi et al. 2001).
• Dispareunia de profundidade: dor pélvica durante a relação sexual.
• Dor pélvica crônica: dor pélvica sem relação com o ciclo menstrual por
pelo menos seis meses, sem melhora com a utilização de analgésicos.
• Alterações intestinais cíclicas: sintomas intestina is durante o período
menstrual incluindo aceleração ou diminuição do trâ nsito intestinal, dor à
evacuação, puxo, tenesmo e sangramento nas fezes.
• Alterações urinárias cíclicas: sintomas urinários d urante o período
menstrual incluindo disúria, hematúria, polaciúria e urgência miccional.
• Infertilidade: tentativa de engravidar em casal pos suindo vida sexual ativa
(2 ou mais relações por semana) sem utilizar método contraceptivo por
pelo menos um ano de tentativa. Sendo considerada i nfertilidade primária
quando a mulher nunca engravidou, e secundária quan do já possui um
filho ou mais.
As pacientes avaliaram a intensidade de seus sintom as de acordo com uma
escala analógica de dor (anexo C).
4.2 Estadiamento
Durante o procedimento cirúrgico, a doença de cada paciente foi classificada
pelos critérios estabelecidos pela Sociedade Americ ana de Medicina Reprodutiva
(ASRM) (1996), em estádios de I a IV (figura 4).
Pacientes e métodos 40
Figura 4 - Classificação da endometriose proposta pela Sociedade Americana de
Medicina Reprodutiva (ASRM) (revisada em 1996).
4.3 Locais de doença e Classificação histológica
As pacientes com endometriose foram avaliadas quant o à presença de focos de
doença em peritônio, ovário e/ou profunda (intestin al), e a análise histológica dos
tecidos utilizados seguiram os padrões da classificação proposta por Abrão et al. (2003),
que divide a doença em dois componentes, estromal e glandular, e classifica o tecido
glandular em bem diferenciado, indiferenciado e misto, de acordo com as especificações
abaixo:
Pacientes e métodos 41
• Componente estromal: presença de estroma morfologic amente similar ao
do endométrio tópico em qualquer fase do ciclo;
• Componente glandular bem diferenciado: presença de células epiteliais
com morfologia indistinguível dos endométrios tópic os nas diferentes
fases do ciclo menstrual. Estas células se apresent am em arranjos
superficiais ou constituindo espaços glandulares ou císticos;
• Componente glandular indiferenciado: presença de ep itélio em diferentes
arranjos, sem as características morfológicas vista s no epitélio
endometrial tópico;
• Componente glandular misto: presença de epitélios d e padrão bem
diferenciado e indiferenciado na mesma localização.
5. Método laboratorial: Imunoistoquímica
Este processo permite uma compreensão da presença, distribuição e localização de
proteínas em células de diferentes tipos de tecidos biológicos, através do principio da
ligação especifica de antígenos (proteínas) e anticorpos (Ramos et al, 2005).
5.1 Anticorpos
Os anticorpos selecionados para a avaliação imunois toquímica da TEM estão
descritos na tabela 1.
Tabela 1 - Características dos anticorpos avaliados
Antícorpos Clones Fabricante
Receptor de estrogênio 1D5 DAKO
Receptor de progesterona Pgr636 DAKO
Beta-catenina Beta-catenin-1 DAKO
N-caderina 6G11 DAKO
E-caderina NCH-38 DAKO
Pacientes e métodos 42
Para análise do processo de transição epitélio-mesênquima na endometriose foram
avaliadas as expressões das moléculas relacionadas à adesão celular: n-caderina, e-
caderina e beta-catenina. Além das moléculas de ade são, foram avaliadas as expressões
dos receptores de estrogênio (ER) e progesterona (P R), sendo o anticorpo para o
receptor de estrogênio com especificidade para o ER -alfa, e o receptor de progesterona
tanto para PR-A quanto para o PR-B.
Devido às diferentes características entre o tecido estromal e o tecido epitelial
contidos nas lesões o que decorre em diferentes exp ressões dos marcadores, e dos
papéis diferenciados que estes componentes podem de sempenhar na origem e
progressão da doença, esses componentes celulares foram analisados separadamente.
O painel imunoistoquímico foi analisado em microscó pio óptico considerando a
presença ou ausência de marcação. No caso da presen ça de marcação, verificando a
porcentagem de células marcadas, o padrão de distri buição, e a localização celular
(núcleo, citoplasma e membrana). Foram utilizados c ontroles positivos e negativos
adequados para cada anticorpo.
A expressão dos marcadores foi representada em porc entagens de células coradas
e posteriormente categorizada para a realização da análise estatística, da seguinte forma:
- 0 (sem marcação)
- 1 a 10% de marcação
- 11 a 50% de marcação
- 51 a 80% de marcação
- mais que 80% de marcação.
5.2
Reações
Os blocos de parafina dos tecidos de interesse das pacientes selecionadas foram
localizados, separados, e submetidos à cortes de 3- 5µm de espessura que foram
estendidos e colados em lâminas de vidro previament e limpas. Para a seleção e
identificação das áreas de interesse dos blocos de parafina, foi realizada uma análise das
lâminas coradas com HE (Hematoxilina/Eosina), utilizando-se uma caneta marcadora.
A seguir, foram realizadas reações de imunoistoquímica conforme técnica descrita
abaixo:
- Desparafinização das lâminas deixadas por 24 horas em estufa 60oC:
Pacientes e métodos 43
Xilol a 60oC por 20 minutos
Xilol à temperatura ambiente por 20 minutos
Etanol 100% 30segundos
Etanol 85% 30 segundos
Etanol 70% 30 segundos
- Lavar as lâminas em água corrente e destilada
- Ferver a solução tampão citrato 10 mM pH 6.0 em p anela de pressão (Eterna
,
Nigro) destampada, mergulhar as lâminas e lacrar a panela com a válvula de segurança
aberta. Após a saída do vapor saturado, abaixar a v álvula de segurança e aguardar a
pressurização total. Cronometrar 4 minutos após ess e sinal. Deixar a panela fechada sob
água corrente até a despressurização total.
- Destampar a panela com as lâminas e lavar em água corrente e destilada
- Proceder ao bloqueio da peroxidase endógena com H 2O2 3%, (água oxigenada
10 vol) com 3 trocas de 10 minutos cada. Lavar em á gua corrente e destilada e com
solução salina tamponada com fosfatos (PBS-phosphat e buffered saline) 10mM pH 7.4
por 5 minutos.
- Incubar as lâminas com o anticorpo primário diluí do em título pré-estabelecido,
em tampão PBS contendo albumina bovina (BSA) 1% (Si gma, A9647, EUA) e azida
sódica (NaN3) 0,1%, por 18 horas a 4oC em câmara úmida.
- Lavar em tampão PBS com 3 trocas de 3 minutos cada.
- Incubar por 30 min a 37° C com Polímero MACH-4™, marca Bio care
- Lavar com tampão PBS com 3 trocas de 3 min cada.
- Incubar com o Polímero MACH-4™ por 30 min a 37° C
- Lavar em tampão PBS com 3 trocas de 3 minutos cada.
- Incubar as lâminas em solução substrato: 100 mg% de 3,3’ Diaminobenzidine
Tetrahydrochloride (DAB) (Sigma, D-5637, EUA); 1 mL de Dimetilsulfóxido (DMSO);
1 mL de H2O2 6% (água oxigenada 20 vol); 100 mL de PBS; por 5 minutos a 37ºC, ao
abrigo da luz.
- Observar ao microscópio, nas lâminas controles, o desenvolvimento de
precipitado castanho dourado, como produto final da reação.
- Lavar em água corrente e água destilada por 3 minutos.
- Contracorar com Hematoxilina de Harris por 1 minuto.
- Lavar bem em água corrente e destilada
Pacientes e métodos 44
- Imergir 2 vezes em água amoniacal (solução de hid róxido de amônio 0,5%),
lavando em seguida em água corrente e destilada.
- Desidratar as lâminas em:
Etanol 80%, 30 segundos
Etanol 95%, 30 segundos
Etanol 100% 2 vezes, 30 segundos cada
Xilol 4 vezes, 30 segundos cada
- Montagem das lâminas em Entellan neu (Merck, 1.07961, Alemanha).
6.
Análise Estatística
Foram criadas categorias dos percentuais dos marcad ores e usados os valores
percentuais observados para comparação dos marcador es entre os locais da
endometriose, entre estroma e epitélio e entre os g rupos ovário e intestino. As
comparações dos marcadores entre os locais da endom etriose foram realizadas com uso
de testes de Friedman (Kirkwood; Sterne, 2006). Ent re estroma e epitélio foi utilizado
teste Wilcoxon pareado separadamente em cada grupo de pacientes e entre os grupos
ovário e intestino foi utilizado o teste Mann-Whitney (Kirkwood; Sterne, 2006).
Para verificar se havia relação entre os marcadores da TEM com as
características fase do ciclo menstrual e classific ação histológica da doença, e entre os
marcadores da TEM e os receptores hormonais, foram calculadas as correlações de
Spearman (Kirkwood; Sterne, 2006) e comparados entre as categorias com uso de testes
Mann-Whitney (Kirkwood; Sterne, 2006) para apenas d uas categorias ou testes
Kruskal-Wallis (Kirkwood; Sterne, 2006) para mais de duas categorias.
Os testes foram realizados com nível de significância de 5%.
RESULTADOS
Resultados 46
A avaliação das pacientes foi realizada de acordo com o grupo a que faziam
parte e os resultados comparados entre si quando ap ropriado, sendo o Grupo 1
constituído por 18 pacientes com os três tipos de doença concomitantes, o Grupo 2A por
pacientes com endometriose ovariana e o Grupo 2B po r pacientes com endometriose
intestinal.
As pacientes apresentaram média etária de 32, 34 e 35 anos para as pacientes do
grupo 1, 2A e 2B respectivamente, e índice de massa corpórea de 22 para o grupo 1 e
23 para os grupos 2A e 2B. A maioria das pacientes apresentaram os graus mais
avançados para o estadiamento da endometriose, III e IV, correspondendo a 89% das
pacientes no grupo 1, 95% no grupo 2A e 68% no grupo 2B (Tabela 2).
Tabela 2 – Descrição da idade, paridade, IMC, estádio, sintoma s e infertilidade das
pacientes de acordo com os três grupos de estudo.
n % n % n %
18 44 41
32 (21 - 40) 34 (21 - 45) 35 (24 - 45)
0 (0 - 2) 0 (0 - 2) 0 (0 - 4)
22 (18,6 - 27,6) 23 (16,8 - 35,3) 23 (17,2 - 34,5)
I e II 2 11 2 5 13 32
III e IV 16 89 42 95 28 68
Dismenorreia 18 100 40 91 40 98
Dor acíclica 9 50 18 41 18 44
Dispareunia 14 78 23 52 24 59
Disquezia 7 39 8 18 21 51
Disuria 1 6 3 7 4 10
8 44 18 41 18 44
* Média
IMC: Indice de Massa Corpórea (peso/altura
2
)
EAD: Escala analógica de dor
Infertilidade: mulher que não está conseguindo ter filhos há 1 ano ou mais
Infertilidade
Grupo 2B
Grupo 1: mulheres com endometriose peritoneal, ovariana e intestinal concomitantes
Grupo 2A: mulheres com endometriose ovariana
Grupo 2B: mulheres com endometriose intestinal
**Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM )
Características
Numero de casos
Idade*
Grupo 1 Grupo 2A
Paridade*
IMC*
Estádio**
Sintomas Clínicos - EAD
Resultados 47
Os dados clínicos completos das pacientes participa ntes do estudo utilizados nas
análises, encontram-se nos anexos D e E para o grup o 1, F e G para o grupo 2A e H e I
para o grupo 2B.
A expressão proteica dos marcadores relacionados à transição epitélio-
mesênquima: e-caderina, n-caderina, beta-catenina, e dos receptores de estrogênio e de
progesterona foram avaliados nos locais de doença d e interesse correspondentes a cada
grupo de estudo e em cada um dos componentes celula res das lesões de endometriose,
epitélio e estroma. As moléculas de adesão e-caderi na, n-caderina e beta-catenina
mostraram-se expressas na membrana das células epit eliais e/ou estromais, e os
receptores de estrogênio e progesterona demonstrara m expressão nuclear no epitélio e
no estroma das lesões de endometriose.
A avaliação da expressão dos marcadores de acordo c om a fase do ciclo das
pacientes no momento da cirurgia esta representada na tabela 3 para o grupo 1, na tabela
4 para o grupo 2A e na tabela 5 para o grupo 2B.
Resultados 48
Tabela 3 - Avaliação das medianas da fase do ciclo menstrual nas pacientes com
endometriose peritoneal, ovariana e intestinal concomitantes (grupo 1).
Mentrual Proliferativa Secretora p
Mediana Mediana Mediana
N-caderina 40 50 0 0,350
E-caderina 100 100 100 >0,999
Beta-catenina 100 100 100 >0,999
Receptor de Estrogênio 70 95 100 0,289
Receptor de Progesterona 100 100 100 0,616
N-caderina 20 0 0 0,636
E-caderina 0 0 0 >0,999
Beta-catenina 80 60 50 0,537
Receptor de Estrogênio 90 100 100 0,701
N-caderina 100 50 0 0,580
E-caderina 100 100 100 >0,999
Beta-catenina 100 100 100 >0,999
Receptor de Estrogênio 80 90 75 0,210
Receptor de Progesterona 20 80 40 0,496
N-caderina 0 0 0 0,834
E-caderina 0 0 0 >0,999
Beta-catenina 70 55 60 0,539
Receptor de Estrogênio 100 100 100 >0,999
N-caderina 0 0 0 0,459
E-caderina 100 100 100 >0,999
Beta-catenina 100 100 100 >0,999
Receptor de Estrogênio 80 100 100 0,281
Receptor de Progesterona 100 100 100 0,779
N-caderina 100 0 0 0,274
E-caderina 0 0 0 >0,999
Beta-catenina 50 80 75 0,545
Receptor de Estrogênio 100 100 100 >0,999
Fase menstrual: 1º ao 4º dia do ciclo
Fase proliferativa: 5º ao 14º dia do ciclo
Fase secretora: 15º ao fim do ciclo
Ovário
Epitélio
Estroma
Intestino
Epitélio
Estroma
Fase do ciclo
Marcador Local
Peritônio
Epitélio
Estroma
Como pode ser observado na tabela 3 não houve influ ência da fase do ciclo
menstrual na expressão dos marcadores no grupo de estudo 1.
Resultados 49
Tabela 4 - Avaliação das medianas da fase do ciclo menstrual nas pacientes com
endometriose ovariana (grupo 2A).
Mentrual Proliferativa Secretora p
Mediana Mediana Mediana
N-caderina 100 0 50 0,279
E-caderina 100 100 100 >0,999
Beta-catenina 100 100 100 >0,999
Receptor de Estrogênio 100 90 90 0,436
Receptor de Progesterona 100 60 45 0,364
N-caderina 70 0 0 0,144
E-caderina 0 0 0 >0,999
Beta-catenina 90 50 70 0,230
Receptor de Estrogênio 100 100 100 0,959
Fase menstrual: 1º ao 4º dia do ciclo
Fase proliferativa: 5º ao 14º dia do ciclo
Fase secretora: 15º ao fim do ciclo
Ovário
Epitélio
Estroma
Fase do ciclo
Local Marcador
Tabela 5 - Avaliação das medianas da fase do ciclo menstrual nas pacientes com
endometriose intestinal (grupo 2B).
Mentrual Proliferativa Secretora p
Mediana Mediana Mediana
N-caderina 100 0 0 0,262
E-caderina 100 100 100 >0,999
Beta-catenina 100 100 100 >0,999
Receptor de Estrogênio 100 100 100 0,272
Receptor de Progesterona 100 100 100 0,747
N-caderina 0 0 0 0,724
E-caderina 0 0 0 0,351
Beta-catenina 80 80 55 0,239
Receptor de Estrogênio 100 100 100 0,325
Fase proliferativa: 5º ao 14º dia do ciclo
Fase secretora: 15º ao fim do ciclo
Fase menstrual: 1º ao 4º dia do ciclo
Fase do ciclo
Marcador
Estroma
Epitélio
Local
Intestino
Assim como no grupo 1, as tabelas 4 e 5 ilustram qu e a avaliação da fase do ciclo
em relação aos marcadores nos grupos 2A e 2B, endom etriose ovariana e intestinal
independentes, não apresentou diferenças significativas.
A expressão dos marcadores representada em porcenta gens foi subsequentemente
categorizada para melhor análise e com o objetivo d e avaliar se existem diferenças entre
as células que constituem o tecido endometrial, epi teliais e estromais, e se existem
Resultados 50
diferenças entre os três tipos de doença, superfici al, ovariana e profunda, quanto à
expressão das proteínas estudadas, realizou-se uma série de comparações dos resultados
das marcações entre os componentes citados (tabelas 6 a 9).
A Tabela 6 ilustra os resultados correspondentes à expressão proteica das
moléculas de adesão n-caderina, e-caderina e beta-c ateninam para o grupo de estudo de
pacientes com as três doenças concomitantes (peritoneal, ovariana e intestinal).
Tabela 6 - Comparação da expressão proteica da n-caderina, e-c aderina e beta-
catenina nos diferentes sítios de doença e no epité lio e estroma nas
pacientes do grupo 1 (endometriose peritoneal, ovar iana e intestinal
concomitantes).
n % n % n %
Epitelio N-Caderina 0,446
0 7 58,3 8 47,1 14 77,8
1 a 10 0 0,0 0 0,0 0 0,0
11 a 50 3 25,0 1 5,9 0 0,0
51 a 80 0 0,0 0 0,0 1 5,6
> 80 2 16,7 8 47,1 3 16,7
Estroma N-Caderina
0,032
0 7 58,3 16 94,1 12 66,7
1 a 10 1 8,3 0 0,0 0 0,0
11 a 50 4 33,3 0 0,0 2 11,1
51 a 80 0 0,0 0 0,0 0 0,0
> 80 0 0,0 1 5,9 4 22,2
p*
Epitelio E-Caderina
&
0 0 0,0 0 0,0 0 0,0
1 a 10 0 0,0 0 0,0 0 0,0
11 a 50 0 0,0 0 0,0 0 0,0
51 a 80 0 0,0 0 0,0 0 0,0
> 80 17 100,0 16 100,0 17 100,0
p*
Epitelio Beta-catenina
&
0 0 0,0 0 0,0 0 0,0
1 a 10 0 0,0 0 0,0 0 0,0
11 a 50 0 0,0 0 0,0 0 0,0
51 a 80 0 0,0 0 0,0 0 0,0
> 80 18 100,0 16 100,0 17 100,0
p*
& Não foi possível calcular
& & &
Variável Peritônio Ovário
& & &
p
0,222 0,007 0,662
Intestino
Conforme está demonstrado na Tabela 6, a comparação das marcações entre os
locais de doença, peritoneal, ovariana e profunda foi significativamente diferente quanto
à n-caderina, que se mostrou menor no estroma do ov ário que no estroma do intestino e
Resultados 51
do peritônio (p=0,032). Ainda de acordo com a Tabel a 6, as comparações entre as
células epiteliais e as células estromais apresenta ram diferenças significativas: na
expressão da n-caderina, que se mostrou maior no ep itélio que no estroma das lesões de
ovário (p=0,007).
Análises da expressão da e-caderina e da beta-catenina entre o epitélio e o estroma
não puderam ser consideradas, pois estes marcadores apresentaram cem por cento de
expressão no epitélio dos três tipos de lesão e não foi avaliável no estroma, pois foi
observado ausência de marcação. Pelo mesmo motivo, as análises comparativas entre os
locais de lesão não foram possíveis de serem avaliadas para estes marcadores.
Os resultados para as expressões de n-caderina, e-c aderina e beta-catenina no
epitélio e estroma e as comparações entre as lesões de ovário e intestino, nas pacientes
com endometriose ovariana e intestinal independente s, estão representadas na tabela 7
correspondendo às análises dos grupos 2A e 2B.
Pode ser observado que a comparação entre as lesões ovarianas e intestinais
demonstrou que a expressão da n-caderina foi maior no epitélio do ovário do que no
epitélio do intestino (p=0,020) e que a comparação entre as células epiteliais e as células
estromais, mostrou que esta mesma molécula apresentou maior expressão no epitélio em
comparação ao estroma nas lesões de ovário (p<0,001 ), e nas de intestino (p=0,041)
(tabela 7). Da mesma forma que ocorreu no grupo 1, as moléculas de adesão e-caderina
e beta-catenina, apresentaram cem por cento de marc ação no epitélio das lesões
ovariana e intestinal, e ausência de marcação no es troma destes tecidos,
impossibilitando as análises comparativas entre os componentes celulares e entre os
dois tipos de lesão.
Resultados 52
Tabela 7 - Comparação da expressão proteica da n-caderina, e-c aderina e beta-
catenina nos diferentes sítios de doença e no epité lio e estroma nas
pacientes dos grupos 2A e 2B (endometriose ovariana e intestinal
independentes).
n % n %
Epitelio N-Caderina 0,020
0 17 44,7 26 66,7
1 a 10 0 0,0 1 2,6
11 a 50 4 10,5 4 10,3
51 a 80 1 2,6 2 5,1
> 80 16 42,1 6 15,4
Estroma N-Caderina 0,692
0 35 89,7 34 87,2
1 a 10 1 2,6 0 0,0
11 a 50 1 2,6 2 5,1
51 a 80 1 2,6 1 2,6
> 80 1 2,6 2 5,1
p*
Epitelio E-Caderina
&
0 0 0,0 0 0,0
1 a 10 0 0,0 0 0,0
11 a 50 0 0,0 0 0,0
51 a 80 0 0,0 0 0,0
> 80 42 100,0 40 100,0
p*
Epitelio Beta-catenina
&
0 0 0,0 0 0,0
1 a 10 0 0,0 0 0,0
11 a 50 0 0,0 0 0,0
51 a 80 0 0,0 0 0,0
> 80 42 100,0 38 100,0
p*
& Não foi possível calcular
p
<0,001 0,041
Variável Ovário Intestino
& &
& &
Foram realizadas as mesmas análises para a expressã o dos receptores de
estrogênio e progesterona, ilustrados nas tabelas 8 para o grupo 1, e tabela 9 para os
grupos 2A e 2B.
Resultados 53
Tabela 8 - Comparação da expressão proteica dos receptores de estrogênio e
progesterona nos diferentes sítios de doença e no epitélio e estroma nas
pacientes do grupo 1 (endometriose peritoneal, ovariana e intestinal
concomitantes).
n % n % n %
Epitelio Receptor de Estrogênio 0,048
0 2 11,1 1 6,3 0 0,0
1 a 10 0 0,0 0 0,0
0 0,0
11 a 50 0 0,0 0 0,0 0 0,0
51 a 80 2 11,1 9 56,3 3 18,8
> 80 14 77,8 6 37,5 13 81,3
Estroma Receptor de Estrogênio
0,488
0 2 12,5 1 6,3 0 0,0
1 a 10 1 6,3 1 6,3 0 0,0
11 a 50 6 37,5 3 18,8 6 37,5
51 a 80 5 31,3 11 68,8 6 37,5
> 80 2 12,5 0 0,0 4 25,0
p*
Epitelio Receptor de Progesterona
0,002
0 0 0,0 1 7,1 0 0,0
1 a 10 0 0,0 2 14,3 0 0,0
11 a 50 1 5,6 6 42,9 1 5,9
51 a 80 0 0,0 1 7,1 0 0,0
> 80 17 94,4 4 28,6 16 94,1
Estroma Receptor de Progesterona
0,018
0 0 0,0 0 0,0 0 0,0
1 a 10 0 0,0 0 0,0 0 0,0
11 a 50 1 5,6 0 0,0 0 0,0
51 a 80 3 16,7 0 0,0 0 0,0
> 80 14 77,8 16 100,0 17 100,0
p*
p
0,317
<0,001 0,091 0,004
Peritônio Ovário Intestino
0,257 0,004
Variável
No grupo 1, em que as pacientes possuíam os três ti pos de doença concomitantes,
quando se comparou a expressão dos receptores no ep itélio entre os locais de lesão,
observa-se que expressão do receptor de estrogênio foi maior no epitélio do intestino e
do peritônio do que no epitélio do ovário (p=0,048) , assim como a expressão do
receptor de progesterona se mostrou maior no peritô nio e intestino quando comparado
ao ovário (p=0,002) (tabela 8). Quando analisado o estroma, o receptor de estrogênio
não mostrou diferença significativa, mas o receptor de progesterona se mostrou menor
no estroma do peritônio do que no ovário e intestino (p=0,018) (tabela 8).
Já na comparação entre os componentes epitélio e es troma, não houve diferenças
significativas no ovário para o receptor de estrogê nio, mas houve no peritônio e no
Resultados 54
intestino, em que a expressão se revelou maior no e pitélio do que no estroma nos dois
tipos de lesão (p<0,001, p=0,004) (tabela 8). O rec eptor de progesterona não se mostrou
diferentemente expresso entre epitélio e estroma no peritônio e intestino, somente no
ovário, em que se revelou maior no estroma do que no epitélio (p=0,004) (tabela 8).
Tabela 9 - Comparação da expressão proteica dos receptores de estrogênio e
progesterona nos diferentes sítios de doença e no e pitélio e estroma nas
pacientes dos grupos 2A e 2B (endometriose ovariana e intestinal
independentes).
n % n %
Epitelio Receptor de Estrogênio 0,146
0 4 12,5 1 2,7
1 a 10
0 0,0 1 2,7
11 a 50 4 12,5 1 2,7
51 a 80 5 15,6 7 18,9
> 80 19 59,4 27 73,0
Estroma Receptor de Estrogênio 0,269
0 6 16,7 4 11,1
1 a 10 1 2,8 1 2,8
11 a 50 10 27,8 9 25,0
51 a 80 15 41,7 14 38,9
> 80 4 11,1 8 22,2
p*
Epitelio Receptor de Progesterona 80 13 37,1 38 97,4
Estroma Receptor de Progesterona 0,901
0 1 2,3 0 0,0
1 a 10 0 0,0 0 0,0
11 a 50 0 0,0 0 0,0
51 a 80 1 2,3 2 5,3
> 80 42 95,5 36 94,7
p*
<0,001 <0,001
0,999
Variável Ovário Intestino p
Para os grupos 2A e 2B, as comparações da expressã o do receptor de estrogênio
entre as lesões de ovário e intestino não mostraram diferenças significativas no epitélio
ou no estroma (p=0,146, p=269), mas a expressão do receptor de progesterona
Resultados 55
mostrou-se maior no epitélio do intestino do que no do ovário (p<0,001), e não mostrou
diferença no estroma (p=0,901) (tabela 9).
Ainda em relação aos grupos 2A e 2B, a tabela 9 il ustra que o receptor de
estrogênio se mostrou mais expresso no epitélio do que no estroma tanto nas lesões de
ovário como nas lesões de intestino (p<0,001, p<0,0 01), e ao contrário, o receptor de
progesterona se revelou mais expresso no estroma do que no epitélio do ovário
(p0,999).
Além das análises acima representadas, correlacion ou-se a expressão proteica
dos marcadores selecionados com a classificação his tológica da endometriose sugerida
por Abrão et al (2003), com o estadiamento de acord o com a ASRM (1996), e com os
sintomas clínicos das pacientes de acordo com uma e scala analógica de dor, de modo
que os dois últimos fatores não demonstraram resultados relevantes ao estudo.
Com relação à classificação histológica da endomet riose nos locais de doença
estudados, a tabela 10 demonstra que no grupo 1 não houve relação com a expressão
dos marcadores estudados.
Resultados 56
Tabela 10 - Avaliação das medianas da expressão proteica dos marcadores de acordo
com a classificação histológica da endometriose nas pacientes com
endometriose peritoneal, ovariana e intestinal concomitantes (grupo 1).
E E+I E+M*
Mediana Mediana Mediana
N-caderina 20 0 0 0,744
E-caderina 100 100 100 >0,999
Beta-catenina 100 100 100 >0,999
Receptor de progesterona 100 100 95 0,632
Receptor de estrogênio 100 100 100 0,809
N-caderina 0 0 10 0,624
Beta-catenina 0 0 0 >0,999
Receptor de progesterona 80 50 60 0,335
Receptor de estrogênio 100 90 100 0,205
N-caderina 25 100 0,622
E-caderina 100 100 >0,999
Beta-catenina 100 100 >0,999
Receptor de progesterona 50 20 0,175
Receptor de estrogênio 80 80 0,824
N-caderina 0 0 0,232
Beta-catenina 0 0 >0,999
Receptor de progesterona 100 100 >0,999
Receptor de estrogênio 60 70 0,304
N-caderina 0 0 0,747
E-caderina 100 100 >0,999
Beta-catenina 100 100 >0,999
Receptor de progesterona 100 100 0,460
Receptor de estrogênio 90 100 0,146
N-caderina 0 0 0,955
Beta-catenina 0 0 >0,999
Receptor de progesterona 100 100 >0,999
Receptor de estrogênio 50 80 0,061
*nenhuma paciente deste grupo apresentou doença E+B D (estroma + epitélio bem diferenciado)
Epitélio
Estroma
p
E: estroma
E+I: estroma + epitélio indiferenciado
E+M: estroma + epitélio misto
Intestino
Epitélio
Estroma
Ovário
Peritônio
Epitélio
Estroma
Local Marcador
Entretanto, com relação aos grupos 2A e 2B, as tabe las 11 e 12 demonstram que
houveram diferenças significativas. No grupo 2A (ta bela 11), a expressão da n-caderina
no componente estromal do ovário mostrou-se maior n a classificação E+BD (estroma +
epitélio bem diferenciado) (p=0,009).
No grupo 2B (tabela 12) a expressão da n-caderina no componente estromal do
intestino, foi maior na classificação E+BD (estroma + epitélio bem diferenciado)
Resultados 57
(p=0,014), e a expressão da beta-catenina no compon ente estromal do intestino,
mostrou-se maior também na classificação E+BD (estr oma + epitélio bem diferenciado)
(p<0,001).
Tabela 11 - Avaliação das medianas da expressão proteica dos marcadores de acordo
com a classificação histológica da endometriose nas pacientes com
endometriose ovariana (grupo 2A).
E E +BD E +I p
Mediana Mediana Mediana
N-caderina 40 0 35 0,753
E-caderina 100 100 >0,999
Beta-catenina 100 100 >0,999
Receptor de progesterona 50 100 50 0,564
Receptor de estrogênio 90 0,531
N-caderina 0 100 0
0,009
Beta-catenina 0 0 0 >0,999
Receptor de progesterona 100 100 100 0,798
Receptor de estrogênio 70 60 0,195
Local
Marcador
*nenhuma paciente deste grupo apresentou doença E+M (estroma + epitélio misto)
E: estroma
E+BD: estroma + epitélio bem diferenciado
E+I: estroma + epitélio indiferenciado
Ovário
Epitélio
Estroma
Tabela 12 - Avaliação das medianas da expressão proteica dos marcadores de acordo
com a classificação histológica da endometriose nas pacientes com
endometriose intestinal (grupo 2B).
E +BD E +I E +M
Mediana Mediana Mediana
N-caderina 0 0 0 0,656
E-caderina 100 100 100 >0,999
Beta-catenina 100 100 100 >0,999
Receptor de progesterona 100 100 100 0,756
Receptor de estrogênio 100 100 100 0,468
N-caderina 100 0 0
0,014
Beta-catenina 50 0 0 <0,001
Receptor de progesterona 95 100 100 0,343
Receptor de estrogênio 85 70 70 0,356
*nenhuma paciente deste grupo apresentou doença E ( estroma)
E+BD: estroma + epitélio bem diferenciado
E+I: estroma + epitélio indiferenciado
E+M: estroma + epitélio misto
p
Intestino
Epitélio
Estroma
Local Marcador
Resultados 58
Para a análise de uma possível relação entre a exp ressão das proteínas
relacionadas à transição epitélio-mesênquima e dos receptores dos hormônios
esteroides, objetivou-se realizar uma correlação en tre a expressão de cada um dos
marcadores da TEM com cada um dos receptores, entre tanto, conforme ilustrado na
tabela 13, somente a n-caderina foi possível de ser correlacionada, pois a e-caderina e a
beta-catenina não demonstraram variação de expressã o. Deste modo, de acordo com a
tabela 13, a expressão da n-caderina no estroma do intestino apresentou correlação
direta com a expressão do receptor de estrogênio (p=0,036).
Tabela 13 – Correlação da expressão proteica dos marcadores da TEM (N-caderina, E-
caderina e Beta-catenina) com os receptores de prog esterona e de
estrogênio nas pacientes com endometriose peritonea l, ovariana e
intestinal concomitantes (grupo 1).
Receptor de
Progesterona
Receptor de
Estrogênio
Receptor de
Progesterona
Receptor de
Estrogênio
r -0,488 -0,268 -0,247 0,055
p 0,107 0,400 0,439 0,871
r -0,439 -0,263 -0,222 0,230
p 0,153 0,408 0,488 0,496
r 0,009 -0,069 -0,266 -0,014
p 0,953 0,660 0,052 0,923
r 0,277 0,192 0,076 0,267
p 0,060 0,211 0,582 0,066
r -0,063 -0,051 -0,049 0,007
p 0,646 0,723 0,723 0,963
r -0,162 -0,011 -0,007 0,297
p 0,238 0,937 0,958 0,036
Estroma
Epitélio Estroma
Local Correlação
N-caderina
Epitélio
Estroma
Epitélio
Estroma
Epitélio
Intestino
N-caderina
N-caderina
Peritônio
Ovário
N-caderina
N-caderina
N-caderina
Com a finalidade de avaliar se a expressão dos marc adores estudados é
influenciada pela presença de outros locais de doen ça, realizou-se a avaliação dos
marcadores em cada um dos sítios analisados de acor do com os outros locais de
acometimento dentro de cada grupo, o que não acresc entou informações relevantes
(anexos G, H, I e J). Por fim, nenhuma relação da e xpressão proteica dos marcadores
propostos com os parâmetros clínicos das pacientes foi encontrada.
DISCUSSÃO
Discussão 60
A endometriose é umas das principais doenças ginec ológicas estudadas nas
últimas décadas, pois consiste em uma das maiores c ausas de dor e infertilidade em
mulheres em idade reprodutiva e devido aos aspectos desafiadores relacionados com a
sua etiopatogenia, com a dificuldade no diagnostico e tratamento que ainda dependem
de métodos invasivos e com os fatores de risco e mo dos de prevenção que permanecem
desconhecidos.
Apesar dos enormes esforços por parte de pesquisad ores e médicos no sentido de
esclarecer os aspectos obscuros da endometriose, mu itas questões ainda permanecem
sem resposta o que demonstra a complexidade desta d oença. Apesar de ser considerada
doença benigna, apresenta diversas características em comum com doenças malignas,
como se apresentar como uma doença multifocal, o qu e sugere que as células
endometriais ectópicas possuam uma capacidade de mi gração para dar origem aos
diversos focos da doença na mesma paciente, além po ssuir as capacidades de
proliferação, de invasão e de neoangiogênese que fa zem com que as lesões se
desenvolvam e sobrevivam nos diferentes tecidos (Ab rão et al, 2006; Thomas;
Campbell, 2000A).
A transição epitélio-mesênquima (TEM) é um process o reconhecidamente
envolvido nas transformações entre células epitelia is e mesenquimais durante o
desenvolvimento embrionário, mas somente nos último s anos tem sido identificada
como um fenômeno que pode estar relacionado com os processos de invasão e
metástase de células malignizadas, pois é um proces so que envolve mudanças celulares
como a perda da adesão celular e a remodelação do c itoesqueleto, conferindo à estas
células habilidades migratórias e invasivas (Hay, 1 995; Thiery et al., 2006; Acloque et
al., 2009).
Nesse sentido, o presente estudo teve o objetivo d e acrescentar informações a
respeito dos processos envolvidos na origem, desenv olvimento e persistência das lesões
de endometriose, para colaborar na busca de melhore s formas de diagnóstico e
tratamento da doença, através do estudo da expressão proteica de e-caderina, n-caderina,
beta-catenina, receptor de progesterona e receptor de estrogênio em 103 casos de
pacientes com endometriose, sendo 18 casos correspo ndentes a pacientes que possuem
doença superficial, ovariana e profunda concomitant emente, o que possibilitou uma
análise concreta das diferenças entre os três tipos de endometriose proposto por Nisolle
e Donnez (1997).
Discussão 61
Os casos foram divididos em dois grupos de estudo, conforme ilustrado na Tabela
2, que se mostraram homogêneos quanto à média etári a, paridade e índice de massa
corpórea, e semelhantes quanto ao grau de estadiame nto da doença, sendo a maioria das
pacientes afetadas pelos graus mais avançados da en dometriose (III e IV), o que
corresponde ao esperado, pois as pacientes incluída s no estudo apresentam as
manifestações mais graves da doença, quando há o co mprometimento do intestino e/ou
do ovário.
Quanto aos sintomas, a dismenorréia se confirmou c omo o principal sintoma
apresentando pelas pacientes, sendo relatada por ma is de noventa por cento delas. A
queixa de disquezia, conforme o esperado, foi maior no grupo 2B, em que as pacientes
possuíam lesão intestinal, e os demais sintomas inc luindo a infertilidade, manifestaram-
se com frequências semelhantes nos três grupos de e studo (tabela 2) (Eskenazi et al,
2001; Wu et al, 2002; Siristatidis et al, 2006).
Uma questão importante que surge na avaliação de a spectos relacionados à
endometriose, é que diversos aspectos da doença são alterados de acordo com a fase do
ciclo menstrual das mulheres, uma vez que esta seja uma doença hormônio dependente,
na qual as lesões são influenciadas pelo ciclo horm onal feminino de modo semelhante
ao tecido endometrial normal.
Estudos sugerem que haja uma variação na expressão da n-caderina no
endométrio tópico entre as fases proliferativa e se cretora, o que poderia significar que a
maior expressão de n-caderina na fase proliferativa auxilie a manter a integridade do
endométrio para permitir a implantação do embrião, enquanto a expressão reduzida na
fase secretora diminua a adesão célula-célula permi tindo descamação do endométrio
(menstruação) (Poncelet et al., 2002; Tsuchiya et al; 2006; Patten et al; 2010).
Deste modo, uma das preocupações neste estudo foi verificar se haveria alguma
alteração na expressão proteica dos marcadores prop ostos nas diferentes fases do ciclo
menstrual das pacientes. Conforme ilustrado nas tab elas 3, 4 e 5, a análise realizada
entre a variação dos marcadores de acordo com a fas e do ciclo das pacientes no
momento da cirurgia não detectou nenhuma diferença significativa, o que possibilitou
que as demais análises fossem realizadas independen temente do ciclo menstrual a que
as pacientes se encontravam. Os dados com relação a influencia da fase do ciclo
menstrual nestes marcadores ainda são contraditórios, mas diversos estudos também não
encontram diferenças na expressão dessas moléculas nas lesões de endometriose, entre
Discussão 62
eles, Poncelet et al; (2002) e Beliard et al (1997) que analisaram biópsias de
endometriose peritoneal, Darai, et al; (1998) que o bservaram lesões císticas de
endometriose de ovário e Matsuzaki e Darcha (2012) que estudaram amostras de lesões
peritoneais, ovarianas e profundas.
Moléculas de adesão e endometriose
As moléculas de adesão e-caderina, n-caderina e be ta-catenina têm demonstrado
uma crescente relevância em diversos estudos com do enças em que células apresentam
a caraterística de motilidade celular, como neoplas ias, pois possuem um papel
fundamental na manutenção da estrutura e função de tecidos normais.
Quando se trata das lesões de endometriose, é poss ível que alterações na
expressão das moléculas de adesão possam conferir c aracterísticas de motilidade e
invasibilidade às células endometriais, a perda da função da e-caderina e o aumento da
expressão da n-caderina estão sendo relacionadas às transformações no fenótipo de
células epiteliais para mesenquimais no processo da TEM (Patten et al.; 2010; Qi, et al.;
2005; Gomes et al.; 2011; Zeitvogel et al., 2001).
No presente estudo, a expressão proteica de e-cader ina foi identificada na
membrana das células epiteliais das lesões de endom etriose, mas não foi encontrada no
componente estromal dessas lesões, o que ocorreu ig ualmente com a molécula beta-
catenina. Já a molécula de adesão n-caderina, expre ssou-se na membrana tanto no
componente epitelial como nas células estromais, o que não é um resultado inesperado
já que diversos estudos vêm identificando a express ão desta molécula em células
mesenquimais (Peralta-Soler, 1997; Poncelet, 2002).
Neste estudo foi dado especial destaque às compara ções entre os diferentes sítios
acometidos pela endometriose concomitantemente nas mesmas pacientes (endometriose
superficial, ovariana e profunda). Assim, na tabela 6 onde estão apresentadas as
avaliações da expressão dos marcadores relacionados à transição epitélio-mesênquima
neste grupo de pacientes, pode ser observado que a expressão proteica de n-caderina foi
menor no estroma da endometriose comprometendo o ov ário, em comparação às lesões
intestinais e peritoneais, sugerindo que as lesões de endometriose de ovário tenham um
caráter menos agressivo, já que a expressão de n-ca derina tem sido vinculada à um
aumento na motilidade e invasibilidade de diversos tipos de doenças malignas como no
Discussão 63
carcinoma de mama e de próstata e no melanoma (Qi e t al. 2005; Hazan et al, 2000;
Tomita et al., 2000).
Tal fato pode se justificar pela morfologia das le sões ovarianas, que parecem não
apresentar o mesmo potencial de invasão que as lesões presentes em outros sítios, sendo
identificadas como formações císticas ou superficia is ovarianas, e não como doença
infiltrativa profunda como ocorre em outros locais de doença. Estes resultados
confirmam a proposta de Nisolle e Donnez (1997) de que a doença ovariana possui uma
patologia diferenciada das doenças superficial e pr ofunda, pois de acordo com estes
autores, a doença ovariana cística tem origem a partir da invaginação do córtex ovariano
após o acumulo de detritos de sangramento menstrual (Nisolle e Donnez, 1997).
Estudos semelhantes que buscaram investigar o envo lvimento da transição
epitélio-mesênquima na endometriose, não avaliaram os componentes celulares,
epitelial e estromal, separadamente. Matsuzaki e Da rcha (2012) observaram expressão
ausente ou escassa de n-caderina no epitélio da end ometriose pélvica, e dividindo as
lesões peritoneais em vermelhas e negras, identific aram uma maior expressão de n-
caderina no epitélio das lesões vermelhas, sugerind o que estes tipos de lesão
representem diferentes estágios da evolução da endo metriose e que as lesões negras
possuam uma natureza menos invasiva. Estudando amos tras de endometriose
gastrointestinal, Patten et al. (2010) identificara m conservação na expressão da e-
caderina e da beta-catenina no epitélio das lesões, e uma diminuição na expressão da n-
caderina em comparação ao endométrio tópico.
Poncelet et al. (2002), assim como o presente estu do, analisaram as células
epiteliais e estromais separadamente e detectaram u ma expressão constante da e-
caderina no epitélio do endométrio e uma ausência de expressão nas células estromais, e
em adição não identificaram relação da expressão com a fase do ciclo menstrual. Já para
a n-caderina, estes mesmos autores observaram uma e xpressão no componente epitelial
e no estromal, tanto no endométrio tópico como no e ctópico, mas relacionaram uma
variação na expressão desta molécula nas células es tromais com a fase do ciclo
menstrual, concluindo que a n-caderina é expressa n a fase proliferativa das lesões, mas
é ausente na fase secretora.
Neste estudo também foi avaliada a expressão protei ca dos marcadores
relacionados à transição epitélio-mesênquima em les ões de ovário e intestino de
pacientes diferentes, e foi observado que a n-cader ina foi maior no epitélio das lesões
Discussão 64
ovarianas quando comparadas às lesões intestinais, resultado este que pode ter tido
influência da avaliação ter sido realizada em pacie ntes diferentes, o que torna este
estudo único quando se trata da análise das lesões nas mesmas pacientes.
A expressão proteica da e-caderina e da beta-caten ina não se mostraram
diferentemente expressas nas lesões de endometriose , nem no grupo de pacientes com
os três tipos de lesões concomitantes, nem no grupo com as lesões independentes, de
modo que estas moléculas apresentaram expressão con stante no epitélio de todas as
lesões de endometriose estudadas, e não mostraram e xpressão nas células estromais,
resultados que estão em acordo com outros estudos s emelhantes existentes na literatura,
apresentando o comportamento esperado destas molécu las assim como ocorre no tecido
endometrial normal (Patten et al.; 2010; Poncelet et al. 2002; Zeitvogel et al.; 2001).
Receptor de estrogênio e progesterona e endometriose
Já está bem estabelecido que a endometriose é uma doença complexa influenciada
pelos hormônios estrogênio e progesterona, e que ta nto os tecidos endometriais tópicos
quanto ectópicos expressam os receptores destes hor mônios. Entretanto, o papel que
estes hormônios e seus respectivos receptores possu em na origem, desenvolvimento e
manutenção da doença permanecem incertos, podendo a tuar como estimuladores do
crescimento dos implantes ou como fator de proteção contra a progressão da doença
(Olive et al, 2001; Missmer; Cramer, 2003).
Desta forma, partindo do principio que a transiç ão epitélio-mesênquima pode ser
mediada por diversos fatores moleculares e bioquími cos, o presente estudo buscou
avaliar a ação dos hormônios esteroides através da expressão de seus receptores,
sugerindo que estes hormônios possam agir como um e stímulo para que as células
endometriais desenvolvam as capacidades de motilida de, invasão e proliferação,
características estas, relacionadas ao processo da transição epitélio mesênquima.
A comparação da expressão proteica dos receptores hormonais entre os locais de
doença concomitantes nas mesmas pacientes, demonstr ada na tabela 8, revelou que a
endometriose ovariana apresenta uma menor expressão dos receptores de estrogênio e
progesterona nas células epiteliais em comparação c om doença peritoneal e intestinal,
resultado que foi confirmado na análise da expressã o do receptor de progesterona no
Discussão 65
epitélio nas lesões ovarianas e intestinais de paci entes independentes, demonstrado na
tabela 9.
Corroborando os resultados encontrados no presente estudo, Fujishita et al. (1997)
também observaram elevada expressão de receptor de estrogênio (ER) e de
progesterona (PR) nos tecidos endometriais ectópico s, tanto no epitélio como no
estroma, e esta expressão também não variou de acordo com a fase do ciclo.
Em conjunto, as análises das expressões dos recept ores de estrogênio e
progesterona nos diferentes tipos de lesão, mostran do que os mesmos se comportam
diferentemente nas lesões ovarianas, reforçam os resultados apresentados anteriormente,
que demonstram a peculiaridade das lesões de endometriose que acometem o ovário.
Moléculas de adesão e Classificação Histológica da endometriose
Conforme observado na tabela 10, no grupo de estud o com as três doenças
concomitantes, não foram encontradas diferenças sig nificativas nas expressões dos
marcadores relacionados à transição epitélio-mesênq uima de acordo com as três
classificações histológicas identificadas, sendo as classificações: ‘estromal’, ‘estromal e
indiferenciada’, e ‘estromal e mista’. Entretanto, uma possível razão para isto é o fato de
este grupo de pacientes não ter apresentado nenhuma doença classificada como
‘estromal e bem diferenciada’, que de acordo com Ab rão et al. (2003) estaria associada
ao melhor prognostico da doença, e as pacientes inc luídas neste grupo foram mulheres
acometidas com as três modalidades da endometriose concomitantemente, quadro
considerado como um dos mais graves.
Nas tabelas 11 e 12, na qual é realizada a avaliaç ão dos marcadores de acordo
com as classificações histológicas para os grupos 2 A e 2B (doença ovariana e intestinal
independentes) pode ser observado que a expressão p roteica da n-caderina na doença
classificada como ‘estromal e bem diferenciada’ se mostrou maior quando comparada
às outras classificações, tanto nas lesões de ovári o como nas lesões de intestino, assim
como houve uma diferença na expressão da beta-caten ina na endometriose intestinal,
que também se mostrou maior na classificação ‘estro mal e bem diferenciada’. Estes
resultados reforçam que a n-caderina parece ser uma molécula de grande relevância nas
lesões de endometriose, podendo trazer informações adicionais com relação ao
prognóstico da doença, influenciando a agressividad e, o potencial de migração,
Discussão 66
proliferação e invasibilidade que as células das le sões apresentam. (Abrao et al, 2003;
Qi et al, 2005).
Moléculas de adesão e Receptores Hormonais
Contudo, uma análise de grande importância pode ser observada na tabela 13, na
qual a expressão proteica das moléculas de adesão f oi relacionada com a expressão dos
receptores hormonais, estrogênio e progesterona. Se ndo a endometriose uma doença
dependente dos hormônios esteroides, a passagem pel o processo da TEM poderia ser
estimulada pela ação destes hormônios, o que seria detectado neste estudo pela relação
entre a expressão das moléculas de adesão e a expre ssão dos receptores hormonais.
Deste modo, pode ser observado na tabela 13 que a e xpressão da n-caderina foi
diretamente proporcional à expressão do receptor de estrogênio, o que pode significar
que um aumento da ação deste hormônio esteja envolv ido na mediação do aumento da
expressão da n-caderina, o que atribuiria às célula s das lesões de endometriose uma
maior capacidade migratória, maior capacidade de in vasibilidade e a elevada resistência
à apoptose, reforçando o fato de que este hormônio esteja envolvido patogênese desta
doença.
Com os rápidos avanços da ciência, trazendo milhar es de novos conhecimentos a
todo instante, espera-se que a compreensão dos meca nismos envolvidos na origem e
desenvolvimento da endometriose ocorra em breve, fa zendo com que surjam
abordagens menos invasivas e mais eficientes de dia gnóstico e tratamento desta doença.
O presente trabalho buscou colaborar com o entendim ento de um possível processo
envolvido na patogênese da endometriose: a transiçã o epitélio-mesênquima. Através da
observação de pacientes com as três modalidades da endometriose concomitantemente,
o que possibilitou a comparação da expressão dos ma rcadores propostos entre os locais
de lesão, com principal destaque à alteração da mol écula de adesão n-caderina, os
resultados encontrados sugerem que a TEM possui um papel importante nos
mecanismos de migração, proliferação e invasibilida de que as células desta afecção
apresentam. Este estudo mostrou ainda, que a endome triose ovariana apresenta
peculiaridades que a faz diferente patologicamente das doenças superficial e profunda.
Contudo, são necessários estudos adicionais para en tender o papel que as moléculas
Discussão 67
relacionadas ao processo de transição epitélio-mesê nquima desempenham nesta doença
complexa e enigmática.
CONCLUSÃO
Conclusão 69
Diante dos resultados apresentados e discutidos, conclui-se:
/xrhombus A avaliação da expressão proteica dos marcadores r elacionados à transição
epitélio-mesênquima no grupo de pacientes acometida s por endometriose
peritoneal, ovariana e intestinal concomitantemente , demonstraram que a n-
caderina foi menos expressa no estroma das lesões d e ovário quando comparada ás
lesões de peritônio e intestino, o que indica a pec uliaridade desta manifestação da
doença. A expressão da e-caderina e da beta-catenin a não apresentaram alterações,
sendo invariavelmente expressas no epitélio e não apresentando nenhuma expressão
no estroma de todas as lesões. A expressão proteica dos receptores hormonais
revelou que a endometriose ovariana apresenta uma m enor expressão dos
receptores de estrogênio e progesterona nas células epiteliais em comparação com
doença peritoneal e intestinal.
/xrhombus A avaliação da expressão proteica dos marcadores relacionados à transição epitélio-
mesênquima no grupo de pacientes acometidas por end ometriose ovariana e
intestinal independentes demonstrou a expressão pro teica das moléculas de adesão
e-caderina e beta-catenina também não apresentou al terações, mas a n-caderina foi
mais expressa no epitélio do ovário do que no epité lio do intestino. Com relação
aos receptores hormonais, foi observado que o recep tor de progesterona esta
diminuídos das lesões ovarianas em comparação às in testinais, assim como no
grupo com as três doenças concomitantes.
/xrhombus As variações da expressão dos marcadores propostos entre o componente epitelial e
estromal se comportaram de acordo com o esperado pa ra o tecido endometrial
tópico, não acrescentando informações à etiopatogenia da endometriose.
/xrhombus A expressão proteica dos marcadores propostos; e-ca derina, n-caderina, beta-
catenina, receptor de estrogênio e receptor de prog esterona; não é influenciada pela
fase do ciclo menstrual das pacientes.
/xrhombus A classificação histológica da endometriose não pos sui relação com a expressão
proteica dos marcadores e-caderina, receptor de est rogênio e receptor de
progesterona, mas a maior expressão da n-caderina e da beta-catenina parece estar
relacionada com a classificação ‘estromal e bem dif erenciada’ o que pode estar
Conclusão 70
relacionado com o grau de agressividade e consequentemente com o prognóstico da
doença.
/xrhombus A correlação da expressão proteica das moléculas de adesão e dos receptores
hormonais demonstrou uma relação direta da quantida de de n-caderina e do
receptor de estrogênio, o que pode demonstrar a imp ortância desta molécula de
adesão na progressão da doença possivelmente estimulada pelo estrogênio.
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