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Capítulo 16
ENDOMETRIOSE
ANA ROSA FERREIRA BASTOS¹
CAMILA MACHADO RABELO¹
EDUARDA NAVES GONÇALVES DE ALMEIDA1
EDUARDA PANDIÁ CÂMARA MATTOS1
1. Discente - Medicina da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais
Palavras-Chave:Endometriose; Mulheres; Órgãos Genitais.
10.59290/978-65-6029-086-0.16
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INTRODUÇÃO
A endometriose pélvica é uma síndrome
altamente complexa e clinicamente significati -
va, caracterizada por um processo inflamatório
crônico dependente de estrogênio, que tem
como principal alvo os tecidos pélvicos, espe -
cialmente os ovários. Essa condição ginecoló -
gica desafiadora ocorre quando o tecido endo -
metrial, normalmente presente no revestimento
uterino, é descartado durante o ciclo menstrual
e, ao invés de ser eliminado do corpo, move-se
retrogradamente para a cavidade abdominal
inferior. Esse deslocamento desencadeia uma
série de eventos que levam à formação de
lesões, nódulos e aderências nos tecidos circun-
dantes. (BULUN et al., 2019)
A endometriose emerge como a causa mais
comum de dor pélvica crônica em mulheres em
idade reprodutiva e está intimamente associada
à infertilidade. Esta condição afeta não apenas
a saúde física, mas também tem repercussões
significativas no bem -estar social, profissional
e mental das mulheres que a enfrentam. Com
uma variedade de sintomas, incluindo períodos
dolorosos, relação sexual desconfortável, dor
pélvica crônica e infertilidade, a endometriose
impacta profundamente a qualidade de vida das
pacientes. (BULUN et al., 2019)
A definição clássica da endometriose
baseia-se na detecção cirúrgica de tecido endo-
metrial fora da cavidade uterina. No entanto,
essa abordagem tem suas limitações, levando a
uma evolução no entendimento da doença. Uma
perspectiva mais centrada no paciente consi -
dera as origens celulares e moleculares, a histó-
ria natural da doença, sua natureza sistêmica, os
tecidos envolvidos e a necessidade de supressão
de ovulação a longo prazo para um manejo
bem-sucedido. (BULUN et al., 2019)
Além disso, os avanços nas últimas duas
décadas têm se concentrado em aspectos
clínicos, biológicos e genéticos, proporcio -
nando insights valiosos para abordagens poten-
ciais de tratamento e prevenção. A associação
da endometriose com dismenorreia, episódios
ovulatórios e estágios progressivos da doença
destaca sua natureza multifacetada. (BULUN et
al., 2019)
Este artigo busca explorar a complexidade
da endometriose pélvica, examinando desde
sua etiologia até as implicações clínicas e as
possíveis estratégias de tratamento. Além disso,
abordaremos a prevalência global da endo -
metriose, estimando que aproximadamente 200
milhões de mulheres em todo o mundo, ou 1 em
cada 10 mulheres em idade reprodutiva, possam
estar enfrentando essa condição desafiadora.
(BULUN et al., 2019)
MÉTODO
Trata-se de uma revisão integrativa reali -
zada no período de novembro de 2023 a janeiro
de 2024, por meio de pesquisas na base de
dados PubMed. Foram utilizados os descri -
tores “endometriosis”, “endometriosis AND
treatment”, “endometriosis AND symptoms”,
“endometriosis AND pathophysiology”.
Os critérios de inclusão foram: artigos no
idioma inglês, publicados no período de 1999 a
2023 e que abordavam as temáticas propostas
para esta pesquisa. Os critérios de exclusão
foram: artigos duplicados, disponibilizados na
forma de resumo, que não abordavam direta -
mente a proposta estudada e que não atendiam
aos demais critérios de inclusão.
Os artigos foram submetidos à leitura e os
resultados obtidos foram apresentados em for -
ma de discussão.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A fisiopatologia da endometriose ainda não
é amplamente conhecida. Muitas teorias foram
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fundadas para explicar o surgimento das lesões.
Um artigo de John Sampson, publicado em
1927, desenvolve a hipótese de que a mens -
truação retrógrada ( fluido menstrual sai do
útero através das trompas de Falópio e trans -
porta células -tronco mesenquimais endome -
triais, células progenitoras epiteliais e fibro -
blastos estromais que se fixam ao peritônio) é
equivalente a uma “semente” que cresce no
“solo” da parede peritoneal (SAUNDERS &
HORNE, 2021). Notavelmente, o título do
artigo de Sampson deixa claro que ele conside-
rava esta uma possível explicação para a “doen-
ça peritoneal” e, em suas extensas investigações
sobre patologia endometrial, ele encontrou cé -
lulas “quedas” na vasculatura, o que pode ser
um mecanismo mais provável para a formação
de doença profunda e pode explicar por que a
endometriose ocorre frequentemente em asso -
ciação com adenomiose (SAUNDERS &
HORNE, 2021). Outras teorias para a formação
de lesões incluem a transformação do mesotélio
peritoneal (a chamada “metaplasia cel ômica”),
um mecanismo que explicaria apenas a presen-
ça de lesões no peritônio, mas não em outros
locais, e a disseminação por vias linfáticas e
hematológicas.
A fisiologia das intensas cólicas provocadas
pela endometriose é explicada pela inflamação
crônica causada pelo tecido endometrial depen-
dente de estrogênio. A dor deriva do aumento
de prostaglandinas, compressão e infiltração de
nervos adjacentes. O aumento da expressão do
fator de crescimento nervoso, o aumento da
densidade das fibras nervosas, a angiogênese e
as alterações na inervação do útero também
podem contribuir.
A endometriose ocorre principalmente por
menstruação retrógrada, afetando vários órgãos
pélvicos e extrapélvicos. Esse acometimento de
outras regiões podem gerar possíveis sintomas.
Os principais sintomas relacionados à endome-
triose são dismenorreia, dor abdominal inferior
cíclica e acíclica, disúria cíclica, disquezia,
dispareunia, bem como infertilidade (GRU -
BER, T. & MECHSNER, S, 2021).
Certos marcadores na adolescência podem
estar associados a um diagnóstico posterior da
doença (STEEENBERG et al, 2013). De acor -
do com um estudo, cerca de 60% das mulheres
diagnosticadas com endometriose relatam que
suas queixas se iniciaram antes dos 20 anos de
idade (GRUBER, T. & MECH-SNER, S,
2021), assim é de grande importância o diag -
nóstico antes da idade adulta, a fim de amenizar
os sintomas e possivelmente limitar as sequelas.
Além disso, geralmente, todas as lesões podem
causar uma variedade de sinto -mas, mas as
queixas geralmente aparecem em combinação,
sendo os sintomas isolados bastante raros
(GRUBER, T. & MECHSNER, S, 2021).
As mulheres com histórico de dismenorreia
têm maior probabilidade de ter e desenvolver
endometriose do que mulheres que nunca ou
raramente sentem dor durante a menstruação, e
o risco aumenta com a quantidade de dor
relatada. Contudo, a maioria dos adolescentes
descreve dor pélvica não cíclica e não apenas
dismenorreia, que é tradicionalmente conside -
rada o sintoma clássico em adultos. As lesões
endometrióticas mais comumente observadas
em adolescentes diferem na aparência e tam -
bém são comprovadamente mais dolorosas do
que aquelas observadas em adultos. (STEEEN-
BERG et al, 2013).
As lesões de endometriose podem ser
encontradas em mulheres assintomáticas e são
detectadas em até 50% das mulheres que procu-
ram tratamento para infertilidade. (SAUN -
DERS, P. & HORNE, A. 2021). Se a
endometriose causa subfertilidade ainda é um
tópico de controvérsia. No entanto, 25-50% das
pacientes inférteis são afetadas pela endome -
triose, especialmente se sofrem de dismenorréia
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severa e, 30 a 50% de todas as pacientes com
endometriose são subférteis (GRUBER, T. &
MECHSNER, S, 2021).
Ademais, as mulheres com endometriose
também relatam uma influência dessa doença
no aparecimento de sintomas depressivos. Um
estudo também apontou a influência do papel
da dor como mediador no desenvolvimento de
sintomas depressivos na endometriose (SKE -
GRO, B. et al. , 2021). Outras variáveis, como
traços de personalidade, disfunções sexuais e
infertilidade, também são propostas para afetar
o bem -estar emocional (SKEGRO, B. et al . ,
2021).
Estudos epidemiológicos também relatam
que mulheres com lesões de endometriose
correm maior risco de desenvolver câncer de
ovário e de mama, melanoma, asma, artrite
reumatoide e doenças cardiovasculares (SAU -
NDERS, P. & HORNE, A. 2021).
O diagnóstico de endometriose é, muitas
vezes, tardio, ocorrendo em média 10 anos a -
pós o início dos sintomas, porque sintomas co-
mo dor pélvica e/ou infertilidade também estão
associados a outras condições (SAU-NDERS et
al, 2021) (NNOAHAM et al, 2011) (GRUBER
et al, 2021 ). Abordagens diagnósticas não
cirúrgicas, incluindo ultrassonografia transva -
ginal e ressonância magnética (RM), podem ser
úteis na detecção de endometriose ovariana e
profunda (SAUN-DERS et al, 2021) . No caso
de adolescentes, a opinião do Comitê do
Congresso Americano de Obstetras e Ginecolo-
gistas sobre Endometriose em Adolescentes
recomenda o uso de laparoscopia para o diag -
nóstico definitivo de endometriose (STEEN -
BERG et al, 2013).
O tratamento de mulheres com endome -
triose é feito por meio de diferentes estratégias
terapêuticas, entre elas estão a remoção cirúr -
gica das lesões, a terapia de supressão hormonal
e o uso de analgésicos e neuromoduladores
(SAUNDERS, P. & HORNE, A. 2021). O
tratamento inclui desafios: o momento do trata-
mento de fertilidade e o alívio da dor crônica
(GRUBER, T. & MECHSNER, S, 2021).
Também é válido ressaltar que o conheci -
mento da natureza e da distribuição das lesões
causadas pela endometriose permitem uma me-
lhor compreensão dos possíveis efeitos e a for-
mação de uma abordagem de tratamento multi-
disciplinar (GRUBER, T. & MECHS-NER, S,
2021). Ademais, também é recomendado a psi-
coterapia, para lidar com a ansiedade e sintomas
depressivos, além de aconselhar uma terapia
sexual ou de casal para casais inférteis (SKE -
GRO, B. et al. , 2021).
As intervenções atuais para a endometriose
têm eficácia limitada e efeitos colaterais/riscos
inaceitáveis e estão associadas a altas taxas de
recorrência dos sintomas (SAUNDERS, P. &
HORNE, A. 2021). Além de que muitos trata -
mentos médicos têm efeitos secundários inde -
sejados (SAUNDERS, P. & HORNE, A. 2021).
Os tratamentos atuais incluem a remoção
cirúrgica de todas as lesões visíveis durante a
operação e o uso de medicamentos que supri -
mem a produção de hormônios ovarianos. Das
mulheres submetidas a cirurgia, mais de metade
terá um novo procedimento cirúrgico até aos 5
anos, com uma maior taxa de recorrência em
mulheres adolescentes do que em adultos
(STEEENBERG et al, 2013). Também destaca-
se a importância da excisão do tecido endome -
triótico no alívio da dor e na melhora da
qualidade de vida das mulheres (STEEEN -
BERG et al, 2013).
O tratamento clínico inicial recomendado
são os anti -inflamatórios não hormonais em
combinação com contraceptivos orais. O obje -
tivo da terapia hormonal é manter um estado
hipoestrogênico local, e o objetivo dos contra -
ceptivos orais é inibir a produção de E2 ova -
riano e a ovulação. O tratamento médico de
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segunda linha inclui monoterapia com proges -
terona e um agonista de GnRH (WANG, Y. et
al. , 2020).
Os contraceptivos hormonais combinados
(CHC) são a primeira escolha ideal devido à
segurança documentada, eficácia, baixo perfil
de efeitos colaterais e baixo custo. Um ensaio
clínico randomizado (ECR) demonstrou redu -
ção da recorrência de dismenorreia pós -opera-
tória em usuárias cíclicas versus não cíclicas.
Outro ECR demonstrou melhora nos escores de
dor tanto para o uso cíclico quanto para o uso
prolongado (SACHEDINA, A. et al. , 2020). O
uso dos CHC sugere -se um regime de ciclos
longos, em que as meninas deixem de tomar as
pílulas uma semana a cada três ou quatro meses,
para prevenir sangramentos de disrupção
(STEEENBERG et al, 2013).
Já a monoterapia com progesterona é usada
em pacientes resistentes a contraceptivos orais
com mais de 35 anos ou suscetíveis aos efeitos
colaterais da terapia antiestrogênica (por exem-
plo, trombose venosa profunda). Além de inibir
a esteroidogênese ovariana, a progeste -rona
também induz a decidualização e apoptose do
tecido endometrial ectópico (WANG, Y. et al. ,
2020). As progestinas demonstraram uma
melhora de 80 -100% nos sintomas devido aos
efeitos antiangiogênicos, imunomoduladores e
anti inflamatórios. Os efeitos colaterais incluem
sangramento não programado, distensão abdo -
minal, sensibilidade mamária, ganho de peso e
alterações de humor. Os efeitos colaterais rela-
cionados à progestina podem ser mais comuns
em regimes orais. (SACHEDINA, A. et al . ,
2020)
E por fim, os agonistas do hormônio
liberador de gonadotrofina (GnRH) melhoram
a dor relacionada à endometriose, induzindo um
estado hipogonádico através da supressão do
eixo hipotálamo-hipófise-ovário. Aproximada-
mente 90% das usuárias são amenorréicas. O
GnRHa também pode melhorar a dor,
reduzindo a inflamação, a angiogênese e indu -
zindo a apoptose nas células endometriais
(SACHEDINA, A. et al. , 2020). A maioria dos
efeitos colaterais vem do estado hipoestro -
gênico, e eles incluem sangramento de escape,
alterações do perfil lipídico, ganho de peso,
mudança de humor e perda óssea (WANG, Y.
et al. , 2020). Geralmente não é recomendado
para meninas mais jovens, devido ao efeito
adverso provocado na mineralização óssea
durante a adolescência, devendo ser sempre
prescritos com terapia complementar (estrogê -
nio ou estrogênio/progestina) e suplementos de
cálcio e vitamina D (STEEENBERG et al ,
2013)
CONCLUSÃO
A endometriose, um distúrbio ginecológico
prevalente em mulheres em idade reprodutiva,
é caracterizada pela presença de tecido endo -
metrial viável fora da cavidade uterina. As teo-
rias da histogênese, incluindo metaplasia celô -
mica, implantação e indução, refletem sua etio-
logia multifatorial, sendo a menstruação retró -
grada amplamente aceita como uma explicação,
especialmente quando associada a fatores imu-
nológicos e peritoneais. (SAUNDERS & HOR-
NE, 2021)
Além da menstruação retrógrada, outros
elementos como mudanças imunológicas, gené-
ticas e ambientais desempenham um papel sig-
nificativo na susceptibilidade à endome -triose.
Essa condição é complexa, sendo seu desen -
volvimento influenciado por uma combi-nação
de fatores. As anormalidades no sistema imuno-
lógico, tanto sistêmicas quanto peritoneais, são
cruciais na patogênese da endometriose. A
imunidade inata e adaptativa mostram -se com-
prometidas, evidenciadas por alterações na
presença de células T auxiliares, citotoxicidade
deficiente de linfócitos e aumento da atividade
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de macrófagos peritoneais. Essas disfunções
imunológicas contribuem direta -mente para a
progressão da endometriose. (SENTURK &
ARICI, 1999)
Fatores adicionais, como mudanças na
atividade das células B e a presença de autoanti-
corpos, reforçam a complexidade imunológica
associada à endometriose. Estratégias terapêu -
ticas, como a modulação da resposta imunoló -
gica por meio de medicamentos imunomo -
duladores, surgem como promissoras para o
tratamento dessa condição desafiadora. (SEN-
TURK & ARICI, 1999)
Portanto, uma abordagem integrada,
considerando a interação entre fatores imunoló-
gicos, genéticos e ambientais, é essencial para
compreender profundamente e gerenciar efi´ -
cazmente a endometriose. A pesquisa contínua
nessas áreas é crucial para avançar no desen -
volvimento de abordagens terapêuticas mais
precisas e eficientes. (SAUNDERS & HORNE,
2021)
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