Abstract
SAWA, A.G. Effect of intrauterine administration of CXCL12 or mesenchymal stem
cells on pregnancy outcomes in mice with induced endometriosis . 2023. Thesis (Master
Degree in Sciences ) – Graduated Program in Ginecology and Obstetrics, Ribeirão Preto
Medical School, University of São Paulo, Ribeirão Preto, 2023.
It´s well known that women with endometriosis have their fertility compromised, however,
the mechanisms by which this occurs are unclear; one of the possible factors involved is
embryonic implantation, which seems to be impaired due to low endometrial receptivity. This
characteristic may be related to the possible reduction of stem cell trafficking for the
endometrial repair process due to the possible traffic of these reparative cells to the ectopic
foci of the disease. In this context, the chemokine CXCL12 and its ligand CXCR4 create a
chemical gradient that redirects the migration of non -hematopoietic stem cells to the
administered site, in addition to this substance being involved in angiogenesis and tissue
repair at t he site. Also as a therapeutic alternative, multipotente mesenchymal stromal cells
(MSCs) injected locally could help in this tissue repair. This project aims to evaluate the
effect of administering CXCL12 and MSCs injected directly into the uterus on preg nancy
rates and placental characteristics in subfertile mice with induced endometriosis compared to
sham animals. For this, wild -type C57BL/6 mice were submitted to surgical endometriosis
induction, with suturing of donor uterine fragments (four hemihorns) in the parietal
peritoneum bilaterally. And in the sham group, also surgical, only single suture points without
uterine tissue were performed. Four weeks later, these two groups were subdivided to receive
one of three treatments: intrauterine injection of CXCL12 or MSC (from GFP+ donors), or
placebo. Females from all groups (EndoCX, Endo MSC, EndoPl, ShamC X, Sham MSC and
ShamPl) were allowed to mate for up to four weeks with fertile males one week after
receiving treatment. After being identified as pregnant, these animals were submitted to
cesarean section, close to term, to collect the placentas with adjacent uterine fragment and
umbilical cord. In addition, a uterine fragment was collected from females that became
pregnant and the complete uterine horn from females considered infertile. Reproductive
clinical outcomes were obtained in the ShamPl, ShamCX and ShamMSC groups of 100.0%
pregnancy. In the EndoPl group, only 50.0% of pregnancy was observed, with recovery of
pregnancy rates in the endometriosis groups treated with CXCL12 and MSC, with pregnancy
rates of 100% in both groups (p=0,0168). However, in the immunofluorescence analysis,
MSCs were not identified in the placenta -decidualized endometrial complexes of the groups
treated with MSCs. Therefore, it is possible that MSCs, whether attracted by CXCL12 or
injected directly into the uterine tissue, had a favorable effect on placental development, but
without direct participation in its composition. Thus, there may have been secretion of local
substances or t he triggering of molecular processes not evaluated in this study, such as
molecules involved in the process of endometrial receptivity for embryonic implantation.
Keywords
Endometriosis, Mesenchymal Stromal Cells, CXCL12, Cell migration.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Desenho do estudo...................................................................................................29
Figura 2 – Cultivo das células estromais mesenquimais multipotentes....................................31
Figura 3 – Cirurgia de indução de endometriose......................................................................34
Figura 4 – Procedimento sham..................................................................................................34
Figura 5 - Cornos uterinos antes e após injeção dos tratamentos.............................................36
Figura 6 – Fenotipagem da população de células estromais mesenquimais multipotentes
isoladas, cultivadas e injetadas nos animais dos grupos CEM.................................................46
Figura 7 – Gráfico das taxas de gestação por grupo do estudo.................................................47
Figura 8 – Distribuição de peso das fêmeas grávidas no momento da cesárea........................48
Figura 9 – Representação do processo de coleta dos complexos placenta -endométrio
decidualizado............................................................................................................................49
Figura 10 – Análise histomorfométrica das placentas por meio de coloração HE...................51
Figura 11 – Marcação para GFP por imunofluorescência no complexo placenta -endométrio
decidualizado nos grupos que receberam a injeção das CEMs.................................................52
LISTA DE SIGLAS
α-MEM Meio Essencial Mínimo Alfa
BSA Albumina Sérica Bovina
CD11b Cluster de Diferenciação 11b
CD34 Cluster de Diferenciação 34
CD31 Cluster de Diferenciação 31
CD45 Cluster de Diferenciação 45
CEUA Comissão de Ética no Uso de Animais
CEM Célula Estromal Mesenquimal Multipotente
CXCL12 Quimiocina C-X-C com Ligante 12
CXCR4 Receptor 4 da quimiocina C-X-C
DAPI 4’,6’-diamino-2-fenil-indol
EDTA Ácido etilenodiamino tetra-acético
EUA Estados Unidos da América
FMRP Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto
GFP Proteína verde fluorescente
GnRH Hormônio liberador de gonadotrofina
LEEA Laboratório de Estudos Experimentais em Animais
NK Natural killer
PBS Solução Salina Tampão de Fosfato
PE Ficoeritrina
PL Placebo
SCA-1 Antígeno de Célula Tronco 1
SFB Soro Fetal Bovino
SUS Sistema Único de Saúde
USP Universidade de São Paulo
LISTA DE SÍMBOLOS
+ Adição
± Mais ou menos
ºC Grau Celsius
% Porcentagem
= Igual
Ʃ Somatória
< Menor
μL Microlitro
μg Micrograma
µm Micrometro
cm Centrímetro
c/ Com
CO2 Gás carbônico
g Grama
h Hora
kg Quilograma
M Molar
mg Miligrama
mm3 Milímetro cúbico
mL Mililitro
mm² Milímetro quadrado
min Minutos
n Número
rpm Rotação por minuto
seg Segundos
v/v Porcentagem em volume
X Vezes
SUMÁRIO
1. Introdução...........................................................................................................................14
1.1. Endometriose: Sintomas e Diagnóstico.......................................................................15
1.2. O tratamento da Endometriose....................................................................................16
1.3. Endometriose e Células Estromais Mesenquimais Multipotentes...............................17
1.4. Endometriose e CXCL12.............................................................................................20
2. Justificativa.........................................................................................................................22
3. Objetivos.............................................................................................................................24
3.1. Objetivo primário.........................................................................................................25
3.2. Objetivos secundários..................................................................................................25
4. Hipóteses.............................................................................................................................26
5. Material e Métodos.............................................................................................................28
5.1. Animais........................................................................................................................29
5.2. Desenho do estudo.......................................................................................................29
5.3. Isolamento de células estromais mesenquimais multipotentes....................................30
5.4. Fenotipagem das CEM cultivadas...............................................................................31
5.5. Indução de endometriose e sham cirúrgico..................................................................32
5.6. Injeção uterina dos tratamentos propostos...................................................................34
5.7. Acasalamento dos animais...........................................................................................36
5.8. Resolução da gestação por cesárea..............................................................................37
5.9. Coloração com Hematoxilina e Eosina e análise histomorfométrica dos complexos
placenta-endométrio decidualizado.............................................................................37
5.10. Imunofluorescência dos complexos placenta -endométrio decidualizado dos grupos
tratados com CEM (GFP positivas)....................................................................................38
5.11. Descrição dos desfechos............................................................................................39
5.12. Cálculo amostral........................................................................................................40
5.13. Análise estatística.......................................................................................................40
6. Resultados e Discussão.......................................................................................................41
7. Conclusão............................................................................................................................57
REFERÊNCIAS..................................................................................................................59
ANEXOS............................................................................................................................64
ANEXO A – Representação da população de CEM por citometria de fluxo.....................65
ANEXO B - Aprovação para execução do projeto pelo CEUA.........................................66
1. Introdução
14
1.1. Endometriose: Sintomas e Diagnóstico
A endometriose é uma desordem crônica inflamatória dependente de estrogênio. Ela é
caracterizada pela presença de tecido endometrial glandular ou estromal fora da cavidade
uterina (Giudice & Kao, 2004; Miller et al., 2 017). É considerada uma doença multifatorial,
possuindo fatores genéticos, endócrinos, imunológicos, microbiológicos e ambientais
relacionados à sua gênese (Giudice & Kao, 2004; Senapati & Barnhart, 2011; ASRM, 2012).
Essa doença acomete de 6 a 10% das mul heres em idade reprodutiva e de 35 a 50% das
mulheres que apresentam infertilidade e/ou dor pélvica associadas (Senapati & Barnhart,
2011; ASRM, 2012).
O diagnóstico da doença é muito difícil, devido à heterogeneidade dos sintomas, que
normalmente incluem dor pélvica inte nsa, dismenorreia, dispareunia , sintomas evacuatórios
ou urinários pré -menstruais, sangramento menstrual intenso e irregular e infertilidade. Além
disso, mulheres com endometriose possuem maior risco de desenvolver infecções, alergias,
doenças autoimun es, síndromes metabólicas e ocorrência de alguns tipos de câncer,
principalmente o câncer de ovário e mama (Wang et al., 2020).
Existem ainda os transtornos psicológicos, emocionais e sociais frequentemente
relacionados à endometriose devido a o impacto dos sintomas associados à doença e a
interferência na qualidade de vida da mulher, gerando impactos negativos na relação social e
conjugal da mesma (Nácul & Spritzer, 2010).
Além disso, existem casos assintomáticos (por volta de 16 a 25 % das pacientes
acometidas pela doença), dificultando ainda mais o diagnóstico. Atualmente, o diagnóstico
definitivo ocorre somente após laparoscopia ou videolaparoscopia seguida ou não de biópsia
das lesões. Porém também são utilizados exames menos invasivos para auxiliar esse processo,
como os exames físicos, laboratoriais e de imagem, sendo estes: ultrassom transvaginal,
ressonância magnética e tomografia computadorizada (Kitawaki et al., 2003; Giudice & Kao,
2004).
Normalmente, o tempo até um diagnóstico defi nitivo é muito extenso. Estima -se que o
tempo médio entre os primeiros sintomas e a confirmação do diagnóstico pode levar até oito
anos e normalmente as mulheres são diagnosticadas apenas na sua terceira ou quarta década
de vida. Com isso, frequentemente o corre à progressão da doença e de seus sintomas até o
início do tratamento (Giudice & Kao, 2004; Hogg & Vyas, 2015).
Estima-se que de 35 a 50% das mulheres com endometriose possuem infertilidade como
um sintoma associado à doença (Bulletti et al., 2010; Stilley et al., 2012; Rosa -e-Silva et al.,
15
2019). Neste contexto, existem diversos mecanismos biológicos que procuram explicar essa
relação, tais como anatomia pélvica distorcida , principalmente quando a doença está em fase
avançada. Dessa forma, podem ocorr er anormalidades no transporte uterotubário devido a
aderências locais que ocasionam alterações anatômicas na região pélvica. Além disso , ainda
podem ocorrer anormalidades endócrinas, alterações no sistema de imunidade humoral e
celular e foliculogênese alterada (ASRM, 2012; Fox et al., 2016; Miller et al., 2017).
Outro importante fator encontrado na relação endometriose e infertilidade, apesar de ainda
controverso, é a implantação embrionária prejudicada devido à baixa receptividade
endometrial apr esentada por mulheres acometidas pela doença. Um estudo demonstrou que
mulheres com endometriose possuíam uma expressão endometrial reduzida de αVβ3 integrina
durante o período de implantação embrionária. Além disso, algumas mulheres apresentaram
níveis reduzidos de uma enzima envolvida na síntese do ligante endometrial com a L -seletina,
proteína presente no trofoblasto embrionário (Bulletti et al., 2 010). Outros estudos
demonstraram que m ulheres com endometriose apresentam citocinas pró -inflamatórias e
quimiocinas envolvidas com inflamação, angiogênese e fatores de crescimento tecidual
alterado no plasma e líquido peritoneal , podendo afetar a receptiv idade endometrial das
mesmas (Stilley et al., 2012; Miller et al., 2017; Rosa-e-Silva et al., 2019).
1.2. O tratamento da Endometriose
A endometriose não possui cura, mas é controlada clinicamente para se evitar a
progressão da doença. O tratamento da mesma é individualizado para cada mulher,
dependendo da progressão da doença, sintomas, idade e desejo de concepção.
Para controle da doença normalmente são utilizados medicamentos como os
contraceptivos orais combinados, agonista de GnRH e anti-inflamatórios não esteroidais, além
do procedimento cirúrgico para retirada do tecido endometrial ectópico nos casos refratários
aos tratamentos clínicos ou na tentativa de restabelecer a anatomia normal da pelve feminina
geralmente nos casos de infertilidade (Giudice & Kao, 2004; Bulletti et al., 2010; Hogg &
Vyas, 2015).
Em mulheres com desejo de concepção os tratamentos orais não são indicados , pois
geralmente s ão medicações anticoncepcionais com inibição da ovulação. Além disso,
comprometem o preparo do endométri o para posterior implantação embrionária e futura
gestação (Nácul & Spritzer, 2010).
De acordo com estudo publicado em 2009, a ablação cirúrgica das lesões parece não
16
melhorar as taxas de gravidez espontânea após nove a doze meses da cirurgia excisional, e em
metanálise recente o procedimento cirúrgico não melhorou a fertilidade das mulheres com
endometriose (Leonardi et al., 2020). Além disso, a intervenção cirúrgica ainda apresenta
taxas significativa s de morbidade e complicações (Filip et al., 2020) e um número
significativo de pacientes apresenta recidiva dos sintomas (Cezar & Freitas, 2009).
Dessa forma , a única alternativa para possibilitar a gestação em mulheres com
endometriose e desejo de concepção é a utilização das técnicas de reprodução assistida de
baixa e/ou alta complexidade , já que atualmente não existem tratamentos medicamentosos
que incrementem a fertilidade natural dessas mulheres (Tomassetti & D’Hooghe, 2018).
Porém, as técnicas de reprodução assistida ainda são inacessíveis para a maioria da
população, principalmente nos países em desenvolvimento, como o Brasil. Os cuidados com a
infertilidade são frequentemente negligenciados pelos governos locais, sendo assim, esse
serviço apresenta-se indisponível ou apenas disponível a custos muito altos para a maioria da
população (Makuch et al., 2011).
Um estudo mostrou que 19 dos 25 estados nacionais não possuem atendimento para
infertilidade. No país foram identificados apenas 13 centros que oferecem serviços de atenção
de baixa e/ou alta complexidade na área que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Além da baixa oferta desse serviço no país, existe uma fila de espera de três meses a seis anos
nos locais em que é possível se utilizar desses serviços gratuitamente ou a custos menores
quando comparados a clínicas privadas de fertilização assistida (Makuch et al., 2010; 2011;
2012).
Diante do exposto, faz -se necessário a busca de novas alternativas terapêutic as
medicamentosas pouco -invasivas que incre mentem a fertilidade natural destas mulheres
inférteis com endometriose.
1.3. Endometriose e Células Estromais Mesenquimais Multipotentes
O processo de reparo endometrial fisiológico cíclico ocorre com a participação de diversas
populações celulares envolvidas na regeneração de vasos, glândulas e estroma. Para esse
processo ocorre o recrutamento de células endoteliais locais provenientes de vasos sanguíneos
vizinhos; células progenitoras endoteliais circul antes no sangue periférico proveniente da
medula óssea; além de células estromais advindas também da medula óssea (Mints et al.,
2008; Gargett et al., 2012; Zhao et al., 2015; Hufnagel et al., 2015; Pluchino & Taylor,
2016). Esses achados em modelo murino estão em consonância com os achados em humanos,
17
descrito por Taylor e colaboradores (2004) em que mulheres receptoras de transplante
alogênico de medula óssea apresentaram células endometriais dos doadores em biópsias
endometriais.
Sendo assim, pode-se sugerir que de fato as células estromais derivadas da medul a óssea
(ou seja, células estromais não uterinas) podem diferenciar-se em endométrio uterino humano,
podendo então auxiliar no processo de regeneração desse tecido e contribuir futur amente na
melhora da implantação embrionária.
Em 2005 a Sociedade Internacional de Terapia Celular introduziu o seguinte termo:
células estromais mesenquimais multipotentes (do inglês multipotente mesenchymal stromal
cells) para referir -se à população celu lar com características típicas de uma célula tronco.
Dessa forma , essas células possuem características de crescimento aderentes ao plástico
formando colônias, apresentam alta capacidade multipotencial in vitro de proliferação e
diferenciação em diferentes tipos celulares, além de morfologia fibrobla stoide (Lindner et al.,
2010; Castro-Manrreza & Montesinos, 2015).
As células estromais mesenquimais multipotentes (CE Ms) são células estromais adultas
de linhagem não -hematopoiética, que contribuem com a homeo stase tecidual. Sendo assim,
podem contribuir com a regeneração de tecidos mesenquimais, como ósseo, cartilaginoso e
adiposo, além de dar suporte à hematopoiese da região (Pittenger et al., 1999). Além disso, foi
descoberto que são células capazes de se diferenciarem também em diferentes tipos celulares,
como neurônios, hepatócitos, cardiomiócitos e células endoteliais. Então, o emprego das
CEMs é uma importante fonte de estudo para tratamento de diversas doenças, como cardíacas,
neurológicas e também no sistema reprodutor feminino (Nombela-Arrieta et al., 2011).
As CE Ms podem ser isoladas a partir de diversos tecidos, como músculo esquelético,
tecido adiposo, sangue menstrual, cordão umbilical, tecidos fetais e mais comumente a partir
da medula óssea. Porém, normalmente as CE Ms estão presentes em pequenas quantidades
nesses locais. Por exemplo, na m edula óssea, há cerca de 0,01 a 0,001% de células
mesenquimais em relação ao número total celular (Castro-Manrreza & Montesinos, 2015 ).
Dessa forma, faz -se necessário a utilização de protocolos para o isolamento e caracterização
dessas células, como realizado pelo presente projeto com base nos estudos de Zhu e
colaboradores (2010).
As células tronco totais e especificamente estromais mesenquimais provenientes da
medula óssea podem estar relacionadas com o processo reparativo do endométrio feminino.
Em 200 7, Du e Taylor realizaram um transplante de células tronco totais provenientes da
medula óssea de camundongos machos em fêmeas. Após o transplante, 0,1% das células do
18
estroma e 0,04% das células epiteliais do útero eram de origem do doador. Com isso, sugere -
se a contribuição de células extra -uterinas na regeneração do endométrio ectópi co. De forma
análoga Tal e colaboradores (2016) demonstra ram a presença de células estromais da medula
óssea de camundongos transgênicos GFP positivo em 71,8% das células do estroma
endometrial de camundongos não transgênicos que receberam o transplante.
De acordo com estudos anteriores, a migração de células tronco /estromais da medula para
este processo reparativo parece estar comprometido na presença da endometriose (Pluchino &
Taylor, 2016), e este defeito pode ser reproduzido em modelo de endome triose experimental
induzida em camundongos (Sakr et al., 2014). A indução de endometriose em camundongos
fêmea causou perda parcial da fertilidade destes animais, reduzindo pela metade a taxa de
gravidez mensal (Rosa -e-Silva et al., 2019). Considerando -se este comprometimento na
capacidade de atrair células de reparo para o útero e a redução na expressão de genes
relacionados a marcadores de receptividade endometrial presentes nos indivíduos portadores
de endometriose, poderia se aventar a possibilidade de que estes m ecanismos estejam
interligados. Sendo assim, a menor migração de células tronco /estromais impactaria na
capacidade deste tecido em expressar moléculas básicas para o processo de implantação
embrionária como um dos mecanismos de infertilidade li gados à endometriose (Rosa -e-Silva
et al., 2019). Em contrapartida, o uso de quimioatrator nos animais com endometriose
induzida, recuperou parcialmente a capacidade reprodutiva dos animais (Rosa -e-Silva et al.,
2022).
Neste sent ido, a infusão de células e stromais mesenquimais, provenientes da medula
óssea, diretamente na cavidade uterina promove melhorias histológicas no endométrio, como
aumento da espessura endometrial e no número de glândulas e capilares endometriais em
comparação com o grupo controle , na espécie murina . Neste mesmo estudo foi demonstrado
um aumento na expressão de genes marcadores de receptividade endometrial (αVβ3 integrina
e LIF) no grupo transplantado, aproximando-se ao grupo controle (Zhao et al., 2015).
Hufnagel e colaboradores (2015) sugeriram a importância do tráfico celular em murinos
com endometriose induzida cirurgicamente e sua correlação com a ba ixa rec eptividade
endometrial dos mesmo s. No estudo, camundongos selvagens sofreram endometriose
induzida por meio de cornos GFP positivos, e esses animais curiosamente expressaram a
proteína GFP em células endometriais na camada basal do endométrio, e não no revestimento
epitelial do lúmem ou dentro das glândulas. Além disso, essas células apresentavam uma
expressão aumentada de Snail1, Snail3, Goosecoid e baixa express ão de Zeb2, genes
associados à transição celular epitelial à mesenquimal. Essas células, provenientes da
19
endometriose, iniciaram uma ativação da via de sinalização Wnt, indicando que elas possuíam
características epiteliais, mas ao mesmo tempo elas não se encontravam no epitélio. Com isso,
havia uma sinalização ineficiente do gradiente de moléculas de sinalização entre o epitélio e o
estroma, uma atividade essencial para a receptividade endometrial murina (Pluchino &
Taylor, 2016; Ojosnegros et al., 2021).
Dessa forma, sugere -se que a presença dessa população celular pode ser de grande
importância para um novo potencial tratamento da relação endometriose e infertilidade devido
a possível baixa receptividade endometrial ligada à doença.
1.4. Endometriose e CXCL12
O CXCL12 é uma quimiocina que possui como um de seus ligantes o CXCR4.
Naturalmente, o CXCL12 é produzido em células epiteliais e estromais endometriais, e
normalmente expresso em locais de inflamação e lesão, assim como ocorre em mu lheres
acometidas com endometriose (Hufnagel et al., 2015; Wang et al., 2015; Moridi et al., 2017).
O estradiol estimula a produção de CXCL12 a partir de células estromais endometriais e de
CXCR4 em células tronco derivadas da medula óssea, sugerindo um p apel desta quimiocina
no recrutamento de células tronco/estromais para o útero (Wang et al., 2015).
A mobilização e localização das células tronco /estromais são reguladas por quimiocinas,
sendo assim, a concentração de CXCL12 cria um gradiente químico que direciona a migração
de células tronco não hematopoiéticas, além de estar envolvido na an giogênese e reparação
tecidual. Porém, estudos sugerem que as células estromais advindas da medula óssea podem
ser atraídas para os focos de lesão de endometriose, pela via de sinalização CXCL12 e seu
receptor CXCR4; dessa forma , o endométrio tópico (intrauterino) pode apresentar
recrutamento reduzido dessa população celular, podendo prejudicar assim sua capacidade
regenerativa local, sugerindo uma infertilidade devido à baixa receptividade endometrial local
(Sakr et al., 2014, Wang et al., 2015).
Estudo de Koo e colaboradores (2021) demonstrou que o CXCL12 auxilia na angiogênese
endometrial por meio da contribuição na formação de células endoteliais microvasculares do
endométrio murino, por exemplo. Além disso, está relacionada com a ativação de sinalização
intra e intercelular da quimiocina e seus receptores, auxiliando na relação embrião-endométrio
durante a implantação embrionária.
Um estudo previamente desenvolvido por nosso grupo de pesquisa demonstrou que o uso
do CXCL12 em camundongos subférteis com endometriose induzida promoveu aumento das
20
taxas de gestação nos animais doentes, de 50% para 78%, aproximando a capacidade
reprodutiva destes animais à do grupo controle sem endometriose (Rosa -e-Silva et al., 2022).
Porém, o mecanismo pelo qual esta melhora ocorreu não está completamente elucidado.
Verificou-se uma melhora na expressão de marcadores de receptividade endometrial, tais
como aumento na expressão de receptores de progesterona e de αV β3 integrina, porém não se
sabe se por ação direta sobre o tecido endometrial ou mediado por células tronco /estromais,
por exemplo. Neste mesmo estudo, os animais haviam sido transplantados com células tronco
totais (incluindo as estromais mesenquimais GFP positivas), via intravenoso, antes do uso do
CXCL12, porém não foram encontradas células GFP no útero das fêmeas após o parto. Para
isso foram aventadas duas possibilida des, ou as células haviam tido um papel importante na
decidualização do endométrio e eventualmente na composição da placenta ou houve um efeito
secundário do CXCL12 diretamente sobre o tecido uterino. Este estudo pretende verificar o
efeito da injeção direta de CEMs no útero pré-gestacional e verificar se há ou não participação
das mesmas no desenvolvimento placentário, bem como verificar o efeito do CXCL12 sobre a
estrutura da placenta.
21
2. Justificativa
22
A endometriose é uma doença que acomete de 6 a 10% das mulheres em idade
reprodutiva e de 35 a 50% das mulheres que apresentam infertilidade . Acredita -se que a
doença possa estar relacionada com piora da receptividade endometrial e, portanto, redução
das taxas de implantação embrionária. Porém, os mecanismos envolvidos nessa relação ainda
não estão bem elucidados e esclarecidos.
Acredita-se que na ocorrência da doença, os focos de tecido endometrial ectópicos
direcionam as células estromais mesenquimais locais e estruturas de regeneração tecidual para
si, reduzindo a migração destas células para o útero. Portanto, a regeneração do útero e sua
receptividade para implantação embrionária poderia estar afetada devido a esse fator.
Nesse contexto, há estudos sugerindo que células estromais mesenquimais provenientes
da medula óssea podem estar relacionadas com o processo reparativo do endométrio feminino
e a utilização de cél ulas estromais mesenquimais como potencialmente promissoras no
tratamento de doenças inflamatórias, como a endometrios e. Além disso, é sugerida por outros
estudos a importância da quimiocina CXCL 12 na migração de células estromais
mesenquimais para a re gião em que ela é administrada. Já foi demonstrado por nosso grupo
de pesquisa que a utilização de CXCL12 no útero de cam undongos fêmeas com endometriose
induzida cirurgicamente promoveu aumento na taxa de gestação desses animais em relação ao
controle, bem como o aumento na marcação imunohistoquímica de receptores de
progesterona e αV β3 integrina no endométrio dos animais t ratados, ambos marcadores
relacionados à receptividade endometrial para implantação. Porém, não foi possível elucidar
se a melhora nos resultados reprodutivos ocorreu ou não pela intermediação de células
estromais mesenquimais.
Sendo assim, o presente estu do pretende verificar o efeito da injeção direta de CE Ms no
útero pré-gestacional e verificar se há ou não participação das mesmas no desenvolvimento
placentário, bem como verificar o efeito do CXCL12 sobre as estruturas da placenta.
23
3. Objetivos
24
3.1. Objetivo primário
Avaliar o efeito da administração de células estromais mesenquimais ou de CXCL12
injetados diretamente no útero de camundongos fêmeas sobre as taxas de gestação de
camundongos subférteis portadores de endometriose induzida cirurgicamente em relação ao
controle.
3.2. Objetivos secundários
• Comparar a morfologia da placenta dos seis grupos estudados.
• Avaliar a presença ou não de células estromais mesenquimais no complexo placenta-
endométrio decidualizado.
25
4. Hipóteses
26
• A administração de células estromais mensenquimais ou de CXCL12 isoladamente
no útero dos animais dos grupos com endometriose induzida terá efeito benéfico
nos desfechos reprodutivos.
• Existirão CEMs na estrutura da placenta no grupo que recebeu a injeção uterina
dessas células como tratamento.
27
5. Material e Métodos
28
5.1. Animais
Como modelo experimental foram utilizados camundongos ( Mus musculus) selvagens da
linhagem C57BL/6 e C57BL/6 transgênicos (GFP positivos) de seis a oito semanas de vida.
Os animais foram ambientados no Laboratório de Estudos Experimentais em Animais
(LEEA) – Hemocentro de Ribeirão Preto. Eles foram distribuídos em gaiolas adequadas (n =
4 a 5 animais/caixa), com acesso a água e ração ad libitum. Houve controle ambiental, com
ciclo de claro e escuro de 12 horas cada (0 6h00 – 18h00), temperatura de 22 ± 2ºC. Todos os
animais foram tratados seguindo os protocolos aprovados pela Comissão de Ética no Uso de
Animais (CEUA) da FMRP-USP (Anexo B).
5.2. Desenho do estudo
Figura 1. Fluxograma do desenho do estudo.
C57BL/6
(6 a 8 semanas)
n = 36 animais
Isolamento e cultivo
de células
mesenquimais
n = 4 machos GFP+
Aguardado 4 semanas
Endometriose
n = 18 animais
Sham
n = 18 animais
Aguardado 1 semana
CXCL12
n = 6
animais
Cels mesenquimais
n = 6 animais
Imunofluorescência
Identificação de
células GFP+
Placebo
n = 6
animais
CXCL12
n = 6
animais
Cels mesenquimais
n = 6 animais
Placebo
n = 6
animais
Doadoras de
corno uterino
n = 18 animais
Contato das fêmeas com
machos (cruzamento)
Duração: até 4 semanas
Cesárea das fêmeas grávidas,
coleta das placentas e
fragmentos uterinos
Coleta de corno
uterino das
fêmeas inférteis
Análises posteriores
29
Coloração de
Hematoxilina e Eosina
Análise
histomorfométrica
5.3. Isolamento de células estromais mesenquimais multipotentes
Para o isolamento foi utilizado o protocolo descrito por Zhu e colaboradores (2010). Para
isso, camundongos machos da linhagem C57 BL/6 transgênicos (GFP positivos; n = 4 ) foram
eutanasiados com sobredose de anestésico Ketamina (90 -120 mg/kg – Fort Dodge Animal
Health) e Xilazina (5 -10 mg/kg - Lioyd Laboratories) via i ntraperitoneal, seguido por
deslocamento cervical e lavados livremente em etanol 70% (v/v).
Em seguida, foi realizada uma incisão na pele da região inguinal do animal, desassociando
os músculos, separando os fêmures abaixo da cabeça femoral e desconectando os membros
posteriores do tronco. Após isso, os úmeros foram dissecados, excisando a pata dianteira dos
axilares.
Então, foi realizada dissecação dos músculos e tendões de úmeros, tíbias e fêmures para
remoção de todo o tecido mole aderido ao osso. Após isso, as epífises foram removidas e a
cavidade medular lavada com PBS 1X (Gibco) até os ossos se tornarem pálidos. Em seguida,
os ossos foram fragmentados em lascas de 1 a 3 mm 3. Os mesmos foram digeridos em 2 mL
de α-MEM + 1 mg/mL colagenase II + 20% SFB (v/v) por 1 a 2 horas em shaker (200 rpm).
Após a digestão em colagenase, os fragmentos ósseos foram semeados em garrafa de
cultura na presença de 5 mL de α-MEM + 20% SFB (v/v) e incubados (5% CO2 a 37ºC) por 3
dias. Nesse período as células mesenquim ais migram da região medula r óssea para a garrafa
(Figura 2.A e 2 .B). Em seguida, o meio de cultura foi completamente removido e substituído
por novo. Após 5 dias foi realizado o mesmo processo. Em seguida, o mesmo procedimento a
cada dois dias até atingir confluência de crescimento de 80% de células na superfície da
garrafa.
Após confluência celular ideal (Figura 2.C e 2 .D) foi realizada a tripsinização do cultivo.
Para isso, foi retirado todo sobrenadante e adicionado 3 mL de tripsina 0,25% 10X c/ EDTA,
incubado por 2 min (5% CO2 a 37ºC) e então adicionado 3 mL de de α -MEM + 5% SFB
(v/v). Após isso, as células (agora no sobrenadante – Figura 2.E) foram transferidas para um
tubo cônico Falcon 15 mL e centrifugadas a 1200 rpm por 5 min. O sobrenadante foi retirado,
e as células ressuspendidas em α -MEM + 20% SFB (v/v). Em seguida, foi realizada a
contagem das células mesenquimais arredondadas e refringentes em câmera de Neubaeur,
após coloração em azul de tripan 0,4% (Figura 2.F), um corante vital de tecidos e células.
Uma parte das células cultivadas foi utilizada para o tratamento dos grupos experimentais
e outra parte das células sob as mesmas condições de cultivo foram identificad as por
fenotipagem em citometria de fluxo. As células foram consideradas ideais para a utilização no
30
estudo na passagem cinco, ou seja, após cinco tripsinizações e replaqueamentos.
Figura 2. Cultivo das células estromais mesenquimais.
Legenda: A) Células mesenquimais em cultura migrando da medula óssea para a superfície da garrafa
de cultura (aumento 10X) (* = fragmento de ossos longos) . B) Células mesenquimais em passagem 1
(primeiro plaqueamento) aderidas à garrafa (aumento 10X). C , D) Células mensenquimais em
passagem cinco com confluência de aproximadamente 80% (C - aumento 10X e D - aumento 40X). E)
Células mesenquimais tripsinizadas, livres no meio de cultura, não aderidas à garrafa . F) Contagem
das células mesenquimais em câmera de Neubauer, após coloração com azul de tripan 4% ,
evidenciando praticamente 100% de células viáveis (refringentes). Fonte: imagens autorais.
5.4. Fenotipagem das CEM cultivadas
As células estromais mesenquimais em passagem cinco do cultivo, condição em que
foram injetadas no útero, foram submetidas a fenotipagem, por meio de citometria de fluxo
(BD FACsCanto) . A fenotipagem para reconhecimento da característica mesenquimal das
células foi realizada por meio da identificação dos seguintes marcadores: SCA-1-PE, CD11b-
PE, CD34 -PE, CD31 -PE e CD45 -PE (todos BD -Pharmingen), além de um tubo sem
marcação e um tubo com o isótopo controle ficoeritrina (PE, do inglês phycoerythrin).
A B
D
C
E F
*
*
31
Tabela 1 – Identificação dos marcadores de superfície celular utilizados na fenotipagem das
células estromais mesenquimais.
Anticorpo Característica Resultado esperado Referência
Antígeno de células
tronco 1 (SCA-1)
Marcador de células
tronco
Positivo Baustian et al., 2015
Antígeno de
macrófago-1b
(CD11b)
Marcador de células
imunes
Negativo Baddoo et al., 2003
Cluster de
diferenciação 31
(CD31)
Marcador de células
endoteliais
Negativo Baddoo et al., 2003
Cluster de
diferenciação 34
(CD34)
Marcador de células
hematopoiéticas
Negativo Sung et al., 2008
Cluster de
diferenciação 45
(CD45)
Marcador de células
hematopoiéticas
Negativo Jabeen et al., 2022
Para isso, foi realizada a tripsinazação das células, como descrito anteriormente (item 5.3)
e o volume de solução contendo o equivalente a 1 milhão de células foi distribuído em tubos
FACS, em volumes iguais. Após isso, o material foi centrifugado (1800 rpm) por 3 min e o
sobrenadante foi descartado . As células foram ressuspendidas em 200 μL de PBS estéril 1X
(Gibco).
Em seguida, em cada tubo com as células estromais mesenquimais foi adicionado 3 μL
dos marcadores utilizados. Os tubos foram incu bados no escuro por 20 min à temperatura
ambiente. Em seguida, foi acrescentado 2 mL de PBS a todos os tubos, e realizada
centrifugação (1800 rpm) por 3 min novamente.
Após isso, foi retirado o sobrenadante por inversão dos tubos. As células, agora marcadas,
foram ressuspendidas em 200 μL de PBS 1X e em seguida foi realizada análise por citometria
de fluxo.
5.5. Indução de endometriose e sham cirúrgico
Os animais foram divididos em dois grupos: endometriose induzida (n = 18 animais) e
sham (n = 18 animais), conforme descrito nos procedimentos abaixo. O protocolo de indução
32
de endometriose cirúrgica foi definido com base em estudos prévios do grupo de pesquisa que
identificou uma quantidade e tamanho de fragmentos que ocasionaram lesões bem
consolidadas de endometriose induzida em 100% dos animais operados e diminuíram
significantemente a fertilidade desses animais em relação aos animais do controle cirúrgico
(sham; Rosa-e-Silva et al., 2019).
Foram utilizadas fêmeas C57BL/6 como doadoras (n = 18 animais) dos cornos uterinos
para viabilizar a indução de endometriose de suas respectivas receptoras. Todos os animais
foram anestesiados via inalatória com indução inicial e controle de pressão de saída de
Isofluorano (Virbac) 3,0% de concentração alveolar . A manutenção durante o procedimento
cirúrgico foi realizada com concentração de 1,5 a 2,0% do mesmo anestésico citado
anteriormente. Além disso, anterior a cirurgia e anestesia do animal, foi administrado
Meloxicam 0,2% na dosagem de 5 mg/kg via subcutânea para analgesia dos animais. Após a
anestesia foi realizada uma incisão laparotômica na linha média do abdômen e retirados os
dois cornos uterinos das doadoras. Os animais doadores foram eutanasiados após a retirada
dos cornos uterinos por meio de sobredosa gem dos anestésicos Ketamina (90 -120 mg/kg –
Fort Dodge Animal Health) e Xilazina (5-10 mg/kg - Lioyd Laboratories).
Posteriormente, ambos cornos foram lavados em PBS, abertos longitudinalmente e
transversamente dividido s em dois fragmentos com 5 mm² cada . Para a indução de
endometriose, as fêmeas receptoras foram também submetida s aos mesmos procedimentos
analgésico e anestésico descritos anteriormente durante e antes da realização das cirurgias.
Com os animais sedados, foi realizada incisão mediana de cerca de 1,5 cm, por planos (pele e
músculo separadamente). Em seguida, utilizando -se Vicryl 5 -0 quatro fragmentos uterinos
(preparo descrito acima) foram suturados ao peritônio parietal dos camundongos fêmeas
receptoras, simetricamente distribuídos na parede peritoneal, dois de cada lado, com ponto
único (Figura 3 .A). Posteriormente, a parede abdominal das receptoras foi fechada em dois
planos, utilizando -se Vicryl 4 -0. Como controle, os animais do grupo sham receberam os
mesmos quatro pontos de sutura peritoneal, porém sem o tecido endometrial (Figura 4.A).
Após o procedimento cirúrgico, o processo de analgesia dos animais foi realizado por
meio de Meloxicam 0,2%, na dosagem de 5 mg/kg via subcutânea, uma vez ao dia, por dois
dias consecutivos, além de admini stração imediatamente antes da cirurgia de indução de
endometriose e sham.
Quatro semanas após a cirurgia de indução de endometriose sabe -se que os animais
apresentam características muito semelhantes à endometriose, como inflamação e adesão
tecidual na re gião dos focos ectópicos da doença , como demonstrado em estudos anteriores
33
desenvolvidos pelo mesmo grupo de pesquisa (Figura 3.B e 3.C).
Figura 3. Cirurgia de indução de endometriose.
Legenda: A) Fragmento uterino suturado em ponto único ao peritônio parietal logo após cirurgia de
indução de endometriose. B e C) Lesão de endometriose induzida no peritônio parietal após quatro
semanas da indução. Fonte: imagens autorais.
Além disso, nos animais sham , é possível visualizar o ponto único de sutura com fibrose
tecidual ao redor do mesmo (Figura 4.B).
Figura 4. Procedimento sham.
Legenda: A) Ponto de sutura único no peritônio parietal, logo após cirurgia de sham. B) Procedimento
sham com pequena fibrose e aderência do fio de sutura ao peritônio após quatro semanas da cirurgia.
Fonte: imagens autorais.
5.6. Injeção uterina dos tratamentos propostos
Após quatro semanas d o procedimento de indução de endometriose ou sham, o s animais
de cada grupo foram subdivididos para receber a administração uterina de CXCL12
A B C
A B
34
(Recombinant Mouse SDF -1α, Gemini -Bio®, West Sacraento -CA, EUA , n = 6
animais/grupo), ou de células estromais mesenquimais previamente isoladas (descrito no item
5.3., n = 6 animais/grupo) ou placebo ( PBS estéril, n = 6 animais/grupo). O tempo de quatro
semanas foi definido com base em estudos prévios do grupo de pesquisa que identificou a
presença de le sões bem consolidadas de endometriose induzida em 100% dos animais
operados após esse período (Rosa-e-Silva et al., 2019). A presença de lesão foi confirmada no
intraoperatório desta segunda laparotomia.
Para a injeção uterina os animais foram anestesiados via inalatória e receberam analgesia
via subcutânea como descrito anteriormente (item 5.5.). Depois de realizada incisão mediana
por planos, os cornos foram expostos para a injeção de 75 µL/corno, diretamente na parede
uterina da quimiocina (CXCL12), ou células mesenquimais ou somente placebo, utilizando-se
seringa e agulha de insulina (Figura 5 ). O volume de 75 µL/corno foi considerado após testes
realizados pelo mesmo grupo de pesquisa, considerando a variação do volume dos cornos
uterinos em cada fase reprodutivas das fêmeas. Sendo assim, o volume utilizado fica
completamente retido no interior dos corn os uterinos, sem extravasamento na região
peritoneal, o que poderia levar a possíveis efeitos secundários inesperados e não desejados
devido ao tratamento não estar concentrado na região de interesse no momento da injeção
uterina.
A dose de CXCL12 administrada foi de 2,5 µg/animal diluídos em água estéril com 0,1%
BSA, com base em estudos anteriores utilizando a mesma substância em trabalhos análogos
ao presente proj eto, além de trabalhos anteriores do mesmo grupo de pesquisa (Rosa-e-Silva
et al., 2022).
Para o grupo de células estromais mesenquimais foram injetados uma concentração de
1x106 de células n o total, ou seja, aproximadamente 500 mil células por corno uteri no. Essa
concentração foi definida com base em estudos que utilizaram células mesenquimais como
alternativa terapêutica, injetadas diretamente no local de ação (Chan et al., 2007; Ezquer et al.,
2008; Guillot et al., 2008; Bazoobandi et al., 2020 ). Já p ara o grupo placebo foi utilizado
apenas PBS estéril (diluente das células mesenquimais). Após as injeções a parede foi
suturada por planos com Vicryl 4-0.
35
Figura 5. Cornos uterinos antes e após injeção dos tratamentos.
Legenda: A) Cornos uterinos anteriores a injeção de um dos três tratamentos propostos. B) Cornos
uterinos após injeção de um dos três tratamentos propostos. Fonte: imagens autorais.
5.7. Acasalamento dos animais
Após uma semana da administração de CXCL12, células mesenquimais ou placebo, as
fêmeas dos seis grupos: endometriose + CXCL12 – (EndoCX); endometriose + células
estromais mesenquimais (EndoCE M); endometriose + placebo (EndoPL); sham + CXCL12
(ShamCX); sham + células estromais mesenquimais (S hamCEM) e sham + placebo
(ShamPL) foram expostas a machos férteis , previamente testados, por um período de até 4
semanas seguidas (com alternância dos machos entre as caixas semanalmente).
Para verificar a ocorrência de prenhez a s fêmeas foram pesadas logo antes de serem
expostas aos machos, novamente após uma semana de exposição aos machos e posteriormente
a cada dois ou três dias para verificar um ganho anormal de peso o que seria s ugestivo de
prenhez. Fêmeas que possuíam mais de 24 g e um incremento equivalente a um grama por dia
eram consideradas potencialmente grávidas e então, separadas dos machos.
As fêmeas que chegavam próximo ao peso de 28 a 30 g durante esse período foram
submetidas a parto cirúrgico (cesárea) e posteriormente foram eutanasiadas com sobredose de
anestésico (como descrito no item 5.5.). As fêmeas que não engravidaram durante o período
de exposição aos machos, foram isoladas e obse rvadas por um período adicional de 10 a 15
dias após o isolamento (sem contato com machos) para confirmar a não ocorrência da
gestação, somente após este período foram consideradas como inférteis . As fêmeas inférteis
também tiveram seus cornos uterinos coletados para análise histológica posterior.
A B
36
5.8. Resolução da gestação por cesárea
As fêmeas grávidas com peso de aproximadamente (28 a 30 g) foram submetidas à
analgesia e anestesia conforme descrito anteriormente (item 5.5.). Depois de confirmada a
perda de consciência, foi realizada uma incisão laparotômica na linha média do abdômen e
expostos os dois cornos uterinos. Em seguida, ambos cornos foram abertos na região mais
distal, ex pondo o(s) conjunto(s) placenta /feto. Com isso, o número de placentas em cada
corno uterino foi contabilizado e retirado para posterior análise em conjunto com o tecido
uterino adjacente, sendo assim os fragmentos coletados apresentavam de um lado o cordão
umbilical e do outro a parede uterina adjacente à placenta . Além disso, um fragmento do
corno uterino sem placenta foi coletado para análise histológica posterior (Figura 9).
5.9. Coloração com Hematoxilina e Eosina e análise histomorfométrica dos complexos
placenta-endométrio decidualizado
As amostras coletadas do s complexos placenta -endométrio decidualizado foram fixa das
em parafor maldeído 4% (Sigma) por até 24 h em temperatura ambiente. Em seguida foi
realizado o processo de desidratação do tecido com banhos seriados de 30 min cada em álcool
etílico 50%, 70% e 80% (v/v) também em temperatura ambiente. Nessa última etapa o
Material
ficou armazenado por até 1 mês a 4ºC , até completar a coleta de todo o material e
processamento no mesmo momento . Depois disso, o material biológico sofreu banhos
seriados de 30 min cada em álcool 90% e 95% (v/v), seguido de álcool absoluto 1X, álcool
absoluto 2X e álcool absoluto 3X. Em seguida, o material foi submetido a banhos seriados de
30 min cada, em: mistura em partes iguais de álcool absoluto 3X e xilol, seguido de xilol 1X,
xilol 2X e xilol 3X. Posteriormente o material foi emblocado em parafina. Em seguida, foram
realizados cortes com 5 µm de espessura, os quais foram montado s em lâminas silanizadas.
As lâminas foram codificadas por números seriados p ara evitar viés de interpretação no
momento da leitura das mesmas.
Para a coloração, os cortes de tecido foram desparafinizados colocando as lâminas por 30
min em estufa a 60 ºC, se guido de 2 banhos de xileno de 10 min cada. Para reidratação das
amostras foram realizados banhos seriados de 5 min cada em álcool absoluto 2X, álcool 95%,
90%, 80%, 70% e 50% (v/v), seguido de banho em água corrente 3 vezes.
Em seguida, as lâminas foram coradas com Hematoxilina por 40 seg por imersão no
corante, e então lavadas em água corrente para retirar o excesso do corante. Após isso, as
37
lâminas foram coradas com Eosina por 10 seg e novamente desidratadas com banhos seriados
de 5 min cada em álcool etílico 50%, 70%, 80%, 90% e 95% (v/v), seguido de álcool absoluto
1X, álcool absoluto 2X e álcool absoluto 3X. Após isso, as lâminas sofreram banhos de 2
minutos cada de xilol 1X, xilol 2X e xilol 3X e foram montadas com auxílio de bálsamo do
Canadá para preservação do tecido. As lâminas prontas foram lidas em microscópio de
varredura (VS120 Scanner, Olympus Corporation), a qual foi realizada um escaneamento total
da placenta em aumento de 10X, para análises posteriores no software Image J.
5.10. Imunofluorescência dos complexos placenta -endométrio decidual izado dos
grupos tratados com CEM (GFP positivas)
Para a marcação de imunofluorescência as lâminas foram desparafinizadas e reidratadas
como de scrito anteriormente no item 5.9 ., a exceção do banho em água corrente que neste
caso ocorreu em água destilada. Em seguida as lâminas foram colocadas em banho maria
imersas em citrato de sódio a 60 ºC para recrutamento antigênico por 1 hora . Após o
resfriamento com auxílio de banhos em PBS 0,1 M , as lâminas foram fixadas novamente com
solução de metanol a -20 ºC por 10 min. Em seguida, as lâminas foram lavadas em três
banhos de PBS 0,1 M. Posteriormente as lâminas for am imersas em solução de glicina para
bloqueio da atividade enzimática por 30 min. Após isso, as lâminas foram novamente lavadas
em três banhos de PBS 0,1 M.
Após esta etapa, as lâminas foram incubadas no escuro por uma hora em temperatura
ambiente, com soro de bloqueio (BSA - Sigma) a 10%. Em seguida, foi realizada incubação
overnight com o anticorpo primário Anti-GFP (1:1000; Abcam, refab66 73, San Diego,
California, EUA) a 4ºC, também no escuro.
No dia seguinte, as lâminas foram lavadas cinco vezes em PBS 0,1 M em banhos de 5 min
cada. Após isso, foi realizada a incubação com o anticorpo secundário fluorescente específico
rabbit anti-goat IgG (1:1000; Abcam, refab150141, San Diego, California, EUA ), no escuro e
em temperatura ambiente, por uma hora . Em seguida, as lâminas sofreram banho de Sudan
Black (Sigma) diluído em álcool etílico a 70% (v/v) para bloqueio da autofluorescência.
As lâminas foram montadas no escuro, utilizando-se DAPI e lamínula. As lâminas prontas
foram mantidas a 4ºC, no escuro, até a leitura em microscópio de varredura (VS120 Scanner,
Olympus Corporation) , durante a qual foi realizado o escaneamento total do complexo
placenta-endométrio decidualizado em aumento de 40X, para análises posteriores no software
Image J. A quantificação de CEMs GFP positivas encontradas por esta técnica foi apenas
38
descritiva devido ao esperado baixo número de células marcadas.
5.11. Descrição dos desfechos
Como desfecho foi considerado primeiramente o desfecho clínico (taxa de gestação dos
animais (1) em cada um dos grupos de estudo e taxa de aborto dos animais (2) em cada um
dos grupos de estudo ). Além disso, como desfechos secundários, a mediana de placentas
coletadas por animal , a mediana de placentas coletadas por corno uterino em cada um dos
grupos de estudo e a quantidade de placentas coletadas no corno esquerdo vers us o corno
direito.
Considerou-se o evento “aborto” quando foi identificada a presença de placenta
hemorrágica sem feto. Sendo assim, foi considerada também a mediana de placentas
hemorrágicas por cornos uterino direito ou esquerdo. Além disso, a quantidade de placentas
hemorrágicas coletadas no corno esquerdo versus corno direito.
A seguir é possível identificar como foi realizada cada uma das taxas consideradas no
estudo:
Desfecho clínico:
1. Taxa de gestação=
n fêmeas grávidas
n total de fêmeas do grupo x 100
2. Taxa de aborto=
n fêmeas com pelo menos uma placenta hemorrágica
n total de fêmeas grávidas do grupo x 100
5.12. Cálculo amostral
O cálculo do N amostral foi feito utilizando -se a calculadora do site Sealed Envelope
(https://www.sealedenvelope.com/power/binary-superiority/). Considerando a taxa de
gestação como desfecho clínico principal com base em estudos anteriores do grupo de
pesquisa em que foi verificada uma taxa de gestação de 100% nos animais do grupo sham
(aqui con siderados controle) e de 50% no grupo de endometriose induzida tratado com
placebo, para um poder de teste (beta) de 8 0% e nível de significância (alfa) de 5% , são
necessários 8 animais por grupo de estudo.
39
5.13. Análise estatística
Os dados foram analisados utilizando-se o programa GraphPad Prism 5.0. A distribuição
das variáveis foi avaliada usando-se o teste de Kolmogorov -Smimov para testar a
normalidade da amostra. Para a comparação entre as taxas de gestação foi utilizado o teste
Exato de Fisc her. Já para as variáveis quantitativas (peso das fêmeas, média de placentas
coletadas saudáveis, hemorrágicas e totais tanto por corno uterino quanto por animal, área da
placenta total e por regiões) foi utilizado o teste de Kruskal -Wallis. Foi considerado como
significativo valores de p < 0,05.
40
6. Resultados e Discussão
41
Efeito da administração intrauterina de CXCL12 ou de células tronco mesenquimais nos
resultados de gestação em camundongos com endometriose induzida
SAWA, Aline Gonçalves; ROSA-E-SILVA, Ana Carolina Japur de Sá.
Departamento de Ginecologia e Obstetrícia, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto,
Universidade de São Paulo.
Resumo
Camundongos C57BL/6 selvagens foram induzidos cirurgicamente à endometriose e sham.
Depois de uma semana do tratamento de CXCL12, ou células estromais mensenquimais
(CEM) ou placebo as fêmeas foram colocadas com machos férteis para acasalamento por até
4 semanas . O tratamento com CXCL12 e CE M aumentou a taxa de gestação do grupo
endometriose de 50% (EndoP l) para 100% (EndoCX e EndoCE M), igualando-se aos grupos
sham, que ta mbém obtiveram taxa de gestação de 100% em todos os tratamentos (ShamCX,
ShamCEM, ShamPl). Não houve diferença no tamanho da ninhada, nem na prevalência de
aborto nos grupos estudados. Além disso, também não houve diferença na análise
histomorfométrica r ealizada nas placentas , tanto na área por camadas quanto em sua
totalidade. Na imunofluorescência não foram identificadas CE M nos complexos placenta -
endométrio decidualizado analisados. Dessa forma, pode-se aventar que a ação dessa s células
tanto por si só, quanto por meio da ação q uimioatratora do CXCL12, pode estar relacionada a
mecanismos moleculares indiretos. Entretanto, mais estudos são necessários para confirmação
dos possíveis mecanismos de ação das CEM no incremento da fertilidade.
Introdução
A endometriose é uma desordem crônica inflamatória dependente de estrogênio, caracterizada
pela presença de tecido endometrial glandular ou estromal fora da cavidade uterina 1. Ela não
possui cura e seu tratamento em mulheres que possuem desejo de concepção basicamente se
resumem a utilização das técnicas de reprodução assistida de baixa e/ou alta
complexidade2,3,4,5. Estima-se que 35 a 50% das mulheres com endometriose possuem
infertilidade como um sintoma associado à doença 6. Algumas relações causais diretas são
mais facilmente encontradas para correlacionar essa situação , como alterações anatômicas na
região pélvica devido a aderências locais provocadas por focos ectópicos da d oença. Porém,
também existem algumas relações indiretas ainda em estudos, pois seus mecanismos e vias de
sinalização ainda não estão bem caracterizadas, como a implantação embrionária prejudicada
42
devido à baixa receptividade endometrial7,8,9.
Estudos relacionados à infertilidade e possíveis efeitos terapêuticos medicamentosos
normalmente são limitados ao uso de modelo animal experimental, devido às normas éticas de
pesquisas em seres humanos. Além disso, muitas vezes os tratamentos medicamentos os ainda
não estão aprovados para o uso em humano para esse fim, dificultando ainda mais os estudos
dessa área em seres humano. Sendo assim, em sua maioria, os estudos acontecem no modelo
murino, como descrito nesse artigo.
Sugere-se que os focos ectópicos da endometriose direcionam as células reparativas
provenientes da medula óssea para si, comprometendo o processo reparativo endometrial na
presença de endometriose induzida cirurgicamente em camundongos, além de causar perda
parcial da fertilidade nesses anima is devido à diminuição da receptividade
endometrial10,11,12,13. Nesse sentido, o uso de células estromais mesenquimais (CEM) vem
sendo empregado como alternativas terapêutica s em diversos tratamentos, como doenças
cardíacas14 e neurológicas15. Portanto, o presente artigo pretende avaliar o efeito da
administração de CEM ou de CXCL12 (uma quimiocina de células tronco) em camundongos
fêmeas com endometriose induzida com relação aos desfechos reprodutivos e avaliar o
potencial destas terapias como alternativa de tratamento a mulheres com endometriose e
infertilidade. Além d isso, este estudo avalia a distribuição na placenta e decídua de células
estromais mesenquimais (GFP positivas) injetadas no útero pré-concepcional dos animais.
Material
e Métodos
Animais
Camundongos (Mus musculus) selvagens da linhagem C57BL/6 com seis a oito semanas de
vida foram utilizados no estudo, seguindo todos os protocolos aprovados pela Comissão de
Ética no Uso Animais da FMRP-USP.
Isolamento de células estromais mesenquimais
Para o isolamento das CEM foram utilizados camundongos machos da linhagem C57BL/6
transgênicos (GFP positivos ; n = 4) e foi seguido o protocolo descrito por Zhu e
colaboradores (2010) 16. Já para a fenotipagem das células foi realizada citometria de fluxo
(BD FACsCanto) dos seguintes marcadores: SCA -1-PE, CD11b -PE, CD34 -PE, CD31 -PE e
CD45-PE (todos BD -Pharmingen), além do controle ficoeritrina (PE, do inglês
phycoerythrin).
43
Endometriose e sham cirúrgico
A indução de endometriose cirúrgica (n = 18) ocorreu após analgesia com Meloxicam 0,2%
na dosagem de 5 mg/kg via subcutânea e anestesia inalatória de Isofluorano (Virbac) 3,0%
concentração alveolar para induçã o inicial e de 1,5 a 2,0% do mesmo anestésico para
manutenção durante o procedimento cirúrgico. Inicialmente foi realizada a retirada dos cornos
uterinos doadores (n = 18), lavados em PBS e divididos em dois fragmentos de 5 mm² cada.
Em seguida, os fragmentos uterinos foram suturados ao peritônio parietal das fêmeas
receptoras simetricamente distribuídos dois de cada lado, com ponto único. Como controle, os
animais do grupo sham (n = 18) receberam os mesmos quatro pontos de sutura peri toneal,
porém sem o tecido endometrial.
Tratamentos
Após quatro semanas foram realizados os tratam entos: 1 x 10 6 CEM/animal e 2,5 µg/animal
de CXCL12 e placebo (PBS), injetando 75 µL/corno diretamente em cada corno uterino das
fêmeas. Sendo assim, foram formados seis grupos de estudo: endometriose + CXCL12 –
(EndoCX; n = 6); endometriose + células estromais mesenquimais (EndoC EM; n = 6);
endometriose + placebo (EndoPl; n = 6); sham + CXCL12 (ShamCX; n = 6); sham + células
estromais mesenquimais (ShamCEM; n = 6) e sham + placebo (ShamPl; n = 6).
Acasalamento com machos e gestação
Após uma semana da injeção de um dos três tratamentos, as fêmeas foram expostas a machos
férteis previamente testados para acasalamento por até 4 semanas. Fêmeas consideradas
grávidas (acima de 24 g) eram separadas e constantemente pesadas até atingirem
aproximadamente 2 8 a 30 g para a eutanásia e coleta dos complexos p lacenta-endométrio
decidualizado e um fragmento de corno uterino de região não adjacente à placenta.
Histomorfometria dos complexos placenta-endométrio decidualizado.
As amostras do s complexos placenta -endométrio decidualizado foram fixadas em
paraformaldeído 4% (Sigma) por até 24 h. Em seguida foi realizado processo de desidratação
do tecido, seguido de emblocamento em parafina e montagem dos cortes do tecido em
lâminas silanizadas. Após isso, as lâminas foram desparafinizadas e reidratadas, em seguida
coradas com Hematoxilina por 40 seg, lavadas com água corrente e coradas novamente, agora
com Eosina por 10 seg. Finalmente, as lâminas foram desidratadas e montadas com auxílio de
bálsamo de Canadá. As lâminas prontas foram lidas em microscópio de varredura (VS120
44
Scanner, Olympus Corporation) , a qual foi realizad o um escaneamento total da placenta em
aumento de 10X, para análises posteriores no software Image J. Foram analisadas a área total
da placenta e a área das seguintes reg iões separadamente: decídua materna, zona juncional e
labirinto dos materiais coletados.
Imunofluorescência para GFP
Para a imunofluorescência as lâminas com os cortes de tecido foram previamente desidratadas
e emblocadas em parafina . Para a marca ção de Anti-GFP (1:1000; Abcam, refab66 73, San
Diego, California, EUA), o material foi desparafinizado e reidratado. Após isso, foi realizado
banho em citrato de sódio (1 h, 60 ºC), seguido de banho em solução de metanol (10 min, -20
ºC) e banho em solução de glicina (30 min, temperatura ambiente). Em seguida, as lâminas
foram incubadas, no escuro, com soro de bloqueio 10% (BSA, 1 h, temperatura ambiente).
Depois, o material foi incubado também no escuro com o anticorpo primário Anti-GFP
(1:1000, overnight, 4 ºC). No dia seguinte, foi realizada a incubação no escuro com anticorpo
secundário específico rabbit anti -goat IgG (1:1000; Abcam, refab150141, San Diego,
California, EUA – 1 h, temperatura ambiente ). Depois as lâminas sofreram banho Sudan
Black (70% v/v em álcool etílico, Sigma) para bloqueio da autofluorescência e então elas
foram montadas no escuro com DAPI.
Desfechos analisados
Foram analisados os desfechos clínicos: taxa de gestação dos animais em cada um dos grupos
de estudo e taxa de aborto dos animais em cada um dos grupos de estudo. Além disso, foram
analisados de sfechos secundários: distribuição do peso das fêmeas grávidas, mediana de
placentas coletadas por animal em cada grupo, mediana de placentas coletadas por animal por
corno uterino (direito e esquerdo) em cada um dos grupos do estudo, quantidade de placentas
coletadas no corno esquerdo versus corno direito, mediana de placentas hemorrágicas
coletadas por a nimal por c orno uterino (direito e esquerdo) e a quantidade de placentas
hemorrágicas coletadas no corno esquerdo versus corno direito.
Análise estatística
Os dados foram analisados utilizando-se o programa GraphPad Prism 5.0. A distribuição das
variáveis foi avaliada quanto a normalidade pelo teste de Kolmogorov -Smimov. Para a
comparação entre as taxas de gestação foi utilizado o teste Exato de Fischer. E para as
variáveis quantitativas (peso das fêmeas, média de placentas coletadas saudáveis,
45
hemorrágicas e totais tanto por corno uterino quanto por animal, área da placenta total e por
regiões) foi utilizado o teste de Kruskal-Wallis. Foi considerado como significativo valores de
p < 0,05.
Resultados
Fenotipagem celular
Na análise de citometria de fluxo foram analisados os seguintes marcadores de superfície
celular: SCA-1 (Antígeno de Célula Tronco 1) , CD11b (marcador de células imunes) , CD34,
CD31 e CD45 (marcadores de células hematopoiéticas). Foi obtido um total de 5 mil eventos
e foi observado que as células utilizadas são 99,9% positivas para SCA -1 e 99,2%, 99,2%,
100% e 99,5% não marcadas para os respectivos marcadores: CD11b , CD34, CD31 e CD45 .
Portanto, essas características sugerem que as células utilizadas são células estromais
mesenquimais com quase 100% de pureza.
Figura 6. Fenotipagem da população de células estromais mesenquimais isoladas, cultivadas e
injetadas nos animais dos grupos CEM.
Legenda: Marcação das CEMs utilizadas por citometria de fluxo. A) Marcação com SCA -1, B)
Marcação com CD11b, C) Marcação com CD34, D) Marcação com CD31, E) Marcação com CD45.
A B C
D E
46
Desfechos clínicos
A taxa de gestação em todos os grupos sham foi de 100%, sendo eles: ShamC EM (6/6),
ShamCX (6/6) e ShamPl (6/6). Já no grupo endometriose, o grupo que recebeu placebo teve
uma taxa de gestação de 50% (3/6), enquanto que os grupos tratados com CX (6/6) e com
CEM (6/6) tiveram ambos taxas de gestação de 100% (p=0,0168), igualando -se aos grupos
sham (Figura 7).
Figura 7. Gráfico das taxas de gestação por grupo do estudo.
Legenda: EndoCEM (endometriose induzida tratado com células estromais mesenquimais), EndoCX
(endometriose induzida tratado com CXCL12), EndoPl (endometriose induzida tratado com placebo),
ShamCEM (sham tratado com células estromais mesenquimais), ShamCX (sham tratado com
CXCL12) e Sha mPl (sham tratado com placebo). L etras diferentes representam diferenças (p<0,05).
Entende-se por taxa de gestação a porcentagem de fêmeas que ficaram grávidas em relação ao total de
fêmeas de cada grupo.
Distribuição de peso das fêmeas grávidas
Em relação ao peso das fêmeas no momento da cesárea para a coleta dos complexos placenta-
endométrio decidualizado foi observada uma diferença estatística entre os grupos EndoC EM,
EndoCX, EndoPl e ShamC EM em relação aos grupos ShamCX e ShamPl. Sendo que os
últimos apresentaram maior peso quando comparados aos d emais grupos do estudo (Figura
8).
0
20
40
60
80
100
120
Taxa gestação
p = 0,0168
47
Figura 8. Distribuição de peso das fêmeas grávidas no momento da cesárea.
Legenda: EndoCEM (endometriose induzida tratado com células estromais mesenquimais), EndoCX
(endometriose induzida tratado com CXCL12), EndoPl (endometriose induzida tratado com placebo),
ShamCEM (sham tratado com células estromais mesenquimais), ShamCX (sham tratado com
CXCL12) e ShamPl (sham tratado com placebo). Letras diferentes representam diferenças (p<0,05).
Análise dos complexos placenta-endométrio decidualizado
Foram coletadas todas as placentas com desenvolvimento normal e placentas hemorrágicas.
Estas foram consider adas resquícios de placentas inicialmente formadas, mas que não
continuaram seu desenvolvimento normalmente, sendo assim, não estavam completamente
desenvolvidas e não apresentavam fetos (Figura 9 .B). Neste caso, foi considerado que um
aborto ocorreu.
Peso (g)
48
Figura 9. Representação do processo de coleta dos complexos placenta-endométrio decidualizado.
Legenda: A e B) Cornos uterinos com conjunto placenta/feto em seu interior, B) Placenta hemorrágica
indicada pela seta. C) Conjuntos placenta/feto separados para coleta das amostras, envoltos pela bolsa
amniótica. D) Conjuntos placenta/feto evidenciando o cordão umbilical indicado pela seta. E)
Complexo placenta-endométrio decidualizado subjacente (seta superior) e cordão umbilical (seta
inferior) coletados após eutanásia.
Em relação a o número de placentas saudáveis, hemorrágicas e totais coletadas das fêmeas
grávidas de a mbos os grupos (endometriose e sham) e tratamentos (CXCL12, Células
Estromais Mesenquimais ou Placebo) não foi observada nenhuma diferença estatística
(Tabela 2 ). Curiosamente foi observado um maior número de placentas no corno direito
quando comparado ao corno esquerdo, em média foram coletadas 1,26 placentas a mais no
corno direito em relação ao esquerdo (p= 0,0092).
Não houve diferença na prevalência de abortos entre os grupos no geral e tampouco na
avaliação por cornos separadamente (Tabela 2).
A B
C D E
49
Tabela 2 – Quantidade de placentas coletadas por corno uterino e totais.
Variável Parâmetro EndoCEM EndoCX EndoPl ShamCEM ShamCX ShamPl p-value
Mediana 4,0 3,5 4,0 4,0 3,5 4,0
0,8134 PL-CE Mínimo 3,0 1,0 2,0 1,0 1,0 3,0
Máximo 6,0 4,0 6,0 4,0 7,0 5,0
Mediana 0,0 0,5 0,0 0,0 0,0 0,0
.
0,4524 PLH-CE Mínimo 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0
Máximo 1,0 2,0 1,0 0,0 2,0 1,0
Mediana 5,0 4,0 5,0 5,0 4,5 5,5
.
0,1716 PL-CD Mínimo 4,0 2,0 2,0 5,0 2,0 4,0
Máximo 6,0 5,0 6,0 7,0 7,0 7,0
Mediana 0,0 1,0 0,0 0,0 0,0 0,5
.
0,0812 PLH-CD Mínimo 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0 0,0
Máximo 1,0 3,0 1,0 0,0 2,0 1,0
Mediana 9,0 8,0 9,0 9,0 9,0 10,0
.
0,0812 PL-T Mínimo 8,0 8,0 8,0 8,0 8,0 8,0
Máximo 10,0 11,0 10,0 9,0 10,0 11,0
Legenda: temos que PL -CE (placentas saudáveis coletadas no corno esquerdo), PLH -CE (placentas
hemorrágicas coletadas no corno esquerdo), PL -CD (placentas saudáveis coletadas no corno direito),
PLH-CD (placentas hemorrágicas coletadas no corno direito) e PL -T (placentas totais – somatório de
saudáveis e hemorrágicas – coletadas em ambos os cornos direito e esquerdo).
Análise histomorfométrica de placenta
Para as análises morfológicas e morfométricas foram analisadas: área de placenta total e área
das camadas placentárias separadamente (decídua materna, zona juncional e labirinto ) das
imagens previamente escaneadas em aumento de 10X. Não foi encontrada nenhuma diferença
significativa histomorfométrica dos parâmetros analisados entre os grupos do estudo (p >
0,05).
50
Figura 10. Análise histomorfométrica das placentas por meio da coloração HE.
Legenda: A) Visão global da placenta e divisão nas regiões analisadas: 1 – região uterina materna, 2 -
região da decídua materna, 3 – região da zona juncional, 4 – região do labirinto. B) Região da decídua
materna evidenciando os vasos maternos em aumento de 10 X. C) R egião da zona juncional
evidenciando a s células trofoblásticas gigantes parietais (*) e espongiotrofoblastos em aumento de
10X. D) Região do labirinto evidenciando a rica vascularização local em aumento de 10X.
Imunofluorescência Anti-GFP de células estromais mesenquimais
As imagens foram analisadas após escaneamento total do s complexos placenta -endométrio
decidualizado em aumento de 40X. No controle positivo (corno uterino de uma fê mea
C57BL/6 transgênica GFP positiva) é possível observar a marcação do Anti -GFP e do DAPI.
No controle negat ivo (material place ntário coletado sem a ação do anticorpo primário Anti-
GFP) é possível observar apenas a marcação do DAPI, sem marcação do Anti -GFP. Já nos
grupos tratados com células estromais mesenquimais, tanto endometriose quanto sham, não
foi possível encontrar marcação de Anti-GFP como demonstrado na Figura 11.
1
2
3
4
A B
C
D
*
51
500 μm
25 μm
25 μm
25 μm
Figura 11. Marcação para GFP por imunofluorescência no complexo placenta -endométrio
decidualizado nos grupos que receberam a injeção das CEMs.
Legenda: Análise das lâminas de imunohistoquímica dos grupos tratados com células estromais
mesenquimais GFP positivas. A) Controle negativo (placenta) apenas com coloração DAPI e ausência
de marcação com Anti -GFP. B) Controle posi tivo (corno uterino proveniente de fêmea transgênica -
GFP positiva) com marcação do Anti-GFP. C) Células marcadas com Anti-GFP em aumento de 40X.
D) Placenta do grupo Endometriose + células estromais mesenquimais apenas com coloração DAPI e
ausência de marcação Anti -GFP. E) Células marcadas do respectivo grupo (EndoC EM) em aumento
de 40X. F) Placenta do grupo Sham + célul as estromais mesenquimais apenas com coloração DAPI e
ausência de marcação Anti -GFP. E) Células marcadas do respectivo grupo (ShamC EM) em aumento
de 40X.
A B
C
D
E
F
E
G
52
500 μm 25 μm
25 μm 25 μm
Discussão
Neste estudo pudemos inicialmente confirmar achados de estudos prévios do grupo em que a
indução de endometriose em camundongos fêmeas de acordo com a técnica descrita
compromete a fertilidade destes animais, reduzindo de 100% para 50% a taxa de gestação.
Também ficou demonstrado neste estudo que o uso de células estromais mesenquimais
(CEM) e também da quimiocina CXCL12, administrados separadamente, promoveu a
recuperação da fertilidade dos animais estudados . Além disso, não foram encontradas
diferenças no ta manho de ninhada (baseado pelo númer o de placentas saudáveis ) tanto por
animal quanto comparado por corno uterino, nem diferença na prevalência de aborto (baseada
pelo número de placentas hemorrágicas ) tanto por animal quanto por corno uterino. O
mecanismo exato pelo qual as terapias agiram na melhora dos desfechos reprodutivos ainda
não está claro.
Sabe-se que a s células estromais mesenquimais possuem diferentes efeitos diante dos
diferentes tipos celulares, incluindo a imunidade inata e adaptativa. Estudos sugerem que as
células mesenquimais ocasionam alterações anti -inflamatórias, como reduzir ativação e
citotoxicidade das células NK e células T reguladoras, por exemplo. Sendo assim, são células
potencialmente promissoras no tratamento de doenças inflamatórias, como a endometriose17.
Essas células contribuem com a homeostase tecidual, estando relacionadas com o processo
reparativo de diversos tecidos, como do endométrio feminino, por exemplo 18,19. Estudos
anteriores levantaram a hipótese de existir uma menor migração de células estromais
provenientes da medula óssea para o endométrio tópico a fim de auxiliar no processo
reparativo cíclico endometrial na presença da endometriose, já que essas células poderiam ser
atraídas pelos focos ectópicos da doença 10,11,20. Nesse sentido, pessoas com endometriose e
consequente reduzida capacidade de atrair células de reparo para o endométrio poderiam
apresentar menor capacidade desse tecido em expressar moléculas básicas para a o processo
de implantação embrionária, atuando então como um possível mecanismo indireto de
infertilidade ligado à endometriose12,21.
Nesse sentido, sabendo -se que as células estromais mesenquimais possuem propriedades
como alto potencial de diferenciação, capacidade imunorreguladora e de migração in vivo
para locais lesados 18,22. Sendo assim, elas tornam-se potencialmente candidatas ao uso como
terapêutica na reparação de diversos danos teciduais e doenças, como doenças cardíacas 23,
neurológicas24, inflamatórias25 e mais recentemente para tratamento de pac ientes de COVID-
19 severa26,27. Além dis so, as C EM são amplamente estudadas para o tratamento no sistema
reprodutor feminino, melhorando a fertilidade28,29,30,31, atuando na regene ração endometrial
53
relacionada ao incremento na receptividade endometrial 32,33 de endom étrio fino 34,35 e de
endométrio com injúria s, como a Síndrome de Asherman 36,37, por exemplo . Esses achados
devem-se principalmente pela atuação das células estromais mesenquimais, assim como
outras populações celulares que estão envolvidas no processo de angiogênese e regeneração
endometrial, por meio de recomposição de vasos, glândulas e estroma10,13,38,39.
Sendo assim, nossos achados tanto por meio do uso C EM diretamente quanto intermediada
pelo uso do CXCL12, um quimioatrator de células tronc o/estromais sistêmicas20 para o local
de administração, podem ter mediado os efeitos de incremento nos desfechos clínicos
encontrados, ass im como alguns dos achados citados anteriormente. Não foi possível
identificar um efeito direto dos tratamentos testados neste estudo sobre a anatomia das
estruturas endometriais e placentárias, uma vez que não houve diferença histomorfométrica de
área total, além de áreas por regiões placentárias (decídua materna, zona juncional e labirinto)
analisadas. Além disso, também não foram encontradas células marcadas positivamente para
Anti-GFP na imunofluorescência do complexos placenta-endométrio decidualizado de ambos
os grupos tratados com C EM (endometriose e sham). Portanto, provavelmente as C EM
injetadas diretamente no útero ou endógenas, atraídas pela quimiocina, não têm um papel
estrutural na composição da placenta, pr ovavelmente atuando indiretamente por meio da
secreção de substâncias que favoreçam a receptividade endometrial.
Estudos demonstram que mulheres com endometriose possuem a morfologia d as células
lúteas alteradas, diminuindo então a produção de progesteron a, um importante fator na
receptividade endometrial 40. Estudos desenvolvidos pelo nosso grupo de pesquisa
demonstraram que o uso do CXCL12 restaurou a expressão de receptores de progesterona no
endométrio de camundongos induzidos a endometriose, além do au mento na expressão de
αVβ3 integrina outro importante fator favorável a receptividade endometrial 41. Este fato está
em consonância com os achados na literatura, indicando que o uso de CXCL12 tem papel na
melhora da receptividade endometrial42,43,44 e angiogênese local45.
Outro potencial mecanismo de ação indireto das células estromais mesenquimais é a
promoção de processos angiogênicos (secreção de VEGFs e Prostaglandinas) 46,47,48,49,
decidualização intrauterina 50 mediada pelas células estromais endom etriais51, reparação
tecidual52,53,54 e prevenção de apoptose 55, que podem ocorrer tanto diretamente pela ação das
CEM como pelos exossomos altamente produzidos e liberados pelas mesma s, possuindo
propriedades e ações muito semelhantes56.
Sendo assim , acreditamos que a ação benéfica no incremento dos desfechos reprodutivos
encontrados tanto pela ação diretamente das C EMs, quanto pela ação ind ireta das mesmas
54
54
células endógenas atraídas pelo uso da quimiocina CXCL12, ocorreu por meio de
mecanismos moleculares indiretos. Uma hipótese seria a promoção da expressão de moléculas
e/ou fatores de crescimento que favoreçam a implantação embrionária. Porém, mais estudos
avaliando-se marcadores ligados ao processo de implantação e placentação são necessários
para confirmação desta hipótese. Ademais, temos que independente do mecanismo de ação
dessas células , estes achados clínicos abrem um leque de novas possibilidades terapêuticas
pouco-invasivas para pacientes com endometriose associada a infertilidade.
Referências
1. Giudice, L.C.; Kao, L.C. Endometriosis. The Lancet. v. 364, n. 9447, p. 1789-1799, 2004.
2. Tomassetti, C.; D’Hooghe, T. Endometriosis and infertility: insights into the causal link
and management strategies. Best. Pract. Res. Clin. Obstet. v. 51, p. 25-33, 2018.
3. Makuch, M. et al. Barriers to access to infertility care and assisted reproductiv e technology
within the public health sector in Brazil. FVV Ob. Gyn. v. 4, n. 4, p.221-226, 2012.
4. Makuch, M. et al. Inequitable acess to assisted reproductive technology for the low -income
Brazilian population: a qualitative study. Hum. Reprod. v. 26, n. 8, p. 2054-2060, 2011.
5. Makuch, M. et al. Low priority level for infertility services within the public health sector:
a Brazilian case study. Hum. Reprod. v. 25, p. 430-435, 2010.
6. ASRM. American Society for Reproductive Medicine. Endometriosis and infertility: a
committee opinion. Fertil. Steril. v. 98, n. 3, p. 591-598, 2012.
7. Miller, J.E. et al. Implications of imune dysfunction on endometriosis associated infertility.
Oncotarget. v. 8, n. 4, p. 7138-7147, 2017.
8. Bulletti, C. et al. Endometriosis and infertility. J. Assist. Reprod. Genet. v. 27, n. 8, p. 441 -
447, 2010.
9. Filip, L. et al. Endometriosis associated infertility: a critical review and analysis on
etiopathogenesis and therapeutic approaches. Medicina, v. 56, n. 460, p. 1-23, 2020.
10. Pluchino, N.; Taylor, H.S. Endometriosis and stem cell trafficking. Reprod. Sci. v. 23, n.
12, p. 1616-1619, 2016.
11. Sakr, S. et al. Endometriosis impairs boné marrow -derived stem cell recruitment to the
uterus whereas bazedoxifene treatment leads to endometriosis regression and improved
uterine stem cell engrafment. Endocrinology. v. 155, n. 4, p. 1489-1497, 2014.
12. Rosa-e-Silva, A.C.J.S. et al. Dose-dependent decreased fertility in response to the burden
of endometriosis in a murine model. Reprod. Sci. 2019.
13. Zhao, J. et al. Uterine infusion with bone marrow mesenchymal stem cells improves
endometrium thickness in a rat modelo of thin endometrium. Reprod. Sci. v. 22, n. 2, p. 181 -
188, 2015.
14. Yu, G. et al. The therapeutic potencial of mesenchymal stem cells for cardiovascular
diseases. Cell Death Dis. v. 11, n. 349, 2020.
15. Andrzejewska, A. et al. Mesenchymal st em cells for neurological disorders. Adv. Sci. v.
8, n. 7, 2021.
16. Zhu, H. et al. A protocol for isolation and culture of mesenchymal stem cells from mouse
compact bone. Nature, v. 5, n. 3, p. 550-560. 2010.
17. Castro-Manrreza, M. E.; Montesinos, J. J. Immunoregulation by mesenchymal stem cells:
biological aspects and clinical applications. J. Immunol. Res. 2015.
18. Du, H.; Taylor, H.S. Contribution of bone marrow -derived stem cells to endometrium and
endometriosis. Stem Cells. v. 25, n. 8, p. 2028-2026, 2007.
55
55
19. Tal, R. et al. A murine 5-fluorouracel-based submyeloablation model for the study of bone
marrow-devided cell trafficking in reproduction. Endocrinology. v. 157, n. 10, p. 3749 -3759,
2016.
20. Wang, X. et al. Chemoattraction of bone marrow -derived stem cells towards human
endometrial stromal cells is mediated by estradiol regulated CXCL12 and CXCR4 expression.
Stem Cell Res. v. 15, n. 1, p. 14-22, 2015.
21. Hufnagel, D. et al. The role of stem cells in the etiology and pathophysiology of
endometriosis. Semin. Reprod. Med. v. 33, n. 5, p. 333-340, 2015.
22. Brown, C. et al. Mesenchymal stem cells: cell therapy and regeneration potential. J.
Tissue Eng. Regen. Med. v. 13, n. 9, 2019.
23. Miao, C. et al. A brief review: the therapeutic potencial of bone marrow mesenchymal
stem cells in myocardial infarction. Stem Cell Res. Ther. v. 8, n. 242, 2017.
24. Uccelli, A. Mesenchymal stem cells for the treatment of multiple sclerosis and other
neurological diseases. Lancet Neurol. v. 10, n. 7, p. 649-656, 2011.
25. Regmi, S. et al. Mesenchymal stem cell therapy for the treatment of inflammatory
diseases: challenges, opportunities, and future perspectives. v. 98, 2019.
26. Golchin, A. et al. Mesenchymal stem cell therapy for COVID -19: present or future. Stem
cell rev. v. 16, p. 427-433, 2020.
27. Rajarshi, K. et al. Combating COVID -19 with mesenchymal stem cell therapy.
Biotechnol. Rep. v. 26, 2020.
28. Rungsiwiwut, R. et al. Mesenchymal stem cells for restoring endometrial function: an
infertility perspective. Reprod. Med. Biol. 2020.
29. Zhao, Y. Using mesenchymal stem cells to treat female infertility: an update on female
reproductive diseases. Stem Cells Int. 2019.
30. Chang, Z. et al. Mesenchymal stem cells in preclinical infertility cytotherapy: a
retrospective review. Stem Cells Int. 2021.
31. Gao, M. et al. Mesenchymal stem cells therapy: a promising method for the treatment of
uterine scars ans premature ovarian failure. Tissue. Cell. v. 74, 2022.
32. Esmaeilzadeh, S. et al. Receptivity markers in endometrial mesenchymal stem cells of
recurrent implantation failure and non -recurrent implantation failure women: a pilot study. J.
Obstet. Gynaecol. Res. v. 46, n. 8, p. 1393-1402, 2020.
33. Wang, G. et al. Effects of bone marrow mesenchymal stem cells on repair and receptivity
of damaged endometrium in rats. J. Obstet. Gynaecol. Res. v. 47, n. 9, p. 3223-3231, 2021.
34. Sapozhak, L. M. et al. Application of autologous endometrial mesenchymal stromal/stem
cells increases thin endometrium receptivity: a case report. J. Med. Case Rep. v. 14, n. 190,
2020.
35. Tersoglio, A. E. et al. Regenerative therapy by endometrial mesenchymal stem cells in
thin endometrium with repeat implantation failure. A novel strategy. JBRA Assist. Reprod. v.
24, n. 2, p. 118-127, 2020.
36. Zhu, X. et al. Stem cells ans endometrial regenerative: from basic research to clinical trial.
Curr. Stem Cell Res. Ther. v. 14, p. 293-304, 2019.
37. Strug, M.; Aghajanova, L. Making more womb: clinical perspectives supporting the
development and utilization of mesenchymal stem cell therapy for endometrial regeneration
and infertility. J. Pers. Med. v. 11, n. 1364, 2021.
38. Mints, M. et al. Endometria l endotelial cells are derived from donor stem cells in a bone
marrow transplant recipiente. Hum. Reprod. v. 23, n. 1, p. 139-143, 2008.
39. Gargett, C. E. et al. Endometrial regeneration and endometrial stem/progenitor cells. Rev.
Endocr. Metab. Disord. v. 13, n. 4, p. 235-251, 2012.
40. Cunha-Filho, J.S. et al. Physiopathological aspects of corpus luteum defect. In infertile
patients with mild/minimal endometriosis. J. Assist. Reprod. Genet. v. 20, p. 117-121, 2003.
56
41. Rosa-e-Silva, A.C.J.S. et al. Uter ine administration of CXCL12 increases pregnancy rates
in mice with induced endometriosis. F&S Science. 2022.
42. Yi, K.W. et al. Bone marrow -derived cells or C -X-C motif chemokine 12 (CXCL12)
treatment improve thin endometrium in mouse model. Biol. Reprod. v. 100, n. 1, 2019.
43. Zlotkowska, A.; Andronowska, A. Chemokines as the modulators of endometrial epitelial
cells remodelling. Sci. Rep. v. 9, n. 12968, 2019.
44. Mclntosh, S.Z. et al. CXCR4 signaling at the fetal – maternal interface may drive
inflammation and syncytia formation during ovine pregnancy. Biol. Rep. v. 104, n. 2, 2021.
45. Koo, H.S. et al. CXCL12 enhances preg nancy outcome via improvement of endometrial
receptivity in mice. Sci. Rep. v. 11, n. 7397, 2021.
46. Kasper, G. et al. Mesenchymal stem cells regulate angiogenesis according to their
mechanical environment. Stem Cells. v. 25, n. 4, 2007.
47. Bronckaers, A . Mesenchymal stem/stromal cells as a pharcological and therapeutic
approach to accelerate angiogenesis. Pharmacol. Ther. v. 143, n. 2, 2014.
48. Kwon, H.M. Multiple paracrine factors secreted by mesenchymal stem cells contribute to
angiogenesis. Vasc. Pharacol. v. 63, n. 1, 2014.
49. Tao, H. et al. Proangiogenic features of mesenchymal stem cells and their therapeutic
applications. Stem Cells Int. 2016.
50. Nafeesa, A.; Reshef, T. Endometrial stem cells: origin, biological function, and
therapeutic applications for reproductive disorders. Curr. Opin. Obstet. v. 33, n. 3, 2021.
51.Xiaofang, K.; Hongcheng, Z. Bone marrow mesenchymal stem cells (BMSCs) enhance
endometrial stromal cell migration and epitelial -mesenchymal transition in adenomyosis
through upregulation of neuropilin 1. J. Biomater. Tissue Eng. v. 12, n. 2, 2022.
52. Fu, X. et al. Mesenchymal stem cell migration and tissue repair. Cells. v. 8, n. 8, 2019.
53. Gnecchi, M. et al. Paracrine mechanisms of mesenchymal stem cells in tissue repair.
Methods
Mol. Biol. P. 123-146, 2016.
54. Yang, J. et al. Role of TGF -β3 and boné marrow mesenchymal stem cells on regeneration
of myometrial injury in rats. Sciences. v. 15, n. 4, 2022.
55. Kot, M. et al. Secretion, migration and adhesion as key process in the therapeutic activity
of mesenchymal stem cells. Acta. Biochim. Pol. v. 66, n. 4, p. 499-507, 2019.
56. Merino -Gonzalez, C. Mesenchymal stem cell -derived extracelular vesicles promote
angiogenesis: potencial clinical application. Front. Physiol. v. 09, 2016.
57
7. Conclusão
58
O tratamento com células estromais mesenquimais e com CXCL12 isola damente,
promoveram aumento das taxas de gestação em camundongos fêmeas com endometriose
induzida, igualando-as aos animais do grupo sham.
Também não foi verificada a presença de células GFP+, ou seja, de C EMs nas placentas
ou no leito placentário nos animais que receberam injeção destas células pré -concepcionais,
sugerindo que o beneficio em termos reprodutivos foi secundário a não por meio de uma
participação direta destas células na composição da estrutura placentária ou decidual.
Desta forma, acreditamos que a melhora nas taxas de gestação ocorrida tanto pela injeção
do CXCL12 como das C EMs nos cornos uterinos deva estar relacionada a mecanismos
moleculares indiretos, por meio da promoção da expressão de mol éculas e/ou fatores de
crescimento que favoreçam a implantação embrionária. Entretanto, mais estudos são
necessários, avaliando-se marcadores ligados ao processo de implantação e placentação para
confirmação desta hipótese.
Independente do mecanismo de açã o, estes achados clínicos abrem um leque de novas
possibilidades terapêuticas para pacientes com endometriose associada a infertilidade.
59
REFERÊNCIAS
60
Achache, H.; Revel, A. Endometrial receptivity markers, the journey to sucessful embryo
implantation. Human. Reprod. Up. v. 12, n. 6, p, 731-746, 2006.
ASRM. American Society for Reproductive Medicine. Endometriosis and infertility: a
committee opinion. Fertil. Steril. v. 98, n. 3, p. 591-598, 2012.
Baddoo, M. Characterization of mesenchymal stem cells isolated from murine bone marrow
by negative selection. J. Biol. Chem. v. 89, n. 6, p. 1235-1249, 2003.
Bastian, C. et al. Isolation, selection and culture methods to enhance clonogenicity of mouse
bone marrow derived mesenchymal stromal cell precursors. Stem Cell Res. Ther. v. 6, n. 151,
2015.
Bastu, E. et al. Role of Mucin 1 and Glycodelin A in recurr ent implantation failure. Fertil.
Steril. v. 103, n. 4, p. 1059-1064, 2015.
Bazoobandi, S. et al. Preventive effects of intrauterine injection of bone marrow -derived
mesenchymal stromal cell -conditioned media on uterine fibrosis immediately after
endometrial curettage in rabbit. Stem Cells Int. 2020.
Budiu, R.A. et al. A conditional mouse model for human MUC1 -positive endometriosis
shows the presence of anti -MUC1 antibodies and Foxp3+ regulatory T cells. Dis. Model.
Mech. v. 2, n. 11-12, p. 593-603. 2009.
Bufang, X. et al. Pinopodes, leukemia inhibitory fator, integrin -β3, and mucin-1 expression in
the peri -implantation endometrium of women with unexplained recurrent pregnancy loss.
Fertil. Steril. v. 98, n. 2, p. 389-395, 2012.
Bulletti, C. et al. Endometriosis and infertility. J. Assist. Reprod. Genet. v. 27, n. 8, p . 441-
447, 2010.
Castro-Manrreza, M.E.; Montesinos, J.J. Immunoregulation by mesenchymal stem cells:
biological and clinical applications. J. Immunol. 2015.
Chan, J. et al. Widespread distribution and muscle differentiation of human fetal
meshenchymal stem cells after intrauterine transplantation in dystrophic mdx mouse. Stem
Cells. v. 25, n. 4 p. 875-884, 2007.
Cezar, M.; Freitas, G. Endometriose minima e técnicas de reprodução assistida: uma revisão.
Reprod. Clim. v. 24, n. 3, p. 100-106, 2009.
Du, H.; Taylor, H.S. Contribution of bone marrow -derived stem cells to endometrium and
endometriosis. Stem Cells. v. 25, n. 8, p. 2028-2026, 2007.
Ezquer, F.E. et al. Systemic administration of multipotent mesenchymal stromal cells reverts
hypoglycemia an d prevents nephropathy in type 1 diabetic mice. Biol. Blood Marrow
Transplant. v. 14, n. 6, p. 631-640, 2008.
Filip, L. et al. Endometriosis associated infertility: a critical review and analysis on
etiopathogenesis and therapeutic approaches. Medicina, v. 56, n. 460, p. 1-23, 2020.
61
Fox, C. et al. Local and systemic factors and implantation: what is the evidence? Fertil. Steril.
v. 105, n. 4, p. 873-884, 2016.
Gargett, C.E. et al. Endometrial regeneration and endometrial stem/progenitor cells. Re v.
Endocr. Metab. Disord. v. 13, n. 4, p. 235-251, 2012.
Giudice, L.C.; Kao, L.C. Endometriosis. The Lancet. v. 364, n. 9447, p. 1789-1799, 2004.
Giudice, L.C. et al. The molecular basis for implantation failure in endometriosis: on the road
to Discovery. Ann. N. Y. Acad. Sci. v. 955, p. 252-264, 2002.
Guillot, P.V. et al. Intrauterine transplantation of human fetal mesenchymal stem cells from
first-trimester blood repairs bone and reduces fracture in osteogenesis imperfecta mice. Blood.
v. 111, n. 3, p. 1717-1725, 2008.
Hogg, S.; Vyas, S. Endometriosis. Obstet. Gynaecol. Reprod. Med. v. 25, n. 5, p. 133 -141,
2015.
Hufnagel, D. et al. The role of stem cells in the et iology and pathophysiology of
endometriosis. Semin. Reprod. Med. v. 33, n. 5, p. 333-340, 2015.
Jabeen, S. et al. Isolation and dentification of murine mesenchymal stem cells from bone
marrow. Int. J. Endorsing health Sci. Res. v. 10, n. 2, p. 150-156, 2022.
Kitawaki, J. et al. Endometriosis: the pathophysiology as na estrogen -dependent disease. J.
Steroid. Biochem. Mol. Biol. v. 83, n. 1-5, p. 149-155, 2003.
Koo, H.S. et al. Embryo -derived chemokine CXCL12 enhance pregnancy outcome via
improvement of endometrial receptivity. Sci. Rep. v. 11, n. 1, 2021.
Leonardi, M. et al. When to do surgery and when not to do surgery for endometriosis: a
systematic review and meta -analysis. J. Minim. Invasive Gynecol. v. 27, n. 2, p. 390 -407,
2020.
Lindner, U. et al. Mesenchymal stem ou stromal cells: toward a better un derstanting of their
biology? Transfus. Med. Hemother. v. 37, n. 2, p. 75-83, 2010.
Makuch, M. et al. Barriers to access to infertility care and assisted reproductive technology
within the public health sector in Brazil. FVV Ob. Gyn. v. 4, n. 4, p.221-226, 2012.
Makuch, M. et al. Inequitable acess to assisted reproductive technology for the low -income
Brazilian population: a qualitative study. Hum. Reprod. v. 26, n. 8, p. 2054-2060, 2011.
Makuch, M. et al. Low priority level for infertility services with in the public health sector: a
Brazilian case study. Hum. Reprod. v. 25, p. 430-435, 2010.
Miller, J.E. et al. Implications of imune dysfunction on endometriosis associated infertility.
Oncotarget. v. 8, n. 4, p. 7138-7147, 2017.
62
Mints, M. et al. Endometrial endotelial cells are derived from donor stem cells in a bone
marrow transplant recipient. Hum. Reprod. v. 23, n. 1, p. 139-143, 2008.
Moridi, I. et al. Bone marrow stem cell chemotactic activity is induced by elevated CXCL12
in endometriosis. Reprod. Sci. v. 24, n. 4, p. 526-533, 2017.
Nácul, A.; Spritzer, P. Current aspects on diagnosis and treatment of endometriosis. Rev.
Bras. Ginecol. Obstet. v. 32, n. 6, p. 298-307.
Nombela-Arrieta, C et al. The elusive nature and function of mesenchymal stem cells. Nat.
Rev. Mol. Cell. Biol. v. 12, n. 2, p. 126-131, 2011.
Ojosnegros, S. et al. Embryo implantation in the laboratory: an update on current techniques.
Hum. Reprod. v. 27, n. 3, p. 501-530, 2021.
Pittenger, M. F. et al. Multilineage potencial of adult human mesenchymal stem cells.
Science, v. 284, n. 5411, p. 143-147, 1999.
Pluchino, N.; Taylor, H.S. Endometriosis and stem cell trafficking. Reprod. Sci. v. 23, n. 12,
p. 1616-1619, 2016.
Rosa-e-Silva, A.C.J.S. et al. Uterine administration of CXCL12 increases pregnancy rates in
mice with induced endometriosis. F&S Science. 2022.
Rosa-e-Silva, A.C.J.S. et al. Dose-dependent decreased fertility in response to the burden of
endometriosis in a murine model. Reprod. Sci. 2019.
Sakr, S. et al. Endometriosis impairs bone marrow -derived stem cell recruitment to the uterus
whereas bazedoxifene treatment leads to endometriosis regression and improved uterine stem
cell engraftment. Endocrinology. v. 155, n. 4, p. 1489-1497, 2014.
Sampson, J.A. Metastatic or embolic endometriosis, due to the menstrual dissemination of
endometrial tissue into the venous circulation. Am. J. Pathol. v. 3, n. 2, p. 93-110, 1927.
Senapati, S.; Barnhart, K. Managing endometriosis associated infertility. Clin. Obstet.
Gynecol. v. 54, n. 4, p. 720-726, 2011.
Stilley, J.A. et al. Cellular and molecular basis for and ometriosis-associated infertility. Cell
Tissue Res. v. 349, n. 3, p. 849-862, 2012.
Sung, J.H. et al. Isolation and characterization of mouse mesenchymal stem cells. Transplant.
Proc. v. 40, n. 8, p. 2649-2654, 2008.
Tal, R. et al. A murine 5-fluorouracel-based submyeloablation model for the study of bone
marrow-devided cell trafficking in reproduction. Endocrinology. v. 157, n. 10, p. 3749 -3759,
2016.
Taylor, H.S. Endometrial cells derived from donor stem cells in bone marrow transplant
recipients. JAMA, v. 292, n. 1, p. 81-85, 2004.
63
Tomassetti, C.; D’Hooghe, T. Endometriosis and infertility: insights into the causal link and
management strategies. Best. Pract. Res. Clin. Obstet. v. 51, p. 25-33, 2018.
Wang, X. et al. Chemoattraction of bone marrow -derived stem cells towards human
endometrial stromal cells is mediated by estradiol regulated CXCL12 and CXCR4 expression.
Stem Cell Res. v. 15, n. 1, p. 14-22, 2015.
Wang, Y. et al. The origin and pathogenesis of endometriosis. Annu. Rev. Pathol. v. 15, p. 71-
95, 2020.
Wei, Q.M.A. et al. Reduced expression of biomarkers associated with the implantation
window in women with endometriosis. Fertil. Steril. v. 91, n. 5, p. 1686-1691, 2009.
Zanatta, A. et al. The role of the Hoxa10 gene in the etiology of the endometriosis a nd its
related infertility: a review. J. Assist. Reprod. Genet. v. 27, n. 12, p. 701-710, 2010.
Zhao, J. et al. Uterine infusion with bone marrow mesenchymal stem cells improves
endometrium thickness in a rat modelo of thin endometrium. Reprod. Sci. v. 22, n. 2, p. 181 -
188, 2015.
Zhao, Y. Using mesenchymal stem cells to treat female infertility: an update on female
reproductive diseases. Stem Cells Int. 2019.
Zhu, H. et al. A protocol for isolation and culture of mesenchymal stem cells from mouse
compact bone. Nature, v. 5, n. 3, p. 550-560. 2010.
64
ANEXOS
65
ANEXO A – Representação da população de Células Estromais Mesenquimais por citometria
de fluxo
Nota: Foram obtidos um total de 5 mil eventos e para as análises dos marcadores de superfície
celular (SCA-1, CD11b, CD34, CD31 e CD45) foram eliminados os debris e células mortas.
66
Anexo B - Aprovação para execução do projeto pelo CEUA
67
Text is read by the "Ask this paper" AI Q&A widget below.
Extraction quality varies by source — PMC NXML preserves structure
cleanly, OA-HTML may include some navigation residue, and OA-PDF can
have broken hyphenation. The publisher copy
(via DOI)
is the canonical version.