Endometriosis; Pelvic pain; Nanoemulsion; Methotrexate; Clinical
treatment; Nanoparticles; Target therapy.
Introdução 1
1 INTRODUÇÃO
1.1 Endometriose
Endometriose é definida pela presença de glândulas e/ou estroma
endometriais fora do útero (Benagiano et al., 2014) e endometriose profunda
consiste nas lesões com infiltração peritoneal superior a 5 mm (Cornillie et al.,
1990).
Sua prevalência corresponde a 6 a 18% da população feminina (Eskenazi
et al., 1997; Giudice & Kao, 2004; Parasar et al., 2017; Shafrir et al., 2018, Moradi
et al., 2021), mas este percentual é maior no subgrupo de mulheres com queixa
de infertilidade e dor pélvica (Wattiez et al., 2013; Parasar et al., 2017, Moradi et
al., 2021). Estas duas principais manifestações clínicas são responsáveis pelo
grande prejuízo social das mulheres afetadas por esta doença e, quando
somados ao comum atraso no diagnóstico e tratamento adequados, levam à
diminuição drástica na qualidade de vida (Wattiez et al., 2013). O tratamento
cirúrgico da endometriose parece aumentar a chance de gravidez (Donnez &
Squifflet, 2010; Roman et al., 2018), além de aumentar as taxas de sucesso
quando realizada antes da fertilização in vitro (Casals et al., 2021), ressaltando
o impacto negativo desta afecção sobre a fertilidade feminina (Darai et al., 2017).
Outras queixas incluem dismenorréia, dispareunia de profundidade, disquezia e
alterações urinárias cíclicas, comuns na doença profunda (Koninckx et al., 2012).
A laparoscopia é considerada padrão-ouro para o diagnóstico e
tratamento da endometriose (Catenacci et al., 2009; Nezhat et al., 2022) e
diversos estudos mostraram que a exérese cirúrgica da doença reduz a queixa
álgica associada à endometriose, embora os dados sejam conflitantes (Jacobson
et al., 2009; Duffy et al., 2014; de Paula Andres et al., 2017; Bafort el al., 2020;
Zondervan et al., 2020). No entanto, como a cirurgia não é tratamento indicado
em todos os casos, o exame físico direcionado associado a métodos de imagem
específicos têm sido bastante utilizados na tentativa de aperfeiçoar o diagnóstico
não-invasivo da doença (Abrão et al., 2015). Os achados apresentados pela
Introdução 2
evolução dos métodos de imagem (Abrão et al., 2007; Gonçalves et al., 2009;
Gonçalves et al., 2010; Gonçalves et al., 2021) representaram um grande avanço
para o melhor tratamento da doença profunda e praticamente eliminaram a
necessidade da laparoscopia diagnóstica (Tirlapur et al., 2015; Gonçalves et al.,
2021; Koninckx et al., 2021). Os métodos de imagem têm papel fundamental no
planejamento terapêutico da paciente com endometriose, principalmente quando
há indicação cirúrgica, auxiliando na programação de equipe multidisciplinar
para maior segurança no procedimento ou ainda, para conscientizar a paciente
dos potenciais riscos cirúrgicos (Donnez et al., 2010; Wolthuis et al., 2014; Abrão
et al., 2015).
Estudos prévios demonstraram que tanto a ressonância magnética (RNM)
quanto o ultrassom transvaginal (USTV), desde que realizado com protocolo
adequado e por profissional experiente na avaliação das imagens, têm altas
taxas de acurácia no diagnóstico de endometriose profunda, com índices
discretamente melhores para a ultrassonografia, que alcançou sensibilidade de
95-98%, especificidade de 98-100%, valor preditivo positivo de 98-100%, valor
preditivo negativo de 97-98%, e acurácia de 97 a 99%, dependendo da
localização das lesões (Abrão et al., 2007; Gonçalves et al., 2009). O USTV com
preparo intestinal foi estabelecido como um exame adequado para avaliação
detalhada das lesões intestinais, ajudando no planejamento cirúrgico da
abordagem mais adequada (shaving, ressecção discóide ou segmentar)
(Gonçalves et al., 2010). Por meio destes exames é possível determinar, além
da localização das lesões, as medidas precisas de extensão e profundidade, o
que também permite o acompanhamento clínico de pacientes com boa resposta
às terapias hormonais disponíveis (Abrão et al., 2015; Andres et al., 2019).
Outro dado importante relacionado à abordagem da doença, refere-se ao
fato do tratamento cirúrgico da endometriose profunda, mesmo quando a equipe
é experiente, apresentar risco de complicações (De Cicco et al., 2011; Ceccaroni
et al., 2012; Imboden et al., 2021; Tschann et al., 2021). Uma revisão sobre
ressecção intestinal para o tratamento de endometriose profunda mostrou taxa
de complicação de 22,2%, sendo que complicações maiores ocorreram em 11%
das mulheres, com 6,4% de complicações intestinais severas (De Cicco et al.,
Introdução 3
2011). Disfunções intestinais e vesicais temporárias, consideradas como
complicações menores, ocorreram em 14,7% das pacientes (De Cicco et al.,
2011). Outro estudo publicado em 2013 mostrou taxa de 17,9% de
comprometimento ureteral por endometriose quando a lesão retrocervical
apresentava diâmetro superior ou igual a 30 mm (Kondo et al., 2013),
aumentando o risco intra-operatório de lesão ureteral. Um estudo de coorte
retrospectivo procurou avaliar os fatores preditivos para disfunções miccionais
após cirurgia de endometriose profunda, e correlacionou a presença de lesões
de endometriose profunda que se encontravam entre o ligamento uterossacro e
a parede pélvica com o aumento significativo do risco de disfunções miccionais
pós-operatórias, seja por dano ao plexo hipogástrico inferior, mais
especificamente aos nervos esplâncnicos pélvicos, como por dano direto aos
nervos autonômicos causado pelos nódulos de endometriose (Imboden et al.,
2021).
Algumas disfunções intestinais podem ser observadas após cirurgias com
ressecção intestinal, como constipação crônica por denervação do cólon (Roman
et al., 2013). Outros resultados adversos incluem a necessidade de derivação
intestinal com estomias, estenose da área de anastomose, diarréia crônica com
incontinência fecal (observada nas lesões mais baixas), fístulas, retenção
urinária e disfunção vesical (também associadas à denervação de plexo
hipogástrico inferior) e lesões vasculares inadvertidas, situações indesejadas
que podem conduzir à reabordagens cirúrgicas posteriores (Minelli et al., 2009).
Outro estudo, acerca das complicações com a ressecção segmentar para o
tratamento de endometriose intestinal, relatou alterações funcionais persistentes
na esfera sexual em 64% das pacientes, principalmente dificuldades na
lubrificação e anorgasmia, além das mencionadas disfunções intestinais e
urinárias, no geral transitórias (Turco et al., 2020).
Apesar do tratamento cirúrgico ser considerado como alternativa
importante quando indicado de forma adequada, uma revisão sistemática
encontrou, entre mulheres com endometriose profunda operadas, taxas de
recorrência variando de 2 a 43,5% (Ianieri et al., 2018). A supressão hormonal
no pós-operatório parece reduzir esse risco, segundo revisão sistemática que
Introdução 4
incluiu 2137 pacientes, além de reduzir a queixa de dor (Zakhari et al., 2021). A
influência do tipo de ressecção intestinal realizado (shaving, ressecção discoide
ou segmentar) e o risco de recorrência ainda é um dado conflitante (Ianieri et al.,
2018).
Por outro lado, as opções terapêuticas não-cirúrgicas disponíveis giram
em torno do tratamento hormonal à base de progestagênios, que têm ação
atrófica e anti-inflamatória no endométrio tópico e nas lesões de endometriose
(Ferrero et al., 2014; Ahn et al., 2015). O uso de contraceptivos orais
combinados, agonistas ou antagonistas de GnRH e progestagênios isolados
demonstrou ser eficaz no controle da dor em cerca de 2/3 das pacientes
(Vercellini et al., 2016; Andres et al., 2019; Samy et al., 2021). Os agonistas de
GnRH apresentam impacto negativo na densidade mineral óssea das usuárias
e múltiplos efeitos colaterais da privação hormonal, sendo pouco utilizados
atualmente (Berlanda et al., 2016). Além disso, em estudo que comparou a ação
do agonista do GnRH no tratamento de endometriose peritoneal superficial e de
endometriose profunda concluiu que a medicação foi incapaz de suprimir a
atividade mitótica e diminuir a vascularização estromal nos casos de
endometriose profunda, ao contrário da ação na endometriose peritoneal, que
apresentou diminuição drástica da vascularização estromal (Donnez et al.,
1996). Esses dados sinalizam para provável diferença etiológica das
apresentações da doença, com implicações no tratamento das entidades
clínicas, o qual deve ser diferenciado (Kamergorodsky et al., 2009).
Há que se considerar também que o tratamento clínico hormonal
inviabiliza a correção de uma das maiores queixas associada a esta doença, que
é a infertilidade. Todas essas justificativas impulsionam para a busca de
alternativas ao tratamento cirúrgico e à supressão hormonal, que contemplem a
melhora do quadro álgico associado à endometriose e que minimizem as
limitações, presentes nas atuais opções. Neste sentido, o desenvolvimento de
terapias farmacológicas sítio-específicas poderia representar um grande ganho
na diminuição da morbidade associada às terapêuticas atuais.
Introdução 5
1.1.1 Endometriose e dor
Estudos demonstraram que existem muitos mecanismos relacionados às
queixas álgicas das pacientes com endometriose e, apesar de um grande
número de pesquisas nesta área, não há tratamento definitivo para o controle da
dor, o sintoma mais impactante na qualidade de vida da paciente portadora da
doença (Howard, 2009; Machairiotis et al. , 202 1). Existem, pelo menos, três
mecanismos principais que originam a dor nessas pacientes: a dor de origem
nociceptiva, inflamatória e neuropática (Howard, 2009).
As pesquisas ao longo dos anos demonstraram a associa ção da doença
com inflamação e com níveis aumentados de cito cinas (Podgaec et al., 2007;
Nothnick & Alali, 2016 ; Riccio et al., 2018; Bellelis et al., 2019; Li & LibinWeng,
2022, Brichant et al., 2022), com provável relação direta entre os escores de dor
e a concentração desses mediadores inflamatórios (Li & LibinWeng, 2022), o que
corrobora a hipótese de que a maior parte da dor associada à endometriose é
de origem inflamatória (Howard, 2009 ; Brichant et al ., 2022 ). O aumento das
citocinas se deve à produção exacerbada tanto por células do sistema imune ,
quanto pelo próprio tecido endometriótico ( Nothnick & Alali, 2016 ). Entre as
citocinas identificadas existem também as que exibem atividade anti -
inflamatória, o que parece contribuir para driblar o sistema imune, promovendo
a sobrevivência das lesões (Zhou et al., 2019). Um m ecanismo que pode ser
implicado n essa produção aumentada de cito cinas é a resposta alterada à
progesterona observada em algumas mulheres, por expressão reduzida de
receptores para este hormônio. Neste caso, haveria uma resistência à ação das
drogas e, desta forma, a ação antiinflamatória da progesterona, responsável pela
redução da dor, não seria observada (Nothnick & Alali, 2016).
Entre os mediadores inflamatórios estudados encontram-se o VEGF (fator
de crescimento endotelial vascular), TNF-α (fator de necrose tumoral alfa), o MIF
(fator inibitório da migração de macrófagos), a PGE2 (prostaglandina E2) e o
receptor de estrogênio-β (ER-β) (Nothnick & Alali, 2016; Li & LibinWeng, 2022).
Outros incluem as interleucinas 1, 6, 8, 10 e 17 (IL-1, IL-6, IL-8, IL-10 e IL-17), o
fator de crescimento neural (NGF), a prostaglandina F2-alfa e os mastócitos
(Howard, 2009; Riccio et al., 2018; Malvezzi et al., 2019; Li & LibinWeng, 2022).
Introdução 6
Foi demonstrado anteriormente uma tendência à predominância da resposta Th2
(linfócitos T helper 2) em pacientes com a doença (Podgaec et al., 2007); no
entanto, mais estudos vêm sendo realizados para esclarecer os mecanismos
envolvidos na alteração da resposta imune observadas nestas pacientes (de
Barros et al., 2017).
Por estes aspectos, dada a relevância da inflamação como mecanismo de
promoção da dor, a inibição de mediadores inflamatórios pode ser uma
alternativa eficaz às medicações hormonais, consideradas como primeira linha
(Dunselman et al., 2014; Zondervan et al., 2020; Samy et al., 2021, Brichant et
al., 2022) para o tratamento da dor em pacientes com endometriose profunda
(Howard, 2009; Machairiotis et al., 2021). Frente a isto, e por suas propriedades
e mecanismo de ação, o metotrexato foi a droga de escolha para este estudo
clínico.
1.2 Metotrexato
O metotrexato (ácido 4-amino-10 metil fólico), um dos mais antigos
quimioterápicos existentes, é um agente antiproliferativo e imunossupressor
utilizado no tratamento de largo espectro de doenças (Huennekens et al., 1994;
Moura et al., 2011). Introduzido pela primeira vez em 1940, constitui um análogo
do ácido fólico que inibe competitivamente a diidrofolato-redutase (DHFR), a
timidilato sintase (TS) e também a 5-aminoimidazol-4-carboximide ribonucleotide
(AICAR) formiltransferase (Estlin et al., 2001; Abolmaali et al., 2013). A DHFR é
uma enzima importante na manutenção do pool intracelular do cofator de folato
reduzido e sua inibição resulta na depleção de tetraidrofolatos (Estlin et al., 2001;
Abolmaali et al., 2013). A TS e a AICAR são importantes enzimas na síntese de
novo de timidilato e purinas e, para ambas, o cofator de folato reduzido é
essencial (Estlin et al., 2001; Abolmaali et al., 2013). Sua toxicidade, comparada
a de outros quimioterápicos, é relativamente baixa (Huennekens et al., 1994;
Moura et al., 2011); apesar disso, seu uso não é isento de efeitos colaterais
(Huennekens et al., 1994; Kremer et al., 1994; Moura et al., 2011).
Introdução 7
O mecanismo de ação do metotrexato se deve ao seu efeito
antiproliferativo e imunossupressor, com os seguintes efeitos atribuídos a ele:
redução da proliferação celular, aumento na apoptose das células T, aumento
na liberação de adenosina endógena, alteração na expressão de moléculas de
adesão celular e influência na produção de citocinas, resposta humoral e
formação óssea (Wessels et al., 2008; Katturajan et al., 2021). O aumento na
liberação de adenosina A2A na superfície das células inflamatórias, com
consequente redução do acúmulo de leucócitos, e a inibição direta da
proliferação celular de linfócitos envolvidos no processo inflamatório, por meio
da inibição da síntese de purina e pirimidina de novo, são mecanismos descritos
como responsáveis pela ação anti-inflamatória da droga (Wessels et al., 2008;
Abolmaali et al., 2013).
O metotrexato entra na célula via carreador de folato reduzido (RFC -
reduced folato carrier), o qual possui ampla distribuição no organismo (Kremer
et al., 2004). Outro grupo de proteínas que faz transporte transmembranas,
chamado de receptores de folato (FRs), tem expressão variável e tipicamente
são responsáveis pelo transporte de ácido fólico e da leucovorina (5-CH3-THF),
a forma do folato encontrada em alimentos (Kremer et al., 2004).
A resistência à droga, encontrada em modelos de cultura de células ou
em pacientes oncológicos, pode resultar do aumento nos níveis de DHFR
(devido à amplificação do gene), DHFR mutantes, com afinidade reduzida pelo
metotrexato, ou diminuição da captação ou poliglutamação da droga. Sua
característica hidrofílica, com baixa difusão nas membranas celulares, também
responde pela diminuição da efetividade (Huennekens et al., 1994; Moura et al.,
2011).
Apesar da droga ser efetiva para o tratamento de tumores e artrite
reumatóide, o uso da forma comercial pode ser restringido pela sua
farmacocinética, como por exemplo, baixa biodisponibilidade em doses
elevadas, pequena meia-vida e baixa concentração nos tecidos-alvo (Abolmaali
et al., 2013). Soma-se a isso a variabilidade interpessoal de resposta à droga,
que pode ser atribuída a variações genotípicas e polimorfismos nos genes do
carreador de folato reduzido (RFC-1), da 5-aminoimidazol-4-carboximide
Introdução 8
ribonucleotide (AICAR) formiltransferase, e da timidilato sintase (TS) (Dervieux
et al., 2004). Esses efeitos, no entanto, parecem ser suprimidos com o aumento
na concentração de poliglutamatos de metotrexato (MTXPGs), resultado da
ativação da droga pela folilpoliglutamato sintetase após sua entrada na célula
(Dervieux et al., 2004). Desta forma, indivíduos com genótipo desfavorável à
ação da droga e que apresentem baixos níveis de MTXPGs podem necessitar
de um tratamento com doses mais elevadas de metotrexato, no intuito de
maximizar a poliglutamação da droga e atingir a eficácia esperada (Dervieux et
al., 2004), o que também implicaria no aumento da severidade dos efeitos
colaterais da mesma (Albomaali et al., 2013).
Para vencer essa resistência, muitas estratégias foram desenvolvidas.
Uma delas consiste em mudar quimicamente a droga para melhorar sua
lipofilicidade; outra, em desenvolver novos sistemas de delivery da droga,
melhorando a segurança, a biodisponibilidade e a estabilidade da droga em
relação à degradação química e enzimática e diminuindo a toxicidade (Moura et
al., 2011; Albomaali et al., 2013).
1.2.1 Aplicação clínica
O metotrexato tem sido utilizado clinicamente para o tratamento de
tumores sólidos e hematológicos, doenças autoimunes, neoplasias
trofoblásticas, gravidez ectópica e para o aborto voluntário em países onde este
procedimento é permitido (em associação ao misoprostol) (Hyoun et al., 2012;
van Mello et al., 2012; Albomaali et al., 2013; Rana et al., 2013; Winter MC, 2021;
Zarou et al., 2021). Uma série de casos sugere o uso para tratamento
conservador de distúrbios aderentes da placenta, na dose de 70 mg/m2, antes
da embolização das artérias uterinas (Babaei et al., 2019). Para o tratamento da
psoríase ou da artrite reumatóide, a dose utilizada é de 7,5 a 20 mg/semana
(Hyoun et al., 2012) e na gravidez ectópica pode ser utilizado regime de dose
única ou multidose (Rana et al., 2013; van Mello et al., 2012). É uma droga com
aplicabilidade consagrada, sendo considerada de primeira linha no tratamento
da artrite reumatóide (Kremer et al., 2004; Padjen et al., 2020; Hannoodee &
Mittal, 2021; Sherbini et al., 2021).
Introdução 9
1.2.2 Perfil de toxicidade
A limitação da terapia com metotrexato é representada pelas reações
adversas, que ocorrem em 5 a 35% dos pacientes em tratamento prolongado
(Prey et al., 2009). São relatados: mielossupressão (0,6 a 4%), manifestações
gastrointestinais, como náuseas, vômitos, úlceras orais e inapetência (0,01 a
4%), queda de cabelo (0,2%), pneumonites (0,4 a 0,8%), alterações no sistema
nervoso central (1 a 3,7%), déficit da função renal (0,4 a 1,4%), perda de peso
(1%), aumento de enzimas hepáticas (3,2 a 4%), rash cutâneo (0,02%) (Dervieux
et al., 2004; Prey et al., 2009; Varatharajan et al., 2009; Hyoun et al., 2012;
Padjen et al., 2020; Hannoodee & Mittal, 2021). Uma revisão sistemática sobre
a suplementação com ácido fólico demonstrou redução dos efeitos colaterais
hepáticos, mas seu uso pode requerer maiores doses de metotrexato em alguns
pacientes, para a obtenção de eficácia clínica (Prey et al., 2009).
O uso do metotrexato está associado a taxas relevantes de abandono do
tratamento atribuído aos efeitos colaterais da droga (Hider et al., 2009;
Varatharajan et al., 2009; Lopez-Olivo et al., 2014; Sherbini et al., 2021),
especialmente os sintomas gastrointestinais, que foram o efeito adverso mais
comumente observado (Varatharajan et al., 2009; Sherbini et al., 2021).
O Colégio Americano de Reumatologia (ACR) recomenda, antes de iniciar
o tratamento da artrite reumatóide com metotrexato, que se realize testes
sanguíneos hepáticos, incluindo dosagem de alanina aminotransferase (ALT),
aspartato aminotransferase (AST), fosfatase alcalina, albumina e bilirrubinas,
sorologias para hepatite B e C, hemograma e creatinina. O seguimento deve ser
feito a cada 2 a 4 semanas nos primeiros três meses com hemograma,
transaminases (AST e ALT) e creatinina. De 3 a 6 meses do início da terapia, o
intervalo entre a monitorização passa a ser de 8 a 12 semanas; após 6 meses
do uso da droga, o intervalo indicado é de 12 semanas (Singh et al., 2016). A
biópsia hepática deve ser considerada se o paciente desenvolver anormalidades
persistentes nos testes sanguíneos de função hepática, hepatites B e C crônicas
ou antecedente de uso excessivo de álcool (Kremer et al., 1994; Hannoodee &
Mittal, 2021). Em artigo de revisão publicado recentemente, a recomendação é
Introdução 10
a realização dos exames mencionados semanalmente no primeiro mês e a cada
dois meses após, e também a realização de triagem para tuberculose nos países
endêmicos (Hannoodee & Mittal, 2021).
Já os efeitos colaterais relatados para a dose única de metotrexato no
tratamento de gravidez ectópica são brandos e autolimitados (Oron et al., 2013;
Hendriks et al., 2020). Os mais comuns são conjuntivite e estomatite aftosa.
Outros incluem sintomas gastrointestinais e, raramente, pneumonia, dermatite,
supressão da medula óssea, aumento das enzimas hepáticas ou alopécia (Oron
et al., 2013; Hendriks et al., 2020).
1.2.3 Contraindicações
As contraindicações ao tratamento com metotrexato são: gestação,
amamentação, imunodeficiência, alcoolismo, doença hepática crônica, discrasia
sanguínea preexistente, sensibilidade conhecida ao metotrexato, doença
pulmonar ativa, úlcera péptica, disfunções hepáticas, renais ou hematológicas e
pacientes submetidas à radioterapia (Oron et al., 2013; Barnhart et al., 2000;
Hannoodee & Mittal, 2021).
1.2.4 Impacto reprodutivo
Estudos em ratos e macacos mostraram que a embrioletalidade parece
ser mais comum do que a teratogênese com o uso da droga durante a gravidez
(Hyoun et al., 2012). Em humanos, os estudos baseiam-se em relatos e séries
de casos, muitas vezes com o uso concomitante de outras drogas, diferentes
regimes de doses e em idades gestacionais diversas, sendo difícil estabelecer
critérios comparativos com a incidência de malformações na população em geral
(Hyoun et al., 2012). Parece haver concordância na maioria dos casos no que
diz respeito ao período de exposição mais suscetível ao desenvolvimento da
embriopatia associada à droga, que seria entre 6 e 8 semanas após a
concepção, em doses iguais ou superiores a 10 mg/semana (Feldkamp et al.,
1993; Hyoun et al., 2012). Entre as malformações associadas, encontram-se
hérnia umbilical, dolicocefalia, alveolite fibrosante, atresia de válvula pulmonar,
Introdução 11
anencefalia, craniossinostose, microcefalia, tetralogia de Fallot, deficiências em
membros e sindactilia (Walden et al., 1979; Hyoun et al., 2012; Verbene et al.,
2019). Há um estudo de revisão publicado anteriormente que é enfático no papel
teratogênico da droga (Lloyd et al., 1999). Outro estudo retrospectivo, que
avaliou o grupo de drogas inibidoras da DHFR sem individualizar o metotrexato,
encontrou aumento no risco de defeitos cardiovasculares e fendas orais, quando
a exposição se deu no segundo ou terceiro mês após a data da última
menstruação (Hernández-Diaz et al., 2000).
Um artigo de revisão sobre os efeitos da droga na gravidez, fertilidade e
lactação recomenda washout de 6 meses, levando em consideração as
recomendações do fabricante (Lloyd et al., 1999). Recomendações mais atuais
orientam aguardar pelo menos 1 a 3 meses após interrupção da medicação para
a concepção e que as tentantes devem ser suplementadas com ácido fólico
(Janssen et al., 2000; Padjen et al., 2020).
Em relação à fertilidade, estudo prospectivo com 1064 mulheres que
comparou os resultados do tratamento de gravidez ectópica realizado com
salpingectomia, salpingostomia e metotrexato, não demonstrou prejuízo da
fertilidade com o uso da droga, em comparação aos outros métodos, sendo que
no subgrupo de pacientes com outros fatores de risco para infertilidade (idade
>35 anos, doença tubária, história de infertilidade), o tratamento conservador
mostrou-se superior quando se analisou a taxa posterior de gravidez intrauterina
(de Bennetot et al., 2012). É considerado uma quimioterapia de baixo risco para
a preservação da fertilidade, com manutenção usual da regularidade dos ciclos
menstruais e sem alterar os níveis de hormônio anti-mülleriano (AMH) antes e
após o seu uso no tratamento clínico de gravidez ectópica (Oriol et al., 2008;
Shirazi et al., 2020). Em ciclos de FIV realizados após o tratamento com a droga,
não se observou nenhuma diferença na quantidade de gonadotrofinas
necessárias para o estímulo, nos picos de estradiol, no número de oócitos
recuperados ou no número total de embriões obtidos, além da taxa de
implantação manter-se na média esperada para esse tipo de tratamento (Oriol
et al., 2008). Concluiu-se, portanto, que o uso do metotrexato em regime de dose
única não teve impacto na reserva ovariana, sendo uma droga segura para o uso
Introdução 12
nesse regime em pacientes com desejo reprodutivo (Oriol et al., 2008; Shirazi et
al., 2020). Outro estudo que avaliou o uso da droga no tratamento de doença
trofoblástica gestacional mostrou também não haver influência na performance
reprodutiva após o tratamento (Woolas et al., 1998).
1.2.5 Metotrexato e Endometriose
Células estromais e epiteliais de endometriomas ovarianos e de implantes
de endometriose profunda foram cultivadas in vitro e avaliadas em comparação
ao endométrio de controles sem a doença, quanto à atividade proliferativa, sendo
encontradas taxas de proliferação 50%, 63%, 87% e 74% maiores do que nas
células controles, respectivamente. O aumento da atividade proliferativa na
endometriose, sugerido por esse estudo, sinaliza para um possível benefício no
uso de drogas antiproliferativas no tratamento desta afecção (Ngô et al., 2010).
Há poucos dados do uso de metotrexato em pacientes com endometriose
e se referem ao uso em endometriomas ovarianos, com aplicações locais da
droga. Em estudo publicado em 2007, que avaliou 14 pacientes com
endometriomas recorrentes submetidas à drenagem guiada por ultrassonografia,
seguida da injeção de 30 mg de metotrexato intracisto, encontrou-se taxa de
28,6% de recidiva (Agostini et al., 2007). A realização apenas da drenagem
guiada por ultrassonografia apresentou taxa de recorrência de 53% (Giorlandino
et al., 1993), sendo a injeção de metotrexato após a aspiração do cisto, portanto,
uma alternativa sugerida, apesar do pequeno número de pacientes, com o intuito
de se evitar ou postergar o procedimento cirúrgico (Agostini et al., 2007).
Outro estudo, com desenho semelhante, encontrou taxa de resolução
com o procedimento de 84,6% (em 1, 2 ou 3 punções), com 15,4% de recidiva
(Mesogitis et al., 2005). Um terceiro estudo, que também realizou aspiração de
endometriomas unilaterais e injeção de metotrexato, em 65 pacientes, buscou
avaliar o impacto deste procedimento na resposta ovariana e no resultado
reprodutivo de pacientes submetidas à ciclos de FIV (Shawki et al., 2012). Não
houve diferença estatisticamente significativa no número de oócitos
recuperados, taxa de fertilização e qualidade dos embriões obtidos do ovário
tratado em relação ao ovário contralateral, nem houve diferença na característica
Introdução 13
e qualidade endometrial após exposição. O estudo também demonstrou taxa
cumulativa de gravidez de 48% e nenhuma anormalidade congênita foi
detectada nos exames de ultrassom (US) realizados durante a gestação e nem
no exame clínico após o parto, concluindo que não houve comprometimento do
resultado reprodutivo após uso da droga na dose utilizada (Shawki et al., 2012).
Quando buscou-se avaliar a resposta quanto à diminuição da atividade
proliferativa in vitro com o uso de metotrexato em cultura de células
endometrióticas, não se observou nenhum efeito com as concentrações da
droga utilizadas (1 mM, 100µm e 10µM). A droga não foi testada in vivo nesse
estudo (Ngô et al., 2010).
Na tentativa de maximizar a ação local do metotrexato nos tecidos
afetados pela doença, reduzindo efeitos colaterais e diminuindo resistência à
droga, optamos pela utilização da droga acoplada a uma nanoemulsão lipídica,
em sistema de delivery, como veremos a seguir.
1.3 Lipoproteínas de Baixa Densidade (LDL) e Nanoemulsão Lipídica
(LDE)
As lipoproteínas de baixa densidade (LDL) são as principais carreadoras
de colesterol do plasma (Pinheiro et al., 2006; Dias et al., 2007). Essas
lipoproteínas são removidas da circulação para as células por meio de
receptores específicos da membrana plasmática, que reconhecem a
apolipoproteína B100 (apoB100), única molécula de proteína presente na LDL
(Graziani et al., 2002; Pinheiro et al., 2006; Dias et al., 2007). Quando acoplado
ao receptor específico na membrana da célula, o LDL é internalizado em
vesículas, que se fundem em lisossomos. Estes sofrem desidratação e, com a
consequente ruptura dessas vesículas, os lípides e os aminoácidos da apoB100
são lançados no citoplasma (Graziani et al., 2002).
Muitos estudos evidenciaram a superexpressão de receptores de LDL em
diversas linhagens de células tumorais (Ho et al., 1978; Graziani et al., 2002),
devido à maior necessidade de colesterol para a síntese de membranas,
consequente à proliferação acelerada de células malignas (Maranhão et al.,
Introdução 14
1994). Esta descoberta levou à possibilidade do uso do LDL como um carreador
de quimioterápicos para o tratamento de diversos tipos de tumores, promovendo
um efeito sítio-específico, reduzindo os efeitos colaterais da ação da droga em
células saudáveis sem, no entanto, perder o efeito citotóxico da mesma
(Maranhão et al., 1994). Graziani et al. desenvolveram uma emulsão composta
basicamente por fosfolipídeos e ésteres de colesterol (LDE), com estrutura
similar à porção lipídica do LDL. A apolipoproteína E (apo E), adquirida pela LDE,
quando em contato com o plasma, serve de ligante da emulsão com os
receptores de LDL (Graziani et al., 2002). A LDE tornou-se, assim, um dispositivo
adequado para carrear moléculas de drogas para o tratamento de diversos tipos
de cânceres, devido à internalização deste complexo droga-emulsão, mediado
pelos receptores de LDL (Graziani et al., 2002). Neste contexto, vários estudos
foram realizados, comprovando a captação aumentada do LDE em tecidos
neoplásicos (Guido et al., 2022), e comparando a farmacocinética da
apresentação habitual de quimioterápicos com a mesma droga acoplada à LDE,
ressaltando os benefícios principalmente com relação à redução dos efeitos
colaterais (Maranhão et al., 2002; Valduga et al., 2003; Rodrigues et al., 2005).
Nesse sentido, em 2017, Gibran et al., observou que implantes de
endometriose profunda intestinal também apresentavam superexpressão de
receptores para esta lipoproteína, à semelhança de tumores malignos, tanto em
relação à controles saudáveis, quanto em comparação com o endométrio tópico
das pacientes com endometriose (Gibran et al., 2017).
Posteriormente, outro estudo (Bedin et al., 2019) buscou determinar se
esses receptores de LDL, superexpressos nos focos de endometriose, seriam
capazes de absorver o LDE marcado com carbono-14. A conclusão foi que esse
composto foi captado pelo tecido endometriótico de pacientes portadoras de
focos de endometriose profunda e ovariana, pelo peritônio saudável adjacente
às lesões e pelo endométrio. As lesões intestinais captaram menos do que as
não-intestinais, provavelmente devido ao maior componente fibrótico das lesões
observadas nesta localização.
Ambos os estudos sinalizaram para a possibilidade de desenvolvimento
de terapia sítio-específica para o tratamento de endometriose profunda,
Introdução 15
utilizando o complexo droga-LDE, como opção terapêutica ao uso de
bloqueadores hormonais e às cirurgias radicais, com possíveis vantagens
farmacocinéticas e redução expressiva de efeitos colaterais, conforme
detalharemos a seguir.
1.4 Composto LDE-MTX
Com o objetivo de diminuir a toxicidade e aumentar a concentração do
quimioterápico nos tecidos com super-expressão dos receptores de LDL, Moura
et al. desenvolveram uma nova formulação, utilizando um derivado lipofílico do
metotrexato (MTX) associado a uma nanoemulsão lipídica (LDE-MTX) (Moura et
al., 2011).
O complexo LDE-MTX reúne as prerrogativas necessárias ao seu amplo
uso: primeiramente, é estável e os procedimentos necessários para a sua
síntese são relativamente fáceis de executar, não requerem reagentes caros e
podem ser facilmente adaptáveis para a produção em larga escala (Moura et al.,
2011). Além disso, o LDE-MTX se assemelha a outros complexos droga-
nanoemulsão, como o paclitaxel, o etoposide e a carmustina, que mostraram
habilidade em reduzir expressivamente a toxicidade relacionada a esses
quimioterápicos, com ação farmacológica preservada e até melhorada
(Maranhão et al., 2002; Valduga et al., 2003; Azevedo et al., 2005; Rodrigues et
al., 2005; Moura et al., 2011; Kretzer et al., 2012).
Receptores de LDL apresentam um mecanismo de internalização muito
mais eficiente para a captação do metotrexato do que os receptores de folato. A
melhor captação do LDE-MTX leva a um nível muito superior de citotoxicidade
em comparação à forma comercial, oferecendo um eficiente mecanismo através
do qual se pode otimizar a ação farmacológica da droga (Moura et al., 2011).
O composto LDE-MTX apresentou citotoxicidade muito superior ao
metotrexato em culturas de células humanas eritroleucêmicas (K562) e células
humanas leucêmicas promielocíticas (HL60). Para as primeiras, a citotoxicidade
foi dez vezes maior e, para a segunda, 100 vezes maior. A captação do LDE-
MTX por ambas as células também foi superior. A concentração de droga
Introdução 16
necessária para inibir o crescimento de 50% das células (IC50) foi muito menor
para o composto LDE-MTX, em relação à formulação comercial do metotrexato
(Moura et al., 2011).
Essa otimização da captação do metrotrexato resulta na potencialização
da ação farmacológica da droga, vantagem demonstrada em estudos com
animais, para o tratamento de artrite (Mello et al., 2013), aterosclerose (Bulgarelli
et al., 2013) e, mais recentemente, para a prevenção de dilatação aórtica em
modelos murinos de síndrome de Marfan (Guido et al., 2022). No tratamento de
aterosclerose em animais foi demonstrado, além do benefício terapêutico, uma
drástica diminuição da toxicidade, com uma leve redução na contagem de
eritrócitos nos animais tratados, em comparação à queda de 40% de eritrócitos
descrita para a forma usual da droga (Bulgarelli et al., 2013).
Desta forma, conclui-se que o LDE-MTX é virtualmente completo, estável
e apresenta citotoxicidade equivalente ou superior ao metotrexato (Moura et al.,
2011), sendo uma alternativa para a melhora da eficácia e do perfil de toxicidade
da droga no tratamento de diversas afecções.
1.5 Hipótese do estudo
Em 2000, Thomas e Campbell publicaram um artigo sobre aspectos do
comportamento da endometriose que seriam semelhantes ao de doenças
malignas. Como exemplo citam que, como o câncer, a endometriose também
pode ser tanto uma doença localizada, quanto apresentar focos à distância,
semelhante a metástases e é munida também da capacidade de aderir, invadir
e destruir outros tecidos (Thomas & Campbell, 2000). Os focos da doença
apresentam resistência à apoptose e promovem um ambiente inflamatório
crônico (Kvaskoff et al., 2021), podendo ser um mecanismo implicado na
carcinogênese em pacientes com a doença (Leenen et al., 2021).
Linfangiogênese e focos de endometriose em linfonodos também foram
demonstrados (Abrão et al., 2006; Samartzis et al., 2020). Além das
semelhanças comportamentais, estudos demonstraram que as lesões de
endometriose exibem mutações em genes que são diretamente relacionadas a
neoplasias (Siufi Neto et al., 2014). No entanto, em contraste com o câncer, o
Introdução 17
foco de endometriose é semelhante em morfologia ao endométrio tópico, não
confere letalidade à portadora e não progride ou induz a metástases como uma
massa expansiva maligna (Samartzis et al., 2020).
Esses dados levam à hipótese de bases fisiopatológicas comuns entre
neoplasias malignas e endometriose profunda, permitindo inferir que tratamentos
semelhantes aos aplicados a tumores ginecológicos poderiam ter ação benéfica
nesta afecção. Conforme citado anteriormente, o estudo publicado por Gibran et
al., demonstrou haver maior expressão gênica de receptores de LDL na
membrana celular de focos de endometriose profunda intestinal e, dentro da
mesma linha de pesquisa, comprovou-se a absorção de LDE marcado com
carbono 14 pelos focos de endometriose (Bedin et al., 2019). O próximo passo
envolve a terapia alvo com quimioterápicos acoplados à nanoemulsão lipídica,
a qual poderia representar alternativa terapêutica de sucesso no tratamento dos
focos e nódulos endometrióticos, à semelhança do que ocorre nas neoplasias
malignas, que já foram testadas com essa forma terapêutica, resultando em
pouco efeito nas células sadias e, ainda, mínimos efeitos colaterais sistêmicos.
Nesse sentido, o metotrexato, por ser uma droga de ação antiproliferativa
e imunossupressora, com atividade antiinflamatória, e eficácia já demonstrada
em tumores e também em doenças benignas, pode ser uma alternativa como
droga para o tratamento clínico da endometriose, doença de característica ao
mesmo tempo proliferativa e inflamatória.
Objetivos 18
2 OBJETIVOS
2.1 Objetivo Geral
Avaliar a eficácia do tratamento da dor pélvica em pacientes portadoras
de endometriose profunda intestinal com o uso de droga antiproliferativa
(metotrexato) acoplado à nanoemulsão lipídica (LDE).
2.2 Objetivos Específicos
Comparar os níveis de dor pélvica antes e depois do tratamento em
tempos distintos (30, 60, 90 e 180 dias);
Avaliar a resposta terapêutica com diferentes doses de metotrexato;
Avaliar a incidência de efeitos colaterais associados ao tratamento;
Comparar os dados de imagem das lesões profundas intestinais
descritas no ultrassom pélvico e transvaginal com preparo intestinal
antes e depois do tratamento em tempos distintos (30 e 180 dias);
Comparar os níveis de hormônio anti-mülleriano (AMH), antes e
depois de 180 dias do tratamento.
Pacientes e Métodos 19
3 PACIENTES E MÉTODOS
3.1 Tipo do estudo
Trata-se de estudo fase I/II relativo ao uso de metotrexato vetorizado em
nanoemulsão lipídica para o tratamento da endometriose profunda intestinal de
pacientes com queixa de dor pélvica, que poderia ser referida como
dismenorreia, dispareunia de profundidade, dor pélvica acíclica e disquezia
durante o período menstrual e/ou disúria durante o período menstrual. Pelo
menos uma das queixas deveria ser referida com nota maior ou igual a 7 na
escala visual analógica de dor (Maxwell et al., 1978) e o ultrassom pélvico e
transvaginal com preparo intestinal deveria ser comprobatório da presença de
endometriose profunda intestinal, acometendo pelo menos a camada muscular
própria (Chapron et al., 2003; Vercellini et al., 2018).
3.2 Local do estudo
O estudo foi realizado, em conjunto, pelo setor de Endometriose da
divisão de Ginecologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo (FMUSP), pelo Laboratório de Metabolismo e
Lípides do Instituto do Coração (InCor) da Faculdade de Medicina da
Universidade de São Paulo (FMUSP), pelo Núcleo de Endoscopia Ginecológica
e Endometriose do Hospital Pérola Byington – Centro de Referência da Saúde
da Mulher e pelo Laboratório Alta – Excelência Diagnóstica, com sede em São
Paulo.
3.3 Princípios Éticos
A aplicação do fármaco respeitou os princípios éticos de biossegurança
estipulados pelo Ministério da Saúde e pela Comissão de Ética em Pesquisa
com Seres Humanos das instituições mencionadas acima:
Hospital Pérola Byington – número do parecer: 1.937.704 (Anexo A);
Pacientes e Métodos 20
FMUSP – número do parecer: 3.402.300 (Anexo B).
As aplicações respeitaram também os protocolos técnicos do hospital e dos
médicos envolvidos.
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)
contribuiu para a realização deste estudo com verba aprovada no processo
2014/03742-0.
O estudo foi registrado no Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos (ReBEC),
com o código RBR-7jx2byj.
3.4 Critérios de Inclusão
Mulheres com idade entre 30 e 50 anos;
Menacme;
Ausência de desejo reprodutivo;
Endometriose profunda intestinal comprovada por USTV com preparo
intestinal, acometendo pelo menos a camada muscular própria;
Presença de dor pélvica referida como dismenorreia, dispareunia de
profundidade, dor pélvica acíclica, disquezia durante o período menstrual
e/ou disúria durante o período menstrual. Pelo menos uma das queixas
referidas com nota maior ou igual a 7 na escala visual analógica de dor
(EVA) (Maxwell et al., 1978) (Anexo C);
Não utilização de terapêutica hormonal nos 6 meses que antecederem o
tratamento com metotrexato, no caso de análogos de GnRH e
progestagênios, e 3 meses para contraceptivos hormonais combinados
orais, ou manutenção de queixa álgica relevante (EVA ≥ 7), apesar do
tratamento clínico;
Confirmação de não-gravidez por meio de beta-hcg, colhido até 48 horas
antes da administração da medicação.
Pacientes e Métodos 21
3.5 Critérios de exclusão
Amamentação;
Imunodeficiência, alcoolismo, úlcera péptica, disfunções hepáticas, renais
ou hematológicas, doença pulmonar ativa, neoplasias malignas e
sensibilidade conhecida ao metotrexato.
3.6 Pacientes
As pacientes inicialmente seriam randomizadas em três grupos para
receberem doses escalonadas do metotrexato associado à nanoemulsão
lipídica. Foram inicialmente selecionadas 22 pacientes que preenchiam os
critérios de inclusão. Todas as pacientes foram previamente informadas acerca
dos riscos do uso da medicação e possíveis efeitos colaterais. Após
esclarecidas as dúvidas, as candidatas assinaram o termo de consentimento
livre e esclarecido (TCLE) (Anexo D). Todas as pacientes encontravam-se em
seguimento no Ambulatório de Endometriose Intestinal do Hospital Pérola
Byington e estavam aguardando cirurgia para tratamento da endometriose
profunda e intestinal, por falha parcial ou completa do tratamento clínico. Por se
tratar de um estudo piloto, não foi realizado cálculo amostral.
3.7 Dinâmica do estudo
Duzentas e nove pacientes que estavam em seguimento ambulatorial por
endometriose intestinal foram contatadas por telefone, com o intuito de serem
convidadas a vir ao Hospital Pérola Byington para conversar a respeito do
projeto. Não foi possível o contato com vinte e três, após tentativas em dias e
horários diferentes, e pesquisa em cadastro hospitalar. Das que conseguimos
contatar por telefone, 14 pacientes recusaram prontamente a participação e 66
pacientes já tinham sido operadas em outros serviços. Foram entrevistadas 106
pacientes, das quais 77 não preenchiam os critérios de inclusão e 7 pacientes
foram excluídas devido aos critérios de exclusão. Vinte e duas pacientes
aceitaram participar da pesquisa, porém, no decorrer do tempo antes do início
do estudo, três pacientes foram chamadas para cirurgia e operadas no serviço e
Pacientes e Métodos 22
duas desistiram. Restaram, portanto, 17 pacientes candidatas à participação
(Figura 1).
As pacientes classificadas para compor os três grupos foram submetidas
à investigação criteriosa da presença de endometriose por meio de anamnese,
exame físico e ultrassonografia pélvica e transvaginal com preparo intestinal e
selecionadas de acordo com os criterios de inclusão.
Figura 1 - Fluxograma de seleção de pacientes para participação na pesquisa
Pacientes e Métodos 23
As pacientes candidatas ao estudo foram convidadas para entrevista
presencial, quando detalhes do projeto foram abordados, assim como a
exposição de riscos e benefícios. Para as pacientes com interesse em participar,
foi entregue o termo de consentimento livre e esclarecido e, após ciência do
mesmo, as pacientes foram ativamente investigadas quanto às queixas álgicas
e antecedentes pessoais. Todas as pacientes foram submetidas a exame
ginecológico e foram realizadas as medidas antropométricas (peso e altura),
com cálculo do índice de massa corpórea (IMC).
O exame abdominal tinha como finalidade avaliar a presença de dor e
identificar a presença de massas. Para o exame especular, o objetivo era avaliar
a presença de nodulações em fundo de saco posterior ou vagina, que atingissem
mucosa ou submucosa, as quais seriam identificadas como áreas nodulares
azuladas ou arroxeadas. Ao toque vaginal, o objetivo era avaliar a mobilidade
uterina, identificar a presença de nódulos ou espessamentos, dolorosos em
fundo de saco posterior, região retrocervical e paracervical, ligamentos
uterossacros direito e esquerdo, em parede posterior vaginal, sugerindo
acometimento do septo retovaginal, assim como parede anterior vaginal,
sugerindo acometimento de parede posterior da bexiga. A presença de massa
sugestiva de acometimento ovariano também foi considerada ( Eskenazi et al.,
2001; Abrão et al., 2007; Bazot et al., 2009; Hudelist et al., 2011a; Saccardi et
al., 2012).
Após esta etapa, as pacientes realizaram dosagem sérica de FSH, LH,
prolactina, hormônio tireoestimulante (TSH), T4 livre, alanina aminotransferase
(ALT), aspartato aminotransferase (AST), fosfatase alcalina, albumina,
bilirrubinas, sorologias para hepatite B e C, sorologia para HIV, hemograma
completo, uréia e creatinina. Neste momento, uma paciente foi excluída por
apresentar FSH de 82,81, indicando proximidade da menopausa.
Ao cumprirem os critérios de inclusão e exclusão, as pacientes foram
randomizadas em 3 grupos cuja diferença seria a quantidade de doses de
metotrexato utilizadas. Das quinze pacientes previstas inicialmente, 5 iriam
compor o grupo 1, que receberia dose equivalente a 50mg/m2, divididos em 2
tomadas com intervalo semanal; 5 iriam compor o grupo 2, que receberia dose
Pacientes e Métodos 24
equivalente a 75mg/m2, divididos em 3 tomadas com intervalo semanal; e 5 iriam
compor o grupo 3, que receberia o equivalente a 100mg/m2 da droga, divididos
em 4 tomadas, com intervalo semanal. A superfície corporal foi calculada pela
fórmula de Du Bois, que leva em consideração peso e altura, obtidos no
momento da anamnese e exame físico iniciais (Du Bois et al., 1916): SC = (P
0.425 x A 0.725) x 0.007184.
Das 16 pacientes restantes, 12 fizeram novo exame de ultrassom
transvaginal com preparo intestinal antes da administração da medicação, com
único médico radiologista com larga experiência na avaliação de lesões de
endometriose por esta via (Dr. Manoel Orlando Gonçalves) e coautor do artigo
que buscou estabelecer um consenso para avaliação sistemática da pelve por
meio da ultrassonografia no mapeamento da endometriose profunda (Guerriero
et al., 2016). Na mesma oportunidade, foi realizada coleta de sangue para
avaliação do hormônio anti-mülleriano (AMH). O mesmo profissional realizou
todos os exames da pesquisa, seja antes da medicação, após 30 dias e após
180 dias. Novo exame de AMH foi colhido quando a paciente retornou para o
exame de ultrassom realizado após 180 dias da administração da medicação.
Das 12 pacientes que realizaram o ultrassom e dosagem de AMH, 11 receberam
a medicação, uma vez que uma das pacientes ficou incomunicável quando da
convocação para agendar a medicação, sendo tentado contato por telefone e
por email por vários dias, sem sucesso. As 4 pacientes restantes (do total de 16
pacientes selecionadas) estavam aguardando para a realização do USTV e
AMH, quando do início da medicação com o grupo inicial.
A medicação foi preparada pelo Laboratório de Metabolismo e Lípides do
InCor, no máximo 1 semana antes da infusão e foi administrada em esquema
ambulatorial nas 11 pacientes iniciais dentro do Hospital Pérola Byington, a fim
de monitorar os efeitos colaterais. A medicação foi mantida sob refrigeração, no
referido laboratório, identificada com o nome da paciente e com a orientação de
diluição e transportada até o Hospital Pérola Byington em recipiente adequado
para a manutenção da temperatura, no dia da administração. A bolsa contendo
a preparação era retirada da refrigeração cerca de 20 minutos antes da infusão
e diluída com soro fisiológico (cloreto de sódio a 0,9%). A medicação foi
Pacientes e Métodos 25
administrada em bomba de infusão com duração de 1 hora em acesso periférico
em membro superior com abocath 20. As pacientes foram acomodadas em sala
destinada para este fim dentro do setor de quimioterapia e permaneceram em
observação por cerca de 1 hora após o término, a fim de monitorar efeitos
colaterais imediatos. Todas as pacientes eram orientadas a entrar em contato
imediatamente com o pesquisador por telefone, caso sentissem algo diferente
no mesmo dia e também nos dias subsequentes.
As pacientes que receberam a medicação foram investigadas ativamente
5 dias após o evento quanto à presença de efeitos colaterais, como náuseas,
vômitos, diarréia, cefaléia, fadiga, tontura, sonolência e queda de cabelos.
Como descrito, a programação inicial era dividir as pacientes em três
grupos, com a dose escalonada mencionada anteriormente. No entanto, das 11
pacientes que iniciaram a administração da medicação, 8 pacientes realizaram
duas doses com intervalo semanal e 3 pacientes realizaram apenas uma dose.
Isto ocorreu porque, no momento da segunda semana de administração da
medicação, iniciaram as medidas restritivas de circulação de pessoas pela
pandemia pelo coronavírus, e o Hospital Pérola Byington foi convertido em local
de referência estadual para atendimento de casos suspeitos. Todos os
procedimentos cirúrgicos e ambulatoriais, bem como atendimentos foram
suspensos, exceto o tratamento de pacientes oncológicas.
Aliado a isso, tivemos as medidas restritivas no funcionamento de
transportes públicos. A equipe da pesquisa decidiu interromper a administração
da medicação para não expor as pacientes ao risco de circular em hospital
referência para atendimento de casos de coronavírus e também pela atividade
imunossupressora descrita da droga, o que poderia predispô-las a desenvolver
quadros mais graves diante de uma possível contaminação. Essa decisão foi
tomada no intuito de garantir a segurança destas pacientes, que aceitaram
participar da pesquisa.
Diante do exposto e da suspensão da administração da medicação, as
quatro pacientes restantes, que não haviam ainda realizado o ultrassom com
preparo pertinente à pesquisa, foram orientadas acerca da suspensão das
atividades propostas inicialmente e seguiram com o tratamento habitual.
Pacientes e Métodos 26
A proposta inicial era de que as pacientes retornariam para consulta após
30, 90, 120 e 180 dias do final da administração da droga para comparar os
sintomas com os referidos anteriormente ao tratamento. Esta análise
comparativa utilizou a escala visual analógica de dor (EVA) para determinação
quantitativa. O retorno de 30 dias foi suspenso pelo pico do número de casos
de covid em São Paulo, impossibilidade de uso do espaço físico do Hospital
Pérola Byington para esta finalidade e pelo fato da pesquisadora estar em
convalescença da infecção por coronavírus, em isolamento domiciliar.
As 11 pacientes que receberam a medicação (uma ou duas doses)
realizaram USTV com preparo intestinal após 30 e 180 dias do tratamento, por
se tratar de serviço externo particular, com fluxo menor de pessoas e adepto de
todas as medidas de segurança recomendadas. As medidas dos nódulos
inicialmente encontrados foram reavaliadas para determinar o comportamento
dos mesmos após a medicação por meio da análise de extensão e profundidade
das lesões.
As pacientes repetiram as dosagens de FSH, LH, prolactina, TSH e T4
livre após 90 e 180 dias, para determinar se o uso de droga antiproliferativa
promoveu quaisquer danos funcionais à hipófise, tireóide e ovários. Dosagens
subsequentes dos testes sanguíneos hepáticos (ALT, AST, fosfatase alcalina,
albumina, bilirrubinas), hemograma completo, uréia e creatinina foram
realizadas nas mesmas oportunidades, após a infusão da emulsão, com o
objetivo de monitorar a toxicidade ao tratamento. A coleta de exames 15 dias
após, inicialmente prevista, também foi suspensa pelo momento da pandemia e
pela recusa de muitas pacientes em se deslocar ao hospital naquele momento.
O risco de toxicidade esperado era baixo, uma vez que a dose máxima utilizada
foi a dose correspondente à utilizada no tratamento de gestação ectópica
tubária. A dosagem do hormônio anti-mülleriano foi repetida após 180 dias da
administração da medicação, para avaliar se houve impacto na reserva ovariana
das pacientes, na oportunidade da realização do último exame de ultrassom.
O exame físico foi repetido pelo mesmo examinador (R.A-T.) após 180
dias.
Pacientes e Métodos 27
3.8 Ultrassom Transvaginal com Preparo Intestinal
O exame de ultrassom com preparo intestinal baseou-se no protocolo
publicado em 2009 por Goncalves et al., que orienta que a avaliação de
endometriose seja realizada de forma sistemática em todas as pacientes,
mapeando todos os sítios: rins e diafragma direito, fossa ilíaca esquerda, com
avaliação do sigmóide, fossa ilíaca direita, com avaliação de apêndice, íleo e
ceco, pelve, avaliando útero, ovários, reto, sigmóide, bexiga, regiões periuterinas
e fundo de saco, além de avaliar a presença de processos aderenciais
(Gonçalves et al., 2009; Gonçalves et al., 2010). Todos os exames foram
realizados no aparelho Voluson E 10 da GE (General Electric), com os
transdutores convexo de abdome, linear de alta resolução e transvaginal, em
correspondência com a área examinada.
Todas as pacientes realizaram preparo intestinal prévio com a ingestão
de bisacodil 5 mg no dia anterior ao exame e aplicação retal de solução de fosfato
de sódio mono e dibásico, 2 horas antes da realização do exame. Após o uso
desta medicação, a paciente permanecia em jejum.
Foram consideradas lesões intestinais por endometriose os
espessamentos segmentares da parede do reto e sigmóide que apresentavam
textura hipoecóide, forma irregular e comprometiam a alça externa para
internamente. As pacientes selecionadas, conforme mencionado anteriormente,
tinham lesão que acometia pelo menos a camada muscular própria.
3.9 Síntese do derivado de MTX e preparação do LDE-MTX
O metotrexato (4,0 mmol) foi diluído em dimetilsulfóxido. Em seguida,
foram adicionados carbonato de césio (4,4 mmol) e brometo de dodecila (10,0
mmol). Após 24 horas de agitação à temperatura ambiente, foram adicionados
100 mL de água e o produto foi extraído com clorofórmio. A fase orgânica foi
lavada com solução saturada de cloreto de sódio, seca com sulfato de magnésio,
filtrada e concentrada (Rosowsky et al., 1984).
Pacientes e Métodos 28
A nanopartícula lipídica foi preparada a partir de uma mistura de lípides
constituída por fosfatidilcolina, oleato de colesterol, colesterol livre e trioleína.
(Maranhão et al., 1993) e a associação com o metotrexato foi realizada conforme
descrito previamente (Moura et al, 2011). A emulsão formada foi centrifugada a
3700rpm, por 20 minutos e esterilizada em filtro de policarbonato 0,22µm em
fluxo laminar, e armazenada em frascos estéreis a 4°C.
A taxa de associação do metotrexato à nanopartícula foi determinada
através de quantificação por cromatografia líquida de ultra alta eficiência
(UHPLC) (Nexera X2, Shimadzu, Tóquio, Japão).
3.10 Análise Estatística
Para descrever o perfil da amostra segundo as variáveis em estudo foram
feitas tabelas de frequência das variáveis categóricas, com valores de frequência
absoluta (n) e percentual (%) e estatísticas descritivas das variáveis numéricas,
com valores de média, desvio padrão, valores mínimo e máximo, mediana e
quartis.
Para comparar variáveis numéricas principais (sintomas clínicos, exames
de imagem e exames laboratoriais) entre os tempos avaliados, utilizamos o
modelo linear misto (linear mixed model ) ou GEE ( Generalized Estimating
Equations). As variáveis foram transformadas em ranks devido à ausência de
distribuição normal.
Para comparar os efeitos das doses (uma ou duas doses da medicação)
em relação à mudança nos sintomas clínicos, medidas da lesão intestinal e das
outras lesões de endometriose e parâmetros laboratoriais ao longo do tempo,
também foi utilizado modelo linear mist o ( linear mixed model ) ou GEE
(Generalized Estimating Equations). Os dados de sintomas clínicos, exames de
imagem e exames laboratoriais foram considerados como parâmetros principais;
as diferentes doses da medicação (uma ou duas doses) foram consideradas
como efeitos fixos e o paciente como efeito aleatório. Este modelo de análise
permite lidar com dados faltantes em estudos longitudinais, e inclui dados de
todos os pacientes, mesmo que cada paciente não tenha sido avaliada em todos
Pacientes e Métodos 29
os momentos previamente estabelecidos (Conover & Iman, 1981; Liang & Zeger,
1986; Follmann & Wu, 1995; Baia, 1997; Abrao et al., 2021).
O nível de significância adotado para os testes estatísticos foi de 5%, ou
seja, p<0.05. Para análise estatística foi utilizado o programa computacional The
SAS System for Windows (Statistical Analysis System), versão 9.2. (SAS Institute
Inc, 2002-2008, Cary, NC, USA).
Resultados 30
4 RESULTADOS
4.1 Avaliação pré-medicação
4.1.1 Características físicas das pacientes
As mulheres selecionadas para o presente estudo apresentavam média
de idade de 40 anos, variando de 30 a 47 anos (Tabela 1). Nenhuma das
mulheres selecionadas tinha desejo reprodutivo, conforme previsto nos critérios
de inclusão mencionados.
Tabela 1 – Características gerais das pacientes incluídas na pesquisa
n Média Desvio-padrão Mínimo Máximo
Idade (anos) 11 40 ± 5,07 30 47
Peso (Kg) 11 68,44 ± 17,19 40,5 108,1
Altura (m) 11 1,62 ± 0,05 1,56 1,75
IMC (Kg/m2) 11 26,16 ± 6,50 15,24 40,68
Gestação 11 1,18 ± 1,40 0 5
Paridade 11 0,82 ± 1,17 0 4
Aborto 11 0,36 ± 0,67 0 2
IMC: índice de massa corpórea
4.1.2 Quadro clínico
Oito pacientes (72,73%) faziam uso de medicação hormonal, porém
mantendo sintomatologia álgica significativa, sendo os progestagênios a classe
de medicação mais utilizada (Tabela 2).
Resultados 31
Tabela 2 – Tipos de medicação hormonal utilizadas para tratamento da
endometriose pelas pacientes incluídas na pesquisa
n %
Progestagênio (n=6) 54,54
Dienogeste 2 18,18
Desogestrel 3 27,27
Progesterona bioidêntica 1 9,09
Combinado (E+P) (n=2) 18,18
COC 1 9,09
Anel vaginal 1 9,09
Nenhuma (n=3) 27,27
Total 11 100
E+P: estrogênio + progestagênio. COC: Contraceptivo Oral
Combinado.
Nove pacientes utilizavam medicação analgésica com frequência para
controle da dor, sendo que oito pacientes utilizavam até três tipos de drogas
diferentes e uma paciente fazia uso de oito medicações não-hormonais
diferentes para o controle da sintomatologia álgica (Tabela 3).
Tabela 3 – Tipos de medicação não-hormonal* utilizadas para alívio dos
sintomas álgicos pelas pacientes incluídas na pesquisa
n %
AINE 5 55,55
Antiespasmódico 4 44,44
Analgésico não-opióide 3 33,33
Opióide 3 33,33
Glicocorticóide 2 22,22
Antidepressivo tricíclico 1 11,11
Relaxante muscular 1 11,11
*Mais de uma opção terapêutica poderia ser utilizada.
AINE: Anti-inflamatório Não-Esteroidal
Todas as onze pacientes apresentavam queixa dolorosa significativa
(EVA ≥ 7) em pelo menos um dos domínios pesquisados (dismenorreia,
Resultados 32
dispareunia, dor pélvica acíclica, disquezia ou disúria), sendo que nove
pacientes apresentavam pelo menos três tipos de queixa dolorosa (Tabela 4).
Tabela 4 – Quadro clínico referido pelas pacientes incluídas na pesquisa antes
da medicação, discriminando a nota da escala visual analógica (EVA) de dor em
cada item
Paciente Dismenorréia Dispareunia Dor Acíclica Disquezia Disúria
1 10 5 5 9 0
2 10 10 8 0 0
3 3 9 0 9 0
4 8 9 0 9 0
5 0 9 3 0 0
6 10 10 0 6 0
7 8 6 4 7 0
8 8 4 10 7 0
9 7 8 8 0 0
10 0 8 5 0 0
11 10 8 7 10 5
Cinco pacientes já tinham sido submetidas à procedimento cirúrgico
prévio relacionado à endometriose. Destas, três tinham o antecedente de uma
cirurgia prévia, uma tinha sido submetida à duas cirurgias e a outra tinha sido
submetida à três cirurgias prévias para abordagem da doença. Uma das
pacientes já havia realizado retossigmoidectomia previamente.
Sete das onze pacientes apresentava m alguma comorbidade prévia,
porém nenhuma delas era impeditiva para a realização do estudo. As doenç as
referidas foram: hipertensão arterial (n=3), enxaqueca (n=2), asma (n=1) e
hipotireoidismo (n=1).
4.1.3 Exame físico
Nenhuma das pacientes apresentava massa abdominal palpável, mas 3
pacientes tinham dor abdominal difusa à palpação. Uma paciente apres entava
lesão sugestiva de endometriose em fundo de saco de Douglas observada ao
Resultados 33
exame especular. Todas as pacientes apresentavam toque vaginal sugestivo de
doença profunda, sendo que os locais mais acometidos foram região
retrocervical e paracervical (n=5) e ligamentos uterossacros (n=4). Os principais
achados estão resumidos na Tabela 5.
Tabela 5 – Achados no exame físico pré -medicação, relacionados à presença
de endometriose, nas pacientes incluídas na pesquisa
N: não; S: sim; NA: não se aplica (paciente histerectomizada).
4.1.4 Exame de imagem
Como já descrito, o mesmo radiologista (M.O.G) realizou todos os exames
das 11 pacientes nas três etapas (antes, após 30 dias e após 180 dias da infusão
da medicação). O profissional não tinha conhecimento sobre o número de doses
recebidas por cada paciente (Tabela 6).
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11
ABDOME
Dor N N N N N N S S S N N
Massa palpável N N N N N N N N N N N
ESPECULAR
Lesão de endometriose N N N S N N N N N N N
TOQUE VAGINAL
Mobilidade reduzida S N N N N N S S N N N
Dor à mobilização cervical N S S S N S S S N N S
Dor à mobilização uterina S N S S N N S N NA N N
Dor/ Nódulo/ Espessamento S S S S S S S S S S S
Fundo de Saco Posterior S S S
Retrocervical S S S S S
Paracervical S S S S S
Ligamentos Uterossacros S S S S
Septo Retovaginal
Bexiga - Parede Posterior
Massa anexial palpável N N N N N N N N N N S
Resultados 34
Quatro pacientes (36,36%) apresentavam mais de uma lesão intestinal e
as sete pacientes restantes apresentavam apenas uma lesão (63,64%). Das
lesões intestinais, 54,55% (n=6) atingiam a camada muscular própria interna e
45,45% (n=5) alcançavam a submucosa. Nenhuma paciente apresentava
redução da luz intestinal antes da medicação.
Dez pacientes apresentavam lesão em manto acometendo fundo de saco
posterior, todas com mais de 3 cm de extensão e com profundidade média de
0,76 cm. Cinco pacientes apresentavam endometrioma ovariano, sendo que
duas pacientes apresentavam endometriomas bilaterais. Para cálculo, foi
considerada o valor médio entre as duas medidas do cisto, do maior
endometrioma apresentado pela paciente (no caso de mais de uma lesão). A
média de tamanho do maior endometrioma foi de 3,0 cm, variando de 0,85 a 4,5
cm.
Tabela 6 – Medidas das lesões de endometriose visualizadas ao ultrassom antes
da medicação
n % Média ± DP Mínimo Máximo
Lesão Intestinal 11 100
Longitudinal (cm) 4,77 ± 2,43 1,7 10,0
Ântero-posterior (cm) 0,85 ± 0,16 0,6 1,1
Transversal (cm) 1,76 ± 0,41 0,8 2,2
Circunferência acometida (%) 35,45 ± 8,2 16 44
Lesão em Manto posterior 10 90,9
Ântero-posterior (cm) 0,76 ± 0,13 0,6 1,0
Bloqueio de FSP 7 63,64 --- --- ---
Endometrioma Ovariano (cm) 5 45,45 3,0 ± 1,75 0,85 4,5
Folículos Antrais 6 54,54 1,67 ± 2,66 0 6
Adenomiose 5 45,45 --- --- ---
Bexiga 0 0 --- --- ---
4.2 Administração do LDE-MTX
Das 11 pacientes incluídas no estudo, 8 receberam duas doses de
metotrexato acoplado à nanoemulsão lipídica e 3 receberam uma dose da
Resultados 35
medicação. Cada dose da medicação corresponde a 25 mg/m2 de superfície
corporal e o intervalo entre as doses foi de uma semana.
Após receberem a medicação, 10 pacientes relataram pelo menos um tipo
de efeito colateral, sendo que nenhum deles foi considerado grave. A frequência
dos principais efeitos colaterais imediatos (imediatamente após e nas primeiras
6 horas após a infusão da medicação) e os efeitos colaterais percebidos nos
primeiros cinco dias após a infusão estão detalhados na Tabela 7.
Tabela 7 – Frequência de efeitos colaterais imediatos e tardios após
administração do LDE-MTX
Imediatos (n) Freq (%) Tardios (n) Freq (%)
Não 6 54,54 1 9,09
Sim 5 45,46 10 90,91
Moleza 4 36,36 4 36,36
Tontura 2 18,18 2 18,18
Náusea 2 18,18 7 63,63
Mialgia 0 0 1 9,09
Diarréia 1 9,09 2 18,18
Dor abdominal 0 0 6 54,54
SUA 0 0 3 27,27
Boca seca 1 9,09 0 0
Lombalgia 0 0 1 9,09
Cefaléia 0 0 3 27,27
Taquicardia 0 0 1 9,09
SUA: Sangramento Uterino Anormal
4.3 Efeitos pós-medicação
4.3.1 Sintomas clínicos
A análise comparativa demonstrou que houve redução nas queixas de
dismenorréia, dispareunia e disquezia após 90 dias da administração da
medicação sem, no entanto, alcançar significância estatística ( p > 0,05 ). Foi
observado aumento não significativo nas queixas de dor acíclica e disúria, nesta
primeira etapa de avaliação.
Resultados 36
Na análise das queixas clínicas após 120 dias da infusão da medicação,
houve diminuição na intensidade das queixas de dismenorréia, dispareunia, dor
pélvica acíclica, disquezia e disúria, c om significância estatística para o
parâmetro de dispareunia (p <0,001) (Tabela 8 - p2).
Na avaliação após 180 dias da medicação, houve redução
estatisticamente significativa das queixas de dispareunia (p<0,001) e de
disquezia (p=0,008). Também houve redução da queixa de dismenorr éia, dor
acíclica e disúria sem, no entanto, determinar significância estatística.
Para a avaliação global, considerando todo o período, tivemos redução
estatisticamente significativa para as queixas de dispareunia ( p<0,001), dor
acíclica (p=0,008) e disquezia ( p=0,025), conforme demonstrado na Tabela 8.
Para a queixa de dor pélvica acíclica, a redução ocorreu no intervalo entre 90 e
180 dias (p=0,012).
Tabela 8 – Sintomas clínicos avaliados de acordo com a escala visual analógica
de dor ( EVA) antes e após 90, 120 e 180 dias da medicação, expressos em
média ± desvio padrão
* EVA: Escala Visual Analógica.
** Valor-p significativo também para os intervalos entre 90 e 120 dias (p<0,001), e entre 90 e 180 dias (p=0,005).
*** Para a queixa de dispareunia, tivemos um n inicial de 11 pacientes (pré -medicação), com n posteriores de 8 (90 e
120 dias), e de 9 (180 dias), pois foram consideradas na análise somente as pacientes com atividade sexual no momento
da avaliação.
**** Valor-p significativo para o intervalo entre 90 e 180 dias (p=0,012).
***** Valor-p significativo também para os intervalos entre 90 e 180 dias (p=0,012) e entre 120 e 180 dias (p=0,015).
p0 = Valor-p global, considerando todo o período de avaliação (modelo linear misto);
p1 = Valor-p comparando os valores de avaliação pré e após 90 dias (modelo linear misto);
p2 = Valor-p comparando os valores de avaliação pré e após 120 dias (modelo linear misto);
p3 = Valor-p comparando os valores de avaliação pré e após 180 dias (modelo linear misto).
4.3.2 Exame Físico
Não foi observada alteração relevante no exame físico das pacientes após
180 dias da medicação, em comparação ao exame realizado pré-medicação. Os
dados estão resumidos na Tabela 9.
n
Pré-
medicação
90 dias 120 dias 180 dias p0 p1 p2 p3
Dismenorréia 11 6,73 ± 3,9 5,09 ± 4,21 4,27 ± 3,93 4,64 ± 4,03 0,063 --- --- ---
Dispareunia** 11*** 7,82 ± 1,99 7,13 ± 3,23 6,25 ± 2,92 4,78 ± 3,15 <0,001 0,174 <0,001 <0,001
Dor Acíclica**** 11 4,55 ± 3,53 4,73 ± 2,41 2,91 ± 2,88 3,18 ± 2,68 0,008 0,727 0,051 0,132
Disquezia***** 11 5,18 ± 4,26 4,73 ± 3,95 3,55 ± 3,75 1,64 ± 3,23 0,025 0,082 0,113 0,008
Disúria 11 0,45 ± 1,51 0,82 ± 1,83 0 0 0,075 --- --- ---
Resultados 37
Tabela 9 – Exame físico das pacientes antes (A) e depois (D) de 180 dias da
medicação
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11
A D A D A D A D A D A D A D A D A D A D A D
ABDOME
Dor N N N N N N N N N N N N S N S N S N N N N N
Massa Palpável N N N N N N N N N N N N N N N N N N N N N N
ESPECULAR
Lesão de endometriose N N N N N N S S N N N N N N N N N N N N N N
TOQUE VAGINAL
Mobilidade reduzida S S N N N N N S N N N N S N S S N N N N N N
Dor à mobilização
cervical N N S N S S S S N N S N S N S S N N N N S S
Dor à mobilização uterina N N N N S S S N N N N N S N N N N
A
N
A N N N N
Dor/ Nódulo/
Espessamento S S S S S S S S S S S S S S S S S S S S S S
Fundo de Saco Posterior S S S S
Retrocervical S S S S S S S S S S
Paracervical S S S S S S S S S S
Ligamentos Uterossacros S S S S S S S S S S
Septo Retovaginal
Bexiga Parede Posterior
Massa anexial palpável N N N N N N N N N N N N N N N N N N N N S N
A – Antes da medicação; D – Depois de 180 dias da medicação
N - Não (ausência de alteração); S – Sim (presença de alteração
4.3.3 Avaliação laboratorial
A média dos valores de FSH entre as pacientes foi de 4,45 mIU/mL antes
da medicação, 4,86 mIU/mL após 90 dias e 7,29 mIU/mL após 180 dias. Não foi
encontrada diferença estatisticamente significativa para este parâmetro, bem
como para os valores de hormônio anti-mülleriano (AMH), LH, prolactina e T4
livre. O valor de TSH exibiu aumento estatisticamente significativo (p<0,001)
(Tabela 10).
Foi encontrado aumento, com significância estatística, para os valores de
AST e ALT após 90 e 180 dias da infusão da medicação. O valor de fosfatase
alcalina apresentou aumento sem significância estatística e a bilirrubina direta
apresentou diminuição significativa na avaliação de todo o período de estudo.
Bilirrubina indireta e albumina não apresentaram diferença significativa. A função
Resultados 38
renal das pacientes, avaliada por meio da dosagem sérica de uréia e creatinina,
não demonstrou diferença significativa com os valores basais pré-medicação
(Tabela 10).
Os valores de hemoglobina (Hb), leucócitos e plaquetas exibiram aumento
estatisticamente significativo (p<0,001, p=0,018, p=0,006, respectivamente),
porém dentro dos parâmetros de normalidade, conforme tabela abaixo.
Tabela 10 – Comparativo de exames laboratoriais antes da medicação, após 90
e após 180 dias
FSH: Hormônio Folículo Estimulante; LH: Hormônio Luteinizante; AMH: Hormônio Anti-mulleriano; TSH: Hormônio
Tireoestimulante; BD: Bilirrubina Direta; BI: Bilirrubina Indireta; AST: Aspartato Aminotransferase; ALT: Alanina
Aminotransferase; FALC: Fosfatase Alcalina.
p0 = Valor-p global, considerando todo o período de avaliação (modelo linear misto);
p1 = Valor-p comparando os valores de avaliação pré e após 90 dias (modelo linear misto);
p2 = Valor-p comparando os valores de avaliação pré e após 180 dias (modelo linear misto).
4.3.4 Avaliação Ultrassonográfica
Não houve redução significativa do tamanho das lesões intestinais em
nenhuma das medidas (longitudinal, ântero-posterior e transversal) avaliadas na
ultrassonografia. Em relação à lesão em manto posterior e aos endometriomas
ovarianos, também não houve variação estatisticamente significativa (Tabela
Pré-medicação 90 dias 180 dias p0 p1 p2
Hemoglobina 13,32 ± 0,88 (n=11) 14,21 ± 0,65 (n=9) 14,22 ± 1,64 (n=10) <0,001 <0,001 <0,001
Leucócitos
7388,2 ± 1800,5
(n=11)
7822,2 ± 1290,4
(n=9)
9949,0 ± 4046,2 (n=10) 0,018 0,003 0,020
Plaquetas
276000 ± 40917
(n=11)
243556 ± 32082
(n=9)
259800 ± 38224 (n=10) 0,006 0,007 0,007
FSH 4,45 ± 2,32 (n=11) 4,86 ± 2,23 (n=9) 7,29± 7,06 (n=10) 0,216 --- ---
LH 2,70 ± 2,50 (n=11) 2,71 ± 2,11 (n=9) 3,15 ± 3,55 (n=10) 0,773 --- ---
AMH 0,87 ± 1,32 (n=11) --- 0,69 ± 1,20 (n=11) 0,208 --- ---
TSH 1,52 ± 0,70 (n=11) 2,35 ± 1,66 (n=9) 2,79 ± 2,21 (n=10) <0,001 0,016 <0,001
T4 livre 1,01 ± 0,08 (n=11) 1,00 ± 0,08 (n=9) 1,04 ± 0,07 (n=10) 0,429 --- ---
Prolactina 10,33 ± 3,76 (n=11) 12,16 ± 5,59 (n=9) 11,30 ± 5,79 (n=10) 0,266 --- ---
BD 0,12 ± 0,04 (n=11) 0,12 ± 0,03 (n=9) 0,11 ± 0,08 (n=10) 0,022 0,991 0,021
BI 0,47 ± 0,15 (n=11) 0,49 ± 0,20 (n=9) 0,49 ± 0,29 (n=10) 0,683 --- ---
AST 15,64 ± 5,45 (n=11) 23,22 ± 7,29 (n=9) 22,60 ± 6,87 (n=10) <0,001 <0,001 <0,001
ALT 13,18 ± 9,80 (n=11) 17,44 ± 11,10 (n=9) 19,80 ± 13,54 (n=10) 0,009 <0,001 0,011
FALC 63,18 ± 16,23 (n=11) 72,11 ± 17,51 (n=9) 72,00 ± 16,03 (n=10) 0,053 --- ---
Albumina 4,15 ± 0,30 (n=11) 4,41 ± 0,39 (n=9) 4,19 ± 0,26 (n=10) 0,463 --- ---
Uréia 22,45 ± 4,18 25,11 ± 4,79 24,02 ± 6,25 0,194 --- ---
Creatinina 0,78 ± 0,11 0,74 ± 0,07 0,77 ± 0,10 0,173 --- ---
Resultados 39
11). Uma paciente não realizou o exame de ultrassom no intervalo de 30 dias,
mesmo após várias tentativas de contato e insistência na realização do mesmo.
Tabela 11 – Média das medidas das lesões de endometriose ao ultrassom
transvaginal antes da medicação, após 30 dias e após 180 dias
p0 = Valor-p global, considerando todo o período de avaliação (modelo linear misto);
p1 = Valor-p comparando os valores de avaliação pré e após 30 dias (modelo linear misto);
p2 = Valor-p comparando os valores de avaliação pré e após 180 dias (modelo linear misto);
4.3.5 Análise comparativa longitudinal entre doses e tempos
As tabelas a seguir apresentam as comparações das variáveis numéricas
entre as pacientes que fi zeram uma dose e duas doses da medicação, em
relação aos parâmetros analisados.
Podemos observar que, para as queixas de dismenorréia, dispareunia,
dor acíclica, disquezia e disúria não houve diferença estatisticamente
significativa entre as duas doses da medicação, mas, ao longo do tempo, houve
diferença significativa para as queixas de dispareunia, dor a cíclica e disquezia.
Para a queixa de disquezia, o valor global de p, que é significativo, se atribui à
realização de duas doses da medicação (Tabela 12). A interpretação deve, no
entanto, ser cautelosa, devido à diferença observada entre o número de
pacientes que realizaram uma dose (n=3) e duas doses (n=8).
Pré-medicação 30 dias 180 dias p0 p1 p2
Lesão Intestinal
Longitudinal (cm) 4,77 ± 2,43 (n=11) 5,03 ± 2,55 (n=10) 4,81 ± 2,41 (n=11) 0,751 --- ---
Ântero-posterior (cm) 0,85 ± 0,16 (n=11) 0,88 ± 0,18 (n=10) 0,86 ± 0,20 (n=11) 0,936 --- ---
Transversal (cm) 1,76 ± 0,41 (n=11) 1,67 ± 0,39 (n=10) 1,66 ± 0,31 (n=11) 0,191 --- ---
Circunferência (%) 35,45 ± 8,20 (n=11) 33,6 ± 7,88 (n=10) 33,73 ± 5,41 (n=11) 0,190 --- ---
Manto posterior
Profundidade (cm) 0,76 ± 0,13 (n=10) 0,84 ± 0,27 (n=9) 0,83 ± 0,27 (n=10) 0,338 --- ---
Endometrioma
Endometrioma (cm) 3,0 ± 1,75 (n=5) 4,5 ± 0 (n=2) 3,25 ± 1,67 (n=4) 0,559 --- ---
Resultados 40
Tabela 12 – Comparação de sintomas clínicos avaliados pela escala visual
analógica de dor ( EVA) entre uma dose e duas doses de medicação, ao longo
do tempo
* EVA: Escala Visual Analógica.
p0 = Valor-p para a diferença de resultados atribuída à dose da medicação (1 ou duas doses) - modelo linear misto;
p1 = Valor-p global, considerando avaliações ao longo do tempo (modelo linear misto);
p2 = Valor-p comparando os valores de avaliação pré e após 90 dias (modelo linear misto);
p3 = Valor-p comparando os valores de avaliação pré e após 120 dias (modelo linear misto);
p4 = Valor-p comparando os valores de avaliação pré e após 180 dias (modelo linear misto);
p5 = Valor-p comparando os valores de avaliação entre 90 e 120 dias (modelo linear misto);
p6 = Valor-p comparando os valores de avaliação entre 90 e 180 dias (modelo linear misto);
p7 = Valor-p comparando os valores de avaliação entre 120 e 180 dias (modelo linear misto).
Na avaliação das lesões de endometriose profunda visualizadas ao
ultrassom, não houve diferença significativa entre a realização de uma ou duas
doses da medicação, conforme expresso na Tabela 13, e nem ao longo do
tempo.
Pré-
medicação
90 dias 120 dias 180 dias p0 p1 p2 p3 p4 p5 p6 p7
Dismenorréia 0,129 0,063
1 dose 8,33 ± 1,53 8,33 ± 1,53 3,67 ± 4,04 4,33 ± 3,79 --- --- --- --- --- ---
2 doses 6,13 ± 4,42 3,88 ± 4,29 4,50 ± 4,14 4,75 ± 4,37 --- --- --- --- --- ---
Dispareunia 0,208 0,002
1 dose 7,33 ± 1,15 5,33 ± 4,62 4,67 ± 4,16 4,33 ± 4,04 0,221 0,016 0,015 0,221 0,221 0,221
2 doses 8,00 ± 2,27 8,20 ± 1,92 7,20 ± 1,79 5,00 ± 3,03 0,544 <0,001 0,002 <0,001 0,004 0,071
Dor Acíclica 0,114 0,008
1 dose 6,33 ± 2,08 6,33 ± 1,53 4,00 ± 3,61 5,00 ± 1,73 0,804 0,018 0,221 0,255 0,273 0,758
2 doses 3,88 ± 3,83 4,13 ± 2,47 2,50 ± 2,73 2,50 ± 2,73 0,789 0,209 0,278 0,133 0,006 1,000
Disquezia 0,870 0,025
1 dose 5,67 ± 5,13 6,00 ± 5,29 4,67 ± 5,03 3,33 ± 5,77 0,221 0,221 0,221 0,221 0,221 0,221
2 doses 5,00 ± 4,28 4,25 ± 3,65 3,13 ± 3,48 1,00 ± 1,93 0,003 0,167 0,017 0,390 0,029 0,033
Disúria 0,083 0,080
1 dose 1,67 ± 2,89 1,33 ± 2,31 0 0 --- --- --- --- --- ---
2 doses 0 0,63 ± 1,77 0 0 --- --- --- --- --- ---
Resultados 41
Tabela 13 - Comparação das lesões de endometriose ao ultrassom, entre uma
dose e duas doses de medicação, ao longo do tempo
p0 = Valor-p para a diferença de resultados atribuída à dose da medicação (uma ou duas doses) - modelo linear misto;
p1 = Valor-p global, considerando avaliações ao longo do tempo (modelo linear misto);
Em relação aos exames laboratoriais não encontramos diferença
significativa na análise comparativa entre doses (Tabela 14).
Pré-medicação 30 dias 180 dias p0 p1
Lesão Intestinal
Longitudinal (cm) 0,482 0,751
dose 1 4,03 ± 1,29 4,75 ± 1,77 4,27 ± 1,50
dose 2 5,05 ± 2,77 5,10 ± 2,81 5,01 ± 2,73
Ântero-posterior (cm) 0,414 0,936
dose 1 0,80 ± 0,17 0,80 ± 0,28 0,77 ± 0,21
dose 2 0,88 ± 0,16 0,90 ± 0,17 0,90 ± 0,19
Transversal (cm) 0,311 0,191
dose 1 1,70 ± 0,26 1,70 ± 0,42 1,63 ± 0,35
dose 2 1,79 ± 0,46 1,66 ± 0,41 1,68 ± 0,32
Circunferência (%) 0,545 0,190
dose 1 34,67 ± 6,11 34,00 ± 8,49 33,33 ± 6,11
dose 2 35,75 ± 9,22 33,50 ± 8,33 33,88 ± 5,57
Manto posterior
Profundidade (cm) 0,484 0,338
dose 1 0,80 ± 0,17 0,70 ± 0,28 0,67 ± 0,21
dose 2 0,74 ± 0,11 0,89 ± 0,27 0,90 ± 0,28
Endometrioma
Endometrioma (cm) 0,407 0,541
dose 1 3,75 --- 2,45
dose 2 2,81 ± 1,96 4,50 ± 0 3,52 ± 1,94
Resultados 42
Tabela 14 – Comparação entre os resultados de exames laboratoriais ao longo
do tempo, entre uma dose e duas doses da medicação (continua)
Pré-medicação 90 dias 180 dias p0 p1 p2 p3 p4
Hemoglobina 0,912 <0,001
dose 1 13,30 ± 1,01 14,10 ± 0,00 14,60 ± 0,28 0,123 <0,001 0,004
dose 2 13,33 ± 0,90 14,24 ± 0,74 14,13 ± 1,26 <0,001 <0,001 0,590
Leucócitos 0,732 0,014
dose 1 7960 ± 3394,8 7075 ± 2043,5 9660 ± 1060,7 0,960 0,199 0,102
dose 2 7173,8 ± 1070,3 8035,7 ± 1133,6 10021,3 ± 4567,2 <0,001 0,026 0,547
Plaquetas 0,415 0,006
dose 1 282667 ± 70692 207000 ± 4242,6 257500 ± 85560 0,005 0,153 0,302
dose 2 273500 ± 30622 254000 ± 28225 260375 ± 28824 0,096 0,020 0,531
FSH 0,115 0,206
dose 1 6,66 ± 1,45 4,41 ± 2,28 6,04 ± 1,98 --- --- ---
dose 2 3,62 ± 2,05 4,99 ± 2,39 7,60 ± 7,93 --- --- ---
LH 0,545 0,736
dose 1 4,83 ± 3,88 3,98 ± 4,77 1,93 ± 1,73 --- --- ---
dose 2 1,90 ± 1,39 2,34 ± 1,20 3,46 ± 3,90 --- --- ---
HAM 0,754 0,208
dose 1 1,55 ± 2,50 --- 1,42 ± 2,33 --- --- ---
dose 2 0,62 ± 0,67 --- 0,42 ± 0,46 --- --- ---
TSH 0,101 <0,001
dose 1 1,22 ± 0,77 1,53 ± 1,05 0,86 ± 0,13 <0,001 0,996 0,025
dose 2 1,63 ± 0,69 2,59 ±1,78 3,27 ± 2,23 0,040 <0,001 0,089
T4 livre 0,054 0,396
dose 1 1,03 ± 0,02 1,11 ± 0,05 1,00 ± 0,01 --- --- ---
dose 2 1,00 ± 0,09 0,97 ± 0,05 1,05 ± 0,07 --- --- ---
Prolactina 0,673 0,278
dose 1 10,00 ± 6,24 16,35 ± 12,52 5,85 ± 1,91 --- --- ---
dose 2 10,45 ± 3,01 10,96 ± 2,84 12,66 ± 5,65 --- --- ---
BD 0,209 0,024
dose 1 0,09 ± 0,03 0,10 ± 0,00 0,22 ± 0,18 0,350 0,576 0,848
dose 2 0,13 ± 0,04 0,12 ± 0,03 0,08 ± 0,02 0,670 <0,001 <0,001
BI 0,567 0,696
dose 1 0,48 ± 0,11 0,67 ± 0,11 0,42 ± 0,56 --- --- ---
dose 2 0,47 ± 0,16 0,44 ± 0,19 0,51 ± 0,25 --- --- ---
AST 0,127 <0,001
dose 1 13,67 ± 2,31 19,50 ± 0,71 20,50 ± 0,71 <0,001 <0,001 <0,001
dose 2 16,38 ± 6,21 24,29 ± 8,06 23,13 ± 7,68 <0,001 <0,001 0,142
Resultados 43
Tabela 14 – Comparação entre os resultados de exames laboratoriais ao longo do
tempo, entre uma dose e duas doses da medicação (final)
Pré-medicação 90 dias 180 dias p0 p1 p2 p3 p4
ALT 0,501 0,009
dose 1 13,67 ± 5,86 16,00 ± 5,66 18,50 ± 10,61 0,355 0,655 0,909
dose 2 13,00 ± 11,28 17,86 ± 12,58 20,13 ± 14,80 <0,001 <0,001 0,666
FALC 0,919 0,051
dose 1 65,00 ± 21,93 61,00 ± 31,11 80,00 ± 1,41 --- --- ---
dose 2 62,50 ± 15,40 75,29 ± 13,95 70,00 ± 17,53 --- --- ---
Albumina 0,784 0,471
dose 1 4,20 ± 0,17 4,50 ± 0,28 4,15 ± 0,21 --- --- ---
dose 2 4,14 ± 0,34 4,39 ± 0,43 4,20 ± 0,28 --- --- ---
Uréia 0,391 0,191
dose 1 23,33 ± 2,52 26,95 ± 1,91 23,80 ± 1,56 --- --- ---
dose 2 22,13 ± 4,76 24,59 ± 5,34 24,08 ± 7,06 --- --- ---
Creatinina 0,948 0,172
dose 1 0,81 ± 0,10 0,75 ± 0,07 0,75 ± 0,07 --- --- ---
dose 2 0,77 ± 0,12 0,74 ± 0,08 0,77 ± 0,11 --- --- ---
p0 = Valor-p para a diferença de resultados atribuída à dose da medicação (uma ou duas doses);
p1 = Valor-p global, considerando avaliações ao longo do tempo (modelo linear misto);
p2 = Valor-p comparando os valores de avaliação pré e após 90 dias (modelo linear misto);
p3 = Valor-p comparando os valores de avaliação pré e após 180 dias (modelo linear misto);
p4 = Valor-p comparando os valores de avaliação entre 90 e 180 dias (modelo linear misto);
As diferenças estatisticamente significativas ocorreram ao longo do tempo
para hemoglobina (aumento significativo entre pré e 180 dias, e entre 90 e 180
dias para a dose 1; aumento entre pré e 90 dias, e entre pré e 180 dias para a
dose 2), leucócitos (aumento entre pré e 90 dias, e entre pré e 180 dias para a
dose 2), e plaquetas (aumento entre pré e 90 dias para dose 1; aumento entre
pré e 180 dias para a dose 2). FSH, LH, prolactina e hormônio anti -mülleriano
não apresentaram diferença s entre doses e nem ao longo do tempo. TSH
apresentou aumento significativo ao longo do tempo, sendo esse aumento
significativo para os intervalos entre pré e 90 dias, e entre 90 e 180 dias para a
dose 1, e entre pré e 90 dias e entre pré e 180 dias para a dose 2. Não houve
diferença entre doses. T4 livre não apresentou diferença entre doses e nem ao
longo do tempo (Tabela 14).
Entre os parâmetros de avaliação de toxicidade hepática e renal,
encontramos diferença significativa ao longo do tempo para bilirrubina direta
Resultados 44
(diminuição para a dose 2 nos intervalos entre pré e 180 dias, e entre 90 e 180
dias), AST (aumento para a dose 1 nos intervalos entre pré e 90 dias, pré e 180
dias e entre 90 e 180 dias; para a dose 2, aumento entre pré e 90 dias, e entre
pré e 180 dias) e ALT (aumento para a dose 2 entre pré e 90 dias, e entre pré e
180 dias). Os valores de bilirrubina indireta, fosfatase alcalina, albumina, uréia e
creatinina não apresentaram aumento significativo entre doses e nem ao longo
do tempo, nos intervalos pesquisados (Tabela 14).
Discussão 45
5 DISCUSSÃO
Este estudo buscou avaliar a eficácia do tratamento da dor pélvica em
pacientes portadoras de endometriose profunda intestinal com o uso de droga
antiproliferativa (metotrexato) acoplado à nanoemulsão lipídica (LDE). Trata-se
do primeiro ensaio clínico em humanos com o uso desse tipo de tratamento para
mulheres com endometriose profunda intestinal.
Nosso grupo desenvolveu estudos anteriores que pavimentaram o
caminho para a presente pesquisa ao demonstrarem maior expressão gênica de
receptores de colesterol LDL (LDL-R e LRP-1) na membrana celular de focos de
endometriose profunda intestinal (Gibran et al., 2017) e absorção do LDE
marcado com carbono 14 em lesões de endometriose profunda (Bedin et al.,
2019). Essas observações sinalizaram para o uso da via de endocitose mediada
por LDL como um mecanismo para o tratamento da endometriose por meio de
uma terapia sítio específica. Os resultados obtidos com este estudo mostraram
a segurança do tratamento com o metotrexato e sugerem que o LDE-MTX pode
ser promissor no tratamento de mulheres com endometriose profunda intestinal,
pois obtivemos melhora estatisticamente significativa nas queixas de
dispareunia, dor pélvica acíclica e disquezia no intervalo de tempo analisado.
5.1 Toxicidade
Um estudo de coorte retrospectivo buscou avaliar características clínicas
e fatores de risco identificáveis para o desenvolvimento de toxicidade
relacionada ao uso de baixas doses de metotrexato, e sugeriu a insuficiência
renal, a hipoalbuminemia, o uso de inibidores da bomba de prótons e o uso de
anti-inflamatórios não-esteroidais como fatores de risco para este desfecho
(Kivity et al., 2014). Como baixa dose, se entende 5 a 25 mg/semana; alta dose
é considerada até 1 grama por ciclo e é prescrita no tratamento de câncer, como
leucemia linfóide aguda em crianças, câncer de bexiga, neoplasias trofoblásticas
Discussão 46
e osteossarcomas. Náuseas, vômitos, cefaleia, fadiga, diarréia, mielossupresão,
pancitopenia, disfunção hepática e renal, mucosite, estomatite, úlceras
gastrointestinais e cutâneas, queda de cabelo, sintomas pulmonares e
pneumonites são manifestações de toxicidade descritas para o uso do
metotrexato, ainda que em baixas doses (Kivity et al., 2014; Wang et al., 2018;
Bedoui et al., 2020; Katturajan et al., 2021).
No presente estudo, tivemos efeitos colaterais de leve intensidade em
45,46% das mulheres nas primeiras 6 horas após a infusão e em 90,91% das
mulheres até o quinto dia após a medicação. Nenhuma paciente apresentou
evento adverso grave. Os principais sintomas relatados após a infusão foram
moleza, tontura, náusea, diarréia e sensação de boca seca. Até o quinto dia, sete
das onze pacientes se queixaram de náuseas, seis se queixaram de dor
abdominal, quatro de moleza, três de sangramento uterino anormal e três de
cefaleia. Os efeitos colaterais foram leves e não necessitaram de atendimento
médico, sendo resolvidos espontaneamente ou com o uso de sintomáticos
habituais. No presente estudo, portanto, para a dose utilizada (25mg/m2), a
medicação apresentou baixo perfil de toxicidade.
5.2 Avaliação Laboratorial
Em relação aos exames laboratoriais, encontramos variação nos
parâmetros de hemoglobina (Hb), leucócitos, plaquetas, hormônio
tireoestimulante (TSH), bilirrubina direta (BD), aspartato aminotransferase (AST),
e alanina aminotransferase (ALT). Houve aumento nos valores de hemoglobina,
leucócitos e plaquetas, fato que provavelmente não se correlaciona à
intervenção realizada na pesquisa, uma vez que o esperado, dentro do perfil de
toxicidade da droga, seria diminuição dos valores sinalizando para uma possível
injúria medular (Bedoui et al., 2020; Katturajan et al., 2021). A toxicidade
hematológica é encontrada em cerca de 25% dos pacientes em tratamento de
artrite reumatoide (Wang et al., 2018). O valor de TSH exibiu aumento
significativo para os intervalos entre pré e 90 dias, e entre pré e 180 dias, sendo
que os valores de T4 livre não sofreram alteração significativa. AST e ALT
exibiram aumento estatisticamente significativo, mas não clinicamente
Discussão 47
significativo, uma vez que se mantiveram dentro dos parâmetros normais. A
literatura nos mostra que elevações discretas nas aminotransferases são
relativamente comuns (69-88%) para os usos habituais da droga, especialmente
nos primeiros quatro anos (Salliot & van der Heijde, 2009; Bedoui et al., 2020;
Hannoodee & Mital, 2021), só havendo indicação de interrupção quando esses
valores são maiores que duas vezes o limite superior da normalidade (Saag et
al., 2008; Singh et al., 2012; Singh et al., 2016). A bilirrubina direta apresentou
diminuição da média nos intervalos analisados, inferindo normalidade. Albumina,
que reflete funcionamento hepático por ser este órgão responsável pela sua
produção, manteve-se sem alterações significativas, sendo observado até
discreto aumento.
Insuficiência renal aguda pode ocorrer em 2 a 12% dos pacientes que
recebem altas doses de MTX, definidas como doses iguais ou superiores a 500
mg/m2, atribuída à cristalização da droga no lumen dos túbulos renais (Howard
et al., 2016). Os valores de uréia e creatinina mantiveram-se sem alterações
significativas neste estudo. A partir desses dados, podemos concluir que o
metotrexato é seguro para ser utilizado na dose realizada, acoplado à
nanoemulsão lipídica.
Não houve mudança significativa nos valores de hormônio anti-mülleriano
e nem dos valores de FSH e LH ao longo do estudo, resultado em consonância
com estudos anteriores (Oriol et al., 2008; Ohannessian et al., 2014; Boots et al.,
2016; Sahin et al., 2016; Sahin Ersoy et al., 2016; Shirazi et al., 2020) que
demonstraram não haver impacto no futuro reprodutivo com o uso da droga. A
prolactina não é um parâmetro de toxicidade comumente avaliado, mas em
estudo com pacientes com câncer de mama, submetidas à quimioterapia com o
protocolo de ciclofosfamida, metotrexato e 5-fluorouracil (CMF) foi detectado
aumento em duas de 10 pacientes avaliadas, sem, no entanto, haver explicação
para este efeito (Kailajärvi et al., 2000). Este mesmo estudo não encontrou
alterações significativas nos valores de TSH das pacientes que receberam a
medicação, com diminuição discreta nos parâmetros de T4 livre e T3 livre
(Kailajärvi et al., 2000). De apresentação bastante rara, as desordens
Discussão 48
linfoproliferativas associadas ao metotrexato poderiam cursar com
hipopituitarismo (Aoshima et al., 2019).
5.3 Avaliação Clínica
A literatura nos mostra que não há uma relação direta entre extensão da
endometriose e a intensidade da queixa álgica apresentada pela paciente:
nódulos pequenos podem causar sintomas severos, e pacientes assintomáticas
podem apresentar acometimento pélvico extenso (Fauconnier et al., 2002; Abrao
et al ., 2021 ). No entanto, quando consideramos as diferentes formas de
apresentação da doença, conforme sugerido por Nisolle e Donnez, em 1997 ,
temos que a endometriose profunda infiltrativa é a única forma da doença cuja
relação com a queixa de dor pélvica crônica é mais estabelecida ( Fauconnier &
Chapron, 2005), e um dos mecanismos descritos é a compressão ou infiltração
das fibras nervosas subperitoneais adjacentes ( Fauconnier & Chapron, 2005).
Existem ainda características distintas do nódulo de endometriose profunda em
relação à endometriose peritoneal superficial: além dos componentes glandular
e estromal, e do componente de fibrose secundário à inflamação (devido às
micro-hemorragias recorrentes pela atividade metabólica do endomét rio
ectópico), existe ainda a presença de fibras musculares lisas (Cornillie et al. ,
1990; Anaf et al., 2000; Vercellini et al., 2017; Vercellini et al., 2018; Vigano et
al., 2018). Em resumo, a lesão profunda se apresenta em formato de nódulos ou
placas, constituída por fibrose e músculo liso, além do componente glandular e
estromal semelhante ao endométrio tópico (Anaf et al., 2000).
A dor, nessas pacientes, poderia ocorrer por dois mecanismos: a
liberação recorrente de mediadores inflamatórios, como cit ocinas e
prostaglandinas causam uma dor de comportamento funcional, geralmente
cíclica, como os sintomas intestinais irritativos. Já a retração do tecido fibrótico
seria responsável pelos sintomas intestinais obstrutivos, apesar de os nódulos
da parede int estinal também sofrerem influência dos processos inflamatórios
(Vercellini et al., 2018). Outras publicações sobre o tema destacaram, além do
mecanismo inflamatório, (Howard, 2009; Nothnick & Alali, 2016, Brichant et al.,
Discussão 49
2022), os mecanismos nociceptivo e neuropático, este último por lesão direta da
fibra nervosa e sensibilização central (Howard, 2009).
Para o uso do metotrexato acoplado à nanoemulsão lipídica (LDE-MTX)
tivemos apenas estudos prévios em animais: o tratamento de artrite induzida em
coelhos mostrou vantagem da ação anti-inflamatória da droga em relação à
preparação comercial (Mello et al., 2013; Mello et al., 2016). Em modelos de
transplante cardíaco em coelhos, o LDE-MTX teve papel significativo na
expressão gênica de fatores pró-inflamatórios, reduzindo vinte vezes a
expressão dos genes de TNF-α e MCP-1, e quinze vezes para a interleucina 18
(Fiorelli et al., 2017). Para a expressão gênica de VCAM-1 (Molécula de adesão
celular vascular -1), a redução foi de trinta vezes (Fiorelli et al., 2017). Mostrou
também aumento na expressão de IL-10, de ação anti-inflamatória (Fiorelli et al.,
2017). Estudos anteriores demonstraram que as pacientes com endometriose
apresentam aumento de mediadores inflamatórios, como o próprio TNF-α, MIF,
MCP-1, interleucinas (IL-1, IL-6 e IL-8), prostaglandinas, entre outros (Podgaec
et al., 2007; Nothnick & Alali, 2016; Riccio et al., 2018; Bellelis et al., 2019; Li &
LibinWeng, 2022, Brichant et al., 2022).
Nas pacientes com endometriose, objetivamos alcançar com o uso do
metotrexato e sua conhecida ação anti-inflamatória (Wessels et al., 2008;
Abolmaali et al., 2013), o controle da inflamação, que é a principal fonte de dor
na doença (Howard, 2009; Nothnick & Alali, 2016; Brichant et al., 2022). O
controle de alguns mediadores inflamatórios que se encontram elevados, com o
uso da medicação, pode ser responsável pelo resultado observado neste projeto:
a melhora clínica da dor, sem a melhora correspondente no exame de imagem.
A maior atividade proliferativa da doença, demonstrada em estudo anterior com
cultura de células de implantes de endometriose profunda e ovariana, em
comparação com tecidos normais, (Ngô et al., 2010) também pode ter sofrido
impacto pelo uso da medicação, apesar de ser esta uma hipótese que não tenha
encontrado subsídios com a adição da medicação nessas culturas de células
(Ngô et al., 2010). No entanto, a melhor biodisponibilidade da droga esperada
com o uso da nanoemulsão lipídica, a qual promoveria uma entrada facilitada da
medicação dentro da célula, poderia resultar em maior efetividade, uma vez que
Discussão 50
venceria alguns dos mecanismos descritos para resistência no uso da droga,
relacionados à entrada na célula via receptor e à capacidade de difusão entre
membranas celulares (Huennekens et al., 1994; Moura et al., 2011).
A melhora clínica observada neste estudo, para as queixas de
dispareunia, dor acíclica e disquezia pode ter ocorrido, portanto, pela ação anti-
inflamatória da droga . O exame físico não exibi u alterações proeminentes na
análise subjetiva do examinador único (R.A -T.), mas esta modalidade de
avaliação apresenta menor acurácia que os exames de imagem existentes para
diagnóstico e seguimento da doença (Hudelist et al., 2011a; Chapron et al., 2002;
Zhang et al., 2020).
5.4 Avaliação Ultrassonográfica
A avaliação por ultrassom das pacientes foi realizada em três
oportunidades distintas: antes da medicação, após 30 dias da realização da
mesma, e ao final do seguimento, com 180 dias da administração da medicação.
Acreditamos que o ultrassom pélvico e transvaginal com preparo intestinal seja
a melhor ferramenta para a avaliação de endometriose profunda e intestinal e a
literatura corrobora essa afirmação ( Abrao et al., 2007; Goncalves et al., 2010;
Hudelist et al., 2011b; Exacoustos et al., 2014; Indrielle-Kelly et al., 2020). Todos
os exames foram realizados por um único profissional (M.O.G.), muito experiente
neste tipo de avaliação, dirimindo possíveis diferenças interobservador na
avaliação do compartimento posterior (Bean et al., 2020).
Não há consenso sobre o melhor método para avaliar a progressão ou
redução da lesão intestinal através do exame de imagem e vários parâmetros já
foram propostos: enquanto um estudo considerou o volume da lesão intestinal
ao ultrassom (produto das medidas longitudinal, ântero -posterior e transversal
do nódulo ao ultrassom, multiplicado pelo fator de correção 0,52) ( Leonardo-
Pinto et al ., 2017 ), outro estudo avaliou separadament e as medidas de
comprimento e circunferência ao ultrassom, na avaliação e seguimento das
pacientes com doença intestinal ( Abrao et al., 2021 ). Um estudo que avaliou
nódulos de endometriose profunda em retossigmóide, através da ressonância
magnética, utiliz ou como parâmetro para a progressão ou regressão destes
Discussão 51
nódulos a diferença ≥ 20% nas medidas de comprimento ou de espessura;
diferenças abaixo deste valor foram consideradas estabilidade do nódulo (Netter
et al., 2019). Este valor de cut-off foi definido a partir de critérios utilizados para
definir o crescimento de tumores sólidos (Eisenhauer et al., 2009).
Por não haver consenso sobre a melhor forma de avaliar progressão dos
nódulos de endometriose intestinal, optamos por avaliar as lesões nas três
medidas (longitudinal, ântero-posterior e transversal), e também a circunferência
da alça acometida. Não optamos pela avaliação pelo volume pelo fato de o
nódulo de endometriose ser bastante heterogêneo em seu formato. Não
encontramos, conforme descrito, redu ção ou progressão das lesões, em
nenhuma das medidas, com o uso do LDE -MTX no espaço de tempo avaliado
(30 e 180 dias após medicação).
A ausência de redução na lesão intestinal, apesar da melhora clínica,
também foi observada em outros estudos, que demons traram a inexistência de
redução significativa da lesão intestinal apesar da expressiva melhora na queixa
de dor e da qualidade de vida após o tratamento com dienogeste ( Leonardo-
Pinto et al., 2017). Ou seja, não há necessariamente relação entre a remissão
das queixas álgicas e a redução do volume dos nódulos de endometriose
profunda (Leonardo-Pinto et al., 2017; Egekvist et al., 2019; Abrao et al., 2021).
O maior componente de fibrose presente nas le sões de endometriose profunda
intestinal, em comparação com a endometriose profunda em outras localizações,
pode ser o responsável pela menor resposta observada no tratamento clínico da
doença nesta topografia, e também pela menor absorção de LDE marcada com
carbono 14 observada em estudo anterior, em relação à pacientes sem
comprometimento intestinal (Bedin et al., 2019). Entender essa característica da
lesão intestinal poderá resultar em tratamentos mais efetivos, levando em
consideração esta particularidade (Vigano et al., 2018).
5.5 Comparações entre doses
Conforme mencionado anteriormente, o metotrexato tem diversas
aplicações na medicina, sendo considerado tratamento de primeira linha em
diversas doenças reumatológicas, tendo como seu maior exemplo a artrite
Discussão 52
reumatoide (Kremer et al., 2004; Padjen et al., 2020; Hannoodee & Mittal, 2021;
Sherbini et al., 2021). Em ginecologia, seu uso mais expressivo encontra -se no
tratamento da gravidez ectópica, desde 1982, em suas diversas apresentações
clínicas; no entanto, foi primeiramente utilizado para o tratamento d o
coriocarcinoma e da doença trofoblástica gestacional (ACOG, 2018; Revzin et
al., 2021).
Para o tratamento da gravidez ectópica, seu uso mais consagrado dentro
da ginecologia, são recomendadas três opções de protocolo: o regime de dose
única, de duas doses e de múltiplas doses. O primeiro consiste na administração
de 50 mg/m2 de MTX no dia 1, seguida da dosagem da beta-hcg nos dias 4 e 7.
Se a dosagem sérica deste hormônio apresentar redução maior ou igual a 15%,
é feito o seguimento semanal até negativação. Se menor do que 15%, nova dose
de MTX (50 mg/m2) é aplicada (ACOG, 2018). O regime de duas doses consiste
na aplicação da mesma dose de MTX (50 mg/m2) nos dias 1 e 4, com dosagem
de beta -hcg nos dias 4 e 7. Não havendo redução maior do que 15%, nova
dosagem de 50 mg/m 2 será aplicada no dia 7 (ACOG, 2018). Para o regime de
multidose, 1mg/kg de MTX é aplicado nos dias 1, 3 e 5, alternado com o uso de
ácido folínico (0,1 mg/kg) nos dias 2, 4, 6 e 8 (ACOG, 2018).
Posteriormente ao uso no tratamento da do ença trofoblástica e da
gravidez ectópica, o metotrexato foi testado em endometriomas ovarianos, os
quais receberam, após aspiração de seu conteúdo, 30 mg da droga diluídos em
3 ml de solução salina (Mesogitis et al., 2005; Agostini et al., 2007; Shawki et al.,
2012).
A partir desses dados, optamos pela realização de no mínimo 50 mg/m2 e
no máximo 100 mg/m 2 de dose total da droga, à semelhança da dose utilizada
no tratamento da gravidez ectópica. No presente estudo, como era esperado um
melhor desempenho da droga acoplada à nanoemulsão lipídica, com melhora da
citotoxicidade e como seu uso nesta apresentação em humanos era inédito,
optamos por dividir a dose mínima (50 mg/m 2) em duas tomadas de 25 mg/m 2,
e a dose máxima (100 mg/m2) em quatro tomadas de 25 mg/m2, com uma dose
intermediária de 75 mg/m2, dividida em 3 tomadas de 25 mg/m2. Pelas restrições
Discussão 53
impostas pela pandemia, conseguimos administrar nas pacientes participantes
25 ou 50 mg/m2 de dose total.
Conforme apresentado nos resultados, não houve difere nça significativa
entre os resultados obtidos nos parâmetros clínicos, laboratoriais e de imagem
entre a realização de uma dose (total de 25 mg/m 2) e duas doses (total de 50
mg/m2). Estes dados, no entanto, devem ser vistos com moderação devido ao
tamanho reduzido do grupo que recebeu uma dose.
5.6 Nanotecnologia e Endometriose
O uso da nanotecnologia em medicina vem crescendo ao longo dos últimos
anos, com o advento de nanossistemas para o diagnóstico e tratamento de
doenças como câncer, doenças cardiovasculares, neurológicas e oculares, bem
como doenças infecciosas (Anjum et al., 2021; Chowdhury et al., 2021; Liu et al.,
2021). Muito tem se desenvolvido, p articularmente no campo das doenças
neoplásicas, tanto como ferramenta auxiliar no diagnóstico, quanto para o
tratamento deste grupo de doenças (Moses et al ., 2021 ; Sindhwani & Chan,
2021; Tang et al., 2021). As nanopartículas, em medicina, podem variar de 5 a
250 nm (Anjum et al ., 2021). C omo carreadoras de drogas em sistema de
delivery, além de potencializar os efeitos citotóxicos, também protegem contra
mecanismos degradativos da circulação sistêmica, como hidrólise e oxidação,
aumentando sua permanência no plasma e, por conseguinte, permitindo que
maior quantidade da substância em questão possa agir no tecido alvo (Moses et
al., 2021). A melhora da solubilidade também é uma vantagem descrita , bem
como a fuga da resposta imunológica e mudanças na cinética de eliminação da
droga, pela mudança no tamanho da mesma (Anjum et al., 2021; Moses et al.,
2021; Sindhwani & Chan, 2021).
As nanopartículas podem ser de diversas naturezas e podem incorporar as
drogas de diversas formas: encapsulados dentro das nanopartículas, integradas
à matriz do material ou apresentadas na superfície , a depender da interação
celular desejada (Anjum et al., 2021; Sindhwani & Chan, 2021 ). O resultado é
uma medicação nova, com características como tamanho, forma e química de
superfície diferentes da original ( Sindhwani & Chan, 2021 ). As nanopartículas
Discussão 54
lipídicas, em especial, são as que contém frações de natureza lipídica, tem
diâmetro que varia de 10 a 100 nm, são esféricas em sua forma, possuem núcleo
lipídico sólido e podem transportar moléculas lipofílicas com facilidade (Anjum et
al., 2021).
As nanop artículas podem se concentra r no tecido alvo por diversos
mecanismos. Em relação às neoplasias, o efeito de “ganho de permeabilidade e
retenção” é conhecido: tumores são vascularizados, com permeabilidade
vascular muito aumentada e prejuízo da drenagem linfática , favorecendo a
entrada e a permanência das drogas, concentrando no tecido alvo (Moses et al.,
2021). Como visto anteriormente, endometriose e tumore s compartilham
comportamentos semelhantes e, como os últimos, a endometrio se também
apresenta fenômenos angiogênicos, com vascularização aumentada nos focos
da doença, vasos neoformados e imaturos, além da associação com fatores que
aumentam a permeabilidade vascular (VEGF – fator de crescimento endotelial
vascular, prostaglandinas entre outros) (Moses et al., 2021).
Além desta forma passiva de concentração no tecido alvo, temos também
a forma ativa, que consiste na modificação das nanopartículas com o acréscimo
de ligantes (peptídeos, anticorpos e pequenas moléculas), que podem se ligar a
receptores específicos superexpressos nas células alvo, facilitando a
internalização dessas nanopartículas modificadas pelas células de interesse ,
desenvolvendo novas estratégias terapêuticas (Garzon et al., 2021; Moses et al.,
2021). Estudos mostraram que alguns receptores estão superexpressos tanto
em c âncer quanto em endometriose ; desta forma estratégias inicialmente
concebidas para o tratamento de cânceres poderiam ser adaptadas para o
tratamento de endometriose (Moses et al., 2021), abrindo um extenso campo de
pesquisas nesta área, inclusive com imunoterapia, terapias fototérmicas e
terapias gênicas (Ling et al., 2021; Moses et al., 2021). Trata-se do mecanismo
utilizado neste estudo, de forma inovadora, utilizando receptores de colesterol
LDL que se encontram superexpressos em focos de endometriose (Gibran et al.,
2017), à semelhança de células neoplásicas (Gabitova et al., 2014) e associando
a droga escolhida (MTX) à uma nanoemulsão lipídica semelhante a este
colesterol, a LDE.
Discussão 55
Esta nanoemulsão lipídica foi desenvolvida pela equipe do Dr. Raul
Maranhão, no Laboratório de Metabolismo e Lípides do InCor e, a partir de uma
série de estudos com drogas como paclitaxel (Rodrigues et al., 2005; Graziani et
al., 2017), carmustina (Maranhão et al., 2002), etoposide (Valduga et al., 2003;
Rohr et al ., 2020 ), e metotrexato (Moura et al ., 2011) , ficou comprovado o
acoplamento eficaz desses quimioterápicos com a LDE. Essas nanopartículas,
ao serem injetadas na circulação, conseguiram se concentrar em células
neoplásicas, carregando estes quimioterápicos testados, promovendo um efeito
sítio-específico, reduzindo os efeitos colaterais da ação da droga em células
saudáveis sem, no entanto, perder o efeito citotóxico da mesma. As respostas
clínicas foram impressionantes no tratamento de pacientes oncológicos, que
muitas vezes não tinham mais resposta com as terapias clínicas convencionais.
Em endometriose, estratégias para a “entrega” de drogas ( drug delivery)
estão sendo desenvolvidas tanto para novos medicamentos quanto para
compostos já conhecidos, como substâncias antiinflamatórias, antioxidantes,
antiangiogênicas ou imunomoduladoras (Garzon et al ., 2021). Além disso, a s
nanopartículas podem “liberar” substâncias terapêuticas em resposta ao uso de
lasers, desencadeando efeitos fototérmicos, ondas de radiofrequência e
ultrassons (Garzon et al., 2021). Além das vantagens descritas com o uso da
nanotecnologia para o tratame nto da doença, temos possíveis vantagens
também para o diagnóstico, com o uso de nanopartículas superparamagnéticas
evidenciando os focos de endometriose no exame de ressonância , e também
com o uso da fluorescência durante os procedimentos cirúrgicos favor ecendo a
identificação e remoção dos focos da doença (Moses et al., 2021).
Podemos concluir que a nanotecnologia tem ainda um vasto horizonte a
ser explorado, com diversas possibilidades dentro da medicina. Terapias
promissoras para o tratamento de doenças e novas metodologias diagnósticas
estão sendo desenvolvidas em diversos campos, com grande benefício para a
sociedade.
Discussão 56
5.7 Limitações
Algumas limitações para os resultados obtidos com este estudo podem
ser observadas: o pequeno número de pacientes, a idade das pacientes
participantes, cuja média foi de 40 anos, impactando nos resultados de avaliação
de fertilidade, e a quantidade de doses da medicação realizadas, inferior ao
previsto inicialmente, pelas limitações impostas pela pandemia. Um fator
confundidor que deve ser considerado é o uso concomitante de medicações
hormonais durante o período em que se desenvolveu a pesquisa. Este aspecto
deve ser considerado na interpretação dos resultados ; entretanto, é importante
pontuar que todas as pacientes participantes apresentavam queixa álgica
relevante mesmo com o uso crônico dessas medicações e houve melhora
observada em comparação com o quadro inicial.
A média de idade das pacientes do estudo, que foi de 40 anos, é
justificada por um dos critérios de inclusão, que era a ausência de desejo
reprodutivo. Pelo fato de a endometriose ser uma doença que cursa com
infertilidade em parcela representativa das pacientes, esta é uma queixa
frequente nas portadoras da doença, principalmente nas que buscam tratamento
cirúrgico.
5.8 Considerações Finais
Pacientes com endometriose profunda padecem pelas queixas álgicas,
em maior ou menor grau, pelas dificuldades encontradas no âmbito do
planejamento familiar, quando decidem ter filhos, pelo atraso no diagnóstico e
na instituição da terapêutica adequada e, quando da decisão cirúrgica, das
dificuldades técnicas e riscos inerentes ao procedimento, o que as torna mais
vulneráveis à complicações (Abo et al., 2018; Roman et al., 2020; Vesale et al.,
2020). Soma-se a esses fatores a dificuldade presente nos serviços públicos de
referência em absorver a demanda vinda da rede básica, e de oferecer
tratamento cirúrgico para as pacientes com dor refratária ao tratamento clínico
ou com infertilidade, quando não há possibilidade de recorrer às técnicas de
reprodução assistida. A necessidade de equipe cirúrgica capacitada e de
materiais específicos e de alto custo dentro da técnica laparoscópica,
Discussão 57
considerada padrão-ouro, prejudica a fluidez na resolução destes casos. O
resultado são grandes filas de espera, observadas nos melhores centros de
referência do país.
Considerando o impacto econômico e social, há que se destacar que a
paciente com endometriose apresenta piora da sua capacidade produtiva: cada
mulher afetada tem uma média de perda de 10,8 horas de trabalho por semana
(Nnoaham et al., 2019), além de apresentar redução significativa da qualidade
de vida e da função sexual (Tripoli et al., 2011; Yela et al., 2020). Um estudo com
254 mulheres com endometriose, pareadas com mulheres sem a doença,
demonstrou que 43,3% das mulheres com endometriose apresentavam
disfunção sexual, em comparação com 17,6% do grupo de mulheres sem a
doença, com prejuízo em todas as fases da resposta sexual (Fairbanks et al.,
2017).
Todas as pacientes incluídas neste estudo eram portadoras de
endometriose intestinal, com acometimento de pelo menos a camada muscular
própria (Vercellini et al., 2018), e tinham indicação cirúrgica por falha do
tratamento clínico, com persistência da queixa álgica. Foram selecionadas
pacientes sem desejo reprodutivo, que estavam aguardando cirurgia há pelo
menos 1 ano.
Há uma tendência da literatura em considerar o tratamento cirúrgico, no
caso de lesões intestinais não obstrutivas e ausência de desejo reprodutivo,
como um segundo passo após tratamento clínico, preferencialmente com
progestágenos (Vercellini et al., 2018). A cirurgia e seus riscos potenciais se
reservariam, nesses casos, para pacientes com intolerância aos progestágenos,
contraindicação ao uso dos mesmos e para aquelas que não apresentaram
resposta satisfatória (Vercellini et al., 2018). Considerando a heterogeneidade
de tratamentos clínicos disponíveis, encontramos uma taxa de satisfação global
ao redor de 66% para essa modalidade, o que estimula os esforços para o
desenvolvimento de novas terapêuticas (Vercellini et al., 2018).
O presente trabalho é um estudo clínico fase I/II, inédito em mulheres com
endometriose, em que buscou -se avaliar segurança e eficácia no uso dessa
apresentação da droga no tratamento dessas pacientes. É o primeiro estudo em
Discussão 58
mulheres com o uso da nanomedicina para o tratamento da doença. Nossos
resultados demonstraram a segurança do LDE-MTX, e a resposta clínica obtida
com o tratamento encoraja pesq uisas futuras com a medicação nesta
apresentação, em casuísticas maiores , para confirmar a eficácia demonstrada
no tratamento da dor pélvica.
Conclusões 59
6 CONCLUSÕES
De acordo com os resultados obtidos com a nossa pesquisa, podemos
concluir que:
a) Houve melhora significativa da dispareunia após 120 e 180 dias da
medicação, sem diferença entre a quantidade de doses aplicadas;
b) Houve melhora significativa da dor pélvica acíclica com ambas as doses da
medicação, considerando o período global de avaliação;
c) Houve melhora significativa da disquezia após 180 dias da medicação e essa
melhora foi observada nas pacientes que receberam duas doses da
medicação;
d) Não houve eventos adversos graves, assim como não ocorreu sinais de
mielotoxicidade nem de toxicidade hepática ou renal;
e) Não houve mudança significativa no tamanho das lesões intestinais ao
ultrassom, bem como das outras lesões pélvicas relacionadas à
endometriose;
f) Não houve redução nos níveis de hormônio anti-mulleriano antes e após 180
dias do tratamento.
Anexos 60
7 ANEXOS
Anexo A – Parecer do CEP – Hospital Pérola Byington
CENTRO DE REFERÊNCIA DA
SAÚDE DA MULHER - CRSM
PARECER CONSUBSTANCIADO DO CEP
Pesquisador:
Título da Pesquisa:
Instituição Proponente:
Versão:
CAAE:
Tratamento clínico de endometriose profunda com uso de droga anti-proliferativa
(metotrexato) acoplado a nanoemulsão lipídica (LDE)
ROBERTA AVILA DO NASCIMENTO TAVARES
CENTRO DE ESTUDO E PESQUISA DO HOSPITAL PEROLA BYINGTON
1
64669517.1.0000.0069
Área Temática:
DADOS DO PROJETO DE PESQUISA
Número do Parecer: 1.937.704
DADOS DO PARECER
Trata-se de estudo fase I/II do uso de metotrexato vetorizado em nanoemulsão lipídica, no tratamento da
endometriose profunda. Teremos uma coorte pré-determinada de 15 pacientes, todas com queixa de dor
pélvica crônica com escala visual analógica (AVS) 7 (Maxwell et al., 1978) e com USG pélvico e
transvaginal com preparo intestinal comprobatório da presença de endometriose profunda intestinal.
As pacientes classificadas para compor os três grupos serão submetidas a investigação criteriosa da
presença de endometriose por meio de anamnese, exame físico e exame de imagem (Ultrassonografia
Pélvica e Transvaginal com preparo intestinal). Serão candidatas a participarem do estudo, as pacientes
que, após tratamento clínico convencional com medicações hormonais, não apresentarem resultados
satisfatórios e mantiverem queixa de dor pélvica crônica com AVS 7 associada a resultado de
ultrassonografia pélvica e transvaginal com preparo intestinal indicando a presença de lesão de
endometriose profunda em retossigmóide, que esteja infiltrando a camada muscular própria, sem sinais de
sub-oclusão da alça intestinal. Ao cumprirem os critérios de inclusão e exclusão, as pacientes serão
randomizadas em 3 grupos cuja diferença será a quantidade de doses de metotrexato utilizadas. Das quinze
pacientes iniciais, 5 irão compor o grupo 1, que receberá dose equivalente a 50mg/m2, divididos em 2
tomadas com intervalo
Apresentação do Projeto:
FUNDACAO DE AMPARO A PESQUISA DO ESTADO DE SAO PAULOPatrocinador Principal:
01.317-010
(11)3248-8087 E-mail:
[email protected]
Endereço:
Bairro: CEP:
Telefone:
Av.Brigadeiro Luiz Antonio, 683
Bela Vista
UF: Município:SP SAO PAULO
Fax: (11)3248-8080
Página 01 de 05
Anexos 61
Anexos 62
Anexos 63
Anexos 64
Anexos 65
Anexo B – Parecer do CEP – FMUSP
USP - FACULDADE DE
MEDICINA DA UNIVERSIDADE
DE SÃO PAULO - FMUSP
PARECER CONSUBSTANCIADO DO CEP
Pesquisador:
Título da Pesquisa:
Instituição Proponente:
Versão:
CAAE:
Tratamento clínico de endometriose profunda com uso de droga anti-proliferativa
(metotrexato) acoplado a nanoemulsão lipídica (LDE).
Sérgio Podgaec
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
1
14291619.6.0000.0065
Área Temática:
DADOS DO PROJETO DE PESQUISA
Número do Parecer: 3.402.300
DADOS DO PARECER
Trata-se de estudo fase I/II do uso de metotrexato vetorizado em nanoemulsão lipídica, no tratamento da
endometriose profunda. Desenvolvimento de uma coorte pré-determinada de 15 pacientes, todas com
queixa de dor pélvica crônica com escala visual analógica (AVS) 7 (Maxwell et al., 1978) e com USG
pélvico e transvaginal com preparo intestinal comprobatório da presença de endometriose profunda
intestinal.
Apresentação do Projeto:
O presente estudo tem como objetivo principal avaliar a eficácia do tratamento da dor pélvica em pacientes
portadoras de endometriose profunda intestinal com o uso de droga anti-proliferativa (metotrexato) acoplado
a nanoemulsão lipídica (LDE).
Objetivo da Pesquisa:
Os estudos mostram, de uma forma geral, como efeitos colaterais do uso do metotrexato: a
mielossupressão - diminuição na produção de células do sangue (0,6 - 4% dos pacientes), manifestações
gastrointestinais - náuseas, vômitos, úlceras orais, falta de apetite (0,01 - 4% dos pacientes), queda de
cabelo (0,2% dos pacientes), pneumonites - inflamação nos pulmões (0,4 - 0,8% dos pacientes), prejuízo no
sistema nervoso central (1 - 3,7% dos pacientes), piora da função do rim (0,4 - 1,4% dos pacientes), perda
de peso (1% dos pacientes), aumento das enzimas do fígado (3,2 - 4% dos pacientes), rash cutâneo -
vermelhidão na pele (0,02% dos pacientes). Para o
Avaliação dos Riscos e Benefícios:
FUNDACAO DE AMPARO A PESQUISA DO ESTADO DE SAO PAULOPatrocinador Principal:
01.246-903
(11)3893-4401 E-mail:
[email protected]
Endereço:
Bairro: CEP:
Telefone:
DOUTOR ARNALDO 251 21º andar sala 36
PACAEMBU
UF: Município:SP SAO PAULO
Página 01 de 03
Anexos 66
Anexos 67
Anexos 68
Anexo C - Escala Visual Analógica de Dor – EVA (Visual Analogue Scale –
VAS)
Anexos 69
Anexo D – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
Anexos 70
Anexos 71
Anexos 72
Anexos 73
Referências 74
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