{"paper_id":"10ed0f7d-335e-4c78-b744-321e0727cb59","body_text":"UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO \nFACULDADE DE MEDICINA DE RIBEIRÃO PRETO \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \nBRUNA HELENA MELLADO \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \nAnálise qualitativa dos mecanismos de enfrentamento da dor em mulheres com dor \npélvica crônica \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \nRibeirão Preto \n2019  \n\nBRUNA HELENA MELLADO \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \nAnálise qualitativa dos mecanismos de enfrentamento da dor em mulheres com dor \npélvica crônica \n \n \n \n \nVersão corrigida \n \n \n \n \n \nTese apresentada à Faculdade de Medicina de \nRibeirão Preto da Universidade de São Paulo, \ncomo requisito para a obtenção do Título de \nDoutor em Ciências. \n \nÁrea de Concentração: Ginecologia e \nObstetrícia. \n \nOrientador: Prof. Dr. Francisco José Candido \ndos Reis \n \n                                                                      \nCo-orientadora: Profª Drª Catarina do Vale    \nBrandão \n  \n \n \n \n \n \n \n \nRibeirão Preto \n2019  \n\nAutorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio \nconvencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte. \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n  \nMellado, Bruna Helena. \n  \nAnálise qualitativa dos mecanismos de enfrentamento da dor em mulheres com \ndor pélvica crônica / Bruna Helena Mellado; orientador: Francisco José \nCandido dos Reis. - Ribeirão Preto - 2019; 87f: pp \n  \nTese (doutorado) – Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade \nde São Paulo/USP – Área de Concentração: Ginecologia e Obstetrícia.  \n \n1. Dor pélvica; 2. Saúde da mulher; 3. Enfermagem; 4. Pesquisa qualitativa. \n  \n \n\nMELLADO, B. H. Análise qualitativa dos mecanismos de enfrentamento da dor em \nmulheres com dor pélvica crônica. 2019. 87 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Medicina de \nRibeirão Preto, Universidade de São Paulo, 2019. \n \nAprovado em: \n \n \nBanca Examinadora \n \nProf. Dr.  \nInstituição:  \nJulgamento:  \n \nProf. Dr.  \nInstituição:  \nJulgamento:  \n \nProf. Dr.  \nInstituição:  \nJulgamento:  \n \nProf. Dr.  \nInstituição:  \nJulgamento:  \n \nProf. Dr.  \nInstituição:  \nJulgamento:  \n \n \n  \n\n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \nDEDICATÓRIA \n\n \nDedico este trabalho / concretização de um sonho ...  \n \n \nA Deus, em primeiro lugar...  \nPor ter me proporcionado o grande ensaio de VIVER! \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n\nAos meus Pais, Mário e Maria, que sempre me incentivaram a seguir em frente, mesmo em \nmeio a tantos obstáculos que surgiram durante o caminho, me apoiando psicologicamente, \nemocionalmente e financeiramente para a concretização deste sonho! Vocês foram \nprimordiais para a concretização desta etapa, tão sonhada. Obrigada por existirem... Em \nespecial, dedico à minha “Mãezinha” que sempre me acolheu em seus braços, conduzindo \nminhas aflições e também minhas alegrias. Ao meu Pai, sou grata por toda força e \npersistência que me ensinou a trilhar... Amo vocês, incondicionalmente! \nAo meu cachorrinho, Bill. Meu companheiro das madugadas em claro, trabalhando, além \ndas infinitas manhãs e tardes... Seu amor e carinho me acalentam a alma. Sou mais feliz \npor ter você em minha vida!! \nAo meu irmão, Carlos Eduardo, minha cunhada, Paula e à minha VIDA, “Julinha”.  \n“Juju”, eu sigo minha caminhada mais feliz por ter você sempre ao meu lado, levando na \nbagagem seu sorriso encantador. Meu presente de Deus! Amo-te mais que a mim mesma... \nAo meu orientador Dr. Francisco José Candido dos Reis, por toda contribuição científica, \nincentivo, paciência, sabedoria e companheirismo durante todas as fases de execução desse \nsonho. Com você ao meu lado, a caminhada se tornou algo mais leve e encantador!!! \nA toda minha família, aos que me acompanharam de perto e também aos que me \nincentivaram de longe! \nAos meus amigos, relações construídas ao longo do caminho. Os de São Carlos, os de \nRibeirão Preto, os de Uberlândia, os de Campinas... Cada um trouxe acolhimento e \ncontribuições a minha existência. Meu muito obrigada!!  \n \n \n \n \n\n \nEterna gratidão...  \n\n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \nAGRADECIMENTOS \n \n\nAo meu orientador Prof. Dr. Francisco José Candido dos Reis por tudo que pôde fazer tanto \nna esfera acadêmica bem como em meu crescimento profissional e pessoal, em prol da \nrealização desse lindo trabalho.  Meu eterno Mestre!!!! \nAo Prof. Dr. Antonio Alberto Nogueira por estar sempre disponível me ajudando no que fosse \npreciso. A tua doce presença foi de suma importância para minha evolução acadêmica, \nprofissional e pessoal.  \nAos Professores. Dr. Julio Rosa Silva e Silva e Dr. Omero Poli-Neto, por todo apoio e \nensinamentos acadêmicos, especialmente durante meu estágio no AGDP. \nAos colaboradores José Victor Cabral Zanardi, Ana Zanardi e Julia Troncon pelo \nacolhimento junto ao ambulatório. \nÀ Taynara Louise Pilger, aluna de IC, que desde o começo foi pró ativa e colaboradora, além \nda amizade construída com o passar do tempo!!  \nÀ Isis Albuquerque, ser humano de uma doçura incrível, eterna gratidão! Se não fossem os \nteus ensinamentos este percurso teria tido outras ressignificações!!! \nÀ Diene Carlos, uma amiga inestimável que a Universidade de São Paulo me presenteou!! \nGratidão eterna ao seu carinho, amizade e acolhimento!!!! \nÀ Viviana Reyes, Professora de Espanhol, uma grande amiga e conselheira. Gratidão pelos \nmomentos vividos... \nAo André, meu querido e estimado professor de inglês, suas aulas são uma terapia de \namor!!!! \nAo Antonio Fais, por todo apoio na escrita científica. Um grande amigo, incentivador e \nconselheiro. Eterna gratidão! \n \n\nÀ Catarina do Vale Brandão, Professora da Universidade do Porto, um anjo que encontrei \nno meio da caminhada. Gratidão por todos os ensinamentos. Sua doçura me fez enxergar o \ncaminho de uma forma mais acolhedora e sensível!!! \nAo Cristiano Roque Antunes Barreira, Professor da EEFRP, por todo apoio e acolhimentos \nno grupo de pesquisa da Fenomenologia. Sua inserção em minha caminhada foi de suma \nimportância!!!! \nAos meus amigos e companheiros de ambulatório pela amizade, companheirismo, pelos \nmomentos divertidos vividos juntos e pela troca de conhecimentos. Saudades de todos!!!! \nAos Professores que me acompanharam durante a realização das disciplinas, tanto da EERP \nquanto da FMRP, meu muito obrigada! Foram muitas contribuições durante estes anos ..... \nÀs mulheres que participaram do estudo, todo meu respeito e gratidão pelas informações \nconcedidas. Devo a vocês, a concretização deste lindo trabalho!!! \nÀ funcionária e amiga, Suelen Soares por todo apoio acadêmico e amizade. Sempre me \nacolhendo e trazendo uma palavra sensível ... \nAos funcionários Rosane, Reinaldo, Ricardo, Gabriela e Ilza, por toda prestatividade para \ncomigo!!! \nA todos os colegas de departamento, funcionários e alunos que direta ou indiretamente \ncolaboraram para realização deste trabalho.  \nÀ banca de qualificação, Drº Antonio Alberto Nogueira, Drª Maria das Graças Bonfim pela \nleitura crítica e sugestões propostas, enriquecendo meu olhar!!! \nÀ banca de defesa, por terem aceitado o convite e a difícil responsabilidade de compreender, \ncorrigir e fomentar conteúdo para a melhoria da qualidade da tese.  \nAo Conselho Nacional de Pesquisa (CNPQ), pela concessão da bolsa de Doutoramento.  \n \n\nÀ Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e Departamento de \nGinecologia e Obstetrícia, pelo ingresso no Doutorado. Obrigada por depositarem em mim, \nconfiança e respeito. \n  \n\n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n“As dores ligeiras exprimem-se; as grandes dores são mudas...” \n(Lucius Annaeus Seneca) \n\nRESUMO \n \nMELLADO, B. H. Análise qualitativa dos mecanismos de enfrentamento da dor em \nmulheres com dor pélvica crônica. 2019.87f.  Tese (Doutorado) – Faculdade de Medicina de \nRibeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2019. \nIntrodução: A dor pélvica crônica em mulheres é uma condição que gera incapacidades, como \ninterferências na qualidade de vida, déficit na eficiência das atividades laborais e prejuízos na \ninteração com o meio social. É uma condição complexa e seu manejo envolve muitos desafios. \nOs mecanismos de enfrentamentos adotados pelas mulheres com dor pélvica crônica podem \ninterferir em todas as etapas do manejo desta condição, envolvendo busca pelo diagnóstico, \nadesão ao tratamento e qualidade de vida. Objetivo: Compreender os mecanismos de \nenfrentamento utilizados por mulheres com dor pélvica crônica. Pacientes e Métodos: Foram \nincluídas 66 mulheres com diagnóstico de dor pélvica crônica. Utilizamos entrevistas \nsemiestruturadas, áudio gravadas e transcritas na íntegra. Os textos transcritos foram \nsubmetidos à análise temática com auxílio do software. Resultados: Identificamos cinco temas \nque sintetizam os mecanismos de enfrentamento e de aceitação adotados por mulheres com dor \npélvica crônica: Interação social prejudicada devido as adversidades trazidas pela dor; Viver \nem função das adversidades trazidas pela dor; Abster da relação sexual devido ao medo de \nsentir dor; Enxergar na automedicação a solução para a dor; Adaptar-se positivamente diante \ndas adversidades trazidas pela dor. Conclusão: Nossos resultados apontam para as possíveis \nconsequências e impactos clínicos das estratégias de enfrentamento e de aceitação da dor no \nque concerne a adesão das terapêuticas propostas ou já em seguimento clínico. Desta forma, as \nestratégias regulam a aderência ou não as propostas terapêuticas oferecidas pelo serviço de \nsaúde. \nPalavras-chave: Dor pélvica. Saúde da mulher. Enfermagem. Pesquisa qualitativa.  \n  \n\nABSTRACT \n \nMELLADO, B. H. Qualitative analysis of the coping mechanisms of pain in women with \nchronic pelvic pain. 2019.87 f. Thesis (Doctor of Science) – Faculity of Medicine of Ribeirão \nPreto, University of São Paulo, Ribeirão Preto, 2019. \n \nIntroduction: Chronic pelvic pain in women is a condition that generates disabilities, such as \ninterferences in quality of life, deficits in the efficiency of work activities, and impairments in \ninteraction with the social environment. It is a complex condition and its handling involves \nmany challenges. The coping mechanisms adopted by women with chronic pelvic pain can \ninterfere in all stages of the management of this condition, involving search for diagnosis, \nadherence to treatment and quality of life. Objective: To understand in depth the coping \nmechanisms used by women with chronic pelvic pain. Patients and Methods: We included 66 \nwomen diagnosed with chronic pelvic pain. We used semi-structured interviews, recorded \naudio and transcribed in full. The transcribed texts were submitted to thematic analysis with the \nhelp of the software \"RQDA\". Results: We identified five themes that summarize the coping \nand acceptance mechanisms adopted by women with chronic pelvic pain: Impaired social \ninteraction due to adversity brought on by pain; Living in the face of adversity brought on by \npain; Abstain from sexual intercourse due to fear of pain; View the solution to pain in self-\nmedication; To adapt positively in the face of adversity brought on by pain. Conclusion: Our \nresults point to the possible clinical consequences and impacts of coping and pain acceptance \nstrategies regarding the adherence of the therapies proposed or already under clinical follow-\nup. In this way, the strategies regulate adherence or not to the therapeutic proposals offered by \nthe health service. \n \nKeywords: Pelvic pain. Women's health. Nursing. Qualitative research.  \n  \n\nLISTA DE ILUSTRAÇÕES \n \n \n \nFigura 1. Representação gráfica dos temas emergidos das entrevistas ...............................55 \nApêndice 2. Arvores de codificação dos temas....................................................................79 \n  \n\nLISTA DE SIGLAS \n \nHCFMRP Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto \nAGDP \nUSP \nAmbulatório de Endoscopia Ginecológica e Dor Pélvica \nUniversidade de São Paulo \nTCLE \nRQDA \nTermo de Consentimento Livre e Esclarecido \nR Qualitative Data Analysis \nABNT Associação Brasileira de Normas e Técnicas \nBHM \nTLP \nBruna Helena Mellado \nTaynara Louise Pilguer \nFJCR Francisco José Candido dos Reis  \nCRAB Cristiano Roque Antunes Barreira \nCVB Catarina do Vale Brandão \nMGBC \nEVA \nMaria das Graças Bonfim de Carvalho \nEscala Visual Analógica \nDRS \nESE  \nPHQ  \nEUA \nDivisão Regional de Saúde \nEntrevista Semi Estruturada \nPatient Health Questionnaire \nEstados Unidos da América \n \n   \n\nSUMÁRIO \n \n \nRESUMO .............................................................................................................................................. 14 \nABSTRACT .......................................................................................................................................... 15 \nLISTA DE ILUSTRAÇÕES ................................................................................................................. 16 \nLISTA DE SIGLAS .............................................................................................................................. 17 \n1. INTRODUÇÃO ................................................................................................................................ 23 \n1.1. Dor Pélvica Crônica e Pesquisa Qualitativa ............................................................................... 24 \n1.2. Mecanismos de Enfrentamento da Dor ...................................................................................... 25 \n1.3. Justificativa para o Estudo.......................................................................................................... 27 \n2. OBJETIVOS ..................................................................................................................................... 28 \n2.1. Objetivo Geral ............................................................................................................................ 29 \n2.2. Objetivos Específicos ................................................................................................................. 29 \n3. MATERIAL E MÉTODOS .............................................................................................................. 30 \n3.1. Desenho do Estudo ..................................................................................................................... 31 \n3.2. Caracterização das Participantes ................................................................................................ 31 \n3.3. Critérios de Elegibilidade ........................................................................................................... 31 \n     3.4. Seleção e Recrutamento das Participantes ................................................................................. 31 \n3.5. Contexto e Caracterização do Local do Estudo .......................................................................... 31 \n3.6. Instrumento de Recolha de Dados .............................................................................................. 32 \n3.7. Transcrição das Entrevistas ........................................................................................................ 33 \n3.8. Instrumento de Análise de Dados ............................................................................................... 34 \n3.9. Rigor Metodológico ................................................................................................................... 36 \n4. RESULTADOS ................................................................................................................................. 38 \n4.1. Interação social prejudicada devido às adversidades trazidas pela dor ...................................... 40 \n4.2. Viver em função das adversidades trazidas pela dor .................................................................. 43 \n4.3. Abster da relação sexual devido ao medo de sentir dor ............................................................. 45 \n4.4. Enxergar na automedicação a solução para a dor ....................................................................... 48 \n4.5. Adaptar-se positivamente diante das adversidades trazidas pela dor ......................................... 52 \n5. DISCUSSÃO ..................................................................................................................................... 57 \n6. CONCLUSÕES ................................................................................................................................. 68 \n7. REFERÊNCIAS ................................................................................................................................ 70 \nAPÊNDICE 1 - Guia de entrevista semiestruturada com questão norteadora ...................................... 76 \n\nAPÊNDICE 2 – Árvores de codificação dos temas chaves .................................................................. 77 \nAPÊNDICE 3 – Termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) ................................................. 82 \nAPÊNDICE 4 – Definição operacional das categorias ......................................................................... 87 \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n______________________1 INTRODUÇÃO\n\n \nIntrodução _____________________________________________________________  23 \n \n   A dor afeta pelo menos 30% dos indivíduos durante algum momento da sua vida e, \nem 10 a 40% deles, tem duração superior a um dia. Constitui a causa principal de sofrimento, \nincapacitação para o trabalho e ocasiona graves consequências psicossociais e econômicas \n(IASP, 2018). A dor pélvica crônica (DPC) é definida como uma sensação e experiência \nemocional desagradável associada à lesão tecidual, real ou potencial, ou descrita em termos \ndesta lesão (IASP, 2018). Esta definição permite concluir que a dor não é apenas uma \nexperiência puramente sensorial, mas também é experimentada por um impacto emocional. A \ndefinição da IASP destaca a natureza multidimensional e subjetiva da dor, como sendo uma \nexperiência complexa que é peculiar de cada indivíduo. A dor crônica é tipicamente \ndiferenciada da dor aguda com base em sua cronicidade ou persistência, assim como seus \nmecanismos de manutenção fisiológica e / ou impacto prejudicial na vida do indivíduo \nacometido (IASP, 2018). A dor crônica é catacterizada por periodicidade maior ou igual a 6 \nmeses. \nA DPC entre mulheres apresenta elevada prevalência e está associada a custos \nelevados para o sistema de saúde. A primeira pesquisa populacional realizada para a DPC, foi \nconduzida nos EUA em 1994, e encontrou uma prevalência de 14,7% (MATHIAS et al., \n1996). Outros estudos a respeito da prevalência da DPC foram realizados no Reino Unido, \nNova Zelândia e Austrália e relataram prevalências de 24, 25,4 e 21,5%, respectivamente \n(GRACE; ZONDERVAN, 2004; PITTS et al., 2008; ZONDERVAN et al., 2001). Os dados \nnorte-americanos estimam que a DPC seja responsável por cerca de 10% das consultas \nginecológicas, 40 a 50% das laparoscopias ginecológicas, além de 10 a 15% das \nhisterectomias, (BRODER et al., 2000; GAMBONE et al., 2002; GELBAYA; EL-\nHALWAGY, 2001; HOWARD, 1993), implicando um custo superior a dois bilhões de dólares \npor ano. Além dos custos gerados, estima-se que cerca de 60% das mulheres com DPC nunca \nreceberam um diagnóstico específico e 20% nunca passaram por nenhuma investigação para \nesclarecer a causa da dor (MATHIAS et al., 1996; MONTENEGRO et al., 2009). No Brasil, \nnão há um panorama claro sobre as prevalências da DPC, mas estima-se que as estatísticas \nsejam superiores ao dos países desenvolvidos. Em Ribeirão Preto, encontramos uma \nprevalência de 11,5%, na população de mulheres estudadas, essa taxa apresenta um aumento \nsignificativo quando se considera somente as mulheres em idade reprodutiva, onde a \nprevalência atinge 15,1%(SILVA et al., 2011), o que representa um sério problema de saúde \npública (NOGUEIRA; REIS; POLI NETO, 2006). As oscilações das taxas de prevalência, de \n5,7% a 26,6%, incluem países que anteriormente nunca haviam tido publicações de estudos \n\n \nIntrodução ___________________________________________________________  24 \n \n \nde base populacional sobre prevalência da DPC, como é o caso de Gana, Egito, Áustria, \nAustrália e Brasil (AHANGARI, 2014).  \nA Organização Mundial de Saúde define qualidade de vida como sendo a \npercepção do indivíduo sobre a sua posição na vida, no contexto da cultura e no sistema de \nvalores nos quais ele vive, e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e \npreocupações (WHOQOL GROUP, 1994). A DPC impacta diretamente na qualidade de vida \ndas mulheres acometidas, conferindo a elas prejuízos sociais, emocionais e psicológicos \n(GRACE; ZONDERVAN, 2004; LATTHE et al., 2006; MATHIAS et al., 1996; MELLADO \net al., 2016; ROMAO et al., 2009; SOUZA et al., 2012; ZONDERVAN et al., 2001).   \nOutra questão relevante é alta prevalência de falha terapêutica. A complexidade \nda condição e fraca adesão das pacientes são frequentemente mencionados como causas de \nfalha terapêutica. Nesta perspectiva, aderir ao tratamento significa aceitar a terapêutica \nproposta pela equipe e segui-la adequadamente, no entanto, vários fatores influenciam na \nadesão, são eles, a saber, as características da terapêutica, as peculiaridades do paciente, os \naspectos do relacionamento com a equipe multiprofissional e as variáveis socioeconômicas \n(RAPLEY, 1997). Há estudos que relatam a interferência desses fatores na adesão ao \ntratamento de diversas doenças, porém poucos referem-se à adesão à terapia farmacológica \nem indivíduos com dor crônica (KURITA; PIMENTA, 2003). Indivíduos com dores crônicas, \nem geral, possuem uma longa história, acentuado sofrimento psíquico, comprometimento \nlaborativo e físico e, descrença com o tratamento, em decorrência de experiências anteriores \nnas quais os resultados foram insatisfatórios. Tais condições podem favorecer a não adesão, \nprolongar a dor e o sofrimento, ocasionar prejuízos à funcionalidade física e psíquica e \ndeteriorar a qualidade de vida do indivíduo (KURITA; PIMENTA, 2003). \n \n1.1. Dor Pélvica Crônica e Pesquisa Qualitativa \nA dor pélvica crônica é uma condição complexa de ser trabalhada e compreendida, \numa vez que estão interligados a ela fatores psicológicos, emocionais e sociais. Partindo do \npressuposto que a percepção da dor não está somente ligada à quantidade de estímulos \nnociceptivos recebidos e sim a uma combinação de fatores, incluindo aspectos emocionais e \nsociais (ALBERT, 1999; GELBAYA; EL-HALWAGY, 2001; REITER, 1998), podemos \nconcluir que semelhante a outras condições de dor crônica, a DPC tem um impacto importante \nsobre as atividades de vida diária e a qualidade de vida das mulheres acometidas (GRACE; \nZONDERVAN, 2006). \n\n \nIntrodução ___________________________________________________________  25 \n \n \nA pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares, ela se preocupa, nas \nciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado, ou seja, ela trabalha \ncom o universo de significações, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes (MINAYO; \nDESLANDES; GOMES, 2016). A aplicação dos estudos qualitativos em saúde vem sendo \nbastante utilizada e tem ganhado fidedignidade, onde a pesquisa qualitativa é particularmente \nimportante para responder a questões científicas relacionadas a aspectos holísticos e \ncompreensão em profundidade de percepções. \nA pesquisa qualitativa explora a realidade social e o próprio dinamismo da vida \nindividual e coletiva com toda a riqueza de significados dela transbordante. Essa mesma \nrealidade é mais rica que qualquer teoria, qualquer pensamento e qualquer discurso que \npossamos elaborar sobre ela. Portanto, os códigos das ciências que por sua natureza são sempre \nreferidos e recortados são incapazes de a conter. (MINAYO; DESLANDES; GOMES, 2016). \n \n1.2. Mecanismos de Enfrentamento da Dor \nDiante das adversidades trazidas pela dor, as mulheres fazem uso de estratégias individuais \npara poder amenizar o sofrimento da dor e seus intervenientes. Estas estratégias podem ser \nnomeadas como mecanismos de enfrentamento ou também como coping. Os mecanismos de \nenfrentamento da dor podem ser definidos como a capacidade que o indivíduo apresenta em \nlidar com um agente agressor e de que maneira ele gerencia este agente. Dois tipos de \nenfrentamento são mais comumente referidos na literatura, são eles, o enfrentamento focado \nem problemas e o enfrentamento focado nas emoções. O enfrentamento focado no problema \nrefere-se a tentativas de mudar o ambiente para aliviar o estresse, enquanto o enfrentamento \ncentrado na emoção se refere à mudança do significado da experiência estressante (CARVER; \nSCHEIER; WEINTRAUB, 1989; LAZARUS; FOLKMAN, 1987; (CARVER; SCHEIER; \nWEINTRAUB, 1989; LAZARUS; FOLKMAN, 1987). Esses ainda podem funcionar como \num instrumento em que as mulheres se valem para suportarem o sofrimento acarretado pela \ndor e, assim manejar as adversidades da rotina (ROOMANEY; KAGEE, 2016; AZIATO et \nal., 2015). Com frequência, algumas estratégias são desenvolvidas espontaneamente \npelas próprias pacientes, levando em conta o seu contexto de vida. Entretanto, algumas destas \nestratégias só se tornam eficazes se instauradas e/ou acompanhadas por ajuda profissional. De \nqualquer forma não é possível desmembrar o coping (mecanismo) das vivências do indivíduo \ne sua relação familiar, social, cultural e religiosa (RIPPENTROP et al., 2005). \n\n \nIntrodução ___________________________________________________________  26 \n \n \nAs estratégias focadas em problemas tendem a ser usadas quando as pessoas \nsentem que algo construtivo pode ser feito sobre o estressor, enquanto o enfrentamento \ncentrado na emoção é usado quando as pessoas sentem que o estressor deve ser suportado. \nEssa maneira de descrever o enfrentamento é criticada por alguns autores por sua falta de \nutilidade, uma vez que as visões de Lazarus e Folkman, fornecem pouca compreensão de \ningredientes cruciais para os mecanismos de mudança ou barreiras à manutenção de ganhos, \nou seja, refletem uma maior dificuldade em demonstrar qualquer associação positiva \nconsistente entre o uso de estratégia de enfrentamento particular e a realização de resultados \npositivos e adaptativos (COYNE; RACIOPPO, 2000; LAZARUS; FOLKMAN, 1987).  \nA importância da utilização dos mecanismos de enfrentamento da dor está \ndiretamente ligada à experiência vivenciada pelo indivíduo. Pesquisadores descreveram como \npacientes com doença crônica experimentam uma série de estágios na gestão de sua doença. \nDesde 1998, já se discutia os mecanismos de enfrentamento da dor em mulheres com \nendometriose, onde os mecanismos estavam voltados nas conexões com outras mulheres com \no mesmo problema, além da busca por informações nos prestadores de cuidados de saúde e, \nainda apoio em sua rede de suporte (WHITNEY, 1998). Em um estudo de 21 pacientes \ncronicamente doentes, foram identificadas quatro fases de autogestão, nomeadamente, (1) \ninduzindo informações de amigos, prestadores de cuidados de saúde e da Internet, (2) \nponderando os benefícios e custos associados às técnicas de autogestão e técnicas de \ndescontinuação que não eram efetivas, (3) criação de rotinas e planos, e (4) negociação de \ntécnicas de autogestão que se enquadram na vida dos pacientes (AUDULV; ASPLUND; \nNORBERGH, 2012). Em relação as estratégias de enfrentamento usadas por mulheres com \nfibromialgia, há inclusão de uma combinação de estratégias focadas em problemas e também \ncom enfoque emocional, como planejamento, técnicas de distração, lidar com a sensibilidade \nao toque, esconder a dor dos outros, medicação e suporte social (KENGEN TRASKA et al., \n2012). Os pesquisadores descobriram que as mulheres com doença celíaca também \nempregavam o planejamento como uma estratégia de enfrentamento (JACOBSSON et al., \n2012). Mulheres diabéticas que acreditavam fortemente que a causa de sua doença era \nproveniente de fontes ambientais, sobrenaturais e psicossociais utilizavam estratégias de \nenfrentamento focadas em emoção, enquanto aquelas que acreditavam menos fortemente \nnessas fontes eram mais propensas a usar o enfrentamento com foco em \nproblemas(AWASTHI; MISHRA, 2011). Vários estudos mostraram que as mulheres com \ncâncer de mama dependem em grande parte de estratégias centradas na emoção. A estratégia \n\n \nIntrodução ___________________________________________________________  27 \n \n \nde enfrentamento mais comum usada por pacientes com câncer de mama, submetidos a \nquimioterapia, foram a autoafirmação, oração e atividade de comportamento positivo \n(GASTON-JOHANSSON et al., 2013).  \n \n1.3. Justificativa para o Estudo \nA DPC é uma condição complexa e de difícil manejo. Independente da causa \ndesencadeante, a dor persistente esta associada a diversos mecanismos que culminam com \nsofrimento e perda da qualidade de vida das pacientes. Os melhores resultados são obtidos \npelo cuidado multidisciplinar envolvendo tratamento médico das causas desencadeantes, \nreabilitação física, laboral, social e psicológica. Vale salientar, que esse trabalho permite e \nfomenta a valoração da mulher sem a mesma estar atrelada uinicamnte ao ciclo reprodutivo, a \nsaber da relevância de olhar para a mulher como um ser muito aquém de um útero. \nNeste contexto, é fundamental conhecer as percepções das mulheres com DPC no \nque diz respeito à doença e aos impactos da mesma sobre sua vida. Estas percepções dependem \nde vários fatores, tanto da própria mulher quanto do ambiente social em que ela está inserida. \nConhecer como a paciente enfrenta o problema da dor crônica é fundamental para que se possa \nplanejar os cuidados multidisciplinares. A investigação em profundidade de tais percepções \nsomente é possível pela análise qualitativa dos depoimentos destas pacientes.  \nA pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se preocupa, \nnas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado, ou seja, ela \ntrabalha com o universo de significações, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes \n(MINAYO; DESLANDES; GOMES, 2016).  \nA pesquisa qualitativa explora a realidade social e o próprio dinamismo da vida \nindividual e coletiva com toda a riqueza de significados dela transbordante. Essa mesma \nrealidade é mais rica que qualquer teoria, qualquer pensamento e qualquer discurso que \npossamos elaborar sobre ela. Portanto, os códigos das ciências que por sua natureza são sempre \nreferidos e recortados são incapazes de a conter (MINAYO; DESLANDES; GOMES, 2016). \n \n\n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n_________________________2 OBJETIVOS \n\n \nObjetivos ___________________________________________________________  29 \n \n \n2.1. Objetivo Geral \nO objetivo deste estudo foi compreender os mecanismos individuais que as \nmulheres com dor pélvica crônica utilizavam para lidar com a dor.  \n \n2.2. Objetivos Específicos \n• Identificar os mecanismos de enfrentamento adotados por mulheres com dor pélvica \ncrônica. \n• Compreender o impacto dos mecanismos de enfrentamento na vida das mulheres com dor \npélvica crônica. \n• Compreender as possíveis consequências dos mecanismos de enfrentamento nos cuidados \nmultidisciplinares da mulher com dor pélvica crônica. \n \n\n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n_______________3 MATERIAL E MÉTODO\n\n \nMaterial e Métodos ________________________________________________________ 31 \n3.1. Desenho do Estudo \nEsta pesquisa teve um desenho qualitativo descritivo com abordagem temática. A \npesquisa foi aprovada pelo Comitê de ética da Faculdade de Medicina da Universidade de São \nPaulo sob o processo, 1.353.746 em 7 de dezembro de 2015, CAAE (49999615.4.0000.5440). \n \n3.2. Critérios de Elegibilidade \n         -  Mulheres com dor pélvica crônica em seguimento ambulatorial; \n          - Mulheres não grávidas; \n          - Mulheres sem diagnóstico de câncer; \n          - Mulheres com ausência de alteração psico-afetiva grave (esquizofrênia); \n          - Mulheres maiores de 18 anos. \n \n3.3. Seleção e Recrutamento das Participantes \nAs pacientes foram selecionadas por consulta ao prontuário médico, momentos \nantes da consulta, para averiguar se a hipótese diagnóstica contida em prontuário era congruente \ncom o objetivo da pesquisa. Os contatos com as mulheres eram realizados de três maneiras, \nforam eles: 1. Durante ou após a consulta médica; 2. Durante ou após a sessão de fisioterapia \npélvica; 3. Após a sessão psicológica, nestes momentos, conversávamos com as mulheres \nconvidando-as a participar do estudo, àquelas que não podiam naquele momento eram \nregistrados o contato telefônico e o número de prontuário para que pudéssemos agendar um \noutro encontro. \nO recrutamento deu-se por amostragem intencional. O processo de amostragem foi \nflexível, evoluindo à medida que o estudo progredia, até atingir o ponto de redundância em \ntemas emergentes (GUEST et al., 2006). Todas as participantes assinaram o termo de \nconsentimento livre e esclarecido. \n \n3.4. Contexto e Caracterização do Local do Estudo \nEsta pesquisa teve como campo de estudo o Ambulatório de Ginecologia e Dor \nPélvica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, um serviço \npúblico de saúde que oferece assistência ambulatorial e hospitalar e desenvolve atividades de \nensino e pesquisa, localizado no sudeste do Brasil. O Ambulatório ocorre às sextas-feiras no \nperíodo da manhã e presta assistência a mulheres com diagnósticos de dor pélvica crônica no \nâmbito da Divisão Regional de Saúde (DRS) XIII. \n\n \nMaterial e Métodos ________________________________________________________ 32 \n \n \nNo Ambulatório, o atendimento funciona por meio de referenciamento médico das \nunidades de saúde de Ribeirão Preto e adjacentes, onde o movimento semanal estimado é de 35 \na 42 pacientes, incluindo os retornos médicos e os casos novos.  \nAnterior a coleta dos dados, houve um período de reconhecimento do campo, onde \no pesquisador buscava compreender a logística de funcionamento do ambulatório, assim como \na dinâmica dos atendimentos e o primeiro contato com as pacientes. Essa imersão no campo foi \nfundamental para poder compreender todo a dinâmica onde as mulheres recebiam atendimento \nambulatorial. O processo foi árido, a princípio, já que havia necessidade de encontrar uma \nmaneira para abordar as mulheres sem que houvessem prejuízos em seu atendimento, ou \ninferências em seu depoimento. Aos poucos, fomos encontrando aberturas que pudessem nos \nconduzir por um caminho fidedigno para a realização dos encontros (DUARTE, 2002). \n \n3.5. Instrumento de Recolha de Dados \nForam realizadas 66 entrevistas semiestruturadas e individuais, face a face, \nseguindo uma questão central e norteadora. Para contemplar a questão central, elaborou-se uma \nquestão aberta que visava acessar e aproximar-se da história vivida pelas mulheres, “Como \nvocê lida com a dor?”. A questão foi pensada e elaborada a partir do objetivo principal que era \ncompreender a experiencia vivida e os mecanismos individuais que as mulheres utilizavam para \nlidar com a dor. Para tanto, foi confeccionado um roteiro de entrevista semiestruturado \ncontendo três questões centrais e atreladas a estas, questões secundárias que visavam adentrar \na experiencia vivida. O roteiro está descrito em detalhes no Apêndice 1. \nAs entrevistas ocorreram em um consultório, localizado no ambulatório, para que \nfacilitasse a dinâmica entre os atendimentos médicos e a concessão da entrevista. O gravador \ndo tipo MP3 ficou apoiado sobre a mesa, próximo ao entrevistador para que não causasse \ndistração da participante, a disposição dos pesquisadores era aleatória a fim de manter o \nanonimato e a maior interação com a participante. O tempo médio das entrevistas foi de 20 \nminutos, incluindo uma revisão final dos pontos destacados durante a entrevista, através do \ndiário de campo, elaborado pelo entrevistador/pesquisador principal. No consultório, estavam \npresentes o pesquisador principal, o observador e a participante, não era permitido a entrada de \nacompanhantes. As entrevistas foram realizadas no período de abril a dezembro de 2016, as \nsextas-feiras de manhã.  \nAntes da realização das entrevistas, era feita uma apresentação onde expúnhamos \nos nomes e as funções de cada pesquisador, os objetivos da pesquisa, o desenvolvimento da \n\n \nMaterial e Métodos ________________________________________________________ 33 \n \n \nentrevista (que seria uma conversa sobre como era viver com a dor), a necessidade do uso de \num gravador para que não houvesse perda do conteúdo dos depoimentos, e que posteriormente \nelas seriam inutilizadas, além de informá-las sobre o anonimato e o termo de consentimento \nlivre e esclarecido. Após a explanação, era perguntado a participante sobre eventuais dúvidas \nsobre os esclarecimentos e, em seguida dávamos início a entrevista. Sobre a mesa, ficavam o \ngravador e um caderno para possíveis anotações.  \nO nível de participação das mulheres estava contido na concessão da primeira \nentrevista, e em casos esporádicos, na participação em um segundo encontro. Assim, o \ncontributo de cada participante estava atrelado a sua fala e as informações contidas nela. O \npapel do pesquisador, BHM, era o de ouvinte durante as entrevistas, onde era evitada a \ninterrupção do depoimento e a inferência sobre as falas. O papel do observador era a anotação \nde padrões de comunicação não-verbal assim como tudo àquilo que lhe despertasse a atenção. \nNão houve um estudo piloto, optamos em ir a campo e fazer a imersão através dos contatos \nprimários com as participantes. Esse processo não foi um caminho fácil de trilhar, uma vez que \ntivemos que nos manter suspensos de qualquer pressuposto sobre a temática, nos desnudando \nde toda a historicidade que nos compunha para que isto não trouxesse interferências na \ncompreensão do fenômeno. \n \n3.6. Transcrição das Entrevistas \nCada participante recebeu um código denominado por ESE (número relacionado à \nordem de coleta da entrevista semiestruturada) para que pudesse ser garantido o anonimato \ndurante todo o percurso da pesquisa. Todas as falas foram transcritas na íntegra (verbatim \ntranscription) para garantir a originalidade das ideias.  \nAs transcrições ocorreram no dia da entrevista, para que não houvesse perda da \nessência desvelada nas falas. O processo de transcrição das entrevistas foi realizado pelo \nobservador e, posteriormente, revisadas pelo pesquisador principal, onde as mesmas eram \nouvidas por no mínimo duas vezes, no intuito de checar a acurácia entre o material transcrito e \no material áudio gravado.  \nAs transcrições eram revisitadas depois de algum tempo para que pudéssemos \naveriguar se a intenção primária havia prevalecido. Também foi elaborada pelo \nrelator/observador um diário de campo (OLIVEIRA, 2014) contendo os principais pontos \nocorridos durante a entrevista para que o pesquisador, durante a codificação e análise, pudesse \npontuar essas questões na interpretação dos dados. \n\n \nMaterial e Métodos ________________________________________________________ 34 \n \n \n3.7. Instrumento de Análise de Dados \nEm um primeiro momento, procedemos uma leitura solta e despretensiosa sobre o \nmaterial recolhido das entrevistas, o intuito era ter o primeiro contato visual com o material \ntranscrito afim de selecionar os trechos que respondiam à questão central norteadora, “Como \nvocê lida com a dor”?.  \nEm um segundo momento, procedemos a identificação dos códigos emergentes; \nnessa etapa foram identificados os códigos que surgiram durante as leituras e que simbolizavam \nos trechos selecionados à priori. Os códigos discordantes foram analisados e resolvidos por \nconsenso pela equipe de pesquisadores. O próximo passo, foi aglutinar esses códigos em \npossíveis categorias e, estas por sua vez compilarem em temas chaves. \nVale salientar que para proceder à análise das falas das mulheres sobre as suas \nvivências com a dor foi necessário ler seus depoimentos norteados pela questão científica até \npoder enxergar, com olhos desnudados de pressupostos, a essência embutida em cada extrato \ndas falas. Nesse processo procurei perscrutá-lo, cuidadosamente, procurando, nas palavras que \nforam utilizadas pelas participantes, o sentido que melhor descrevesse a sua vivência naquele \nmomento, escavando os olhares que iluminassem suas falas. Esse trabalho permitiu a \ncompreensão do fenômeno e a elaboração de cinco categorias temáticas de análise, abrindo \npossibilidades de revelar a percepção do ser-no-mundo convivendo com a dor. Neste percurso, \nhouve uma aproximação, flutuante (parafraseando MINAYO, 2016), com a fenomenologia de \nEdmund Husserl (GIORGI, 2006) e foi através desta que pude ampliar meus horizontes de \ncompreensão e se coadunar com a natureza de minhas inquietações, como ser humano e \npesquisadora. Cabe ressaltar que não trabalhamos com a epistemologia da Fenomenologia, \napenas adentramos alguns conceitos pertinentes ao quadro teórico. \nPara tratar as falas extraídas das entrevistas, utilizamos a análise temática \nqualitativa dos dados (BRAUN; CLARKE, 2006). O processo de análise começava quando o \npesquisador anotava e procurava padrões de significados e questões de interesse potencial nos \ndados. A escrita é a parte integrante da análise, já o processo analítico é linear e recursivo (vai \ne volta). Ele tem sua concentração no exame de temas dentro dos dados recolhidos. Este método \nenfatiza a organização e a rica descrição do conjunto de dados. Para tanto, a análise temática \nultrapassa a simples contagem de frases ou palavras num texto e passa a identificar ideias \nimplícitas e explícitas dentro dos dados. A codificação foi o principal processo de \ndesenvolvimento de temas dentro dos dados brutos, reconhecendo momentos importantes nos \ndados e codificando-os antes da interpretação. A interpretação desses códigos pode incluir a \n\n \nMaterial e Métodos ________________________________________________________ 35 \n \n \ncomparação de frequências temáticas, a identificação da coocorrência do tema e a exibição \ngráfica de relações entre diferentes temas (BRAUN; CLARKE, 2006). \nPara análise dos dados, dois analistas, sem contato profissional ou pessoal com as \nparticipantes, codificaram os dados das entrevistas com auxílio do software “RQDA”. As \nanálises qualitativas são tipicamente indutivas, isto é, elas começam com os dados, empíricos \ne organizam-se em \"pedaços\" que normalmente são representados por códigos, categorias e \ntemas (BRAUN; CLARKE, 2006) . Os temas foram derivados dos dados recolhidos e não \nidentificados previamente. O software foi usado no intuito de gerenciar os dados, compilando \nas informações designadas como necessárias pelos pesquisadores. O desenvolvimento do \nquadro de codificação e análise inicial foi realizado por B.H.M, enfermeira mestre em \nginecologia e obstetrícia da Universidade de São Paulo, e F.J.C.R., médico livre docente do \ndepartamento de ginecologia e obstetrícia da Universidade de São Paulo. As descobertas foram \nentão discutidas entre os mesmos (B.H.M e F.J.C.R), com a colaboração de C.V.B, psicóloga \ndocente da Universidade do Porto - Portugal, M.G.B.C, enfermeira livre docente da escola de \nenfermagem da Universidade de São Paulo, e C.R.A.B, fenomenólogo da Universidade de São \nPaulo. Nessas discussões, a análise foi aprimorada.  \nO processo de análise dos dados, foi fomentado através da consulta aos dados das \nparticipantes em prontuários médicos, também fizemos uso das informações contidas nas \nanotações do diário de campo e nas falas extraídas das entrevistas. Os dados contidos em \nprontuário médico, foram revisitados por meio eletrônico e de papel quando se fez necessário. \nO diário de campo foi utilizado no intuito de corroborar na descrição das participantes quanto \naos aspectos não contidos nas entrevistas, como a comunicação não verbal (gestos, expressões \nfaciais, comunicação corporal) estabelecida no decorrer das mesmas. \nPara nos auxiliar durante este percurso, contamos com a colaboração de um \nsoftware de análise qualitativa, denominado de “RQDA” (HUANG, 2016). O “RDQA” é um \npacote de R para análise de dados qualitativos, funciona em plataformas Windows, \nLinux/FreeBSD e as Mac OSX, revelando-se uma ferramenta fácil para auxiliar na análise de \ndados textuais. Todas as informações foram armazenadas em um banco de dados SQLite \natravés do pacote de R de RSQLite. Através do “RQDA”, foi possível realizar: 1) Nível da \npersonagem de codificação usando códigos; 2) Edição de arquivos depois da codificação; 3) \nMemos de documentos, códigos, codificação, projeto, arquivos; 4) Recuperação de codificação \n(para aliviar o problema da segmentação); 5) Organizar códigos em categorias de código, que \né fundamental para a construção de teoria; 6) Organizar os arquivos em categorias de arquivo; \n\n \nMaterial e Métodos ________________________________________________________ 36 \n \n \n7) Procurar arquivos por palavras-chave com destaque para a palavra-chave no arquivo aberto; \n8) Aplicar atributos para arquivo, que é útil para a análise de conteúdo; 9) Renomear arquivos, \ncódigos, categorias de códigos, e casos (HUANG, 2016). \n \n3.8. Rigor Metodológico \nQuanto aos procedimentos de validade da pesquisa qualitativa, eles foram \nabordados através dos critérios de fidedignidade. Dentro dos critérios de fidedignidade, temos \nconfiabilidade, credibilidade, transferabilidade e confirmabilidade (CRESWELL; MILLER, \n2000). Para garantir a confiabilidade dos dados alguns critérios foram considerados, como o \nenvolvimento em longo prazo com as participantes para coletar informações e obter um \nfeedback sobre os dados coletados. Em relação a credibilidade, há congruência e afinidade entre \nos dados coletados e os resultados obtidos, onde ambos necessitam estar entrelaçados e \ninterligados para a obtenção de resultados fidedignos. Em termos de aumentar a \ntransferabilidade, os pesquisadores utilizaram amostragem intencional (FONTANELLA et al., \n2011). Os pesquisadores também descreveram todo o processo de estudo e realizaram \natividades de forma precisa e consistente com o objetivo em questão.  \nNos guiamos através do COREQ, para manter a fidedignidade metodológica da \npesquisa qualitativa. A diretriz COREQ é uma checklist de 32 itens divididos em 3 domínios \npara relatar entrevistas e grupos focais, ela é o método mais comum usado para a coleta de \ndados na pesquisa qualitativa em saúde. A checklist COREQ consiste de itens específicos para \nrelatar estudos qualitativos e exclui critérios genéricos que são aplicáveis a todos os tipos de \nrelatos de pesquisa. COREQ é uma checklist abrangente que cobre todos os componentes \nnecessários a um projeto de pesquisa em saúde com abordagem qualitativa. Os critérios \nincluídos na checklist ajudam os pesquisadores a relatar aspectos importantes da equipe de \npesquisa, métodos e contexto do estudo, resultados, análise e interpretações (TONG; \nSAINSBURY; CRAIG, 2007). \n \n \n \n\n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n______________________4 RESULTADOS\n\n \nResultados _______________________________________________________________ 38 \n \n4.1 Caracterização da amostra \n \nOs dados sociodemográficos das participantes, foram coletados via prontuário \nmédico, onde a distribuição estava representada da seguinte forma, (30/66) das participantes \nestavam na faixa etária dos 31 aos 45 anos, (14/66) tinham ocupação do lar, (46/66) eram cor \nbranca, (32/66) estado civil casada, (22/66) residente fora da cidade de Ribeirão Preto e, (28/66) \ncom nível de escolaridade equivalente ao 2º grau completo (segundo as normas do Ministério \nda Educação e Cultura). A caracterização da dor segundo a escala psicométrica de avaliação de \ndor (EVA), foi coletada em prontuário médico onde a escala era aplicada durante a consulta \nambulatorial e, atualizada a cada retorno médico com o intuito de checar a evolução clínica do \nlimiar de dor das pacientes. Segundo os dados dos prontuários, (9/66) das participantes \napresentaram dor do tipo moderada com score de 4 a 7. Houveram, também, (7/66) das \nparticipantes que apresentaram escores de 8 a 10, designando dor do tipo severa e, apenas 1 \nparticipante apresentou dor do tipo leve, com score de 1 a 3. Quanto a frequência da dor, \ntivemos (6/66) das participantes com frequência de 1 a 2 vezes por semana e, (6/66) com \nfrequências de 5 a 7 vezes por semana, apenas 2 participantes apresentaram frequência de \nmenos 1 vez na semana e, nenhuma paciente com frequência de 3 a 4 vezes. \n \n4.2 Temas derivados das entrevistas \n \nNossos resultados revelaram que as mulheres com dor pélvica crônica utilizam \nmecanismos focados no enfrentamento e mecanismos focados na aceitação da dor que foram \ncoadunados em cinco temas: 1. Interação social prejudicada devido as adversidades trazidas \npela dor; 2. Viver em função das adversidades trazidas pela dor; 3. Abster da relação sexual \ndevido ao medo de sentir dor; 4. Enxergar na automedicação a solução para a dor; 5. Adaptar-\nse positivamente diante das adversidades trazidas pela dor.   \nCabe ressaltar que os temas referentes aos mecanismos focados na aceitação são: \n1. Interação social prejudicada devido as adversidades trazidas pela dor; 2. Viver em função \ndas adversidades trazidas pela dor; 3. Abster da relação sexual devido ao medo de sentir dor. \nJá os temas referentes aos mecanismos focados no enfrentamento foram: 4. Enxergar na \nautomedicação a solução para a dor; 5. Adaptar-se positivamente diante das adversidades \ntrazidas pela dor. \n \n\n \nResultados _______________________________________________________________ 39 \n \n \n4.2.1. Interação social prejudicada devido às adversidades trazidas pela dor \nO significado atribuído ao isolamento social, foi percebido pelas mulheres em um \nprimeiro momento através das limitações físicas e psicológicas, quais acarretaram perdas de \nautonomia e autocontrole, culminando em processos de introspecção física e, posteriormente, \npsicoemocionais. Estes comportamentos eram fomentados pelas dores físicas, compilando \nprejuízos nas interações com o meio social.  \nO tema do isolamento social, esteve presente em 30 das 66 entrevistas e os códigos \natrelados ao tema foram: deitar; ficar em casa; evitar conversar; ficar quieta; ficar sozinha; \nisolar; não conversar; não sair; não ter amigos; não ter rotina; não ter vida social; não ter vontade \nde sair; não conseguir fazer as coisas; não conseguir trabalhar; não querer sexo; solidão; trancar \nno quarto; viver deitada; fugir do sexo.  Eles foram citados 47 vezes ao longo das 30 entrevistas \nnas quais estiveram presentes. \nAs mulheres relataram que durante a rotina de dor, não queriam ter contato com as \npessoas, mesmo aquelas que conviviam no cotidiano, o processo de isolamento era iniciado em \ncasa e, por conseguinte, ganhava proporções maiores com os desconhecidos.  \n \n“Nos últimos dos dois anos eu não tenho contato social, eu sou filha única, não tenho mais \namigos, ultimamente eu não quero conviver com ninguém”. ESE 047 \n“Parece que eu não consigo viver em sociedade quando to com dor, eu sou um perigo eu tenho \nque me trancar no quarto e não olhar para ninguém por causa da dor”. ESE 075 \n“Não saia, ficava um bom tempo dentro de casa fechada”. ESE 014 \n \nHá relatos em que as mulheres diziam perder a paciência e a tolerância, muito fácil, \nou ainda de estar tão sensibilizada que choravam com facilidade e, assim preferiam se isolar, \naté mesmo como forma protetiva de exposição a situações desagradáveis. Em algumas falas, as \nmulheres acabavam projetando a raiva de estar com dor no outro e, sentiam vontade de agredir \nfisicamente as pessoas. \n \n“Me irrita. Eu não gosto de conversar. Tudo me incomoda, até se falar um bom dia, que bom \ndia. Eu queria só ficar deitada, mas não posso. Se pudesse dormia três dias...” ESE 083 \n“Eu tenho vontade de bater em alguém quando me tiram da minha zona de conforto... quero \nficar sozinha. Eu quero cavar um buraco e ficar lá dentro”. ESE 075 \n\n \nResultados _______________________________________________________________ 40 \n \n \n“E quando eu estou assim, parece que eu quero bater em todo mundo. Não pode me olhar de \njeito nenhum. Aí eu me isolo para não machucar ninguém”. ESE 084 \n“Eu choro muito, quero ficar sozinha, se eu pudesse me enfiava num buraco e ficava sozinha, \nsem ninguém perto”. ESE 054 \n \nOutros relatos mostraram a questão de as mulheres ficarem muito tempo deitadas, \nsem disposição para fazer as tarefas cotidianas, que as dores lhes tiravam a vontade e o ânimo \ne, que se pudessem ficariam sem fazer nada. \n \n“Vontade de ficar deitada... uma fraqueza assim não sei te explicar... Não dá vontade de fazer \nnada...” ESE 071 \n“Fico em casa deitada, é uma dor chata, aqui te corroendo, então você não tem animo para \nconversar e trabalhar, muito menos trabalhar...” ESE 009 \n“Com a dor que eu sinto eu não tenho animo, eu só trabalho porque sou obrigada, porque se \neu pudesse ficava o período inteiro da menstruação em casa...” ESE 010   \n“Não tem mais vontade de sair, ter lazer, porque não consigo ficar muito sentada, por conta \nque queima, então eu prefiro ficar em casa”.  ESE 012 \n \nOutras mulheres falaram que a questão de ficar deitada, lhes traziam algum conforto \nou relaxamento, não atribuindo um significado negativo ao fato de ficar na cama. Nestas falas \nas mulheres encaravam a questão de ficar deitada como um momento de relaxamento, diferente \nda conotação da maioria delas que atribuíam ao fato de estar deitada, sentimentos depressivos \ne impeditivos.  \n \n“Eu fico ali deitada no escurinho, aí prefiro ficar sozinha, me sinto bem relaxada, aí nem \nconverso”. ESE 049 \n“Eu fico no meu quarto, deitada, ouvindo música...” ESE 033 \n“Entro no meu quarto, fico quietinha na minha cama, que parece que quando tô quietinha eu \nnão sinto dor”. ESE 006 \n \nTambém tivemos relatos em que as mulheres diziam que devido ao medo de sentir \ndor fora de casa, elas evitavam sair, abstendo do contato social e, assim fomentando a \nintrospecção física e psicológica. \n\n \nResultados _______________________________________________________________ 41 \n \n \n \n“Só queria minha saúde de volta, eu não saio de casa, eu não tenho mais animo, o medo de \nsair aí de repente vem aquela dor”. ESE 023 \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n \nResultados _______________________________________________________________ 42 \n \n \n4.2.2. Viver em função das adversidades trazidas pela dor \nO significado atribuído ao tema era pertinente a dependência da dor, as mulheres \nfalaram que viviam dominadas pela condição de dor e, as adversidades trazidas por ela. Elas \nnão conseguiam compreender a distância que havia entre elas e os percalços da vida com a dor, \nassim se viam perdidas na imensidão que a dor havia proporcionado a elas. As falas das \nmulheres sobre a questão de viver em função das mazelas trazidas pela dor, esteve presente em \n49 das 66 entrevistas e os códigos atrelados ao tema foram: causa de tudo; comandar a vida; \ncontrolar a cabeça; desespero; ficar em casa; não saber o que fazer; evitar conversar; ficar \ndeitada; não sair de casa; não ter disposição; não sentir prazer; fazer as coisas devagar; ficar \nestressada; não ter amigos; viver deitada; isolar; trancar no quarto; desanimo; ficar tensa; ir \nlevando; limitação; não ter força; solidão; tristeza; trabalhar menos; precisar de ajuda; perder \ntrabalho; não ter rotina. Eles foram citados 136 vezes ao longo das 49 entrevistas. Em algumas \nfalas, eram nítidas as declarações de dependência com a dor, assim como sendo ela (a dor) a \ncausadora de toda a perturbação instalada na rotina. \n \n“Acho que isso é por causa da dor, se não tiver ela é por causa dela, não tem como ter dor e \ntá bem, bem-humorada e feliz. Então ela é a causadora de tudo”. ESE055 \n“Mas parece um filme de terror você tá bem e de repente começa a sentir dor de novo, será \nque é da minha cabeça, será que to loca. Realmente a dor comanda a vida da gente...” ESE \n009 \nAs mulheres diziam ter vontade de realizar as suas atividades de vida diária, o \nautocuidado com si própria e com a família, mas a dor lhes tirava a capacidade física, a priori, \ne psicológica, posteriormente, de execução dos afazeres, dos compromissos, fossem eles em \ncasa ou fora. Assim, as mulheres perpetuavam as perdas de autonomia e de gerenciamento do \nautocontrole físico e emocional, culminando em fortalecimento da relação patológica com a \ndor.  \n \n“Eu não deito, eu não gosto, eu fico nervosa e desconto tudo no meu marido, aí eu começo a \nchorar, dá um desespero, porque eu quero sarar, aí hoje eu to bem, e amanhã to péssima”. \nESE 054 \n \nAs mulheres falaram que entravam em desespero perante as adversidades trazidas \npela dor, comentaram que tentaram de tudo e, chegaram ao extremo na ânsia de amenizar aquela \n\n \nResultados _______________________________________________________________ 43 \n \n \nsituação incapacitante. A apatia, o desanimo e a falta de coragem em realizar as tarefas, também \nforam comentadas pelas mulheres e, ainda a questão de se isolar, de ficar trancada no quarto \nsem ter acesso as pessoas, também foi um tema presente nas falas. \n \n“Nada, nada, não tenho vontade de fazer nada! Tentei fazer uns fuxico lá e já encostei, nada \nmenina, sabe o que é nada? Minha mãe fala que eu tenho que fazer alguma coisa, não quero \nfazer mais nada”. ESE 025  \n“Eu trabalho porque eu preciso, porque não dá ânimo, bate uma angustia, é inexplicável você \nnão entende o porquê você sente aquilo”.  ESE 008 \n“Quando eu estou com dor eu só fico deitada sem comer, para não xingar ninguém eu me \ntranco no quarto e fico lá”.  ESE 084  \n \nOutro significado atribuído ao tema, foi referente à questão de a cronicidade da dor \nestar acompanhada por processos impeditivos, quase sempre de cunho negativo, nos quais as \nmulheres tinham a percepção que a sua vida estava envolta, contida, na rotina de dor e, assim \npercebiam que já não tinham o controle da situação, culminando em movimentos de perdas. \nAs perdas que a priori eram físicas como a questão de perder a autonomia sobre \nsuas tarefas cotidianas, fossem elas dentro ou fora de casa e, ainda mais tarde, estas perdas eram \nfomentadas por processos psicoemocionais que fortaleciam a perda em nível físico, \ncorroborando para o comportamento resignado. Elas falaram que faziam suas tarefas em casa \nou fora de casa, de maneira contida, aos poucos, dividindo os afazeres ao longo do dia para que \nnão sobrecarregassem a condição de dor já existente. A questão de não conseguir manter um \nserviço por muito tempo, também foi tema presente nas falas.  \n \n“Eu paro, sento um pouco, aí começo, espero, aí parece que vai passando aos poucos, vai \npassando, aí eu nem continuo passando a roupa, eu paro de passar, eu evito, eu ajuntava tudo \ne passava, agora eu não ajunto mais, agora eu passo um pouco, depois eu paro aí passo mais \num pouco, entendeu, a faxina eu também to fazendo por etapas”.  ESE 003  \n“Quando eu estou no trabalho eu tenho que sentar, esperar, ficar quietinha e fazer as coisas \nmais sentadas pra melhorar”.  ESE 026  \n“ A dor ela atrapalha muito na questão de serviço, então nunca trabalhei registrada não dá, e \nquando ela vem é impossível ficar andando, e registrada é impossível porque a dor vem e eu \ntenho que ficar deitada, tomo remédio e tenho que ficar deitada o dia inteiro”. ESE 020. \n\n \nResultados _______________________________________________________________ 44 \n \n \n \nNeste percurso, as mulheres falaram que perdiam o controle emocional, \napresentando o choro fácil, a irritabilidade, crises de ansiedade acompanhadas por crises \ndepressivas, impaciência, intolerância, comportamentos hostis, adaptação as adversidades e \nagressividade.  \n \n“Parece que eu não consigo viver em sociedade quando estou com dor, eu sou um perigo eu \ntenho que me trancar no quarto e não olhar para ninguém por causa da dor”.  ESE 075 \n“Às vezes eu tenho muita vontade de chorar, choro bastante, me sinto sozinha...” ESE 017 \n“Realmente é uma coisa que me irrita muito, eu não gosto de sentir dor, eu não gosto de ficar \nparada, eu não gosto de nada disso, eu não gosto de depender de nada disso, eu procuro não \ntomar remédio para dor, em último caso eu tomo remédio na veia...” ESE 004 \n \nA vontade de não fazer nada, de ficar deitada, também foi tema presente nas falas. \nE ainda, a questão de não conseguir manter uma rotina sobre as atividades de vida diária, \nperpetuando o ciclo das perdas, também esteve presente nas falas. \n \n“Vontade de ficar deitada, uma fraqueza assim não sei te explicar, não dá vontade de fazer \nnada, parece que o corpo tá pesado...” ESE 071 \n“Você não sente vontade de fazer nada, você quer ficar quieta, tudo te irrita antes eu não tinha \nnada disso, era uma vida normal sem preocupação, mas depois disso...” ESE 004 \n“Então é assim, você não consegue ter uma rotina quando se ta com a crise, quando ta atacada \nné, então é um dos maiores problemas que eu enfrento...” ESE 007 \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n \nResultados _______________________________________________________________ 45 \n \n \n4.2.3. Abster da relação sexual devido ao medo de sentir dor  \nOutro tema que emergiu das entrevistas, foi a questão do medo da relação sexual. \nO significado atribuído ao tema era pertinente as dificuldades que as mulheres enfrentaram com \no sexo devido ao medo de sentir dor, e o quanto este medo as incomodavam, chegando a \nparalisá-las diante do parceiro (a). Cabe ressaltar, que as mulheres falaram de prontidão sobre \na questão sexual, evidenciando o quanto isso era perturbador para elas. As falas das mulheres \nsobre o medo da dor na relação sexual, esteve presente em 25 das 66 entrevistas e os códigos \natrelados ao tema foram: dor na relação; esperar a dor passar; evitar o sexo; fugir do sexo; ficar \nquieta; ficar tensa; irritada; marido não entende; medo de sentir dor; não querer sexo; não \nconseguir fazer as coisas; não sentir prazer; não ter força; não ter vontade de sexo; solidão; ser \ncompreendida; não ter rotina; deixar estressada; chorar. Eles foram citados 33 vezes ao longo \ndas 25 entrevistas nas quais estiveram presentes. \nEm algumas falas eram visíveis os comportamentos onde as mulheres se abstiveram \ndo parceiro, evitando contato físico com eles e, assim criando alguns entraves no \nrelacionamento, como brigas, discussões, cobranças e, quase rompimento da relação. \n \n“Mas eu sempre tive dor na relação, sempre fugi, evitava e onde a gente arruma briga com o \nesposo e o clima fica pesado”. ESE 017 \n“Eu não podia nem pensar em ter relação, meu casamento ficou numa situação horrível ...” \nESE 052 \n “Você é casada, quer ter relação com seu marido, sente dor, perde aquela vontade. Então \ntudo isso te coloca para baixo...”  ESE 012 \n \nEm outras falas, as mulheres comentaram sobre o consentimento do parceiro em \nprol da abstinência sexual, momento que elas interpretaram como sendo algo compreensivo por \nparte do cônjuge. Ainda, falaram sobre a relação de amizade dentro do casamento, fator que \nacabava sustentando o relacionamento. \n \n“Falei pro meu marido que estamos na fase de amigo, porque eu não consigo ter relação...” \nESE 021  \n“Ainda bem que eu tenho um marido que tem paciência comigo”.  ESE 004 \n \n\n \nResultados _______________________________________________________________ 46 \n \n \nHouveram relatos, também, sobre o fato das mulheres sentirem medo de serem \nabandonadas pelo parceiro por não conseguirem manter uma rotina sexual, e a não compreensão \ndo parceiro com a situação. Outro tema presente nas falas foi a questão das dores intensas que \nsurgiram no dia seguinte da relação sexual. \n \n“Meu marido as vezes não entende, porque como não descobre, não cura... não tem um \ntratamento...” ESE 077 \n“Tipo assim, não posso ter relação, e quase meu marido me largou por causa da dor”. ESE \n072 \n“Quando eu vou ter relação no outro dia não aguento andar de dor, aí eu fico deitada o dia \ninteiro, até a calcinha que eu vou colocar dói”. ESE 072 \n \nTivemos, ainda, falas conectadas a questão do estupro consentido, quando o sexo \nera realizado somente para satisfazer o outro, nesta situação a mulher se sentia sendo violentada, \nsexualmente. \n \n“Quando vou namorar também dói, parece que estou sendo estuprada. Eu estou apenas \nservindo ele, mas não sinto prazer”.  ESE 041 \n \nUma mulher, ainda, falou que mesmo estando em uma união homoafetiva, ela sentia \ndores pelo simples fato de contração da parede abdominal, não estando o medo do sexo atrelado \nao gênero ou a figura masculina. \n \n“Eu vivo em uma união homo afetiva, não tenho sempre relação sexual com a minha parceira \ne agradeço que não é um homem porque senão já tinha acabado..., mas até sem penetração eu \nsinto dor, o simples contrair a barriga já doi”. ESE 075 \n \nAo se absterem dos relacionamentos, as mulheres acabaram perpetuando o ciclo de \nisolamento social onde a interação e o convívio social ficaram prejudicados. Este tema esteve \nmuito presente nas falas. \n \n“Alterou muito minha relação sexual, eu sinto muita dor a acabei me afastando um pouco...” \nESE 011. \n\n \nResultados _______________________________________________________________ 47 \n \n \n“Chega um momento que homem não aguenta, e eu fico esperando que ele não me procure \nnunca...” ESE 048 \n“Toda vez que meu marido me procura, só de eu saber da dor eu quero evitar, eu tenho vontade \nde ter relação, mas a dor vem na minha mente, aí já eu vou sentir dor e não aguento e aí já \ncomeço, e aí eu já perco a vontade eu quero evitar”. ESE 003 \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n \nResultados _______________________________________________________________ 48 \n \n \n4.2.4. Enxergar na automedicação a solução para a dor \nOutro tema, incipiante nas falas das mulheres era a respeito da automedicação. Este \ntema, foi o de maior prevalência nas falas, principalmente no tocante de solucionar de forma \nrápida o problema da dor. As falas das mulheres sobre a automedicação, esteve em 45 das 66 \nentrevistas e os códigos atrelados ao tema foram: apoio; conciliar a vida; controlar a dor; \naguentar a dor; conciliar a dor; esquecer da dor; ficar com a dor; fingir que não tem dor; ocupar \na cabeça; tomar chá; tomar remédio; trabalhar com dor; procurar ocupação; não ficar parada; \nnão se deixar abater; lidar com a dor; criar meios; sair de casa; relaxar; tirar o foco. Eles foram \ncitados 45 vezes ao longo das 45 entrevistas nas quais estiveram presentes. \nO significado atribuído a automedicação era pertinente a questão de a medicação \nser vista como a propulsora de solução da dor.  \nA automedicação apareceu em todos os outros temas emergidos das falas das \nmulheres. Ela era a primeira resposta que as mulheres tinham quando questionadas sobre como \nfaziam para lidar com a dor, a percepção delas sobre a medicalização do cuidado foi fator que \nnos chamou atenção, o fato de se automedicar era visto por elas como a maneira mais fácil e \nrápida de resolver o problema, mesmo que a causa do problema ficasse mascarada. \nEvidenciando a medicalização do autocuidado, tendo como cerne do mesmo o hospital e a \nequipe médica. \nElas falaram que a busca por meios que trouxessem alívio rápido era o que mais as \ninteressavam, pois, a adesão a outros métodos poderiam significar vagarosidade e dependência \nde fatores que poderiam fugir do autocontrole. Assim, a medicação era vista como a propulsora \nde solução da dor e de seus intervenientes. Elas acreditavam que a solução da dor estava \nrelacionada ao médico e ao hospital, isso era perceptível até mesmo quando elas recebiam alta \nambulatorial e eram contrarreferenciada a unidade básica de saúde, onde não apresentavam \nassiduidade no acompanhamento, pois as recidivas ao hospital e ao pronto atendimento eram \nfrequentes. \n \n“Não... não tem como lidar com ela sem medicamento”. ESE 071 \n“Eu faço o que todo brasileiro faz, automedicação”. ESE 075 \n“Sim com o uso de medicação, as vezes eu tenho que ir pro pronto socorro tomar na veia \nporque só via oral não adianta, e só medicação mesmo...” ESE 007 \n \n\n \nResultados _______________________________________________________________ 49 \n \n \nEmbora, algumas mulheres falaram que nem mesmo os remédios eram suficientes \npara amenizar a dor, conotando assim uma dependência psicológica maior que a dependência \nquímica dos medicamentos.  \n \n“O remédio ameniza a dor, mas não tira, não é fácil, só pra quem passa eu já to assim há um \nano, com dor e a base de remédio né e aí muda a tua vida”. ESE 001 \n“Aí eu vo tomo um comprimido por minha conta né, assim pra dor, um dorflex aí dá uma \nmelhorada, só na hora mas depois volta tudo de novo”. ESE 072 \n \nHouveram relatos em que as mulheres diziam que a medicação já não era tão eficaz \ne então era necessário ocupar a cabeça, tirar o foco da dor, assim elas procuravam outros meios \npara poder lidar com a dor, fosse com o trabalho, sair de casa, não ficar parada, relaxar \nassistindo televisão, ou até mesmo suportando aquela condição com o intuito de tentar desfocar \nda dor já que nem medidas não farmacológicas conseguiam cortar o ciclo doloroso.  \n \n“As vezes vou lá tomo um remédio, a dor não passa, não adianta remédio pra dor, já tomei \nmuito remédio pra dor... é difícil a dor passar, eu paro e fico quieta, e aí vai amenizando, mas \né ruim...” ESE 003 \n“Tem dia que é difícil suportar, mas de dia eu tomo a medicação e vou trabalhar. É uma dor \nassim que eu fico suportando né...” ESE 080 \n“Quando ela está forte eu tomo remédio para passar, agora no dia a dia, a gente começa a \nconviver com ela, tem dias que ela aumenta muito, a gente queria tirar ela dali, mas não tem \ncomo”. ESE 052 \n“Lavo, passo, cozinho, só não limpo casa porque não posso mexer com rodo e vassoura, faço \ncrochê, flores de EVA, procurando ocupação porque eu não consigo ficar parada”. ESE 017 \n“Eu prefiro ficar em casa .... A TV me relaxa, fico ali deitada ouvindo baixinho”. ESE 030 \n \nAinda, tivemos relatos de mulheres que acabavam tomando chás para amenizar as \ndores, como forma alternativa em prol da medicação. \n \n“Tomo um chá de erva doce, aí se não passa eu tomo remédio de novo”.  ESE 051 \n“Um chazinho quente ajuda, dá uma sensação de alivio porque é quente...”  ESE 010 \n \n\n \nResultados _______________________________________________________________ 50 \n \n \nAlguns relatos remetiam o desejo, a vontade de ir em busca de outros meios para \naliviar a dor sem que fosse a medicação, inclusive a questão de ficar / aguentar com a dor sem \ntomar remédios. \n \n “ Vou tentar outros, mais pratica assim de exercícios, mas por enquanto é só a medicação \nmesmo... via oral ou intravenoso, depende da intensidade da dor que vem” ... ESE 007 \n “Porque antes eu tomava todos os dias, nimesulida e diclofenaco cedo e a noite ou dos dois \njuntos. Agora eu diminuí, então eu prefiro ficar com dor sem tomar remédio”. ESE 077 \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n \nResultados _______________________________________________________________ 51 \n \n \n4.2.5. Adaptar-se positivamente diante das adversidades trazidas pela dor \nA adaptação diante das adversidades da dor foi uma estratégia que as mulheres \nfizeram uso durante a experiência de dor e que lhes acarretou em melhoria da qualidade de vida \nperante as adversidades da rotina dolorosa. O significado atribuído ao tema era pertinente a \ngerir o dia a dia com a dor, na tentativa de amenizar o sofrimento trazido pela dor. \nAs falas das mulheres sobre a adaptação positiva da dor esteve presente em 58 das \n66 entrevistas e os códigos atrelados ao tema foram: acreditar em deus; aguentar a dor; tirar o \nfoco; sair de casa; procurar ocupação; manter a cabeça ocupada; apoio; aprender a conviver; \naprender a lidar; buscar um caminho; ter fé; ir na igreja; conversar com amigos; conciliar a dor; \ncontrolar a cabeça; conversar; costurar; ler; estudar; criar meios; adaptar; desabafar; desfocar; \ndistrair; enfrentar; entender a dor; esquecer da dor; exercitar; falar com as pessoas; família; \nfazer caminhada; fazer compressa; fazer exercícios; ficar de bruço; fingir que não tem dor; não \npensar; não deixar abater; não deixar dominar; não demonstrar dor; não ficar parada; ocupar o \ntempo; procurar solução; relaxar; se dar bem com ela; ficar sem medicação; ter autocontrole; \nter expectativas; ter vida normal; ser compreendida; ser incentivada;  trabalhar para esquecer; \nviver melhor. Eles foram citados 191 vezes ao longo das 58 entrevistas nas quais estiveram \npresentes. Elas diziam que ao terem consciência de que a dor era algo que iria acompanhá-las \npor um longo período, isso as faziam resignificar a dor e como que elas poderiam manejar a \nrotina.  \nMuitas mulheres, acabavam criando estratégias individuais durante o dia a dia para \nsuportarem as adversidades trazidas pela dor. Elas diziam que haviam “criado” um jeito para \nse acostumar com a dor, a não se acomodar com aquela condição de dor, criando meios para se \nadaptar melhor as adversidades do dia a dia, como adequar roupas e calçados, ter a compreensão \ndas pessoas, contar com o apoio da família, pedir ajuda a Deus, sair de casa para passear e se \ndistrair, trabalhar para tirar o foco e esquecer da dor, praticar exercícios físicos (caminhadas), \nsempre mantendo a cabeça ocupada para que a dor não ganhasse proporções maiores do que \nrealmente tinham.  \n \n“Antes eu sentia a dor todo dia, era uma dor mais suportável e agora eu vi que não era. Parece \nque a gente acostuma com a dor”.  ESE 077 \nTento fazer o possível para me acostumar. Porque se levar tudo ao pé da letra você fica pirada. \nEu tento ocupar a minha cabeça”. ESE 081 \n\n \nResultados _______________________________________________________________ 52 \n \n \n“Eu estou procurando ter uma qualidade de vida para não ter dores constantes. Acredito que \nposso encontrar essa qualidade de vida”. ESE 038 \n“O sapato deve ter um solado bem macio, as tiras não podem apertar meu pé. A roupa tem que \nser coisa ah, não posso usar jeans que aperta...” ESE 079 \n“Meu marido e minha filha me entendem, se não fossem eles eu não teria aguentado, eles me \napoiam, falam que eu vou sair dessa. Meus irmãos ficam preocupados, porque eu fico com \ndor...” ESE 027 \n“Eu procuro me arrumar, sair para rua ... dou uma volta no centro no meu tempo, aí me \nacalmo...”  ESE 021 \n “Geralmente é o trabalho que me tira do foco da dor. Agora que eu estou de férias eu penso \nmais na dor sem muita ocupação mental”. ESE 042 \n“Ai procuro fazer caminhada no final do dia ... tudo vai me ajudando um pouco para não ficar \ncom o pensamento fixo na dor”. ESE 081 \n \nTivemos relatos em que as mulheres diziam não se deixar abater por aquela situação \nde dor, e ainda, se esquivavam dela através do comportamento de negar a própria realidade, em \num processo de barganha ou auto sabotagem. \n \n“Mas não me deixo abater por causa disso não. Eu vivo hoje. Não deixo me abater. Não é \nverdade. Vai dar certo”. ESSE 070 \n“Tem que fingir que você não tem. Você tem mas finge que não tem porque se pôr na cabeça \nvocê não faz nada, nada mesmo! ” ESE 016 \n \nHouveram relatos pertinentes a questão de a dor ser companheira ou companhia \ndurante o dia a dia. Caracterizando a dependência psíquica em relação àquela condição, ou \ntambém, designar a boa convivência com a condição.  \n \n “Mas eu tenho bastante dor. Mas eu me dou bem com ela, é a minha companheira”. ESE 082 \n “Ah porque ela está aí todos os dias., eu tenho que conviver com ela, tem que passar por cima \ndela...” ESE 054 \n \nAinda tivemos falas conectadas a questão religiosa, quando as mulheres disseram \nse apoiar na oração ou, na fé, para poder suportar a dor. \n\n \nResultados _______________________________________________________________ 53 \n \n \n \n“Peço a Deus força, porque se ele não me der força... não tem remédio que tire a dor”. ESE \n029 \n “Eu tenho fé que um dia eu possa voltar como eu era antes...” ESE 023 \n \nOutros relatos trouxeram à tona a questão de aprender a lidar com aquela situação \nmesmo diante das dificuldades ou adversidades que enfrentavam no decorrer dos dias, como \nsentimentos suicidas ou mesmo de morrer. \n \n“Antes eu queria morrer, mas eu estou aprendendo a lidar com isso, eu agradeço a Deus pelo \ndia, e imploro para ele que o amanhã seja melhor”. ESE 033 \n“Se você ficar sozinha você fica mais deprimida. No começo eu tinha vontade de me matar, me \njogar debaixo do caminhão, mas agora eu aprendi a lidar com a dor”. ESE 054 \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n \nResultados _______________________________________________________________ 54 \n \n \nFigura 1. Representação gráfica dos temas segundo as análises derivadas das entrevistas. \n \n \n \n \n \nEsta figura representa graficamente a frequência em que os temas de 1 a 5, \nestiveram presentes nas entrevistas. A seta 1, representa o tema “Viver em função das \nadversidades trazidas pela dor”, ela foi gerada a partir da análise dos códigos que faziam \nreferências a questão da aceitação da dor, e por este motivo ela está pareada com o mecanismo \nfocado na aceitação. A seta 2, representa o tema “Abster da relação sexual devido ao medo de \nsentir dor”, ela foi gerada assim como a seta 1 e, se encontra próxima a aceitação por representar \nafinidade de significação com este mecanismo. A seta 3, representa o tema “Interação social \nprejudicada devido as adversidades trazidas pela dor”, ela também foi gerada como as outras \nduas já citadas e, pelo fato de também possuir proximidade de significação com a aceitação, ela \nfoi alocada junto as setas 1 e 2, no entanto a distância dela com a aceitação é intencional pois \neste tema também pode ser compreendido como uma maneira de enfrentamento da dor. A seta \n4, representa o tema “Enxergar na automedicação a solução para as adversidades trazidas pela \ndor” e a seta 5, representa o tema “Adaptar-se positivamente diante das adversidades trazidas \npela dor”, ambas foram alocadas próximas ao enfrentamento pois elas representam os \nmecanismos focados no enfrentamento da dor. Cabe salientar, que as caixas embaixo de cada \nseta designam a frequência em que os códigos, derivados de cada tema, estiveram presente nas \n\n\n \nResultados _______________________________________________________________ 55 \n \n \nentrevistas. A ordem em que as setas foram alocadas na figura foi aleatória, ela não representa \na frequência de aparecimento dos temas nas entrevistas, portanto não há nenhum fator \nintencional relacionado a isto. \nPara a confecção da figura, as entrevistas foram relidas e à medida que avançamos \nmarcávamos as frequências em que os códigos estiveram presentes em cada entrevista, ao final, \nfizemos uma contagem para saber quais os temas que apresentaram maior prevalência. Os dois \ntemas de maior prevalência foram: Adaptar-se positivamente diante das adversidades trazidas \npela dor, ele esteve presente 191 vezes ao longo das 66 entrevistas e, o tema Viver em função \ndas adversidades trazidas pela dor, que esteve presente 136 vezes ao longo das 66 entrevistas, \nos demais temas tiveram uma frequência menor e estão descritos na figura. Estes dois temas \ncitados acima, caracterizam as extremidades da figura e representam com forte evidência nos \nachados os mecanismos focados no enfrentamento e na aceitação, respectivamente. \n \n \n\n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n_______________________5 DISCUSSÃO \n\n \nDiscussão _______________________________________________________________ 57 \nSÃO \nNossos dados revelaram que as mulheres com dor pélvica crônica apresentaram \nmecanismos focados no enfrentamento da dor e mecanismos focados na aceitação da dor, \natrelados a eles foram coadunados os seguintes temas: Interação social prejudicada devido às \nadversidades trazidas pela dor; Viver em função das adversidades trazidas pela dor; Abster da \nrelação sexual devido ao medo de sentir dor; Enxergar na automedicação a solução para a dor; \nAdaptar-se positivamente diante das adversidades trazidas pela dor.  \nAs estratégias focadas no enfrentamento da dor permitiram que as mulheres estivessem \nmais aptas a enfrentarem a rotina e suas atividades de vida diária, abrindo possibilidades de \nadesão as terapêuticas propostas pelo serviço de saúde. Condição antagônica ocorreu quanto as \nestratégias focadas na aceitação, momento no qual as mulheres estavam mais aptas a aceitar a \ncondição de dor e, portanto, menos propensas a aderir aos tratamentos propostos, essas duas \nsituações compilaram impactos na vida das mulheres, positivos e negativos respectivamente. \nAssim, no que concerne aos mecanismos (estratégias) focados na aceitação da dor, \ncoadunamos os temas: 1. Interação social prejudicada devido às adversidades trazidas pela dor; \n2. Viver em função das adversidades trazidas pela dor 3. Abster da relação sexual devido ao \nmedo de sentir dor.  \nEm relação ao tema da interação social prejudicada devido às adversidades trazidas \npela dor, a literatura aponta o isolamento social como o vilão das mulheres acometidas por \ndores crônicas, onde o isolamento ocorre em vários cenários que vão desde o ambiente de \ntrabalho, a escola, até a interferência com atividades familiares e na participação em atividades \nrecreativas (BALLARD; LOWTON; WRIGHT, 2006; CHEN; DRAUCKER; CARPENTER, \n2018). Os nossos resultados apontaram para um forte desejo de ficar em casa, deitada devido à \nfalta de disposição para fazer as tarefas e sem ter contato com as pessoas e situações. Algumas \nmulheres também relataram que a questão de ter que deitar ou ficar deitada por algum tempo \nera visto como algo benéfico, como um momento de relaxamento, diferente da grande maioria \nque experimentava nestes momentos uma sensação impeditiva para a realização de suas \natividades.  \nOutra vertente trabalhada no isolamento social é o medo de sentir dor, ela é \nresponsável, na maior parte dos casos, pela conduta de fugir de atividades ou situações a ela \nrelacionadas, o que resulta na manutenção da incapacidade laboral, funcional. Alguns trabalhos \nrelataram também alterações nas atividades de lazer como: leitura, participar de festas, sair para \npescar, o que acabou restringindo-lhes a vida social (SANCHES; BOEMER, 2002). Nossas \nparticipantes relataram que o medo de sentir dor ou de passar mal em meio as outras pessoas, \n\n \nDiscussão _______________________________________________________________ 58 \n \n \nfossem elas conhecidas ou desconhecidas, as faziam desmarcar ou postergar compromissos \npessoais e profissionais, corroborando para a manutenção do sentimento de incapacidade \nperante as demandas do cotidiano.  \nNo que concerne à labilidade emocional, a literatura revela que há uma relação \nestreita, tênue, entre o início do quadro de dores e a alteração comportamental, caracterizada \npor períodos de irritabilidade, falta de paciência, falta de compreensão e isolamento social \n(LEPAGE; SELK, 2016; MELLADO et al., 2016). A irritabilidade, bem com a falta de \npaciência, o choro fácil foram sintomas descritos por nossas pacientes, eles fomentaram as \ndificuldades de gestão diária com a dor. \nO tema viver em função das adversidades trazidas pela dor traduz os significados \nenvoltos na perda de autocontrole e gerenciamento da vida diante das adversidades trazidas \npela dor no dia a dia. Em relação a isso, a literatura aborda a questão da dependência física e \npsicológica em prol da dor, onde as mulheres acabam limitando suas atividades, recorrendo ao \nrepouso, além de ficarem em casa que significava que elas estavam isoladas, portanto menos \npropensas a se envolver socialmente com os outros. Algumas mulheres afirmaram que ficaram \nem repouso absoluto, enquanto outras optaram por restringir apenas algumas atividades, como \no esporte e a interação social (ROOMANEY; KAGEE, 2016). Nossos resultados vão ao \nencontro com os achados da literatura no tocante de as mulheres viverem imersas na dor, \ncondição que lhes acarretavam limitações físicas, psíquicas, laborais e sociais, onde o repouso \nesteve presente além das limitações atreladas as atividades de vida diária, compilando \ncomportamentos de isolamento social, declínios laborativos, a perda do autocontrole e do \nautogerenciamento das atividades ocupacionais, corroborando para a ressignificação delas \ncomo algo negativo.  \nNossos resultados confirmam as evidencias de outros estudos, que identificaram \nque as mulheres com DPC apresentaram impacto negativo da dor em sua satisfação com a vida, \ninterferindo no bem-estar físico e emocional, reduzindo assim, a produtividade laboral e das \natividades de vida diária (BARCELOS et al., 2010; GRACE; ZONDERVAN, 2006; ROMAO \net al., 2009). Mulheres com dismenorreia, relataram que a dor crônica trouxe impactos em suas \nvidas, como na execução das atividades diárias e efeitos na saúde mental (LEPAGE; SELK, \n2016). Mulheres com vaginismo relataram dificuldades na jornada de dor, com interferências \nem demandas práticas e emocionais (MACEY et al., 2015). \nEm relação às perdas atreladas a cronicidade da dor, a literatura, ainda, revela que \no medo de sentir dor é responsável, na maior parte dos casos, pela conduta de fuga das \n\n \nDiscussão _______________________________________________________________ 59 \n \n \natividades ou situações a ela relacionadas, o que resulta na manutenção das incapacidades do \ndia a dia (SANCHES; BOEMER, 2002). O desejo de produzir e a impossibilidade de executar \nas atividades da mesma forma que antes geram situações de conflitos e constrangimento para \nos portadores de dores crônicas. A existência dessas pessoas é permeada por angústias, medo e \nsentimento de incapacidade, partindo do pressuposto que as pessoas aprendem e são \nincentivadas desde a infância a buscar a sua autonomia e independência, quando elas se \ndeparam com uma situação que restringe ou impede suas ações, como a liberdade de \nmovimento, colocando-as em numa situação de dependência para a execução de suas \natividades, elas experimentam, então, emoções diversas, como desespero, hostilidade, \ndesanimo (SANCHES; BOEMER, 2002). Tivemos relatos atrelados à questão da perda de \ncontrole da vida bem como a perda de controle emocional decorrentes das incapacidades \ngeradas pela rotina de dor, corroborando a labilidade emocional como o desespero e o \ndesanimo. \nOutro ponto extrapolado pela literatura foi à interrupção da rotina, ou seja, a perda \nde controle sobre o gerenciamento da rotina, este foi um tema significativo nas entrevistas das \nmulheres, pois as qualificações educacionais, as histórias de trabalho e as relações sociais foram \ninterrompidas por causa das dificuldades em manter a atividade motivada pelos seus pares. \nMuitas das mulheres entrevistadas tiveram sua primeira experiência de endometriose \nsintomática enquanto estavam realizando educação terciária, neste momento a dor e a fadiga \nafetavam o desempenho nos estudos e, algumas chegaram a deixar os estudos por se sentirem \nincapazes de gerenciar as tarefas (GILMOUR; HUNTINGTON; WILSON, 2008). As \nparticipantes de nosso estudo, também, relataram que a dor e seus intervenientes acabavam \ncorroborando para o não cumprimento de atividades educacionais, algumas chegaram a desistir \ndos estudos, pois a fadiga mental e física as impediam de dar andamento as atividades \npropostas. Elas relataram que já acordavam cansadas e que ao longo do dia a fadiga e a falta de \ndisposição acabavam tomando proporções maiores, culminando a não aderência ou \ncontinuidade de atividades educacionais.  \nOutra temática que emergiu das entrevistas foi a questão de se abster da relação \nsexual devido ao medo de sentir dor. Onde o medo da dor durante a relação sexual mostrou-se \nser o vilão entre as mulheres acometidas por dores ginecológicas crônicas. Mulheres com \ndispareunia relataram não serem capazes de se conectar com seus parceiros em um nível físico, \ncondição que resultou em distância emocional, outras mulheres colocaram a questão da \ndistância entre elas e seus parceiros, no tocante a se afastar dele e assim se distanciar de toda \n\n \nDiscussão _______________________________________________________________ 60 \n \n \nsituação com ele. A tensão criada pelas relações sexuais difíceis muitas vezes levou a um \naumento do conflito geral e a argumentos tolos sobre as diferenças insignificantes de opinião. \nA insatisfação do parceiro foi outro tema recorrente. Alguns parceiros ficaram zangados e \nfrustrados quando suas namoradas recusaram sexo ou pararam no meio do caminho. À medida \nque o conflito aumentava e a intimidade diminuía, os temores de infidelidade e abandono \nmultiplicavam-se. As mulheres temiam que a falta de sexo levasse seus parceiros a satisfazer \nsuas necessidades sexuais com outras parceiras (DONALDSON; MEANA, 2011). As \nparticipantes, também, relataram a questão da distância emocional de seus parceiros, assim \ncomo as tensões criadas pela abstinência sexual acarretando, em alguns casos, um aumento de \nconflitos relacionais. Ainda sobre os impactos no relacionamento, mulheres com dor vulvar \nrelataram que suas dores podiam causar limitações em suas atividades de vida e em seus \nrelacionamentos e, acarretar impactos na condição de relacionamento com parceiro \níntimo(LEPAGE; SELK, 2016). Mulheres com vulvodinea se posicionaram como incapazes de \nsatisfazer as necessidades sexuais percebidas de seus parceiros, elas também relataram sentir \nculpa diante do parceiro devido a não conseguir atender ao impulso sexual masculino \n(AYLING; USSHER, 2008). A culpa também foi um tema presente nas falas das mulheres no \ntocante a não conseguir satisfazer o desejo sexual do parceiro ou ainda de não estar apta física \ne mentalmente para tal coisa, fomentando assim comportamentos de introspecção física e \nemocional.  \nO medo do abandono quando o parceiro també foi uma fala frequente. Esse tema \nfoi levantado por mulheres com dispareunia e vaginismo. Elas relataram que o relacionamento \ncom o parceiro girava em torno do medo de ser abandonada, em virtude de sua incapacidade \nsexual onde elas se sentiam em desvantagem em relação às outras mulheres saudáveis e o que \nas recompensavam eram alguns sentimentos como se comunicar pouco, a frustração e o nojo \n(SANCHEZ BRAVO et al., 2010). Nossos achados não levantaram temas como o nojo do \nparceiro, embora relatem que conversavam pouco com seus parceiros quando o assunto era o \nsexo, ou ainda não conversavam. Em relação à frustração, esta esteve presente nas falas das \nmulheres, principalmente na questão de se sentir usada durante o sexo e, também de não sentir \nsatisfação sexual com o parceiro. Uma mulher relatou que sentia como se estivesse sendo \nestuprada durante o sexo, pois além das dores físicas ela percebia que o sexo estava satisfazendo \napenas o parceiro.  \nAinda relacionado a questão sexual, tivemos a questão da tolerância ao sexo \ndoloroso, mulheres com vaginismo relataram que a dor trouxe aspectos importantes como ter \n\n \nDiscussão _______________________________________________________________ 61 \n \n \num bom relacionamento e ter o suporte do parceiro, mas também relataram as limitações na \nrelação com o parceiro, como a dificuldade de entendimento da dor por parte deles e a tolerância \nao sexo doloroso porque elas achavam que seria injusto negar o sexo para o parceiro (MACEY \net al., 2015). Em relação ao sexo doloroso, as participantes comentaram que mesmo com dor \nou com medo de sentir dor elas acabavam tendo relação sexual com o parceiro para evitar \ncobranças internas e externas, ou ainda, para se sentirem menos culpadas perante ao desejo \nhipoativo e a falta de vontade de estar com o outro. Ainda relataram que seus parceiros, em \npoucos casos, tinham a compreensão perante a situação de dor corroborando assim para um \nbom relacionamento e a construção de uma rede de apoio. Ainda sobre a questão de obter apoio \ndo parceiro íntimo, mulheres com fibromialgia relataram que elas não achavam que o marido \nentendesse a situação delas, mas mesmo assim ele estaria presente para o que elas precisassem \n(KENGEN TRASKA et al., 2012).  \nNo tocante aos mecanismos (estratégias) focados no enfrentamento, temos a \nautogestão da dor como tema norteador e atrelado a ele emergem dois temas, Enxergar na \nautomedicação a solução para a dor e Adaptar-se positivamente diante das adversidades trazidas \npela dor. \nUm dos temas mais prevalente entre as falas das paticipantes foi a busca da \nautomedicação para a solução da dor. A literatura revela que mulheres com dismenorreia fazem \nuso de analgésicos e anti-inflamatórios não esteroídais, como drogas de primeira escolha ou \nopção. Algumas pacientes não faziam o uso adequado dos medicamentos, ou usavam doses \ninsuficientes ou superdosagem, além de não saberem, ao certo, quais eram os possíveis efeitos \ncolaterais que estas medicações poderiam acarretar quando ingeridas por longos períodos e sem \ncontrole (AZIATO; DEDEY; CLEGG-LAMPTEY, 2015). Em relação às drogas de primeira \nopção das mulheres com dor pélvica crônica, podemos dizer que os analgésicos e os anti-\ninflamatórios eram tidos como a opção de escolha da maioria. No que se refere à superdosagem \ne aos efeitos colaterais do uso abusivo destas drogas, as mulheres demonstraram que \ndesconheciam os possíveis efeitos do uso continuo, pois estavam preocupadas em sanar a dor. \nMulheres com dismenorreia indicaram que a gravidade de seus sintomas as colocava em risco \nde overdose de medicação. Algumas mulheres sugeriram que estavam desesperadas para obter \nalívio de suas dores (CHEN; DRAUCKER; CARPENTER, 2018). Algumas participantes, \ntambém, se sentiam desesperadas frente a dor e acabavam fazendo uso abusivo de medicações, \nconotando dependência da medicação. Mulheres com endometriose relataram que antes do \ndiagnóstico e da disponibilidade de opções cirúrgicas e hormonais, elas concentraram-se em \n\n \nDiscussão _______________________________________________________________ 62 \n \n \ntentar aliviar a dor com analgésicos como paracetamol e anti-inflamatórios, calor local, repouso \ne alguns usaram álcool como sedação. Esses métodos forneciam alguma paliação, mas tanto a \ndor quanto os métodos de manejo eram prejudiciais ao funcionamento, trabalho e \nrelacionamentos normais (HUNTINGTON; GILMOUR, 2005). Em nossos achados, também, \nemergiram meios paliativos de lidar com a dor, como o uso de compressas de agua morna, a \nadesão a alimentação saudável, a prática de exercícios físicos e o repouso. Em relação à \ndependência dos remédios e seus efeitos colaterais, a literatura traz que essa combinação \ncontribui para o estigma da dor (SOARES SILVA; PORTO ROCHA; VANDENBERGHE, \n2010). Em contrapartida a superdosagem, mulheres com fibromialgia relataram fazer uso de \nmedicamentos somente conforme a prescrição médica (KENGEN TRASKA et al., 2012). Em \nnossos achados, a maioria das mulheres relataram fazer o uso abusivo das drogas prescritas, \nembora tivemos relatos de mulheres que preferiam já não tomar mais a medicação e aguentar a \ndor ou focar em outras coisas. Já no que concerne à dependência química e psicológica da \nmedicação, as mulheres tinham na medicação a válvula propulsora de solução da dor, assim \ncomo tinham na figura médica, o profissional central do cuidado e, ainda no hospital, o local \nonde o tratamento melhor seria conduzido, estes pontos revelam a visão medicocêntrica e \nhospitalocêntrica das mulheres no cuidado prestado. \nNo tocante as restrições acarretadas pela dor, mulheres com dor pélvica crônica \nrelataram que as restrições mais comuns pertinentes à rotina de dores foram a incapacidade de \nrealizar suas atividades sem tomar analgésicos ou fazer repouso, e limitações na mobilidade, \nparticularmente em se movimentar e fazer caminhada (GRACE; ZONDERVAN, 2006). Nossos \nachados revelaram que as mulheres apresentavam algumas incapacidades para a realização de \nsuas tarefas quando não estavam sob efeito de medicação, revelando dependência química e \npsicológica das drogas de uso continuo. Mulheres com endometriose, incluíram nas estratégias \npara aliviar a dor e o desconforto, o uso de analgésicos ou outros remédios caseiros \n(ROOMANEY; KAGEE, 2016). Mulheres com dismenorréia preferiram \"tratar os sintomas \nnaturalmente\" e encontraram alívio nos remédios caseiros, como aplicar almofadas de \naquecimento, beber chá quente de gengibre e descansar (CHEN; DRAUCKER; CARPENTER, \n2018). Nós, também, tivemos a adesão ao uso de remédios caseiros, além dos analgésicos, \ndentre eles os chás foram a primeira opção quando as mulheres haviam optado por meios \ncaseiros para aliviar as dores e relaxar. \nA adaptação diante das adversidades trazidas pela dor, em geral, foi relatada de \nforma positiva pelas participantes, de forma a conduzí-las a autogerir a dor e as AVD. As \n\n \nDiscussão _______________________________________________________________ 63 \n \n \nhistórias de indivíduos com dor crônica costumam ser repletas de estratégias, no começo do \nprocesso ou a cada novo tratamento proposto, os indivíduos avaliam sua condição, como sendo \npassível de mudança e adotam algumas ações como dietas, exercícios, medicação, que julgarem \nser capaz de modificar sua situação. Ao longo do tempo e à medida que a situação não se \nmodifica ou modifica-se muito pouco, novas ações são providenciadas como, mudança de \nmédico, de serviço de saúde, de medicação, e as estratégias voltadas para o controle das \nemoções começam a ser mais utilizadas. Funciona como um processo adaptativo, onde o \nindivíduo perpassa por várias fases e, por conseguinte atinge o amadurecimento em relação a \nqual a melhor forma de lidar com aquela situação conflitante (PORTNOI; NOGUEIRA; \nMAEDA, 2008). As participantes do estudo, relataram diversas maneiras que elaboravam \ndurante o dia a dia para poderem lidar melhor com a situação de dor, elas se moldavam \nconstantemente na tentativa de encontrar meios que amenizassem o sofrimento acarretado pela \ndor, dentre as estratégias que elas mais utilizavam, destacamos: aguentar a dor; tirar o foco; sair \nde casa; procurar ocupação; manter a cabeça ocupada; rede de apoio; aprender a conviver; \naprender a lidar; buscar um caminho; conciliar a dor; controlar a cabeça; criar meios; adaptar; \nentender a dor; esquecer da dor; exercitar; não pensar na dor; não deixar abater; não deixar \ndominar; não demonstrar dor; não ficar parada; ocupar o tempo; procurar ocupação; procurar \nsolução; relaxar; se dar bem com ela; ficar sem medicação; ter autocontrole; ter expectativas; \nter vida normal; ser compreendida; ser incentivada;  trabalhar para esquecer.  \nNo que diz respeito ao desenvolvimento de estratégias para autogerenciar o impacto \nda doença na rotina e na vida como um todo, mulheres com endometriose relataram buscar \nativamente abordagens de autogerenciamento para o controle dos sintomas, especialmente, na \nvida social e no trabalho. O autogerenciamento dos sintomas foi um importante fio condutor \nnas narrativas das mulheres e uma ampla variedade de atividades e tratamentos foram tentados \ncom vários graus de sucesso (GILMOUR; HUNTINGTON; WILSON, 2008; ROOMANEY; \nKAGEE, 2016). Nossos achados também apontam para a congruência das estratégias voltadas \na vida social e laboral / ocupacional, onde as mulheres concentraram as suas queixas. Elas \nrelatavam que procuravam aumentar a rotina de trabalho assim como a rede de apoio para que \ntivessem maior sucesso na briga com os sintomas acarretados pela dor, assim elas procuravam \naumentar a jornada laboral e ocupacional e fortalecer ou ainda aumentar a rede de apoio, como \nnão ficar em casa para não focar a vida nas dores, sair sempre que possível, conversar com as \npessoas, mantendo sempre a cabeça ocupada com outras coisas além da dor. Elas tomavam o \ncontrole de suas rotinas, contemplando o autogerenciamento de suas atividades e assim, \n\n \nDiscussão _______________________________________________________________ 64 \n \n \ntransformavam o dia a dia. Mesmo sabendo que existem limitações, muitos estão dispostos a \ntentar produzir como antes, pois a manutenção do trabalho contribui para manter a pessoa ativa, \nparticipante, minimizando o desconforto e melhorando a autoestima (SANCHES; BOEMER, \n2002). \nOutro ponto discutido na literatura aborda a importância dos recursos pessoais, \nafetivos e cognitivos como sendo primordiais para o enfrentamento da dor crônica, com \nespecial destaque para os papéis da família, das crenças, dos valores e das atitudes (PORTNOI; \nNOGUEIRA; MAEDA, 2008). No tocante a estas questões, tivemos uma prevalência alta de \nmulheres que apostaram suas estratégias através do fortalecimento do vínculo familiar e de \namigos, das crenças religiosas e espirituais, dentre elas a fé foi muito citada pelas mulheres \nalém da questão da religião como sendo uma porta de entrada para novos amigos e ocupação \ndo tempo disponível para poder ajudar ao próximo. Mulheres com endometriose relataram a \nimportância do envolvimento com novas pessoas e atividades, manejo por envolvimento com \natividades religiosas, reavaliação dos problemas e aceitação emocional. Elas também relataram \nque estabeleciam estratégias focadas na emoção, como aceitar a doença, adotar uma atitude \npositiva, engajar-se na conversa e evocar a espiritualidade. Todas essas estratégias refletem \nmétodos de enfrentamento que envolve reformular o modo como as participantes pensavam \nsobre sua doença. O fortalecimento do apoio social foi tema presente nos relatos destas \nmulheres, elas relataram que os membros da família e os parceiros costumavam se reunir em \ntorno delas quando estavam com dor e ajudá-las assumindo algumas de suas responsabilidades \nou fornecendo-lhes analgésicos ou remédios caseiros para aliviar a dor. Os membros da família \ntambém mostraram preocupação e incentivaram os pacientes a procurar ajuda de médicos. Em \nconvergência com a literatura nossos dados, também apontaram a questão do apoio da família \ne do parceiro durante a rotina de dor, além do auxílio com a execução das atividades em casa, \nelas ainda trouxeram à tona a questão de ser incentivada pelos irmãos e pelos pais para \nprocurarem ajuda de profissionais como médico, psicólogo, educador físico. A família é parte \nfundamental na construção da saúde de seus membros, pois tem como função básica o apoio, \nsegurança e proteção. Agem numa forma de solicitude, às vezes fazendo tudo por eles, outras \nvezes possibilitando o crescimento, o amadurecimento e a questão de seguir seus próprios \ncaminhos (ROOMANEY; KAGEE, 2016; SANCHES; BOEMER, 2002; SOARES SILVA; \nPORTO ROCHA; VANDENBERGHE, 2010). \nOutras temáticas abordadas pela literatura em relação a autogestão foram as \nquestões relacionadas a evitar tudo que pudesse desencadear ou aumentar a dor, como roupas \n\n \nDiscussão _______________________________________________________________ 65 \n \n \ndesconfortáveis (KENGEN TRASKA et al., 2012). Nossas participantes, também, relataram \nque faziam uso de estratégias para minimizar o estimulo doloroso como usar roupas mais largas, \nsapatos maiores ou ainda evitar coisas que pudessem desencadear o ciclo doloroso. A questão \nde obter um diagnóstico preciso sobre a doença também foi discutida por mulheres com \nendometriose. Elas relataram que a obtenção do diagnostico não fez com que os sintomas \ndesaparecessem, mas ficou mais fácil lidar com eles e aceitá-los como parte de suas vidas \n(GRUNDSTRÖM et al., 2018). Nossos resultados também apontaram esta questão, as mulheres \ndiziam sentirem aliviadas quando o diagnóstico era claro, pois assim poderiam ter certeza de \nque o tratamento proposto estava certo, além do fato de trazer alívio quanto a preocupações \nrelacionadas ao medo de outros diagnósticos. \nNo que concerne ao ponto forte dos nossos dados, esse reside no fato de que os \ndados recolhidos foram baseados em experiências humanas. Assim, fomos capazes de \ncompreender os mecanismos de enfrentamentos e de aceitação de dor utilizados pelas mulheres.  \n       Este estudo permitiu dar voz a uma experiência idiossincrática, dando relevo às \nfalas de mulheres que vivenciam um fenômeno doloros o e que este estudo focou. É também \nesta uma das missões da pesquisa qualitativa na área da saúde. Especificamente em relação aos \ninstrumentos de recolha de informação, sublinhe-se o processo contínuo de adaptação do guia \nàs falas das participantes, associando-se a recolha de informação ao processo de análise, o que \nnos permitiu permanecer próximo do fenômeno estudado, respeitando-o e adaptando-nos a ele. \nNosso trabalho, também, apresentou algumas limitações. Dentre elas, destacamos \nos diferentes momentos de dor que as pacientes entrevistadas se encontravam, algumas estavam \nem remissão enquanto outras se encontravam em fase aguda da dor. O estudo não foi desenhado \npara estratificar as entrevistas de acordo com a intensidade da dor, portanto, não foi possível \nanalisar a influência da intensidade da dor sobre os mecanismos de enfrentamento e de \naceitação da dor. Embora tenhamos conseguido saturação dos achados, nossos resultados são \nlimitados em generalizar a outras populações devido à concepção qualitativa, uma vez que a \npopulação estudada traz arraigadas suas historicidades e vivências, e estas são peculiares \nsomente a ela, é o aqui e o agora. Os mecanismos de enfrentamento e de aceitação da dor podem \nestar associados a diversas variáveis, como idade, a escolaridade, nível socioeconômico, no \nentanto esse problema não pode ser resolvido quando tratamos os dados com a perspectiva do \narcabouço qualitativo, para tanto seria necessário um estudo quantitativo, qual tem cerne nas \nquestões epidemiológicas e, portanto permitem identificar as variáveis que poderiam interferir \nna escolha ou no uso dos mecanismos de enfrentamento e de aceitação da dor e, também para \n\n \nDiscussão _______________________________________________________________ 66 \n \n \nestimar a magnitude da associação entre a dor pélvica crônica, os meios de lidar com a dor e as \nfalhas de adesão as terapêuticas propostas. \n\n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n______________________6 CONCLUSÕES \n\n \nConclusões _______________________________________________________________ 68 \n \n \nUSÕES      O kkk~~~ \nAtravés da análise dos dados recolhidos fomos capazes de identificar quais eram os \nmecanismos de enfrentamento e de aceitação da dor adotados pelas mulheres com DPC. Eles \nsão representados pelos seguintes temas: Interação social prejudicada devido às adversidades \ntrazidas pela dor; Viver em função das adversidades trazidas pela dor; Abster da relação sexual \ndevido ao medo de sentir dor; Enxergar na automedicação a solução para a dor; Adaptar-se \npositivamente diante das adversidades trazidas pela dor. \nPudemos, também, compreender quais eram os impactos gerados pelos \nmecanismos de enfrentamento e de aceitação da dor na vida das mulheres com DPC. Assim, as \nmulheres apresentaram impactos negativos e positivos diante da maneira de lidar com a dor, \nonde os mecanismos de aceitação da dor atrelados à Interação social prejudicada devido às \nadversidades trazidas pela dor, Viver em função das adversidades trazidas pela dor e Abster da \nrelação sexual devido ao medo de sentir dor, culminaram em dificuldades de aceitação das \nterapêuticas propostas, uma vez que nestes momentos as mulheres se encontravam mais \npropensas à aceitação da dor e, portanto a não aderir aos tratamentos.  \nNo tocante aos mecanismos de enfrentamento da dor, esses estavam atrelados à \nEnxergar na automedicação a solução para a dor e, Adaptar-se positivamente diante das \nadversidades trazidas pela dor, e culminaram em maior aderência as terapêuticas propostas, \nvisto que nestes momentos as mulheres tinham maior propensão a enfrentar a dor. \nAs possíveis consequências clínicas dos mecanismos de enfrentamento e aceitação \nda dor são pertinentes às falhas de adesão as terapêuticas propostas em vista da aceitação da \ndor ou do enfrentamento da dor e, ainda a não continuidade aos tratamentos em seguimento \nclínico já iniciados. \nNo que concerne à implicação clínica do trabalho, os resultados obtidos têm o \nintuito de corroborar subsídios clínicos para o manejo e assistência das mulheres com DPC, \numa vez que ao ter ciência sobre a condição biopsicossocial da paciente, a equipe assistencial \n(multiprofissional) possa ter a possibilidade de redesenhar protocolos clínicos que atendam as \nreais necessidades de saúde arraigadas nestas mulheres, com envergadura no loco de vivência \ndelas. Esperamos que pesquisas com envergadura qualitativa possam fomentar, cada vez mais, \no universo vivido por esta parcela de mulheres. Tornando factíveis protocolos clínicos e \npolíticas públicas que atendam as reais necessidades de atenção destas mulheres, especialmente \nno que concernem as esferas psicológica, ocupacional e social.\n\n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n_____________________7 REFERÊNCIAS\n\n \nReferências _______________________________________________________________ 70 \nAhangari, A. Prevalence Of Chronic Pelvic Pain Among Women: An Updated Review. Pain \nPhysician, V. 17, N. 2, P. E141–E147, Abr. 2014.  \nAlbert, H. Psychosomatic Group Treatment Helps Women with Chronic Pelvic Pain. Journal \nof Psychosomatic Obstetrics and Gynecology, V. 20, N. 4, P. 216–225, Dez. 1999.  \nAudulv, A.; Asplund, K.; Norbergh, K.-G. The Integration of Chronic Illness Self-\nManagement. 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Nós entrevistamos as pacientes para poder compreender \na experiência (vivência) pessoal com a dor no dia a dia. \n \n Apresentação da participante \nAntes de iniciar, gostaria que você se apresentasse dizendo o nome, a idade e sua ocupação. \n \nApresentação do funcionamento da entrevista \nGravaremos a entrevista, mas ela permanecerá em sigilo e o teu nome receberá um código. \n \nDiscussão para a entrevista \n2.1 Questão introdutória: Por favor, comente um pouco sobre COMO é seu dia a dia \nquando você está sentindo dor? \n \n2.2 Questões norteadoras: Como você lida (FAZ) com ela no dia a dia?  \n2.2.1. COMO você VIVEU/VIVE isso? Conte com mais detalhes uma situação para mim. \n2.2.2. Você já experimentou lidar (FAZER) de um jeito diferente? Conte com mais \ndetalhes uma situação para mim.  \n \n2.3 Questões intervencionistas  \n “Como você percebe...? ” \n “Você tem um exemplo...? ” \n“Não sei se entendi direito...? ” \n“O que você quer dizer quando fala que...? ” \n“Como assim...? ” \n“Você poderia detalhar...? ”  \n“Isso é muito interessante. Como ocorre? ” \n \n3. Conclusão   \nSerá esclarecida alguma dúvida da participante, assinado o TCLE e o agradecimento da \nparticipação na pesquisa. \n  \n\n \nApêndices_______________________________________________________________ 77 \n \n \nAPÊNDICE 2 – Árvores de codificação dos temas chaves \n \n \n \n \n\n\n \nApêndices_______________________________________________________________ 78 \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n\n \nApêndices_______________________________________________________________ 79 \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n\n \nApêndices_______________________________________________________________ 80 \n \n \nAPÊNDICE 3 – Termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) \n \nTítulo do estudo: “Análise qualitativa dos mecanismos de enfrentamento da dor em mulheres \ncom dor pélvica crônica”. \nInvestigadores principais: \nProf. Dr. Francisco José Candido dos Reis \nBruna Helena Mellado \n \nINFORMAÇÃO AO PACIENTE \nVocê está sendo convidado a participar voluntariamente de um estudo chamado “Análise \nqualitativa dos mecanismos de enfrentamento da dor em mulheres com dor pélvica crônica”. Antes \nde decidir participar deste estudo, é importante que você leia e compreenda os procedimentos \nenvolvidos. Este termo de consentimento informado descreve o motivo, os procedimentos, os \nbenefícios e os riscos do estudo. Por favor, sinta-se à vontade para fazer quantas perguntas quiser. \nÉ necessário ler e assinar este termo de consentimento antes que você possa participar. Sua decisão \nde participar ou não participar neste estudo não terá qualquer interferência sobre o seu atendimento \nclínico. \n \nPOR QUE VOCÊ ESTÁ SENDO CONVIDADO A PARTICIPAR? \nEste estudo está sendo realizado em mulheres com diagnóstico de dor pélvica crônica (DPC) com \nduração igual ou superior a seis meses e, intensidade de dor entre moderada ou severa. Para fins \nde descrição, a intensidade da dor será mensurada através da Escala visual analógica (EVA) e do \nquestionário McGuill de dor, todas as mulheres responderão aos dois instrumentos propostos, e no \ncaso de haver resultados discordantes, optaremos pelos resultados do questionário McGuill, devido \nà importância das 3 dimensões da dor que o questionário traz, a sensorial-discriminativa, a \nmotivacional-afetiva e a cognitiva avaliativa.  A amostragem será intencional, ou seja, não \nprobabilística, e as mulheres serão abordadas à priori face a face e posteriormente por contato \ntelefônico para agendamento da entrevista, qual se realizará no Departamento de Ginecologia e \nObstetrícia, localizado no 8º andar do hospital. Mulheres com suspeita de alteração psico-afetiva \nidentificada durante análise em prontuário, serão excluídas. Os métodos que utilizaremos para \natender esse critério serão a HAD para levantamento de escore de depressão e ansiedade e o Mini-\nSPIN, para medo de constrangimento e evitação. \n \n\n \nApêndices_______________________________________________________________ 81 \n \n \nOBJETIVO DO ESTUDO \nO objetivo deste estudo é caracterizar a percepção das mulheres com dor pélvica crônica (DPC) \nsobre os mecanismos utilizados para enfrentamento da dor.  \n \nO QUE ENVOLVE A SUA PARTICIPAÇÃO? \nSua participação neste estudo será em responder algumas perguntas relacionadas em como a dor \ninterfere no seu dia a dia e também como você enfrenta essa dor, ou seja, quais os mecanismos \nque você utiliza para conseguir viver com a rotina de dores. Você irá participar de uma entrevista. \nLá serão discutidos os temas do objetivo do estudo. A reunião será gravada para permitir maior \nfidedignidade de análise. Esse procedimento não gerará riscos a você. Durante todo o período de \nsua participação, estará devidamente acompanhada e assistida por profissional de nível superior \ncapacitado, terá esclarecimento de qualquer dúvida a respeito da pesquisa, bem como lhe será \ngarantido o acesso aos resultados da avaliação, após a conclusão do trabalho. \n \nO QUE MAIS SERÁ REALIZADO? \nAlém da entrevista, será realizada uma análise dos trechos das falas de cada participante, onde \ncada uma deverá receber uma sigla referente ao nome e ao grupo que pertenceu {S (sujeito) + EP \n(número da entrevista em profundidade, relacionada à ordem de coleta)}, garantindo assim o \nanonimato. \n \nPOSSÍVEIS RISCOS AO PARTICIPAR DESTE ESTUDO \nEsse procedimento não gerará riscos a você. Durante todo o período de sua participação, estará \ndevidamente acompanhada e assistida por profissional de nível superior capacitado, terá \nesclarecimento de qualquer dúvida a respeito da pesquisa, bem como lhe será garantido o acesso \naos resultados da avaliação, após a conclusão do trabalho.  \n \nPOSSÍVEIS BENEFÍCIOS \nA sua participação não trará benefícios para você, porém poderá contribuir para a melhor \ncompreensão do seu problema de saúde no futuro. \n \nO QUE ACONTECE SE VOCÊ NÃO QUISER PARTICIPAR? \nSua participação neste estudo é totalmente voluntária. Se você decidir não participar, não haverá \npenalidade, perda de benefícios ou redução na qualidade dos cuidados médicos. Se forem \n\n \nApêndices_______________________________________________________________ 82 \n \n \ndisponíveis novas informações que possam afetar a sua vontade de continuar nesta pesquisa, você \nterá conhecimento destas informações.   \n \nE SE VOCÊ QUISER SAIR DO ESTUDO APÓS TER ACEITADO PARTICIPAR? \nVocê pode descontinuar sua participação neste estudo a qualquer momento sem penalidade ou \nperda dos benefícios que de outra forma você teria direito. Caso você deseje retirar o seu \nconsentimento, favor notificar o investigador, através do número de telefone listado na primeira \npágina deste termo de consentimento livre e esclarecido. Você tem o direito de se retirar do estudo \ncompletamente (isto significa que você não deseja ser contatado por qualquer pessoa do estudo \ndepois da sua retirada) ou pode só desejar parar de realizar os procedimentos, mas permitir que o \npessoal do estudo entre em contato com você e utilize os seus dados. Você será informado de \nforma oportuna sobre qualquer nova informação relacionada à sua segurança que possa influenciar \nsua disposição em continuar participando do estudo. Este estudo poderá ser interrompido caso o \npesquisador responsável perceba qualquer risco ou dano significativo causado pela pesquisa. \n \nSIGILO E DIVULGAÇÃO DE INFORMAÇÕES PESSOAIS \nTodas as informações coletadas durante este estudo, incluindo seus registros médicos, dados \npessoais e dados de pesquisa, serão mantidas em sigilo. No entanto, um representante autorizado \nirá analisar essas informações. Você será identificado por um número em toda documentação e \navaliação, estando seu nome em segredo absoluto. Seu nome ou o material que o identifique como \num participante do estudo não será liberado sem a sua permissão por escrito, exceto quando for \nexigido por lei. \n \nREGISTRO DO ESTUDO PESQUISA \nA pesquisa será registrada no Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital das Clínicas da Faculdade \nde Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. \n \nCUSTOS E REMUNERAÇÃO \nSua participação não terá custos e você não terá que pagar por nenhum procedimento que será \nrealizado neste estudo. Você não será pago por sua participação; entretanto, planejamos cobrir \ncustos relacionados com viagem e alimentação.  \n \n \n \n\n \nApêndices_______________________________________________________________ 83 \n \n \nNO CASO DE DANO RELACIONADO À PESQUISA \nCaso você sofra algum dano como resultado de qualquer atividade da pesquisa, os pesquisadores \ne o centro irão providenciar tentar providenciar assistência integral, dentro do padrão internacional \nde boas práticas clínicas e resolução vigente no Brasil (Resolução 466/2012). De forma alguma, o \npresente termo renuncia os direitos legais do participante ou isenta o investigador, a instituição, o \npatrocinador ou seus representes das responsabilidades legais caso haja algum dano.  \n \nCONTATO PARA MAIS INFORMAÇÕES  \nOs pesquisadores estarão disponíveis para responder a quaisquer perguntas que você possa ter em \nrelação ao tratamento descrito ou os procedimentos do estudo. Se você tiver alguma dúvida sobre \nesta pesquisa, você pode entrar em contato com Prof. Dr. Francisco José Cândido dos Reis – CRM: \n65.062 – SP. Telefones de contato: 16-3602-2589 (8o Andar) ou 16-3602-2311. E-mail: \nfjcreis@fmrp.usp.br. Endereço: Av. Bandeirantes, 3900 - 2º andar - Ribeirão Preto – SP. CEP: \n14049-900, ou com Bruna Helena Mellado – COREN: 209.203 – SP. Telefones de contato: 16-\n33075015 ou 991423911. E-mail: bru.mell@usp.br. Endereço: Rua Francisco Fiorentino, 959 - \nSão Carlos– SP. CEP: 13574-007. Se você tem alguma dúvida sobre seus direitos como um \nparticipante de pesquisa ou em caso de julgamento relacionado com uma lesão, entre em contato \ncom o médico do estudo ou o seu médico de confiança. Caso você quiser falar com alguém não \ndiretamente envolvido neste estudo sobre os seus direitos, preocupações, danos relacionados à \npesquisa, você pode se comunicar com o Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital das Clínicas \nda Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo no Campus \nUniversitário, S/N, Monte Alegre, Prédio Central, Subsolo - 14048-900 – Ribeirão Preto/SP, em \n16 3602 2228 com horário de funcionamento de Segunda a Sexta-feira das 08hrs00min às \n17hrs00min. Você também poderá entrar em contato, caso se sentir coagido para aceitar ou \ncontinuar a participar da pesquisa. Você também poderá entrar em contato, caso se sentir coagido \npara aceitar ou continuar a participar da pesquisa. \n \nCONSENTIMENTO  \nAo assinar e datar este formulário, você irá confirmar que foi suficiente informado sobre a \nnatureza, a finalidade, a duração e os riscos deste estudo. Confirma também que foi capaz de \ndiscutir dúvidas em detalhes com o pesquisador, e que estas, foram completamente e \nsatisfatoriamente respondidas. Você receberá uma via assinada deste formulário e a outra via ficará \ncom o pesquisador.   \n \n\n \nApêndices_______________________________________________________________ 84 \n \n \n \n \n \nNome do Participante  Assinatura  Data e horário \n \n \n \nNome do Pesquisador  Assinatura  Data e horário \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \nNome da Testemunha (se \nnecessário) \n Assinatura  Data e horário \n\n \nApêndices_______________________________________________________________ 85 \n \n \nAPÊNDICE 4 – Definição operacional das categorias \n \nA categoria: Interação social prejudicada devido as adversidades trazidas pela dor \ncodifica todas as referências ou verbalizações das participantes acerca de:  \n“Nos últimos dos dois anos eu não tenho contato social, eu sou filha única, não tenho \nmais amigos, ultimamente eu não quero conviver com ninguém”. ESE 047;“Parece que eu não \nconsigo viver em sociedade quando to com dor, eu sou um perigo eu tenho que me trancar no \nquarto e não olhar para ninguém por causa da dor”. ESE 075; “Me irrita. Eu não gosto de \nconversar. Tudo me incomoda, até se falar um bom dia, que bom dia. Eu queria só ficar deitada, \nmas não posso. Se pudesse dormia três dias...” ESE 083; “Eu tenho vontade de bater em \nalguém quando me tiram da minha zona de conforto... quero ficar sozinha. Eu quero cavar um \nburaco e ficar lá dentro”. ESE 075; “E quando eu estou assim, parece que eu quero bater em \ntodo mundo. Não pode me olhar de jeito nenhum. Ai eu me isolo para não machucar ninguém” \nESE 084;“Eu choro muito, quero ficar sozinha, se eu pudesse me enfiava num buraco e ficava \nsozinha, sem ninguém perto.” ESE 054;“Fico em casa deitada, é uma dor chata, aqui te \ncorroendo, então você não tem animo para conversar e trabalhar, muito menos trabalhar...” \nESE 009;“Com a dor que eu sinto eu não tenho animo, eu só trabalho porque sou obrigada, \nporque se eu pudesse ficava o período inteiro da menstruação em casa...” ESE 010   \nA categoria: Viver em função das adversidades trazidas pela dor codifica todas as \nreferências ou verbalizações das participantes acerca de:  \n“Acho que isso é por causa da dor, se não tiver ela é por causa dela, não tem como ter \ndor e tá bem, bem-humorada e feliz. Então ela é a causadora de tudo” ESE 055; “Mas parece \num filme de terror você tá bem e de repente começa a sentir dor de novo, será que é da minha \ncabeça, será que tô loca. Realmente a dor comanda a vida da gente...” ESE 009; “Nada, nada, \nnão tenho vontade de fazer nada! Tentei fazer uns fuxico lá e já encostei, nada menina, sabe o \nque é nada? Minha mãe fala que eu tenho que fazer alguma coisa, não quero fazer mais nada” \nESE 025;“Eu trabalho porque eu preciso, porque não dá ânimo, bate uma angustia, é \ninexplicável você não entende o porquê você sente aquilo.” ESE 008;“Vontade de ficar \ndeitada, uma fraqueza assim não sei te explicar, não dá vontade de fazer nada, parece que o \ncorpo tá pesado...” ESE 071;“Você não sente vontade de fazer nada, você quer ficar quieta, \ntudo te irrita antes eu não tinha nada disso, era uma vida normal sem preocupação, mas depois \ndisso...” ESE 004;“Então é assim, você não consegue ter uma rotina quando se ta com a crise, \nquando ta atacada né, então é um dos maiores problemas que eu enfrento...” ESE 007. \n\n \nApêndices_______________________________________________________________ 86 \n \n \nA categoria: Abster da relação sexual devido ao medo de sentir dor codifica todas \nas referências ou verbalizações das participantes acerca de:  \n“Mas eu sempre tive dor na relação, sempre fugi, evitava e onde a gente arruma briga \ncom o esposo e o clima fica pesado.” ESE 017; “Eu não podia nem pensar em ter relação, meu \ncasamento ficou numa situação horrível...” ESE 052; “Você é casada, quer ter relação com \nseu marido, sente dor, perde aquela vontade. Então tudo isso te coloca para baixo...” ESE 012; \n“Ainda bem que eu tenho um marido que tem paciência comigo.” ESE 004; “Meu marido as \nvezes não entende, porque como não descobre, não cura... não tem um tratamento...” ESE \n077;“Tipo assim, não posso ter relação, e quase meu marido me largou por causa da dor” \nESE 072;“Quando vou namorar também dói, parece que estou sendo estuprada. Eu estou \napenas servindo ele, mas não sinto prazer” ESE 041;“Eu vivo em uma união homo afetiva, \nnão tenho sempre relação sexual com a minha parceira e agradeço que não é um homem \nporque senão já tinha acabado ... mas até sem penetração eu sinto dor, o simples contrair a \nbarriga já doi” ESE 075. \nA categoria: Enxergar na automedicação a solução para a dor codifica todas as \nreferências ou verbalizações das participantes acerca de:  \n“Não... não tem como lidar com ela sem medicamento”. ESE 071;“Eu faço o que todo \nbrasileiro faz, automedicação”. ESE 075;“Sim com o uso de medicação, as vezes eu tenho que \nir pro pronto socorro tomar na veia porque só via oral não adianta, e só medicação mesmo...” \nESE 007;“Às vezes vou lá tomo um remédio, a dor não passa, não adianta remédio pra dor, já \ntomei muito remédio pra dor... é difícil a dor passar, eu paro e fico quieta, e aí vai amenizando, \nmas é ruim...” ESE 003;“Tem dia que é difícil suportar, mas de dia eu tomo a medicação e vou \ntrabalhar. É uma dor assim que eu fico suportando né...” ESE 080;“Quando ela está forte eu \ntomo remédio para passar, agora no dia a dia, a gente começa a conviver com ela, tem dias \nque ela aumenta muito, a gente queria tirar ela dali, mas não tem como”. ESE 052;“Lavo, \npasso, cozinho, só não limpo casa porque não posso mexer com rodo e vassoura, faço crochê, \nflores de EVA, procurando ocupação porque eu não consigo ficar parada”. ESE 017. \nA categoria: Adaptar-se positivamente diante das adversidades trazidas pela dor \ncodifica todas as referências ou verbalizações das participantes acerca de: \n“Antes eu sentia a dor todo dia, era uma dor mais suportável e agora eu vi que não era. \nParece que a gente acostuma com a dor”. ESE 077;“ Tento fazer o possível para me \nacostumar. Porque se levar tudo ao pé da letra você fica pirada. Eu tento ocupar a minha \ncabeça”. ESE 081;“Eu estou procurando ter uma qualidade de vida para não ter dores \n\n \nApêndices_______________________________________________________________ 87 \n \n \nconstantes. Acredito que posso encontrar essa qualidade de vida”. ESE 038;“Eu procuro me \narrumar, sair para rua ... dou uma volta no centro no meu tempo, aí me acalmo... ESE 021; \n“Geralmente é o trabalho que me tira do foco da dor. Agora que eu estou de férias eu penso \nmais na dor sem muita ocupação mental”. ESE 042;“Ai procuro fazer caminhada no final do \ndia... tudo vai me ajudando um pouco para não ficar com o pensamento fixo na dor”. ESE \n081;“Mas não me deixo abater por causa disso não. Eu vivo hoje. Não deixo me abater. Não \né verdade. Vai dar certo” ESE 070;“Tem que fingir que você não tem. Você tem mas finge que \nnão tem porque se pôr na cabeça você não faz nada nada mesmo! ” ESE 016;“Antes eu queria \nmorrer, mas eu estou aprendendo a lidar com isso, eu agradeço a Deus pelo dia, e imploro \npara ele que o amanhã seja melhor”. ESE 033;“Se você ficar sozinha você fica mais deprimida. \nNo começo eu tinha vontade de me matar, me jogar debaixo do caminhão, mas agora eu \naprendi a lidar com a dor. ” ESE 054","source_license":"CC0","license_restricted":false}