{"paper_id":"291f57b8-05df-4ae0-ba9d-7898c1586d00","body_text":"1334 |\nFEMINA 2025;53(11):1334-8\nRELATO DE CASO\nDescritores\nEndometriose; Doença de Crohn; \nDoenças inflamatórias intestinais; \nDiagnóstico diferencial \nKeywords\nEndometriosis; Crohn’s disease; \nInflammatory bowel diseases; \nDifferential diagnosis \nSubmetido: \n01/06/2025\nAceito: \n27/08/2025\n1. Universidade Estadual de Montes \nClaros, Montes Claros, MG, Brasil.\n2. Departamento de Clínica Médica, \nUniversidade Estadual de Montes \nClaros, Montes Claros, MG, Brasil.\nConflitos de interesse: \nNada a declarar. \nAutor correspondente:\nDanilo Duarte Costa\ncosta.daniloduarte@gmail.com\nComo citar:\nCosta DD, Malveira CT, Mota \nEB. Manifestação atípica de \nendometriose intestinal simulando \ndoença de Crohn: relato de caso. \nFemina. 2025;53(11):1334-8.\nManifestação atípica de \nendometriose intestinal \nsimulando doença de \nCrohn: relato de caso \nAtypical manifestation of bowel \nendometriosis simulating \nCrohn’s disease: case report\nDanilo Duarte Costa¹, Cristiane Turano Mota Malveira², Emanuelly Botelho Rocha Mota 2\nRESUMO\nObjetivo: Relatar um caso de manifestação atípica de endometriose intestinal \nque simulava doença de Crohn, evidenciando os desafios diagnósticos diante da \nsobreposição de manifestações clínicas e radiológicas entre as duas patologias. \nApresentação do caso: Mulher de 45 anos com dor abdominal cíclica de longa \ndata que se intensificou em 2022, associada a diarreia, vômitos e sintomas suges -\ntivos de obstrução intestinal. Exames iniciais (colonoscopia e enterotomografia) \nmostraram achados compatíveis com doença de Crohn penetrante. No entanto, \ninvestigação complementar com ressonância de pelve revelou lesões compatíveis \ncom endometriose extensa, incluindo acometimento ileal e perianal. A confirma -\nção diagnóstica foi obtida por histopatologia de material cirúrgico (apendicectomia \ne ooforectomia), que evidenciou tecido endometrial ectópico em íleo terminal e \novário, confirmando endometriose intestinal. Conclusão: A endometriose intesti-\nnal pode mimetizar a doença de Crohn, especialmente em casos com estenoses, \nfístulas e inflamação transmural do íleo terminal. A diferenciação entre essas con-\ndições exige avaliação clínica detalhada, atenção aos sintomas cíclicos, uso de \nmétodos de imagem como a ressonância magnética e confirmação histopatológica. \nO reconhecimento precoce é fundamental para o manejo adequado e melhora da \nqualidade de vida da paciente.\nABSTRACT\nObjective: To report a case of atypical manifestation of intestinal endometriosis that \nsimulated Crohn’s disease, highlighting the diagnostic challenges given the over -\nlap of clinical and radiological manifestations between the two pathologies. Case \npresentation: A 45-year-old woman with long-standing cyclical abdominal pain that \nintensified in 2022, associated with diarrhea, vomiting, and symptoms suggestive of \nintestinal obstruction. Initial examinations (colonoscopy, enterotomography) sho -\nwed findings compatible with penetrating Crohn’s disease. However, complementary \ninvestigation with pelvic resonance revealed lesions compatible with extensive en -\ndometriosis, including ileal and perianal involvement. Diagnostic confirmation was \nobtained by histopathology of surgical material (appendectomy and oophorectomy), \nwhich showed ectopic endometrial tissue in the terminal ileum and ovary, confirming \nintestinal endometriosis. Conclusion: Intestinal endometriosis can mimic Crohn’s di-\nsease, especially in cases with strictures, fistulas and transmural inflammation of \nthe terminal ileum. Differentiation between these conditions requires detailed clinical \nevaluation, attention to cyclical symptoms, use of imaging methods such as magnetic \nresonance imaging and histopathological confirmation. Early recognition is essential \nfor adequate management and improvement of the patient’s quality of life.\n\nManifestação atípica de endometriose intestinal simulando doença de Crohn: relato de caso \nAtypical manifestation of bowel endometriosis simulating Crohn’s disease: case report\n| 1335 \nFEMINA 2025;53(11):1334-8\nINTRODUÇÃO\nA endometriose é definida como uma doença inflamató-\nria crônica, caracterizada pela presença de tecido seme-\nlhante ao endométrio (endometrium-like tissue) fora do \nútero, levando a fibrose e a alterações inflamatórias. Por \nse tratar de uma doença estrogênio-dependente, é mais \nfrequentemente encontrada em mulheres na idade fér-\ntil. Estima-se que a prevalência mundial, varie entre 2% \ne 10% da população feminina geral, o que representa \ncerca de 176 a 190 milhões de mulheres, com percen-\ntual superior de cerca de 50% naquelas portadoras de \ninfertilidade.(1-3) No Brasil, a prevalência é semelhante, \ncom estimativa de cerca de 8 milhões de mulheres aco-\nmetidas.(4)\nA etiologia da endometriose é multifatorial, envolven-\ndo elementos genéticos, epigenéticos, hormonais e imu-\nnológicos, que levam à implantação e à sobrevivência \ndo tecido endometrial ectópico fora da cavidade uterina, \npor meio da biossíntese local aumentada de estrogênio \ne tendência progressiva de resistência à progesterona.(1,5) \nA teoria da menstruação retrógrada é considerada um \nmecanismo etiopatogênico importante; todavia, outros \nfatores como transição epitelial-mesenquimal e respos-\ntas imunológicas alteradas, como tendência ao estresse \noxidativo devido a disfunção mitocondrial e atividade de \ncélulas natural killers desreguladas, podem representar, \ndo mesmo modo, contribuição significativa no desenvol-\nvimento da doença.(6-9)\nA endometriose está associada a sintomas debili-\ntantes, como dor pélvica e infertilidade, e pode impac -\ntar significativamente a qualidade de vida  das pacien-\ntes.  Embora a laparoscopia permaneça como método \ndiagnóstico padrão-ouro para confirmação histopato-\nlógica da endometriose, atualmente há consenso entre \nos especialistas envolvidos no diagnóstico e manejo da \ndoença de que a propedêutica invasiva deve ser reserva-\nda para situações em que os resultados de imagem são \nnegativos e/ou quando o tratamento empírico não ob-\nteve sucesso ou foi inadequado.(2) Assim, o mapeamento \ndos focos de endometriose por meio de protocolos de-\ndicados, feitos por meio de ultrassonografia ou por res-\nsonância magnética, representam o recurso diagnóstico \nmais utilizado atualmente e de grande acurácia, o que é \nendossado pelas maiores entidades científicas da área, \ncomo a Sociedade Mundial de Endometriose, o Colégio \nAmericano de Obstetras e Ginecologistas e a Sociedade \nEuropeia de Embriologia da Reprodução Humana, que \nrecomendam os estudos de imagem tanto para diagnós-\ntico como planejamento do tratamento.(2,10)\nA doença inflamatória intestinal (DII) designa um gru-\npo de distúrbios inflamatórios crônicos que inclui a re-\ntocolite ulcerativa (RCU) e a doença de Crohn (DC), com \nprevalência de cerca de 59,25 casos por 100.000 habitan-\ntes (com intervalo de incerteza entre 52,78 e 66,47) em \n2019.(11) Manifesta-se, sobretudo, na segunda ou terceira \ndécada de vida e é caracterizada por uma resposta imu-\nne excessiva e desproporcional à mucosa e à microbiota \nintestinais em indivíduos geneticamente suscetíveis.  A \nDII é uma condição crônica e potencialmente incapaci-\ntante, levando a hospitalizações frequentes e impacto \nsignificativo na qualidade de vida dos pacientes porta -\ndores.(12) \nA DC é caracterizada por inflamação transmural que \npode afetar todo o trato gastrointestinal, da boca ao \nânus, comumente, envolvendo o íleo terminal e o cólon, \nnão raramente, em primodiagnóstico, apresentando-se \ncom complicações como estenoses, abscessos ou fístu-\nlas.(13) Em contraste, a RCU manifesta-se com inflamação \nna mucosa, que, tipicamente, começa no reto e progri-\nde proximalmente pelo cólon, de forma contínua e sem \nacometimento de delgado, não ultrapassando a válvula \nileocecal, embora ileíte de refluxo seja possível.(12,13)\nA incidência da DC varia de 3 a 20 casos por 100.000 \nhabitantes, com maiores prevalências reportadas na \nAmérica do Norte e na Europa Ocidental, embora a inci-\ndência esteja aumentando na Ásia e na América do Sul.(13) \nClinicamente, a DC se manifesta por meio de sintomas \ncomo dor abdominal, diarreia com presença de elemen-\ntos anormais (muco, pus e/ou sangue), perda de peso \nnão intencional, prostração, náuseas, vômitos e hemato-\nquezia. Ainda, manifestações extraintestinais, como ar -\ntrite, distúrbios cutâneos e uveíte, também podem estar \npresentes.(13) Entretanto, nem sempre os sintomas são \nclaros, podendo ser semelhantes aos de outras condi-\nções de dor abdominal crônica, suscitando investigação \npormenorizada para propiciar o diagnóstico adequado, \nconsiderando possíveis diferenciais. \nO diagnóstico diferencial entre endometriose e DC \nem casos com apresentações atípicas pode ser desa -\nfiador, devido à sobreposição de sintomas e achados \nclínicos semelhantes em alguns casos. Ambas as condi-\nções podem apresentar dor abdominal, diarreia, perda \nde peso e obstrução intestinal, especialmente quando \na endometriose afeta o íleo terminal, simulando a DC.(14) \nEmbora a literatura não forneça um número exato de \ncasos descritos, é importante destacar que a endome-\ntriose intestinal, especialmente no íleo terminal, é uma \ncondição rara. A endometriose intestinal pode corres -\nponder a 12%-15% dos casos, enquanto o envolvimento \nileocecal é ainda menor, com incidência de cerca de 4,1% \nentre os casos de acometimento intestinal. (15) Ademais, \nendometrioma perianal isolado, que comumente pode \nse confundir com o diagnóstico de DC, devido à possibi-\nlidade de apresentação fistulizante, corresponde a uma \nentidade rara da endometriose, com cerca de 22 casos \ndescritos na literatura.(16) \nAssim, o objetivo deste estudo é descrever um caso \nde manifestação atípica de endometriose simulando DC. \nRELATO DE CASO \nPaciente do sexo feminino, 45 anos, casada, professora, \napresenta-se com quadro de dor em andar inferior do ab-\ndome, em cólica, há vários anos, que ocorria no período \n\nCosta DD, Malveira CT, Mota EB\n1336 |\nFEMINA 2025;53(11):1334-8\nperimenstrual, com mudança do padrão em maio/2022, \ntornando-se mais intensa, periumbilical, acompanhada \nde vômitos, lipotimia e necessidade de analgesia ve-\nnosa, frequente, mas não mensal. Concomitantemente, \nnesse período, iniciou com diarreia, até quatro episó-\ndios por dia, Bristol 7, sem elementos anormais, com alí-\nvio da dor após dejeção. \nNa história pregressa, referiu diagnóstico de endo-\nmetriose infiltrativa há 10 anos, com relato de foco in-\ntestinal, sendo feito tratamento hormonal; fazia acom-\npanhamento irregular com ginecologista. Ainda, referiu \ntratamento prévio para esquistossomose. Foram solici-\ntados exames laboratoriais e colonoscopia para prope-\ndêutica inicial de rastreio de condições infectoparasi-\ntárias e doenças estruturais ou inflamatória intestinal \nque pudessem justificar os sintomas apresentados pela \npaciente.\nExames laboratoriais de 08/2022 indicaram perfil e \nfunção hepática, TSH e T4L, colesterol e triglicérides: \ndentro da normalidade. Sorologias virais (HBV, CMV e \nHIV) e VDRL: negativos. Antiendomísio e antitransgluta -\nminase tecidual IgA: negativos (dosagem de IgA dentro \nda normalidade). Exame parasitológico de fezes (três \namostras) e coprocultura: negativos. Sudam III: 10%. PCR, \nVHS e ANCA: negativos. Calprotectina fecal realizada na \nocasião com valor de 24 mcg/g (10/2022). \nColonoscopia (07/2022), realizada sob boas condições \nde preparo, demonstrou fístula com orifício externo a \n2 cm da borda anal e interno posterior, justo à borda \nanal; reto com edema e enantema discretos; segmen-\ntos colônicos sem alterações; válvula ileocecal com es -\ntenose; introduzido aparelho com dificuldade; íleo com \npresença de enantema, friabilidade e estenose, não se \nconseguindo progredir o aparelho (Figura 1).\nO exame histopatológico das biópsias colhidas na \nocasião da colonoscopia indicou: íleo – erosão e alte-\nrações regenerativas, infiltrado linfoplasmocitário com \nneutrófilos, presença de eosinófilos; cólon – arquitetu-\nra preservada, lâmina própria com vasos congestos e \ninfiltrado linfoplasmocitário moderado com acúmulos \nlinfoides, presença de eosinófilos; reto – infiltrado linfo-\nplasmocitário com alguns eosinófilos, congestão e ede-\nma. Granulomas envolvendo ovos de S. mansoni.\nAssim, devido à permanência de dúvida diagnóstica, \nfoi solicitada enterotomografia (07/2022), que revelou \nachados de DII em atividade, com massa inflamatória \nileocecal, múltiplas fístulas enteroentéricas e estreita -\nmentos luminais segmentares, sem dilatação significati-\nva a montante, sem coleções associadas. Esses achados \nfavoreceram a possibilidade de DC penetrante (trans -\nmural). Além disso, foram identificados espessamentos \nmurais com realce anômalo segmentares esparsos no \nrestante do íleo, indicando processo inflamatório em \natividade, sem estreitamento luminal ou alterações me-\nsentéricas (Figura 2).\nDesse modo, considerou-se como hipóteses diag -\nnósticas DC de delgado estenosante e penetrante; \nendometriose infiltrativa ou esquistossomose. Seguiu-se \na investigação com ressonância de pelve com ênfase em \ncanal anal (11/2022), que revelou sinais de extenso en-\nvolvimento pélvico por endometriose, caracterizados por: \ntecido em “manto” nas regiões vesicouterina, retrocervi-\ncal e retrouterina, infiltrando superficialmente o miomé-\ntrio e cúpula vaginal, aderindo-se aos ovários e afetando \no fundo de saco posterior. Foram observados hidrossal-\npinge bilateral, endometriomas nos ovários e uma mas-\nsa na fossa ilíaca direita que envolveu o apêndice e o \níleo terminal, reduzindo sua luz. Na região perianal, havia \num cisto multiloculado à esquerda comprimindo o canal \nanal, sem comunicação com o intestino, sugerindo foco \nde endometriose em localização atípica (Figura 3).\nNota: Imagem de colonoscopia evidenciando válvula ileocecal estenosada \ncom sinais inflamatórios – presença de enantema, friabilidade da mucosa \ne estreitamento do lúmen no íleo terminal, impedindo a progressão do \naparelho. Também foi identificada fístula perianal, com orifício externo \npróximo à borda anal. \nFigura 1. Colonoscopia com achados sugestivos de estenose \nileocecal\nNota: Imagem de enterotomografia demonstrando espessamento de parede \nileocecal, massa inflamatória, presença de múltiplas fístulas enteroentéricas \ne estreitamentos segmentares, compatível com processo inflamatório \ntransmural, inicialmente sugestivo de doença de Crohn.\nFigura 2. Enterotomografia com evidências de espessamento \nileocecal \nNota: Imagem de ressonância magnética da pelve evidenciando extensa \ninfiltração por endometriose pélvica, com acometimento do fundo de saco \nposterior, ovários, miométrio, cúpula vaginal e íleo terminal – incluindo \nmassa na fossa ilíaca direita comprimindo o lúmen intestinal. Também há \ncisto multiloculado perianal à esquerda.\nFigura 3. Ressonância de pelve com achados de endometriose \ninvasiva\n\n\nManifestação atípica de endometriose intestinal simulando doença de Crohn: relato de caso \nAtypical manifestation of bowel endometriosis simulating Crohn’s disease: case report\n| 1337 \nFEMINA 2025;53(11):1334-8\nA paciente evoluiu em 12/2022 com abdome agudo \n(dor abdominal intensa, vômitos, distensão abdominal \ne diarreia), e foi realizada tomografia computorizada de \nabdome, que verificou sinais de espessamento parietal \nmucoso com realce de segmento de alça delgado, par -\ncialmente distendido; pequena quantidade de líquido \nlivre na cavidade, destacando-se na fossa ilíaca direita e \nformação hipodensa adjacente ao ceco, com densifica -\nção de gordura adjacente – sugerindo apendicite. Foi rea-\nlizado tratamento cirúrgico com sapingo-ooforectomia \ndireita e apendicectomia ipsilateral videolaparoscópica.\nO exame anatomopatológico das peças cirúrgicas re-\nvelou endometriose apendicular e endometriose ovaria-\nna, conduzindo o diagnóstico de manifestação atípica \nde endometriose simulando DC.\nDISCUSSÃO\nA endometriose intestinal, particularmente no íleo, pode \ncausar inflamação local, aderências, estenoses e angu-\nlações, manifestações que, de modo semelhante, podem \nser observadas na DC. Entretanto, o padrão cíclico de sin-\ntomas, principalmente representados por dismenorreia \ne dispareunia, relacionados ao período perimenstrual, \nfortalece a endometriose como diagnóstico diferencial \nentre mulheres em idade reprodutiva.(14,17)\nPor outro lado, a DC pode ser complicada por este-\nnoses múltiplas e fístulas internas, que podem ser con-\nfundidas com endometriose intestinal, especialmente \nquando há sintomas cíclicos,(17) dificultando a diferencia-\nção entre as condições. A presença de sintomas cíclicos \nassociados ao ciclo menstrual sugere endometriose, mas \nnão é exclusivo dela, devendo outras condições serem \napreciadas no espectro de diagnósticos diferenciais.(14)\nO diagnóstico diferencial entre endometriose e DC  \nfaz-se necessário devido à condução terapêutica distin-\nta e ao manejo direcionado para cada condição. Casos \nde manifestações semelhantes entre as enfermidades \ndificultando o diagnóstico são reportados na literatura. \nDe modo semelhante ao apresentado neste estudo, \numa mulher de 42 anos recebeu o diagnóstico de DC \nobstrutiva, baseado em tomografia computadorizada \nabdominal com contraste oral que demonstrava qua -\ndro de espessamento do íleo terminal com estenose, \ncompressão do ceco e dilatação proximal das alças do \nintestino delgado. Tendo em vista o quadro obstrutivo, \nnecessitou-se de cirurgia de emergência, em que foram \nrealizadas ressecções simultâneas do íleo-ceco e do \nreto superior, com anastomose término-terminal entre \no cólon sigmoide e o reto. O exame histológico revelou \nendometriose transmural com envolvimento da gordura \npericólica em ambas as amostras.(18)\nTeke et al. (2008) (19) publicaram o relato de caso de \numa paciente que apresentava sintomas cíclicos de su-\nboclusão intestinal associados ao período menstrual por \ntrês anos, incluindo dor abdominal, náuseas e perda de \npeso. Inicialmente, foi diagnosticada com endometriose \nintestinal e tratada com contraceptivos orais, sem me-\nlhora significativa. Devido à persistência dos sintomas, \nfoi realizada laparotomia exploratória, que revelou múl-\ntiplas estenoses no íleo terminal e fístulas internas. Foi \nrealizada hemicolectomia direita e ressecção parcial do \níleo distal. A análise histopatológica confirmou o diag -\nnóstico de DC, sem evidência de tecido endometrial ec-\ntópico.(19)\nUm estudo retrospectivo analisou uma série de 100 \ncasos de endometriose profunda, submetidos a trata -\nmento cirúrgico para ressecção dos focos na cavidade \npélvica. Identificou-se que 75 casos apresentaram ape-\nnas focos de endometriose sem outras alterações his -\ntológicas, 22 casos mostraram alterações arquiteturais \nfocais sem inflamação significativa e 3 casos exibiram \nalterações inflamatórias e arquiteturais marcantes na \nmucosa, dificultando o diagnóstico diferencial com DII. \nDesse modo, é posto que os clínicos considerem a pos-\nsibilidade de endometriose em mulheres com sintomas \nsemelhantes à DII, especialmente na ausência de um \ndiagnóstico prévio de endometriose.(20)\nAssim, a diferenciação entre as doenças é importante \ne pode ser auxiliada por exames de imagem e histopa -\ntologia. A ressonância magnética possui papel relevante \nnesse cenário, permitindo o mapeamento dos focos de \nendometriose e diferenciando as lesões com compo-\nnente fibrótico, hemorrágico e estromal, além de apon-\ntar complicações como obstrução intestinal. Entretanto, \na confirmação diagnóstica será firmada pela análise \nhistológica, já que a detectação de tecido endometrial \ndiferencia a endometriose da DC, que se caracteriza por \ninflamação transmural e granulomas não caseosos.(19)\nEm resumo, a avaliação cuidadosa dos sintomas, da \nhistória clínica e dos achados de imagem, conjuntamen-\nte com o exame histopatológico, é essencial para dife-\nrenciar entre endometriose intestinal e DC em apresen-\ntações atípicas.\nCONSIDERAÇÕES FINAIS\nA diferenciação entre endometriose e doença de Crohn \nem casos com apresentações atípicas se mostra desa -\nfiadora, especialmente quando a endometriose compro-\nmete o íleo terminal, região comumente afetada pela \ndoença de Crohn. A sobreposição de sintomas, como dor \nabdominal, perda de peso e alterações intestinais, tor -\nna essencial a atenção aos detalhes clínicos, incluindo \npossíveis sintomas perimenstruais, e ao contexto repro-\ndutivo das pacientes. Nesses casos, a investigação por \nexames de imagem, especialmente a ressonância mag -\nnética, somada à avaliação histopatológica, tem papel \nfundamental na detecção de tecido endometrial ectó-\npico, característico da endometriose, diferenciando-o \nda inflamação transmural e granulomas presentes na \ndoença de Crohn.\nA análise histopatológica é essencial no diagnós -\ntico diferencial, pois confirma a presença de tecido \n\nCosta DD, Malveira CT, Mota EB\n1338 |\nFEMINA 2025;53(11):1334-8\nendometrial em casos de endometriose e identifica \nachados característicos da doença de Crohn. Assim, uma \nabordagem multidisciplinar, que inclua ginecologia, gas-\ntroenterologia e radiologia, é recomendada para garan-\ntir um diagnóstico preciso e adequado manejo clínico. O \nreconhecimento precoce e a diferenciação correta entre \nessas condições são fundamentais para o tratamento \ndirecionado e a melhora na qualidade de vida das pa -\ncientes, especialmente considerando o impacto funcio-\nnal e emocional associado.\nREFERÊNCIAS\n1. Zondervan KT, Becker CM, Koga K, Missmer SA, Taylor RN, Viganò P. \nEndometriosis. Nat Rev Dis Primers. 2018;4(1):9. doi: 10.1038/s41572-\n018-0008-5\n2. ESHRE Endometriosis Guideline Development Group. \nEndometriosis: Guideline of European Society of Human \nReproduction and Embryology. 2022 [cited 2024 Sep 20]. Available \nfrom: https://www.eshre.eu/guideline/endometriosis\n3. Horne AW, Missmer SA. Pathophysiology, diagnosis, and \nmanagement of endometriosis. BMJ. 2022;379:e070750. doi: 10.1136/\nbmj-2022-070750\n4. Zhang S, Gong TT, Wang HY, Zhao YH, Wu QJ. Global, regional, and \nnational endometriosis trends from 1990 to 2017. Ann N Y Acad Sci. \n2021;1484(1):90-101. doi: 10.1111/nyas.14468\n5. 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