Arteries/physiopathology
Schistosoma mansoni
Ultrasonography, doppler, color/methods
Menstrual cycle
Luteal phase/ physiology
Regional blood flow
Corpus luteum
Vascular resistance
Correspondência:
Flávio Nunes Sivini
Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas
da Universidade de Pernambuco
Avenida Boa Viagem, 5.600/302 – Boa Viagem
CEP 51030-000 – Recife (PE), Brasil
Fone: (81) 9972-3567
E-mail:
[email protected]
Recebido
13/5/09
Aceito com modificações
24/8/09
428 Rev Bras Ginecol Obstet. 2009; 31(9):427-32
Sivini FN, Brandt CT , Belo Filho D
Introdução
Desde os primórdios da civilização, a espécie huma-
na convive com a infecção pelo trematódeo Schistosoma
mansoni, agente causal da esquistossomose1. Apesar de sua
atual baixa morbidade no Brasil, essa parasitose continua
a constituir importante problema de saúde pública, tendo
em vista seu potencial de expansão. Observa-se a amplia-
ção de sua área de transmissão com o surgimento de focos
de esquistossomose em áreas antes consideradas indenes.
Nos últimos anos, tem sido relatada a urbanização da
doença, com surgimento de casos autóctones nas regiões
periurbanas das grandes cidades brasileiras1-4.
A esquistossomose mansônica tem sido mais
conhecida por meio de suas repercussões em vísceras
relacionadas direta ou indiretamente ao sistema venoso
portal; porém, lesões induzidas pelos ovos no aparelho
reprodutivo feminino são importantes complicações
da infecção pelo Schistosoma mansoni 5. As manifestações
genitais têm sido negligenciadas como uma entidade
patológica. No entanto, estima-se que 6 a 27% das
meninas e mulheres com esquistossomose intestinal,
pelo menos temporariamente, sofram de doença induzida
pelos ovos sequestrados em algum lugar nos seus órgãos
genitais5. Nos casos graves, observa-se infertilidade,
abortamento, restrição do crescimento intrauterino e
prematuridade 6-8.
Uma das consequências hemodinâmicas da hiperten-
são porta, devido à fibrose periportal esquistossomótica,
consiste no aparecimento do fluxo reverso ou hepatofugal,
levando à recanalização de veias e desvios porto-sistêmicos
entre as tributárias do sistema porta e a circulação veno-
sa sistêmica. Entre essas comunicações, são destacadas
aquelas com a veia renal e a veia cava inferior, fazendo
com que ocorra um aumento da resistência à drenagem
venosa das veias gonadais para as veias renal esquerda
e cava inferior 9-11. A varicocele ovariana pode acarretar
alterações funcionais das trompas e das funções endócrina
e exócrina ovarianas11.
A congestão e, consequentemente, a estase venosa do
plexo pampiniforme, pode provocar alteração da secreção
ovariana12. Se a reação granulomatosa se desenvolve próxima
ao hilo ovariano, a obstrução hilar e aderências paraova-
rianas podem ser responsáveis pela anovulação13.
Ovos, larvas ou depósitos de imunocomplexos antí-
geno-anticorpo do Schistosoma podem ser encontrados em
praticamente qualquer órgão ou tecido do organismo 14.
Localizações incomuns são encontradas frequentemente
na forma hepatoesplênica desta parasitose14.
A redução do fluxo das artérias uterinas e ovarianas
pode estar associada à infertilidade. Índices de resistên -
cia significativamente mais baixos foram observados nas
artérias uterinas, ovarianas, arcuadas, radiais e espirais
na fase média luteal do ciclo menstrual em pacientes que
ovulam15-20. Em ciclos menstruais ovulatórios normais,
os índices de resistência e pulsatilidade arterial ovariano
são significantemente mais baixos na fase lútea, quando
comparados à fase folicular20,21. O estudo da resistência ao
fluxo sanguíneo arterial no corpo lúteo auxilia, inclusive,
na avaliação de sua adequabilidade funcional22.
A inexistência de estudos a respeito de prováveis
repercussões hemodinâmicas nos ovários e no útero de
portadoras de esquistossomose mansônica na forma he -
patoesplênica, na fase lútea do ciclo menstrual, motivou
a presente pesquisa.
Métodos
Foi realizado um estudo observacional, prospectivo
e analítico, com corte transversal, no período de Maio de
2005 a Agosto de 2008, no Hospital das Clínicas (HC)
do Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE).
O protocolo usado nesse estudo foi aprovado pelo
Comitê de ética do Centro Integrado de Saúde Amaury de
Medeiros (CISAM) da Universidade de Pernambuco (UPE).
Os sujeitos do estudo foram informados, em linguagem
simples e acessível, de que estariam participando de uma
pesquisa clínica, e assinaram o termo de consentimento
livre e esclarecido.
As pacientes portadoras de esquistossomose hepato-
esplênica (EHE) tinham o diagnóstico firmado através de
acompanhamento no ambulatório de Gastroenterologia do
Hospital das Clínicas, com exames de fezes, avaliação da
função hepática e ultrassonografia abdominal (constatando
a presença de fibrose de Symmers). Todas procediam de
área endêmica, com histórico familiar sugestivo também
com a doença. O Grupo Controle era proveniente da
mesma área endêmica e foi submetido a exame clínico e
ultrassonográfico para afastar o comprometimento hepático
característico da EHE.
Oitenta e cinco mulheres foram incluídas e submeti-
das a um questionário dirigido (anamnese) no qual foram
abordados aspectos pertinentes relacionados à doença (es-
quistossomose) e fatores reprodutivos. Foram divididas em
três grupos: 28 pacientes portadoras de esquistossomose,
na forma hepatoesplênica, tratadas clinicamente e subme-
tidas à descompressão do sistema porta (esplenectomia e
ligadura da veia gástrica esquerda - EHEO); 28 pacientes
esquistossomóticas, na forma hepatoesplênica, tratadas
clinicamente, mas não operadas (EHENO); 29 mulheres
não esquistossomóticas (voluntárias sadias) oriundas da
mesma zona endêmica e de condição socioeconômica
semelhante (VS).
Todos os grupos demonstraram interesse em inves -
tigar a possibilidade da existência de ciclos menstruais
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Índices de resistência nas artérias ovariana e uterina na fase lútea média em portadoras de esquistossomose mansônica na sua forma hepatoesplênica
ovulatórios (mantendo, dessa forma, sua capacidade
reprodutora em relação à função hormonal ovariana).
Foram excluídas as pacientes que estavam fora do pe -
ríodo reprodutivo (menacme); mulheres que haviam
feito uso de anticoncepcionais hormonais nos últimos
três meses; as que tinham história de esterilidade e
irregularidade do ciclo menstrual (intervalos maiores
ou menores que 26-30 dias); aquelas com antecedentes
de doenças sistêmicas (hipertensão arterial, diabetes
mellitus , acidente vascular cerebral, cardiopatias etc.)
ou ginecológicas. Foi excluída uma paciente no grupo
das operadas cuja ultrassonografia constatou a presença
de mioma.
A doplervelocimetria foi realizada pelo mesmo exa-
minador, na fase lútea média do ciclo menstrual. Foram
determinados os índices de resistência das artérias uterinas,
ovarianas e na periferia do corpo lúteo (quando presen -
te). Como referência, foi usado o índice de resistência de
Pourcelot RI=[(S–D)/S]. O tipo de endométrio também
foi avaliado pelo método (secretor ou proliferativo). Foi
utilizado o aparelho GE, modelo Voluson 730, com
transdutor de banda larga multifrequencial com variação
de 5 a 9 MHz.
A ultrassonografia transvaginal foi realizada com a
bexiga vazia, para que os órgãos pélvicos ficassem na zona
focal do transdutor e para se evitar o efeito da distensão
vesical sobre as artérias uterinas. O exame foi realizado com
a paciente em posição supina, joelhos fletidos e quadris
ligeiramente elevados.
Foi colocado um preservativo com gel no transdutor
antes de inseri-lo na vagina, protegendo, desse modo, a
paciente e o transdutor. Foram obtidos cortes longitudinais,
oblíquos e transversais dos órgãos pélvicos. Escolhia-se o
melhor traçado em nível do ramo ascendente da artéria
uterina e, em relação aos ovários, a artéria ovariana, quando
acessível, ou a artéria intraovárica. Quando da existência
de corpo lúteo, o IR arterial era medido na periferia do
mesmo. Dependendo da direção do fluxo em relação ao
transdutor, as cores do Doppler poderiam ser arbitrariamente
escolhidas. Neste estudo, foi convencionado que o fluxo
em direção ao transdutor teria cor vermelha (arterial) e,
ao se afastar, a cor seria azul (venoso). Nas artérias, havia
modificação das velocidades sanguíneas durante o ciclo
cardíaco, com velocidades maiores na sístole do que na
diástole; nas veias, o fluxo era contínuo.
Para análise estatística, foi utilizado o software
Graphpad instat 3.06. Os dados quantitativos foram
resumidos por suas médias e desvios padrão. Foi usado
o teste de Kruskal-Wallis para avaliação de possíveis
diferenças entre médias de variáveis contínuas nos três
grupos estudados, e o teste Mann-Whitney na avaliação
entre dois grupos. Foi adotado o intervalo de confian -
ça de 95%, e valores de p ≤0,05 foram considerados
significantes.
Resultados
Os índices de resistência em conjunto, nas artérias
ovariana direita (AOD) e esquerda (AOE), variaram
respectivamente entre: 0,3-1,0 no grupo de pacientes
não operadas; 0,3-1,0 no grupo de pacientes operadas; e
0,4-1,0 no Grupo Controle. Não houve diferença signi-
ficativa entre os grupos em relação às médias dos índices
de resistência das artérias ovariana direita e esquerda
(Kruskal-Wallis-p=0,5) (Tabela 1).
Os índices de resistência nas artérias uterinas direita
(AUD) e esquerda (AUE) variaram, respectivamente, entre:
0,4-1,0, e 0,7-1,0 no grupo de pacientes não operadas; 0,6-
1,0, e 0,5-1,0 no grupo de pacientes operadas; e 0,7-1,0,
e 0,7-1,0 no Grupo Controle. Não foi observada diferença
significativa entre as médias dos índices de resistência das
artérias uterinas direita e esquerda (Kruskal-Wallis - p<0,07
e p=0,14). Apenas uma tendência foi verificada em relação
aos índices entre o grupo de EHEO e EHENO nas artérias
uterinas ao lado direito (Tabela 2).
Os índices de resistência nas artérias ovarianas na
periferia do corpo lúteo e nos ovários contralaterais varia-
ram, respectivamente, entre: 0,3-0,6, e 0,5-1,0 no grupo
de pacientes não operadas; 0,3-0,4, e 0,5-1,0 no grupo
de pacientes operadas; e 0,4-0,4, e 0,4-1,0 no Grupo
Controle. As médias dos índices de resistência arterial
foram significantemente mais baixas nas artérias na peri-
feria do corpo lúteo do que nos ovários contralaterais em
todos os grupos (Mann-Whitney-p<0,0001) (Tabela 3).
Tabela 1 - Médias e medianas dos índices de resistência das artérias ovariana direita e esquerda
Grupo n ± DP Mediana Mínimo Máximo Valor de p
AO 0,50
EHEO 28 0,56±0,17 0,52 0,35 1,0
EHENO 28 0,52±0,10 0,51 0,35 1,0
VS 29 0,57±0,17 0,52 0,41 1,0
Total 85
: média; DP: desvio padrão; AO: artérias ovarianas.
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Sivini FN, Brandt CT , Belo Filho D
Discussão
Nos ovários de mulheres sadias, com ciclos mens -
truais normais, os índices de resistência arterial são sig-
nificativamente mais baixos no ovário em que ocorre a
ovulação, fenômeno compatível com o aumento do fluxo
sanguíneo17,18,23-27.
Observação semelhante ocorreu no estudo atual, tanto
em relação às portadoras de esquistossomose mansônica
na forma hepatoesplênica, operadas ou não, quanto en -
tre mulheres que constituíram o Grupo Controle (sem
a doença). De fato, ao se comparar as médias dos índices
de resistência arterial nos ovários onde ocorreu a ovula -
ção (periferia do corpo lúteo) com as médias dos índices
de resistência nas artérias dos ovários contralaterais, foi
observada, em concordância com outros autores17,18,23-27,
diferença significativa em todos os grupos.
A diminuição nos índices de resistência arterial é
determinada pela neovascularização formada ao redor
do folículo dominante e, subsequentemente do corpo
lúteo, e pela vasodilatação induzida pelo estradiol nas
artérias ovarianas28. A hipertensão porta em portadoras de
esquistossomose hepatoesplênica não parece impedir que
os novos capilares desenvolvidos ao redor do folículo em
crescimento, e no corpo lúteo formado posteriormente,
diminuam a impedância ao fluxo nos ovários na fase foli-
cular tardia e lútea media23,28. Por outro lado, estudando
os índices arteriais ovarianos como um todo, não foi
observada diferença estatística entre os grupos.
Vários estudos permitiram conhecer as modificações
na vascularização útero-ovariana com o uso da doplerve-
locimetria17-19,23. O fluxo sanguíneo aumenta significati-
vamente nas artérias uterinas e seus ramos na fase lútea17.
De fato, índices de resistência mais baixos são vistos nas
artérias uterinas de mulheres que ovulam na fase lútea
média15,16,24. Esse declínio na resistência arterial uterina
durante a fase lútea reflete adequada vascularização para
a implantação do blastocisto15,16,24.
Existe referência à diminuição nos índices de resis -
tência na artéria uterina ipsilateral ao lado onde ocorreu
à ovulação25 ou, simplesmente, envolvimento pequeno
(marginal) nas mudanças de impedância durante a fase
lútea do ciclo menstrual26. Entretanto, essa variação nos
índices de resistência das artérias uterinas durante o ciclo
menstrual normal é assunto contraditório, considerando
que a diferença entre esses índices, em relação ao lado
do folículo ovariano dominante, não é observada com
unanimidade24.
No presente estudo, em todos os grupos foram obser-
vados índices de resistência nas artérias uterinas ipsilaterais
menores do que os encontrados nas artérias uterinas con-
tralaterais, porém, sem significância. Foi observado que,
no grupo de operadas, pacientes, portanto, submetidas à
cirurgia descompressiva (esplenectomia e ligadura da veia
cava esquerda), as médias foram mais baixas nas artérias
ipsilaterais (0,77±0,08 versus 0,82±0,07 no grupo de não
operadas), como se o fenômeno da descompressão venosa
pudesse, de alguma maneira, influenciar um fenômeno
Tabela 2 - Médias e medianas dos índices de resistência das artérias uterina direita e esquerda
Grupo n ± DP Mediana Mínimo Máximo Valor de p
AUD 0,07
EHEO 28 0,78±0,07 0,76 0,72 1,0
EHENO 28 0,80±0,10 0,80 0,42 1,0
VS 29 0,80±0,09 0,79 0,70 1,0
Total 85
AUE 0,14
EHEO 28 0,79±0,08 0,80 0,62 1,0
EHENO 28 0,83±0,06 0,83 0,75 1,0
VS 29 0,82±0,08 0,80 0,71 1,0
Total 85
: média; DP: desvio padrão; AUD: artéria uterina direita; QUE: artéria uterina esquerda.
Tabela 3 - Médias e medianas dos índices de resistência arterial na periferia do corpo lúteo e nos ovários contralaterais
Grupo n Ovário com C lúteo
± DP
Mediana Ovário contralateral
± DP
Mediana Valor de p
EHEO 22 0,43±0,03 0,43 (0,35-0,48) 0,60±0,14 0,55 (0,51-1,0) 0,000
EHENO 23 0,44±0,05 0,45 (0,35-0,49) 0,57±0,11 0,53 (0,50-1,0) 0,000
VS 20 0,43±0,02 0,42 (0,40-0,47) 0,67±0,18 0,58 (0,44-1,0) 0,000
Total 65
: média; DP: desvio padrão; C lúteo: corpo lúteo.
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Índices de resistência nas artérias ovariana e uterina na fase lútea média em portadoras de esquistossomose mansônica na sua forma hepatoesplênica
puramente arterial. Por outro lado, também não houve
significância nesta diferença.
Nas pacientes EHENO foi observada a tendência
de que a média dos índices de resistência fosse maior
nas artérias uterinas do lado direito quando comparada
ao grupo de operadas, porém, sem nenhuma relação
com o lado do ovário em que ocorreu a ovulação. As
pacientes não operadas, ou seja, não submetidas à
cirurgia de descompressão, estariam mais sujeitas a
uma maior resistência ao fluxo sanguíneo, mesmo se
tratando de sangue arterial. Por outro lado, o estudo
da resistência vascular nas artérias uterinas não avalia,
necessariamente, apenas os fenômenos envolvidos no
território uterino. Devido ao arco arterial formado pela
anastomose com a artéria ovariana, fenômenos ovarianos,
como desenvolvimento folicular e síntese de esteróides,
também podem influenciar o comportamento do fluxo
nesses vasos.
Este estudo chama a atenção para a importância da
avaliação dos índices de resistência arterial ovarianos na
fase lútea do ciclo menstrual. Índices baixos, traduzindo
fluxo sanguíneo adequado, permitem prever ciclo ovulatório
com possibilidade de uma futura gravidez, se desejada.
A esquistossomose mansônica, na forma hepatoesplênica,
em pacientes operadas ou não, não alterou os índices de
resistência arterial ovariano e uterino na fase lútea do
ciclo menstrual, quando estes foram comparados aos do
Grupo Controle.
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