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Palavras Chave: Endometriose; Saúde da Mulher; Doença Crônica.
Capítulo 10
AMANDA RIBEIRO FRANÇA¹
CAIO FERREIRA SOUZA¹
JOANA RIBEIRO FRANÇA2
KAMILLE VICTÓRIA FÉLIX ASSUNÇÃO2
1. Discente - Medicina da Universidade Federal do Amazonas.
2. Discente – Medicina do Instituto Master de Ensino Presidente Antônio Carlos.
ENDOMETRIOSE
10.59290/978-65-81549-94-7.10
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INTRODUÇÃO
A endometriose é uma condição benigna,
crônica e dependente de estrogênio, definida
pelo crescimento de tecido semelhante ao endo-
métrio fora da cavidade uterina, em locais como
peritonio, ovários e septo retrovaginal, e tam -
bém em alguns casos no sistema nervoso central
e pericárdio. A endometriose é ca racterizada
principalmente por dor pélvica e infertilidade. A
prevalência dessa patologia é cerca de 20% em
mulheres com idade reprodutiva e de 30 a 50%
em mulheres inférteis, e apesar de sua relevân -
cia clínica, sua fisiopatologia ainda não é total -
mente conhecida (NACUL & SPRITZER;
2010).
A teoria mais aceita a respeito da fisiopato -
logia é a de Sampson, feita em 1927, denomi -
nada teoria da implantação. De acordo com esta,
durante a menstruação ocorreria o refluxo de te-
cido endometrial pelas trompas de f alópio, e
logo após esse tecido se implantaria o peritônio
e ovário. Ademais, existem fatores genéticos,
hormonais ou ambientais que poderiam propi -
ciar o desenvolvimento da doença (NACUL;
SPRITZER; 2010). Mulheres que têm expressão
maior de genes envolvid os com a apoptose ce -
lular, por exemplo, c -fos, facilitam a sobrevi -
vência e adesão desse tecido no peritônio. Além
disso, pesquisas apontam que 5,3% das pacien -
tes relatam ter história familiar positiva (NA -
CUL & SPRITZER; 2010).
A doença apresenta na maioria das vezes
sintomas variáveis e inespecíficos. Dor pélvica
e infertilidade são os principais, mas as pacien -
tes podem apresentar também dismenorreia,
queixas urinárias e intestinais.
Pacientes com maior grau de escolaridade
(segundo e terceiro graus completos), apresen -
tam diagnóstico mais precoce, o que indica que
mulheres com maior acesso a cuidados médicos
têm maior preocupação quando se trata de dor
pélvica e infertilidade (MARQUI; 2014).
Outrossim, estudos mostram que a endome-
triose afeta psicologicamente as mulheres,
sendo a depressão relatada em cerca 92% das
pacientes e a ansiedade 87,5%, além de interfe-
rir na vida sexual das mesmas (MARQUI,
2014). Vale destacar, ainda, que essa doença
pode afetar as atividades laborativas das pacien-
tes.
O objetivo deste estudo foi realizar uma des-
crição e discussão mais profunda sobre a endo -
metriose, visto que essa é uma patologia de alta
prevalência nas mulheres, e que afeta direta -
mente sua qualidade de vida, diminuindo a vita-
lidade e afetando as relações familiares, sociais
e de trabalho.
Fisiopatologia
Embora a endometriose seja uma doença
prevalente, sua patogênese ainda não é comple-
tamente esclarecida. Sua fisiopatologia parece
ser multifatorial, o que inclui a migração de te -
cido endometrial ectópico do útero para a cavi -
dade peritoneal, alterações imunológicas, dese -
quilíbrio na proliferação e apoptose celular e fa-
tores genéticos (GIUDICE, 2010).
Foram identificadas regiões genômicas e
anormalidades em genes causadores de câncer,
como o PIK3CA, KRAS, ARID1A, que tam -
bém se associam a endometriose. Essa relação
pode ser utilizada para explicar a agressividade
de lesões invasivas e profundas em comparação
com as lesões peritoneais superficiais (RAHMI-
OGLU et al., 2014).
Diante das várias teorias propostas para ex -
plicar o desenvolvimento da endometriose,
acredita-se que mais de uma ocorra para o esta-
belecimento clínico da doença. A teoria mais
postulada é a da menstruação retrógrada de
Sampson, na qual as células endometriais fluem
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pelas tubas para a cavidade peritoneal durante o
período menstrual. Essa teoria se apoia nos da -
dos de que a incidência de endometriose é maior
em mulheres com obstruções do trato genital e
que consequentemente aumentam o refluxo tu -
bário. No entanto, o fato de aproximadamente
90% das mulheres terem menstruação retró -
grada e a maioria não evoluir clinicamente com
endometriose sugere que outros fatores devem
estar envolvidos (VERCELLINI et al., 2014).
Outra situação clínica que questiona a teoria
de Sampson é a existência de endometriose em
meninas antes da menarca. Possíveis explica -
ções para essa situação é a existência de restos
embrionários mullerianos, que podem ser lesões
antecedentes à forma clássica de endometriose e
que se tornam clinicamente expressadas devido
a sangramento uterino neonatal causado por ex-
posição materna (OLIVEIRA et al., 2012).
Outros mecanismos alternativos são postu -
lados como fontes em potencial de células en -
dometriais ectópicas, como células-tronco, ves-
tígios embrionários, disseminação linfática ou
vascular ou metaplasia de células celômicas
(GIUDICE, 2010).
Quadro clínico
A apresentação da endometriose é variável.
Algumas mulheres podem ser assintomáticas,
cerca de 3 a 22%, ou cursar com infertilidade,
dismenorreia severa, dispareunia profunda, dor
pélvica cr ônica, dor ovulat ória, sintomas
urinários ou evacuat órios perimenstruais e fa -
diga crônica (NACUL & SPRITZER; 2010).
O sintoma mais prevalente é a dor pélvica
crônica, seguida por dispareunia de profundi -
dade, sendo citados, respectivamente 56,8% e
54,7% das pacientes. De acordo com Nacul e
Spritzer (2010), para identificar endometriose
profunda infiltrativa, a paciente pode apresentar
são nodula ções palp áveis no f órnice vaginal
posterior ou septo retovaginal, espessamento
dos ligamentos uterossacros ou lesões violáceas
na vagina.
Ao realizar o exame ginecológico, a paci -
ente pode queixar -se de dor a mobilização do
colo uterino. Pode ser evidenciada a retroversão
uterina ou ovários aumentados, entretanto não
são específicos de endometriose (NACUL;
SPRITZER; 2010).
As pacientes acometidas podem também
apresentar sintomatologia atípica, como sinais e
sintomas de síndrome do cólon irritável, de do -
ença inflamatória pélvica e de cistite intersticial.
Essas queixas podem surgir a depender da im -
plantação dos focos de endometriose, bem como
sua profundidade de invasão no tecido acome -
tido (NACUL; SPRITZER; 2010).
Diagnóstico
Atualmente, o diagnóstico definitivo da en -
dometriose ocorre por meio da avaliação cirúr -
gica, sendo o padrão ouro a videolaparoscopia
com biópsia. No entanto, a somatória dos sinto-
mas com achados no exame físico, de imagem e
laboratoriais possuem alto valor preditivo posi -
tivo para o diagnóstico d a doença (NACUL;
SPRITZER; 2010).
A endometriose tem 4 estágios de acordo
com American Society of ReproductiveMedi -
cine/ASRM, I (doença mínima), II (leve), III
(moderada) e IV (severa). Exames que também
contêm boa acurácia são: dosagem de CA -125,
interleucina-6, ultrassonografia pélvica transva-
ginal e ressonância magnética, entretanto, o di -
agnóstico definitivo apenas é feito com laparos-
copia (MARQUI; 2014). A dosagem de CA -
125, principalmente quando coletado no pri -
meiro ou segundo dia do ciclo menstru al, prin-
cipalmente se os valores forem maiores de 100
UL/ml (NACUL; SPRITZER; 2010).
Ademais, o diagnóstico de endometriose
muitas vezes é atrasado, estima -se que em mé -
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dia ele atrase 4 anos para as mulheres com in -
fertilidade e 7,4 anos para aquelas com dor
pélvica (MARQUI; 2014).
Um dos exames mais empregados atual -
mente é a ultrassonografia pélvica transvaginal,
preferencialmente com preparo intestinal. Essa
exame possui alta acurácia, sendo sua sensibili-
dade de 94% e especificidade de 98% na identi-
ficação de focos de endometriose profunda
(NACUL; SPRITZER; 2010).
Assim, um resultado negativo pode indicar
que a paciente não tenha endometriose devida
sua alta especificidade. No entanto, caso o
exame seja positivo para endometriose, o trata -
mento pode ser instituído sem necessidade de
aprofundamento com outros exames (NACUL;
SPRITZER; 2010).
No entanto, caso qualquer dúvida exista,
como massas ovarianas não típicas de endome -
trioma, a ressonância magnética passa a ser o
exame de escolha, tanto por sua alta acurácia
para o diagnóstico de endometriose, permitindo
estadiamento e profundidade dos implantes,
como também por seu papel no estabelecimento
de diagnósticos diferenciais (NACUL; SPRIT -
ZER; 2010).
Uma outra opção recente de diagnóstico é a
ecoendoscopia retal, que possui boa visualiza -
ção de alterações sugestivas de doença do septo
retovaginal, ligamentos uterossacros ou do re -
tossigmoide (NACUL; SPRITZER; 2010).
No caso de endometriose urogenital, a uror-
ressonância pode ser utilizada como método al-
ternativo à urografia excretora para avaliação de
dilatações do sistema coletor renal (NACUL;
SPRITZER; 2010).
Tratamento
O tratamento da endometriose e seus sinto -
mas necessita de uma escolha terapêutica apoi -
ada na gravidade dos sintomas, extensão e loca-
lização da doença, desejo de engravidar e idade
da paciente (FRANÇA et al., 2022).
O tratamento de mulheres com dor associ -
ada a endometriose inclui o uso de analgésicos,
que agem de forma apenas sintomática, trata -
mento hormonal e cirurgia, sendo o tratamento
hormonal (contraceptivos combinados, proges -
tágenos, agonistas do hormônio liberador de go-
nadotrofina (GnRH), antagonistas do GnRH ou
inibidores da aromatase) o mais recomendado
(BECKER et al., 2022).
A terapia hormonal da endometriose su -
prime as flutuações dos hormônios gonadotrófi-
cos e ovarianos e é comumente apoiada na pro -
gesterona, que induz a decidualização das célu-
las endometriais, gerando atrofia. Assim, tipica-
mente impede a ovulação e a liberação hormo -
nal pelos ovários, incluindo o estrogênio, o que
remete à redução do desenvolvimento das lesões
e da atividade endometrial. Entre os efeitos co -
laterais mais comuns tem-se o sangramento va-
ginal pesado, secura vaginal, redução de libido,
desconforto mamário, insôni a e depressão.
(CHAUHAN et al, 2022).
A terapia progestogênica, considerada de
primeira escolha mesmo que 25% das pacientes
não respondam ao tratamento, consiste no uso
de contraceptivos orais combinados e progesti -
nas e é capaz de inibir a ovulação e a deciduali-
zação, redução de lesões e redução de sintomas
na maioria das pacientes. Os efeitos adversos
mais comuns que podem ocorrer incluem o san-
gramento súbito, sensibilidade mamária, náu -
seas, cefaleias e alterações de humor (FRANÇA
et al., 2022).
A ter apia hipoestrogênica (agonistas do
GnRH), é a de segunda escolha, e consiste no
feedback negativo na hipófise, inibindo gonado-
trofinas, o que remete a regulação negativa da
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esteroidogênese ovariana, com uso pelas vias
parenteral, subcutânea, intramuscular, via spray
nasal ou intravaginalmente. Seus sintomas ad -
versos incluem sintomas vasomotores, hipotro -
fia genital e instabilidade do humor, além de
apresentar risco de osteopenia pelo balanço ne -
gativo de cálcio (FRANÇA et al., 2022).
A terapia hiperandrogênica (danazol ou ges-
trinona) inibe a liberação de GnRH, o pico do
hormônio luteinizante e a produção ovariana,
além de aumentar a testosterona livre, reme -
tendo na atrofia de implantes endometrióticos.
Pode gerar efeitos androgênicos como sebor -
reia, hipertricose, ganho ponderal, aumento de
lipoproteínas de baixa densidade (LDL) e redu-
ção de proteínas de alta densidade (HDL), as -
sim, não é indicado para tratamentos duradouros
(FRANÇA et al., 2022).
Os inibidores da aromatase (IA) inibem uma
enzima que participa da biossíntese do estrogê -
nio, a aromatase P450, provoca a redução das
lesões e da dor pélvica. As drogas de 3º geração
são capazes de diminuir os níveis séricos de
17β-estradiol em 97 -99% após 24 horas. Pode
gerar efeitos adversos com o a perda de cálcio
nos ossos, secura vaginal, insônia, sintomas va-
somotores, náuseas e cefaleia (FRANÇA et al.,
2022).
Para o tratamento da infertilidade associada
a endometriose, a cirurgia Laparoscópica tem se
mostrado favorável como opção para melhora r
as taxas de gravidez espontânea. Também pode
ser realizado estimulação ovariana com insemi-
nação intrauterina (CARSON & KALLEN,
2021).
No entanto, quando a endometriose está as-
sociada a infertilidade os tratamentos de repro -
dução assistida, que inclui i nseminação intrau-
terina e fertilização in vitro, podem ser opções
terapêuticas (NACUL & SPRITZER, 2010).
A escolha do método leva em consideração
o grau da doença, envolvimento tubário, a idade
da paciente, o tempo de infertilidade e a pre -
sença de comorb idade e outros fatores relacio -
nados (NACUL & SPRITZER; 2010).
Nos casos de endometriose classificada
como mínima ou leve, em que a anatomia da
pelve está preservada e pelo menos uma trompa
está pérvia, a inseminação intrauterina com in -
dução da ovulação p arece ser uma terapêutica
eficaz. Para isso, a capacitação espermática
deve estar acima de 5 milhões/ mL. Esse trata -
mento deve ser oferecido por até seis ciclos
(NACUL & SPRITZER, 2010).
Já no caso de pacientes com idade superior
a 35 anos, a fertilização in vitro (FIV), parece
ser a melhor opção inicial (NACUL & SPRIT -
ZER, 2010).
Além da indicação pela idade, a FIV é a te -
rapêutica indicada para os casos de endometri -
ose mais avançados, como graus 3 e 4, com
comprometimento das tubas e também se hou -
verem fatores masculinos associados a infertili-
dade do casal (NACUL & SPRITZER, 2010).
Outra indicação da FIV consiste na refrata -
riedade aos outros métodos de fertilização (NA-
CUL & SPRITZER, 2010).
Os tratamentos cirúrgicos inclui mecanis -
mos como a cauterização monopolar, tesouras,
lasers e bisturis ultrassônicos (CHAUHAN et
al, 2022) e são indicados para sintomas persis -
tentes ou quantos os efeitos adversos das terapia
se sobressaem aos benéficos (FRANÇA et al,,
2022). Contudo, atualmente não há marcadore s
prognósticos que auxiliem na seleção de pacien-
tes que se beneficiariam da cirurgia, além de
existir a chance de recidiva da doença (BEC -
KER et al., 2022).
Uma indicação clássica de cirurgia na endo-
metriose são os endometriomas sintomáticos ou
grandes, visto que não costumam responder sa -
tisfatoriamente ao tratamento medicamentoso
(NACUL & SPRITZER, 2010).
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Em pacientes jovens e com desejo de gestar,
a cirurgia conservadora deve ser a primeira es -
colha. As opções de cirurgia conservadora in -
cluem a exérese da pseudocápsula, drenagem e
ablação do cisto ou punção e esvaziamento. É
recomendado enviar parte da pseudocápsula
para análise histopatológica para confirmação
do diagnóstico ou eventuais diagnósticos dife -
renciais (NACUL & SPRITZER; 2010).
Embora se opte pela cirurgia conservadora,
é necessário salientar que a cirurgia excisional
está associada com menor recorrência dos sinto-
mas de dismenorreia, dispareunia e dor não -
menstrual em relação à drenagem e ablação da
cápsula (NACUL & SPRITZER, 2010).
Quanto a necessidade de reintervenção, as -
sim como aumento dos índices de gestação es -
pontânea nas pacientes com subfertilidade, a ci-
rurgia excisional apresenta melhores dados. O
que pode explicar tal fato é que há uma melhor
resposta folicular ovariana à estimulação com
citrato de clomifeno e gonadotrofinas nas paci -
entes que realizaram cirurgia excisional (NA -
CUL & SPRITZER; 2010).
A ooforectomia deve ser reservada para mu-
lheres na perimenopausa e nos casos de recidiva
da dor (NACUL & SPRITZER; 2010).
Os suplementos dietéticos também podem
ser aliados contra a endometriose, por suas ca -
racterísticas anti -inflamatórias, antioxidantes,
anti proliferativas e imunomoduladoras. Foi
constatado que baixos níveis de vitamina D,
zinco e vitamina E aumentam o risc o de endo -
metriose. Além disso, o ômega 3 e o ácido alfa-
lipóico podem melhorar a dor associada à endo-
metriose. Ademais, a curcumina, o ômega 3, a
N-acetilcisteína (NAC) e a vitamina C mostra -
ram-se capazes de reduzir as lesões endometri -
óticas (BAHAT et al., 2022).
As novas opções de tratamento para a endo-
metriose incluem: Elagolix, um antagonista
GnRH que suprime parcialmente o estradiol e
evita um estado hipoestrogênico; Resveratrol,
um polifenol que induz a produção de enzimas
antioxidantes; Curcumina , um produto natural
extraído da Curcuma longa L., que diminui a
transição epitélio -mesenquimal, expressão de
ciclo-oxigenase-2 e produção de fator de ne -
crose tumoral alfa e interleucina -6; Puerarina,
inibidora da enzima aromatase nas células endo-
metriais e supressora da adesão e proliferação
celular (FRANÇA et al., 2022).
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