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Palavras-Chave: Endometriose Torácica; Ginecologia; Medicina.
Capítulo 3
BRUNO HENRIQUE CUNHA BARBOSA¹
JULIANA FERNANDES AREAL CARRIZO2
JONAS RODRIGUES BERNARDO3
GUILHERME MOURA LIMA VERDE4
1. Graduação em Medicina pelo Centro Universitário de Brasília.
2. Discente – Medicina pela Universidade do Oeste Catarinense.
3. Graduação em Medicina pelo Centro Universitário de Patos.
4. Graduação em Medicina pelo Centro Universitário UNINOVAFAPI.
SÍNDROME DA
ENDOMETRIOSE
TORÁCICA
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INTRODUÇÃO
Imagine um cenário onde o tecido endome-
trial, normalmente restrito ao útero, se aventura
além de suas fronteiras habituais. Essa é a rea -
lidade da endometriose torácica (ET), uma con-
dição rara e intrigante. O tecido endometrial ec-
tópico pode surgir na cavidade torácica, inva -
dindo locais como a pleura, o parênquima pul -
monar e até mesmo a árvore traqueobrônquica.
Este fenômeno não é apenas um desvio anatô -
mico, mas um universo de manifestações clíni-
cas, também conhecido por vários nomes: en -
dometriose diafragmática, endometriose extra -
genital ou endometriose broncopulmonar
(AGOSSOU et al., 2023; SOARES et al.,
2021).
As mulheres em idade reprodutiva são as
mais frequentemente atingidas por essa condi -
ção, especialmente aquelas que já convivem
com a endometriose pélvica. Curiosamente, en-
tre 50% a 85% das mulheres diagnosticadas
com a síndrome de endometriose torácica tam-
bém apresentam endometriose pélvica, criando
uma interligação surpreendente entre as regiões
pélvica e torácica (SOARES et al., 2021).
Embora rara, a endometriose torácica não
deve ser subestimada. Suas implicações clíni -
cas são complexas e o impacto na qualidade de
vida das pacientes é profundo, tornando essen -
cial o reconhecimento e a compreensão dessa
condição por parte dos profissionais de saúde e
das próprias pacientes (SOARES et al., 2021).
Fisiopatologia
A endometriose torácica apresenta um
enigma para a medicina devido à sua patogê -
nese multifatorial e ainda não totalmente com -
preendida. Esta condição se manifesta quando
tecido semelhante ao endométrio se instala na
cavidade torácica, incluindo a pleura, o parên -
quima pulmonar e a árvore traqueobrônquica
(CRINER et al., 2021).
A teoria mais conhecida para explicar a pa-
togênese da endometriose é a da menstruação
retrógrada. Segundo essa teoria, células endo -
metriais migram de forma retrógrada através
das trompas de Falópio para a cavidade perito -
neal, onde se implantam nas superfícies perito-
neais. A circulação do fluido peritoneal con -
tendo essas células flui da pelve através da go -
teira paracólica direita para o hemidiafragma
direito. É aqui que as células podem se implan-
tar na superfície do diafragma ou migrar através
dele, utilizando aberturas congênitas ou adqui -
ridas, para alcançar a cavidade pleural. Esta te-
oria é corroborada pela observação de que a en-
dometriose é nove vezes mais provável de ocor-
rer no hemidiafragma direito do que no es -
querdo, devido à obstrução proporcionada pe -
los ligamentos falciformes e frenocólico
(LAMCEVA et al ., 2023; MONNIN et al.,
2023).
Outra teoria proposta é a metaplasia celô -
mica, que sugere que a endometriose surge pela
transformação das células mesoteliais que re -
vestem a pleura e as superfícies peritoneais em
glândulas endometriais e estroma. Este pro -
cesso de metaplasia pode ser influenciado pelo
estrogênio, como evidenciado por estudos que
mostram a presença de endometriose em paci -
entes com síndrome de Mayer -Rokitansky-
Küster-Hauser, que não possuem endométrio
funcional, e em pacientes do sexo masculino
que recebem altas doses de estrogênio. No en-
tanto, essa teoria não explica adequadamente a
endometriose torácica pleural, as lesões bron -
copulmonares ou a predileção pelo lado direito
na maioria dos casos (LAMCEVA et al., 2023;
CRINER et al., 2021).
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A teoria da disseminação linfática e hema -
togênica, ou metástase benigna, propõe que os
implantes endometriais ectópicos resultam da
disseminação de células endometriais através
do sistema linfático ou hematogênico. Esta teo-
ria pode explicar a presença de lesões endome-
triais broncopulmonares, que geralmente se
apresentam bilateralmente, em contraste com as
lesões diafragmáticas e pleurais, que têm uma
predileção pelo lado direito. Evidências adicio-
nais para esta teoria vêm de relatos de lesões
endometrióticas em locais distantes do corpo,
incluindo cérebro e ossos, sugerindo a capaci -
dade das células endometriais de viajar e se im-
plantar em locais remotos (JERMAN et al .,
2020; LAGANÀ et al., 2019).
A prostaglandina F2-alfa, um mediador in -
flamatório, contrai os bronquíolos e a vascula -
tura, e está presente no plasma durante a mens-
truação. A circulação aumentada de prostaglan-
dina F2-alfa durante a menstruação pode levar
à constrição dos bronquíolos e vasos sanguí -
neos, resultando na ruptura alveolar de bolhas e
bolhas subpleurais previamente formadas, con-
tribuindo para o pneumotórax catamenial
(NEZHAT et al., 2019).
A patogênese do pneumotórax catamenial,
uma complicação frequente da endometriose
torácica, envolve várias hipóteses interligadas:
• Passagem Transdiafragmática de Ar: Ar
peritoneal pode passar do trato genital para a ca-
vidade peritoneal através das trompas de Faló -
pio e alcançar o espaço pleural por meio de
aberturas no diafragma, facilitado pela pressão
intratorácica negativa.
• Descamação de Implantes Endometri -
ais: Implantes endometriais na pleura visceral
podem descamar, resultando em vazamento de
ar.
• Ruptura Alveolar Induzida por Prosta -
glandina: A constrição bronquiolar induzida
por prostaglandinas ou obstrução por implantes
endometriais bronquiolares pode levar à ruptura
alveolar (ROUSSET et al., 2014).
Clínica
A endometriose torácica pode se manifestar
com uma variedade de sintomas clínicos, de -
pendendo da localização das lesões endometri -
óticas na cavidade torácica. Esses sintomas po-
dem variar desde assintomáticos até graves, im-
pactando significativamente a qualidade de
vida das pacientes. Geralmente, os sintomas
aparecem entre 24 horas antes e 72 horas após
o início da menstruação, se forem catameniais.
No entanto, também há relatos de sintomas não
catameniais, que ocorrem durante o período pe-
riovulatório e após relações sexuais. A localiza-
ção anatômica das lesões influencia a natureza
dos sintomas, com uma maior frequência de ca-
sos no lado direito do corpo, embora lesões no
lado esquerdo e bilaterais também sejam obser-
vadas (VELAGAPUDI & EGAN, 2021).
Endometriose diafragmática
A endometriose no diafragma geralmente
se apresenta com dor no ombro direito. Outros
sintomas podem incluir dor no peito ou no qua-
drante superior direito, dispneia, tosse, dor no
braço e no pescoço, e hemoptise (SOARES et
al., 2021).
Doença pleural
A endometriose pleural pode se manifestar
como pneumotórax, que é a apresentação mais
comum da síndrome da endometriose torácica.
O pneumotórax catamenial ocorre de forma re-
corrente em relação à menstruação e é caracte-
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rizado por sintomas semelhantes ao pneumotó-
rax espontâneo, como dor torácica pleurítica,
tosse e falta de ar. A predominância do lado di-
reito é notável, e a dor referida na região peri -
escapular ou no pescoço pode estar presente de-
vido à irritação diafragmática (PORCEL et al.,
2023; CRINER et al., 2021).
Além do pneumotórax, o hemotórax é outra
manifestação da doença pleural, ocorrendo
quando há acúmulo de sangue na cavidade
pleural. Este pode ser agudo e maciço, exigindo
drenagem de emergência, ou crônico. Os sinto-
mas do hemotórax são semelhantes aos do
pneumotórax (PORCEL et al., 2023).
Doença parenquimatosa
A doença parenquimatosa pode se apresen-
tar como hemoptise, que é a expectoração de
sangue, recorrente em relação à menstruação.
Nódulos pulmonares também podem ser uma
manifestação da ET, muitas vezes sendo assin -
tomáticos e detectados incidentalmente em exa-
mes de imagem (CRINER et al., 2021).
Outras manifestações clínicas
Outras manifestações clínicas relatadas in -
cluem dor torácica catamenial, hérnia diafrag -
mática relacionada à endometriose e derrame
pleural relacionado à endometriose. Em uma re-
visão de literatura com 480 pacientes, as dife -
renças entre apresentações catameniais e não
catameniais foram notáveis: dor no peito, pneu-
motórax e dispneia. Além disso, hemoptise foi
relatada em dismenorreia e dor pélvica, embora
com menor frequência (SELCUKI et al., 2022).
Diagnóstico
O diagnóstico da ET é um desafio clínico
que requer uma alta suspeição, especialmente
em mulheres em idade fértil que apresentam
sintomas torácicos recorrentes associados ao ci-
clo menstrual. A suspeita deve ser elevada em
pacientes que relatam dismenorreia e dispareu-
nia, junto com sintomas torácicos que ocorrem
entre 24 horas antes e 72 horas após o início da
menstruação, caracterizando um padrão cata -
menial. No entanto, a presença de sintomas no
período intermenstrual não deve excluir o diag-
nóstico, mes mo na ausência de endometriose
pélvica previamente diagnosticada (VELAGA-
PUDI & EGAN, 2021).
A avaliação inicial inclui uma história clí -
nica detalhada e exame físico. A radiografia de
tórax é frequentemente o primeiro exame de
imagem realizado, útil para identificar pneumo-
tórax, hemotórax e outros sinais de patologia to-
rácica. A tomografia computadorizada (TC) é
indicada para confirmar pneumotórax ou hemo-
tórax não detectados na radiografia, avaliar he-
moptise recorrente ou detectar outros sinais de
endometriose torácica. A ressonância magné -
tica (RM) é particularmente útil para a detecção
de le sões diafragmáticas, que podem ser difí -
ceis de visualizar com outros métodos de ima-
gem (CHEHADE et al ., 2023; MOFFATT &
MITCHELL, 2002).
Procedimentos diagnósticos e
histológicos
Na ausência de achados em exames de ima-
gem ou em casos de episódios recorrentes de
pneumotórax em pacientes em idade fértil, a
avaliação por meio de procedimentos cirúrgicos
minimamente invasivos, como a videolaparos -
copia e a cirurgia toracoscópica videoassistida
(VATS), deve ser considerada. Estes procedi -
mentos permitem a visualização direta e a ob -
tenção de amostras para confirmação histoló -
gica, que é o padrão ouro para o diagnóstico de-
finitivo. A confirmação histológica requer a
identificação de estroma endometrial e glându-
las, ou apenas estroma, com coloração positiva
para receptores de estrogênio e progesterona
nas lesões torácicas (CHEHADE et al., 2023).
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Outros métodos diagnósticos
Embora a broncoscopia possa ser útil para
confirmar a hemoptise e localizar o sangra -
mento, sua utilidade no diagnóstico da endome-
triose torácica é limitada, pois os implantes en-
dometriais são frequentemente encontrados pe-
rifericamente. Níveis elevados de CA -125 po-
dem sugerir a presença de endometriose, mas
este teste não é recomendado como diagnóstico
de rotina para a endometriose (SCHRAGER et
al., 2013; VELAGAPUDI & EGAN, 2021).
Características Diagnósticas
A revisão sistemática de estudos observaci-
onais indica que o pneumotórax catamenial é
predominantemente observado no pulmão di -
reito em 93% dos casos. A laparoscopia revelou
endometriose diafragmática e/ou nódulos em
89% dos casos, com confirmação histopatoló -
gica positiva em 39% a 87,5% das pacientes es-
tudadas (GIL & TULANDI, 2020).
TRATAMENTO
O manejo da ET envolve uma combinação
de terapias médicas e cirúrgicas. A terapia hor-
monal é considerada a primeira linha de trata -
mento, semelhante ao manejo da endometriose
pélvica. Em casos de doença refratária ou recor-
rente, ou quando o tratamento médico não é to-
lerado, a cirurgia combinada com terapia hor -
monal pós-operatória por 6 a 12 meses deve ser
considerada (SOARES et al., 2021).
Terapia hormonal
Os análogos do hormônio liberador de go -
nadotrofina (GnRH) são frequentemente utili -
zados como tratamento inicial para a ET (SOA-
RES et al., 2021). Alternativas incluem contra-
ceptivos orais, progestinas, danazol e inibidores
de aromatase. Estudos de caso demonstraram a
eficácia desses tratamentos na redução dos sin-
tomas torácicos:
• Nafarelina intranasal e acetato de
leuprorrelina subcutâneo: Tratamento bem -su-
cedido de hemoptise catamenial em uma paci -
ente de 28 anos (HOPE -GILL & PRATHIBA,
2003).
• Triptorelina subcutânea: Eficaz no trata-
mento de pneumotórax catamenial em uma pa-
ciente de 38 anos (AKAL & KARA, 2002).
• Acetato de leuprolide intramuscular:
Reduziu os sintomas torácicos em uma paciente
de 26 anos com endometriose pulmonar (KOI -
ZUMI et al., 1999).
Intervenções cirúrgicas
A cirurgia é indicada em casos de doença
resistente, intolerância ao tratamento médico,
ou quando a qualidade de vida da paciente está
significativamente comprometida. Uma abor -
dagem multidisciplinar, envolvendo cirurgiões
torácicos e ginecológicos, é recomendada para
tratar lesões torácicas e pélvicas simultanea -
mente, se possível (SOARES et al., 2021; CRI-
NER et al., 2021).
• Videotoracoscopia Assistida (VATS):
Padrão ouro para o diagnóstico e tratamento da
ET, especialmente para pneumotórax catame -
nial. A VATS permite a visualização e remoção
direta das lesões endometriais (CIRIACO et al.,
2022).
• Videolaparoscopia: Utilizada para ava -
liar a presença de lesões endometrióticas no di-
afragma e pode ser combinada com VATS para
uma avaliação mais completa (CIRIACO et al.,
2022).
• Salpingo-ooforectomia bilateral com ou
sem histerectomia: Considerada em pacientes
que não desejam mais fertilidade futura, em -
bora essa abordagem não trate os implantes en-
dometriais dormentes que podem se tornar ati -
vos com a administração de estrogênio exógeno
(CIRIACO et al., 2022).
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O tratamento eficaz da ET frequentemente
requer uma colaboração entre ginecologistas,
pneumologistas e cirurgiões torácicos. A com -
binação de intervenção cirúrgica com terapia
hormonal pós-operatória tem mostrado ser efi -
caz na redução da recorrência e no controle dos
sintomas. Estudos mostram que a terapia hor -
monal pós -operatória, incluindo o uso de
GnRHa e estrogênio -progesterona, é adotada
em 61% dos casos, com uma taxa de recorrên -
cia geral de 27% (BRICELJ et al., 2017).
Apesar dos desafios, um diagnóstico pre -
coce e um manejo adequado permitem que mui-
tas pacientes mantenham uma qualidade de vida
satisfatória. O avanço contínuo das pesquisas
promete melhorias futuras no tratamento, po -
tencializando o prognóstico com terapias mais
eficazes e menos invasivas. As pacientes devem
ser monitoradas regularmente para ajustar o tra-
tamento conforme necessário e prevenir a re -
corrência da doença (CHEHADE et al., 2023).
Prognóstico e recorrência
O prognóstico da endometriose torácica é
altamente variável e depende de múltiplos fato-
res, incluindo a extensão da doença, a eficácia
do tratamento inicial e a adesão a terapias de
longo prazo. A interrupção da terapia hormonal
médica para endometriose está associada a uma
alta taxa de recorrência. Estudos mostram que a
recorrência é um desafio significativo, com ta -
xas relatadas de cerca de 27% após tratamento
cirúrgico e/ou hormonal de pneumotórax cata -
menial (BRICELJ et al., 2017; NEZHAT et al.,
2019).
A terapia hormonal é crucial para a gestão a
longo prazo da ET. No entanto, a interrupção
dessa terapia frequentemente resulta em alta
taxa de recorrência. A síndrome da endometri -
ose torácica catamenial, em particular, está as -
sociada a um risco aumentado de recorrência
após o tratamento inicial em comparação com a
apresentação não catamenial. Estudos de coorte
indicam que o risco de recorrência de hemop -
tise é relativamente baixo em pacientes tratadas
com agonistas do hormônio liberador de gona -
dotrofina (GnRHa) seguidos de contraceptivos
orais combinados (NEZHAT et al., 2019; DAI
et al., 2021).
Apesar dos desafios, um diagnóstico pre -
coce e um manejo adequado permitem que mui-
tas pacientes mantenham uma qualidade de vida
satisfatória. O avanço contínuo das pesquisas
promete melhorias futuras no tratamento, po -
tencializando o prognóstico com terapias mais
eficazes e menos invasivas (CHEHADE et al.,
2023). As pacientes devem ser monitoradas re-
gularmente para ajustar o tratamento conforme
necessário e prevenir a recorrência da doença.
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