Keywords
chronic pelvic pain, Delphi survey, ultrasound
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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
DPC - Dor pélvica crônica
ACOG - American College of Obstetricians and Gynecologists
CID - Código Internacional de Doenças
SIDP - Sociedade Internacional de Dor Pélvica
PHQ - Patient Health Questionnaire
DN - Douleur Neuropathique Questionnaire
RSNA - Radiological Society of North America
FMRP-USP - Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto
IDEA - International Deep Endometriosis Analysis
IOTA - International Ovarian Tumor Analysis
MUSA - Morphological Uterus Sonographic Assessment
ISGE - International Society for Gynecologic Endoscopy
2D - Bidimensional
3D - Tridimensional
4D - Quadridimensional
REDCap - Research Electronic Data Capture
10
LISTA DE FIGURAS
Figura 1. Painel de especialistas por país……………………………………………………. 15
Figura 2. Tempo de experiência clínica e com ultrassonografia ginecológica dos
especialistas……………………………………………………………………..... 16
Figura 3. Treinamento específico dos especialistas em ultrassonografia ginecológica……... 16
Figura 4. Avaliação da qualidade do exame pelo operador…………………………………. 17
Figura 5. #Enzian classificação……………………………………………………………….27
11
LISTA DE TABELAS
Tabela 1. Regiões avaliadas sistematicamente…………………………………………….… 18
Tabela 2. Elementos que devem ser incluídos no exame ……………………………….…. 19
Tabela 3. Sondas e modos de imagem………...…….………………………………………. 20
Tabela 4. Quesitos finais aprovados…………………………………………………………. 20
12
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO……………………………………………………………………... 1
2. OBJETIVO………………………………………………………………………….. 8
3. MÉTODOS…………………………………………………………………………. 10
3.1. Desenho do estudo……………………………………………………… 11
3.2. Criação do questionário inicial……………………...………………….. 11
3.3. Painel de especialistas…………………………………………………... 12
3.4. Número de rodadas de avaliação……………………………………….. 12
3.5. Avaliação dos quesitos do questionário estruturado……………………. 13
3.6. Elaboração do instrumento para laudo padronizado……………………. 13
4. RESULTADOS……………………………………………………………………... 14
4.1. Perfil dos especialistas…………………………………………………...15
4.2. Avaliação da qualidade do exame pelo operador……………………….. 17
4.3. Definição das regiões a serem avaliadas sistematicamente…………….. 18
4.4. Definição dos elementos que devem ser incluídos no exame…………... 19
4.5. Sondas e modos de imagem……………………………………………...20
5. DISCUSSÃO………………………………………………………………………... 23
5.1. Síntese…………………………………………………………………... 24
5.2. Sistema Venoso Pélvico………………………………………………… 30
5.3. Assoalho Pélvico………………………………………………………... 31
5.4. Limitações do estudo…………………………………………………… 33
6. CONCLUSÃO……………………………………………………………………… 35
7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS……………………………………………. 37
8. ANEXOS……………………………………………………………………………. 46
8.1. Questionário estruturado rodada 1……………………………………… 46
8.2. Questionário estruturado rodada 2……………………………………… 56
8.3. Questionário estruturado rodada 3……………………………………… 64
8.4. Modelo final do instrumento (REDCap)......……………………………. 70
1
1. INTRODUÇÃO
________________________________________________________________
2
1. INTRODUÇÃO
A dor pélvica crônica (DPC) é uma condição comum que pode acometer a mulher em
várias fases da vida, principalmente, na fase reprodutiva. A ReVITALize, iniciativa liderada
pelo Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas (ACOG) que visa padronizar a
terminologia em ginecologia e obstetrícia, define a dor pélvica crônica como “presença de dor
percebida como originária de órgãos/estruturas pélvicas, tipicamente com duração maior que
6 meses. Está frequentemente associada a consequências negativas do ponto de vista
cognitivo, comportamental, sexual e emocional, bem como com sintomas sugestivos de
disfunção do trato urinário inferior, sexual, intestinal, assoalho pélvico, miofascial ou
ginecológico” (CHEONG; WILLIAM STONES, 2006; TRIPOLI et al., 2011) . A inclusão,
nessa definição, dos quadros de dor cíclica e dor desencadeada pelo coito é tema de
controvérsia, sendo rejeitada por alguns autores. Porém, em seu último boletim, o ACOG
considera a dor pélvica cíclica como uma forma de DPC quando traz consequências
cognitivas, comportamentais, sexuais e emocionais significativas, além de considerar a
dispareunia como um componente da DPC. Tem um forte impacto negativo na qualidade de
vida das mulheres (DA LUZ; DE DEUS; CONDE, 2018) , está associada a transtornos do
humor (ROMÃO et al., 2009) , altos escores de catastrofização (SEWELL et al., 2018) , abuso
e maus tratos na infância (POLI-NETO et al., 2018) , isolamento social (MELLADO et al.,
2016) , além de interferir significativamente na realização das atividades diárias (GRACE;
ZONDERVAN, 2006) , e culminar no uso frequente dos serviços de saúde (GRACE;
ZONDERVAN, 2004) . Tudo isso determina consequências psicossociais indesejadas (SOUZA
et al., 2011) e um elevado fardo econômico para a sociedade (CHEN et al., 2017) .
A prevalência mundial da DPC varia entre 2% e 27%, dependendo da região e da
característica da população estudada (AHANGARI, 2014) , sendo próxima de 4% nos países
desenvolvidos (MELLADO et al., 2016; POLI-NETO et al., 2018) . Sua taxa de recorrência ao
longo da vida pode chegar a 33%. No Brasil estima-se uma prevalência aproximada de 10%
(GRACE; ZONDERVAN, 2004, 2006) . Em contrapartida, nenhuma doença pélvica é
identificada em aproximadamente um terço das pacientes (SOUZA et al., 2011) , e se usarmos
os critérios estabelecidos no CID-10, entre 60% e 80% se enquadram no diagnóstico de
desordem somatoforme (CHEN et al., 2017) . Cerca de 60% das mulheres não recebem um
diagnóstico específico, apesar de que 20% delas nunca tenham realizado qualquer
3
investigação para elucidar a causa da dor (GRACE; ZONDERVAN, 2004; SEWELL et al.,
2018) .
A dor pélvica crônica tem uma natureza multifatorial e pode acometer órgãos e
sistemas diversos, com a mesma manifestação clínica. Didaticamente divide-se em causas
ginecológicas e não ginecológicas, as quais frequentemente se sobrepõem em até 60% das
mulheres (SEWELL et al., 2018) . Dentre as causas ginecológicas destacam-se a
endometriose, a adenomiose, os miomas uterinos e as aderências. Entre as não ginecológicas
merecem destaque as causas intestinais, urológicas, osteomusculares e os distúrbios
emocionais, seja como causa primária ou secundária (CHEONG; WILLIAM STONES, 2006) .
A complexidade em lidar com a condição inclui falta de uniformidade na definição, o
desconhecimento da sua história natural, o grande número de fatores etiológicos (ACOG
COMMITTEE ON PRACTICE BULLETINS--GYNECOLOGY, 2004; HOWARD, 2003) , a
dificuldade em diagnosticá-los (VERCELLINI et al., 2009) , a necessidade de assistência
multidisciplinar (ALLAIRE et al., 2018) , além dos resultados desanimadores quanto ao alívio
dos sintomas em longo prazo (CHEONG; SMOTRA; WILLIAMS, 2014) .
O longo tempo sem diagnóstico, a incerteza quanto à etiologia e o anseio sobre a
possibilidade de doença maligna, somados à diminuição acentuada na qualidade de vida das
mulheres com DPC, levam, com frequência, a distúrbios emocionais importantes que devem
ser avaliados. Todas essas afecções, unidas e atuando concomitantemente, podem agravar o
quadro de DPC. A sensibilização central também parece ter um papel importante na
perpetuação do quadro de dor. Sob constante estímulo doloroso, ocorre aumento da
sensibilidade de membrana e da eficiência sináptica, culminando em uma diminuição do
limiar nociceptivo (hiperalgesia primária), na resposta mais intensa e mais prolongada ao
estímulo nociceptivo e na extensão espacial da zona dolorosa (hiperalgesia secundária).
(AHMAD et al., 2015) Assim, é comum que a paciente refira agravamento da dor ao longo do
tempo, e em algumas situações a queixa pode parecer desproporcional aos achados em exame
físico e exames de imagem.
De qualquer modo, independente da causa da dor pélvica crônica, a maioria das
pacientes apresentam um evento comum, a sensibilização central. Ela compreende uma série
de eventos que ocorrem no sistema nervoso central e que, reduzem significativamente o limiar
doloroso da mulher, culminando em uma percepção aumentada da dor. Não existe ainda
nenhuma ferramenta ou protocolo objetivos para fazer o diagnóstico da condição, sugerindo
que a presença de múltiplos sintomas, entre eles, dispareunia, disúria, dor associada à
4
evacuação ou outros sintomas dolorosos difusos podem ser úteis na identificação de
sensibilização central. Alguns autores, inclusive, propõem que a síndrome do intestino
irritável e a síndrome da bexiga dolorosa possam ser uma expressão clínica desta situação
(LEVESQUE et al., 2018) .
Estima-se que a queixa de DPC em consultas ginecológicas corresponda a cerca de
10% a 20%, sendo indicação frequente de procedimentos diagnósticos e cirúrgicos.
Aproximadamente 20% das histerectomias e 40% das laparoscopias ginecológicas são
realizadas para tratamento de dor pélvica.
Do ponto de vista prático, a dor pélvica é um sintoma cuja fisiopatologia representa
uma complexa interação entre os sistemas neurológico, digestivo, urinário, genitais,
psicológico, dentre outros, e que ainda são modulados por fatores socioculturais. Com tantas
opções diagnósticas, a abordagem inicial da paciente e sua condução pelo médico assistente
são, no mínimo, desafiadoras. Com um painel tão extenso de diagnósticos diferenciais, a
classificação da DPC como de origem visceral (causas ginecológicas, síndrome intestino
irritável, doenças inflamatórias intestinais, síndrome bexiga dolorosa, divertículo uretral, etc),
neuromuscular (neuralgias, síndrome miofascial, fibromialgia, etc) e psicossocial (depressão,
ansiedade, abusos, etc) parece nos dar uma idéia melhor da fisiopatologia envolvida (SHAH;
JAGANI, 2018) . O conhecimento destas causas ginecológicas e/ou não ginecológicas que
podem afetar as pacientes com DPC devem conduzir o pensamento e a abordagem clínica
inicial (BENACERRAF et al., 2015; JUHAN, 2015) .
Apesar da existência de alguns guidelines, não há ainda um protocolo definido para o
atendimento da mulher com dor pélvica crônica (ACOG COMMITTEE ON PRACTICE
BULLETINS--GYNECOLOGY, 2004) . Uma história clínica minuciosa é fundamental no
atendimento inicial destas pacientes. É importante conter na investigação destas mulheres, a
cronologia dos sintomas, os eventos que deflagram a dor, os antecedentes ginecológicos,
obstétricos e cirúrgicos da paciente, exposições de risco biológico, tratamentos prévios e/ou
quaisquer relatos de abuso sexual, físico ou psicológico.
A Sociedade Internacional de Dor Pélvica (SIDP) desenvolveu um questionário
próprio no intuito de padronizar a investigação inicial das pacientes, através de uma história
clínica e exame físico mais amplos e direcionados à síndrome dolorosa. (GUPTA et al., 2019) .
Segundo a SIDP o exame deve constar de quatro etapas (em posição ortostática, sentada,
supina e litotomia) e incluir completa avaliação dos sistemas músculo-esquelético,
gastrointestinal, urinário e psiconeurológico, dada a complexidade dos elementos envolvidos.
5
Reforça a importância de investigar tratamentos prévios sejam clínicos ou cirúrgicos, ou
qualquer forma de abuso, seja físico, emocional ou psicológico.
Os sintomas psicológicos devem ser avaliados na abordagem de pacientes com dor
pélvica crônica e, para tal, existem ferramentas objetivas que ajudam o clínico a fazer uma
boa triagem e uma boa indicação de avaliação complementar por um profissional da área.
Dentre os vários instrumentos disponíveis para tal finalidade, o Patient Health Questionnaire
(PHQ-9) ou sua forma reduzida (PHQ-2) destaca-se pela facilidade de aplicação e bons
atributos psicométricos de sensibilidade e especificidade (DE LIMA OSÓRIO et al., 2009) .
Outros sintomas que devem ser valorizados na anamnese destas pacientes são aqueles
sugestivos de neuropatia associada e sua abordagem adequada ajuda no direcionamento do
tratamento. O questionário de dor neuropática (DN-4 - de douleur neuropathique 4
questionnaire) é uma ferramenta já validada que pode auxiliar nestes casos direcionados
(SANTOS et al., 2010) . Por fim, um quesito fundamental e importante que também deve ser
abordado nas consultas é a mensuração da intensidade da dor. Mais do que a avaliação
momentânea da dor, a análise da curva de evolução da dor ao longo do acompanhamento é
essencial no direcionamento da abordagem. Existem inúmeras escalas para essa mensuração
(ONG; SEYMOUR, 2004) , sendo a escala analógica visual, a escala categórica numérica e a
escala de faces as mais utilizadas. Ainda assim, apesar da história clínica e do exame físico
serem fundamentais, frequentemente são insuficientes para chegar a um diagnóstico
conclusivo.
Na maioria dos casos de pacientes com DPC, os exames laboratoriais ou de imagem
pouco auxiliam na confirmação diagnóstica. Muitas vezes, ocorre a realização de um número
indiscriminado de exames e seja pela falta de objetividade dos mesmos ou em virtude de
possíveis resultados falso-negativos, observa-se um prolongamento da investigação
propedêutica e até mesmo um desvio de foco da causa principal, contribuindo para elevar os
custos com a doença e retardar a implementação de medidas terapêuticas. Diante disso,
muitos profissionais acabam utilizando a laparoscopia como o método padrão ouro para o
diagnóstico. Em contrapartida, até 40% dessas cirurgias não permitem a identificação de
alterações às quais possa ser atribuído um papel causal para a condição (HOWARD, 2000) , o
que significa que uma proporção significativa de mulheres será submetida a um procedimento
que, embora seguro, não é isento de riscos (AHMAD et al., 2015) . Baseado nisto, e também
no fato de que a ultrassonografia e a ressonância magnética podem fornecer informações
pré-operatórias valiosas sobre a presença ou ausência de anormalidades, a cirurgia deve ser
6
considerada uma ferramenta de segunda linha no diagnóstico propedêutico (TIRLAPUR et al.,
2015) .
Na última década, a ressonância magnética da pelve vem se tornando uma ferramenta
inestimável para avaliação de mulheres com doenças ginecológicas malignas, condições
ginecológicas benignas, como miomas e mais recentemente, com DPC. Os dados da literatura
sobre a sensibilidade e especificidade da ressonância magnética para essas situações é ainda
variável, em virtude das diferentes técnicas de aquisição e interpretação de imagens, assim
como das diferentes formas de transmitir os resultados com laudos não padronizados.
Relatórios estruturados de forma completa e padronizada, ajudam a minimizar o erro de
interpretação e promover um melhor atendimento ao paciente. Assim, em 2015, um relatório
para laudo de ressonância magnética padronizado foi desenvolvido com o objetivo de definir
padrões para a realização do exame em pacientes com dor pélvica crônica de etiologia
desconhecida. O estudo teve como base uma revisão realizada por 28 consultores de
radiologia do Reino Unido usando a técnica Delphi (BHARWANI et al., 2016) . O modelo
estruturado proposto permite comparação rápida e fácil entre estudos, permitindo validação
clínica e cirúrgica de longo prazo.
No entanto, quando comparamos as duas modalidades não invasivas de obtenção de
imagens para a pelve feminina, sugere-se que a ultrassonografia deva ser o primeiro exame a
ser realizado para esta avaliação (AMERICAN INSTITUTE OF ULTRASOUND IN
MEDICINE (AIUM) et al., 2014; BENACERRAF et al., 2015) , inclusive para investigação
da etiologia da dor pélvica crônica (JUHAN, 2015) . Embora, tanto a ultrassonografia quanto a
ressonância magnética tenham excelente resolução de imagens, a ultrassonografia pélvica e
transvaginal é mais amplamente disponível, tem boa e ampla aceitação entre os pacientes, e é
relativamente barata, sendo sugerida como exame de primeira linha (MATHUR; SCOUTT,
2019a) .
A Radiological Society of North America (RSNA) disponibiliza um modelo para
reportar o exame ultrassonográfico da pelve feminina, mas ele carece de informações
importantes como o acometimento de órgãos adjacentes incluindo ureter, bexiga, reto,
sigmóide, septo retovaginal, drenagem vascular, dentre outros. Quando uma causa
ginecológica é suspeitada a ultrassonografia já é recomendada como exame inicial pela sua
alta sensibilidade e especificidade em diagnosticar patologias ginecológicas, no entanto,
quando se trata de causas não ginecológicas, outros exames de imagem como a tomografia
7
computadorizada e a ressonância magnética têm sido tradicionalmente consideradas melhores
para avaliação destes casos (TIRLAPUR et al., 2015) .
Contudo, vale ressaltar que do ponto de vista clínico várias causas etiológicas não
ginecológicas podem ser indistinguíveis de causas ginecológicas comuns de dor pélvica
crônica, reforçando portanto, a importância de se reconhecer padrões de imagens
ultrassonográficas para o maior número de situações possíveis, uma vez que é a
ultrassonografia o exame de eleição para propedêutica inicial e um atraso no diagnóstico
destas pacientes, pode resultar em significativas consequências na morbidade e até mesmo na
mortalidade das mesmas (MATHUR; SCOUTT, 2019a) .
Apesar das recomendações, uma recente revisão sistemática mostrou evidência
modesta da acurácia diagnóstica da ultrassonografia em pacientes com dor pélvica crônica
(WANG et al., 2019) . Ao menos em parte, isso pode ser decorrente da ausência de protocolos
consensuais para obtenção de imagens e laudos, o que impede uma conclusão mais precisa
sobre a utilidade ou limitação real do método nesta população. Consideramos que essa
padronização seja fundamental para permitir a análise adequada do desempenho do método
entre os centros e limitar a variabilidade de aquisição e julgamento interobservador.
Para a ressonância magnética já existe um consenso publicado (BHARWANI et al.,
2016) , mas para a ultrassonagrafia, há recomendações de especialistas (MATTOS et al., 2019)
e consensos voltados apenas para patologias específicas como o IDEA (International Deep
Endometriosis Analysis) (GUERRIERO et al., 2016) , o MUSA (Morphological Uterus
Sonographic Assessment) (VAN DEN BOSCH et al., 2015) e o IOTA (International Ovarian
Tumor Analysis), respectivamente para endometriose, adenomiose e massas ovarianas. Com o
advento de uma padronização mais robusta para DPC, a necessidade de exames
complementares mais complexos e onerosos para a sua investigação, como a tomografia
computadorizada e a ressonância magnética, ficaria mais direcionada e limitada a casos
específicos, reduzindo o custo assistencial global com a doença, sem afetar a efetividade
diagnóstica para estas mulheres (BHARWANI et al., 2016; JUHAN, 2015) .
Neste cenário, este estudo vem de encontro com a necessidade de se identificar tópicos
consensuais para avaliação ultrassonográfica inicial da mulher com pélvica crônica, e
sistematizar a reportagem dos laudos de exame, de modo que seja aplicável na prática clínica
em diferentes níveis hierárquicos dos serviços de saúde.
8
2. OBJETIVO
________________________________________________________________
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2. OBJETIVO
Propor um modelo de avaliação padronizado para reportar o laudo do exame
ultrassonográfico de mulheres com dor pélvica crônica que possa ser aplicado na prática
clínica.
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3. MÉTODOS
________________________________________________________________
11
3. MÉTODOS
3.1. Desenho do estudo
O método utilizado foi a técnica Delphi (ANTUNES, 2014; JÜNGER et al., 2017) ,
uma investigação qualitativa flexível, apropriada, que permite reunir opiniões de especialistas
diversos de forma anônima, geograficamente separados, com interações ilimitadas para
opiniões e julgamentos, possibilitando um consenso para problemas complexos como a dor
pélvica crônica (GRISHAM, 2009) .
O método permite rodadas ilimitadas de julgamentos, feedback às proposições e
questionamentos, e balanceia a opinião do maior número possível de especialistas
interessados. Todos os critérios foram utilizados para garantia de qualidade na reportagem do
estudo (DIAMOND et al., 2014) .
3.2. Painel de especialistas
Os especialistas foram escolhidos de acordo com a experiência clínica e científica em
dor pélvica crônica e ultrassonografia, segundo as orientações definidas por Delbecq et al.
para essa etapa (DELBECQ; VAN DE VEN; GUSTAFSON, 1975) . Os critérios pré-definidos
para esta seleção incluem: o registro de publicações no PUBMED na área de dor pélvica
crônica e ultrassonografia nos últimos 10 anos; ser indicado como referência no assunto entre
organizações nacionais e/ou internacionais (ISUOG - Sociedade Internacional de Ultrassom
em Obstetrícia e Ginecologia; SBE - Sociedade Brasileira de Endometriose; WES - Sociedade
Mundial de Endometriose) ou possuir experiência clínica relevante em ambas as áreas, de
acordo com seus pares.
Todos os especialistas elegíveis com um endereço de e-mail válido disponível foram
considerados para participar do estudo.
Não há consenso na literatura sobre o número de especialistas necessários, embora se
recomende um mínimo entre 10 e 20 (MCMILLAN; KING; TULLY, 2016) . Assim sendo,
nossa meta ao final do estudo era atingir a participação de no mínimo 10 especialistas, sem
limitação do número máximo (GRISHAM, 2009) . O anonimato foi garantido entre os
especialistas e investigadores.
12
3.3 O processo Delphi
Foi elaborado um questionário online em língua inglesa, por pesquisadores com
experiência nos temas "dor pélvica crônica" e "ultrassonografia", incluindo questões objetivas
utilizando a Escala de Likert e questões subjetivas com comentários abertos (anexo 1). As
questões foram baseadas numa revisão da literatura sobre quais parâmetros ultrassonográficos
são importantes para diagnóstico de condições mais comumente associadas à dor pélvica
crônica. Os dados a serem avaliados foram divididos em cinco tópicos: perfil dos
especialistas; avaliação da qualidade do exame pelos operadores; definição das regiões a
serem avaliadas sistematicamente; definição de critérios especificamente dirigidos; sondas e
modos de imagem. O modelo inicial foi formatado e julgado por um comitê local de revisão
de profissionais médicos e ultrassonografistas com experiência de ao menos 5 anos na área
(anexo 1). Este questionário foi enviado, via plataforma SurveyMonkey, para o painel de
especialistas previamente selecionado.
A participação foi voluntária, com termo de consentimento incluído e aprovação do
Comitê de Ética em Pesquisa (n. 3.151.907) do Hospital das Clínicas da Faculdade de
Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), preservando o anonimato dos participantes e
permitindo feedbacks contínuos das respostas.
Algumas questões específicas foram elaboradas incluindo 3 consensos já estabelecidos
em ultrassonografia pélvica: IDEA (Internacional Deep Endometriosis Analysis), IOTA
(International Ovarian Tumor Analysis) e MUSA (Morphological Uterus Sonographic
Assessment). (GUERRIERO et al., 2016; TIMMERMAN et al., 2000; VAN DEN BOSCH et
al., 2015) . Foi utilizada a terminologia anatômica previamente definida por essas
recomendações.
Os dados foram computados eletronicamente a cada rodada e um novo questionário
era elaborado para julgamento das respostas discordantes e para confirmação das já
acordadas. O questionário online após finalizado pelo especialista não podia ser aberto,
alterado ou respondido novamente.
3.4. Número de rodadas de avaliação
Não há neste tipo de estudo um número fixo ou máximo de rodadas. Foram realizadas
no total três rodadas para definição do consenso. Após a primeira rodada, as respostas foram
tabuladas e novo questionário preparado para julgamento (anexo 2). O processo se repetiu por
mais uma rodada, com um terceiro questionário elaborado (anexo 3) e re-enviado aos
13
especialistas. A finalização do processo se deu quando os critérios para aprovação dos
quesitos foram atingidos.
3.5. Avaliação dos quesitos do questionário estruturado
Na primeira rodada, foi utilizada uma escala Likert de 7 pontos variando entre 1
(discordo totalmente) e 7 (concordo totalmente), no intuito de possibilitar uma avaliação das
respostas com diferenças sutis no questionário geral inicial. Na segunda rodada (anexo 2)
optou-se por uma escala de Likert de 5 pontos para aprimorar os resultados, visto que ela
fornece dados de maior qualidade e, assim, reforça a confiabilidade dos resultados obtidos.
Considerando o número final de respondentes na primeira rodada (n = 29), a escolha da escala
Likert de 5 pontos para esta segunda rodada possibilitou um mínimo de 5 observações por
grupo, o que é considerado recomendável para manter esta confiabilidade nos resultados
(SULLIVAN; ARTINO, 2013) .
Os critérios utilizados para aprovação foram: 1) os quesitos com mais de 70% de
consenso entre os participantes seriam mantidos; 2) aqueles entre 50% e 70% seriam
reestruturados para novo julgamento; 3) e aqueles abaixo de 50% seriam sugeridos para
exclusão.
Na terceira rodada, questões ainda polêmicas foram re-elaboradas com base em
escolhas binárias (sim / não) e o quesito foi aprovado quando houve concordância mínima de
mais de 50%.
Assim, ao final do estudo, o quesito foi aprovado quando houve concordância mínima
de 70% nas rodadas 1 e 2 ou de 50% ou mais na última rodada.
3.6. Elaboração do instrumento para laudo padronizado
Os quesitos aprovados foram utilizados como referência para a elaboração de um
instrumento padronizado para coleta dos dados e posterior emissão de laudo, utilizando a
plataforma da REDCap Shared Library, um repositório de instrumentos para coleta de dados
com curadoria disponíveis a todos os usuários e instituições parceiras da REDCap.
O modelo final do laudo padronizado também será depositado no repositório da
Universidade de São Paulo - USP, onde poderá ser acessado livremente por toda a sociedade
científica mundial.
4. RESULTADOS
________________________________________________________________
15
4. RESULTADOS
4.1. Perfil dos especialistas
Inicialmente foram convidados 86 especialistas, com um prazo de 4 semanas para
responder o primeiro questionário. Destes, 29 finalizaram a primeira rodada. Novos
questionários foram preparados ao final de cada rodada, reenviados para novo julgamento,
sempre com prazo de 4 semanas para respostas. Foram respondidas por 21 especialistas na
segunda e terceira rodadas.
Mais de 10 países estão representados na fase final da pesquisa: Brasil (5), Canadá (3),
Inglaterra (3), Itália (2), Bélgica (1), Noruega (1), Áustria (1), Espanha (1), Suécia (1), França
(1), EUA (1) e Austrália (1).
Figura 1. Painel de especialistas por país
Fonte: próprio autor
Cerca de 45% deles possuem mais de 20 anos de experiência na prática clínica de
mulheres com dor pélvica crônica e mais de 51% com ultrassonografia ginecológica. Mais de
90% dos respondentes (n = 26/29) tinham ao menos 5 anos de experiência no atendimento
16
clínico e/ou na realização de exame ultrassonográfico de mulheres com dor pélvica crônica
(figura 2).
Figura 2. Tempo de experiência clínica e com ultrassonografia ginecológica dos especialistas
Fonte: próprio autor
Quanto ao treinamento específico em ultrassonografia, 17 profissionais realizaram
cursos especializados em ginecologia e 4 deles realizaram cursos especializados em
radiologia. A formação específica encontra-se descrita na figura abaixo (figura 3).
17
Figura 3. Treinamento específico dos especialistas em ultrassonografia ginecológica
Fonte: próprio autor
4.2. Avaliação da qualidade do exame pelo operador
Os especialistas concordaram ao final da primeira rodada que o operador deveria
relatar a qualidade do exame (93% de concordância), a existência ou não de dificuldades para
sua execução (90% de concordância) e, caso necessário, a reportagem do motivo destas
dificuldades durante a realização do exame (76% de concordância). As concordâncias foram
confirmadas na segunda rodada.
Figura 4. Avaliação da qualidade do exame pelo operador
Fonte: próprio autor
18
4.3. Definição das regiões a serem avaliadas sistematicamente
Perguntamos aos especialistas se eles consideram importante a avaliação das seguintes
regiões anatômicas neste tipo de exame: compartimento pélvico dividido em áreas anterior,
média e posterior; quadrantes abdominais inferiores direito e esquerdo; abdômen superior,
parede abdominal e canal inguinal; assoalho pélvico e sistema venoso pélvico. Já na primeira
rodada os compartimentos pélvicos e os quadrantes abdominais inferior direito e esquerdo
foram considerados importantes por 82,1% e 75% dos especialistas e confirmados na segunda
rodada por 95,2% e 80,9%.
A parede abdominal e região inguinal não obtiveram consenso na segunda rodada e
foram reformuladas para novo julgamento na terceira rodada, sendo então aprovadas com
57% de consenso (tabela 1).
As outras regiões (abdome superior, assoalho pélvico e sistema venoso pélvico) não
atingiram consenso mesmo após a terceira rodada, sendo recomendado sua exclusão (tabela
1).
Tabela 1 - Regiões a serem avaliadas sistematicamente
Avaliação sistemática das regiões Rodada 1 Rodada 2 Rodada 3
Compartimentos pélvicos
(ant/médio/post) 82,10% 95,20% _
Quadrantes inferiores direito e
esquerdo 75,00% 80,95% _
Parede abdominal e
canal inguinal 53,60% 47,60% 57,00%
Abdome superior 42,80% 19,00% 19,00%
Assoalho pélvico 42,80% 4,76% 5,00%
Sistema vascular pélvico 39,30% 28,00% 43,00%
19
4.4. Definição dos elementos que devem ser incluídos no exame
A aplicação dos consensos IDEA (International Deep Endometriosis Analysis), IOTA
(International Ovarian Tumor Analysis) e MUSA (Morphological Uterus Sonographic
Assessment) foram considerados importantes por mais de 70% dos especialistas já ao final da
segunda rodada. Apenas o consenso MUSA foi aprovado parcialmente, sendo incluídos para
este exame específico apenas a avaliação do miométrio e da zona juncional. (tabela 2).
Quanto ao detalhamento da avaliação da bexiga, foi considerado importante relatar os
seguintes aspectos: a presença de lesão focal; o tamanho da lesão; o grau de envolvimento da
lesão na parede vesical; a distância da lesão ao óstio ureteral e o envolvimento da lesão com o
trígono vesical.
No quadrante abdominal inferior direito, os especialistas excluíram a avaliação do íleo
e ceco já na segunda rodada, e mantiveram a avaliação do apêndice na terceira rodada com
57% de concordância.
A avaliação da parede abdominal e região inguinal foram aprovadas parcialmente após
a terceira rodada, sendo mantidas as avaliações das regiões umbilical (67%), infraumbilical
(67%) e inguinal (92%).
Tabela 2 - Elementos que devem ser incluídos no exame
Elementos a serem incluídos Rodada 1 Rodada 2 Rodada 3
Consenso IDEA 88,00% 100,00%
Consenso IOTA 84,00% 81,00%
Consenso MUSA 64,00% 76,20%
Bexiga 87,00% 92,80%
Apêndice 56,00% 47,60% 67,00%
Íleo e ceco 46,00% 14,30% 29,00%
Região umbilical 37,00% 23,80% 67,00%
Região infraumbilical 67,00%
Região inguinal 92,00%
20
4.5. Sondas e modos de imagem
A sonda transvaginal bidimensional foi considerada pela grande maioria dos
especialistas a primeira opção para adequada realização deste tipo de exame (95,2% e 94,1%
na 1ª e 2ª rodadas).
A sonda linear bidimensional foi escolhida por 92% dos especialistas na 3ª rodada
para avaliação da parede abdominal e a sonda convexa bidimensional para complementar a
avaliação do compartimento pélvico posterior (76%), da porção intraperitoneal da bexiga
(67%), do apêndice e do retossigmóide (76%).
As sondas tridimensionais e o uso do doppler não foram considerados importantes ao
final da terceira rodada (tabela 3).
Tabela 3 - Sondas e modos de imagem
Sondas e modos de imagem Rodada 1 Rodada 2 Rodada 3
Bidimensional transvaginal (sonda
principal) 95,20% 94,00% -
Bidimensional linear (parede
abdominal) 41,00% 41,70% 67,00%
Bidimensional convexa:
a) avaliação complementar da
bexiga 52,00% 20,00% 76,00%
b) avaliação complementar do
compartimento posterior 50,00% 40,00% 76,00%
c) avaliação complementar do
apêndice e retossigmóide 64,00% 62,00% 92,00%
Tridimensional 35,70% 20,00% 19,00%
Dopplervelocimetria 60,00% 47,60% 43,00%
Todos os quesitos aprovados (tabela 4), foram utilizados para criar um modelo de
instrumento padrão para a realização do exame ultrassonográfico de mulheres com dor
21
pélvica crônica. Este modelo criado encontra-se disponível na REDCap Shared Library, e
pode ser acessado por qualquer pesquisador parceiro da REDCap. (anexo 4).
Tabela 4 - Quesitos finais aprovados
Quesitos Rodada 1 Rodada 2 Rodada 3 Consenso
Qualidade do exame
Qualidade geral 93,00% 93,00% - recomendado
Percepção de dificuldades 90,00% 90,00% - recomendado
Descrição das dificuldades,
caso existente 76,00% 76,00% - recomendado
Avaliação sistemática das
regiões
Compartimentos pélvicos
(anterior / médio /
posterior)
82,10% 95,20% - recomendado
Quadrantes inferiores direito
e esquerdo 75,00% 80,90% - recomendado
Parede abdominal e canal
inguinal 53,60% 47,60% 57,00% recomendado
Elementos que devem ser
incluídos no exame
Consenso IDEA 88,00% 100,00% - recomendado
Consenso IOTA 84,00% 81,00% - recomendado
Consenso MUSA 64,00% 76,2%
(parcial) - recomendado
Bexiga 87,00% 92,80% - recomendado
Apêndice 56,00% 47,60% 67,00% recomendado
Região umbilical da parede
abdominal 37,00% 23,80% 67,00% recomendado
22
Região infraumbilical da
parede abdominal 67,00% recomendado
Região inguinal da parede
abdominal 92,00% recomendado
Sondas e modos de imagem
Bidimensional transvaginal
(sonda principal) 95,20% 94,00% - recomendado
Bidimensional linear (parede
abdominal) 41,00% 41,70% 67,00% recomendado
Bidimensional convexa
avaliação complementar da
bexiga 52,00% 20,00% 76,00% recomendado
avaliação complementar do
compartimento posterior 50,00% 40,00% 76,00% recomendado
avaliação complementar do
apêndice e retossigmóide 64,00% 62,00% 92,00% recomendado
23
5. DISCUSSÃO
________________________________________________________________
24
5. DISCUSSÃO
5.1. Síntese
Neste estudo foi estabelecido uma reportagem padronizada do exame
ultrassonográfico inicial de mulheres com dor pélvica crônica. Este padrão é importante para
uniformizar a caracterização fenotípica das pacientes e permitir uma comunicabilidade efetiva
e eficiente entre os serviços pelo mundo. Outro ponto relevante é que a proposta de um
modelo objetivo pode auxiliar significativamente o clínico na tomada de decisão. A maioria
desses profissionais, incluindo os generalistas, preferem reportagens objetivas, tabuladas e
separadas em itens (GRIEVE; PLUMB; KHAN, 2009; PLUMB; GRIEVE; KHAN, 2009) .
Ter uma descrição clara e breve da qualidade e das dificuldades enfrentadas na execução do
exame, das estruturas e/ou áreas analisadas, e dos parâmetros técnicos utilizados, é altamente
desejável (EDWARDS; SMITH; WESTON, 2014) . Ponderar o que é relevante do ponto de
vista científico e clínico é crucial. Além disso, a padronização também é importante para
reduzir uma eventual variação na qualidade da performance e interpretação da
ultrassonografia por profissionais com experiência prática variada (LEVINE et al., 2008) .
Incluir o reporte da qualidade do exame pelo operador neste exame de rastreio norteia o
clínico na sequência propedêutica da dor pélvica crônica; apontando ou não a necessidade de
complementação futura ou mesmo direcionando a paciente para a um centro terciário
especializado.
A escolha dos especialistas, apesar de baseada em sua experiência científica e clínica
com o tema, apresentou alguns desafios em seu recrutamento, visto o baixo número de
pesquisadores com “dupla” expertise nos temas (dor pélvica crônica e ultrassonografia).
A avaliação da qualidade do exame pelo operador foi um dado relevante na opinião
dos especialistas. É importante o entendimento do quanto as condições adequadas para a
realização do exame são fundamentais para o bom resultado do mesmo. A ultrassonografia é
um exame operador e equipamento dependente, além de influenciado diretamente pelas
condições do próprio paciente, como obesidade, distensão gasosa ou hídrica, posicionamento
adequado, entre outros (MATHUR; SCOUTT, 2019b) . Qualquer fator que impacte durante
sua realização pode interferir na obtenção do resultado, limitar sua potencialidade e deve ser
25
reportado pelo operador. Além disso, a depender das dificuldades encontradas, o
direcionamento para complementação propedêutica torna-se indicativo e necessário.
A avaliação da região pélvica por compartimentos (anterior, média e posterior), assim
como do quadrante inferior direito (com atenção ao apêndice) e do quadrante inferior
esquerdo (com atenção ao retossigmoide) foram as primeiras a serem referendadas pelo
estudo. Tendo em vista a prevalência de patologias ginecológicas como a endometriose,
adenomiose e massas pélvicas como causa de DPC (BRAWN et al., 2014) , a definição das
áreas de maior interesse para tal avaliação centraliza o foco do examinador, permitindo
informações mais objetivas, sem redundância ou abstenção de dados ao médico assistente.
A inclusão da parede abdominal entre as regiões recomendadas pelos especialistas
complementa a ideia acima, quando consideramos os endometriomas de parede abdominal.A
avaliação apenas das regiões umbilical, infra umbilical e inguinal da parede abdominal
definida pelos experts neste estudo coincide com as localizações mais prevalentes desta
condição (LOOS et al., 2008) .
Os endometriomas de parede geralmente acometem as mulheres na faixa etária da
reprodução, com maior incidência na terceira e quarta décadas de vida (WOLF et al., 1996) .
São uma causa bem descrita na literatura de dor pélvica crônica e localizam-se
preferencialmente próximos ou em uma cicatriz cirúrgica. Embora a maioria dos casos ocorra
em mulheres pós-cesarianas (ACCETTA et al., 2011; THYLAN, 1996) , os endometriomas
também são encontrados em incisões pós-histerectomias convencionais ou laparoscópicas
(WILSON; SHAXTED, 1999) , apendicectomias e hérnias inguinais. Alguns estudos mostram
um intervalo de tempo entre a abordagem cirúrgica e a manifestação clínica da dor entre 3
meses e 10 anos ( (WICHEREK et al., 2007) .
Imagens obtidas com sonda bidimensional linear podem identificar a presença de
focos de endometriose dentro dos tecidos superficiais da parede abdominal, mostrando o
nódulo hipoecóico localizado dentro do tecido, seja cutâneo, subcutâneo ou muscular
(DRAGHI et al., 2020) . A ultrassonografia desponta assim como primeira escolha de exame
por imagem para avaliar a parede abdominal, representando desta forma, uma ferramenta
valiosa para permitir o manejo adequado dos achados radiológicos, reduzindo o
comprometimento funcional das pacientes.
A aprovação pelo uso específico dos critérios definidos nos consensos IDEA, IOTA e
MUSA, ainda que parcialmente neste último, reforça a necessidade de reafirmar a
padronização e reprodutibilidade dos dados. Uniformizar o exame traz benefícios tanto para
26
pacientes (reduzindo inúmeras repetições de exames, ansiedade desnecessária, variações de
descrições e de laudos), quanto para clínicos (facilitando sua interpretação) e
ultrassonografistas (otimizando a curva de aprendizado, melhorando a interação com o
clínico, consolidando assim conceitos relevantes para condição da dor pélvica crônica).
Apesar da necessidade, dos benefícios esperados e das tendências de padronização,
laudos de exame ultrassonográfico estruturados permanecem bastante raros na prática clínica
cotidiana.
O consenso IDEA (International Deep Endometriosis Analysis) surgiu da necessidade
de se aprimorar o exame ultrassonográfico em mulheres com suspeita clínica de
endometriose, promovendo uma comunicação clara e inequívoca entre ultrassonografiscas,
radiologistas, ginecologistas, cirurgiões e outros médicos. Traz em si uma sequência de quatro
passos fundamentais, conforme descrito abaixo, durante a avaliação ultrassonográfica, no
intuito de uniformizar a técnica e seus achados (GUERRIERO et al., 2016) . A execução de
todos os passos melhoram a performance do método e já integram a rotina da investigação
propedêutica para endometriose (COIMBRA, 2019) . Assim, a sua inclusão no protocolo para
dor pélvica crônica se faz lógica e válida.
Consenso IDEA - 4 passos fundamentais:
Passo 1: Avaliação de rotina de útero e anexos, em busca de sinais
ultrassonográficos de adenomiose/presença ou ausência de endometrioma.
Passo 2: Avaliação de “soft markers” ultrassonográficos (mobilidade
ovariana).
Passo 3: Avaliação do fundo de saco de Douglas em tempo real observando o
deslizamento das estruturas de maneira uniforme “sliding sigin”.
Passo 4: Avaliação dos nódulos de infiltração nos compartimentos anterior e
posterior.
A Sociedade Internacional de Ginecologia Endoscópica (ISGE) desenvolveu um
projeto para definir recomendações buscando padronizar o reporte dos achados de
ultrassonografia dinâmica em casos de endometriose de estruturas pélvicas, correlacionando-o
com a classificação #Enzian (DJOKOVIC et al., 2021) . Tal classificação integra vários
parâmetros dos critérios IDEA e MUSA, e os diferentes compartimentos são codificados
apenas em uma dimensão para simplificar a aplicação. Os compartimentos e órgãos
individuais são simbolicamente representados com letras maiúsculas, conforme figura abaixo.
27
Figura 5. #Enzian classificação
Fonte: (KECKSTEIN et al., 2021)
Considerando a falta de um consenso universal sobre o estadiamento da endometriose,
o foco volta-se para o relato uniforme da extensão da doença através dos exames de imagem
(ultrassonografia e ressonância magnética) enquanto novos estudos buscam esclarecer mais
sobre as inter relações entre extensão, sintomas e progressão da doença (MATTOS et al.,
2019) .
Espera-se que o mapeamento da endometriose pélvica torne-se cada vez mais preciso
e minucioso quanto mais operadores treinados realizarem o exame ultrassonográfico. Relatar
de forma estruturada as lesões pode melhorar o aconselhamento e tratamento das pacientes,
desde o planejamento inicial, com a organização de equipes multidisciplinares até a escolha
da estratégia terapêutica clínica ou cirúrgica mais adequada (DJOKOVIC et al., 2021;
FELDMAN et al., 2020) .
Já a aprovação parcial do consenso MUSA, mantendo como essencial apenas a
avaliação do miométrio e zona juncional, reafirma a busca pelas patologias mais diretamente
relacionadas à síndrome dolorosa (leiomiomas e adenomiose) (VERCELLINI et al., 2009) .
Além disso, vale lembrar que a aplicação plena do consenso requer uma tecnologia mais
28
avançada, maior curva de aprendizado pelos operadores e não parece acrescentar muito na
busca por outros diagnósticos etiológicos da dor pélvica crônica.
Apesar de alguns estudos mostrarem benefício no uso da sonda tridimensional
(MARQUES et al., 2021) para avaliar miométrio e zona juncional, o exame realizado por
sonda bidimensional transvaginal isoladamente mostra-se bastante eficaz para retratar as
principais patologias ginecológicas.
Já a inclusão da avaliação do apêndice proposta pelos especialistas se apoia no fato da
ultrassonografia ser o exame de primeira linha para excluir o diagnóstico de apendicite em
mulheres jovens em muitas instituições (PARK et al., 2011; YOON et al., 2014) , apesar da
tomografia computadorizada ainda ser descrita como padrão ouro na literatura
(AL-KHAYAL; AL-OMRAN, 2007; EXPERT PANEL ON GASTROINTESTINAL
IMAGING: et al., 2018) .
Os parâmetros de identificação por imagem das apendicites crônicas e da
endometriose apendicular são semelhantes aos quadros agudos, e apesar da baixa prevalência
destas patologias, elas não devem ser negligenciadas (EXPERT PANEL ON
GASTROINTESTINAL IMAGING: et al., 2018; UWAEZUOKE; UDOYE; ETEBU, 2013) .
O diagnóstico ultrassonográfico destes processos inflamatórios têm atingido uma
sensibilidade, especificidade e acurácia de 83%, 95% e 92% respectivamente em alguns
estudos (PINTO et al., 2013) , principalmente na avaliação de pacientes jovens.
A presença de endometriose profunda invadindo o intestino representa um grande
desafio para o ginecologista. Além de ser uma importante causa de dor pélvica crônica,
sobretudo em região de quadrante inferior esquerdo, a alta incidência de morbidade cirúrgica
envolvida com sua presença aumenta o dilema terapêutico para o médico assistente. Estima-se
que a prevalência de nódulos endometrióticos profundos acometendo o intestino ocorra em 8
a 12% das mulheres com endometriose (ABRÃO et al., 2015) . Fatores clínicos individuais
associados às características morfológicas pré-operatórias encontradas nos exames de imagem
representam variáveis críticas e fundamentais a se considerar quando da definição terapêutica
a se abordar para uma paciente com endometriose infiltrativa profunda envolvendo sigmóide
e/ou reto. Pacientes assintomáticas cujas lesões foram diagnosticadas por achados
radiológicos nem sempre necessitam sistematicamente de cirurgia. Por outro lado, uma grande
lesão comprometendo o lúmen intestinal pode ser indicação de um procedimento mais
invasivo, sempre considerando o impacto na qualidade de vida destas mulheres
(BACHMANN et al., 2014) .
29
Segundo a literatura, a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal mostra
uma sensibilidade superior (75 a 98%) na detecção de endometriose profunda quando
comparado com a ressonância magnética, com a ultrassonografia transretal, a tomografia
computadorizada e o exame clínico (ABRAO et al., 2007; PRONIO et al., 2007) . É capaz de
diagnosticar não apenas o tamanho e o número de lesões, mas também a profundidade da
invasão na parede do intestino e sua distância da borda anal (GONCALVES et al., 2010) .
A confirmação da sonda transvaginal bidimensional (2D) como primeira escolha para
o exame reafirma sua abrangência e eficácia na avaliação da pelve, sendo complementada
pelas sondas bidimensional linear e convexa na avaliação da parede abdominal e
complementação da avaliação do compartimento pélvico posterior, da porção intraperitoneal
da bexiga, do apêndice e do retossigmóide, respectivamente (AMERICAN INSTITUTE OF
ULTRASOUND IN MEDICINE (AIUM) et al., 2014) . O uso da sonda bidimensional
convexa para complementar o exame é essencial para a plena aplicabilidade do consenso
IDEA, melhor definição de lesões e suas características nestas regiões em questão: bexiga,
apêndice, retossigmóide e compartimento pélvico posterior.
Quanto à sonda tridimensional (3D), não há até o momento uma recomendação formal
para o seu uso rotineiro na avaliação da pelve (GUERRIERO et al., 2018; TIMOR-TRITSCH
et al., 2021) . É um exame de custo mais elevado, ainda pouco acessível à população nos
vários níveis de serviços de saúde.
Atualmente, a sonda tridimensional tem sido considerada como uma técnica de alta
sensibilidade e especificidade para avaliar as malformações uterinas (BALEN et al., 1993;
WU; HSU; HUANG, 1997) . As informações mais relevantes advindas desta sonda 3D são as
imagens em plano coronal, no miométrio e/ou zona juncional, não visualizadas por outras
sondas (TIMOR-TRITSCH et al., 2021) . As malformações uterinas são achados pouco
comuns na clínica ginecológica, reflexo da grande variedade em sua apresentação, sendo
diagnosticadas apenas quando relacionada a um problema obstétrico (PROPST; HILL, 2000) .
As pacientes portadoras dessas alterações frequentemente são oligossintomáticas ou mesmo
assintomáticas, preservando a função menstrual, sexual e mesmo reprodutiva (WU; HSU;
HUANG, 1997) .
Contudo, a falta de dados e parâmetros comparativos e cientificamente comprovados
entre a sonda tridimensional e as demais sondas para o diagnóstico das principais patologias
pélvicas ainda representam um obstáculo para sua utilização em exames de rastreamento
(GUERRIERO et al., 2018) .
30
Por fim, muitos instrumentos de coleta de dados, como pesquisas, questionários e
formulários, mesmo depois de serem rigorosamente testados quanto à sua validade, nem
sempre são fáceis de encontrar. O uso de instrumentos validados existentes reduz a duplicação
de esforços, promove a harmonização dos padrões de coleta de dados, aumenta a
credibilidade dos resultados e permite a comparação dos resultados entre os estudos
(BARDYN et al., 2018) . A REDCap (Research Electronic Data Capture) é uma solução
online de software, com um conjunto de ferramentas que permite aos pesquisadores
biomédicos criar formulários online seguros para capturar, gerenciar e analisar dados com o
mínimo de esforço e treinamento. A REDCap foi inicialmente desenvolvida na Vanderbilt
University e atualmente é apoiada de forma colaborativa por um grande consórcio de
parceiros nacionais e internacionais. A adesão ao uso do REDCap cresceu significativamente
desde seu lançamento em 2004 e já oferece suporte a mais de 52000 usuários em todo o
mundo (OBEID et al., 2013) . O uso desta ferramenta para elaborar o modelo padronizado
estabelecido neste estudo facilita o acesso ao mesmo, de modo que possa ser utilizado com
facilidade pela comunidade médica e científica.
5.2. Sistema Venoso Pélvico
A avaliação do sistema venoso não foi recomendada pelo painel de especialistas.
Apesar da associação reportada na literatura, não há critérios que garantam causalidade entre
congestão pélvica e dor pélvica crônica (BORGHI; DELL’ATTI, 2016) . Os estudos a respeito
do impacto do tratamento em longo prazo são escassos e com resultados inconsistentes
(PERRY, 2001) .
Vários autores consideram a síndrome da congestão pélvica como uma condição que
resulta de veias pélvicas incompetentes, capazes de causar dor pélvica crônica em mulheres.
(CHAMPANERIA et al., 2016) . Os indicadores descritos de veias incompetentes
compreendem a dilatação disfuncional das veias ovarianas e para-uterinas, o fluxo sanguíneo
lento, o fluxo retrógrado e o refluxo. Foi descrita pela primeira vez em 1949 como sintoma de
dor pélvica crônica relacionada a veias pélvicas dilatadas (TAYLOR, 1949) . De acordo com a
literatura, as mulheres com dor pélvica crônica advinda de congestão venosa pélvica são em
sua maioria multíparas e descrevem a dor abdominal como incômoda e dolorosa com
exacerbações agudas, piorando após longos períodos em pé ou andando. A dor pode ser
acompanhada por outros sintomas, como dor em região de hipogástrio pós-coito e
sensibilidade ao exame bimanual em topografia ovariana (sensibilidade de 94% e
31
especificidade de 77%) (BEARD; REGINALD; WADSWORTH, 1988) . Sintomas urinários
como disúria, polaciúria e urgência miccional em mulheres com amostras de urina normais
também foram descritas (GANESHAN et al., 2007) , bem como varicosidades vulvares e de
membros inferiores com insuficiência venosa crônica de membros inferiores. A etiologia da
síndrome de congestão pélvica ainda é pouco compreendida, mas provavelmente
multifatorial, envolvendo fatores mecânicos e hormonais (JURGA-KARWACKA et al.,
2019) .
A identificação de veias pélvicas dilatadas e disfuncionais é fundamental para o
diagnóstico. A venografia por subtração digital é considerada o padrão ouro para esta
avaliação, mas resultados comparáveis podem ser obtidos por venografia por ressonância
magnética não invasiva (GANESHAN et al., 2007) , tomografia computadorizada (TC) e
ultrassonografia com doppler (MALGOR et al., 2014) . Durante a laparoscopia diagnóstica, as
veias pélvicas dilatadas são geralmente esquecidas e/ou não reportadas (SHARMA et al.,
2011) .
Apesar de alguns esforços, há uma falta de uniformidade nos critérios a serem
utilizados para o diagnóstico da congestão pélvica. Vários estudos sugerem parâmetros para
descrever os vasos pélvicos, incluindo as varicosidades, o diâmetro e fluxo reverso das veias
ovarianas, a presença e diâmetro de veias miometriais (AMIN et al., 2021; RIDING et al.,
2019) ; mas a falta de padronização para reportar a congestão pélvica pode ter sido
determinante para sua exclusão neste exame de rastreamento.
Mesmo sendo um problema ginecológico comum encontrado na prática clínica diária,
a síndrome de congestão pélvica continua a ser uma condição pouco reconhecida. Os dados
publicados sobre a prevalência de varizes pélvicas sintomáticas e assintomáticas foram
realizados com uma amostra relativamente pequena de pacientes (n = 324), sem levar em
consideração o estado menopausal ou reprodutivo das mulheres (BELENKY et al., 2002;
ROZENBLIT et al., 2001) . Embora esses achados tenham sido citados em inúmeras
publicações, nenhum outro estudo de Coorte mais consistente tentou confirmar os resultados
encontrados.
5.3. Assoalho Pélvico
A disfunção miofascial do assoalho pélvico tem sido cada vez mais reconhecida como
um fator que também contribui para a dor pélvica crônica (ZONDERVAN et al., 2001) . Até
32
mesmo na dor pélvica de origem visceral, como na síndrome da bexiga dolorosa, a dor
presumida na bexiga pode surgir de alterações na sensibilidade mecânica da musculatura do
assoalho pélvico (LAI et al., 2014) .
Entendendo que o diagnóstico de bexiga dolorosa e da dor pélvica crônica depende
principalmente da descrição dos sintomas feito pela paciente, e que estes podem sofrer
diversas interferências, inclusive por aspectos psicológicos, algumas diretrizes recentes
sugerem que o exame físico, através da palpação, pode identificar pacientes com disfunção do
assoalho pélvico (FALL et al., 2010) . Alguns autores ainda sugerem que pacientes com dor
pélvica crônica apresentam maior sensibilidade à dor no assoalho pélvico, usando a medição
do limiar de dor por pressão transvaginal (TU et al., 2008a) . No entanto, pesquisas adicionais
são necessárias para verificar se a dor induzida pela palpação está verdadeiramente
relacionada aos limiares mecânicos pélvicos e não apenas confundida por fatores
psicológicos, anatômicos e musculares.
Durante este estudo, vários especialistas expressaram opinião de que apenas em casos
de queixas e/ou achados clínicos localizados no assoalho pélvico sua avaliação seria relevante
em um exame de rastreamento. Por outro lado, diferentes parâmetros ultrassonográficos
mostraram estar associados a diferentes técnicas de avaliação do assoalho pélvico (RAIZADA
et al., 2010; THOMPSON et al., 2006) . Assim, esta avaliação poderia ser questionada, visto
que há dúvidas sobre a relação direta do achado ultrassonográfico com o exame clínico, e
mais ainda com a relação entre estes achados e a dor pélvica crônica (MEISTER et al., 2019b;
MELANIE et al., 2018) .
A disfunção hipertônica da musculatura do assoalho pélvico é outra condição
complexa, que faz parte dos distúrbios miofasciais desta região, e cuja causa específica muitas
vezes não é claramente identificada (BUTRICK, 2009; FAUBION; SHUSTER;
BHARUCHA, 2012) . Pode estar associada a lesões na inervação da musculatura pélvica (ou
seja, devido a cirurgias, traumas ou endometriose) (GEHRICH et al., 2005) , alterações
musculoesqueléticas (ou seja, assimetria esquelética) (TU et al., 2008b) , outras síndromes de
dor pélvica crônica e dispareunia. Uma série de fatores pode contribuir para o
desenvolvimento do problema e, frequentemente, diferentes causas coexistem. Além disso,
essa condição também pode ser atribuída a um erro de funcionamento desta musculatura do
assoalho pélvico, devido a execução de atividades inadequadas, aprendidas erroneamente e
adquiridas na idade adulta como a retenção voluntária contínua de urina ou fezes ou abuso
sexual (BECK et al., 2009) .
33
As perspectivas terapêuticas direcionadas aos achados em assoalho pélvico não são
claras (PRATHER; SPITZNAGLE; DUGAN, 2007) . As diretrizes atuais recomendam o
manejo multidimensional, que pode incluir fisioterapia em pacientes que têm dor à palpação
pélvica (FALL et al., 2010) . Um ensaio clínico randomizado combinando fisioterapia manual
externa e do assoalho pélvico mostrou redução duas vezes superior na avaliação global da dor
em comparação com a massagem terapêutica global (FITZGERALD et al., 2009) . A falta de
um exame padronizado da sensibilidade do assoalho pélvico dificulta a escolha terapêutica
ideal para estas pacientes, inclusive para aquelas candidatas a esta fisioterapia combinada.
Em contrapartida, a avaliação precisa do assoalho pélvico de mulheres com dor
pélvica crônica, importante para ajudar a explicar os sintomas e, potencialmente, orientar
opções de tratamento, ainda não apresenta uma fidedignidade da avaliação inter e
intraobservador para vários pontos, apesar de algumas publicações a respeito (MEISTER et
al., 2019a) .
A ultrassonografia transperineal é uma ferramenta confiável, não invasiva e bastante
utilizada para esta avaliação (YOUSSEF et al., 2016) . O uso da sonda tridimensional (3D)
permite a obtenção de imagens mais detalhadas do músculo elevador do ânus, incluindo a
avaliação de sua integridade (FAUBION; SHUSTER; BHARUCHA, 2012) . É um método não
invasivo, confortável para a paciente e tem vantagens práticas, como tempo de exame mais
curto e menos critérios de exclusão, como prótese, claustrofobia, etc. em comparação com a
ressonância magnética, além de ser menos oneroso que esta, apesar do alto custo em si.
No entanto, até agora, nenhum estudo de precisão foi publicado sobre o uso da
ultrassonografia tridimensional (3D) para diagnosticar defeitos do assoalho pélvico. Também
não há estudos relevantes que comparem o exame bidimensional (2D) com o tridimensional
(3D) ou quadridimensional (4D). A aplicabilidade clínica desta avaliação ainda é limitada,
aliado ao fato da disponibilidade de acesso aos exames 3D/4D ainda não serem abrangentes
fora dos serviços de referência, o que restringe seu uso como rastreamento em massa.
5.4. Limitações do estudo
Algumas considerações devem ser feitas em relação a técnica Delphi. Descrito como
um método de pesquisa particularmente bom para obter consenso entre um grupo de
indivíduos com experiência em um determinado tópico, onde a informação buscada é
subjetiva e onde os participantes são separados por distância física (GRISHAM, 2009) , a
34
técnica é uma abordagem qualitativa e não quantitativa. Pode não produzir resultados que
sejam reproduzíveis exatamente por outros estudos (TUROFF; LINSTONE, [s.d.]) .
Apesar de amplamente utilizada para a obtenção de consensos para problemas
complexos e da nossa proposta abranger um grupo de especialistas respeitado, a quantidade e
a qualidade da representatividade dos participantes do estudo merece ser avaliada.
As abordagens ideais para selecionar participantes, estruturar interações e métodos de
sintetizar julgamentos individuais também não são claras neste tipo de metodologia
(MURPHY et al., 1998) . O baixo número de profissionais mundiais com expertise em dor
pélvica crônica e ultrassonografia simultaneamente, e a falta de consenso sobre o número
ideal de especialistas neste tipo de estudo podem ter limitado a representatividade da
proposta. Para participar da pesquisa era necessário ser proficiente em inglês, ter acesso a
computador e internet, além da disponibilização de tempo hábil para resposta dos
questionários. A quantidade final de participantes, apesar de considerada satisfatória por
alguns estudos, pode ser questionável (GRISHAM, 2009) .
Outro ponto importante é que condições essencialmente funcionais associadas à dor
pélvica crônica, como as síndromes miofasciais (BAKER, 1993) , a bexiga dolorosa
(CHUNG; CHUNG; GORDON, 2005; SUTCLIFFE et al., 2019) e a síndrome do intestino
irritável (ENCK et al., 2016; GEWANDTER et al., 2018) , não possuem parâmetros
morfológicos de avaliação por imagem para sua definição e são, portanto, um “hiato” neste
exame de rastreamento proposto pelo estudo .
Também é importante salientar que embora útil para identificar alterações periféricas,
a ultrassonografia não substitui a história clínica na identificação de comprometimento do
sistema nervoso central, constituinte fundamental no processo fisiopatológico da dor pélvica
crônica (BRAWN et al., 2014) .
35
6. CONCLUSÃO
________________________________________________________________
36
6. CONCLUSÃO.
Este estudo propõe um modelo padronizado para uniformização e reportagem do
exame ultrassonográfico inicial de mulheres com dor pélvica crônica, definido por
especialistas mundiais no tema em questão. Acreditamos que a proposta define parâmetros
mínimos para a universalidade e a comparabilidade na apresentação dos dados, ao mesmo
tempo direcionando os passos do operador e permitindo a identificação das principais causas
"orgânicas" da síndrome dolorosa.
Obviamente, apesar da técnica Delphi ser um modelo qualitativo reconhecido, a
proposta deverá ser submetida à validação multicêntrica para efeitos de protocolo.
Com intuito de contribuir com a comunidade acadêmica e científica, disponibilizamos
um instrumento para coleção dos dados na REDCap Shared Library, o qual pode ser acessado
por pesquisadores parceiros da REDCap (anexo 4) e também acessado livremente através do
repositório da Universidade de São Paulo (USP).
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46
8. ANEXOS
8.1. Questionário estruturado rodada 1
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8.2. Questionário estruturado rodada 2
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8.3. Questionário estruturado rodada 3
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8.4. Modelo final do instrumento (REDcap)
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