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106 | P á g i n a
Palavras-Chave: Inflamação; Dor Pélvica; Infertilidade.
Capítulo 14
EDUARDA EICKHOFF GIRARDI¹
FRANCIELI JANTSCH PEDÓ¹
GIULIA CECONELLO DE AQUINO¹
JÚLIA GRALHA TONETT¹
LEONARDO MIOTTE2
LUCAS GAILHARD BRITO¹
MELISSA HOFFMANN FAGUNDES3
RAFAELLA PEIXOTO ABREU DA SILVA¹
SAMIRA CECÍLIA WEBER BAUMGARTEN¹
TIAGO CAMARGO COLETO4
1Discente – Medicina na Universidade de Caxias do Sul
2Discente – Medicina na Universidade Anhembi Morumbi
3Discente – Medicina na Universidade Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
4Discente- Medicina na Universidade de Santa Cruz do Sul
ENDOMETRIOSE
10.59290/978-65-6029-200-0.14
107 | P á g i n a
INTRODUÇÃO
A endometriose é uma doença ginecológica
crônica, benigna, dependente de estrogênio e
caracterizada pela presença de tecido endome -
trial (estroma e/ou glândulas endometriais) fora
da cavidade uterina. O endométrio ectópico po-
de estar nas vísceras pélvicas, como nos ovários
e nas tubas uterinas, peritônio e, em casos mais
raros, fora da pelve, como na pleura, no peri -
cárdio e no encéfalo. A etiologia da endometri-
ose não é totalmente compreendida e existem
várias teorias, mas fatores genéticos, hormonais
e imunológicos desempenham um papel impor-
tante no seu desenvolvimento. (BEREK; et al.,
2016; PASSOS; et al., 2023)
A patologia pode causar inflamação, dor
pélvica crônica (dismenorreia e/ou dispareu -
nia), formação de aderências com o intestino, a
bexiga e o ureter, endometriomas (cistos nos o-
vários) e infertilidade. Alguns fatores de risco
para a endometriose são menarca precoce, me -
nopausa tardia e nuliparidade, já que essas con-
dições promovem maior exposição ao estrogê -
nio ao longo da vida. Já alguns fatores de pro -
teção são a multiparidade, a lactação, o aumen-
to do índice de massa corporal, o aumento da
razão cintura-quadril e a alimentação saudável.
(BEREK; et al., 2016; PASSOS; et al., 2023;
CRUMP; et al., 2024)
A endometriose é uma doença abrangente
em meio ao sexo feminino, sendo encontrada
em aproximadamente 10% das mulheres de ida-
de fértil. A doença está altamente relacionada
com casos de dor pélvica crônica (DPC) e infer-
tilidade. Sobre a infertilidade sem causa aparen-
te, cerca de 50% dos casos está relacionado com
a endometriose. (MAGGIORE; et al. 2024)
Sendo uma doença complexa, de difícil dia-
gnóstico e com alta incidência na população fe-
minina, o objetivo desse capítulo é desbravar a
endometriose, mostrando seus aspectos
clínicos, etiológicos, o seu diagnóstico e trata -
mento; além disso, outro objetivo é ressaltar a
importância de uma abordagem multidisci -
plinar para enfrentar a doença, a fim de obter
maior qualidade de vida para as pacientes.
MÉTODO
Trata-se de uma revisão integrativa realiza-
da em novembro de 2024, por meio de pesqui -
sas em diversas bases de dados, incluindo Pub-
Med, UpToDate, Minha Biblioteca e Biblioteca
Virtual, disponibilizadas pela Universidade.
Para a busca, utilizaram-se os seguintes termos:
“endometriose”, “epidemiologia da endometri-
ose”, “patogênese da endometriose”, “trata -
mento da endometriose”, “sintomas da endo -
metriose” e “diagnóstico da endometriose”. Fo-
ram incluídos apenas artigos publicados nos úl-
timos 14 anos, no período de 2010 a 2024, es -
critos em português ou inglês e que abordassem
temas como fisiopatologia, epidemiologia, qua-
dro clínico, classificação, diagnóstico e inter -
venções terapêuticas aplicáveis à endometriose.
Após a seleção, os dados foram analisados e
apresentados de forma descritiva, sendo organi-
zados em categorias temáticas para facilitar a
compreensão dos aspectos mais relevantes.
DISCUSSÃO
Patogenia da endometriose
A etiopatogenia da endometriose ainda não
está completamente elucidada, mas acredita -se
que seja multifatorial. Entre os principais fato -
res envolvidos estão a presença de tecido endo-
metrial fora da cavidade uterina (ectópico),
alterações na imunidade celular e humoral, de -
sequilíbrios nos processos de proliferação ce -
lular e apoptose, disfunções na sinalização en -
dócrina e a influência de fatores genéticos, fre-
quentemente em combinação. (SILVEIRA, et
al., 2023; LAMCEVA, et al., 2023).
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A endometriose é caracterizada pela pre -
sença de tecido endometrial fora do útero, ge -
ralmente associada à inflamação crônica. A pri-
meira descrição documentada da condição e sua
patogênese ocorreu em 1860, quando von Roki-
tansky identificou tecido endometrial ativo fora
da cavidade uterina. (KOBAYASHI, 2024).
Foi somente em 1927 que Sampson introdu-
ziu formalmente o termo "endometriose" na ter-
minologia médica e propôs a teoria da "mens -
truação retrógrada" para explicar a doença. Se -
gundo essa teoria, o fluxo reverso do sangue
menstrual permite que células endometriais a -
tinjam a cavidade peritoneal, onde podem se
implantar e crescer (KOBAYASHI, 2024).
Embora amplamente aceita e respaldada
pela literatura, essa teoria não é a única expli -
cação para a endometriose. Um dos principais
questionamentos é por que a menstruação retró-
grada — um evento comum em cerca de 90%
das mulheres em idade reprodutiva — resulta
no crescimento de tecido endometrial fora do ú-
tero apenas em uma minoria delas. A razão exa-
ta para essa discrepância ainda não foi com -
pletamente esclarecida, apesar dos avanços nas
pesquisas (KOBAYASHI, 2024).
Também, as primeiras descrições da endo -
metriose referiam-se a nódulos adenomióticos
no septo retovaginal, localizados ao longo do
trato Mulleriano. Posteriormente, a condição
foi identificada também como implantes de te -
cido semelhante ao endométrio no peritônio e
ovários (LAMCEVA, et al., 2023; NOVELLI,
et al., 2023).
Dada a diversidade de localizações, possí -
veis origens, aparências e respostas hormonais,
sugeriu-se recentemente que a endometriose
peritoneal, a endometriose ovariana e os nódu -
los adenomióticos no septo retovaginal consti -
tuem três entidades distintas, cada uma com sua
própria patogênese. No entanto, há um argu -
mento de que a endometriose profunda não se
origina no septo retovaginal, mas surge de im -
plantes superficiais na bolsa de Douglas (LA -
MCEVA, et al., 2023; NOVELLI, et al., 2023).
Atualmente, três principais teorias expli -
cam a patogênese da endometriose: a teoria da
indução, a teoria da disseminação hematogêni -
ca/linfática, a teoria da metaplasia celômica, a
teoria do desenvolvimento in situ e a teoria do
transplante retrógrado (LAMCEVA, et al .,
2023; NOVELLI, et al., 2023).
Teoria da Indução
Essa teoria sugere que a degeneração do
endométrio menstrual libera fatores endógenos,
os quais induzem a metaplasia do epitélio se -
roso dos ovários e das células mesoteliais, re -
sultando na formação de tecido semelhante ao
endométrio. Para que uma lesão seja definida
como endometriose, é necessário que tanto as
glândulas quanto o estroma endometrial este -
jam presentes. Estudos que apoiam essa teoria
fornecem evidências da formação de epitélio e
glândulas semelhantes ao endométrio por indu-
ção, embora faltem provas diretas de que o es -
troma endometrial se forme ao final do proces-
so metaplásico (LAMCEVA, et al., 2023; NO-
VELLI, et al., 2023).
Teoria da Disseminação Hematogênica/
Linfática
Essa teoria propõe sugere que células endo-
metriais podem entrar na circulação sanguínea
ou linfática, alcançando e se instalando em ou -
tros tecidos. Embora a endometriose profunda
compartilhe algumas características com me -
tástases de câncer, como invasividade e adapta-
ção celular, essas funções complexas são típicas
de células tumorais, e não há evidências conclu-
sivas de que células benignas do endométrio se-
jam capazes de realizar esse processo (NOVEL-
LI, et al., 2023).
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Teoria da Metaplasia Celômica
Proposta por Gruenwald em 1942, essa te -
oria sugere que a endometriose pode surgir a
partir de células do epitélio celômico, que é em-
briologicamente relacionado aos ductos de Mü-
ller. Segundo essa hipótese, as paredes celômi-
cas (como o peritônio e outras estruturas sero -
sas) podem sofrer transformação metaplásica,
desenvolvendo tecido semelhante ao endomé -
trio. Estudos sugerem que produtos químicos
desreguladores endócrinos podem desempe -
nhar um papel no estímulo ou ativação dessas
células para se transformarem em tecido endo-
metriótico. Essa teoria explica casos de endo -
metriose em locais onde o fluxo menstrual re -
trógrado seria impossível, como regiões distan-
tes da pelve (NOVELLI, et al., 2023).
Teoria do Desenvolvimento In Situ
De acordo com essa hipótese, o endométrio
ectópico se desenvolve localmente a partir de
tecidos como o epitélio germinativo do ovário e
restos dos ductos Mullerianos e Wolffianos.
Essa teoria também propõe que a endometriose
peritoneal surge da metaplasia in situ de células
mesoteliais totipotentes. No entanto, a predomi-
nância da endometriose em mulheres, associada
à ausência da condição em homens, limita a for-
ça dessa teoria ao tentar explicar completamen-
te a doença (LAMCEVA, et al., 2023; NOVE-
LLI, et al., 2023).
Teoria do Transplante Retrógrado
A Teoria do Transplante Retrógrado, am -
plamente aceita, propõe que a endometriose
ocorre devido ao refluxo de fragmentos endo -
metriais pelas tubas uterinas durante a mens -
truação, que se implantam e crescem no peritô-
nio e ovários. Estudos apontam que cerca de
90% das mulheres com tubas uterinas pervias
apresentam sangue no líquido peritoneal duran-
te o período perimenstrual, comparado a apenas
15% daquelas com trompas obstruídas. Mens -
truações intensas e prolongadas também au -
mentam o risco de desenvolvimento da doença
(LAMCEVA, et al ., 2023; NOVELLI, et al .,
2023).
A viabilidade desses implantes depende da
capacidade do tecido endometrial de aderir ao
peritônio, invadir a matriz extracelular, estabe -
lecer suprimento sanguíneo e sobreviver, pro -
cessos corroborados por estudos experimentais
in vivo, ex vivo e in vitro. Esses achados refor-
çam o papel central do tecido endometrial na
patogênese da endometriose (LAMCEVA, et
al., 2023; NOVELLI, et al., 2023).
SINTOMAS
O sintoma mais comum da endometriose é
a dor pélvica crônica, que tende a ser cíclica e
intensifica antes e durante o período menstrual.
Essa dor pode ser constante e persistente, afe -
tando a rotina diária e a qualidade de vida. Mui-
tas mulheres também relatam cólicas menstru -
ais severas, conhecidas como dismenorreia, que
não respondem bem aos analgésicos comuns.
Além disso, é comum que a endometriose cause
dispareunia, dor profunda durante a relação se-
xual, devido à inflamação e aderências na cavi-
dade pélvica (WATERS, et al., 2021).
Sintomas adicionais que costumam ser ob -
servados incluem dor ao urinar ou ao evacuar,
especialmente durante a menstruação, quando o
tecido endometrial se infiltra na bexiga ou no
trato gastrointestinal. O fluxo menstrual pode
ser intenso e duradouro, acompanhado por san-
gramentos irregulares entre os períodos mens -
truais. Em situações mais graves, pode existir
presença de sangue nas fezes ou na urina (WA-
TERS, et al., 2021).
Além dos sintomas relacionados à dor e ao
ciclo menstrual, a endometriose é uma das prin-
cipais razões para a infertilidade feminina. As
lesões causadas pela endometriose podem pro -
vocar alterações inflamatórias que comprome -
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tem tanto a qualidade dos óvulos quanto o trans-
porte através do sistema reprodutivo, além de
formarem aderências que têm o potencial de
obstruir as trompas de Falópio (WATERS, et
al., 2021).
Sintomas gerais, como fadiga intensa e uma
sensação de cansaço extremo, são frequente -
mente reportados. Essa condição inflamatória
crônica afeta não apenas o corpo, mas também
a saúde mental, devido ao estresse e às limita -
ções funcionais que causa (WATERS, et al .,
2021)
É importante ressaltar que nem todas as
pessoas diagnosticadas com endometriose apre-
sentam sinais claros. Muitas vezes, o diagnós -
tico ocorre durante a investigação de problemas
de fertilidade, em consultas de rotina na gineco-
logista ou em cirurgias para tratar outras condi-
ções. É interessante notar que a gravidade dos
sintomas não está necessariamente relacionada
à severidade da doença. Por exemplo, algumas
mulheres com formas leves relatam dores inten-
sas, enquanto outras com manifestações mais
avançadas podem ser quase assintomáticas.
Esses aspectos contribuem para o atraso
comum no diagnóstico, que pode levar anos a -
pós o aparecimento dos primeiros sintomas. A
conscientização sobre as manifestações da en -
dometriose e o reconhecimento precoce são es-
senciais para aprimorar o cuidado clínico e re -
duzir seu impacto negativo na vida das mulhe -
res afetadas.
CLASSIFICAÇÃO
A classificação da endometriose visa padro-
nizar a análise da doença, servindo como guia
para o diagnóstico, tratamento e prognóstico.
Existem diversas metodologias, cada uma com
um enfoque distinto, que incluem a extensão
anatômica, a gravidade clínica e os efeitos sobre
a fertilidade.
Classificação da ASRM (Sociedade
Americana de Medicina Reprodutiva)
A classificação da ASRM, introduzida ini -
cialmente em 1996, é uma das mais tradicionais
e amplamente adotada na categorização da en -
dometriose. Organizada em estágios que são
determinados pela quantidade, localização e
profundidade dos implantes de tecido endome -
trial, bem como pela presença de aderências. A
avaliação considera ainda a ocorrência de le -
sões nos órgãos do sistema reprodutivo, como
ovários, trompas de Falópio e no peritônio.
É organizada em quatro estágios: mínimo
(estágio I), sendo ele classificado como a pre -
sença de poucos implantes superficiais, geral -
mente pequenos e localizados no peritônio. Não
há aderências significativas. O Estágio II (leve):
Implantes superficiais mais extensos ou profun-
dos, mas sem invasão significativa de tecidos.
Pequenas aderências podem ser observadas. Já
no estágio III (moderada): A endometriose a -
presenta implantes profundos, cistos ovarianos
endometrióticos (endometriomas) e aderências
mais evidentes, que podem comprometer par -
cialmente órgãos como trompas e ovários. E no
Estágio IV (severa), conta com presença de im-
plantes profundos, grandes endometriomas e a-
derências extensas que frequentemente afetam
a anatomia pélvica e comprometem o funcio -
namento de órgãos, como intestino e bexiga
(PODGAEC, 2019).
Embora útil, essa classificação apresenta
limitações, pois a gravidade dos sintomas pode
não correlacionar diretamente com a extensão
da doença. Ou seja, mulheres com um estágio
avançado podem ter poucos sintomas, enquanto
mulheres em estágios iniciais podem apresentar
dores intensas. Por isso, a classificação da AS -
RM é frequentemente usada como um ponto de
partida, mas não deve ser a única base para de-
cisões clínicas.
111 | P á g i n a
Classificação Enzian
A classificação Enzian constitui uma ferra-
menta mais direcionada, centrada na endome -
triose profunda infiltrativa (EPI), que represen-
ta uma variante mais grave e menos comum da
doença. Seu principal objetivo é orientar o ma-
nejo cirúrgico, categorizando tanto a localiza -
ção quanto a profundidade das lesões endome -
trióticas. Essa forma de endometriose geral -
mente afeta regiões como o intestino, ligamen -
tos uterossacros e paredes pélvicas, sendo ava -
liada em diferentes níveis, conforme o tamanho
e a abrangência das lesões (KIESENHOFER, et
al., 2020).
A classificação Enzian divide a pelve em
três compartimentos principais, descritos de a -
cordo com a localização das lesões: ligamentos
uterossacros e espaço retrouterino, fundo de sa-
co posterior e estruturas ao redor do reto, e a pa-
rede anterior do reto e do reto -sigmóide. Cada
lesão é avaliada em termos de profundidade e
tamanho, sendo categorizada em graus de 1 a 3,
de acordo com sua extensão, que varia desde
menos de 1 cm até mais de 3 cm. Além disso, a
Enzian abrange categorias a dicionais para le -
sões que se estendem para além da pelve, como
aquelas que afetam a bexiga, o peritônio supe -
rior e até órgãos distantes, como o diafragma
(KIESENHOFER, R. et al., 2020).
Devido à sua ênfase na endometriose pro -
funda, a classificação Enzian se mostra particu-
larmente valiosa para identificar áreas que re -
querem uma intervenção mais intensa e com -
plexa durante a cirurgia, além de oferecer uma
compreensão mais clara da extensão da condi -
ção (KIESENHOFER, R. et al., 2020).
Índice de Fertilidade na Endometriose
(EFI)
O Índice de Fertilidade na Endometriose
(EFI) é uma ferramenta desenvolvida para ava-
liar o impacto da endometriose na fertilidade
das mulheres. Ele combina informações clíni -
cas e cirúrgicas para estimar as chances de con-
cepção espontânea ou assistida, especialmente
em mulheres que apresentam dificuldades para
engravidar devido à doença. Este índice é uti -
lizado por ginecologistas e especialistas em re-
produção assistida para orientar as escolhas te -
rapêuticas e personalizar os tratamentos, depen-
dendo das condições individuais de cada paci -
ente (SALA, et al., 2019).
O cálculo do EFI leva em consideração três
fatores principais: a idade da paciente, que é um
dos elementos mais importantes na fertilidade,
já que, mulheres mais jovens têm maior chance
de concepção; o histórico reprodutivo, que pode
incluir a presença de filhos anteriores ou difi -
culdades anteriores para engravidar, fornecen -
do um indicativo da capacidade reprodutiva da
mulher; e, a gravidade da endometriose, que é
geralmente avaliada durante a cirurgia, consi -
derando o estágio da doença e a presença de le-
sões em órgãos como os ovários, trompas de
Falópio e o útero. Essa avaliação cirúrgica aju-
da a categorizar a doença de acordo com a clas-
sificação da ASRM, fornecendo informações
cruciais sobre a extensão dos danos causados
pela endometriose (SALA, et al., 2019).
O EFI desempenha um papel importante
nos tratamentos de fertilização in vitro (FIV).
Mulheres com maior EFI têm maior chance de
ter uma gravidez bem sucedida, espontânea ou
assistida. Com base na gravidade da endome -
triose e nos métodos reprodutivos gerais, esse
índice indica o risco de gravidez e permite aos
médicos determinar o melhor curso para cada
paciente. Porém, é importante entender que o
EFI tem limitações, como confiar na precisão
das informações clínicas e cirúrgicas, e não le-
var em consideração fatores externos, como a
qualidade do esperma do parceiro, que afetam o
resultado. (SALA, et al., 2019).
Portanto, o EFI é uma ferramenta impor -
tante, mas deve ser utilizada em conjunto com
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uma avaliação clínica minuciosa para uma
abordagem de tratamento eficaz e personaliza -
da (SALA, et al., 2019).
Cada uma dessas classificações oferece
uma perspectiva diferente sobre a endometri -
ose, concentrando -se em aspectos específicos
da doença, como a extensão anatômica, a pro -
fundidade das lesões e o impacto na fertilidade.
A escolha do sistema de classificação a utilizar
depende dos objetivos do diagnóstico e do trata-
mento, sendo essencial que a abordagem tenha
em conta a complexidade e a variabilidade da
doença para uma gestão mais eficaz.
DIAGNÓSTICO
A laparoscopia com confirmação por exa -
me histológico é considerada padrão ouro no
diagnóstico da endometriose. Na prática, em
geral, os médicos tomam como base para iniciar
a terapia, a história clínica, a apresentação dos
sintomas e os achados do exame físico, com ou
sem estudos de imagem (GREENE et al., 2016;
TAYLOR et al., 2018)
O sintoma mais comum na endometriose é
a dor, que pode se manifestar de diversas for -
mas: dor pélvica cíclica, dismenorreia, dor peri-
ovulatória, dor pélvica crônica não cíclica, dis-
pareunia (posicional ou contínua), além de dor
ao evacuar (disquezia) e ao urinar (disúria)
(CRANNEY et al ., 2017; TAYLOR et al .,
2018; ROLLA, 2019).
Outra parte importante no diagnóstico é o
exame pélvico. O exame deve ser iniciado pela
palpação abdominal da paciente, se nenhuma
dor for registrada podemos prosseguir para o
exame pélvico. A palpação bimanual dos reces-
sos vesicouterino, retouterino, ou fundo de saco
de Douglas e anexos, pode revelar locais extre-
mamente doloridos. A retroversão uterina fixa
é frequentemente devida ao comprometimento
do ligamento útero -sacro ou aderências no re -
cesso de Douglas. A mobilização uterina dolo -
rosa é outro sin al comum da endometriose. A
pressão aplicada ao fundo do útero costuma
causar dor quando há presença de adenomiose.
A dor durante a relação sexual geralmente está
associada à sensibilidade intensa à palpação dos
ligamentos útero -sacros (CRANNEY et al .,
2017; TAYLOR et al., 2018; ROLLA, 2019).
Um exame pélvico minucioso e realizado
por um especialista oferece uma quantidade sig-
nificativa de informações com custo bastante li-
mitado (ROLLA, 2019).
A laparoscopia permite a observação direta
da região pélvica, possibilitando não apenas
identificar a doença, mas também classificar o
estadiamento da doença (CRANNEY et al .,
2017). Além disso, os exames de imagem são
amplamente empregados no auxílio ao diagnós-
tico da endometriose, especialmente quando
combinados com a história clínica. Entre esses
exames, destaca-se a ultrassonografia transva -
ginal (USTV) e a ressonância magnética (RM).
A ultrassonografia transvaginal (USTV) é o
exame de imagem de escolha inicial, pois se tra-
ta de uma técnica não invasiva, de custo acessí-
vel, que utiliza um transdutor portátil para emi-
tir ondas sonoras de alta frequência. As lesões
endometrióticas detectadas por esse método são
geralmente identificadas até 5 mm de profundi-
dade no revestimento uterino. Já as lesões que
se encontram em regiões mais profundas da pel-
ve (> 5 mm) são classificadas como endome -
triose profunda (SHAH et al., 2018).
A ressonância magnética (RM) é um méto-
do de imagem estática, em contraste com a ul -
trassonografia transvaginal (USTV), que é di -
nâmica, porém apresenta a vantagem de ser me-
nos invasiva para mulheres nulíparas (CRAN -
NEY et al., 2017). Além disso, é eficaz no ma-
peamento de lesões discretas, auxiliando na re-
dução de atrasos diagnósticos, e na identifica -
ção de lesões que invadem o espaço retroperito-
113 | P á g i n a
neal ou as paredes dos órgãos pélvicos (SHAH
et al., 2018).
Vale ressaltar que os exames de imagem
não possuem precisão suficiente para substituir
a confirmação por biópsia no diagnóstico da en-
dometriose. No caso da endometriose peritone-
al, as lesões só são visíveis quando os implantes
endometrióticos apresentam sangramentos ou
causam alterações na anatomia pélvica normal
(SHAH et al., 2018).
TRATAMENTO
O tratamento da endometriose dependerá da
gravidade dos sintomas, da localização e ex -
tensão das lesões, do desejo de engravidar e da
idade da paciente. Este, visa aliviar os sintomas,
reduzir a progressão da doença, aumentar a fer-
tilidade e melhorar a qualidade de vida das mu-
lheres afetadas. Pode ser clínico, cirúrgico ou
mesmo uma combinação de ambos (FRANÇA
et al, 2022; CESAR, 2024).
Dentre os principais medicamentos utiliza-
dos destacam-se:
Os anti-inflamatórios não esteroidais muito
utilizados concomitantemente com as demais
medicações no tratamento da inflamação crôni-
ca e no alívio da dismenorreia primária, apenas
para minimizar os sintomas, sem interferir na
ovulação. Seus principais efeitos adversos são
as úlceras gástricas, eventos cardiovasculares e
insuficiência renal aguda (FRANÇA et al ,
2022).
As terapias hormonais como anticoncepcio-
nais combinados, progestagênios, análogos de
GnRH e inibidores de aromatase, usados para
inibir a atividade dos ovários e, com isso, dimi-
nuir o estímulo estrogênico, retardar o cresci -
mento do tecido endometrial ectópico, reduzir
o sangramento e a dor (PASSOS et al, 2023).
Os contraceptivos orais combinados e pro -
gestágenos são utilizados como primeira linha
de tratamento, uma vez que melhoram os sinto-
mas de dor na maioria das pacientes, são bem
tolerados e têm baixo custo. Entretanto, 25%
das pacientes não respondem ao tratamento,
além de apresentarem efeitos adversos como:
alteração no padrão menstrual, ganho de peso,
sensibilidade mamária, alteração de humor, re-
tenção de líquido e acne (FRANÇA, et al.2022;
CESAR, 2024; PODGAEC, 2019).
O agonista do hormônio liberador de gona-
dotrofinas (GnRH) representa a segunda linha
de tratamento para essa doença. Este é um fár -
maco eficaz no tratamento de mulheres que não
responderam bem à primeira linha terapêutica.
Ao se ligar aos receptores de GnRH na hipófise,
os agonistas induzem um feedback negativo, di-
minuindo a liberação de FSH e LH. Essa redu -
ção hormonal, por sua vez, inibe a produção de
estrógenos e progesterona nos ovários. Eles
são efetivos no tratamento da dor associada à
adenomiose, porém estão associados a diversos
efeitos adversos como fogachos, hipotrofia ge -
nital, instabilidade de humor, insônia, risco
cardiovascular, além de efeito sobre a densida -
de mineral óssea, aumentando o risco de osteo-
penia (FRANÇA et al .2022; PODGAEC,
2019).
Os Inibidores da aromatase constituem uma
classe terapêutica inovadora que atua de forma
altamente seletiva, bloqueando a enzima aro -
matase e, consequentemente, interrompendo a
produção de estrogênios em tecidos periféricos.
Sendo assim, há uma redução significativa no
tamanho das lesões e na dor pélvica. Muitas
vezes são utilizados em associação com os aná-
logos do GnRH ou contraceptivos hormonais
para pacientes que não respondem adequada -
mente ao tratamento medicamentoso habitual.
Seus principais sintomas adversos são osteopo-
rose, secura vaginal, insônia, náuseas e cefaleia
(FRANÇA, et al.2022; PODGAEC, 2019).
Ademais, quando estes métodos não são e -
ficazes ou há o desejo de engravidar a cirurgia
114 | P á g i n a
pode ser indicada, sobretudo a laparotomia, ci -
rurgia minimamente invasiva que oferece vá -
rias vantagens, como menor dor pós-operatória,
tempo de recuperação mais rápido, menor risco
de complicações e menor trauma para os teci -
dos circundantes, utilizada para remover as le -
sões e aderências, demonstrando melhora signi-
ficativa da dor pélvica e da taxa de fertilidade
com a excisão dos focos ectópicos. Entretanto,
seu benefício costuma ser temporário, podendo
recidivar (CESAR, 2024).
Considera-se histerectomia abdominal total
com ou sem ooforectomia o tratamento definiti-
vo da endometriose, sendo considerado em ca -
sos graves para mulheres que não desejam mais
ter gestações. A histerectomia com salpingo -
ooforectomia bilateral com excisão de todos os
focos de endometriose apresentou taxas de cura
de 90%. Em casos assintomáticos, nenhum tra-
tamento é necessário (FRANÇA, et al .2022;
PASSOS et al., 2023).
É fundamental que as mulheres com endo -
metriose compreendam a natureza crônica e
progressiva da doença, demandando um cui -
dado integral e personalizado. Uma equipe mul-
tidisciplinar, composta por médicos, fisiotera -
peutas e nutricionistas, é essencial para oferecer
um tratamento eficaz e melhorar a qualidade de
vida (PODGAEC, 2019).
CONCLUSÃO
Este estudo evidenciou que a endometriose
é uma doença ginecológica multifatorial e com-
plexa, caracterizada pela presença de tecido en-
dometrial fora da cavidade uterina e associada
a inflamação crônica, dor e infertilidade. Ape -
sar dos avanços nas teorias sobre sua patogêne-
se, incluindo hipóteses como menstruação re -
trógrada, metaplasia celômica e disseminação
linfática, ainda existem lacunas na compreen -
são de sua etiologia e progressão.
Os dados destacam a importância de diag -
nósticos precoces e abordagens terapêuticas in-
dividualizadas, dado o impacto significativo da
doença na qualidade de vida das mulheres.
Além disso, a adoção de uma abordagem multi-
disciplinar, que inclua suporte médico, psicoló-
gico e social, mostrou-se fundamental.
Com base nesses achados, futuros estudos
devem explorar mais profundamente os meca -
nismos moleculares da doença, o impacto de
fatores genéticos e ambientais e o desenvolvi -
mento de terapias personalizadas e menos inva-
sivas. A ampliação de pesquisas em biomarca -
dores específicos para diagnóstico precoce e
monitoramento também é crucial para melhorar
o manejo clínico da endometriose.
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