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Palavras-Chave: Endometriose; Infertilidade; Dor.
Capítulo 2
MARINA PORTO NASSIF¹
CESAR AUGUSTO WESCHENFELDER¹
LEONARDO LEIVAS¹
ANTÔNIA STUMPF MARTINS¹
1Graduação em Medicina concluída pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
ENDOMETRIOSE
10.59290/5721209200
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INTRODUÇÃO
A endometriose é uma condição ginecoló -
gica crônica, inflamatória e estrogênio -depen-
dente, que afeta aproximadamente 10% das mu-
lheres em idade reprodutiva, representando
uma das principais causas de dor pélvica crôni-
ca e infertilidade feminina. Caracteriza -se pela
presença de tecido endometrial funcional fora
da cavidade uterina, envolvendo predominante-
mente os ovários, ligamentos uterossacros, pe -
ritônio pélvico e, em casos avançados, órgãos
extragenitais como bexiga, ureteres e trato gas-
trointestinal.
Apesar de ser uma entidade clínica reconhe-
cida há mais de um século, a endometriose ain-
da impõe desafios diagnósticos e terapêuticos
importantes. A doença exerce considerável im-
pacto negativo sobre a qualidade de vida das pa-
cientes, com repercussões fí sicas, emocionais,
sociais e econômicas. Este capítulo revisa, com
base em evidências científicas atualizadas, os
principais aspectos da etiopatogenia, clínica, di-
agnóstico e abordagem terapêutica da endome-
triose.
ETIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA
A etiologia da endometriose é multifatorial
e ainda não completamente esclarecida. A teo-
ria mais amplamente aceita é a da menstruação
retrógrada (teoria de Sampson), segundo a qual
o refluxo de sangue menstrual através das tubas
uterinas leva à implantação de células endome-
triais viáveis na cavidade peritoneal. No entan-
to, essa hipótese não explica todos os casos,
especialmente os de localização extrapélvica.
Outros mecanismos propostos incluem:
1. Teoria da metaplasia celômica: Propõe a
transformação de células peritoneais em tecido
endometrial sob estímulo hormonal ou inflama-
tório.
2. Teoria da disseminação linfática e hema-
togênica: Explica casos de endometriose em lo-
cais distantes, como pulmões e sistema nervoso
central.
3. Teoria imunológica: Propõe que disfun-
ções no sistema imune permitem a sobrevivên-
cia e implantação de células endometriais ectó-
picas.
4. Teoria genética e epigenética: Estudos
demonstram agregação familiar e polimorfis-
mos associados à susceptibilidade à doença.
A fisiopatologia da endometriose envolve
resposta inflamatória crônica, neoangiogênese,
resistência à progesterona e aumento da produ-
ção local de estrogênio, perpetuando o processo
inflamatório e a manutenção dos implantes.
MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS
A apresentação clínica da endometriose é
variável e nem sempre correlaciona -se com a
extensão anatômica da doença. Os sintomas
mais comuns incluem:
1. Dismenorreia severa
2. Dor pélvica crônica
3. Dispareunia de profundidade
4. Disquesia ou disúria cíclica
5. Infertilidade inexplicada
Além dos sintomas físicos, há impacto sig -
nificativo na saúde mental, com alta prevalên -
cia de ansiedade, depressão e disfunção sexual.
Em adolescentes, a endometriose pode apresen-
tar-se como dor pélvica resistente a anti -infla-
matórios não esteroidais (A INEs), sendo f re-
quentemente subdiagnosticada nessa faixa etá -
ria.
Endometriose intestinal
Até 12% das pacientes com endometriose
profunda têm focos ectópicos infiltrativos de
endométrio no intestino, principalmente no reto
e no sigmoide. Os sintomas da endometriose in-
testinal incluem disquesia (dor à evacuação),
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constipação cíclica e tenesmo, podendo mime -
tizar doenças intestinais inflamatórias. O diag -
nóstico é sugerido por ultrassonografia com
preparo intestinal e confirmado por ressonância
magnética ou colonoscopia, que pode não iden-
tificar lesões superficiais.
O tratamento pode ser clínico nos casos le -
ves e assintomáticos, mas frequentemente exige
cirurgia ressectiva segmentar ou " shaving" do
segmento intestinal.
Endometriose torácica
Os focos de endometriose no tórax configu-
ram uma forma rara da doença, com implantes
diafragmáticos, pleurais ou pulmonares, que
podem se manifestar como pneumotórax cata -
menial, hemoptise cíclica e dor torácica associ-
ada ao ciclo menstrual.
A tomografia de tórax e a ressonância mag-
nética são úteis, mas o diagnóstico muitas vezes
é de exclusão. O tratamento inclui supressão
hormonal e, em casos recorrentes, toracoscopia
com ressecção dos implantes e pleurodese.
Endometriose em adolescentes
Frequentemente subdiagnosticada, a endo -
metriose em adolescentes manifesta-se por dis-
menorreia severa e dor pélvica crônica resisten-
te a AINEs, que inicia frequentemente após a
menarca. A ultrassonografia pode ser normal
nas fases iniciais, e o uso empírico de progesta-
gênios pode ser tanto diagnóstico quanto tera -
pêutico.
A laparoscopia é indicada quando há falha
terapêutica e suspeita clínica persistente. Nes -
sas pacientes, observa-se frequentemente doen-
ça superficial no peritônio.
DIAGNÓSTICO
Historicamente, o diagnóstico definitivo era
estabelecido por laparoscopia com confirmação
histológica. Contudo, atualmente recomenda-se
uma abordagem baseada em critérios clínicos e
por imagem, especialmente para evitar atrasos
no início do tratamento. As principais ferra -
mentas diagnósticas incluem:
1. Ultrassonografia transvaginal com prepa-
ro intestinal, sendo muito útil na detecção de
endometriomas e nódulos profundos.
2. Ressonância magnética pélvica com con-
traste: Indicada na suspeita de endometriose
profunda, especialmente em compartimentos
retrocervical, intestinal e vesical.
O atraso diagnóstico ainda é um problema
relevante, com média de 7 a 10 anos entre o
início dos sintomas e o diagnóstico definitivo, o
que compromete o prognóstico e qualidade de
vida das pacientes.
O Fluxograma 2.1 demonstra o passo a
passo para diagnóstico clínico e por imagem da
endometriose.
Fluxograma 2.1 Diagnóstico clínico e por i magem da
Endometriose
1. Paciente com dor pélvica crônica ou dismenorreia in -
tensa.
2. Realização de anamnese detalhada e exame físico gi -
necológico.
3. Realização de USG transvaginal com preparo intesti -
nal.
4. Se lesão identificada, deve-se confirmar com RNM.
5. Mapeamento de doença profunda e órgãos adjacentes
6. Tratamento clínico ou encaminhamento para laparos -
copia diagnóstica.
TRATAMENTO
A escolha terapêutica deve considerar a in -
tensidade dos sintomas, o desejo reprodutivo e
a extensão da doença. As opções incluem trata-
mento clínico, cirúrgico e técnicas de reprodu -
ção assistida.
O tratamento clínico tem como objetivo
principal o controle da dor e a supressão da ati-
vidade estrogênio -dependente dos implantes.
Algumas opções de medicamentos incluem an-
ticoncepcionais hormonais combinados (de uso
contínuo, sem pausa), progestagênios isolados
(como o dienogeste), análogos do GnRH com
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terapia de adição (“ add-back") e inibidores da
aromatase (em casos refratários).
O tratamento cirúrgico está indicado em
casos de falha terapêutica medicamentosa, dor
refratária, endometriomas volumosos, compro-
metimento de órgãos adjacentes ou infertilida -
de. A abordagem preferencial é a laparoscopia
com excisão completa dos implantes. A cirurgia
conservadora melhora a dor e pode aumentar as
taxas de gestação espontânea.
O tratamento da infertilidade é fundamental
em mulheres com desejo reprodutivo e dificul -
dade de engravidar, pois a endometriose está as-
sociada a alterações inflamatórias no ambiente
peritoneal e alterações anatômicas pélvicas que
comprometem a fertilidade. A fertilização in vi-
tro (FIV) é indicada especialmente em casos de
endometriose avançada, falha de outras aborda-
gens ou idade materna avançada.
IMPACTOS PSICOSSOCIAIS E
QUALIDADE DE VIDA
A endometriose impacta negativamente di -
versos domínios da vida da mulher, como o de-
sempenho profissional, os relacionamentos afe-
tivos, a saúde mental e a sexualidade. A dor crô-
nica e o atraso no diagnóstico agravam a angús-
tia psíquica e a percepção de negligência no cui-
dado.
O manejo da endometriose deve ser mul ti-
disciplinar, com abordagem centrada na pacien-
te e suporte psicológico, além do cuidado gine-
cológico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A endometriose é uma condição complexa,
de etiologia multifatorial, com grande impacto
na saúde da mulher. O avanço das técnicas di -
agnósticas por imagem e a maior conscienti -
zação clínica têm permitido diagnósticos mais
precoces e individualização terapêutica.
O tratamento ideal requer abordagem inte -
grada, envolvendo controle hormonal, técnicas
cirúrgicas especializadas e, quando necessário,
suporte para fertilidade e saúde mental. Investi-
mentos em pesquisa, educação médica continu-
ada e políticas de saúde pública são fundamen-
tais para o enfrentamento eficaz da doença.
A Tabela 2.1 contém um comparativo entre
os tratamento para a endometriose.
Tabela 2.1 Comparação entre os tratamentos para Endometriose
Classe Exemplos Mecanismo de ação Indicações
Anticoncepcionais
combinados (P+E)
Pílula de etinilestradiol +
levonorgestrel
Supressão do eixo HHO
(hipotálamo-hipófise-ovário) Casos leves a moderados
Progestágenos
isolados
Dienogeste VO
Medroxiprogesterona IM Antagonismo estrogênico local Primeira linha de tratamento
da dor pélvica crônica
Análogos de
GnRH
Leuprorrelina
Gosserrelina
Supressão hipofisária da
produção de estrogênio Casos refratários
Inibidores da
aromatase
Letrozol
Anastrozol
Redução da produção periférica
de estrogênio Endometriose profunda
Cirurgia
laparoscópica
Ressecção de implantes e
aderências pélvicas
Remoção física do tecido
ectópico causados de sintomas
Dor refratária ao tratamento
clínico
Infertilidade
Reprodução
assistida
FIV
ICSI
Superação de fatores mecânicos
(aderências pélvicas) Infertilidade
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