Keywords
endometriosis, diagnosis, treatment, infertility, multidisciplinary approach
INTRODUÇÃO
A endometriose é uma condição ginecológica inflamatória crônica, hormônio -dependente,
caracterizada pela presença ectópica de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade
uterina. Trata -se de uma afecção que compromete de forma significativa a saúde fí sica,
psicológica e reprodutiva de mulheres em idade fértil, com impactos diretos sobre sua qualidade
de vida, produtividade e bem -estar. Estima -se que cerca de 10% das mulheres em idade
reprodutiva sejam acometidas pela doença, o que a torna um problema de saúde pública relevante
e subestimado.
Na maioria dos casos, os focos de endometriose localizam -se na cavidade pélvica, afetando
estruturas como peritônio, ovários, septo retovaginal, ligamentos uterossacros, intestino e bexiga.
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Contudo, em situações menos comuns, pode haver comprometimento de órgãos extraperitoneais,
o que dificulta o diagnóstico e o manejo clínico. A hipótese da menstruação retrógrada é a mais
amplamente aceita para explicar sua patogênese, sendo proposta originalmente por Sampson em
1927. No entanto, o caráter multifatorial da endometriose, somado à complexidade de suas
manifestações clínicas, levou ao desenvolvimento de outras teorias explicativas, como a
metaplasia celômica, disseminação linfática ou hematogên ica, além de recentes investigações
que apontam para contribuições imunológicas, genéticas e epigenéticas relevantes.
Do ponto de vista classificatório, a endometriose pode ser dividida em três formas principais:
peritoneal superficial, ovariana (com formação dos chamados endometriomas) e endometriose
infiltrativa profunda, definida por lesões com mais de 5 mm de profundidade. Diversos sistemas
classificatórios foram propostos com o intuito de avaliar a gravidade da doença e orientar
estratégias cirúrgicas ou reprodutivas. Entre eles, destaca -se o sistema da American Society for
Reproductive Medicine (ASRM), que estratifica os casos em estágios I a IV com base em achados
cirúrgicos. Contudo, esse sistema apresenta baixa correlação com a intensidade dos sintomas
dolorosos e com o prognóstico reprodutivo das pacientes. Recentemente, surgiram classificações
mais refinadas, com o a classificação ENZIAN voltada para o planejamento cirúrgico da
endometriose profunda, e a da American Association of Gynecologic Laparoscopists (AAGL),
que busca predizer a complexidade operatória com base na localização e no tamanho das lesões,
o que pode auxiliar na alocação de recursos e na formação de equipes multidisciplinares.
Apesar do avanço nas técnicas diagnósticas e terapêuticas, a endometriose ainda permanece
como uma condição subdiagnosticada e, muitas vezes, tratada de forma tardia ou inadequada. A
variabilidade clínica, a ausência de marcadores laboratoriais específicos e as limitações dos
exames de imagem em detectar formas superficiais dificultam o diagnóstico precoce. No campo
terapêutico, o manejo requer uma abordagem individualizada, baseada na gravidade dos
sintomas, desejo reprodutivo da paciente e extensão anatôm ica da doença, integrando medidas
farmacológicas, cirúrgicas e suporte multidisciplinar.
Diante da complexidade etiopatogênica, das múltiplas apresentações clínicas e dos desafios
diagnósticos e terapêuticos envolvidos, justifica -se a realização de uma revisão crítica da
literatura científica recente. O presente artigo tem como objetivo analisar de forma abrangente e
integrada os principais avanços no entendimento clínico, diagnóstico e terapêutico da
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endometriose, com ênfase nas estratégias atuais de manejo e nas perspectivas futuras para uma
abordagem mais efetiva, individualizada e baseada em evidências.
METODOLOGIA
Foi realizada uma busca sistemática e abrangente em bases de dados eletrônicas reconhecidas
internacionalmente, incluindo PubMed, Scopus e Web of Science, com o intuito de garantir a
ampla cobertura das publicações relevantes até o ano de 2025.
A estratégia de busca envolveu a combinação de descritores e termos específicos relacionados
ao tema, como “endometriose”, “diagnóstico”, “tratamento”, “manejo clínico”, e “etiologia”,
associados por operadores booleanos (AND, OR) para refinar os resultado s e assegurar maior
especificidade. Por exemplo, foram aplicadas buscas utilizando a expressão: (“endometriosis”
OR “endometriose”) AND (“diagnosis” OR “diagnóstico”) AND (“therapy” OR “tratamento”)
para incluir estudos que abordassem os aspectos clínicos, diagnósticos e terapêuticos da doença.
Além disso, filtros de idioma (artigos em inglês, português e espanhol) e tipo de publicação
(artigos originais, revisões sistemáticas e meta -análises) foram aplicados para manter a
relevância e qualidade dos dados selecionados.
Foram adotados critérios rigorosos de inclusão e exclusão para garantir a pertinência das
evidências analisadas. Foram incluídos estudos que tratassem da epidemiologia, fisiopatologia,
diagnóstico e manejo terapêutico da endometriose em populações feminina s em idade
reprodutiva, com ênfase em publicações dos últimos dez anos, a fim de refletir os avanços
recentes no campo. Excluíram -se artigos com escopo divergente, relatos de casos isolados,
publicações sem acesso ao texto completo, e aqueles que não apresentassem rigor metodológico
suficiente, conforme avaliação preliminar durante a triagem.
O processo de seleção seguiu uma abordagem em etapas, iniciando pela triagem dos títulos e
resumos identificados, realizada de forma independente por dois revisores experientes. Estudos
que apresentaram pertinência temática foram então submetidos à leitura integral para análise
detalhada dos conteúdos, garantindo a consistência e a abrangência das informações incluídas na
revisão. Eventuais divergências entre revisores foram resolvidas por consenso ou mediante
consulta a um terceiro avaliador.
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Para a extração e organização dos dados, utilizou -se uma ficha padronizada contemplando
informações essenciais como características metodológicas dos estudos, população amostrada,
principais achados sobre diagnóstico e terapias, bem como lacunas identificadas na literatura. A
análise qualitativa dos dados foi conduzida mediante síntese temática, favorecendo uma visão
integrada e crítica das evidências disponíveis, em consonância com a diversidade metodológica
e multidisciplinar observada nas publicações revisadas.
Embora a revisão não tenha se caracterizado como sistemática estrita, houve preocupação em
contemplar estudos de alta qualidade e relevância clínica, em especial aqueles que oferecem
diretrizes atualizadas, como as recomendações da ESHRE e outras entidades científicas
renomadas. Ademais, procurou-se abordar as múltiplas dimensões da doença — desde aspectos
moleculares e etiológicos até intervenções farmacológicas, cirúrgicas e suporte multidisciplinar
— refletindo o caráter complexo e multifatorial da endometriose.
Assim, esta metodologia permitiu a construção de uma análise crítica fundamentada em
evidências atuais e diversificadas, contribuindo para um melhor entendimento dos avanços
diagnósticos e terapêuticos na endometriose, com vistas a subsidiar práticas clíni cas mais
eficazes e integradas.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A determinação precisa da prevalência da endometriose permanece um desafio, sobretudo pelo
fato de seu diagnóstico definitivo ainda depender da confirmação cirúrgica, comumente realizada
por laparoscopia. Essa limitação metodológica compromete a acurácia d os dados
epidemiológicos disponíveis, uma vez que casos subclínicos ou assintomáticos tendem a
permanecer subdiagnosticados. Apesar disso, estimativas atuais sugerem que aproximadamente
10% das mulheres em idade reprodutiva são acometidas pela doença, o qu e representa um
impacto expressivo na saúde pública feminina.
Quando a análise é direcionada a subgrupos específicos, como mulheres que apresentam dor
pélvica crônica, os índices de prevalência sobem consideravelmente, podendo atingir até 70%,
de acordo com estudos observacionais e dados clínicos acumulados. Este dad o reforça a
correlação entre sintomas álgicos persistentes e a presença de focos endometrióticos, sugerindo
que a endometriose deve ser considerada como diagnóstico diferencial prioritário nesse perfil de
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pacientes. Da mesma forma, em mulheres com infertilidade, algumas séries de casos apontam
que mais de 50% podem apresentar endometriose como fator contribuinte ou determinante, o que
evidencia a forte associação entre a doença e a disfunção reprodutiva.
Essas estimativas, embora limitadas por vieses diagnósticos e pela heterogeneidade dos estudos,
convergem para o entendimento de que a endometriose apresenta alta prevalência entre
populações sintomáticas específicas. Isso ressalta a importância de estratégias diagnósticas mais
acessíveis e precoces, especialmente em contextos clínicos com manifestações sugestivas, como
dor pélvica cíclica ou infertilidade inexplicada. Além disso, os dados disponíveis reforçam a
necessidade de maior vigilância clínica e inv estigação sistemática em pacientes de risco, a fim
de reduzir o subdiagnóstico e possibilitar intervenções terapêuticas mais oportunas e eficazes.
Abordagens Diagnósticas na Endometriose: Limitações, Recursos e Perspectivas Clínicas
O diagnóstico da endometriose permanece um desafio clínico significativo, especialmente devido
à ausência de um biomarcador específico e à apresentação clínica heterogênea da doença. A
suspeita diagnóstica deve ser considerada sempre que houver relato de sintomas clássicos como
dismenorreia refratária e progressiva, dispareunia profunda e dor pélvica acíclica, principalmente
quando estes se manifestam de forma associada. Em pacientes inférteis, uma anamnese detalhada
e uma propedêutica direcionada são funda mentais para investigar a possível associação com
endometriose, dada sua elevada prevalência nesse grupo. Além disso, sintomas como disquesia
e hematúria podem indicar comprometimento intestinal ou urinário, respectivamente, reforçando
a importância de con siderar o acometimento extragenital na avaliação diagnóstica. Importa
ressaltar que uma parcela significativa das pacientes pode permanecer assintomática, sendo o
diagnóstico feito incidentalmente durante procedimentos cirúrgicos ou exames de imagem
solicitados por outras razões.
O exame físico ginecológico continua sendo uma etapa essencial na abordagem inicial, incluindo
o exame especular e o toque vaginal bimanual, que podem revelar nódulos visíveis ou palpáveis,
presença de massa anexial sugerindo endometrioma ovariano, ou aind a redução da mobilidade
uterina. No entanto, a ausência de alterações ao exame físico não exclui a presença de formas
menos evidentes da doença, como a endometriose peritoneal superficial. Até o momento, não há
biomarcadores séricos com sensibilidade e esp ecificidade adequadas para serem recomendados
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na prática clínica, o que torna os métodos de imagem e, em última instância, a cirurgia, pilares
do processo diagnóstico.
A ultrassonografia transvaginal é considerada o exame de imagem de primeira linha,
apresentando desempenho satisfatório na detecção de endometriose ovariana e profunda,
especialmente quando realizada por profissionais experientes e com treinamento específi co, de
preferência seguindo os critérios do grupo International Deep Endometriosis Analysis (IDEA).
Já a ressonância magnética pélvica tem papel complementar relevante, sobretudo em casos de
suspeita de lesões multifocais ou extrapélvicas, em apresentações atípicas, ou quando a
ultrassonografia não for conclusiva. Também é indicada em pacientes virgens, em que o exame
transvaginal não pode ser realizado.
Apesar dos avanços tecnológicos, as técnicas de imagem atuais ainda apresentam limitações
importantes, sobretudo na detecção da endometriose peritoneal superficial, que continua
dependendo da visualização direta por videolaparoscopia, considerada o padrão ouro
diagnóstico, especialmente quando associada à confirmação histopatológica. No entanto, a
indicação cirúrgica deve ser individualizada, levando em conta o quadro clínico, o impacto
sintomatológico e os riscos do procedimento, sendo desestimulada a real ização de laparoscopia
puramente diagnóstica na ausência de indicação terapêutica concomitante.
O diagnóstico diferencial é igualmente relevante e deve contemplar outras condições que cursam
com dor pélvica cíclica em mulheres em idade reprodutiva. Entre elas, destacam -se patologias
ginecológicas benignas como os leiomiomas uterinos, a adenomiose – frequentemente
coexistente com endometriose – e síndromes dolorosas crônicas como fibromialgia, migrânea
abdominal, síndrome da bexiga dolorosa e síndrome do intestino irritável. Esses quadros podem
apresentar exacerbamentos cíclicos e dificultar a delimita ção diagnóstica. Em pacientes com
idade mais avançada ou que apresentem sintomas atípicos, a investigação para neoplasias torna-
se imprescindível, reforçando a necessidade de uma abordagem ampla, individualizada e
multidisciplinar no processo diagnóstico da endometriose.
Abordagens Terapêuticas na Endometriose: Estratégias Clínicas, Farmacológicas e
Considerações Multidisciplinares
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O manejo da endometriose deve ser orientado com base nos sintomas clínicos predominantes, e
não necessariamente condicionado à confirmação cirúrgica ou por imagem. Evidências
acumuladas indicam que o início precoce do tratamento, mesmo de forma empírica, p ode
promover alívio sintomático significativo e melhorar a qualidade de vida das pacientes,
principalmente em contextos em que há manifestação clínica sugestiva. Essa abordagem é
respaldada pelo entendimento atual de que não existe, até o momento, uma tera pia curativa ou
que previna de maneira eficaz a progressão da doença. Assim, o foco terapêutico permanece
centrado no controle dos sintomas, com especial atenção à dor e à infertilidade, considerando a
individualidade clínica de cada paciente e a necessidade de ajustes nas expectativas terapêuticas.
O tratamento medicamentoso é amplamente utilizado, com a dor representando um dos principais
alvos clínicos. Analgésicos simples, como dipirona e paracetamol, oferecem alívio satisfatório
em casos leves, enquanto os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) podem ser indicados para
manejo de sintomas cíclicos mais intensos e de curta duração. No entanto, deve -se ter cautela
quanto ao uso prolongado desses fármacos, devido ao potencial de efeitos adversos, sendo os
opioides fortemente desaconselhados para u so contínuo, dada sua associação com dependência
e tolerância.
A base farmacológica do tratamento da endometriose reside na terapia hormonal, reconhecida
por sua eficácia na modulação da dor pélvica e outros sintomas relacionados. Os contraceptivos
hormonais combinados e os progestagênios isolados constituem opções terapêuticas de primeira
linha, cuja escolha deve considerar fatores como tolerabilidade, custo, acesso e os critérios
médicos de elegibilidade definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O uso contínuo
desses agentes é particularmente benéfico em cas os de dismenorreia acentuada. Dispositivos
intrauterinos (DIU) com levonorgestrel, implantes de etonogestrel e outras formas hormonais
também têm demonstrado impacto positivo sobre os sintomas álgicos, embora seu efeito na
supressão ovulatória seja limitado, especialmente nas pacientes com endometriomas ovarianos,
o que leva parte da literatura a desencorajar seu uso nessas circunstâncias. Contudo, não há
evidência conclusiva que demonstre superioridade clara de uma formulação hormonal sobre
outra em termos de eficácia clínica.
Os análogos do hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH) representam uma opção
terapêutica eficaz para o controle da dor pélvica cíclica e acíclica, bem como da dispareunia, ao
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promoverem um estado de hipoestrogenismo por meio da supressão do eixo hipotálamo-hipófise-
ovariano. Apesar disso, o perfil de efeitos adversos desses agentes – incluindo sintomas
vasomotores intensos, secura vaginal e perda de densidade mineral óssea – limita sua
aplicabilidade clínica de forma rotineira. Por esse motivo, os análogos de GnRH são geralmente
reservados como terapias de segunda linha, indicados apenas em casos selecionados. Os
antagonistas de GnRH, embora compartilhem um mecanismo de ação sem elhante, apresentam
igualmente limitações relacionadas à tolerabilidade e alto custo, restringindo seu uso em larga
escala.
Para além das abordagens hormonais, o tratamento da endometriose pode envolver medicações
moduladoras de dor, especialmente em pacientes com sensibilização central e periférica.
Antidepressivos tricíclicos, inibidores seletivos de recaptação de serotonina e noradrenalina, bem
como determinados anticonvulsivantes, têm sido utilizados com o objetivo de modular circuitos
neuronais relacionados à dor crônica, embora as evidências clínicas para seu uso específico na
endometriose ainda sejam limitadas.
As estratégias não farmacológicas, embora careçam de comprovação robusta em ensaios clínicos
randomizados, são frequentemente integradas ao plano terapêutico multidisciplinar. Atividade
física regular, reeducação alimentar, fisioterapia pélvica e intervenç ões psicoterapêuticas têm
sido recomendadas como medidas complementares que visam não apenas o alívio sintomático,
mas também a promoção de bem -estar geral em mulheres que convivem com uma condição
crônica e dolorosa. Tais abordagens, quando incorporadas d e forma personalizada e contínua,
têm o potencial de reduzir o impacto funcional da doença e melhorar a qualidade de vida das
pacientes.
O tratamento da endometriose deve ser pautado por uma abordagem centrada na paciente,
orientada por seus sintomas predominantes e baseada em uma combinação racional entre terapias
farmacológicas e suporte multidisciplinar. A ausência de cura definitiva reforça a importância de
um modelo de cuidado contínuo, personalizado e integrativo.
Intervenção Cirúrgica na Endometriose: Indicações, Estratégias e Impactos Clínicos
A abordagem cirúrgica na endometriose desempenha um papel relevante, especialmente em
casos selecionados, nos quais a sintomatologia persiste apesar do manejo clínico adequado.
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Evidências robustas demonstram que a excisão completa das lesões endometrióticas está
associada à melhora significativa da dor e da qualidade de vida das pacientes, sobretudo quando
realizada de forma criteriosa e por equipe especializada. A estratégia cirúrgica deve ser orientada
por um princípio de equilíbrio entre agressividade terapêutica e preservação funcional, uma vez
que se trata de uma patologia benigna que acomete predominantemente mulheres em idade
reprodutiva. Nesse contexto, torna -se imperativo adotar uma postura cirúrgica que busque
máxima erradicação das lesões em um único tempo operatório, preservando, sempre que
possível, a integridade anatômica e funcional do sistema reprodutor.
A principal indicação cirúrgica consiste na dor pélvica refratária ao tratamento hormonal ou
clínico convencional, configurando-se como uma alternativa para pacientes que não obtiveram
resposta satisfatória às medidas farmacológicas. Além disso, outras ind icações específicas
incluem o acometimento de estruturas vitais, como o ureter ou o apêndice, a presença de lesões
intestinais com repercussões suboclusivas, e a identificação de endometriomas volumosos ou
situados em topografias que levantem suspeita de m alignidade. Nessas situações, a intervenção
cirúrgica visa tanto o alívio sintomático quanto a exclusão de diagnósticos diferenciais de maior
gravidade.
O padrão recomendado para a realização do procedimento é a via minimamente invasiva,
preferencialmente a laparoscopia, devido aos seus benefícios já bem documentados, como menor
morbidade, recuperação mais rápida e visualização ampliada das estruturas pélvicas. A execução
da cirurgia por equipe multidisciplinar com expertise em endometriose é fundamental para o
sucesso do procedimento, considerando a complexidade anatômica das lesões profundas e a
necessidade frequente de ressecções em múltiplos compartimentos pélvicos ou abdominais.
No pós-operatório, é fortemente indicado o uso contínuo de tratamento hormonal em pacientes
que não apresentam desejo gestacional imediato, com o objetivo de reduzir o risco de recorrência
das lesões e da dor associada. Tal conduta encontra respaldo na lit eratura, que aponta menores
taxas de recidiva sintomática em pacientes que mantêm o bloqueio hormonal após a intervenção
cirúrgica. Portanto, a cirurgia deve ser entendida como parte de uma estratégia terapêutica
abrangente, integrada a um plano de cuidado contínuo e individualizado, e não como solução
definitiva ou isolada. Essa perspectiva reforça a importância da integração entre terapias clínicas
e cirúrgicas no manejo da endometriose, especialmente em casos moderados a graves.
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Manejo da Infertilidade Associada à Endometriose: Desafios e Diretrizes Clínicas
A infertilidade é uma das manifestações mais relevantes e complexas associadas à endometriose,
exigindo uma abordagem individualizada e baseada em critérios prognósticos bem definidos.
Evidências científicas indicam que não existem tratamentos clínicos cap azes de melhorar
diretamente a fertilidade em mulheres com endometriose. Dessa forma, o uso isolado de terapias
hormonais ou analgésicas com essa finalidade não é recomendado, pois pode acarretar atraso no
encaminhamento para intervenções mais eficazes, especialmente considerando que o prognóstico
reprodutivo é fortemente influenciado pela idade da paciente. Essa perspectiva reforça a
importância de uma avaliação reprodutiva precoce e objetiva nos casos de infertilidade associada
à endometriose.
Na prática clínica, a tomada de decisão quanto à melhor estratégia terapêutica deve considerar
múltiplos fatores, incluindo a idade da mulher, o tempo de infertilidade, a integridade da função
tubária e a presença ou não de fatores masculinos associados. A partir dessa análise, pode -se
determinar a indicação de técnicas de reprodução assistida, como a fertilização in vitro (FIV),
que se mostram eficazes especialmente em casos moderados a graves ou na falha de concepção
espontânea após abordagem inicial. Uma ferramenta frequentemente utilizada para estimar a
probabilidade de gestação espontânea em mulheres com endometriose é o Endometriosis Fertility
Index (EFI), que permite uma avaliação prognóstica objetiva com base em achados cirúrgicos e
histórico reprodutivo da paciente.
Embora o papel da cirurgia na restauração da fertilidade natural seja motivo de controvérsia, há
evidências que sustentam seu benefício em contextos selecionados, sobretudo em mulheres
jovens com endometriose mínima ou leve, associada a dor pélvica. Nesses casos, a excisão
cirúrgica das lesões pode contribuir para a restauração da anatomia pélvica e para a melhora do
ambiente peritoneal, favorecendo a concepção espontânea. No entanto, essa conduta deve ser
cuidadosamente avaliada, considerando os riscos cir úrgicos e o tempo necessário para
recuperação, que pode impactar negativamente o potencial reprodutivo em pacientes com idade
mais avançada.
Além das dificuldades na concepção, a literatura aponta uma associação crescente entre a
endometriose e desfechos obstétricos adversos. Estudos sugerem que gestantes com histórico de
endometriose apresentam maior risco de complicações como aborto espontâne o, parto
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prematuro, hipertensão gestacional, placenta prévia e maior incidência de parto cesariano. Apesar
dessas associações, não há consenso para categorizá -las como gestantes de alto risco, mas sim
como um grupo que requer vigilância obstétrica mais cuidadosa e monitoramento individualizado
ao longo do pré-natal.
O manejo da infertilidade relacionada à endometriose exige uma abordagem integrada, com foco
tanto na preservação da função reprodutiva quanto na adoção de estratégias eficazes e oportunas.
A adequada avaliação do perfil clínico da paciente e a identificaç ão precoce de fatores de risco
são essenciais para guiar intervenções assertivas, evitando o uso ineficaz de terapias clínicas e
maximizando as chances de sucesso gestacional.
Estratégias de Seguimento na Endometriose: Considerações Clínicas e Perspectivas de
Monitoramento
O seguimento clínico das pacientes com diagnóstico de endometriose, especialmente nas formas
ovariana e profunda, constitui uma etapa essencial no manejo a longo prazo da doença,
considerando sua natureza crônica, recorrente e impactante na qualidade de vi da. Embora a
literatura reconheça a importância do acompanhamento periódico, não há consenso quanto à
frequência ideal para a realização de exames de imagem, o que reforça a necessidade de uma
abordagem individualizada baseada no perfil clínico da paciente, nos sintomas persistentes e nas
características morfológicas das lesões previamente identificadas.
Nas pacientes assintomáticas ou com controle adequado da dor por meio do tratamento clínico,
o seguimento pode ser realizado com base em avaliações clínicas regulares, centradas na
monitorização dos sintomas e na resposta terapêutica. Em contrapartida, em casos de
endometriose profunda ou presença de endometriomas, particularmente aqueles de maior volume
ou com comportamento atípico, a reavaliação por imagem pode ser indicada com maior
frequência, visando identificar sinais de progressão, complicações assoc iadas ou suspeita de
transformação maligna, embora esta seja rara.
A escolha do método de imagem deve considerar a acurácia diagnóstica conforme o tipo e a
localização da lesão, sendo a ultrassonografia transvaginal e a ressonância magnética os
principais recursos empregados no monitoramento da endometriose. No entanto, a indicação
desses exames deve ser sempre pautada por critérios clínicos bem estabelecidos, evitando a
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realização indiscriminada de exames que não necessariamente contribuem para mudanças na
conduta terapêutica. Dessa forma, a conduta ideal no seguimento de pacientes com endometriose
deve equilibrar vigilância adequada e racionalidade na utilização de recur sos diagnósticos, com
o objetivo de garantir um cuidado continuado, centrado na paciente e baseado em evidências.
CONCLUSÃO
A endometriose configura -se como uma condição clínica complexa, multifatorial e de alta
prevalência, especialmente entre mulheres em idade reprodutiva, cuja magnitude ainda é
subestimada devido às limitações diagnósticas e ao subdiagnóstico frequente. Os d ados
evidenciam que a doença representa um desafio significativo para a saúde pública, impactando
diretamente a qualidade de vida das pacientes, principalmente em decorrência da dor crônica e
da infertilidade associadas. Este cenário reforça a necessidade urgente de estratégias diagnósticas
precoces, acuradas e acessíveis, capazes de reduzir o atraso no reconhecimento da doença e
possibilitar intervenções terapêuticas oportunas e individualizadas.
No âmbito diagnóstico, a ausência de biomarcadores específicos e a heterogeneidade clínica
dificultam a padronização da abordagem, fazendo com que o diagnóstico definitivo ainda
dependa, em grande parte, da visualização cirúrgica e confirmação histopatológ ica. Embora os
avanços nas técnicas de imagem, como a ultrassonografia transvaginal e a ressonância magnética,
tenham aprimorado a detecção da endometriose ovariana e profunda, limitações persistem na
identificação de lesões superficiais e na avaliação glo bal da extensão da doença. Assim, a
integração de recursos clínicos, laboratoriais e imagiológicos, aliada à expertise multidisciplinar,
mostra-se fundamental para otimizar o manejo diagnóstico.
Em relação às terapias, destaca -se que o tratamento da endometriose deve ser orientado
prioritariamente pelos sintomas e necessidades da paciente, com o reconhecimento de que, até o
momento, não existe uma cura definitiva ou uma intervenção capaz de impedi r a progressão da
doença. As abordagens farmacológicas, centradas na modulação hormonal e no controle da dor,
demonstram eficácia na melhora dos sintomas, porém, a individualização do tratamento é
imprescindível para maximizar resultados e minimizar efeito s adversos. Além disso, a cirurgia,
especialmente via laparoscópica, permanece indicada para casos refratários ao manejo clínico ou
com comprometimento anatômico significativo, devendo ser realizada por equipes
especializadas e integrada a um plano terapêutico abrangente e contínuo.
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A infertilidade associada à endometriose constitui um desafio adicional, que demanda avaliação
cuidadosa e estratégias personalizadas, incluindo o uso criterioso de técnicas de reprodução
assistida e, em alguns casos selecionados, intervenção cirúrgica par a otimizar o potencial
reprodutivo. A complexidade dessa manifestação clínica reforça a importância de um
acompanhamento multidisciplinar e uma abordagem holística da paciente, contemplando não
apenas os aspectos reprodutivos, mas também o impacto psicossocial da doença.
Finalmente, o seguimento longitudinal das pacientes com endometriose é essencial para garantir
a eficácia e a segurança das intervenções, bem como para monitorar possíveis recidivas e
complicações. A ausência de diretrizes uniformes sobre a periodicidade e métodos de
acompanhamento evidencia a necessidade de estudos futuros que possam definir protocolos mais
precisos e baseados em evidências. O manejo da endometriose deve, portanto, ser sustentado por
um modelo de cuidado contínuo, centrado na paciente, que reconheça a natureza crônica da
doença e promova uma abordagem multidimensional, integrando avanços diagnósticos e
terapêuticos em prol da melhora da qualidade de vida e do bem-estar das mulheres acometidas.
Em síntese, o presente trabalho ressalta que o avanço no entendimento das múltiplas dimensões
da endometriose e a consolidação de estratégias diagnósticas e terapêuticas integradas são
fundamentais para transformar o panorama atual, reduzindo o atraso diagnóstico, aprimorando o
manejo clínico e promovendo cuidados personalizados e eficazes. A continuidade da pesquisa e
o investimento em educação médica e conscientização da população são imperativos para
enfrentar os desafios impostos por essa doença de impacto tão significativo.
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