Abstract
Objective: To analyze the epidemiological characteristics, associated diseases, and
clinical data of patients with rectal endometriosis. Methods: A retrospective cohort
study was conducted using the medical records of 52 patients with rectal endome -
triosis at Instituto Femina. All patients were diagnosed through Magnetic resonance
imaging for endometriosis with bowel preparation and had undergone surgical re -
section of endometrial lesions. Results: The majority of participants were between 33
and 42 years old, with a mean age of 39.15 years. Approximately 30.7% had at least one
cesarean section. Around 59.6% of patients presented with associated comorbidities,
mainly gynecological, accounting for 46.2% of cases. The most frequent gynecologi -
cal symptoms were dysmenorrhea (67.3%) and dyspareunia (36.5%), and 50% of the
women reported infertility. Among gastrointestinal symptoms, intestinal cramps were
the most common, occurring in 30.8% of patients. Nearly half (48.1%) had undergone
prior abdominal surgery, and 19.2% had previously initiated endometrial treatment.
In 80.8% of cases, endometriosis was present in more than one region, with the rec -
tum being the most affected site, followed by the uterosacral ligament (61.5%) and
the ovaries (34.6%). Conclusion: Rectal endometriosis predominantly affected women
aged 33 to 42 years and was associated with symptoms such as cramps, dyspareunia,
infertility, and gastrointestinal alterations, frequently also involving the uterosacral
ligament. The main treatment approach was segmental resection of the rectum.
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INTRODUÇÃO
A endometriose é uma condição prevalente em mulhe -
res em idade reprodutiva e caracterizada pela presença
de tecido endometrial fora da cavidade uterina, afetan-
do vários órgãos, inclusive o reto. Os sintomas incluem
dor abdominal, dispareunia, dismenorreia e infertilida -
de. O diagnóstico envolve anamnese, exame físico, exa -
mes de imagem e laparoscopia, que é o padrão-ouro. O
tratamento é individualizado e pode incluir analgésicos,
terapia hormonal ou cirurgia.
A endometriose com acometimento retal, embora
menos frequente, causa sintomas debilitantes e afeta
a qualidade de vida das pacientes. Ocorre em cerca de
3% a 37% das pacientes, podendo simular o quadro de
carcinoma retal. Os sintomas podem incluir dismenor -
reia intensa, dor pélvica crônica, dispareunia e sintomas
gastrointestinais (obstrução intestinal e sangramento
retal), complicando o diagnóstico devido à sua variabili-
dade em relação à extensão das lesões.(1)
O trabalho busca analisar as características epide -
miológicas, as patologias associadas e os dados clíni -
cos de pacientes com endometriose com acometimen -
to retal, visto que a análise do perfil epidemiológico é
fundamental para melhorar o diagnóstico e o manejo
da endometriose retal, melhorando a qualidade de vida
das pacientes.
MÉTODOS
Trata-se de um estudo de coorte retrospectivo baseado
em prontuários médicos de 52 pacientes diagnosticadas
com endometriose retal no período de junho de 2018
a agosto de 2023, a coleta de dados foi realizada nos
meses de setembro a novembro de 2023, no Instituto
Femina (Rua Saldanha Marinho, 2.167 – Bigorrilho,
Curitiba – PR, 82305-100).
Foram avaliadas variáveis como idade, histórico obs-
tétrico, menarca, sintomas pélvicos e intestinais, hábitos
de saúde, tipo de ressecção cirúrgica, complicações, re-
cidiva e mapeamento das lesões endometriais, as quais
foram transcritas diretamente dos prontuários originais
e tabuladas em planilhas. Analisaram-se os prontuários
das pacientes da primeira consulta até o período de um
ano de pós-operatório. As pacientes selecionadas já ha-
viam sido submetidas a exames de imagem, ressonância
nuclear magnética (RNM) para endometriose com pre -
paro intestinal e cirurgia, todos realizados pela mesma
equipe do instituto. O acompanhamento pós-operatório
ocorreu no mesmo centro, com consultas na primeira
semana, no primeiro mês, aos seis meses (onde se reali-
zava uma ultrassonografia transvaginal com mapeamen-
to de endometriose) e com um ano de pós-operatório.
Os parâmetros utilizados para definir a conduta cirúr-
gica e o tipo de técnica mais apropriada ( shaving, dis-
co ou ressecção segmentar intestinal) basearam-se em
posicionamentos técnicos institucionais da Febrasgo,
juntamente com uma avaliação individualizada de todas
as pacientes pela equipe de especialistas ginecológicos
do instituto, ponderando-se sintomas de dor, urinários,
sexuais, intestinais e de fertilidade. As recomendações
utilizadas foram: as lesões superficiais envolvendo ape-
nas a camada serosa ou adventícia podem ser remo -
vidas com secção a shaving. Já a ressecção a disco de
espessura total é utilizada para lesões não maiores que
um terço da circunferência do reto e menores que 3 cm
em extensão. Nas situações em que ocorre lesão única
maior do que 3 cm de diâmetro, lesão única infiltran -
do mais de 50% da parede intestinal ou na presença de
duas ou mais lesões infiltrando a camada muscular da
alça, a ressecção segmentar é preconizada.(2)
As análises estatísticas foram realizadas com o auxí -
lio do software RStudio (R 4.2.3). Foram utilizados mé -
dia e desvio-padrão para as variáveis com distribuição
normal; para as variáveis categóricas, foram utilizados
números absolutos e porcentagens.
Foram incluídas pacientes do sexo feminino, de qual-
quer idade, que já haviam tido menarca, todas diagnos-
ticadas com endometriose retal por meio de RNM para
endometriose com preparo intestinal e abordadas cirur-
gicamente para tratamento de endometriose retal pela
equipe do Instituto Femina. Excluíram-se mulheres com
endometriose sem acometimento retal.
O trabalho foi submetido e aprovado pelo Comitê de
Ética da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná, no
dia 15 de setembro de 2023, com parecer nº 6.304.458.
RESULTADOS
Analisando as características gerais da amostra na tabe-
la 1, obteve-se que a idade média das participantes era
de aproximadamente 39,15 anos, tendo variado entre 23
e 61 anos. A maior parte das pacientes tinha entre 33 e
42 anos (51,9%), seguida da faixa etária entre 43 e 51 anos
(26,9%), 23 e 32 anos (17,3%) e, por fim, apenas duas pa-
cientes tinham entre 52 e 61 anos. A idade média da me-
narca (primeira menstruação) foi de cerca de 12,75 anos.
Apenas duas pacientes na amostra eram tabagistas. A
prevalência de cesáreas foi considerável, com cerca de
30,7% das mulheres tendo pelo menos uma cesárea. Em
média, as participantes tiveram cerca de 0,81 gestação;
13,7% tiveram um parto e 5,9% tiveram dois partos. Além
disso, 19,2% tiveram uma cesárea e 11,5% tiveram duas
cesáreas.
Quanto às comorbidades, 40,4% das participantes
não tinham comorbidades; 46,2% tinham comorbidades
ginecológicas, sendo elas mioma (12), adenomiose (6),
leucorreia (1), cisto ovariano (1), incontinência urinária
(2), cisto tubário (1), pólipo endometrial (1) e útero di -
delfo (1); 9,6% tinham comorbidades cardiovasculares (3
possuíam hipertensão arterial sistêmica, 1, trombofilia e
1, arritmia); 1,9% tinha comorbidade psicológica (depres-
são); e 1,9% tinha comorbidade endocrinológica (resis -
tência à insulina).
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Epidemiological profile of endometriosis with rectal involvement
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Tabela 2. Sintomas ginecológicos
Variável n = 52
Dispareunia (%) 19 (36,5)
Dismenorreia (%) 35 (67,3)
Infertilidade (%) 26 (50)
Metrorragia (%) 1 (1,9)
Sangramento (%) 2 (3,8)
Quantidade de fluxo menstrual (%)
Normal 38 (73,1)
Pequeno 1 (1,9)
Aumentado 13 (25,0)
Periodicidade do fluxo menstrual (%)
28 dias 2 (3,8)
Antimuleriano* (média ± DP) 1,53 (1,25)
* Variáveis contínuas expressas em média ± desvio-padrão (DP) e mediana,
quando aplicável; variáveis categóricas expressas em número absoluto (n) e
porcentagem (%).
Cerca de 17,3% das participantes praticavam ativida -
de física, conforme recomendado para mulheres adul -
tas pela Organização Mundial da Saúde, que estabelece
o mínimo de 150 a 300 minutos semanais de atividade
aeróbica moderada (como caminhada ou ciclismo) ou
75 a 150 minutos de atividade aeróbica vigorosa (como
corrida).(3) Aproximadamente 67,3% das participantes
têm uma alimentação saudável, que consiste na inges -
tão equilibrada de macro e micronutrientes, prioritaria-
mente oriundos de alimentos in natura, e restrição de
ultraprocessados ricos em açúcares, sódio e gorduras.(4)
Em relação aos métodos contraceptivos, cerca de 9,6%
das participantes usam o dispositivo intrauterino (DIU)
e aproximadamente 23,1% das participantes usam o an-
ticoncepcional hormonal oral (ACHO).
Examinando os sintomas ginecológicos na amostra,
conforme a tabela 2, cerca de 36,5% das participantes re-
lataram sentir dispareunia, que é dor durante ou após a
relação sexual. Aproximadamente 67,3% das participantes
relataram ter cólicas menstruais, e 50% das participantes
relataram infertilidade. Somente 1,9% das participantes re-
lataram ter metrorragia, que é sangramento uterino anor-
mal fora do período menstrual. Apenas 3,8% das partici-
pantes relataram ter sangramento, que pode ser diferente
da menstruação ou ocorrer fora do período menstrual.
Quanto ao fluxo menstrual, cerca de 73,1% das participan-
tes relataram ter um fluxo menstrual normal, apenas 1,9%
relataram ter um fluxo menstrual pequeno e aproximada-
mente 25% relataram ter um fluxo menstrual aumentado.
Já em relação à periodicidade do fluxo menstrual, 7,7% das
participantes tinham um ciclo menstrual com intervalo
inferior a 28 dias, entretanto, a grande maioria, 88,5%, re-
latou ter um ciclo menstrual de 28 dias, e apenas 3,8% ti-
nham um ciclo menstrual com intervalo superior a 28 dias.
O valor médio do hormônio antimulleriano foi de
aproximadamente 1,53, com um desvio-padrão de 1,25,
indicando uma média dentro da faixa esperada, com al-
guma variação entre os indivíduos.
Esses resultados fornecem uma visão detalhada dos
sintomas ginecológicos e da saúde reprodutiva das par-
ticipantes do estudo.
Quanto aos sintomas intestinais, o mais comum entre
as participantes foi a cólica intestinal. O sangramento
intestinal foi relatado por uma pequena proporção das
participantes. A dor ao toque abdominal (7,7%) e o intes-
tino desregulado, considerado como diarreia ou consti-
pação, foram menos frequentes entre as participantes.
Tabela 1. Características gerais da amostra
Variável n = 52
Idade* 39,15 (6,96)
Idade por faixa etária (%)
23 a 32 9 (17,3)
33 a 42 27 (51,9)
43 a 51 14 (26,9)
52 a 61 2 (3,9)
Menarca* 12,75 (1,95)
Tabagista (%) 2 (3,8)
Gestações* 0,81 (1,01)
Parto (%)
0 41 (80,4)
1 7 (13,7)
2 3 (5,9)
Cesárea (%)
0 36 (69,2)
1 10 (19,2)
2 6 (11,5)
Comorbidades (%)
Sem comorbidades 21 (40,4)
Ginecológica 24 (46,2)
Cardiovascular 5 (9,6)
Endocrinológica 1 (1,9)
Psicológica 1 (1,9)
Atividade física (%) 9 (17,3)
Alimentação saudável (%) 35 (67,3)
DIU (%) 5 (9,6)
ACHO (%) 12 (23,1)
* Variáveis contínuas expressas em média ± desvio-padrão e mediana,
quando aplicável; variáveis categóricas expressas em número absoluto (n) e
porcentagem (%).
DIU: dispositivo intrauterino; ACHO: anticoncepcional hormonal oral.
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Apenas 3,8% das participantes relataram sangramen-
to intestinal. Nenhuma das participantes relatou tenes-
mo, que é a sensação persistente de necessidade de
defecar mesmo após a evacuação. Cerca de 30,8% das
participantes relataram cólicas intestinais.
Esses resultados demonstrados na tabela 3 fornecem
informações importantes sobre os sintomas intestinais re-
latados pelas participantes do estudo, contribuindo para
uma compreensão mais abrangente do quadro clínico.
Analisando o quadro das características cirúrgicas,
observou-se que uma proporção significativa das par -
ticipantes havia sido submetida a cirurgias abdominais
e endometriais prévias. A maioria das participantes
passou por ressecção segmentar durante a cirurgia en -
dometrial. Cerca de um terço das participantes passou
por histerectomia durante o procedimento cirúrgico.
As complicações pós-operatórias foram classificadas
em maiores e menores. Entre as complicações maiores,
identificou-se um caso de lesão ureteral, que necessitou
de correção cirúrgica em momento distinto do procedi-
mento inicial. Não foram observadas outras complica -
ções maiores, como fístulas intestinais, vazamentos de
anastomose, abscessos ou necessidade de transfusão
sanguínea.
Como complicações menores, observaram-se dois ca-
sos de sangramento vaginal autolimitado, sem necessi-
dade de transfusão sanguínea. Não houve reoperações
relacionadas ao tratamento das lesões endometrióticas,
nem recidiva da doença durante o seguimento de um ano.
Cerca de 48,1% das participantes relataram ter pas -
sado por cirurgia abdominal anteriormente. As cirurgias
relatadas foram: apendicectomia, cirurgia bariátrica,
laparoscopia de cisto ovariano, balão gástrico, colecis -
tectomia, abdominoplastia, retirada de pólipo, desvio de
septo, miomectomia e cesárea. Além disso, aproxima -
damente 19,2% das participantes passaram por cirurgia
endometrial anteriormente.
Abordando os tipos de ressecção cirúrgica, apenas
3,8% das participantes passaram por ressecção do tipo
“shaving”; cerca de 23,1% passaram por ressecção do
tipo “disco”; e a maioria das participantes, aproximada-
mente 73,1%, passou por ressecção do tipo “segmentar”.
Além disso, 34,6% das participantes foram submetidas a
histerectomia (Tabela 4).
Todas as pacientes do estudo eram acometidas por
endometriose retal, porém a maior parte delas tinha
acometimento de pelo menos mais uma região por
endometriose (80,8%), e apenas 19,2% tinham apenas
acometimento retal. Os locais mais acometidos após o
reto foram o ligamento uterossacro, com 61,5% das pa -
cientes tendo também esse acometimento, seguido do
ovário, com 34,6%, do compartimento anterior (bexiga),
com 26,9% e, por fim, da vagina, com 19,2% das pacien -
tes. Entre as pacientes, 19,2% possuíam acometimento
de apenas um local, o reto; 38,5% eram acometidas em
duas regiões; 25%, em três locais, 15,4%, em quatro; e
apenas 1 paciente era acometida em todos os cinco lo -
cais analisados, como demonstrado na tabela 5.
Tabela 5. Localização das lesões
Compartimento anterior (%) 14 (26,9)
Vagina (%) 10 (19,2)
Ligamento uterossacro (%) 32 (61,5)
Ovário (%) 18 (34,6)
Reto (%) 52 (100,0)
Número de locais afetados (%)
Apenas 1 10 (19,2)
2 locais 20 (38,5)
3 locais 13 (25,0)
4 locais 8 (15,4)
5 locais 1 (1,9)
Variáveis contínuas expressas em média ± desvio-padrão e mediana,
quando aplicável; variáveis categóricas expressas em número absoluto (n) e
porcentagem (%).
Tabela 4. Características cirúrgicas
Variável n = 52
Cirurgia abdominal prévia (%) 25 (48,1)
Cirurgia endometrial prévia (%) 10 (19,2)
Tipo de ressecção
Shaving (%) 2 (3,8)
Disco (%) 12 (23,1)
Segmentar (%) 38 (73,1)
Histerectomia (%) 18 (34,6)
Complicações totais (%)
Maiores
Menores
3 (5,7)
1 (1,9)
2 (3,8)
Reoperação (%) 1 (1,9)
Recidiva (%) 0 (0)
Variáveis contínuas expressas em média ± desvio-padrão e mediana,
quando aplicável; variáveis categóricas expressas em número absoluto (n) e
porcentagem (%).
Tabela 3. Sintomas intestinais
Variável n = 52
Sangramento (%) 2 (3,8)
Tenesmo (%) 0 (0)
Cólica (%) 16 (30,8)
Dor ao toque (%) 4 (7,7)
Intestino desregulado (%) 3 (5,8)
Variáveis contínuas expressas em média ± desvio-padrão e mediana,
quando aplicável; variáveis categóricas expressas em número absoluto (n) e
porcentagem (%).
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DISCUSSÃO
A endometriose afeta majoritariamente mulheres em
idade reprodutiva, e a média de idade das pacientes
deste estudo, de 39 anos, é próxima da média de 36 anos
encontrada por Cardoso et al.(5) Da mesma forma, a mé-
dia de idade da menarca foi de 12,75 anos, comparada
à média de 12,5 anos do estudo considerado. Há uma
associação entre nuliparidade e endometriose, embo -
ra ainda seja discutido se essa condição resulta da in -
fertilidade causada pela doença ou se a nuliparidade é
um fator de risco. Observou-se que 50% das pacientes
nunca tiveram uma gestação, e Bellelis et al.(6) relataram
56,5% de nulíparas, em concordância com este estudo.
Apenas 23,1% das pacientes utilizavam ACHO, percentual
inferior aos 87,7% observados por Cardoso et al.(5)
Quanto aos sintomas, a cólica abdominal foi a mais
comum, referida por 67,3% das pacientes, seguida por in-
fertilidade (50%) e dispareunia (36,5%). Estudos também
identificaram a cólica como sintoma mais prevalente,
com 80,6% das pacientes em Cardoso et al.(5) e 62,2% em
Bellelis et al.,(6) em que a dispareunia foi o segundo sin-
toma mais prevalente, com frequência maior do que a
observada neste estudo. A infertilidade também foi sig-
nificativa, aparecendo em cerca de 50% das pacientes,
corroborando os 49,5% descritos por Cardoso et al.(5)
A endometriose retal geralmente ocorre junto com
lesões em outras localizações, sendo esse o caso em
80,8% das pacientes avaliadas. Em comparação, em
Cardoso et al.,(5) o ovário foi o principal local associado
ao reto (65%), enquanto neste estudo o ligamento ute -
rossacro foi o mais frequente, com 61,5% das pacientes
acometidas.
Em relação aos antecedentes obstétricos, 30,7% das
pacientes do presente estudo relataram histórico de um
ou dois partos cesáreos. Evidências da literatura suge -
rem uma possível associação entre cesariana e aumen-
to do risco de endometriose, hipótese atribuída, entre
outros fatores, à disseminação iatrogênica de tecido
endometrial durante o procedimento cirúrgico e à for -
mação de cicatrizes abdominais, que poderiam facilitar
a implantação ectópica do endométrio. Nesse contexto,
Andolf et al., demonstraram que mulheres submetidas
à cesariana apresentaram risco aproximadamente 80%
maior de diagnóstico hospitalar de endometriose, em
comparação àquelas com parto vaginal.(7)
A relação entre tabagismo e endometriose permane-
ce controversa na literatura. No presente estudo, apenas
3,8% das pacientes eram tabagistas, achado que pode
sugerir uma menor prevalência de tabagismo entre mu-
lheres com endometriose, hipótese historicamente atri-
buída aos potenciais efeitos do tabaco sobre os siste -
mas imunológico e hormonal. Entretanto, essa possível
associação inversa foi descrita principalmente em estu-
dos mais antigos, enquanto evidências mais recentes,
incluindo uma metanálise que reuniu dados de 38 estu-
dos observacionais, não demonstraram associação es -
tatisticamente significativa entre o tabagismo e o risco
global de desenvolvimento de endometriose, indicando
que tal efeito protetor pode refletir vieses metodológi -
cos ou fatores de confusão.(8)
No presente estudo, a maioria das pacientes não pra-
ticava atividade física regularmente (82,7%), o que pode
sugerir uma associação entre sedentarismo e endome -
triose na amostra analisada. A literatura aponta que a
prática regular de exercícios físicos pode estar relaciona-
da a uma discreta redução do risco de desenvolvimento
da doença; contudo, essa associação permanece contro-
versa. Uma revisão sistemática conduzida por Bonocher
et al.(9) não encontrou evidências conclusivas de que o
exercício físico atue como fator protetor para a endome-
triose, tampouco demonstrou impacto significativo sobre
a progressão ou o curso clínico da doença. Ademais, de-
ve-se considerar a possibilidade de causalidade reversa,
uma vez que sintomas intensos, como dor pélvica crônica,
podem limitar a prática de atividade física, contribuindo
para o elevado índice de sedentarismo observado.
No que diz respeito às comorbidades, 46,2% das pa -
cientes apresentaram condições ginecológicas adicio -
nais, sendo metade delas relacionada aos miomas ute -
rinos. Embora a relação entre miomas e endometriose
não seja completamente compreendida, fatores hormo-
nais como os estrogênios podem influenciar ambas as
condições, além da predisposição genética, que pode
aumentar o risco para ambos.
A escolha entre técnicas cirúrgicas para a endome -
triose, como ressecção segmentar, shaving e disco,
depende da gravidade e da localização das lesões. No
presente estudo, 73,1% das pacientes foram tratadas
com ressecção segmentar, opção preferida para a en -
dometriose infiltrativa profunda. Essa elevada taxa de
ressecção segmentar é justificada pelo fato de o estudo
ter ocorrido em um centro especializado em cirurgias
endometriais, onde as pacientes procuravam o serviço
já refratárias ao tratamento clínico, normalmente com
lesões mais avançadas. A ressecção segmentar oferece
maior controle, pois remove completamente as lesões
extensas (acima de 3–4 cm ou > 50% da parede intes -
tinal), melhorando sintomas como dor e qualidade de
vida a longo prazo. Técnicas menos invasivas, como sha-
ving ou disco, podem ser adequadas em casos menos
complexos, e a escolha deve ser individualizada e discu-
tida com a paciente.(10)
Nenhuma paciente teve recidiva até o fim do perío -
do de um ano após a cirurgia. No entanto, a recorrên -
cia da endometriose após a cirurgia é comum e pode
ocorrer mesmo após a remoção completa das lesões
visíveis. A taxa de recidiva pode chegar a 50% em até
cinco anos, segundo Koninckx et al.(11) Fatores como im-
plantes microscópicos, alterações hormonais e predis -
posições genéticas podem contribuir para a recorrência.
Tratamentos complementares, como a terapia hormonal
e a adoção de estilo de vida saudável, podem ajudar a
minimizar o risco de recidiva e controlar os sintomas a
longo prazo.(11)
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CONCLUSÃO
No presente estudo, observou-se que a endometriose
com acometimento retal ocorreu com maior prevalência
em mulheres de 33 a 42 anos, com sintomas de disme -
norreia, dispareunia, infertilidade e alterações gastroin-
testinais, associadas à doença no ligamento uterossa -
cro. O tratamento mais prevalente dessas pacientes foi
a ressecção segmentar do reto.
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