Manifestação atípica de endometriose intestinal simulando doença de Crohn: relato de caso

In: Femina · 2025 · vol. 53(11) , pp. 1334–1338 · doi:10.61622/0100-72545311202512 · W7123866305
article OA: bronze CC0
AI-generated summary by gemini-2.5-flash-lite, 2026-06-07

This case report details a 45-year-old woman with atypical intestinal endometriosis presenting with symptoms and imaging findings that mimicked Crohn's disease, highlighting diagnostic challenges.

One-sentence paraphrase of the abstract; not a substitute for reading it. No clinical advice. How this works

AI-generated deep summary by claude@2026-06, 2026-06-07 · read from full text

The paper reports a 45-year-old woman with long-standing cyclic lower abdominal pain that worsened in 2022, alongside diarrhea, vomiting, presyncope, and symptoms suggestive of intestinal obstruction; initial laboratory workup and colonoscopy/enterotomography showed findings interpreted as compatible with penetrating Crohn’s disease, including ileal stenosis and inability to traverse the stricture. The authors then performed complementary pelvic magnetic resonance imaging, which revealed extensive endometriosis with ileal and perianal involvement, and diagnostic confirmation was obtained via histopathology of surgical specimens (appendectomy and oophorectomy) demonstrating ectopic endometrial tissue in the terminal ileum and ovary. A key limitation is that, as a single case report, the diagnostic reasoning and imaging/biopsy pathway cannot be generalized beyond this patient. This paper is centrally about endometriosis — it describes atypical intestinal endometriosis mimicking Crohn’s disease, with extensive ileal and perianal lesions confirmed by histopathology.

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Abstract

RESUMO Objetivo Relatar um caso de manifestação atípica de endometriose intestinal que simulava doença de Crohn, evidenciando os desafios diagnósticos diante da sobreposição de manifestações clínicas e radiológicas entre as duas patologias. Apresentação do caso Mulher de 45 anos com dor abdominal cíclica de longa data que se intensificou em 2022, associada a diarreia, vômitos […]
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Keywords

Endometriosis; Crohn’s disease; Inflammatory bowel diseases; Differential diagnosis Submetido: 01/06/2025 Aceito: 27/08/2025 1. Universidade Estadual de Montes Claros, Montes Claros, MG, Brasil. 2. Departamento de Clínica Médica, Universidade Estadual de Montes Claros, Montes Claros, MG, Brasil. Conflitos de interesse: Nada a declarar. Autor correspondente: Danilo Duarte Costa [email protected] Como citar: Costa DD, Malveira CT, Mota EB. Manifestação atípica de endometriose intestinal simulando doença de Crohn: relato de caso. Femina. 2025;53(11):1334-8. Manifestação atípica de endometriose intestinal simulando doença de Crohn: relato de caso Atypical manifestation of bowel endometriosis simulating Crohn’s disease: case report Danilo Duarte Costa¹, Cristiane Turano Mota Malveira², Emanuelly Botelho Rocha Mota 2 RESUMO Objetivo: Relatar um caso de manifestação atípica de endometriose intestinal que simulava doença de Crohn, evidenciando os desafios diagnósticos diante da sobreposição de manifestações clínicas e radiológicas entre as duas patologias. Apresentação do caso: Mulher de 45 anos com dor abdominal cíclica de longa data que se intensificou em 2022, associada a diarreia, vômitos e sintomas suges - tivos de obstrução intestinal. Exames iniciais (colonoscopia e enterotomografia) mostraram achados compatíveis com doença de Crohn penetrante. No entanto, investigação complementar com ressonância de pelve revelou lesões compatíveis com endometriose extensa, incluindo acometimento ileal e perianal. A confirma - ção diagnóstica foi obtida por histopatologia de material cirúrgico (apendicectomia e ooforectomia), que evidenciou tecido endometrial ectópico em íleo terminal e ovário, confirmando endometriose intestinal. Conclusão: A endometriose intesti- nal pode mimetizar a doença de Crohn, especialmente em casos com estenoses, fístulas e inflamação transmural do íleo terminal. A diferenciação entre essas con- dições exige avaliação clínica detalhada, atenção aos sintomas cíclicos, uso de métodos de imagem como a ressonância magnética e confirmação histopatológica. O reconhecimento precoce é fundamental para o manejo adequado e melhora da qualidade de vida da paciente.

Abstract

Objective: To report a case of atypical manifestation of intestinal endometriosis that simulated Crohn’s disease, highlighting the diagnostic challenges given the over - lap of clinical and radiological manifestations between the two pathologies. Case presentation: A 45-year-old woman with long-standing cyclical abdominal pain that intensified in 2022, associated with diarrhea, vomiting, and symptoms suggestive of intestinal obstruction. Initial examinations (colonoscopy, enterotomography) sho - wed findings compatible with penetrating Crohn’s disease. However, complementary investigation with pelvic resonance revealed lesions compatible with extensive en - dometriosis, including ileal and perianal involvement. Diagnostic confirmation was obtained by histopathology of surgical material (appendectomy and oophorectomy), which showed ectopic endometrial tissue in the terminal ileum and ovary, confirming intestinal endometriosis. Conclusion: Intestinal endometriosis can mimic Crohn’s di- sease, especially in cases with strictures, fistulas and transmural inflammation of the terminal ileum. Differentiation between these conditions requires detailed clinical evaluation, attention to cyclical symptoms, use of imaging methods such as magnetic resonance imaging and histopathological confirmation. Early recognition is essential for adequate management and improvement of the patient’s quality of life. Manifestação atípica de endometriose intestinal simulando doença de Crohn: relato de caso Atypical manifestation of bowel endometriosis simulating Crohn’s disease: case report | 1335 FEMINA 2025;53(11):1334-8 INTRODUÇÃO A endometriose é definida como uma doença inflamató- ria crônica, caracterizada pela presença de tecido seme- lhante ao endométrio (endometrium-like tissue) fora do útero, levando a fibrose e a alterações inflamatórias. Por se tratar de uma doença estrogênio-dependente, é mais frequentemente encontrada em mulheres na idade fér- til. Estima-se que a prevalência mundial, varie entre 2% e 10% da população feminina geral, o que representa cerca de 176 a 190 milhões de mulheres, com percen- tual superior de cerca de 50% naquelas portadoras de infertilidade.(1-3) No Brasil, a prevalência é semelhante, com estimativa de cerca de 8 milhões de mulheres aco- metidas.(4) A etiologia da endometriose é multifatorial, envolven- do elementos genéticos, epigenéticos, hormonais e imu- nológicos, que levam à implantação e à sobrevivência do tecido endometrial ectópico fora da cavidade uterina, por meio da biossíntese local aumentada de estrogênio e tendência progressiva de resistência à progesterona.(1,5) A teoria da menstruação retrógrada é considerada um mecanismo etiopatogênico importante; todavia, outros fatores como transição epitelial-mesenquimal e respos- tas imunológicas alteradas, como tendência ao estresse oxidativo devido a disfunção mitocondrial e atividade de células natural killers desreguladas, podem representar, do mesmo modo, contribuição significativa no desenvol- vimento da doença.(6-9) A endometriose está associada a sintomas debili- tantes, como dor pélvica e infertilidade, e pode impac - tar significativamente a qualidade de vida das pacien- tes.  Embora a laparoscopia permaneça como método diagnóstico padrão-ouro para confirmação histopato- lógica da endometriose, atualmente há consenso entre os especialistas envolvidos no diagnóstico e manejo da doença de que a propedêutica invasiva deve ser reserva- da para situações em que os resultados de imagem são negativos e/ou quando o tratamento empírico não ob- teve sucesso ou foi inadequado.(2) Assim, o mapeamento dos focos de endometriose por meio de protocolos de- dicados, feitos por meio de ultrassonografia ou por res- sonância magnética, representam o recurso diagnóstico mais utilizado atualmente e de grande acurácia, o que é endossado pelas maiores entidades científicas da área, como a Sociedade Mundial de Endometriose, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas e a Sociedade Europeia de Embriologia da Reprodução Humana, que recomendam os estudos de imagem tanto para diagnós- tico como planejamento do tratamento.(2,10) A doença inflamatória intestinal (DII) designa um gru- po de distúrbios inflamatórios crônicos que inclui a re- tocolite ulcerativa (RCU) e a doença de Crohn (DC), com prevalência de cerca de 59,25 casos por 100.000 habitan- tes (com intervalo de incerteza entre 52,78 e 66,47) em 2019.(11) Manifesta-se, sobretudo, na segunda ou terceira década de vida e é caracterizada por uma resposta imu- ne excessiva e desproporcional à mucosa e à microbiota intestinais em indivíduos geneticamente suscetíveis.  A DII é uma condição crônica e potencialmente incapaci- tante, levando a hospitalizações frequentes e impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes porta - dores.(12)  A DC é caracterizada por inflamação transmural que pode afetar todo o trato gastrointestinal, da boca ao ânus, comumente, envolvendo o íleo terminal e o cólon, não raramente, em primodiagnóstico, apresentando-se com complicações como estenoses, abscessos ou fístu- las.(13) Em contraste, a RCU manifesta-se com inflamação na mucosa, que, tipicamente, começa no reto e progri- de proximalmente pelo cólon, de forma contínua e sem acometimento de delgado, não ultrapassando a válvula ileocecal, embora ileíte de refluxo seja possível.(12,13) A incidência da DC varia de 3 a 20 casos por 100.000 habitantes, com maiores prevalências reportadas na América do Norte e na Europa Ocidental, embora a inci- dência esteja aumentando na Ásia e na América do Sul.(13) Clinicamente, a DC se manifesta por meio de sintomas como dor abdominal, diarreia com presença de elemen- tos anormais (muco, pus e/ou sangue), perda de peso não intencional, prostração, náuseas, vômitos e hemato- quezia. Ainda, manifestações extraintestinais, como ar - trite, distúrbios cutâneos e uveíte, também podem estar presentes.(13) Entretanto, nem sempre os sintomas são claros, podendo ser semelhantes aos de outras condi- ções de dor abdominal crônica, suscitando investigação pormenorizada para propiciar o diagnóstico adequado, considerando possíveis diferenciais. O diagnóstico diferencial entre endometriose e DC em casos com apresentações atípicas pode ser desa - fiador, devido à sobreposição de sintomas e achados clínicos semelhantes em alguns casos. Ambas as condi- ções podem apresentar dor abdominal, diarreia, perda de peso e obstrução intestinal, especialmente quando a endometriose afeta o íleo terminal, simulando a DC.(14) Embora a literatura não forneça um número exato de casos descritos, é importante destacar que a endome- triose intestinal, especialmente no íleo terminal, é uma condição rara. A endometriose intestinal pode corres - ponder a 12%-15% dos casos, enquanto o envolvimento ileocecal é ainda menor, com incidência de cerca de 4,1% entre os casos de acometimento intestinal. (15) Ademais, endometrioma perianal isolado, que comumente pode se confundir com o diagnóstico de DC, devido à possibi- lidade de apresentação fistulizante, corresponde a uma entidade rara da endometriose, com cerca de 22 casos descritos na literatura.(16) Assim, o objetivo deste estudo é descrever um caso de manifestação atípica de endometriose simulando DC. RELATO DE CASO Paciente do sexo feminino, 45 anos, casada, professora, apresenta-se com quadro de dor em andar inferior do ab- dome, em cólica, há vários anos, que ocorria no período Costa DD, Malveira CT, Mota EB 1336 | FEMINA 2025;53(11):1334-8 perimenstrual, com mudança do padrão em maio/2022, tornando-se mais intensa, periumbilical, acompanhada de vômitos, lipotimia e necessidade de analgesia ve- nosa, frequente, mas não mensal. Concomitantemente, nesse período, iniciou com diarreia, até quatro episó- dios por dia, Bristol 7, sem elementos anormais, com alí- vio da dor após dejeção. Na história pregressa, referiu diagnóstico de endo- metriose infiltrativa há 10 anos, com relato de foco in- testinal, sendo feito tratamento hormonal; fazia acom- panhamento irregular com ginecologista. Ainda, referiu tratamento prévio para esquistossomose. Foram solici- tados exames laboratoriais e colonoscopia para prope- dêutica inicial de rastreio de condições infectoparasi- tárias e doenças estruturais ou inflamatória intestinal que pudessem justificar os sintomas apresentados pela paciente. Exames laboratoriais de 08/2022 indicaram perfil e função hepática, TSH e T4L, colesterol e triglicérides: dentro da normalidade. Sorologias virais (HBV, CMV e HIV) e VDRL: negativos. Antiendomísio e antitransgluta - minase tecidual IgA: negativos (dosagem de IgA dentro da normalidade). Exame parasitológico de fezes (três amostras) e coprocultura: negativos. Sudam III: 10%. PCR, VHS e ANCA: negativos. Calprotectina fecal realizada na ocasião com valor de 24 mcg/g (10/2022). Colonoscopia (07/2022), realizada sob boas condições de preparo, demonstrou fístula com orifício externo a 2 cm da borda anal e interno posterior, justo à borda anal; reto com edema e enantema discretos; segmen- tos colônicos sem alterações; válvula ileocecal com es - tenose; introduzido aparelho com dificuldade; íleo com presença de enantema, friabilidade e estenose, não se conseguindo progredir o aparelho (Figura 1). O exame histopatológico das biópsias colhidas na ocasião da colonoscopia indicou: íleo – erosão e alte- rações regenerativas, infiltrado linfoplasmocitário com neutrófilos, presença de eosinófilos; cólon – arquitetu- ra preservada, lâmina própria com vasos congestos e infiltrado linfoplasmocitário moderado com acúmulos linfoides, presença de eosinófilos; reto – infiltrado linfo- plasmocitário com alguns eosinófilos, congestão e ede- ma. Granulomas envolvendo ovos de S. mansoni. Assim, devido à permanência de dúvida diagnóstica, foi solicitada enterotomografia (07/2022), que revelou achados de DII em atividade, com massa inflamatória ileocecal, múltiplas fístulas enteroentéricas e estreita - mentos luminais segmentares, sem dilatação significati- va a montante, sem coleções associadas. Esses achados favoreceram a possibilidade de DC penetrante (trans - mural). Além disso, foram identificados espessamentos murais com realce anômalo segmentares esparsos no restante do íleo, indicando processo inflamatório em atividade, sem estreitamento luminal ou alterações me- sentéricas (Figura 2). Desse modo, considerou-se como hipóteses diag - nósticas DC de delgado estenosante e penetrante; endometriose infiltrativa ou esquistossomose. Seguiu-se a investigação com ressonância de pelve com ênfase em canal anal (11/2022), que revelou sinais de extenso en- volvimento pélvico por endometriose, caracterizados por: tecido em “manto” nas regiões vesicouterina, retrocervi- cal e retrouterina, infiltrando superficialmente o miomé- trio e cúpula vaginal, aderindo-se aos ovários e afetando o fundo de saco posterior. Foram observados hidrossal- pinge bilateral, endometriomas nos ovários e uma mas- sa na fossa ilíaca direita que envolveu o apêndice e o íleo terminal, reduzindo sua luz. Na região perianal, havia um cisto multiloculado à esquerda comprimindo o canal anal, sem comunicação com o intestino, sugerindo foco de endometriose em localização atípica (Figura 3). Nota: Imagem de colonoscopia evidenciando válvula ileocecal estenosada com sinais inflamatórios – presença de enantema, friabilidade da mucosa e estreitamento do lúmen no íleo terminal, impedindo a progressão do aparelho. Também foi identificada fístula perianal, com orifício externo próximo à borda anal. Figura 1. Colonoscopia com achados sugestivos de estenose ileocecal Nota: Imagem de enterotomografia demonstrando espessamento de parede ileocecal, massa inflamatória, presença de múltiplas fístulas enteroentéricas e estreitamentos segmentares, compatível com processo inflamatório transmural, inicialmente sugestivo de doença de Crohn. Figura 2. Enterotomografia com evidências de espessamento ileocecal Nota: Imagem de ressonância magnética da pelve evidenciando extensa infiltração por endometriose pélvica, com acometimento do fundo de saco posterior, ovários, miométrio, cúpula vaginal e íleo terminal – incluindo massa na fossa ilíaca direita comprimindo o lúmen intestinal. Também há cisto multiloculado perianal à esquerda. Figura 3. Ressonância de pelve com achados de endometriose invasiva Manifestação atípica de endometriose intestinal simulando doença de Crohn: relato de caso Atypical manifestation of bowel endometriosis simulating Crohn’s disease: case report | 1337 FEMINA 2025;53(11):1334-8 A paciente evoluiu em 12/2022 com abdome agudo (dor abdominal intensa, vômitos, distensão abdominal e diarreia), e foi realizada tomografia computorizada de abdome, que verificou sinais de espessamento parietal mucoso com realce de segmento de alça delgado, par - cialmente distendido; pequena quantidade de líquido livre na cavidade, destacando-se na fossa ilíaca direita e formação hipodensa adjacente ao ceco, com densifica - ção de gordura adjacente – sugerindo apendicite. Foi rea- lizado tratamento cirúrgico com sapingo-ooforectomia direita e apendicectomia ipsilateral videolaparoscópica. O exame anatomopatológico das peças cirúrgicas re- velou endometriose apendicular e endometriose ovaria- na, conduzindo o diagnóstico de manifestação atípica de endometriose simulando DC. DISCUSSÃO A endometriose intestinal, particularmente no íleo, pode causar inflamação local, aderências, estenoses e angu- lações, manifestações que, de modo semelhante, podem ser observadas na DC. Entretanto, o padrão cíclico de sin- tomas, principalmente representados por dismenorreia e dispareunia, relacionados ao período perimenstrual, fortalece a endometriose como diagnóstico diferencial entre mulheres em idade reprodutiva.(14,17) Por outro lado, a DC pode ser complicada por este- noses múltiplas e fístulas internas, que podem ser con- fundidas com endometriose intestinal, especialmente quando há sintomas cíclicos,(17) dificultando a diferencia- ção entre as condições. A presença de sintomas cíclicos associados ao ciclo menstrual sugere endometriose, mas não é exclusivo dela, devendo outras condições serem apreciadas no espectro de diagnósticos diferenciais.(14) O diagnóstico diferencial entre endometriose e DC faz-se necessário devido à condução terapêutica distin- ta e ao manejo direcionado para cada condição. Casos de manifestações semelhantes entre as enfermidades dificultando o diagnóstico são reportados na literatura. De modo semelhante ao apresentado neste estudo, uma mulher de 42 anos recebeu o diagnóstico de DC obstrutiva, baseado em tomografia computadorizada abdominal com contraste oral que demonstrava qua - dro de espessamento do íleo terminal com estenose, compressão do ceco e dilatação proximal das alças do intestino delgado. Tendo em vista o quadro obstrutivo, necessitou-se de cirurgia de emergência, em que foram realizadas ressecções simultâneas do íleo-ceco e do reto superior, com anastomose término-terminal entre o cólon sigmoide e o reto. O exame histológico revelou endometriose transmural com envolvimento da gordura pericólica em ambas as amostras.(18) Teke et al. (2008) (19) publicaram o relato de caso de uma paciente que apresentava sintomas cíclicos de su- boclusão intestinal associados ao período menstrual por três anos, incluindo dor abdominal, náuseas e perda de peso. Inicialmente, foi diagnosticada com endometriose intestinal e tratada com contraceptivos orais, sem me- lhora significativa. Devido à persistência dos sintomas, foi realizada laparotomia exploratória, que revelou múl- tiplas estenoses no íleo terminal e fístulas internas. Foi realizada hemicolectomia direita e ressecção parcial do íleo distal. A análise histopatológica confirmou o diag - nóstico de DC, sem evidência de tecido endometrial ec- tópico.(19) Um estudo retrospectivo analisou uma série de 100 casos de endometriose profunda, submetidos a trata - mento cirúrgico para ressecção dos focos na cavidade pélvica. Identificou-se que 75 casos apresentaram ape- nas focos de endometriose sem outras alterações his - tológicas, 22 casos mostraram alterações arquiteturais focais sem inflamação significativa e 3 casos exibiram alterações inflamatórias e arquiteturais marcantes na mucosa, dificultando o diagnóstico diferencial com DII. Desse modo, é posto que os clínicos considerem a pos- sibilidade de endometriose em mulheres com sintomas semelhantes à DII, especialmente na ausência de um diagnóstico prévio de endometriose.(20) Assim, a diferenciação entre as doenças é importante e pode ser auxiliada por exames de imagem e histopa - tologia. A ressonância magnética possui papel relevante nesse cenário, permitindo o mapeamento dos focos de endometriose e diferenciando as lesões com compo- nente fibrótico, hemorrágico e estromal, além de apon- tar complicações como obstrução intestinal. Entretanto, a confirmação diagnóstica será firmada pela análise histológica, já que a detectação de tecido endometrial diferencia a endometriose da DC, que se caracteriza por inflamação transmural e granulomas não caseosos.(19) Em resumo, a avaliação cuidadosa dos sintomas, da história clínica e dos achados de imagem, conjuntamen- te com o exame histopatológico, é essencial para dife- renciar entre endometriose intestinal e DC em apresen- tações atípicas. CONSIDERAÇÕES FINAIS A diferenciação entre endometriose e doença de Crohn em casos com apresentações atípicas se mostra desa - fiadora, especialmente quando a endometriose compro- mete o íleo terminal, região comumente afetada pela doença de Crohn. A sobreposição de sintomas, como dor abdominal, perda de peso e alterações intestinais, tor - na essencial a atenção aos detalhes clínicos, incluindo possíveis sintomas perimenstruais, e ao contexto repro- dutivo das pacientes. Nesses casos, a investigação por exames de imagem, especialmente a ressonância mag - nética, somada à avaliação histopatológica, tem papel fundamental na detecção de tecido endometrial ectó- pico, característico da endometriose, diferenciando-o da inflamação transmural e granulomas presentes na doença de Crohn. A análise histopatológica é essencial no diagnós - tico diferencial, pois confirma a presença de tecido Costa DD, Malveira CT, Mota EB 1338 | FEMINA 2025;53(11):1334-8 endometrial em casos de endometriose e identifica achados característicos da doença de Crohn. Assim, uma abordagem multidisciplinar, que inclua ginecologia, gas- troenterologia e radiologia, é recomendada para garan- tir um diagnóstico preciso e adequado manejo clínico. O reconhecimento precoce e a diferenciação correta entre essas condições são fundamentais para o tratamento direcionado e a melhora na qualidade de vida das pa - cientes, especialmente considerando o impacto funcio- nal e emocional associado. 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