Perfil epidemiológico da endometriose com acometimento retal

In: Femina · 2026 · vol. 54(4) , pp. 329–334 · doi:10.61622/0100-7254544202609 · W7163914664
article OA: bronze CC0
AI-generated summary by claude@2026-06, 2026-06-12

This retrospective cohort study analyzed the epidemiological, clinical, and associated disease characteristics of 52 patients diagnosed with rectal endometriosis via MRI and treated surgically.

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This retrospective cohort study analyzed medical records from 52 women with rectal endometriosis diagnosed by MRI with bowel preparation and treated with surgical resection at Instituto Femina (June 2018–August 2023), with follow-up through one year postoperatively. The women were mostly aged 33–42 years (mean 39.15), and 59.6% had associated comorbidities (predominantly gynecologic, including reported adenomyosis); common symptoms included dysmenorrhea (67.3%), dyspareunia (36.5%), and infertility (50%), while intestinal cramps were reported by 30.8%. Endometriosis involved more than one region in 80.8% of cases, with the rectum as the most affected site and the uterosacral ligament reported as the second most affected (61.5%), and the main surgical approach was segmental resection of the rectum. The study’s main limitation is that it is a retrospective chart review without an explicit control group, using data collected from a single center. This paper is centrally about endometriosis — specifically rectal endometriosis with an epidemiological profile of associated symptoms, comorbidities, and lesion mapping.

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Abstract

RESUMO Objetivos Analisar as características epidemiológicas, as doenças associadas e os dados clínicos de pacientes com endometriose retal. Métodos Estudo de coorte retrospectivo dos prontuários médicos de 52 pacientes acometidas por endometriose retal do Instituto Femina, as quais foram diagnosticadas por meio de ressonância magnética para endometriose com preparo intestinal e submetidas a ressecção cirúrgica […]
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Keywords

Endometriosis; Chronic disease; Rectum; Cramping Submetido: 26/06/2025 Aceito: 12/02/2026 1. Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná, Curitiba, PR, Brasil. Conflitos de interesse: Nada a declarar. Autor correspondente: Luigi Kaul Segabinazzi [email protected] Disponibilidade dos dados:wOs dados da pesquisa estão disponí- veis no artigo. Como citar: Ziliotto C, Segabinazzi LK, Fin FR. Perfil epidemiológico da endometriose com acometimento retal. FEMINA 2026;54(4):329-34. Perfil epidemiológico da endometriose com acometimento retal Epidemiological profile of endometriosis with rectal involvement Caio Ziliotto1, Luigi Kaul Segabinazzi1, Fabio Roberto Fin1 RESUMO Objetivos: Analisar as características epidemiológicas, as doenças associadas e os dados clínicos de pacientes com endometriose retal. Métodos: Estudo de coorte retrospectivo dos prontuários médicos de 52 pacientes acometidas por endome - triose retal do Instituto Femina, as quais foram diagnosticadas por meio de resso- nância magnética para endometriose com preparo intestinal e submetidas a res - secção cirúrgica das lesões endometriais. Resultados: A maioria das participantes tinha entre 33 e 42 anos, com média de idade de 39,15 anos. Cerca de 30,7% tinham pelo menos uma cesárea. Aproximadamente 59,6% das pacientes apresentaram comorbidades associadas, principalmente ginecológicas, representando 46,2% dos casos. Os sintomas ginecológicos mais frequentes foram cólica menstrual (67,3%) e dispareunia (36,5%), e 50% das mulheres relataram infertilidade. Entre os sintomas gastrointestinais, a cólica intestinal foi o mais comum, ocorrendo em 30,8% das pacientes. Em quase metade delas (48,1%) foi realizada cirurgia abdominal anterior, e 19,2% já foram introduzidas no tratamento endometrial. Em 80,8% dos casos, a endometriose estava presente em mais de uma região, sendo o reto o local mais acometido, seguido do ligamento uterossacro em segundo lugar, com 61,5%, e su- cessivamente o ovário, com 34,6%. Conclusão: A endometriose com acometimento retal predominou em mulheres entre 33 e 42 anos e foi associada a sintomas como cólica, dispareunia, infertilidade e alterações gastrointestinais, muitas vezes afe - tando também o ligamento uterossacro. A principal abordagem de tratamento foi a ressecção segmentar do reto.

Abstract

Objective: To analyze the epidemiological characteristics, associated diseases, and clinical data of patients with rectal endometriosis. Methods: A retrospective cohort study was conducted using the medical records of 52 patients with rectal endome - triosis at Instituto Femina. All patients were diagnosed through Magnetic resonance imaging for endometriosis with bowel preparation and had undergone surgical re - section of endometrial lesions. Results: The majority of participants were between 33 and 42 years old, with a mean age of 39.15 years. Approximately 30.7% had at least one cesarean section. Around 59.6% of patients presented with associated comorbidities, mainly gynecological, accounting for 46.2% of cases. The most frequent gynecologi - cal symptoms were dysmenorrhea (67.3%) and dyspareunia (36.5%), and 50% of the women reported infertility. Among gastrointestinal symptoms, intestinal cramps were the most common, occurring in 30.8% of patients. Nearly half (48.1%) had undergone prior abdominal surgery, and 19.2% had previously initiated endometrial treatment. In 80.8% of cases, endometriosis was present in more than one region, with the rec - tum being the most affected site, followed by the uterosacral ligament (61.5%) and the ovaries (34.6%). Conclusion: Rectal endometriosis predominantly affected women aged 33 to 42 years and was associated with symptoms such as cramps, dyspareunia, infertility, and gastrointestinal alterations, frequently also involving the uterosacral ligament. The main treatment approach was segmental resection of the rectum. Ziliotto C, Segabinazzi LK, Fin FR 330 | FEMINA 2026;54(4):329-34 INTRODUÇÃO A endometriose é uma condição prevalente em mulhe - res em idade reprodutiva e caracterizada pela presença de tecido endometrial fora da cavidade uterina, afetan- do vários órgãos, inclusive o reto. Os sintomas incluem dor abdominal, dispareunia, dismenorreia e infertilida - de. O diagnóstico envolve anamnese, exame físico, exa - mes de imagem e laparoscopia, que é o padrão-ouro. O tratamento é individualizado e pode incluir analgésicos, terapia hormonal ou cirurgia. A endometriose com acometimento retal, embora menos frequente, causa sintomas debilitantes e afeta a qualidade de vida das pacientes. Ocorre em cerca de 3% a 37% das pacientes, podendo simular o quadro de carcinoma retal. Os sintomas podem incluir dismenor - reia intensa, dor pélvica crônica, dispareunia e sintomas gastrointestinais (obstrução intestinal e sangramento retal), complicando o diagnóstico devido à sua variabili- dade em relação à extensão das lesões.(1) O trabalho busca analisar as características epide - miológicas, as patologias associadas e os dados clíni - cos de pacientes com endometriose com acometimen - to retal, visto que a análise do perfil epidemiológico é fundamental para melhorar o diagnóstico e o manejo da endometriose retal, melhorando a qualidade de vida das pacientes. MÉTODOS Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo baseado em prontuários médicos de 52 pacientes diagnosticadas com endometriose retal no período de junho de 2018 a agosto de 2023, a coleta de dados foi realizada nos meses de setembro a novembro de 2023, no Instituto Femina (Rua Saldanha Marinho, 2.167 – Bigorrilho, Curitiba – PR, 82305-100). Foram avaliadas variáveis como idade, histórico obs- tétrico, menarca, sintomas pélvicos e intestinais, hábitos de saúde, tipo de ressecção cirúrgica, complicações, re- cidiva e mapeamento das lesões endometriais, as quais foram transcritas diretamente dos prontuários originais e tabuladas em planilhas. Analisaram-se os prontuários das pacientes da primeira consulta até o período de um ano de pós-operatório. As pacientes selecionadas já ha- viam sido submetidas a exames de imagem, ressonância nuclear magnética (RNM) para endometriose com pre - paro intestinal e cirurgia, todos realizados pela mesma equipe do instituto. O acompanhamento pós-operatório ocorreu no mesmo centro, com consultas na primeira semana, no primeiro mês, aos seis meses (onde se reali- zava uma ultrassonografia transvaginal com mapeamen- to de endometriose) e com um ano de pós-operatório. Os parâmetros utilizados para definir a conduta cirúr- gica e o tipo de técnica mais apropriada ( shaving, dis- co ou ressecção segmentar intestinal) basearam-se em posicionamentos técnicos institucionais da Febrasgo, juntamente com uma avaliação individualizada de todas as pacientes pela equipe de especialistas ginecológicos do instituto, ponderando-se sintomas de dor, urinários, sexuais, intestinais e de fertilidade. As recomendações utilizadas foram: as lesões superficiais envolvendo ape- nas a camada serosa ou adventícia podem ser remo - vidas com secção a shaving. Já a ressecção a disco de espessura total é utilizada para lesões não maiores que um terço da circunferência do reto e menores que 3 cm em extensão. Nas situações em que ocorre lesão única maior do que 3 cm de diâmetro, lesão única infiltran - do mais de 50% da parede intestinal ou na presença de duas ou mais lesões infiltrando a camada muscular da alça, a ressecção segmentar é preconizada.(2) As análises estatísticas foram realizadas com o auxí - lio do software RStudio (R 4.2.3). Foram utilizados mé - dia e desvio-padrão para as variáveis com distribuição normal; para as variáveis categóricas, foram utilizados números absolutos e porcentagens. Foram incluídas pacientes do sexo feminino, de qual- quer idade, que já haviam tido menarca, todas diagnos- ticadas com endometriose retal por meio de RNM para endometriose com preparo intestinal e abordadas cirur- gicamente para tratamento de endometriose retal pela equipe do Instituto Femina. Excluíram-se mulheres com endometriose sem acometimento retal. O trabalho foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná, no dia 15 de setembro de 2023, com parecer nº 6.304.458. RESULTADOS Analisando as características gerais da amostra na tabe- la 1, obteve-se que a idade média das participantes era de aproximadamente 39,15 anos, tendo variado entre 23 e 61 anos. A maior parte das pacientes tinha entre 33 e 42 anos (51,9%), seguida da faixa etária entre 43 e 51 anos (26,9%), 23 e 32 anos (17,3%) e, por fim, apenas duas pa- cientes tinham entre 52 e 61 anos. A idade média da me- narca (primeira menstruação) foi de cerca de 12,75 anos. Apenas duas pacientes na amostra eram tabagistas. A prevalência de cesáreas foi considerável, com cerca de 30,7% das mulheres tendo pelo menos uma cesárea. Em média, as participantes tiveram cerca de 0,81 gestação; 13,7% tiveram um parto e 5,9% tiveram dois partos. Além disso, 19,2% tiveram uma cesárea e 11,5% tiveram duas cesáreas. Quanto às comorbidades, 40,4% das participantes não tinham comorbidades; 46,2% tinham comorbidades ginecológicas, sendo elas mioma (12), adenomiose (6), leucorreia (1), cisto ovariano (1), incontinência urinária (2), cisto tubário (1), pólipo endometrial (1) e útero di - delfo (1); 9,6% tinham comorbidades cardiovasculares (3 possuíam hipertensão arterial sistêmica, 1, trombofilia e 1, arritmia); 1,9% tinha comorbidade psicológica (depres- são); e 1,9% tinha comorbidade endocrinológica (resis - tência à insulina). Perfil epidemiológico da endometriose com acometimento retal Epidemiological profile of endometriosis with rectal involvement | 331 FEMINA 2026;54(4):329-34 Tabela 2. Sintomas ginecológicos Variável n = 52 Dispareunia (%) 19 (36,5) Dismenorreia (%) 35 (67,3) Infertilidade (%) 26 (50) Metrorragia (%) 1 (1,9) Sangramento (%) 2 (3,8) Quantidade de fluxo menstrual (%) Normal 38 (73,1) Pequeno 1 (1,9) Aumentado 13 (25,0) Periodicidade do fluxo menstrual (%) 28 dias 2 (3,8) Antimuleriano* (média ± DP) 1,53 (1,25) * Variáveis contínuas expressas em média ± desvio-padrão (DP) e mediana, quando aplicável; variáveis categóricas expressas em número absoluto (n) e porcentagem (%). Cerca de 17,3% das participantes praticavam ativida - de física, conforme recomendado para mulheres adul - tas pela Organização Mundial da Saúde, que estabelece o mínimo de 150 a 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada (como caminhada ou ciclismo) ou 75 a 150 minutos de atividade aeróbica vigorosa (como corrida).(3) Aproximadamente 67,3% das participantes têm uma alimentação saudável, que consiste na inges - tão equilibrada de macro e micronutrientes, prioritaria- mente oriundos de alimentos in natura, e restrição de ultraprocessados ricos em açúcares, sódio e gorduras.(4) Em relação aos métodos contraceptivos, cerca de 9,6% das participantes usam o dispositivo intrauterino (DIU) e aproximadamente 23,1% das participantes usam o an- ticoncepcional hormonal oral (ACHO). Examinando os sintomas ginecológicos na amostra, conforme a tabela 2, cerca de 36,5% das participantes re- lataram sentir dispareunia, que é dor durante ou após a relação sexual. Aproximadamente 67,3% das participantes relataram ter cólicas menstruais, e 50% das participantes relataram infertilidade. Somente 1,9% das participantes re- lataram ter metrorragia, que é sangramento uterino anor- mal fora do período menstrual. Apenas 3,8% das partici- pantes relataram ter sangramento, que pode ser diferente da menstruação ou ocorrer fora do período menstrual. Quanto ao fluxo menstrual, cerca de 73,1% das participan- tes relataram ter um fluxo menstrual normal, apenas 1,9% relataram ter um fluxo menstrual pequeno e aproximada- mente 25% relataram ter um fluxo menstrual aumentado. Já em relação à periodicidade do fluxo menstrual, 7,7% das participantes tinham um ciclo menstrual com intervalo inferior a 28 dias, entretanto, a grande maioria, 88,5%, re- latou ter um ciclo menstrual de 28 dias, e apenas 3,8% ti- nham um ciclo menstrual com intervalo superior a 28 dias. O valor médio do hormônio antimulleriano foi de aproximadamente 1,53, com um desvio-padrão de 1,25, indicando uma média dentro da faixa esperada, com al- guma variação entre os indivíduos. Esses resultados fornecem uma visão detalhada dos sintomas ginecológicos e da saúde reprodutiva das par- ticipantes do estudo. Quanto aos sintomas intestinais, o mais comum entre as participantes foi a cólica intestinal. O sangramento intestinal foi relatado por uma pequena proporção das participantes. A dor ao toque abdominal (7,7%) e o intes- tino desregulado, considerado como diarreia ou consti- pação, foram menos frequentes entre as participantes. Tabela 1. Características gerais da amostra Variável n = 52 Idade* 39,15 (6,96) Idade por faixa etária (%) 23 a 32 9 (17,3) 33 a 42 27 (51,9) 43 a 51 14 (26,9) 52 a 61 2 (3,9) Menarca*  12,75 (1,95) Tabagista (%) 2 (3,8) Gestações*  0,81 (1,01) Parto (%) 0 41 (80,4) 1 7 (13,7) 2 3 (5,9) Cesárea (%) 0 36 (69,2) 1 10 (19,2) 2 6 (11,5) Comorbidades (%) Sem comorbidades 21 (40,4) Ginecológica 24 (46,2) Cardiovascular 5 (9,6) Endocrinológica 1 (1,9) Psicológica 1 (1,9) Atividade física (%) 9 (17,3) Alimentação saudável (%) 35 (67,3) DIU (%) 5 (9,6) ACHO (%) 12 (23,1) * Variáveis contínuas expressas em média ± desvio-padrão e mediana, quando aplicável; variáveis categóricas expressas em número absoluto (n) e porcentagem (%). DIU: dispositivo intrauterino; ACHO: anticoncepcional hormonal oral. Ziliotto C, Segabinazzi LK, Fin FR 332 | FEMINA 2026;54(4):329-34 Apenas 3,8% das participantes relataram sangramen- to intestinal. Nenhuma das participantes relatou tenes- mo, que é a sensação persistente de necessidade de defecar mesmo após a evacuação. Cerca de 30,8% das participantes relataram cólicas intestinais. Esses resultados demonstrados na tabela 3 fornecem informações importantes sobre os sintomas intestinais re- latados pelas participantes do estudo, contribuindo para uma compreensão mais abrangente do quadro clínico. Analisando o quadro das características cirúrgicas, observou-se que uma proporção significativa das par - ticipantes havia sido submetida a cirurgias abdominais e endometriais prévias. A maioria das participantes passou por ressecção segmentar durante a cirurgia en - dometrial. Cerca de um terço das participantes passou por histerectomia durante o procedimento cirúrgico. As complicações pós-operatórias foram classificadas em maiores e menores. Entre as complicações maiores, identificou-se um caso de lesão ureteral, que necessitou de correção cirúrgica em momento distinto do procedi- mento inicial. Não foram observadas outras complica - ções maiores, como fístulas intestinais, vazamentos de anastomose, abscessos ou necessidade de transfusão sanguínea. Como complicações menores, observaram-se dois ca- sos de sangramento vaginal autolimitado, sem necessi- dade de transfusão sanguínea. Não houve reoperações relacionadas ao tratamento das lesões endometrióticas, nem recidiva da doença durante o seguimento de um ano. Cerca de 48,1% das participantes relataram ter pas - sado por cirurgia abdominal anteriormente. As cirurgias relatadas foram: apendicectomia, cirurgia bariátrica, laparoscopia de cisto ovariano, balão gástrico, colecis - tectomia, abdominoplastia, retirada de pólipo, desvio de septo, miomectomia e cesárea. Além disso, aproxima - damente 19,2% das participantes passaram por cirurgia endometrial anteriormente. Abordando os tipos de ressecção cirúrgica, apenas 3,8% das participantes passaram por ressecção do tipo “shaving”; cerca de 23,1% passaram por ressecção do tipo “disco”; e a maioria das participantes, aproximada- mente 73,1%, passou por ressecção do tipo “segmentar”. Além disso, 34,6% das participantes foram submetidas a histerectomia (Tabela 4). Todas as pacientes do estudo eram acometidas por endometriose retal, porém a maior parte delas tinha acometimento de pelo menos mais uma região por endometriose (80,8%), e apenas 19,2% tinham apenas acometimento retal. Os locais mais acometidos após o reto foram o ligamento uterossacro, com 61,5% das pa - cientes tendo também esse acometimento, seguido do ovário, com 34,6%, do compartimento anterior (bexiga), com 26,9% e, por fim, da vagina, com 19,2% das pacien - tes. Entre as pacientes, 19,2% possuíam acometimento de apenas um local, o reto; 38,5% eram acometidas em duas regiões; 25%, em três locais, 15,4%, em quatro; e apenas 1 paciente era acometida em todos os cinco lo - cais analisados, como demonstrado na tabela 5. Tabela 5. Localização das lesões Compartimento anterior (%) 14 (26,9) Vagina (%) 10 (19,2) Ligamento uterossacro (%) 32 (61,5) Ovário (%) 18 (34,6) Reto (%) 52 (100,0) Número de locais afetados (%) Apenas 1 10 (19,2) 2 locais 20 (38,5) 3 locais 13 (25,0) 4 locais 8 (15,4) 5 locais 1 (1,9) Variáveis contínuas expressas em média ± desvio-padrão e mediana, quando aplicável; variáveis categóricas expressas em número absoluto (n) e porcentagem (%). Tabela 4. Características cirúrgicas Variável n = 52 Cirurgia abdominal prévia (%) 25 (48,1) Cirurgia endometrial prévia (%) 10 (19,2) Tipo de ressecção Shaving (%) 2 (3,8) Disco (%) 12 (23,1) Segmentar (%) 38 (73,1) Histerectomia (%) 18 (34,6) Complicações totais (%) Maiores Menores 3 (5,7) 1 (1,9) 2 (3,8) Reoperação (%) 1 (1,9) Recidiva (%) 0 (0) Variáveis contínuas expressas em média ± desvio-padrão e mediana, quando aplicável; variáveis categóricas expressas em número absoluto (n) e porcentagem (%). Tabela 3. Sintomas intestinais Variável n = 52 Sangramento (%) 2 (3,8) Tenesmo (%) 0 (0) Cólica (%) 16 (30,8) Dor ao toque (%) 4 (7,7) Intestino desregulado (%) 3 (5,8) Variáveis contínuas expressas em média ± desvio-padrão e mediana, quando aplicável; variáveis categóricas expressas em número absoluto (n) e porcentagem (%). Perfil epidemiológico da endometriose com acometimento retal Epidemiological profile of endometriosis with rectal involvement | 333 FEMINA 2026;54(4):329-34 DISCUSSÃO A endometriose afeta majoritariamente mulheres em idade reprodutiva, e a média de idade das pacientes deste estudo, de 39 anos, é próxima da média de 36 anos encontrada por Cardoso et al.(5) Da mesma forma, a mé- dia de idade da menarca foi de 12,75 anos, comparada à média de 12,5 anos do estudo considerado. Há uma associação entre nuliparidade e endometriose, embo - ra ainda seja discutido se essa condição resulta da in - fertilidade causada pela doença ou se a nuliparidade é um fator de risco. Observou-se que 50% das pacientes nunca tiveram uma gestação, e Bellelis et al.(6) relataram 56,5% de nulíparas, em concordância com este estudo. Apenas 23,1% das pacientes utilizavam ACHO, percentual inferior aos 87,7% observados por Cardoso et al.(5) Quanto aos sintomas, a cólica abdominal foi a mais comum, referida por 67,3% das pacientes, seguida por in- fertilidade (50%) e dispareunia (36,5%). Estudos também identificaram a cólica como sintoma mais prevalente, com 80,6% das pacientes em Cardoso et al.(5) e 62,2% em Bellelis et al.,(6) em que a dispareunia foi o segundo sin- toma mais prevalente, com frequência maior do que a observada neste estudo. A infertilidade também foi sig- nificativa, aparecendo em cerca de 50% das pacientes, corroborando os 49,5% descritos por Cardoso et al.(5) A endometriose retal geralmente ocorre junto com lesões em outras localizações, sendo esse o caso em 80,8% das pacientes avaliadas. Em comparação, em Cardoso et al.,(5) o ovário foi o principal local associado ao reto (65%), enquanto neste estudo o ligamento ute - rossacro foi o mais frequente, com 61,5% das pacientes acometidas. Em relação aos antecedentes obstétricos, 30,7% das pacientes do presente estudo relataram histórico de um ou dois partos cesáreos. Evidências da literatura suge - rem uma possível associação entre cesariana e aumen- to do risco de endometriose, hipótese atribuída, entre outros fatores, à disseminação iatrogênica de tecido endometrial durante o procedimento cirúrgico e à for - mação de cicatrizes abdominais, que poderiam facilitar a implantação ectópica do endométrio. Nesse contexto, Andolf et al., demonstraram que mulheres submetidas à cesariana apresentaram risco aproximadamente 80% maior de diagnóstico hospitalar de endometriose, em comparação àquelas com parto vaginal.(7) A relação entre tabagismo e endometriose permane- ce controversa na literatura. No presente estudo, apenas 3,8% das pacientes eram tabagistas, achado que pode sugerir uma menor prevalência de tabagismo entre mu- lheres com endometriose, hipótese historicamente atri- buída aos potenciais efeitos do tabaco sobre os siste - mas imunológico e hormonal. Entretanto, essa possível associação inversa foi descrita principalmente em estu- dos mais antigos, enquanto evidências mais recentes, incluindo uma metanálise que reuniu dados de 38 estu- dos observacionais, não demonstraram associação es - tatisticamente significativa entre o tabagismo e o risco global de desenvolvimento de endometriose, indicando que tal efeito protetor pode refletir vieses metodológi - cos ou fatores de confusão.(8) No presente estudo, a maioria das pacientes não pra- ticava atividade física regularmente (82,7%), o que pode sugerir uma associação entre sedentarismo e endome - triose na amostra analisada. A literatura aponta que a prática regular de exercícios físicos pode estar relaciona- da a uma discreta redução do risco de desenvolvimento da doença; contudo, essa associação permanece contro- versa. Uma revisão sistemática conduzida por Bonocher et al.(9) não encontrou evidências conclusivas de que o exercício físico atue como fator protetor para a endome- triose, tampouco demonstrou impacto significativo sobre a progressão ou o curso clínico da doença. Ademais, de- ve-se considerar a possibilidade de causalidade reversa, uma vez que sintomas intensos, como dor pélvica crônica, podem limitar a prática de atividade física, contribuindo para o elevado índice de sedentarismo observado. No que diz respeito às comorbidades, 46,2% das pa - cientes apresentaram condições ginecológicas adicio - nais, sendo metade delas relacionada aos miomas ute - rinos. Embora a relação entre miomas e endometriose não seja completamente compreendida, fatores hormo- nais como os estrogênios podem influenciar ambas as condições, além da predisposição genética, que pode aumentar o risco para ambos. A escolha entre técnicas cirúrgicas para a endome - triose, como ressecção segmentar, shaving e disco, depende da gravidade e da localização das lesões. No presente estudo, 73,1% das pacientes foram tratadas com ressecção segmentar, opção preferida para a en - dometriose infiltrativa profunda. Essa elevada taxa de ressecção segmentar é justificada pelo fato de o estudo ter ocorrido em um centro especializado em cirurgias endometriais, onde as pacientes procuravam o serviço já refratárias ao tratamento clínico, normalmente com lesões mais avançadas. A ressecção segmentar oferece maior controle, pois remove completamente as lesões extensas (acima de 3–4 cm ou > 50% da parede intes - tinal), melhorando sintomas como dor e qualidade de vida a longo prazo. Técnicas menos invasivas, como sha- ving ou disco, podem ser adequadas em casos menos complexos, e a escolha deve ser individualizada e discu- tida com a paciente.(10) Nenhuma paciente teve recidiva até o fim do perío - do de um ano após a cirurgia. No entanto, a recorrên - cia da endometriose após a cirurgia é comum e pode ocorrer mesmo após a remoção completa das lesões visíveis. A taxa de recidiva pode chegar a 50% em até cinco anos, segundo Koninckx et al.(11) Fatores como im- plantes microscópicos, alterações hormonais e predis - posições genéticas podem contribuir para a recorrência. Tratamentos complementares, como a terapia hormonal e a adoção de estilo de vida saudável, podem ajudar a minimizar o risco de recidiva e controlar os sintomas a longo prazo.(11) Ziliotto C, Segabinazzi LK, Fin FR 334 | FEMINA 2026;54(4):329-34 CONCLUSÃO No presente estudo, observou-se que a endometriose com acometimento retal ocorreu com maior prevalência em mulheres de 33 a 42 anos, com sintomas de disme - norreia, dispareunia, infertilidade e alterações gastroin- testinais, associadas à doença no ligamento uterossa - cro. O tratamento mais prevalente dessas pacientes foi a ressecção segmentar do reto. REFERÊNCIAS 1. Zhao LJ, Wang YH, Zhang JD. A case report: rectal endometriosis mimicking rectal cancer. Int J Surg Case Rep. 2018;53:137-9. doi: 10.1016/j.ijscr.2018.10.021 2. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia. Comissão de Endometriose. Tratamento cirúrgico da endometriose intestinal. São Paulo: Febrasgo; 2018 [cited 2026 Jan 22]. 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