e Métodos ________________________________________________________ 36
7) Procurar arquivos por palavras-chave com destaque para a palavra-chave no arquivo aberto;
8) Aplicar atributos para arquivo, que é útil para a análise de conteúdo; 9) Renomear arquivos,
códigos, categorias de códigos, e casos (HUANG, 2016).
3.8. Rigor Metodológico
Quanto aos procedimentos de validade da pesquisa qualitativa, eles foram
abordados através dos critérios de fidedignidade. Dentro dos critérios de fidedignidade, temos
confiabilidade, credibilidade, transferabilidade e confirmabilidade (CRESWELL; MILLER,
2000). Para garantir a confiabilidade dos dados alguns critérios foram considerados, como o
envolvimento em longo prazo com as participantes para coletar informações e obter um
feedback sobre os dados coletados. Em relação a credibilidade, há congruência e afinidade entre
os dados coletados e os resultados obtidos, onde ambos necessitam estar entrelaçados e
interligados para a obtenção de resultados fidedignos. Em termos de aumentar a
transferabilidade, os pesquisadores utilizaram amostragem intencional (FONTANELLA et al.,
2011). Os pesquisadores também descreveram todo o processo de estudo e realizaram
atividades de forma precisa e consistente com o objetivo em questão.
Nos guiamos através do COREQ, para manter a fidedignidade metodológica da
pesquisa qualitativa. A diretriz COREQ é uma checklist de 32 itens divididos em 3 domínios
para relatar entrevistas e grupos focais, ela é o método mais comum usado para a coleta de
dados na pesquisa qualitativa em saúde. A checklist COREQ consiste de itens específicos para
relatar estudos qualitativos e exclui critérios genéricos que são aplicáveis a todos os tipos de
relatos de pesquisa. COREQ é uma checklist abrangente que cobre todos os componentes
necessários a um projeto de pesquisa em saúde com abordagem qualitativa. Os critérios
incluídos na checklist ajudam os pesquisadores a relatar aspectos importantes da equipe de
pesquisa, métodos e contexto do estudo, resultados, análise e interpretações (TONG;
SAINSBURY; CRAIG, 2007).
______________________4 RESULTADOS
Resultados _______________________________________________________________ 38
4.1 Caracterização da amostra
Os dados sociodemográficos das participantes, foram coletados via prontuário
médico, onde a distribuição estava representada da seguinte forma, (30/66) das participantes
estavam na faixa etária dos 31 aos 45 anos, (14/66) tinham ocupação do lar, (46/66) eram cor
branca, (32/66) estado civil casada, (22/66) residente fora da cidade de Ribeirão Preto e, (28/66)
com nível de escolaridade equivalente ao 2º grau completo (segundo as normas do Ministério
da Educação e Cultura). A caracterização da dor segundo a escala psicométrica de avaliação de
dor (EVA), foi coletada em prontuário médico onde a escala era aplicada durante a consulta
ambulatorial e, atualizada a cada retorno médico com o intuito de checar a evolução clínica do
limiar de dor das pacientes. Segundo os dados dos prontuários, (9/66) das participantes
apresentaram dor do tipo moderada com score de 4 a 7. Houveram, também, (7/66) das
participantes que apresentaram escores de 8 a 10, designando dor do tipo severa e, apenas 1
participante apresentou dor do tipo leve, com score de 1 a 3. Quanto a frequência da dor,
tivemos (6/66) das participantes com frequência de 1 a 2 vezes por semana e, (6/66) com
frequências de 5 a 7 vezes por semana, apenas 2 participantes apresentaram frequência de
menos 1 vez na semana e, nenhuma paciente com frequência de 3 a 4 vezes.
4.2 Temas derivados das entrevistas
Nossos resultados revelaram que as mulheres com dor pélvica crônica utilizam
mecanismos focados no enfrentamento e mecanismos focados na aceitação da dor que foram
coadunados em cinco temas: 1. Interação social prejudicada devido as adversidades trazidas
pela dor; 2. Viver em função das adversidades trazidas pela dor; 3. Abster da relação sexual
devido ao medo de sentir dor; 4. Enxergar na automedicação a solução para a dor; 5. Adaptar-
se positivamente diante das adversidades trazidas pela dor.
Cabe ressaltar que os temas referentes aos mecanismos focados na aceitação são:
1. Interação social prejudicada devido as adversidades trazidas pela dor; 2. Viver em função
das adversidades trazidas pela dor; 3. Abster da relação sexual devido ao medo de sentir dor.
Já os temas referentes aos mecanismos focados no enfrentamento foram: 4. Enxergar na
automedicação a solução para a dor; 5. Adaptar-se positivamente diante das adversidades
trazidas pela dor.
Resultados _______________________________________________________________ 39
4.2.1. Interação social prejudicada devido às adversidades trazidas pela dor
O significado atribuído ao isolamento social, foi percebido pelas mulheres em um
primeiro momento através das limitações físicas e psicológicas, quais acarretaram perdas de
autonomia e autocontrole, culminando em processos de introspecção física e, posteriormente,
psicoemocionais. Estes comportamentos eram fomentados pelas dores físicas, compilando
prejuízos nas interações com o meio social.
O tema do isolamento social, esteve presente em 30 das 66 entrevistas e os códigos
atrelados ao tema foram: deitar; ficar em casa; evitar conversar; ficar quieta; ficar sozinha;
isolar; não conversar; não sair; não ter amigos; não ter rotina; não ter vida social; não ter vontade
de sair; não conseguir fazer as coisas; não conseguir trabalhar; não querer sexo; solidão; trancar
no quarto; viver deitada; fugir do sexo. Eles foram citados 47 vezes ao longo das 30 entrevistas
nas quais estiveram presentes.
As mulheres relataram que durante a rotina de dor, não queriam ter contato com as
pessoas, mesmo aquelas que conviviam no cotidiano, o processo de isolamento era iniciado em
casa e, por conseguinte, ganhava proporções maiores com os desconhecidos.
“Nos últimos dos dois anos eu não tenho contato social, eu sou filha única, não tenho mais
amigos, ultimamente eu não quero conviver com ninguém”. ESE 047
“Parece que eu não consigo viver em sociedade quando to com dor, eu sou um perigo eu tenho
que me trancar no quarto e não olhar para ninguém por causa da dor”. ESE 075
“Não saia, ficava um bom tempo dentro de casa fechada”. ESE 014
Há relatos em que as mulheres diziam perder a paciência e a tolerância, muito fácil,
ou ainda de estar tão sensibilizada que choravam com facilidade e, assim preferiam se isolar,
até mesmo como forma protetiva de exposição a situações desagradáveis. Em algumas falas, as
mulheres acabavam projetando a raiva de estar com dor no outro e, sentiam vontade de agredir
fisicamente as pessoas.
“Me irrita. Eu não gosto de conversar. Tudo me incomoda, até se falar um bom dia, que bom
dia. Eu queria só ficar deitada, mas não posso. Se pudesse dormia três dias...” ESE 083
“Eu tenho vontade de bater em alguém quando me tiram da minha zona de conforto... quero
ficar sozinha. Eu quero cavar um buraco e ficar lá dentro”. ESE 075
Resultados _______________________________________________________________ 40
“E quando eu estou assim, parece que eu quero bater em todo mundo. Não pode me olhar de
jeito nenhum. Aí eu me isolo para não machucar ninguém”. ESE 084
“Eu choro muito, quero ficar sozinha, se eu pudesse me enfiava num buraco e ficava sozinha,
sem ninguém perto”. ESE 054
Outros relatos mostraram a questão de as mulheres ficarem muito tempo deitadas,
sem disposição para fazer as tarefas cotidianas, que as dores lhes tiravam a vontade e o ânimo
e, que se pudessem ficariam sem fazer nada.
“Vontade de ficar deitada... uma fraqueza assim não sei te explicar... Não dá vontade de fazer
nada...” ESE 071
“Fico em casa deitada, é uma dor chata, aqui te corroendo, então você não tem animo para
conversar e trabalhar, muito menos trabalhar...” ESE 009
“Com a dor que eu sinto eu não tenho animo, eu só trabalho porque sou obrigada, porque se
eu pudesse ficava o período inteiro da menstruação em casa...” ESE 010
“Não tem mais vontade de sair, ter lazer, porque não consigo ficar muito sentada, por conta
que queima, então eu prefiro ficar em casa”. ESE 012
Outras mulheres falaram que a questão de ficar deitada, lhes traziam algum conforto
ou relaxamento, não atribuindo um significado negativo ao fato de ficar na cama. Nestas falas
as mulheres encaravam a questão de ficar deitada como um momento de relaxamento, diferente
da conotação da maioria delas que atribuíam ao fato de estar deitada, sentimentos depressivos
e impeditivos.
“Eu fico ali deitada no escurinho, aí prefiro ficar sozinha, me sinto bem relaxada, aí nem
converso”. ESE 049
“Eu fico no meu quarto, deitada, ouvindo música...” ESE 033
“Entro no meu quarto, fico quietinha na minha cama, que parece que quando tô quietinha eu
não sinto dor”. ESE 006
Também tivemos relatos em que as mulheres diziam que devido ao medo de sentir
dor fora de casa, elas evitavam sair, abstendo do contato social e, assim fomentando a
introspecção física e psicológica.
Resultados _______________________________________________________________ 41
“Só queria minha saúde de volta, eu não saio de casa, eu não tenho mais animo, o medo de
sair aí de repente vem aquela dor”. ESE 023
Resultados _______________________________________________________________ 42
4.2.2. Viver em função das adversidades trazidas pela dor
O significado atribuído ao tema era pertinente a dependência da dor, as mulheres
falaram que viviam dominadas pela condição de dor e, as adversidades trazidas por ela. Elas
não conseguiam compreender a distância que havia entre elas e os percalços da vida com a dor,
assim se viam perdidas na imensidão que a dor havia proporcionado a elas. As falas das
mulheres sobre a questão de viver em função das mazelas trazidas pela dor, esteve presente em
49 das 66 entrevistas e os códigos atrelados ao tema foram: causa de tudo; comandar a vida;
controlar a cabeça; desespero; ficar em casa; não saber o que fazer; evitar conversar; ficar
deitada; não sair de casa; não ter disposição; não sentir prazer; fazer as coisas devagar; ficar
estressada; não ter amigos; viver deitada; isolar; trancar no quarto; desanimo; ficar tensa; ir
levando; limitação; não ter força; solidão; tristeza; trabalhar menos; precisar de ajuda; perder
trabalho; não ter rotina. Eles foram citados 136 vezes ao longo das 49 entrevistas. Em algumas
falas, eram nítidas as declarações de dependência com a dor, assim como sendo ela (a dor) a
causadora de toda a perturbação instalada na rotina.
“Acho que isso é por causa da dor, se não tiver ela é por causa dela, não tem como ter dor e
tá bem, bem-humorada e feliz. Então ela é a causadora de tudo”. ESE055
“Mas parece um filme de terror você tá bem e de repente começa a sentir dor de novo, será
que é da minha cabeça, será que to loca. Realmente a dor comanda a vida da gente...” ESE
009
As mulheres diziam ter vontade de realizar as suas atividades de vida diária, o
autocuidado com si própria e com a família, mas a dor lhes tirava a capacidade física, a priori,
e psicológica, posteriormente, de execução dos afazeres, dos compromissos, fossem eles em
casa ou fora. Assim, as mulheres perpetuavam as perdas de autonomia e de gerenciamento do
autocontrole físico e emocional, culminando em fortalecimento da relação patológica com a
dor.
“Eu não deito, eu não gosto, eu fico nervosa e desconto tudo no meu marido, aí eu começo a
chorar, dá um desespero, porque eu quero sarar, aí hoje eu to bem, e amanhã to péssima”.
ESE 054
As mulheres falaram que entravam em desespero perante as adversidades trazidas
pela dor, comentaram que tentaram de tudo e, chegaram ao extremo na ânsia de amenizar aquela
Resultados _______________________________________________________________ 43
situação incapacitante. A apatia, o desanimo e a falta de coragem em realizar as tarefas, também
foram comentadas pelas mulheres e, ainda a questão de se isolar, de ficar trancada no quarto
sem ter acesso as pessoas, também foi um tema presente nas falas.
“Nada, nada, não tenho vontade de fazer nada! Tentei fazer uns fuxico lá e já encostei, nada
menina, sabe o que é nada? Minha mãe fala que eu tenho que fazer alguma coisa, não quero
fazer mais nada”. ESE 025
“Eu trabalho porque eu preciso, porque não dá ânimo, bate uma angustia, é inexplicável você
não entende o porquê você sente aquilo”. ESE 008
“Quando eu estou com dor eu só fico deitada sem comer, para não xingar ninguém eu me
tranco no quarto e fico lá”. ESE 084
Outro significado atribuído ao tema, foi referente à questão de a cronicidade da dor
estar acompanhada por processos impeditivos, quase sempre de cunho negativo, nos quais as
mulheres tinham a percepção que a sua vida estava envolta, contida, na rotina de dor e, assim
percebiam que já não tinham o controle da situação, culminando em movimentos de perdas.
As perdas que a priori eram físicas como a questão de perder a autonomia sobre
suas tarefas cotidianas, fossem elas dentro ou fora de casa e, ainda mais tarde, estas perdas eram
fomentadas por processos psicoemocionais que fortaleciam a perda em nível físico,
corroborando para o comportamento resignado. Elas falaram que faziam suas tarefas em casa
ou fora de casa, de maneira contida, aos poucos, dividindo os afazeres ao longo do dia para que
não sobrecarregassem a condição de dor já existente. A questão de não conseguir manter um
serviço por muito tempo, também foi tema presente nas falas.
“Eu paro, sento um pouco, aí começo, espero, aí parece que vai passando aos poucos, vai
passando, aí eu nem continuo passando a roupa, eu paro de passar, eu evito, eu ajuntava tudo
e passava, agora eu não ajunto mais, agora eu passo um pouco, depois eu paro aí passo mais
um pouco, entendeu, a faxina eu também to fazendo por etapas”. ESE 003
“Quando eu estou no trabalho eu tenho que sentar, esperar, ficar quietinha e fazer as coisas
mais sentadas pra melhorar”. ESE 026
“ A dor ela atrapalha muito na questão de serviço, então nunca trabalhei registrada não dá, e
quando ela vem é impossível ficar andando, e registrada é impossível porque a dor vem e eu
tenho que ficar deitada, tomo remédio e tenho que ficar deitada o dia inteiro”. ESE 020.
Resultados _______________________________________________________________ 44
Neste percurso, as mulheres falaram que perdiam o controle emocional,
apresentando o choro fácil, a irritabilidade, crises de ansiedade acompanhadas por crises
depressivas, impaciência, intolerância, comportamentos hostis, adaptação as adversidades e
agressividade.
“Parece que eu não consigo viver em sociedade quando estou com dor, eu sou um perigo eu
tenho que me trancar no quarto e não olhar para ninguém por causa da dor”. ESE 075
“Às vezes eu tenho muita vontade de chorar, choro bastante, me sinto sozinha...” ESE 017
“Realmente é uma coisa que me irrita muito, eu não gosto de sentir dor, eu não gosto de ficar
parada, eu não gosto de nada disso, eu não gosto de depender de nada disso, eu procuro não
tomar remédio para dor, em último caso eu tomo remédio na veia...” ESE 004
A vontade de não fazer nada, de ficar deitada, também foi tema presente nas falas.
E ainda, a questão de não conseguir manter uma rotina sobre as atividades de vida diária,
perpetuando o ciclo das perdas, também esteve presente nas falas.
“Vontade de ficar deitada, uma fraqueza assim não sei te explicar, não dá vontade de fazer
nada, parece que o corpo tá pesado...” ESE 071
“Você não sente vontade de fazer nada, você quer ficar quieta, tudo te irrita antes eu não tinha
nada disso, era uma vida normal sem preocupação, mas depois disso...” ESE 004
“Então é assim, você não consegue ter uma rotina quando se ta com a crise, quando ta atacada
né, então é um dos maiores problemas que eu enfrento...” ESE 007
Resultados _______________________________________________________________ 45
4.2.3. Abster da relação sexual devido ao medo de sentir dor
Outro tema que emergiu das entrevistas, foi a questão do medo da relação sexual.
O significado atribuído ao tema era pertinente as dificuldades que as mulheres enfrentaram com
o sexo devido ao medo de sentir dor, e o quanto este medo as incomodavam, chegando a
paralisá-las diante do parceiro (a). Cabe ressaltar, que as mulheres falaram de prontidão sobre
a questão sexual, evidenciando o quanto isso era perturbador para elas. As falas das mulheres
sobre o medo da dor na relação sexual, esteve presente em 25 das 66 entrevistas e os códigos
atrelados ao tema foram: dor na relação; esperar a dor passar; evitar o sexo; fugir do sexo; ficar
quieta; ficar tensa; irritada; marido não entende; medo de sentir dor; não querer sexo; não
conseguir fazer as coisas; não sentir prazer; não ter força; não ter vontade de sexo; solidão; ser
compreendida; não ter rotina; deixar estressada; chorar. Eles foram citados 33 vezes ao longo
das 25 entrevistas nas quais estiveram presentes.
Em algumas falas eram visíveis os comportamentos onde as mulheres se abstiveram
do parceiro, evitando contato físico com eles e, assim criando alguns entraves no
relacionamento, como brigas, discussões, cobranças e, quase rompimento da relação.
“Mas eu sempre tive dor na relação, sempre fugi, evitava e onde a gente arruma briga com o
esposo e o clima fica pesado”. ESE 017
“Eu não podia nem pensar em ter relação, meu casamento ficou numa situação horrível ...”
ESE 052
“Você é casada, quer ter relação com seu marido, sente dor, perde aquela vontade. Então
tudo isso te coloca para baixo...” ESE 012
Em outras falas, as mulheres comentaram sobre o consentimento do parceiro em
prol da abstinência sexual, momento que elas interpretaram como sendo algo compreensivo por
parte do cônjuge. Ainda, falaram sobre a relação de amizade dentro do casamento, fator que
acabava sustentando o relacionamento.
“Falei pro meu marido que estamos na fase de amigo, porque eu não consigo ter relação...”
ESE 021
“Ainda bem que eu tenho um marido que tem paciência comigo”. ESE 004
Resultados _______________________________________________________________ 46
Houveram relatos, também, sobre o fato das mulheres sentirem medo de serem
abandonadas pelo parceiro por não conseguirem manter uma rotina sexual, e a não compreensão
do parceiro com a situação. Outro tema presente nas falas foi a questão das dores intensas que
surgiram no dia seguinte da relação sexual.
“Meu marido as vezes não entende, porque como não descobre, não cura... não tem um
tratamento...” ESE 077
“Tipo assim, não posso ter relação, e quase meu marido me largou por causa da dor”. ESE
072
“Quando eu vou ter relação no outro dia não aguento andar de dor, aí eu fico deitada o dia
inteiro, até a calcinha que eu vou colocar dói”. ESE 072
Tivemos, ainda, falas conectadas a questão do estupro consentido, quando o sexo
era realizado somente para satisfazer o outro, nesta situação a mulher se sentia sendo violentada,
sexualmente.
“Quando vou namorar também dói, parece que estou sendo estuprada. Eu estou apenas
servindo ele, mas não sinto prazer”. ESE 041
Uma mulher, ainda, falou que mesmo estando em uma união homoafetiva, ela sentia
dores pelo simples fato de contração da parede abdominal, não estando o medo do sexo atrelado
ao gênero ou a figura masculina.
“Eu vivo em uma união homo afetiva, não tenho sempre relação sexual com a minha parceira
e agradeço que não é um homem porque senão já tinha acabado..., mas até sem penetração eu
sinto dor, o simples contrair a barriga já doi”. ESE 075
Ao se absterem dos relacionamentos, as mulheres acabaram perpetuando o ciclo de
isolamento social onde a interação e o convívio social ficaram prejudicados. Este tema esteve
muito presente nas falas.
“Alterou muito minha relação sexual, eu sinto muita dor a acabei me afastando um pouco...”
ESE 011.
Resultados _______________________________________________________________ 47
“Chega um momento que homem não aguenta, e eu fico esperando que ele não me procure
nunca...” ESE 048
“Toda vez que meu marido me procura, só de eu saber da dor eu quero evitar, eu tenho vontade
de ter relação, mas a dor vem na minha mente, aí já eu vou sentir dor e não aguento e aí já
começo, e aí eu já perco a vontade eu quero evitar”. ESE 003
Resultados _______________________________________________________________ 48
4.2.4. Enxergar na automedicação a solução para a dor
Outro tema, incipiante nas falas das mulheres era a respeito da automedicação. Este
tema, foi o de maior prevalência nas falas, principalmente no tocante de solucionar de forma
rápida o problema da dor. As falas das mulheres sobre a automedicação, esteve em 45 das 66
entrevistas e os códigos atrelados ao tema foram: apoio; conciliar a vida; controlar a dor;
aguentar a dor; conciliar a dor; esquecer da dor; ficar com a dor; fingir que não tem dor; ocupar
a cabeça; tomar chá; tomar remédio; trabalhar com dor; procurar ocupação; não ficar parada;
não se deixar abater; lidar com a dor; criar meios; sair de casa; relaxar; tirar o foco. Eles foram
citados 45 vezes ao longo das 45 entrevistas nas quais estiveram presentes.
O significado atribuído a automedicação era pertinente a questão de a medicação
ser vista como a propulsora de solução da dor.
A automedicação apareceu em todos os outros temas emergidos das falas das
mulheres. Ela era a primeira resposta que as mulheres tinham quando questionadas sobre como
faziam para lidar com a dor, a percepção delas sobre a medicalização do cuidado foi fator que
nos chamou atenção, o fato de se automedicar era visto por elas como a maneira mais fácil e
rápida de resolver o problema, mesmo que a causa do problema ficasse mascarada.
Evidenciando a medicalização do autocuidado, tendo como cerne do mesmo o hospital e a
equipe médica.
Elas falaram que a busca por meios que trouxessem alívio rápido era o que mais as
interessavam, pois, a adesão a outros métodos poderiam significar vagarosidade e dependência
de fatores que poderiam fugir do autocontrole. Assim, a medicação era vista como a propulsora
de solução da dor e de seus intervenientes. Elas acreditavam que a solução da dor estava
relacionada ao médico e ao hospital, isso era perceptível até mesmo quando elas recebiam alta
ambulatorial e eram contrarreferenciada a unidade básica de saúde, onde não apresentavam
assiduidade no acompanhamento, pois as recidivas ao hospital e ao pronto atendimento eram
frequentes.
“Não... não tem como lidar com ela sem medicamento”. ESE 071
“Eu faço o que todo brasileiro faz, automedicação”. ESE 075
“Sim com o uso de medicação, as vezes eu tenho que ir pro pronto socorro tomar na veia
porque só via oral não adianta, e só medicação mesmo...” ESE 007
Resultados _______________________________________________________________ 49
Embora, algumas mulheres falaram que nem mesmo os remédios eram suficientes
para amenizar a dor, conotando assim uma dependência psicológica maior que a dependência
química dos medicamentos.
“O remédio ameniza a dor, mas não tira, não é fácil, só pra quem passa eu já to assim há um
ano, com dor e a base de remédio né e aí muda a tua vida”. ESE 001
“Aí eu vo tomo um comprimido por minha conta né, assim pra dor, um dorflex aí dá uma
melhorada, só na hora mas depois volta tudo de novo”. ESE 072
Houveram relatos em que as mulheres diziam que a medicação já não era tão eficaz
e então era necessário ocupar a cabeça, tirar o foco da dor, assim elas procuravam outros meios
para poder lidar com a dor, fosse com o trabalho, sair de casa, não ficar parada, relaxar
assistindo televisão, ou até mesmo suportando aquela condição com o intuito de tentar desfocar
da dor já que nem medidas não farmacológicas conseguiam cortar o ciclo doloroso.
“As vezes vou lá tomo um remédio, a dor não passa, não adianta remédio pra dor, já tomei
muito remédio pra dor... é difícil a dor passar, eu paro e fico quieta, e aí vai amenizando, mas
é ruim...” ESE 003
“Tem dia que é difícil suportar, mas de dia eu tomo a medicação e vou trabalhar. É uma dor
assim que eu fico suportando né...” ESE 080
“Quando ela está forte eu tomo remédio para passar, agora no dia a dia, a gente começa a
conviver com ela, tem dias que ela aumenta muito, a gente queria tirar ela dali, mas não tem
como”. ESE 052
“Lavo, passo, cozinho, só não limpo casa porque não posso mexer com rodo e vassoura, faço
crochê, flores de EVA, procurando ocupação porque eu não consigo ficar parada”. ESE 017
“Eu prefiro ficar em casa .... A TV me relaxa, fico ali deitada ouvindo baixinho”. ESE 030
Ainda, tivemos relatos de mulheres que acabavam tomando chás para amenizar as
dores, como forma alternativa em prol da medicação.
“Tomo um chá de erva doce, aí se não passa eu tomo remédio de novo”. ESE 051
“Um chazinho quente ajuda, dá uma sensação de alivio porque é quente...” ESE 010
Resultados _______________________________________________________________ 50
Alguns relatos remetiam o desejo, a vontade de ir em busca de outros meios para
aliviar a dor sem que fosse a medicação, inclusive a questão de ficar / aguentar com a dor sem
tomar remédios.
“ Vou tentar outros, mais pratica assim de exercícios, mas por enquanto é só a medicação
mesmo... via oral ou intravenoso, depende da intensidade da dor que vem” ... ESE 007
“Porque antes eu tomava todos os dias, nimesulida e diclofenaco cedo e a noite ou dos dois
juntos. Agora eu diminuí, então eu prefiro ficar com dor sem tomar remédio”. ESE 077
Resultados _______________________________________________________________ 51
4.2.5. Adaptar-se positivamente diante das adversidades trazidas pela dor
A adaptação diante das adversidades da dor foi uma estratégia que as mulheres
fizeram uso durante a experiência de dor e que lhes acarretou em melhoria da qualidade de vida
perante as adversidades da rotina dolorosa. O significado atribuído ao tema era pertinente a
gerir o dia a dia com a dor, na tentativa de amenizar o sofrimento trazido pela dor.
As falas das mulheres sobre a adaptação positiva da dor esteve presente em 58 das
66 entrevistas e os códigos atrelados ao tema foram: acreditar em deus; aguentar a dor; tirar o
foco; sair de casa; procurar ocupação; manter a cabeça ocupada; apoio; aprender a conviver;
aprender a lidar; buscar um caminho; ter fé; ir na igreja; conversar com amigos; conciliar a dor;
controlar a cabeça; conversar; costurar; ler; estudar; criar meios; adaptar; desabafar; desfocar;
distrair; enfrentar; entender a dor; esquecer da dor; exercitar; falar com as pessoas; família;
fazer caminhada; fazer compressa; fazer exercícios; ficar de bruço; fingir que não tem dor; não
pensar; não deixar abater; não deixar dominar; não demonstrar dor; não ficar parada; ocupar o
tempo; procurar solução; relaxar; se dar bem com ela; ficar sem medicação; ter autocontrole;
ter expectativas; ter vida normal; ser compreendida; ser incentivada; trabalhar para esquecer;
viver melhor. Eles foram citados 191 vezes ao longo das 58 entrevistas nas quais estiveram
presentes. Elas diziam que ao terem consciência de que a dor era algo que iria acompanhá-las
por um longo período, isso as faziam resignificar a dor e como que elas poderiam manejar a
rotina.
Muitas mulheres, acabavam criando estratégias individuais durante o dia a dia para
suportarem as adversidades trazidas pela dor. Elas diziam que haviam “criado” um jeito para
se acostumar com a dor, a não se acomodar com aquela condição de dor, criando meios para se
adaptar melhor as adversidades do dia a dia, como adequar roupas e calçados, ter a compreensão
das pessoas, contar com o apoio da família, pedir ajuda a Deus, sair de casa para passear e se
distrair, trabalhar para tirar o foco e esquecer da dor, praticar exercícios físicos (caminhadas),
sempre mantendo a cabeça ocupada para que a dor não ganhasse proporções maiores do que
realmente tinham.
“Antes eu sentia a dor todo dia, era uma dor mais suportável e agora eu vi que não era. Parece
que a gente acostuma com a dor”. ESE 077
Tento fazer o possível para me acostumar. Porque se levar tudo ao pé da letra você fica pirada.
Eu tento ocupar a minha cabeça”. ESE 081
Resultados _______________________________________________________________ 52
“Eu estou procurando ter uma qualidade de vida para não ter dores constantes. Acredito que
posso encontrar essa qualidade de vida”. ESE 038
“O sapato deve ter um solado bem macio, as tiras não podem apertar meu pé. A roupa tem que
ser coisa ah, não posso usar jeans que aperta...” ESE 079
“Meu marido e minha filha me entendem, se não fossem eles eu não teria aguentado, eles me
apoiam, falam que eu vou sair dessa. Meus irmãos ficam preocupados, porque eu fico com
dor...” ESE 027
“Eu procuro me arrumar, sair para rua ... dou uma volta no centro no meu tempo, aí me
acalmo...” ESE 021
“Geralmente é o trabalho que me tira do foco da dor. Agora que eu estou de férias eu penso
mais na dor sem muita ocupação mental”. ESE 042
“Ai procuro fazer caminhada no final do dia ... tudo vai me ajudando um pouco para não ficar
com o pensamento fixo na dor”. ESE 081
Tivemos relatos em que as mulheres diziam não se deixar abater por aquela situação
de dor, e ainda, se esquivavam dela através do comportamento de negar a própria realidade, em
um processo de barganha ou auto sabotagem.
“Mas não me deixo abater por causa disso não. Eu vivo hoje. Não deixo me abater. Não é
verdade. Vai dar certo”. ESSE 070
“Tem que fingir que você não tem. Você tem mas finge que não tem porque se pôr na cabeça
você não faz nada, nada mesmo! ” ESE 016
Houveram relatos pertinentes a questão de a dor ser companheira ou companhia
durante o dia a dia. Caracterizando a dependência psíquica em relação àquela condição, ou
também, designar a boa convivência com a condição.
“Mas eu tenho bastante dor. Mas eu me dou bem com ela, é a minha companheira”. ESE 082
“Ah porque ela está aí todos os dias., eu tenho que conviver com ela, tem que passar por cima
dela...” ESE 054
Ainda tivemos falas conectadas a questão religiosa, quando as mulheres disseram
se apoiar na oração ou, na fé, para poder suportar a dor.
Resultados _______________________________________________________________ 53
“Peço a Deus força, porque se ele não me der força... não tem remédio que tire a dor”. ESE
029
“Eu tenho fé que um dia eu possa voltar como eu era antes...” ESE 023
Outros relatos trouxeram à tona a questão de aprender a lidar com aquela situação
mesmo diante das dificuldades ou adversidades que enfrentavam no decorrer dos dias, como
sentimentos suicidas ou mesmo de morrer.
“Antes eu queria morrer, mas eu estou aprendendo a lidar com isso, eu agradeço a Deus pelo
dia, e imploro para ele que o amanhã seja melhor”. ESE 033
“Se você ficar sozinha você fica mais deprimida. No começo eu tinha vontade de me matar, me
jogar debaixo do caminhão, mas agora eu aprendi a lidar com a dor”. ESE 054
Resultados _______________________________________________________________ 54
Figura 1. Representação gráfica dos temas segundo as análises derivadas das entrevistas.
Esta figura representa graficamente a frequência em que os temas de 1 a 5,
estiveram presentes nas entrevistas. A seta 1, representa o tema “Viver em função das
adversidades trazidas pela dor”, ela foi gerada a partir da análise dos códigos que faziam
referências a questão da aceitação da dor, e por este motivo ela está pareada com o mecanismo
focado na aceitação. A seta 2, representa o tema “Abster da relação sexual devido ao medo de
sentir dor”, ela foi gerada assim como a seta 1 e, se encontra próxima a aceitação por representar
afinidade de significação com este mecanismo. A seta 3, representa o tema “Interação social
prejudicada devido as adversidades trazidas pela dor”, ela também foi gerada como as outras
duas já citadas e, pelo fato de também possuir proximidade de significação com a aceitação, ela
foi alocada junto as setas 1 e 2, no entanto a distância dela com a aceitação é intencional pois
este tema também pode ser compreendido como uma maneira de enfrentamento da dor. A seta
4, representa o tema “Enxergar na automedicação a solução para as adversidades trazidas pela
dor” e a seta 5, representa o tema “Adaptar-se positivamente diante das adversidades trazidas
pela dor”, ambas foram alocadas próximas ao enfrentamento pois elas representam os
mecanismos focados no enfrentamento da dor. Cabe salientar, que as caixas embaixo de cada
seta designam a frequência em que os códigos, derivados de cada tema, estiveram presente nas
Resultados _______________________________________________________________ 55
entrevistas. A ordem em que as setas foram alocadas na figura foi aleatória, ela não representa
a frequência de aparecimento dos temas nas entrevistas, portanto não há nenhum fator
intencional relacionado a isto.
Para a confecção da figura, as entrevistas foram relidas e à medida que avançamos
marcávamos as frequências em que os códigos estiveram presentes em cada entrevista, ao final,
fizemos uma contagem para saber quais os temas que apresentaram maior prevalência. Os dois
temas de maior prevalência foram: Adaptar-se positivamente diante das adversidades trazidas
pela dor, ele esteve presente 191 vezes ao longo das 66 entrevistas e, o tema Viver em função
das adversidades trazidas pela dor, que esteve presente 136 vezes ao longo das 66 entrevistas,
os demais temas tiveram uma frequência menor e estão descritos na figura. Estes dois temas
citados acima, caracterizam as extremidades da figura e representam com forte evidência nos
achados os mecanismos focados no enfrentamento e na aceitação, respectivamente.
_______________________5 DISCUSSÃO
Discussão _______________________________________________________________ 57
SÃO
Nossos dados revelaram que as mulheres com dor pélvica crônica apresentaram
mecanismos focados no enfrentamento da dor e mecanismos focados na aceitação da dor,
atrelados a eles foram coadunados os seguintes temas: Interação social prejudicada devido às
adversidades trazidas pela dor; Viver em função das adversidades trazidas pela dor; Abster da
relação sexual devido ao medo de sentir dor; Enxergar na automedicação a solução para a dor;
Adaptar-se positivamente diante das adversidades trazidas pela dor.
As estratégias focadas no enfrentamento da dor permitiram que as mulheres estivessem
mais aptas a enfrentarem a rotina e suas atividades de vida diária, abrindo possibilidades de
adesão as terapêuticas propostas pelo serviço de saúde. Condição antagônica ocorreu quanto as
estratégias focadas na aceitação, momento no qual as mulheres estavam mais aptas a aceitar a
condição de dor e, portanto, menos propensas a aderir aos tratamentos propostos, essas duas
situações compilaram impactos na vida das mulheres, positivos e negativos respectivamente.
Assim, no que concerne aos mecanismos (estratégias) focados na aceitação da dor,
coadunamos os temas: 1. Interação social prejudicada devido às adversidades trazidas pela dor;
2. Viver em função das adversidades trazidas pela dor 3. Abster da relação sexual devido ao
medo de sentir dor.
Em relação ao tema da interação social prejudicada devido às adversidades trazidas
pela dor, a literatura aponta o isolamento social como o vilão das mulheres acometidas por
dores crônicas, onde o isolamento ocorre em vários cenários que vão desde o ambiente de
trabalho, a escola, até a interferência com atividades familiares e na participação em atividades
recreativas (BALLARD; LOWTON; WRIGHT, 2006; CHEN; DRAUCKER; CARPENTER,
2018). Os nossos resultados apontaram para um forte desejo de ficar em casa, deitada devido à
falta de disposição para fazer as tarefas e sem ter contato com as pessoas e situações. Algumas
mulheres também relataram que a questão de ter que deitar ou ficar deitada por algum tempo
era visto como algo benéfico, como um momento de relaxamento, diferente da grande maioria
que experimentava nestes momentos uma sensação impeditiva para a realização de suas
atividades.
Outra vertente trabalhada no isolamento social é o medo de sentir dor, ela é
responsável, na maior parte dos casos, pela conduta de fugir de atividades ou situações a ela
relacionadas, o que resulta na manutenção da incapacidade laboral, funcional. Alguns trabalhos
relataram também alterações nas atividades de lazer como: leitura, participar de festas, sair para
pescar, o que acabou restringindo-lhes a vida social (SANCHES; BOEMER, 2002). Nossas
participantes relataram que o medo de sentir dor ou de passar mal em meio as outras pessoas,
Discussão _______________________________________________________________ 58
fossem elas conhecidas ou desconhecidas, as faziam desmarcar ou postergar compromissos
pessoais e profissionais, corroborando para a manutenção do sentimento de incapacidade
perante as demandas do cotidiano.
No que concerne à labilidade emocional, a literatura revela que há uma relação
estreita, tênue, entre o início do quadro de dores e a alteração comportamental, caracterizada
por períodos de irritabilidade, falta de paciência, falta de compreensão e isolamento social
(LEPAGE; SELK, 2016; MELLADO et al., 2016). A irritabilidade, bem com a falta de
paciência, o choro fácil foram sintomas descritos por nossas pacientes, eles fomentaram as
dificuldades de gestão diária com a dor.
O tema viver em função das adversidades trazidas pela dor traduz os significados
envoltos na perda de autocontrole e gerenciamento da vida diante das adversidades trazidas
pela dor no dia a dia. Em relação a isso, a literatura aborda a questão da dependência física e
psicológica em prol da dor, onde as mulheres acabam limitando suas atividades, recorrendo ao
repouso, além de ficarem em casa que significava que elas estavam isoladas, portanto menos
propensas a se envolver socialmente com os outros. Algumas mulheres afirmaram que ficaram
em repouso absoluto, enquanto outras optaram por restringir apenas algumas atividades, como
o esporte e a interação social (ROOMANEY; KAGEE, 2016). Nossos resultados vão ao
encontro com os achados da literatura no tocante de as mulheres viverem imersas na dor,
condição que lhes acarretavam limitações físicas, psíquicas, laborais e sociais, onde o repouso
esteve presente além das limitações atreladas as atividades de vida diária, compilando
comportamentos de isolamento social, declínios laborativos, a perda do autocontrole e do
autogerenciamento das atividades ocupacionais, corroborando para a ressignificação delas
como algo negativo.
Nossos resultados confirmam as evidencias de outros estudos, que identificaram
que as mulheres com DPC apresentaram impacto negativo da dor em sua satisfação com a vida,
interferindo no bem-estar físico e emocional, reduzindo assim, a produtividade laboral e das
atividades de vida diária (BARCELOS et al., 2010; GRACE; ZONDERVAN, 2006; ROMAO
et al., 2009). Mulheres com dismenorreia, relataram que a dor crônica trouxe impactos em suas
vidas, como na execução das atividades diárias e efeitos na saúde mental (LEPAGE; SELK,
2016). Mulheres com vaginismo relataram dificuldades na jornada de dor, com interferências
em demandas práticas e emocionais (MACEY et al., 2015).
Em relação às perdas atreladas a cronicidade da dor, a literatura, ainda, revela que
o medo de sentir dor é responsável, na maior parte dos casos, pela conduta de fuga das
Discussão _______________________________________________________________ 59
atividades ou situações a ela relacionadas, o que resulta na manutenção das incapacidades do
dia a dia (SANCHES; BOEMER, 2002). O desejo de produzir e a impossibilidade de executar
as atividades da mesma forma que antes geram situações de conflitos e constrangimento para
os portadores de dores crônicas. A existência dessas pessoas é permeada por angústias, medo e
sentimento de incapacidade, partindo do pressuposto que as pessoas aprendem e são
incentivadas desde a infância a buscar a sua autonomia e independência, quando elas se
deparam com uma situação que restringe ou impede suas ações, como a liberdade de
movimento, colocando-as em numa situação de dependência para a execução de suas
atividades, elas experimentam, então, emoções diversas, como desespero, hostilidade,
desanimo (SANCHES; BOEMER, 2002). Tivemos relatos atrelados à questão da perda de
controle da vida bem como a perda de controle emocional decorrentes das incapacidades
geradas pela rotina de dor, corroborando a labilidade emocional como o desespero e o
desanimo.
Outro ponto extrapolado pela literatura foi à interrupção da rotina, ou seja, a perda
de controle sobre o gerenciamento da rotina, este foi um tema significativo nas entrevistas das
mulheres, pois as qualificações educacionais, as histórias de trabalho e as relações sociais foram
interrompidas por causa das dificuldades em manter a atividade motivada pelos seus pares.
Muitas das mulheres entrevistadas tiveram sua primeira experiência de endometriose
sintomática enquanto estavam realizando educação terciária, neste momento a dor e a fadiga
afetavam o desempenho nos estudos e, algumas chegaram a deixar os estudos por se sentirem
incapazes de gerenciar as tarefas (GILMOUR; HUNTINGTON; WILSON, 2008). As
participantes de nosso estudo, também, relataram que a dor e seus intervenientes acabavam
corroborando para o não cumprimento de atividades educacionais, algumas chegaram a desistir
dos estudos, pois a fadiga mental e física as impediam de dar andamento as atividades
propostas. Elas relataram que já acordavam cansadas e que ao longo do dia a fadiga e a falta de
disposição acabavam tomando proporções maiores, culminando a não aderência ou
continuidade de atividades educacionais.
Outra temática que emergiu das entrevistas foi a questão de se abster da relação
sexual devido ao medo de sentir dor. Onde o medo da dor durante a relação sexual mostrou-se
ser o vilão entre as mulheres acometidas por dores ginecológicas crônicas. Mulheres com
dispareunia relataram não serem capazes de se conectar com seus parceiros em um nível físico,
condição que resultou em distância emocional, outras mulheres colocaram a questão da
distância entre elas e seus parceiros, no tocante a se afastar dele e assim se distanciar de toda
Discussão _______________________________________________________________ 60
situação com ele. A tensão criada pelas relações sexuais difíceis muitas vezes levou a um
aumento do conflito geral e a argumentos tolos sobre as diferenças insignificantes de opinião.
A insatisfação do parceiro foi outro tema recorrente. Alguns parceiros ficaram zangados e
frustrados quando suas namoradas recusaram sexo ou pararam no meio do caminho. À medida
que o conflito aumentava e a intimidade diminuía, os temores de infidelidade e abandono
multiplicavam-se. As mulheres temiam que a falta de sexo levasse seus parceiros a satisfazer
suas necessidades sexuais com outras parceiras (DONALDSON; MEANA, 2011). As
participantes, também, relataram a questão da distância emocional de seus parceiros, assim
como as tensões criadas pela abstinência sexual acarretando, em alguns casos, um aumento de
conflitos relacionais. Ainda sobre os impactos no relacionamento, mulheres com dor vulvar
relataram que suas dores podiam causar limitações em suas atividades de vida e em seus
relacionamentos e, acarretar impactos na condição de relacionamento com parceiro
íntimo(LEPAGE; SELK, 2016). Mulheres com vulvodinea se posicionaram como incapazes de
satisfazer as necessidades sexuais percebidas de seus parceiros, elas também relataram sentir
culpa diante do parceiro devido a não conseguir atender ao impulso sexual masculino
(AYLING; USSHER, 2008). A culpa também foi um tema presente nas falas das mulheres no
tocante a não conseguir satisfazer o desejo sexual do parceiro ou ainda de não estar apta física
e mentalmente para tal coisa, fomentando assim comportamentos de introspecção física e
emocional.
O medo do abandono quando o parceiro també foi uma fala frequente. Esse tema
foi levantado por mulheres com dispareunia e vaginismo. Elas relataram que o relacionamento
com o parceiro girava em torno do medo de ser abandonada, em virtude de sua incapacidade
sexual onde elas se sentiam em desvantagem em relação às outras mulheres saudáveis e o que
as recompensavam eram alguns sentimentos como se comunicar pouco, a frustração e o nojo
(SANCHEZ BRAVO et al., 2010). Nossos achados não levantaram temas como o nojo do
parceiro, embora relatem que conversavam pouco com seus parceiros quando o assunto era o
sexo, ou ainda não conversavam. Em relação à frustração, esta esteve presente nas falas das
mulheres, principalmente na questão de se sentir usada durante o sexo e, também de não sentir
satisfação sexual com o parceiro. Uma mulher relatou que sentia como se estivesse sendo
estuprada durante o sexo, pois além das dores físicas ela percebia que o sexo estava satisfazendo
apenas o parceiro.
Ainda relacionado a questão sexual, tivemos a questão da tolerância ao sexo
doloroso, mulheres com vaginismo relataram que a dor trouxe aspectos importantes como ter
Discussão _______________________________________________________________ 61
um bom relacionamento e ter o suporte do parceiro, mas também relataram as limitações na
relação com o parceiro, como a dificuldade de entendimento da dor por parte deles e a tolerância
ao sexo doloroso porque elas achavam que seria injusto negar o sexo para o parceiro (MACEY
et al., 2015). Em relação ao sexo doloroso, as participantes comentaram que mesmo com dor
ou com medo de sentir dor elas acabavam tendo relação sexual com o parceiro para evitar
cobranças internas e externas, ou ainda, para se sentirem menos culpadas perante ao desejo
hipoativo e a falta de vontade de estar com o outro. Ainda relataram que seus parceiros, em
poucos casos, tinham a compreensão perante a situação de dor corroborando assim para um
bom relacionamento e a construção de uma rede de apoio. Ainda sobre a questão de obter apoio
do parceiro íntimo, mulheres com fibromialgia relataram que elas não achavam que o marido
entendesse a situação delas, mas mesmo assim ele estaria presente para o que elas precisassem
(KENGEN TRASKA et al., 2012).
No tocante aos mecanismos (estratégias) focados no enfrentamento, temos a
autogestão da dor como tema norteador e atrelado a ele emergem dois temas, Enxergar na
automedicação a solução para a dor e Adaptar-se positivamente diante das adversidades trazidas
pela dor.
Um dos temas mais prevalente entre as falas das paticipantes foi a busca da
automedicação para a solução da dor. A literatura revela que mulheres com dismenorreia fazem
uso de analgésicos e anti-inflamatórios não esteroídais, como drogas de primeira escolha ou
opção. Algumas pacientes não faziam o uso adequado dos medicamentos, ou usavam doses
insuficientes ou superdosagem, além de não saberem, ao certo, quais eram os possíveis efeitos
colaterais que estas medicações poderiam acarretar quando ingeridas por longos períodos e sem
controle (AZIATO; DEDEY; CLEGG-LAMPTEY, 2015). Em relação às drogas de primeira
opção das mulheres com dor pélvica crônica, podemos dizer que os analgésicos e os anti-
inflamatórios eram tidos como a opção de escolha da maioria. No que se refere à superdosagem
e aos efeitos colaterais do uso abusivo destas drogas, as mulheres demonstraram que
desconheciam os possíveis efeitos do uso continuo, pois estavam preocupadas em sanar a dor.
Mulheres com dismenorreia indicaram que a gravidade de seus sintomas as colocava em risco
de overdose de medicação. Algumas mulheres sugeriram que estavam desesperadas para obter
alívio de suas dores (CHEN; DRAUCKER; CARPENTER, 2018). Algumas participantes,
também, se sentiam desesperadas frente a dor e acabavam fazendo uso abusivo de medicações,
conotando dependência da medicação. Mulheres com endometriose relataram que antes do
diagnóstico e da disponibilidade de opções cirúrgicas e hormonais, elas concentraram-se em
Discussão _______________________________________________________________ 62
tentar aliviar a dor com analgésicos como paracetamol e anti-inflamatórios, calor local, repouso
e alguns usaram álcool como sedação. Esses métodos forneciam alguma paliação, mas tanto a
dor quanto os métodos de manejo eram prejudiciais ao funcionamento, trabalho e
relacionamentos normais (HUNTINGTON; GILMOUR, 2005). Em nossos achados, também,
emergiram meios paliativos de lidar com a dor, como o uso de compressas de agua morna, a
adesão a alimentação saudável, a prática de exercícios físicos e o repouso. Em relação à
dependência dos remédios e seus efeitos colaterais, a literatura traz que essa combinação
contribui para o estigma da dor (SOARES SILVA; PORTO ROCHA; VANDENBERGHE,
2010). Em contrapartida a superdosagem, mulheres com fibromialgia relataram fazer uso de
medicamentos somente conforme a prescrição médica (KENGEN TRASKA et al., 2012). Em
nossos achados, a maioria das mulheres relataram fazer o uso abusivo das drogas prescritas,
embora tivemos relatos de mulheres que preferiam já não tomar mais a medicação e aguentar a
dor ou focar em outras coisas. Já no que concerne à dependência química e psicológica da
medicação, as mulheres tinham na medicação a válvula propulsora de solução da dor, assim
como tinham na figura médica, o profissional central do cuidado e, ainda no hospital, o local
onde o tratamento melhor seria conduzido, estes pontos revelam a visão medicocêntrica e
hospitalocêntrica das mulheres no cuidado prestado.
No tocante as restrições acarretadas pela dor, mulheres com dor pélvica crônica
relataram que as restrições mais comuns pertinentes à rotina de dores foram a incapacidade de
realizar suas atividades sem tomar analgésicos ou fazer repouso, e limitações na mobilidade,
particularmente em se movimentar e fazer caminhada (GRACE; ZONDERVAN, 2006). Nossos
achados revelaram que as mulheres apresentavam algumas incapacidades para a realização de
suas tarefas quando não estavam sob efeito de medicação, revelando dependência química e
psicológica das drogas de uso continuo. Mulheres com endometriose, incluíram nas estratégias
para aliviar a dor e o desconforto, o uso de analgésicos ou outros remédios caseiros
(ROOMANEY; KAGEE, 2016). Mulheres com dismenorréia preferiram "tratar os sintomas
naturalmente" e encontraram alívio nos remédios caseiros, como aplicar almofadas de
aquecimento, beber chá quente de gengibre e descansar (CHEN; DRAUCKER; CARPENTER,
2018). Nós, também, tivemos a adesão ao uso de remédios caseiros, além dos analgésicos,
dentre eles os chás foram a primeira opção quando as mulheres haviam optado por meios
caseiros para aliviar as dores e relaxar.
A adaptação diante das adversidades trazidas pela dor, em geral, foi relatada de
forma positiva pelas participantes, de forma a conduzí-las a autogerir a dor e as AVD. As
Discussão _______________________________________________________________ 63
histórias de indivíduos com dor crônica costumam ser repletas de estratégias, no começo do
processo ou a cada novo tratamento proposto, os indivíduos avaliam sua condição, como sendo
passível de mudança e adotam algumas ações como dietas, exercícios, medicação, que julgarem
ser capaz de modificar sua situação. Ao longo do tempo e à medida que a situação não se
modifica ou modifica-se muito pouco, novas ações são providenciadas como, mudança de
médico, de serviço de saúde, de medicação, e as estratégias voltadas para o controle das
emoções começam a ser mais utilizadas. Funciona como um processo adaptativo, onde o
indivíduo perpassa por várias fases e, por conseguinte atinge o amadurecimento em relação a
qual a melhor forma de lidar com aquela situação conflitante (PORTNOI; NOGUEIRA;
MAEDA, 2008). As participantes do estudo, relataram diversas maneiras que elaboravam
durante o dia a dia para poderem lidar melhor com a situação de dor, elas se moldavam
constantemente na tentativa de encontrar meios que amenizassem o sofrimento acarretado pela
dor, dentre as estratégias que elas mais utilizavam, destacamos: aguentar a dor; tirar o foco; sair
de casa; procurar ocupação; manter a cabeça ocupada; rede de apoio; aprender a conviver;
aprender a lidar; buscar um caminho; conciliar a dor; controlar a cabeça; criar meios; adaptar;
entender a dor; esquecer da dor; exercitar; não pensar na dor; não deixar abater; não deixar
dominar; não demonstrar dor; não ficar parada; ocupar o tempo; procurar ocupação; procurar
solução; relaxar; se dar bem com ela; ficar sem medicação; ter autocontrole; ter expectativas;
ter vida normal; ser compreendida; ser incentivada; trabalhar para esquecer.
No que diz respeito ao desenvolvimento de estratégias para autogerenciar o impacto
da doença na rotina e na vida como um todo, mulheres com endometriose relataram buscar
ativamente abordagens de autogerenciamento para o controle dos sintomas, especialmente, na
vida social e no trabalho. O autogerenciamento dos sintomas foi um importante fio condutor
nas narrativas das mulheres e uma ampla variedade de atividades e tratamentos foram tentados
com vários graus de sucesso (GILMOUR; HUNTINGTON; WILSON, 2008; ROOMANEY;
KAGEE, 2016). Nossos achados também apontam para a congruência das estratégias voltadas
a vida social e laboral / ocupacional, onde as mulheres concentraram as suas queixas. Elas
relatavam que procuravam aumentar a rotina de trabalho assim como a rede de apoio para que
tivessem maior sucesso na briga com os sintomas acarretados pela dor, assim elas procuravam
aumentar a jornada laboral e ocupacional e fortalecer ou ainda aumentar a rede de apoio, como
não ficar em casa para não focar a vida nas dores, sair sempre que possível, conversar com as
pessoas, mantendo sempre a cabeça ocupada com outras coisas além da dor. Elas tomavam o
controle de suas rotinas, contemplando o autogerenciamento de suas atividades e assim,
Discussão _______________________________________________________________ 64
transformavam o dia a dia. Mesmo sabendo que existem limitações, muitos estão dispostos a
tentar produzir como antes, pois a manutenção do trabalho contribui para manter a pessoa ativa,
participante, minimizando o desconforto e melhorando a autoestima (SANCHES; BOEMER,
2002).
Outro ponto discutido na literatura aborda a importância dos recursos pessoais,
afetivos e cognitivos como sendo primordiais para o enfrentamento da dor crônica, com
especial destaque para os papéis da família, das crenças, dos valores e das atitudes (PORTNOI;
NOGUEIRA; MAEDA, 2008). No tocante a estas questões, tivemos uma prevalência alta de
mulheres que apostaram suas estratégias através do fortalecimento do vínculo familiar e de
amigos, das crenças religiosas e espirituais, dentre elas a fé foi muito citada pelas mulheres
além da questão da religião como sendo uma porta de entrada para novos amigos e ocupação
do tempo disponível para poder ajudar ao próximo. Mulheres com endometriose relataram a
importância do envolvimento com novas pessoas e atividades, manejo por envolvimento com
atividades religiosas, reavaliação dos problemas e aceitação emocional. Elas também relataram
que estabeleciam estratégias focadas na emoção, como aceitar a doença, adotar uma atitude
positiva, engajar-se na conversa e evocar a espiritualidade. Todas essas estratégias refletem
métodos de enfrentamento que envolve reformular o modo como as participantes pensavam
sobre sua doença. O fortalecimento do apoio social foi tema presente nos relatos destas
mulheres, elas relataram que os membros da família e os parceiros costumavam se reunir em
torno delas quando estavam com dor e ajudá-las assumindo algumas de suas responsabilidades
ou fornecendo-lhes analgésicos ou remédios caseiros para aliviar a dor. Os membros da família
também mostraram preocupação e incentivaram os pacientes a procurar ajuda de médicos. Em
convergência com a literatura nossos dados, também apontaram a questão do apoio da família
e do parceiro durante a rotina de dor, além do auxílio com a execução das atividades em casa,
elas ainda trouxeram à tona a questão de ser incentivada pelos irmãos e pelos pais para
procurarem ajuda de profissionais como médico, psicólogo, educador físico. A família é parte
fundamental na construção da saúde de seus membros, pois tem como função básica o apoio,
segurança e proteção. Agem numa forma de solicitude, às vezes fazendo tudo por eles, outras
vezes possibilitando o crescimento, o amadurecimento e a questão de seguir seus próprios
caminhos (ROOMANEY; KAGEE, 2016; SANCHES; BOEMER, 2002; SOARES SILVA;
PORTO ROCHA; VANDENBERGHE, 2010).
Outras temáticas abordadas pela literatura em relação a autogestão foram as
questões relacionadas a evitar tudo que pudesse desencadear ou aumentar a dor, como roupas
Discussão _______________________________________________________________ 65
desconfortáveis (KENGEN TRASKA et al., 2012). Nossas participantes, também, relataram
que faziam uso de estratégias para minimizar o estimulo doloroso como usar roupas mais largas,
sapatos maiores ou ainda evitar coisas que pudessem desencadear o ciclo doloroso. A questão
de obter um diagnóstico preciso sobre a doença também foi discutida por mulheres com
endometriose. Elas relataram que a obtenção do diagnostico não fez com que os sintomas
desaparecessem, mas ficou mais fácil lidar com eles e aceitá-los como parte de suas vidas
(GRUNDSTRÖM et al., 2018). Nossos resultados também apontaram esta questão, as mulheres
diziam sentirem aliviadas quando o diagnóstico era claro, pois assim poderiam ter certeza de
que o tratamento proposto estava certo, além do fato de trazer alívio quanto a preocupações
relacionadas ao medo de outros diagnósticos.
No que concerne ao ponto forte dos nossos dados, esse reside no fato de que os
dados recolhidos foram baseados em experiências humanas. Assim, fomos capazes de
compreender os mecanismos de enfrentamentos e de aceitação de dor utilizados pelas mulheres.
Este estudo permitiu dar voz a uma experiência idiossincrática, dando relevo às
falas de mulheres que vivenciam um fenômeno doloros o e que este estudo focou. É também
esta uma das missões da pesquisa qualitativa na área da saúde. Especificamente em relação aos
instrumentos de recolha de informação, sublinhe-se o processo contínuo de adaptação do guia
às falas das participantes, associando-se a recolha de informação ao processo de análise, o que
nos permitiu permanecer próximo do fenômeno estudado, respeitando-o e adaptando-nos a ele.
Nosso trabalho, também, apresentou algumas limitações. Dentre elas, destacamos
os diferentes momentos de dor que as pacientes entrevistadas se encontravam, algumas estavam
em remissão enquanto outras se encontravam em fase aguda da dor. O estudo não foi desenhado
para estratificar as entrevistas de acordo com a intensidade da dor, portanto, não foi possível
analisar a influência da intensidade da dor sobre os mecanismos de enfrentamento e de
aceitação da dor. Embora tenhamos conseguido saturação dos achados, nossos resultados são
limitados em generalizar a outras populações devido à concepção qualitativa, uma vez que a
população estudada traz arraigadas suas historicidades e vivências, e estas são peculiares
somente a ela, é o aqui e o agora. Os mecanismos de enfrentamento e de aceitação da dor podem
estar associados a diversas variáveis, como idade, a escolaridade, nível socioeconômico, no
entanto esse problema não pode ser resolvido quando tratamos os dados com a perspectiva do
arcabouço qualitativo, para tanto seria necessário um estudo quantitativo, qual tem cerne nas
questões epidemiológicas e, portanto permitem identificar as variáveis que poderiam interferir
na escolha ou no uso dos mecanismos de enfrentamento e de aceitação da dor e, também para
Discussão _______________________________________________________________ 66
estimar a magnitude da associação entre a dor pélvica crônica, os meios de lidar com a dor e as
falhas de adesão as terapêuticas propostas.
______________________6 CONCLUSÕES
Conclusões _______________________________________________________________ 68
USÕES O kkk~~~
Através da análise dos dados recolhidos fomos capazes de identificar quais eram os
mecanismos de enfrentamento e de aceitação da dor adotados pelas mulheres com DPC. Eles
são representados pelos seguintes temas: Interação social prejudicada devido às adversidades
trazidas pela dor; Viver em função das adversidades trazidas pela dor; Abster da relação sexual
devido ao medo de sentir dor; Enxergar na automedicação a solução para a dor; Adaptar-se
positivamente diante das adversidades trazidas pela dor.
Pudemos, também, compreender quais eram os impactos gerados pelos
mecanismos de enfrentamento e de aceitação da dor na vida das mulheres com DPC. Assim, as
mulheres apresentaram impactos negativos e positivos diante da maneira de lidar com a dor,
onde os mecanismos de aceitação da dor atrelados à Interação social prejudicada devido às
adversidades trazidas pela dor, Viver em função das adversidades trazidas pela dor e Abster da
relação sexual devido ao medo de sentir dor, culminaram em dificuldades de aceitação das
terapêuticas propostas, uma vez que nestes momentos as mulheres se encontravam mais
propensas à aceitação da dor e, portanto a não aderir aos tratamentos.
No tocante aos mecanismos de enfrentamento da dor, esses estavam atrelados à
Enxergar na automedicação a solução para a dor e, Adaptar-se positivamente diante das
adversidades trazidas pela dor, e culminaram em maior aderência as terapêuticas propostas,
visto que nestes momentos as mulheres tinham maior propensão a enfrentar a dor.
As possíveis consequências clínicas dos mecanismos de enfrentamento e aceitação
da dor são pertinentes às falhas de adesão as terapêuticas propostas em vista da aceitação da
dor ou do enfrentamento da dor e, ainda a não continuidade aos tratamentos em seguimento
clínico já iniciados.
No que concerne à implicação clínica do trabalho, os resultados obtidos têm o
intuito de corroborar subsídios clínicos para o manejo e assistência das mulheres com DPC,
uma vez que ao ter ciência sobre a condição biopsicossocial da paciente, a equipe assistencial
(multiprofissional) possa ter a possibilidade de redesenhar protocolos clínicos que atendam as
reais necessidades de saúde arraigadas nestas mulheres, com envergadura no loco de vivência
delas. Esperamos que pesquisas com envergadura qualitativa possam fomentar, cada vez mais,
o universo vivido por esta parcela de mulheres. Tornando factíveis protocolos clínicos e
políticas públicas que atendam as reais necessidades de atenção destas mulheres, especialmente
no que concernem as esferas psicológica, ocupacional e social.
_____________________7 REFERÊNCIAS
Referências _______________________________________________________________ 70
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________________________APÊNDICE
Apêndices________________________________________________________________ 76
APÊNDICE 1 - Guia de entrevista semiestruturada com questão norteadora
Estudo: Análise qualitativa dos mecanismos de enfrentamento da dor em mulheres com dor
pélvica crônica.
1. Introdução
Visão Geral
Bom Dia! Eu sou Bruna, Pós-Graduanda do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia e ela é
Taynara, aluna do curso de Fisioterapia, trabalhamos com dor pélvica crônica, junto com o Prof.
Drº Francisco José Cândido dos Reis. Nós entrevistamos as pacientes para poder compreender
a experiência (vivência) pessoal com a dor no dia a dia.
Apresentação da participante
Antes de iniciar, gostaria que você se apresentasse dizendo o nome, a idade e sua ocupação.
Apresentação do funcionamento da entrevista
Gravaremos a entrevista, mas ela permanecerá em sigilo e o teu nome receberá um código.
Discussão para a entrevista
2.1 Questão introdutória: Por favor, comente um pouco sobre COMO é seu dia a dia
quando você está sentindo dor?
2.2 Questões norteadoras: Como você lida (FAZ) com ela no dia a dia?
2.2.1. COMO você VIVEU/VIVE isso? Conte com mais detalhes uma situação para mim.
2.2.2. Você já experimentou lidar (FAZER) de um jeito diferente? Conte com mais
detalhes uma situação para mim.
2.3 Questões intervencionistas
“Como você percebe...? ”
“Você tem um exemplo...? ”
“Não sei se entendi direito...? ”
“O que você quer dizer quando fala que...? ”
“Como assim...? ”
“Você poderia detalhar...? ”
“Isso é muito interessante. Como ocorre? ”
3. Conclusão
Será esclarecida alguma dúvida da participante, assinado o TCLE e o agradecimento da
participação na pesquisa.
Apêndices_______________________________________________________________ 77
APÊNDICE 2 – Árvores de codificação dos temas chaves
Apêndices_______________________________________________________________ 78
Apêndices_______________________________________________________________ 79
Apêndices_______________________________________________________________ 80
APÊNDICE 3 – Termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE)
Título do estudo: “Análise qualitativa dos mecanismos de enfrentamento da dor em mulheres
com dor pélvica crônica”.
Investigadores principais:
Prof. Dr. Francisco José Candido dos Reis
Bruna Helena Mellado
INFORMAÇÃO AO PACIENTE
Você está sendo convidado a participar voluntariamente de um estudo chamado “Análise
qualitativa dos mecanismos de enfrentamento da dor em mulheres com dor pélvica crônica”. Antes
de decidir participar deste estudo, é importante que você leia e compreenda os procedimentos
envolvidos. Este termo de consentimento informado descreve o motivo, os procedimentos, os
benefícios e os riscos do estudo. Por favor, sinta-se à vontade para fazer quantas perguntas quiser.
É necessário ler e assinar este termo de consentimento antes que você possa participar. Sua decisão
de participar ou não participar neste estudo não terá qualquer interferência sobre o seu atendimento
clínico.
POR QUE VOCÊ ESTÁ SENDO CONVIDADO A PARTICIPAR?
Este estudo está sendo realizado em mulheres com diagnóstico de dor pélvica crônica (DPC) com
duração igual ou superior a seis meses e, intensidade de dor entre moderada ou severa. Para fins
de descrição, a intensidade da dor será mensurada através da Escala visual analógica (EVA) e do
questionário McGuill de dor, todas as mulheres responderão aos dois instrumentos propostos, e no
caso de haver resultados discordantes, optaremos pelos resultados do questionário McGuill, devido
à importância das 3 dimensões da dor que o questionário traz, a sensorial-discriminativa, a
motivacional-afetiva e a cognitiva avaliativa. A amostragem será intencional, ou seja, não
probabilística, e as mulheres serão abordadas à priori face a face e posteriormente por contato
telefônico para agendamento da entrevista, qual se realizará no Departamento de Ginecologia e
Obstetrícia, localizado no 8º andar do hospital. Mulheres com suspeita de alteração psico-afetiva
identificada durante análise em prontuário, serão excluídas. Os métodos que utilizaremos para
atender esse critério serão a HAD para levantamento de escore de depressão e ansiedade e o Mini-
SPIN, para medo de constrangimento e evitação.
Apêndices_______________________________________________________________ 81
OBJETIVO DO ESTUDO
O objetivo deste estudo é caracterizar a percepção das mulheres com dor pélvica crônica (DPC)
sobre os mecanismos utilizados para enfrentamento da dor.
O QUE ENVOLVE A SUA PARTICIPAÇÃO?
Sua participação neste estudo será em responder algumas perguntas relacionadas em como a dor
interfere no seu dia a dia e também como você enfrenta essa dor, ou seja, quais os mecanismos
que você utiliza para conseguir viver com a rotina de dores. Você irá participar de uma entrevista.
Lá serão discutidos os temas do objetivo do estudo. A reunião será gravada para permitir maior
fidedignidade de análise. Esse procedimento não gerará riscos a você. Durante todo o período de
sua participação, estará devidamente acompanhada e assistida por profissional de nível superior
capacitado, terá esclarecimento de qualquer dúvida a respeito da pesquisa, bem como lhe será
garantido o acesso aos resultados da avaliação, após a conclusão do trabalho.
O QUE MAIS SERÁ REALIZADO?
Além da entrevista, será realizada uma análise dos trechos das falas de cada participante, onde
cada uma deverá receber uma sigla referente ao nome e ao grupo que pertenceu {S (sujeito) + EP
(número da entrevista em profundidade, relacionada à ordem de coleta)}, garantindo assim o
anonimato.
POSSÍVEIS RISCOS AO PARTICIPAR DESTE ESTUDO
Esse procedimento não gerará riscos a você. Durante todo o período de sua participação, estará
devidamente acompanhada e assistida por profissional de nível superior capacitado, terá
esclarecimento de qualquer dúvida a respeito da pesquisa, bem como lhe será garantido o acesso
aos resultados da avaliação, após a conclusão do trabalho.
POSSÍVEIS BENEFÍCIOS
A sua participação não trará benefícios para você, porém poderá contribuir para a melhor
compreensão do seu problema de saúde no futuro.
O QUE ACONTECE SE VOCÊ NÃO QUISER PARTICIPAR?
Sua participação neste estudo é totalmente voluntária. Se você decidir não participar, não haverá
penalidade, perda de benefícios ou redução na qualidade dos cuidados médicos. Se forem
Apêndices_______________________________________________________________ 82
disponíveis novas informações que possam afetar a sua vontade de continuar nesta pesquisa, você
terá conhecimento destas informações.
E SE VOCÊ QUISER SAIR DO ESTUDO APÓS TER ACEITADO PARTICIPAR?
Você pode descontinuar sua participação neste estudo a qualquer momento sem penalidade ou
perda dos benefícios que de outra forma você teria direito. Caso você deseje retirar o seu
consentimento, favor notificar o investigador, através do número de telefone listado na primeira
página deste termo de consentimento livre e esclarecido. Você tem o direito de se retirar do estudo
completamente (isto significa que você não deseja ser contatado por qualquer pessoa do estudo
depois da sua retirada) ou pode só desejar parar de realizar os procedimentos, mas permitir que o
pessoal do estudo entre em contato com você e utilize os seus dados. Você será informado de
forma oportuna sobre qualquer nova informação relacionada à sua segurança que possa influenciar
sua disposição em continuar participando do estudo. Este estudo poderá ser interrompido caso o
pesquisador responsável perceba qualquer risco ou dano significativo causado pela pesquisa.
SIGILO E DIVULGAÇÃO DE INFORMAÇÕES PESSOAIS
Todas as informações coletadas durante este estudo, incluindo seus registros médicos, dados
pessoais e dados de pesquisa, serão mantidas em sigilo. No entanto, um representante autorizado
irá analisar essas informações. Você será identificado por um número em toda documentação e
avaliação, estando seu nome em segredo absoluto. Seu nome ou o material que o identifique como
um participante do estudo não será liberado sem a sua permissão por escrito, exceto quando for
exigido por lei.
REGISTRO DO ESTUDO PESQUISA
A pesquisa será registrada no Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital das Clínicas da Faculdade
de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.
CUSTOS E REMUNERAÇÃO
Sua participação não terá custos e você não terá que pagar por nenhum procedimento que será
realizado neste estudo. Você não será pago por sua participação; entretanto, planejamos cobrir
custos relacionados com viagem e alimentação.
Apêndices_______________________________________________________________ 83
NO CASO DE DANO RELACIONADO À PESQUISA
Caso você sofra algum dano como resultado de qualquer atividade da pesquisa, os pesquisadores
e o centro irão providenciar tentar providenciar assistência integral, dentro do padrão internacional
de boas práticas clínicas e resolução vigente no Brasil (Resolução 466/2012). De forma alguma, o
presente termo renuncia os direitos legais do participante ou isenta o investigador, a instituição, o
patrocinador ou seus representes das responsabilidades legais caso haja algum dano.
CONTATO PARA MAIS INFORMAÇÕES
Os pesquisadores estarão disponíveis para responder a quaisquer perguntas que você possa ter em
relação ao tratamento descrito ou os procedimentos do estudo. Se você tiver alguma dúvida sobre
esta pesquisa, você pode entrar em contato com Prof. Dr. Francisco José Cândido dos Reis – CRM:
65.062 – SP. Telefones de contato: 16-3602-2589 (8o Andar) ou 16-3602-2311. E-mail:
[email protected]. Endereço: Av. Bandeirantes, 3900 - 2º andar - Ribeirão Preto – SP. CEP:
14049-900, ou com Bruna Helena Mellado – COREN: 209.203 – SP. Telefones de contato: 16-
33075015 ou 991423911. E-mail:
[email protected]. Endereço: Rua Francisco Fiorentino, 959 -
São Carlos– SP. CEP: 13574-007. Se você tem alguma dúvida sobre seus direitos como um
participante de pesquisa ou em caso de julgamento relacionado com uma lesão, entre em contato
com o médico do estudo ou o seu médico de confiança. Caso você quiser falar com alguém não
diretamente envolvido neste estudo sobre os seus direitos, preocupações, danos relacionados à
pesquisa, você pode se comunicar com o Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital das Clínicas
da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo no Campus
Universitário, S/N, Monte Alegre, Prédio Central, Subsolo - 14048-900 – Ribeirão Preto/SP, em
16 3602 2228 com horário de funcionamento de Segunda a Sexta-feira das 08hrs00min às
17hrs00min. Você também poderá entrar em contato, caso se sentir coagido para aceitar ou
continuar a participar da pesquisa. Você também poderá entrar em contato, caso se sentir coagido
para aceitar ou continuar a participar da pesquisa.
CONSENTIMENTO
Ao assinar e datar este formulário, você irá confirmar que foi suficiente informado sobre a
natureza, a finalidade, a duração e os riscos deste estudo. Confirma também que foi capaz de
discutir dúvidas em detalhes com o pesquisador, e que estas, foram completamente e
satisfatoriamente respondidas. Você receberá uma via assinada deste formulário e a outra via ficará
com o pesquisador.
Apêndices_______________________________________________________________ 84
Nome do Participante Assinatura Data e horário
Nome do Pesquisador Assinatura Data e horário
Nome da Testemunha (se
necessário)
Assinatura Data e horário
Apêndices_______________________________________________________________ 85
APÊNDICE 4 – Definição operacional das categorias
A categoria: Interação social prejudicada devido as adversidades trazidas pela dor
codifica todas as referências ou verbalizações das participantes acerca de:
“Nos últimos dos dois anos eu não tenho contato social, eu sou filha única, não tenho
mais amigos, ultimamente eu não quero conviver com ninguém”. ESE 047;“Parece que eu não
consigo viver em sociedade quando to com dor, eu sou um perigo eu tenho que me trancar no
quarto e não olhar para ninguém por causa da dor”. ESE 075; “Me irrita. Eu não gosto de
conversar. Tudo me incomoda, até se falar um bom dia, que bom dia. Eu queria só ficar deitada,
mas não posso. Se pudesse dormia três dias...” ESE 083; “Eu tenho vontade de bater em
alguém quando me tiram da minha zona de conforto... quero ficar sozinha. Eu quero cavar um
buraco e ficar lá dentro”. ESE 075; “E quando eu estou assim, parece que eu quero bater em
todo mundo. Não pode me olhar de jeito nenhum. Ai eu me isolo para não machucar ninguém”
ESE 084;“Eu choro muito, quero ficar sozinha, se eu pudesse me enfiava num buraco e ficava
sozinha, sem ninguém perto.” ESE 054;“Fico em casa deitada, é uma dor chata, aqui te
corroendo, então você não tem animo para conversar e trabalhar, muito menos trabalhar...”
ESE 009;“Com a dor que eu sinto eu não tenho animo, eu só trabalho porque sou obrigada,
porque se eu pudesse ficava o período inteiro da menstruação em casa...” ESE 010
A categoria: Viver em função das adversidades trazidas pela dor codifica todas as
referências ou verbalizações das participantes acerca de:
“Acho que isso é por causa da dor, se não tiver ela é por causa dela, não tem como ter
dor e tá bem, bem-humorada e feliz. Então ela é a causadora de tudo” ESE 055; “Mas parece
um filme de terror você tá bem e de repente começa a sentir dor de novo, será que é da minha
cabeça, será que tô loca. Realmente a dor comanda a vida da gente...” ESE 009; “Nada, nada,
não tenho vontade de fazer nada! Tentei fazer uns fuxico lá e já encostei, nada menina, sabe o
que é nada? Minha mãe fala que eu tenho que fazer alguma coisa, não quero fazer mais nada”
ESE 025;“Eu trabalho porque eu preciso, porque não dá ânimo, bate uma angustia, é
inexplicável você não entende o porquê você sente aquilo.” ESE 008;“Vontade de ficar
deitada, uma fraqueza assim não sei te explicar, não dá vontade de fazer nada, parece que o
corpo tá pesado...” ESE 071;“Você não sente vontade de fazer nada, você quer ficar quieta,
tudo te irrita antes eu não tinha nada disso, era uma vida normal sem preocupação, mas depois
disso...” ESE 004;“Então é assim, você não consegue ter uma rotina quando se ta com a crise,
quando ta atacada né, então é um dos maiores problemas que eu enfrento...” ESE 007.
Apêndices_______________________________________________________________ 86
A categoria: Abster da relação sexual devido ao medo de sentir dor codifica todas
as referências ou verbalizações das participantes acerca de:
“Mas eu sempre tive dor na relação, sempre fugi, evitava e onde a gente arruma briga
com o esposo e o clima fica pesado.” ESE 017; “Eu não podia nem pensar em ter relação, meu
casamento ficou numa situação horrível...” ESE 052; “Você é casada, quer ter relação com
seu marido, sente dor, perde aquela vontade. Então tudo isso te coloca para baixo...” ESE 012;
“Ainda bem que eu tenho um marido que tem paciência comigo.” ESE 004; “Meu marido as
vezes não entende, porque como não descobre, não cura... não tem um tratamento...” ESE
077;“Tipo assim, não posso ter relação, e quase meu marido me largou por causa da dor”
ESE 072;“Quando vou namorar também dói, parece que estou sendo estuprada. Eu estou
apenas servindo ele, mas não sinto prazer” ESE 041;“Eu vivo em uma união homo afetiva,
não tenho sempre relação sexual com a minha parceira e agradeço que não é um homem
porque senão já tinha acabado ... mas até sem penetração eu sinto dor, o simples contrair a
barriga já doi” ESE 075.
A categoria: Enxergar na automedicação a solução para a dor codifica todas as
referências ou verbalizações das participantes acerca de:
“Não... não tem como lidar com ela sem medicamento”. ESE 071;“Eu faço o que todo
brasileiro faz, automedicação”. ESE 075;“Sim com o uso de medicação, as vezes eu tenho que
ir pro pronto socorro tomar na veia porque só via oral não adianta, e só medicação mesmo...”
ESE 007;“Às vezes vou lá tomo um remédio, a dor não passa, não adianta remédio pra dor, já
tomei muito remédio pra dor... é difícil a dor passar, eu paro e fico quieta, e aí vai amenizando,
mas é ruim...” ESE 003;“Tem dia que é difícil suportar, mas de dia eu tomo a medicação e vou
trabalhar. É uma dor assim que eu fico suportando né...” ESE 080;“Quando ela está forte eu
tomo remédio para passar, agora no dia a dia, a gente começa a conviver com ela, tem dias
que ela aumenta muito, a gente queria tirar ela dali, mas não tem como”. ESE 052;“Lavo,
passo, cozinho, só não limpo casa porque não posso mexer com rodo e vassoura, faço crochê,
flores de EVA, procurando ocupação porque eu não consigo ficar parada”. ESE 017.
A categoria: Adaptar-se positivamente diante das adversidades trazidas pela dor
codifica todas as referências ou verbalizações das participantes acerca de:
“Antes eu sentia a dor todo dia, era uma dor mais suportável e agora eu vi que não era.
Parece que a gente acostuma com a dor”. ESE 077;“ Tento fazer o possível para me
acostumar. Porque se levar tudo ao pé da letra você fica pirada. Eu tento ocupar a minha
cabeça”. ESE 081;“Eu estou procurando ter uma qualidade de vida para não ter dores
Apêndices_______________________________________________________________ 87
constantes. Acredito que posso encontrar essa qualidade de vida”. ESE 038;“Eu procuro me
arrumar, sair para rua ... dou uma volta no centro no meu tempo, aí me acalmo... ESE 021;
“Geralmente é o trabalho que me tira do foco da dor. Agora que eu estou de férias eu penso
mais na dor sem muita ocupação mental”. ESE 042;“Ai procuro fazer caminhada no final do
dia... tudo vai me ajudando um pouco para não ficar com o pensamento fixo na dor”. ESE
081;“Mas não me deixo abater por causa disso não. Eu vivo hoje. Não deixo me abater. Não
é verdade. Vai dar certo” ESE 070;“Tem que fingir que você não tem. Você tem mas finge que
não tem porque se pôr na cabeça você não faz nada nada mesmo! ” ESE 016;“Antes eu queria
morrer, mas eu estou aprendendo a lidar com isso, eu agradeço a Deus pelo dia, e imploro
para ele que o amanhã seja melhor”. ESE 033;“Se você ficar sozinha você fica mais deprimida.
No começo eu tinha vontade de me matar, me jogar debaixo do caminhão, mas agora eu
aprendi a lidar com a dor. ” ESE 054