{"paper_id":"a659e263-0412-4d3a-a7f2-5b4a75312f86","body_text":"| 329 \nFEMINA 2026;54(4):329-34\nARTIGO ORIGINAL\nDescritores\nEndometriose; Doença \ncrônica; Reto; Cólica\nKeywords\nEndometriosis; Chronic \ndisease; Rectum; Cramping\nSubmetido: \n26/06/2025\nAceito: \n12/02/2026\n1. Faculdade Evangélica Mackenzie \ndo Paraná, Curitiba, PR, Brasil.\nConflitos de interesse: \nNada a declarar. \nAutor correspondente:\nLuigi Kaul Segabinazzi \nluigikaul@gmail.com\nDisponibilidade dos dados:wOs \ndados da pesquisa estão disponí-\nveis no artigo.\nComo citar:\nZiliotto C, Segabinazzi LK, Fin \nFR. Perfil epidemiológico da \nendometriose com acometimento \nretal. FEMINA 2026;54(4):329-34.\nPerfil epidemiológico \nda endometriose com \nacometimento retal\nEpidemiological profile of endometriosis \nwith rectal involvement\nCaio Ziliotto1, Luigi Kaul Segabinazzi1, Fabio Roberto Fin1\nRESUMO\nObjetivos: Analisar as características epidemiológicas, as doenças associadas e os \ndados clínicos de pacientes com endometriose retal. Métodos: Estudo de coorte \nretrospectivo dos prontuários médicos de 52 pacientes acometidas por endome -\ntriose retal do Instituto Femina, as quais foram diagnosticadas por meio de resso-\nnância magnética para endometriose com preparo intestinal e submetidas a res -\nsecção cirúrgica das lesões endometriais. Resultados: A maioria das participantes \ntinha entre 33 e 42 anos, com média de idade de 39,15 anos. Cerca de 30,7% tinham \npelo menos uma cesárea. Aproximadamente 59,6% das pacientes apresentaram \ncomorbidades associadas, principalmente ginecológicas, representando 46,2% dos \ncasos. Os sintomas ginecológicos mais frequentes foram cólica menstrual (67,3%) e \ndispareunia (36,5%), e 50% das mulheres relataram infertilidade. Entre os sintomas \ngastrointestinais, a cólica intestinal foi o mais comum, ocorrendo em 30,8% das \npacientes. Em quase metade delas (48,1%) foi realizada cirurgia abdominal anterior, \ne 19,2% já foram introduzidas no tratamento endometrial. Em 80,8% dos casos, a \nendometriose estava presente em mais de uma região, sendo o reto o local mais \nacometido, seguido do ligamento uterossacro em segundo lugar, com 61,5%, e su-\ncessivamente o ovário, com 34,6%. Conclusão: A endometriose com acometimento \nretal predominou em mulheres entre 33 e 42 anos e foi associada a sintomas como \ncólica, dispareunia, infertilidade e alterações gastrointestinais, muitas vezes afe -\ntando também o ligamento uterossacro. A principal abordagem de tratamento foi \na ressecção segmentar do reto.\nABSTRACT\nObjective: To analyze the epidemiological characteristics, associated diseases, and \nclinical data of patients with rectal endometriosis. Methods: A retrospective cohort \nstudy was conducted using the medical records of 52 patients with rectal endome -\ntriosis at Instituto Femina. All patients were diagnosed through Magnetic resonance \nimaging for endometriosis with bowel preparation and had undergone surgical re -\nsection of endometrial lesions. Results: The majority of participants were between 33 \nand 42 years old, with a mean age of 39.15 years. Approximately 30.7% had at least one \ncesarean section. Around 59.6% of patients presented with associated comorbidities, \nmainly gynecological, accounting for 46.2% of cases. The most frequent gynecologi -\ncal symptoms were dysmenorrhea (67.3%) and dyspareunia (36.5%), and 50% of the \nwomen reported infertility. Among gastrointestinal symptoms, intestinal cramps were \nthe most common, occurring in 30.8% of patients. Nearly half (48.1%) had undergone \nprior abdominal surgery, and 19.2% had previously initiated endometrial treatment. \nIn 80.8% of cases, endometriosis was present in more than one region, with the rec -\ntum being the most affected site, followed by the uterosacral ligament (61.5%) and \nthe ovaries (34.6%). Conclusion: Rectal endometriosis predominantly affected women \naged 33 to 42 years and was associated with symptoms such as cramps, dyspareunia, \ninfertility, and gastrointestinal alterations, frequently also involving the uterosacral \nligament. The main treatment approach was segmental resection of the rectum. \n\nZiliotto C, Segabinazzi LK, Fin FR\n330 |\nFEMINA 2026;54(4):329-34\nINTRODUÇÃO\nA endometriose é uma condição prevalente em mulhe -\nres em idade reprodutiva e caracterizada pela presença \nde tecido endometrial fora da cavidade uterina, afetan-\ndo vários órgãos, inclusive o reto. Os sintomas incluem \ndor abdominal, dispareunia, dismenorreia e infertilida -\nde. O diagnóstico envolve anamnese, exame físico, exa -\nmes de imagem e laparoscopia, que é o padrão-ouro. O \ntratamento é individualizado e pode incluir analgésicos, \nterapia hormonal ou cirurgia.\nA endometriose com acometimento retal, embora \nmenos frequente, causa sintomas debilitantes e afeta \na qualidade de vida das pacientes. Ocorre em cerca de \n3% a 37% das pacientes, podendo simular o quadro de \ncarcinoma retal. Os sintomas podem incluir dismenor -\nreia intensa, dor pélvica crônica, dispareunia e sintomas \ngastrointestinais (obstrução intestinal e sangramento \nretal), complicando o diagnóstico devido à sua variabili-\ndade em relação à extensão das lesões.(1)\nO trabalho busca analisar as características epide -\nmiológicas, as patologias associadas e os dados clíni -\ncos de pacientes com endometriose com acometimen -\nto retal, visto que a análise do perfil epidemiológico é \nfundamental para melhorar o diagnóstico e o manejo \nda endometriose retal, melhorando a qualidade de vida \ndas pacientes.\nMÉTODOS\nTrata-se de um estudo de coorte retrospectivo baseado \nem prontuários médicos de 52 pacientes diagnosticadas \ncom endometriose retal no período de junho de 2018 \na agosto de 2023, a coleta de dados foi realizada nos \nmeses de setembro a novembro de 2023, no Instituto \nFemina (Rua Saldanha Marinho, 2.167 – Bigorrilho, \nCuritiba – PR, 82305-100).\nForam avaliadas variáveis como idade, histórico obs-\ntétrico, menarca, sintomas pélvicos e intestinais, hábitos \nde saúde, tipo de ressecção cirúrgica, complicações, re-\ncidiva e mapeamento das lesões endometriais, as quais \nforam transcritas diretamente dos prontuários originais \ne tabuladas em planilhas. Analisaram-se os prontuários \ndas pacientes da primeira consulta até o período de um \nano de pós-operatório. As pacientes selecionadas já ha-\nviam sido submetidas a exames de imagem, ressonância \nnuclear magnética (RNM) para endometriose com pre -\nparo intestinal e cirurgia, todos realizados pela mesma \nequipe do instituto. O acompanhamento pós-operatório \nocorreu no mesmo centro, com consultas na primeira \nsemana, no primeiro mês, aos seis meses (onde se reali-\nzava uma ultrassonografia transvaginal com mapeamen-\nto de endometriose) e com um ano de pós-operatório.\nOs parâmetros utilizados para definir a conduta cirúr-\ngica e o tipo de técnica mais apropriada ( shaving, dis-\nco ou ressecção segmentar intestinal) basearam-se em \nposicionamentos técnicos institucionais da Febrasgo, \njuntamente com uma avaliação individualizada de todas \nas pacientes pela equipe de especialistas ginecológicos \ndo instituto, ponderando-se sintomas de dor, urinários, \nsexuais, intestinais e de fertilidade. As recomendações \nutilizadas foram: as lesões superficiais envolvendo ape-\nnas a camada serosa ou adventícia podem ser remo -\nvidas com secção a shaving. Já a ressecção a disco de \nespessura total é utilizada para lesões não maiores que \num terço da circunferência do reto e menores que 3 cm \nem extensão. Nas situações em que ocorre lesão única \nmaior do que 3 cm de diâmetro, lesão única infiltran -\ndo mais de 50% da parede intestinal ou na presença de \nduas ou mais lesões infiltrando a camada muscular da \nalça, a ressecção segmentar é preconizada.(2)\nAs análises estatísticas foram realizadas com o auxí -\nlio do software RStudio (R 4.2.3). Foram utilizados mé -\ndia e desvio-padrão para as variáveis com distribuição \nnormal; para as variáveis categóricas, foram utilizados \nnúmeros absolutos e porcentagens.\nForam incluídas pacientes do sexo feminino, de qual-\nquer idade, que já haviam tido menarca, todas diagnos-\nticadas com endometriose retal por meio de RNM para \nendometriose com preparo intestinal e abordadas cirur-\ngicamente para tratamento de endometriose retal pela \nequipe do Instituto Femina. Excluíram-se mulheres com \nendometriose sem acometimento retal.\nO trabalho foi submetido e aprovado pelo Comitê de \nÉtica da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná, no \ndia 15 de setembro de 2023, com parecer nº 6.304.458.\nRESULTADOS\nAnalisando as características gerais da amostra na tabe-\nla 1, obteve-se que a idade média das participantes era \nde aproximadamente 39,15 anos, tendo variado entre 23 \ne 61 anos. A maior parte das pacientes tinha entre 33 e \n42 anos (51,9%), seguida da faixa etária entre 43 e 51 anos \n(26,9%), 23 e 32 anos (17,3%) e, por fim, apenas duas pa-\ncientes tinham entre 52 e 61 anos. A idade média da me-\nnarca (primeira menstruação) foi de cerca de 12,75 anos. \nApenas duas pacientes na amostra eram tabagistas. A \nprevalência de cesáreas foi considerável, com cerca de \n30,7% das mulheres tendo pelo menos uma cesárea. Em \nmédia, as participantes tiveram cerca de 0,81 gestação; \n13,7% tiveram um parto e 5,9% tiveram dois partos. Além \ndisso, 19,2% tiveram uma cesárea e 11,5% tiveram duas \ncesáreas.\nQuanto às comorbidades, 40,4% das participantes \nnão tinham comorbidades; 46,2% tinham comorbidades \nginecológicas, sendo elas mioma (12), adenomiose (6), \nleucorreia (1), cisto ovariano (1), incontinência urinária \n(2), cisto tubário (1), pólipo endometrial (1) e útero di -\ndelfo (1); 9,6% tinham comorbidades cardiovasculares (3 \npossuíam hipertensão arterial sistêmica, 1, trombofilia e \n1, arritmia); 1,9% tinha comorbidade psicológica (depres-\nsão); e 1,9% tinha comorbidade endocrinológica (resis -\ntência à insulina).\n\n Perfil epidemiológico da endometriose com acometimento retal \nEpidemiological profile of endometriosis with rectal involvement\n| 331 \nFEMINA 2026;54(4):329-34\nTabela 2. Sintomas ginecológicos\nVariável n = 52\nDispareunia (%) 19 (36,5)\nDismenorreia (%) 35 (67,3)\nInfertilidade (%) 26 (50)\nMetrorragia (%) 1 (1,9)\nSangramento (%) 2 (3,8)\nQuantidade de fluxo menstrual (%)\nNormal 38 (73,1)\nPequeno 1 (1,9)\nAumentado 13 (25,0)\nPeriodicidade do fluxo menstrual (%)\n<28 dias 4 (7,7)\n28 dias 46 (88,5)\n>28 dias 2 (3,8)\nAntimuleriano* (média ± DP) 1,53 (1,25)\n* Variáveis contínuas expressas em média ± desvio-padrão (DP) e mediana, \nquando aplicável; variáveis categóricas expressas em número absoluto (n) e \nporcentagem (%).\nCerca de 17,3% das participantes praticavam ativida -\nde física, conforme recomendado para mulheres adul -\ntas pela Organização Mundial da Saúde, que estabelece \no mínimo de 150 a 300 minutos semanais de atividade \naeróbica moderada (como caminhada ou ciclismo) ou \n75 a 150 minutos de atividade aeróbica vigorosa (como \ncorrida).(3) Aproximadamente 67,3% das participantes \ntêm uma alimentação saudável, que consiste na inges -\ntão equilibrada de macro e micronutrientes, prioritaria-\nmente oriundos de alimentos in natura, e restrição de \nultraprocessados ricos em açúcares, sódio e gorduras.(4) \nEm relação aos métodos contraceptivos, cerca de 9,6% \ndas participantes usam o dispositivo intrauterino (DIU) \ne aproximadamente 23,1% das participantes usam o an-\nticoncepcional hormonal oral (ACHO).\nExaminando os sintomas ginecológicos na amostra, \nconforme a tabela 2, cerca de 36,5% das participantes re-\nlataram sentir dispareunia, que é dor durante ou após a \nrelação sexual. Aproximadamente 67,3% das participantes \nrelataram ter cólicas menstruais, e 50% das participantes \nrelataram infertilidade. Somente 1,9% das participantes re-\nlataram ter metrorragia, que é sangramento uterino anor-\nmal fora do período menstrual. Apenas 3,8% das partici-\npantes relataram ter sangramento, que pode ser diferente \nda menstruação ou ocorrer fora do período menstrual. \nQuanto ao fluxo menstrual, cerca de 73,1% das participan-\ntes relataram ter um fluxo menstrual normal, apenas 1,9% \nrelataram ter um fluxo menstrual pequeno e aproximada-\nmente 25% relataram ter um fluxo menstrual aumentado. \nJá em relação à periodicidade do fluxo menstrual, 7,7% das \nparticipantes tinham um ciclo menstrual com intervalo \ninferior a 28 dias, entretanto, a grande maioria, 88,5%, re-\nlatou ter um ciclo menstrual de 28 dias, e apenas 3,8% ti-\nnham um ciclo menstrual com intervalo superior a 28 dias.\nO valor médio do hormônio antimulleriano foi de \naproximadamente 1,53, com um desvio-padrão de 1,25, \nindicando uma média dentro da faixa esperada, com al-\nguma variação entre os indivíduos.\nEsses resultados fornecem uma visão detalhada dos \nsintomas ginecológicos e da saúde reprodutiva das par-\nticipantes do estudo.\nQuanto aos sintomas intestinais, o mais comum entre \nas participantes foi a cólica intestinal. O sangramento \nintestinal foi relatado por uma pequena proporção das \nparticipantes. A dor ao toque abdominal (7,7%) e o intes-\ntino desregulado, considerado como diarreia ou consti-\npação, foram menos frequentes entre as participantes.\nTabela 1. Características gerais da amostra\nVariável n = 52\nIdade* 39,15 (6,96)\nIdade por faixa etária (%)\n23 a 32 9 (17,3)\n33 a 42 27 (51,9)\n43 a 51 14 (26,9)\n52 a 61 2 (3,9)\nMenarca*  12,75 (1,95)\nTabagista (%) 2 (3,8)\nGestações*  0,81 (1,01)\nParto (%)\n0 41 (80,4)\n1 7 (13,7)\n2 3 (5,9)\nCesárea (%)\n0 36 (69,2)\n1 10 (19,2)\n2 6 (11,5)\nComorbidades (%)\nSem comorbidades 21 (40,4)\nGinecológica 24 (46,2)\nCardiovascular 5 (9,6)\nEndocrinológica 1 (1,9)\nPsicológica 1 (1,9)\nAtividade física (%) 9 (17,3)\nAlimentação saudável (%) 35 (67,3)\nDIU (%) 5 (9,6)\nACHO (%) 12 (23,1)\n* Variáveis contínuas expressas em média ± desvio-padrão e mediana, \nquando aplicável; variáveis categóricas expressas em número absoluto (n) e \nporcentagem (%).\nDIU: dispositivo intrauterino; ACHO: anticoncepcional hormonal oral.\n\nZiliotto C, Segabinazzi LK, Fin FR\n332 |\nFEMINA 2026;54(4):329-34\nApenas 3,8% das participantes relataram sangramen-\nto intestinal. Nenhuma das participantes relatou tenes-\nmo, que é a sensação persistente de necessidade de \ndefecar mesmo após a evacuação. Cerca de 30,8% das \nparticipantes relataram cólicas intestinais. \nEsses resultados demonstrados na tabela 3 fornecem \ninformações importantes sobre os sintomas intestinais re-\nlatados pelas participantes do estudo, contribuindo para \numa compreensão mais abrangente do quadro clínico.\nAnalisando o quadro das características cirúrgicas, \nobservou-se que uma proporção significativa das par -\nticipantes havia sido submetida a cirurgias abdominais \ne endometriais prévias. A maioria das participantes \npassou por ressecção segmentar durante a cirurgia en -\ndometrial. Cerca de um terço das participantes passou \npor histerectomia durante o procedimento cirúrgico. \nAs complicações pós-operatórias foram classificadas \nem maiores e menores. Entre as complicações maiores, \nidentificou-se um caso de lesão ureteral, que necessitou \nde correção cirúrgica em momento distinto do procedi-\nmento inicial. Não foram observadas outras complica -\nções maiores, como fístulas intestinais, vazamentos de \nanastomose, abscessos ou necessidade de transfusão \nsanguínea.\nComo complicações menores, observaram-se dois ca-\nsos de sangramento vaginal autolimitado, sem necessi-\ndade de transfusão sanguínea. Não houve reoperações \nrelacionadas ao tratamento das lesões endometrióticas, \nnem recidiva da doença durante o seguimento de um ano.\nCerca de 48,1% das participantes relataram ter pas -\nsado por cirurgia abdominal anteriormente. As cirurgias \nrelatadas foram: apendicectomia, cirurgia bariátrica, \nlaparoscopia de cisto ovariano, balão gástrico, colecis -\ntectomia, abdominoplastia, retirada de pólipo, desvio de \nsepto, miomectomia e cesárea. Além disso, aproxima -\ndamente 19,2% das participantes passaram por cirurgia \nendometrial anteriormente.\nAbordando os tipos de ressecção cirúrgica, apenas \n3,8% das participantes passaram por ressecção do tipo \n“shaving”; cerca de 23,1% passaram por ressecção do \ntipo “disco”; e a maioria das participantes, aproximada-\nmente 73,1%, passou por ressecção do tipo “segmentar”. \nAlém disso, 34,6% das participantes foram submetidas a \nhisterectomia (Tabela 4).\nTodas as pacientes do estudo eram acometidas por \nendometriose retal, porém a maior parte delas tinha \nacometimento de pelo menos mais uma região por \nendometriose (80,8%), e apenas 19,2% tinham apenas \nacometimento retal. Os locais mais acometidos após o \nreto foram o ligamento uterossacro, com 61,5% das pa -\ncientes tendo também esse acometimento, seguido do \novário, com 34,6%, do compartimento anterior (bexiga), \ncom 26,9% e, por fim, da vagina, com 19,2% das pacien -\ntes. Entre as pacientes, 19,2% possuíam acometimento \nde apenas um local, o reto; 38,5% eram acometidas em \nduas regiões; 25%, em três locais, 15,4%, em quatro; e \napenas 1 paciente era acometida em todos os cinco lo -\ncais analisados, como demonstrado na tabela 5.\nTabela 5. Localização das lesões\nCompartimento anterior (%) 14 (26,9)\nVagina (%) 10 (19,2)\nLigamento uterossacro (%) 32 (61,5)\nOvário (%) 18 (34,6)\nReto (%) 52 (100,0)\nNúmero de locais afetados (%)\nApenas 1 10 (19,2)\n2 locais 20 (38,5)\n3 locais 13 (25,0)\n4 locais 8 (15,4)\n5 locais 1 (1,9)\nVariáveis contínuas expressas em média ± desvio-padrão e mediana, \nquando aplicável; variáveis categóricas expressas em número absoluto (n) e \nporcentagem (%).\nTabela 4. Características cirúrgicas\nVariável n = 52\nCirurgia abdominal prévia (%) 25 (48,1)\nCirurgia endometrial prévia (%) 10 (19,2)\nTipo de ressecção\nShaving (%) 2 (3,8)\nDisco (%) 12 (23,1)\nSegmentar (%) 38 (73,1)\nHisterectomia (%) 18 (34,6)\nComplicações totais (%)\nMaiores\nMenores\n3 (5,7)\n1 (1,9)\n2 (3,8)\nReoperação (%) 1 (1,9)\nRecidiva (%) 0 (0)\nVariáveis contínuas expressas em média ± desvio-padrão e mediana, \nquando aplicável; variáveis categóricas expressas em número absoluto (n) e \nporcentagem (%).\nTabela 3. Sintomas intestinais\nVariável n = 52\nSangramento (%) 2 (3,8)\nTenesmo (%) 0 (0)\nCólica (%) 16 (30,8)\nDor ao toque (%) 4 (7,7)\nIntestino desregulado (%) 3 (5,8)\nVariáveis contínuas expressas em média ± desvio-padrão e mediana, \nquando aplicável; variáveis categóricas expressas em número absoluto (n) e \nporcentagem (%).\n\n Perfil epidemiológico da endometriose com acometimento retal \nEpidemiological profile of endometriosis with rectal involvement\n| 333 \nFEMINA 2026;54(4):329-34\nDISCUSSÃO\nA endometriose afeta majoritariamente mulheres em \nidade reprodutiva, e a média de idade das pacientes \ndeste estudo, de 39 anos, é próxima da média de 36 anos \nencontrada por Cardoso et al.(5) Da mesma forma, a mé-\ndia de idade da menarca foi de 12,75 anos, comparada \nà média de 12,5 anos do estudo considerado. Há uma \nassociação entre nuliparidade e endometriose, embo -\nra ainda seja discutido se essa condição resulta da in -\nfertilidade causada pela doença ou se a nuliparidade é \num fator de risco. Observou-se que 50% das pacientes \nnunca tiveram uma gestação, e Bellelis et al.(6) relataram \n56,5% de nulíparas, em concordância com este estudo. \nApenas 23,1% das pacientes utilizavam ACHO, percentual \ninferior aos 87,7% observados por Cardoso et al.(5)\nQuanto aos sintomas, a cólica abdominal foi a mais \ncomum, referida por 67,3% das pacientes, seguida por in-\nfertilidade (50%) e dispareunia (36,5%). Estudos também \nidentificaram a cólica como sintoma mais prevalente, \ncom 80,6% das pacientes em Cardoso et al.(5) e 62,2% em \nBellelis et al.,(6) em que a dispareunia foi o segundo sin-\ntoma mais prevalente, com frequência maior do que a \nobservada neste estudo. A infertilidade também foi sig-\nnificativa, aparecendo em cerca de 50% das pacientes, \ncorroborando os 49,5% descritos por Cardoso et al.(5)\nA endometriose retal geralmente ocorre junto com \nlesões em outras localizações, sendo esse o caso em \n80,8% das pacientes avaliadas. Em comparação, em \nCardoso et al.,(5) o ovário foi o principal local associado \nao reto (65%), enquanto neste estudo o ligamento ute -\nrossacro foi o mais frequente, com 61,5% das pacientes \nacometidas.\nEm relação aos antecedentes obstétricos, 30,7% das \npacientes do presente estudo relataram histórico de um \nou dois partos cesáreos. Evidências da literatura suge -\nrem uma possível associação entre cesariana e aumen-\nto do risco de endometriose, hipótese atribuída, entre \noutros fatores, à disseminação iatrogênica de tecido \nendometrial durante o procedimento cirúrgico e à for -\nmação de cicatrizes abdominais, que poderiam facilitar \na implantação ectópica do endométrio. Nesse contexto, \nAndolf et al., demonstraram que mulheres submetidas \nà cesariana apresentaram risco aproximadamente 80% \nmaior de diagnóstico hospitalar de endometriose, em \ncomparação àquelas com parto vaginal.(7)\nA relação entre tabagismo e endometriose permane-\nce controversa na literatura. No presente estudo, apenas \n3,8% das pacientes eram tabagistas, achado que pode \nsugerir uma menor prevalência de tabagismo entre mu-\nlheres com endometriose, hipótese historicamente atri-\nbuída aos potenciais efeitos do tabaco sobre os siste -\nmas imunológico e hormonal. Entretanto, essa possível \nassociação inversa foi descrita principalmente em estu-\ndos mais antigos, enquanto evidências mais recentes, \nincluindo uma metanálise que reuniu dados de 38 estu-\ndos observacionais, não demonstraram associação es -\ntatisticamente significativa entre o tabagismo e o risco \nglobal de desenvolvimento de endometriose, indicando \nque tal efeito protetor pode refletir vieses metodológi -\ncos ou fatores de confusão.(8)\nNo presente estudo, a maioria das pacientes não pra-\nticava atividade física regularmente (82,7%), o que pode \nsugerir uma associação entre sedentarismo e endome -\ntriose na amostra analisada. A literatura aponta que a \nprática regular de exercícios físicos pode estar relaciona-\nda a uma discreta redução do risco de desenvolvimento \nda doença; contudo, essa associação permanece contro-\nversa. Uma revisão sistemática conduzida por Bonocher \net al.(9) não encontrou evidências conclusivas de que o \nexercício físico atue como fator protetor para a endome-\ntriose, tampouco demonstrou impacto significativo sobre \na progressão ou o curso clínico da doença. Ademais, de-\nve-se considerar a possibilidade de causalidade reversa, \numa vez que sintomas intensos, como dor pélvica crônica, \npodem limitar a prática de atividade física, contribuindo \npara o elevado índice de sedentarismo observado.\nNo que diz respeito às comorbidades, 46,2% das pa -\ncientes apresentaram condições ginecológicas adicio -\nnais, sendo metade delas relacionada aos miomas ute -\nrinos. Embora a relação entre miomas e endometriose \nnão seja completamente compreendida, fatores hormo-\nnais como os estrogênios podem influenciar ambas as \ncondições, além da predisposição genética, que pode \naumentar o risco para ambos.\nA escolha entre técnicas cirúrgicas para a endome -\ntriose, como ressecção segmentar, shaving e disco, \ndepende da gravidade e da localização das lesões. No \npresente estudo, 73,1% das pacientes foram tratadas \ncom ressecção segmentar, opção preferida para a en -\ndometriose infiltrativa profunda. Essa elevada taxa de \nressecção segmentar é justificada pelo fato de o estudo \nter ocorrido em um centro especializado em cirurgias \nendometriais, onde as pacientes procuravam o serviço \njá refratárias ao tratamento clínico, normalmente com \nlesões mais avançadas. A ressecção segmentar oferece \nmaior controle, pois remove completamente as lesões \nextensas (acima de 3–4 cm ou > 50% da parede intes -\ntinal), melhorando sintomas como dor e qualidade de \nvida a longo prazo. Técnicas menos invasivas, como sha-\nving ou disco, podem ser adequadas em casos menos \ncomplexos, e a escolha deve ser individualizada e discu-\ntida com a paciente.(10)\nNenhuma paciente teve recidiva até o fim do perío -\ndo de um ano após a cirurgia. No entanto, a recorrên -\ncia da endometriose após a cirurgia é comum e pode \nocorrer mesmo após a remoção completa das lesões \nvisíveis. A taxa de recidiva pode chegar a 50% em até \ncinco anos, segundo Koninckx et al.(11) Fatores como im-\nplantes microscópicos, alterações hormonais e predis -\nposições genéticas podem contribuir para a recorrência. \nTratamentos complementares, como a terapia hormonal \ne a adoção de estilo de vida saudável, podem ajudar a \nminimizar o risco de recidiva e controlar os sintomas a \nlongo prazo.(11)\n\nZiliotto C, Segabinazzi LK, Fin FR\n334 |\nFEMINA 2026;54(4):329-34\nCONCLUSÃO\nNo presente estudo, observou-se que a endometriose \ncom acometimento retal ocorreu com maior prevalência \nem mulheres de 33 a 42 anos, com sintomas de disme -\nnorreia, dispareunia, infertilidade e alterações gastroin-\ntestinais, associadas à doença no ligamento uterossa -\ncro. O tratamento mais prevalente dessas pacientes foi \na ressecção segmentar do reto.\nREFERÊNCIAS\n1. Zhao LJ, Wang YH, Zhang JD. A case report: rectal endometriosis \nmimicking rectal cancer. 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