Epidemiology, Pelvic pain, Psychotherapy, Signs and
symptoms, Therapeutics.
Analysis of 230 women with chronic pelvic pain assisted at a public
hospital*
Análise de 230 mulheres com dor pélvica crônica atendidas em um hospital público
José Miguel de Deus1, Ana Flávia Ribeiro dos Santos2, Raiane de Barros Bosquetti2, Lenyze Pofhal2, Onofre Alves Neto3
*Recebido do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO, Brasil.
1. Universidade Federal de Goiás, Goiânia, GO, Brasil.
2. Universidade Federal de Goiás, Hospital de Clínicas, Goiânia, GO, Brasil.
3. Universidade Federal de Goiás, Faculdade de Medicina, GO, Brasil.
Apresentado em 19 de dezembro de 2013.
Aceito para publicação em 18 de agosto de 2014.
Conflito de interesses: não há.
Endereço para correspondência:
José Miguel de Deus
Departamento de Ginecologia e Obstetrícia
Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Rua 235 com 1ª Avenida, s/n, Setor Universitário
74605-020 Goiânia, GO, Brasil.
E-mail:
[email protected]
© Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor
RESUMO
JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: A dor pélvica crônica é preva-
lente, apresenta tratamento difícil e tem sido pouco investigada. O
objetivo deste estudo foi analisar 230 pacientes do ambulatório de
dor pélvica crônica do Hospital das Clínicas da Universidade Fede-
ral de Goiás.
MÉTODOS: Estudo de corte transversal e de intervenção realizado
entre 2007 e 2011.
RESULTADOS: A média de idade das mulheres foi de 38,3±10,0
anos. A maioria das mulheres era parda, casada/amasiada, cursou
ensino fundamental, dependente financeiramente, tinha renda de
até cinco salários mínimos, índice de massa corpórea normal, até três
filhos e atividade sexual ativa. Aborto ocorreu em 30%, abuso físico
em 15,8% e abuso sexual em 11%. A maioria sofreu cirurgia prévia
e possuía função intestinal e urinária normais. A dor permanecia por
mais de 16 dias/mês, piorava no período perimenstrual e começou,
em média, 6,7 anos antes. Em mais de 70% dos casos foi percebido
um evento coincidente com o início da dor, sendo conflitos e/ou
traumas os mais citados. Os exames físico e ultrassonográfico foram
normais na grande maioria dessas mulheres. Aderências e/ou endo-
metriose foram encontrados em quase 2/3 das 41 laparoscopias rea-
lizadas. Houve redução média de 39,2% da escala de dor (3,1/7,9)
com as várias condutas adotadas (farmacológica, laparoscópica e
psicoterápica) p<0,001. História de abuso sexual e de aborto provo-
cado associou-se a menor redução da dor.
CONCLUSÃO: Este estudo acrescenta informações epidemiológi-
cas e clínicas sobre mulheres com dor pélvica crônica no Brasil. O
tratamento clínico e psicoterápico promoveu redução significativa
da escala de dor entre a primeira e a última consulta. Laparoscopia
não potencializou a redução da dor.
Descritores: Dor pélvica, Epidemiologia, Psicoterapia, Sinais e sin-
tomas, T erapêutica.
INTRODUÇÃO
Dor pélvica crônica (DPC) é dor não cíclica, de duração igual ou
superior a seis meses, de localização na pelve anatômica, na parede
abdominal abaixo do umbigo ou na região glútea e possui intensi-
dade suficiente para interferir nas atividades habituais e/ou exigir
ajuda médica
1,2.
A DPC é responsável por 10% das consultas com ginecologistas, 40
a 50% das laparoscopias ginecológicas e, aproximadamente, 12% de
todas as histerectomias
3,4. Apresenta impacto direto na vida conju-
Rev Dor. São Paulo, 2014 jul-set;15(3):191-7 ARTIGO ORIGINAL
DOI 10.5935/1806-0013.20140042
192
Deus JM, Santos AF , Bosquetti RB, Pofhal L e Alves Neto ORev Dor. São Paulo, 2014 jul-set;15(3):191-7
gal, social e profissional dessas pacientes4,5, o que transforma a DPC
em um sério problema de saúde pública4,6.
Os seus fatores de risco ainda não são consensuais, visto os resulta-
dos conflitantes de estudos realizados. Os mais citados são: abuso de
drogas ou álcool, antecedente de aborto, fluxo menstrual aumenta-
do e dismenorreia, doença inflamatória e outras doenças pélvicas,
cirurgia abdominal prévia, baixo nível educacional e comorbidades
psicológicas, tais como ansiedade e depressão
4,7. Os dados disponí-
veis até o momento são, de certa forma, limitados especialmente
nos países em desenvolvimento. Um estudo relatou prevalência geral
de 11,5% (147/1278) de DPC em mulheres acima de 14 anos em
Ribeirão Preto, São Paulo (Brasil) e 15,1% (127/841) em mulheres
de idade reprodutiva
4, assemelhando-se a um estudo nos Estados
Unidos (14,7%- 773/5263 mulheres de 18-50 anos pesquisadas
pela Organização Gallup)
1.
O tratamento da DPC é focado nos sintomas ou no próprio diag-
nóstico. Mesmo quando o diagnóstico é especificado, como síndro-
me da bexiga dolorosa, síndrome do intestino irritável, endome-
triose e aderências, a resposta é frustrante
3,6,7. Compõem o arsenal
terapêutico anti-inflamatórios não esteroides (AINES), bloquea-
dores musculares, contraceptivos hormonais, amitriptilina e outros
antidepressivos, anticonvulsivantes e psicoterapia8,9. A terapia cogni-
tivo-comportamental é uma abordagem já aceita e recomendada no
tratamento de mulheres com DPC9,10. Constelação familiar é uma
abordagem sistêmica, desenvolvida por Bert Hellinger e que conec-
ta o sofrimento/adoecimento com processos inconscientes, a partir
de exclusões, conflitos e traumas ocorridos na vida pessoal e/ou fa-
miliar. Em sua obra intitulada “O essencial é simples” ele aborda
a utilização da constelação familiar em diversos sintomas/doenças,
entre eles a síndrome de dores crônicas
11,12. O tratamento cirúrgico,
especialmente com laparoscopia, tem sido indicado para diagnóstico
e tratamento de endometriose e aderências pélvicas
1,2, mas tem sido
cada vez mais questionado13,14.
O ambulatório de DPC do Serviço de Ginecologia do Hospital das
Clínicas da Universidade Federal de Goiás (HC-UFG) existe com
o objetivo de receber, investigar e tratar mulheres com DPC. Este
estudo foi realizado para buscar informações sobre essa população, a
fim de compreender melhor a realidade desse grupo e de promover
avanços em seu atendimento, bem como compartilhar essas infor-
mações com outros profissionais de atenção à saúde da mulher e
com os gestores de políticas de saúde pública.
MÉTODOS
Foi realizado um estudo de corte transversal e de intervenção, no
qual se utilizaram fichas pré-estruturadas para primeira consulta e
para consultas de retorno, que foram preenchidas durante os aten-
dimentos, entre fevereiro/2007 e maio/2011, no Ambulatório de
Dor Pélvica Crônica do HC-UFG. Posteriormente, tabulou-se os
dados catalogados para identificar possíveis fatores epidemiológicos,
clínicos e ecográficos associados à DPC, bem como a evolução da
escala analógica visual de dor (EAV) com os tratamentos indicados.
As variáveis coletadas e analisadas foram: idade, cor, estado civil, esco-
laridade, rendimento familiar, dependência financeira, índice de massa
corpórea (IMC= peso/altura
2), número de filhos, ocorrência de abor-
tos, história de abuso físico e/ou sexual, atividade sexual, desejo sexual,
orgasmo, dispareunia, antecedente de doenças sexualmente transmis-
síveis, características do ciclo e fluxo menstrual, antecedentes cirúrgi-
cos, local predominante da dor, escore de dor pela EAV na primeira e
na última consulta, eventos coincidentes com início da dor, duração
da dor, piora perimenstrual da dor, conflitos conjugais ou com família
de origem e traumas familiares, hábito intestinal, queixas urinárias,
achados do exame físico, da ultrassonografia e da laparoscopia, tra-
tamento farmacológico e psicoterápico (cognitivo-comportamental e
constelação familiar). Avaliou-se, ainda, o seguimento ambulatorial.
No ambulatório do HC-UFG, a escolha do fármaco é feita da seguin-
te forma: se a dor tem piora ou existe oscilação de humor perimens-
trual, opta-se, inicialmente, por induzir amenorreia com contracepti-
vos hormonais; se a paciente apresenta neuralgia, dor osteomuscular,
fibromialgia, conflitos, traumas ou perfil depressivo, inicia-se com
amitriptilina ou outros antidepressivos, conforme a tolerabilidade.
Também tenta-se associar amenorreia com amitriptilina ou outros
antidepressivos, quando as condições acima são superpostas. Os anti-
-inflamatórios são indicados nas crises de dor. Além disso, sugere-se
psicoterapia sempre (as disponíveis foram a cognitiva-comportamen-
tal e constelações familiares). A terapia cognitiva-comportamental foi
conduzida em 6-8 sessões individuais de cerca de uma hora, enquanto
a constelação familiar foi administrada em uma única sessão em grupo
ou individual (duração de uma a duas horas).
Consideraram-se as pacientes em seguimento ambulatorial quando
se consultaram em um período menor que um ano da análise do
prontuário. As consultas eram agendadas trimestralmente e passa-
vam para semestral, caso a paciente ficasse com escala de dor menor
ou igual a 2. Mais de um ano sem retorno foi tido como perda de se-
guimento. O critério estabelecido para alta do ambulatório de DPC
foi: escala de dor ≤ 2 por pelo menos um ano, sem uso de qualquer
fármaco para dor.
Os dados foram digitados e analisados no Software Excel para Win-
dows para posterior análise em programa estatístico, o Statistical Pa-
ckage for the Social Sciences - SPSS, versão 17.0.
O teste de Mann-Whitney foi utilizado para verificar diferença na
escala de dor entre a primeira e a última consulta nas variáveis es-
pecíficas: antecedente de abortamento, abuso físico, abuso sexual,
laparoscopia, tratamento atual e psicoterapia. Os testes de Kruskal-
-Wallis e Wilcoxon foram utilizados para verificar a existência ou não
de diferença significativa entre a primeira e a última consulta em re-
lação às variáveis: abortamento e tratamento atual (Kruskal-Wallis);
abuso físico, abuso sexual, laparoscopia e psicoterapia (Wilcoxon).
Adotou-se nível de 95% de confiança, ou seja, considerou-se signi-
ficativo p<0,05.
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do HC-
-UFG, parecer nº 004/2007. As pacientes assinaram o T ermo de
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).
RESULTADOS
Inicialmente, foram incluídas 271 pacientes, sendo que 13 pacientes
foram excluídas do estudo por incompletude ou perda de dados, e
28 por não se enquadrarem nos critérios de DPC (dor exclusiva-
mente cíclica em 21 pacientes e dispareunia isolada em sete pacien-
tes). Dessa forma, foram avaliadas as 230 pacientes restantes.
A média de idade das mulheres com DPC foi de 38,3±10,0 anos.
193
Análise de 230 mulheres com dor pélvica crônica
atendidas em um hospital público
Rev Dor. São Paulo, 2014 jul-set;15(3):191-7
Observou-se que a maioria era parda, casada ou amasiada, cursou até
o ensino fundamental, tinha renda de até cinco salários mínimos, era
dependente financeiramente e apresentava IMC normal (Tabela 1).
A maioria das pacientes tinha até três filhos, atividade sexual com
desejo e orgasmo, apesar de dispareunia. Quase 30% tiveram abor-
tos, 15,8% abuso físico e 11% abuso sexual (Tabela 2). A menstru-
ação se apresentava em intervalo regular em 57,8% das pacientes,
com fluxo normal em 46,9% e havia amenorreia em 28% delas.
Cirurgias pélvicas prévias foram muito comuns, especialmente la-
queadura tubária (50,4%) e cesariana (48,7%), seguidas de histe-
rectomia (14,3%) e cisto de ovário (11,3%), entre outras. A maioria
das pacientes tinha função intestinal normal (58,2%), mas 38,3%
relatavam obstipação, e 2,6% obstipação e diarreia, sendo que esta,
isoladamente, ocorreu em 0,9% das mulheres. A função urinária es-
tava normal em 79,1% dos casos.
A localização da dor foi, em ordem decrescente de frequência: fos-
sa ilíaca esquerda (38,7%), fossa ilíaca direita (32,7%), hipogástrio
(19,1%), baixo ventre (17,0%) e vaginal (2,6%). A dor durava
mais da metade do mês em 63% dos casos e piorava no período
perimenstrual em 55,2% dos casos. Ela tinha iniciado em média
6,7±7,6 (0,5-54) anos antes, com EAV média de 7,9±1,8 (2-10).
Houve redução média de 3,1 pontos na EAV entre a primeira e a úl-
tima consulta e o tempo de seguimento foi de 1,6±1,6 anos (0-3,2).
Em mais de 70% dos casos foi percebido um evento coincidente com
o início da dor, sendo a história de conflitos e/ou traumas e eventos
obstétricos, os mais citados (Tabela 3). Conflitos conjugais e/ou fami-
liares estiveram presentes em cerca de 40% das pacientes, enquanto
traumas familiares ocorreram em mais da metade dos casos (Tabela 4).
Tabela 1. Distribuição das pacientes do ambulatório de dor pélvica
crônica (n=230)
Variáveis n %
Cor
Branca
Preta
Parda
82
30
118
35,7
13,0
51,3
Estado civil
Solteira
Casada/amasiada
Separada/divorciada
Viúva
24
167
32
7
10,4
72,5
14,0
3,1
Escolaridade
Analfabeta
Ensino fundamental
Ensino médio
Ensino superior
8
137
77
8
3,4
59,8
33,4
3,4
Rendimento per capita (salários mínimos)
Menor que 1
1 a 5
Acima de 5
79
147
4
34,4
64,0
1,6
Dependência financeira
Parceiro
Outros
Não depende
123
22
85
53,4
9,4
37,2
Índice de massa corpórea
Baixo peso
Normal
Sobrepeso
Obesidade
8
134
64
24
3,3
58,3
27,8
10,6
Tabela 2. Fatores obstétricos e ginecológicos em pacientes com dor
pélvica crônica (n=230)
Variáveis n %
Número de filhos
0
1-3
3-4
30
167
33
13,0
72,6
14,4
Abortos
Não
Espontâneos
Provocados
163
54
13
70,9
23,4
5,7
Abuso físico
Sim
Não
36
194
15,8
84,2
Abuso sexual
Sim
Não
25
205
11,0
89,0
Atividade sexual
Sim
Não
191
39
83,0
17,0
Orgasmo
Sim
Não
143
87
62,0
38,0
Dispareunia
Superficial
Profunda
Sem dispareunia
32
150
48
14,0
65,0
21,0
Desejo sexual
Sim
Não
138
92
60,0
40,0
História de doença sexualmente transmissível
Sim
Não
41
189
17,8
82,2
Tabela 3. Evento coincidente com o início da queixa de dor pélvica
crônica (n=230)
Variáveis n %
Nenhum percebido 66 28,7
Conflito e/ou trauma 65 28,3
Gravidez/aborto/nascimento de filho 51 22,2
Perda ou afastamento de ente querido 48 20,9
Laqueadura tubária 24 10,4
Histerectomia 9 3,9
Tabela 4. Questões familiares das pacientes do ambulatório de dor
pélvica crônica (n=230)
Variáveis n %
Conflito conjugal (parceiro)
Sim
Não
96
134
42,0
58,0
Conflito familiar (excluído parceiro)
Sim
Não
91
139
39,5
60,5
Trauma familiar*
Sim
Não
119
111
51,7
48,3
*Abandono pelos pais, doação de filho, mortes precoces e/ou trágicas, morte
de pessoas próximas com quem estavam em conflito.
194
Deus JM, Santos AF , Bosquetti RB, Pofhal L e Alves Neto ORev Dor. São Paulo, 2014 jul-set;15(3):191-7
Os exames físico e ultrassonográfico foram normais na grande maio-
ria dessas mulheres (Tabela 5). Nas 41/230(17,8%) laparoscopias
realizadas encontraram-se aderências (34%), endometriose (29%),
pelve normal (22%) e outros achados em 15% dos casos.
Os fármacos mais utilizados na condução das pacientes com DPC
foram os contraceptivos hormonais e a amitriptilina (Tabela 6).
Houve redução média de cerca de 40% da EAV (3,1/7,9) com as
várias condutas adotadas (farmacológica, laparoscópica e psicoterá-
pica), sendo que a história de abuso sexual e de aborto provocado
associou-se com menor redução da EAV (2,2 e 1,4, respectivamen-
te). Dos fármacos avaliados, o contraceptivo hormonal relacionou-
-se à maior redução da EAV (Tabela 7). Houve adesão à psicoterapia
em 25,2% das pacientes, sendo 20,9% à constelação familiar; 2,6%
à cognitivo-comportamental e 1,7% a outras modalidades. Houve
perda de seguimento em 26,6% dos casos e 5,2% das pacientes re-
ceberam alta ambulatorial.
Tabela 5. Achados do exame físico e da ultrassonografia pélvica
(n=230)
Variáveis n %
Exame físico
Normal
Endometriose
Outro
194
26
10
84,3
11,3
4,4
Ultrassonografia
Normal
Endometriose (ovário e/ou parede abdominal)
Miomas uterinos pequenos (<2cm)
Sugestivo de cisto funcional de ovário
Sugestivo de hidrossalpinge
Outros achados (cisto paraovariano, cisto de
inclusão etc.)
160
19
15
13
8
15
69,6
8,3
6,5
5,6
3,5
6,5
Tabela 6. Tratamento farmacológico na última consulta de pacientes
com dor pélvica crônica (n=230)
Variáveis n %
Contraceptivo hormonal
Amitriptilina
Anti-inflamatórios não hormonais
Outros antidepressivos
Sem fármaco
87
76
45
18
58
37,8
33,0
19,6
7,8
25,2
Tabela 7. Comparação da média da escala de dor na primeira e última consulta em relação às variáveis independentes nas pacientes com dor
pélvica crônica (n=230)
Variáveis
Escala de dor
p Diferença
das médias1ª consulta Última consulta
Média ± DP IC 95% Média ± DP IC 95%
Escala de dor 7,9 ± 1,8 (7,7-8,2) 4,8 ± 3,2 (4,3-5,3) <0,0011 3,1
Abuso físico
Sim
Não
8,4 ± 1,6
7,9 ± 1,8
(7,8-8,9)
(7,6-8,1)
5,1 ± 2,7
4,8 ± 3,3
(3,8-6,4)
(4,2-5,3)
<0,001
1
<0,0011
3,3
3,1
Valor de p 0,135
3 0,8183
Abuso sexual
Sim
Não
8,1 ± 1,6
7,9 ± 1,8
(7,5-8,8)
(7,7-8,2)
5,9 ± 3,1
4,7 ± 3,2
(4,4-7,3)
(4,1-5,2)
0,004
1
<0,0011
2,2
3,2
Valor de p 0,789
3 0,1163
Abortamento
Geral
Espontâneo
Provocado
7,6 ± 1,8
7,6 ± 1,9
8,5 ± 1,2
(7,1-8,1)
(7,1-8,1)
(7,8-9,2)
5,5 ± 3,2
5,2 ± 3,1
7,1 ± 3,4
(4,6-6,4)
(4,3-6,2)
(4,3-9,9)
<0,001
1
<0,0011
<0,0011
2,1
2,4
1,4
Valor de p 0,176
2 0,0852
Laparoscopia
Não
Sim
7,8 ± 1,9
7,8 ± 1,8
(7,5-8,1)
(7,2-8,5)
4,9 ± 3,2
4,6 ± 3,2
(4,3-5,5)
(3,5-6,7)
<0,001
1
<0,0011
2,9
3,2
Valor de p 0,769
3 0,6333
Tratamento atual
AINH
Contraceptivo
Amitriptilina
Outros AD
7,2 ± 1,7
8,2 ± 1,7
8,2 ± 1,5
8,7 ± 1,2
(7,1-8,2)
(7,9-8,6)
(7,9-8,6)
(8,1-9,3)
4,6 ± 3,0
5,1 ± 3,2
6,0 ± 2,3
5,9 ± 3,7
(3,3-5,8)
(4,4-5,9)
(5,4-6,7)
(3,8-8,1)
<0,001
1
<0,0011
<0,0011
0,0051
2,6
3,1
2,2
2,8
Valor de p 0,154
2 0,0862
Psicoterapia
CC
CF
8,3 ± 1,6
7,7 ± 2,0
(6,4-10,2)
(7,1-8,3)
3,6 ± 1,9
4,8 ± 3,5
(0,6-6,6)
(3,7-5,8)
0,066
1
<0,0011
4,7
2,9
Valor de p 0,938
3 0,4223
1Mann-Whitney (dados independentes); 2Kruskal-Wallis e 3Wilcoxon (dados pareados).
AINH: anti-inflamatório não hormonal; CC: cognitiva-comportamental; CF: constelação familiar; AD: antidepressivos.
195
Análise de 230 mulheres com dor pélvica crônica
atendidas em um hospital público
Rev Dor. São Paulo, 2014 jul-set;15(3):191-7
DISCUSSÃO
Neste estudo, um dos objetivos foi realizar a caracterização epide-
miológica de 230 pacientes do ambulatório de DPC do HC-UFG-
-Goiânia, visto que no Brasil existem poucos estudos com esse fim4.
Essas pacientes apresentaram uma média de idade de 38,3 anos, a
maioria parda, casada/amasiada, com baixa escolaridade, baixa ren-
da, dependente financeiramente do parceiro e IMC normal, dados
semelhantes aos da literatura brasileira
4,5 e à realidade do país15.
Observou-se que 87% das pacientes possuíam filho(s), sendo mais
frequentes as que tiveram de 1 a 3 filhos (72,6%), achado que con-
diz com estudo anteriormente publicado4. Encontrou-se, ainda, an-
tecedente de abortamento em 29,1%, semelhante ao estudo supraci-
tado
4, que relatou 27,9%, quase duas vezes o número de abortos no
grupo de mulheres sem DPC (16,4%, p<0,01). No presente estudo,
19,6% dos abortos foram provocados. Observou-se, ainda, que as
pacientes com antecedente de aborto provocado tiveram menor re-
dução na média da EAV entre a primeira e a última consulta com
o tratamento clínico, sendo esta a pior resposta dentre os grupos
avaliados (de 1,4 contra 3,1 da média geral). Esse dado requer uma
melhor compreensão; no entanto, cogita-se que possa estar associa-
do à expiação de culpa inconsciente pelo aborto ainda não bem pro-
cessado psicologicamente (observado em psicoterapia).
Constatou-se uma frequência de 15,8% de abuso físico e de 11%
de abuso sexual na população em questão. Um grupo estudioso de
DPC
7 relatou 3,5 vezes e 2,2 vezes mais história de abuso sexual e
físico, respectivamente, em mulheres com DPC, quando compara-
das aos controles. No presente estudo, as pacientes vítimas de abuso
físico tiveram melhora da dor semelhante às que não sofreram esse
tipo de situação; contudo, as vítimas de violência sexual apresenta-
ram menor redução na escala de dor, o que sugere maior sequela
psicológica.
Das pacientes do estudo, mais de 80% referiram vida sexual ativa
e cerca de 60% relatavam desejo sexual e orgasmo ao coito. No en-
tanto, quase 80% das mulheres queixavam-se de dispareunia. Esse
sintoma tem sido considerado um fator independente associado à
DPC
4. História de doença sexualmente transmissível foi observada
em menos de 1/5 das pacientes, embora seja considerada um fator
de risco para DPC7.
A maioria das pacientes deste estudo referia padrão menstrual nor-
mal, mas encontrou-se uma frequência de 55% de piora da DPC no
período perimenstrual, enquanto outros autores
2,5 relataram preva-
lência acima de 80%. Possivelmente, a menor prevalência aqui ob-
servada deve-se ao fato de que uma parcela das pacientes já chega ao
ambulatório em amenorreia farmacológica induzida pelos médicos
que as encaminharam do sistema básico de saúde.
Cirurgias abdominais têm sido apontadas como fator associado à
DPC, possivelmente em decorrência das aderências causadas pela
manipulação da cavidade peritonial
4. No presente estudo, observou-
-se alta frequência de antecedentes cirúrgicos na cavidade pélvica,
sendo a laqueadura laparotômica (50,4%) e a cesariana (48,7%) as
cirurgias mais frequentes; encontrou-se, ainda, uma frequência de
aderências em cerca de 1/3 das laparoscopias realizadas no serviço,
dados aproximados aos da literatura
1,16.
Quando avaliado o aspecto dor das pacientes neste estudo, encon-
trou-se uma média de tempo do início do sintoma até a primeira
consulta de cerca de sete anos, período obviamente longo para quem
sofre de dor. Tal achado pode ser justificado pela demora na procura
por ajuda ou pela dificuldade de acesso à assistência médica espe-
cializada no serviço público. Enquanto um estudo
4 relatou média
da escala de dor na primeira consulta de 5,8±2,3 para as pacientes
com DPC, na presente pesquisa o valor foi de 7,9±1,8 pela EAV ,
mas na última consulta esse número foi de 4,8. Isso mostrou uma
diminuição na EAV de 3,1 pontos, o que demonstra a importância
do atendimento às pacientes com DPC com medidas clínicas/psi-
coterápicas que se mostraram eficazes na redução da escala de dor.
Quanto à localização da dor, encontrou-se uma frequência maior
(quase 40%) na fossa ilíaca esquerda, cerca de 1/3 na fossa ilíaca
direita, seguido de hipogástrio e baixo ventre (quase 1/5 dos casos
cada) e apenas 2,6% na vagina. Não foi encontrado na literatura
nenhum estudo que avaliasse essa frequência, mas o predomínio de
dor na FIE pode ser devido à grande prevalência de síndrome de
intestino irritável e sua relação com DPC, conforme já observado
1,17.
Neste estudo foram observados sintomas intestinais em cerca de
40% das pacientes (38,3% relatavam obstipação, 2,6%, obstipa-
ção e diarreia, e esta, isoladamente, ocorreu em 0,9% das mulhe-
res). Não foi objeto desta pesquisa caracterizar o diagnóstico de
síndrome do intestino irritável, visto que outros critérios são re-
queridos além da dor por mais de 12 semanas. Um estudo com
648 mulheres
17 observou que 40% das pacientes com DPC pre-
enchiam os critérios de síndrome do intestino irritável, enquanto
outro relato8 referiu frequência de desordens gastrointestinais em
37%. Esses números são condizentes com as desordens intestinais
expressas especialmente na forma de obstipação nesta amostra, o
que sugere uma correlação desses dados. Sintomas urinários foram
observados em 1/5 das pacientes, enquanto outro estudo relatou
31% de desordens urológicas
8.
Mais de 60% das pacientes referiram dor por mais da metade do
mês, o que sugere redução em sua qualidade de vida (QV). Atra-
vés do SF-36, estudo realizado no mesmo local do presente estudo
constatou que mulheres com DPC apresentavam, significativamen-
te, menores escores de QV nos domínios dor e aspectos sociais
5.
Efeito negativo da DPC na QV das mulheres foi relatado, também,
por outros autores8,9.
Mais de 70% das pacientes conseguiram relacionar algum evento
importante ou traumático com o início do sintoma. Pacientes com
DPC têm oito vezes mais sintomas psicossomáticos que os contro-
les
7. A presença de questões familiares em grande parte das pacien-
tes com DPC sugere a importância do emprego de psicoterapia no
tratamento dessas mulheres, como já enfatizado na literatura
8,18.
Futuras pesquisas qualitativas poderão, quem sabe, elucidar melhor
possíveis fatores de gatilho da DPC.
O fato de a maioria das pacientes deste estudo terem apresentado
exame físico normal (84,3%) e ultrassonografia normal (69,6%),
ou com achados incidentais (pequenos miomas, cistos funcionais
de ovário, hidrossalpinge, geralmente assintomáticos na população
geral, muitas vezes no lado contralateral ao lado em que a paciente
se queixa de dor) mostra a dificuldade em se demonstrar uma causa
orgânica plausível e convincente da DPC nas pacientes, de forma
geral. Os achados, tidos como causadores de dor pélvica crônica em
laparoscopia, carecem de critérios epidemiológicos de causalidade
e a DPC parece muito mais uma síndrome somatofuncional, tal
196
Deus JM, Santos AF , Bosquetti RB, Pofhal L e Alves Neto ORev Dor. São Paulo, 2014 jul-set;15(3):191-7
como outras descritas: fibromialgia, síndrome do intestino irritável,
síndrome de fadiga crônica, síndrome da bexiga dolorosa, enxaque-
ca, entre outras7.
A laparoscopia diagnóstica, realizada em 41 pacientes (aderên-
cia-34%, endometriose-29% e pelve normal-22%), mostrou acha-
dos semelhantes aos de grande casuística- 1524 mulheres1. Entretan-
to, nem sempre é possível atribuir as alterações encontradas à causa
primária de DPC. A laparoscopia pode ter efeito placebo em 50%
das pacientes em três meses e em 25% das pacientes em seis meses,
com recorrência posterior
1. A ausência de doença na topografia da
dor e/ou achados incidentais como pequenos miomas, cistos fun-
cionais, hidrossalpinge, geralmente assintomáticos e comorbidades
como fibromialgia, síndrome do cólon irritável, enxaqueca, sín-
drome da fadiga crônica, síndrome da bexiga dolorosa são muito
comuns
1,7. No presente estudo, as pacientes submetidas à laparos-
copia não tiveram incremento na redução da escala de dor, quando
comparadas às pacientes que não se submeteram à laparoscopia. O
tratamento das aderências com adesiólise laparoscópica para DPC
parece não ter efeito benéfico. Isso pode ser endossado por um es-
tudo multicêntrico
em que 100 pacientes com DPC e aderências
pélvicas foram randomizadas para lise (n=52) ou não lise (n=42) das
aderências, por videolaparoscopia, não tendo sido observada dife-
rença na redução da dor entre os grupos
19.
Revisão sistemática recente14 aponta para a ineficácia da abordagem
cirúrgica no tratamento da DPC. A laparoscopia é uma cirurgia e,
como tal, possui riscos e custos inerentes ao procedimento, devendo
ser indicada apenas após avaliação clínica e de imagem cuidadosas.
No presente estudo, a laparoscopia foi indicada em menos de 20%
das pacientes, corroborando a tendência atual de redução na indica-
ção desse procedimento em pacientes com DPC. Foi sugerido por
Nogueira, Reis e Poli Neto
3 uma redução na indicação de laparos-
copia para 5% dos casos3. A compreensão de mecanismos de hipe-
ralgesia visceral pode favorecer o encontro de fármacos que podem
reduzir a intensidade da DPC20.
O tratamento farmacológico foi utilizado em 3/4 das pacientes, na
seguinte sequência decrescente: contraceptivos hormonais contínu-
os, amitriptilina, AINES e outros antidepressivos. Em relação ao pri-
meiro atendimento, os tratamentos reduziram a intensidade média
de dor em 3,1 pontos.
Psicoterapia foi realizada em 1/4 das pacientes do estudo, sendo a
constelação familiar a mais frequentemente aplicada, seguida de te-
rapia cognitivo-comportamental. A constelação familiar é oferecida
no serviço há mais de sete anos, talvez por isso sua maior frequência
no estudo. Observou-se efeito positivo na redução da dor com am-
bas as modalidades de psicoterapia, com diminuição significativa na
escala de dor de 2,9 pontos entre a primeira e a última consulta nas
pacientes que participaram da constelação familiar.
Essa abordagem ainda não foi testada na literatura em pacientes com
DPC, sendo este o primeiro relato. O seu idealizador publicou ape-
nas relato de casos com emprego desse processo
11. Houve redução
ainda maior da EAV nas pacientes submetidas à terapia cognitivo-
-comportamental, sendo que essa última foi aplicada em apenas seis
casos, o que não possibilitou significância estatística. Ressalta-se que
foi observado neste estudo grande resistência das pacientes em acei-
tar ajuda psicoterápica, visto que 3/4 não a aceitaram, embora já seja
uma recomendação da literatura
1,2,8,18. Esse é, possivelmente, um fa-
tor que dificulta a alta dessas pacientes do ambulatório.
Como observado no presente estudo, a superioridade do tratamento
não cirúrgico (clínico/psicoterápico) pode ser considerada na práti-
ca do cuidado de mulheres com DPC, uma vez que o tratamento
cirúrgico não soma na redução da EAV e agrega maior custo e mor-
bidade. Outros relatos recentes endossam essa opinião
9,14.
Apenas 5,2% (12 pessoas) receberam alta ambulatorial (EAV≤2 por
mais de um ano e sem medicação). Ainda não foi compreendido o
que houve de diferente no tratamento dessas pacientes. No entan-
to, estudos qualitativos futuros poderão elucidar qual foi o desvio
positivo delas. A introdução de psicoterapia parece ser o indicador
disso, mas é necessário esperar mais tempo e maior casuística para
a confirmação dessa hipótese. Também, as pacientes precisam estar
abertas a essa abordagem, ampliando, talvez, o seu efeito. É um desa-
fio convencê-las da necessidade de psicoterapia, conforme também
relatado pela Associação Internacional para o Estudo da Dor
21. Re-
comendações atuais sugerem abordagem multidisciplinar e biopsi-
cossocial no sentido de otimizar resultados9,22.
CONCLUSÃO
Este estudo contribui para melhor compreensão da DPC, trazendo
mais informações epidemiológicas e clínicas sobre essas mulheres no
Brasil e, consequentemente, pode facilitar a abordagem clínica des-
sas pacientes. Medidas para facilitar o acesso de pacientes com DPC
a ambulatórios especializados (tanto no atendimento inicial quanto
no seguimento) são pertinentes e necessárias. A redução ainda maior
da indicação de laparoscopia e estratégias para atrair as pacientes
para psicoterapia são desafios para um futuro próximo. Este estudo
é importante e se justificou pela alta prevalência de DPC no Brasil.
Compartilhar essas informações com outros profissionais e gestores
envolvidos com a atenção à saúde da mulher poderá democratizar o
acesso dessas pacientes a profissionais capacitados para lidar com esse
importante problema de saúde pública.
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