Keywords
Endometriosis, infertility, murine model, gestational morbidity, offspring.
Lista de Figuras
Figura 1. ..................................................................................................................... 25
Figura 2. ..................................................................................................................... 26
Figura 3. ..................................................................................................................... 26
Figura 4. ..................................................................................................................... 27
Figura 5. ..................................................................................................................... 29
Figura 6. ..................................................................................................................... 33
Figura 7. ..................................................................................................................... 33
Figura 8. ..................................................................................................................... 34
Figura 9. ..................................................................................................................... 34
Lista de Tabelas
Tabela 1. ..................................................................................................................... 21
Tabela 2. ..................................................................................................................... 35
Tabela 3. ..................................................................................................................... 36
Tabela 4. ..................................................................................................................... 36
Tabela 5. ..................................................................................................................... 36
Lista de siglas
C Controle
C1 Controle 1
C2 Controle 2
E1 Endometriose 1
E2 Endometriose 2
FMRP Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto
H.E. Hematoxilina e eosina
kg quilograma
mg miligrama
PIG pequenos para idade gestacional
USP Universidade de São Paulo
Sumário
1. INTRODUÇÃO................................ ................................ ................................ ..... 15
1.1 Endometriose e infertilidade .......................................................................................... 15
1.2 Endometriose e resultados gestacionais ..................................................................... 16
1.3 Modelo experimental murino ......................................................................................... 19
1.3.1 Acasalamento .......................................................................................................................... 21
1.3.2 Ninhadas .................................................................................................................................. 21
1.4 Endometriose e modelo experimental murino ............................................................. 22
2. OBJETIVOS ................................ ................................ ................................ ........ 23
2.1 Objetivo primário ............................................................................................................. 23
2.2 Objetivo secundário ........................................................................................................ 23
3. MATERIAL E MÉTODOS ................................ ................................ .................... 24
3.1 Considerações éticas ..................................................................................................... 24
3.2 Animais ............................................................................................................................. 24
3.3 Delineamento experimental............................................................................................ 24
3.4 Procedimento cirúrgico .................................................................................................. 25
3.5 Acasalamento dos animais ............................................................................................ 27
3.6 Variáveis analisadas ....................................................................................................... 28
3.7 Eutanásias........................................................................................................................ 28
3.8 Análise histológica do endométrio ectópico ................................................................ 29
3.9 Cálculo amostral ............................................................................................................. 30
3.10 Análises estatísticas ..................................................................................................... 30
4. RESULTADOS ................................ ................................ ................................ .... 31
4.1 Fluxograma do grupo Controle 1 .................................................................................. 31
4.2 Fluxograma do grupo Controle 2 .................................................................................. 31
4.3 Fluxograma do grupo Endometriose 1 ......................................................................... 32
4.4 Fluxograma do grupo Endometriose 2 ......................................................................... 32
4.5 Histologia ......................................................................................................................... 33
4.6 Variáveis analisadas ....................................................................................................... 34
5. DISCUSSÃO ................................ ................................ ................................ ....... 37
6. CONCLUSÃO ................................ ................................ ................................ ...... 41
REFERÊNCIAS ................................ ................................ ................................ .......... 43
ANEXO A ................................ ................................ ................................ .................... 51
15
1. INTRODUÇÃO
1.1 Endometriose e infertilidade
A endometriose é uma doença ginecológica estrogênio -dependente
comum, debilitante e complexa. É caracterizada pelo implante e crescimento de
tecido endometrial, glândulas e/ou estroma, fora da cavidade uterina (Giudice e
Kao, 2004; Sonavane et al., 2011). Implantes ectópicos podem ser encontrados
em ovários, tubas uterinas, ligamentos útero-sacros, parede abdominal, períneo,
tratos urinário e gastrointestinal, tórax e mucosa nasal (Simoglou et al., 2012).
Considerada um problema de saúde pública, e stima-se que entre 2% e
10% das mulheres na população tenham endometriose e que 30% a 50% das
mulheres com problemas de fertilidade tenham endometriose (ESHRE, 2022).
Os sintomas da endometriose são comuns a outras desordens
ginecológicas e não ginecológicas, não apresentando sintomas
patognomônicos, o que pode dificultar o diagnóstico e impactar negativamente
na qualidade de vida das pacientes (Taylor et al., 2021). Sintomas de desordens
ginecológicas, incluindo dismenorreia primária, cistos ovarianos, doença
inflamatória pélvica e aderências pélvicas, se sobrepõem à endometriose e
distúrbios funcionais do intestino e da bexiga, fibromialgia e distúrbios
musculoesqueléticos também podem apresentar sintomas semelhantes aos da
endometriose (Brawn et al., 2014; Nezhat et al., 2016).
Embora a etiopatogenia da infertilidade relacionada a endometriose ainda
não esteja completamente esclarecida, existem diversas teorias sobre as causas
da doença. Alguns estudos evidenciam que a endometriose, mesmo nos
estágios iniciais (estágios I e II), em que não existem alterações anatômicas
significativas na cavidade pélvica, pode favorecer a subfertilidade. Acredita -se
que os microambientes peritoneal, folicular e endometrial apresentem alterações
pró inflamatórias e estresse oxidativo, impactando negativamente na
foliculogênese, ovulação, qualidade do oócito, receptividade endometrial e na
função espermática (Andrade et al., 2010 ; Agarwal et al., 2012; Da Broi et al.,
2014; Da Broi et al., 2016; Da Broi e Navarro, 2016; Gupta et al., 2008; Jianini et
al., 2017; Sanchez et al., 2017; Malvezzi et al., 2018; Da Broi et al., 2018; Da
Broi et al., 2019; Ferreira et al., 2019).
16
Alterações peritoneais parecem promover um microambiente prejudicial e
pró-oxidativo, podendo haver comprometimento do complexo cumulus -oócito e
do microambiente folicular, impactando negativamente na foliculogênese e,
possivelmente, afetando também a competência oocitária de mulheres com
endometriose. As mudanças peritoneais também podem danificar os
espermatozoides e dificultar a interação dos gametas. Evidências sugerem que
a piora da qualidade gamética está associada ao estresse oxidativo sistêmico e
folicular (Da Broi et al., 2019), uma vez que o uso de antioxidantes foi passível
de reverter os efeitos deletérios da doença sobre marcadores de qualidade
oocitária (Giorgi et al., 2016).
Diversas teorias abordam a etiopatogênese da endometriose. Atualmente,
a teoria que parece melhor aceita é a proposta por Sampson (1927), conhecida
como teoria da menstruação retrógrada, que propõe que parte do tecido
endometrial flua para trás durante a menstruação, chegando até as tubas
uterinas. Dessa maneira, o tecido pode impl antar e crescer fora do útero,
possivelmente sendo também disseminado através do sistema linfático ou
sanguíneo através de diferentes órgãos e formando, assim, lesões de
endometriose.
Miller et al. (2017) sugere que o sistema imunológico de mulheres com
infertilidade relacionada a endometriose pode estar potencialmente disfuncional,
podendo implicar em danos a foliculogênese, qualidade de oócitos e embriões e
receptividade endometrial.
É possível notar através de estudos que existe uma severa complexidade
na etiopatogenia da doença, que provavelmente envolve interações entre
diversos fatores e, portanto, pesquisas relacionadas a infertilidade de mulheres
com endometriose se fazem necessárias para aprofundar o conhecimento
acerca da relação entre essas condições.
1.2 Endometriose e resultados gestacionais
Além de sua forte relação com a infertilidade, diferentes mecanismos vêm
sendo associados aos impactos negativos da endometriose na gravidez.
Eventos hormonais agudos ou crônicos em resposta ao estresse, ev entos
infecciosos ou fatores como estresse oxidativo podem causar um desequilíbrio
17
de citocinas, que ocasiona produção de citocinas inflamatórias relacionadas ao
aumento da contratilidade uterina, amadurecimento do colo do útero e ruptura
de membranas devi do ao enfraquecimento das mesmas, sinais fortemente
relacionados ao parto, mas também relacionados ao aborto espontâneo e ao
parto prematuro (Challis et al., 2009).
A inflamação está envolvida tanto nos principais processos fisiológicos
(menstruação, ovula ção, implantação do embrião e gravidez) quanto em
condições patogênicas no sistema reprodutivo feminino. É um processo usado
como resposta à infecção, irritação ou lesão e é reconhecida como um tipo de
resposta imune não específica (aguda ou crônica). A co ndição de inflamação
exacerbada pode resultar em distúrbios entre o sistema imunológico e endócrino,
predispondo a alterações na gestação (Weiss et al., 2009; Vannuccini et al.,
2016; Vaisi-Raygani e Asgari, 2021). Diabetes mellitus gestacional, hipertensão
gestacional, pré -eclâmpsia e parto prematuro são exemplos de resultados
adversos gestacionais relacionados à inflamação bem estabelecidos (Wolf et al.,
2004; Bodnar et al., 2005; Goldenberg et al., 2008).
Distúrbios reprodutivos como a endometriose e a infertilidade inexplicada
compartilham vias inflamatórias, alterações hormonais, senescência decidual e
anormalidades vasculares que podem comprometer o sucesso da gravidez
(Vannuccini et al., 2016).
Além da inflamação local, peritoneal e sistêmica, mecanis mos como má
qualidade do oócito (prejudicando a implantação do embrião), contratilidade
uterina inadequada e placentação deficiente parecem estar associados à
resultados adversos na implantação, crescimento fetal e duração da gestação
de mulheres com endometriose (Aguilar e Mitchell, 2010; Maggiori et al., 2016).
Maggiori et al. (2016) realizaram uma revisão sistemática de artigos que
examinaram as relações entre endometriose e gravidez, trazendo evidências de
uma associação da endometriose com aborto espon tâneo, parto prematuro,
placenta prévia e recém -nascidos pequenos para a idade gestacional. Além
disso, parece não haver evidências de que a cirurgia profilática evitaria o
potencial impacto negativo da endometriose no resultado da gravidez. Glavind
et al. (2017) indicaram haver um maior risco de pré -eclâmpsia, parto prematuro
(com risco mais elevado para partos muito prematuros) e necessidade de
18
cesariana em mulheres com endometriose quando comparadas com mulheres
sem a doença.
Breintoft et al. (2021) realizaram uma revisão sistemática com metanálise
que apoia a ideia de que a endometriose está associada a aumento no risco de
resultados gestacionais adversos como hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia,
parto prematuro, placenta prévia, descolamento de place nta, necessidade de
cesariana e natimortos. Além disso, também apresenta indícios de associação
da doença com hemoperitônio espontâneo e perfuração intestinal espontânea
na gravidez.
Resultados de estudos mais recentes como o de Gebremedhin et al.
(2023) são semelhantes aos relatados previamente, apoiando a hipótese de que
a endometriose está associada a resultados adversos na gravidez, como maior
risco de pré -eclâmpsia, placenta prévia e parto prematuro. Velez et al. (2022)
também constatou associação da d oença com aumento no risco de distúrbios
hipertensivos da gravidez, parto prematuro, cesariana, indução do trabalho de
parto, placenta prévia, descolamento de placenta, hemorragia pós -parto e
natimortos.
Assim como descrito por Maggiori et al. (2016), é importante destacar que,
aparentemente, não há evidências que comprovem que o procedimento cirúrgico
de retirada das lesões de endometriose traria bons resultados gestacionais. A
eliminação dessas lesões e restauração anatômica local não necessariamente
irá reverter possíveis alterações inflamatórias e biomoleculares relacionadas a
infertilidade (Bafort el al., 2020).
Todavia, estudos observacionais não permitem estabelecermos relações
causais, de modo que a utilização de modelos animais seria de grande valia para
esclarecermos os mecanismos etiopatogênicos envolvidos no potencial impacto
deletério da endometriose na gestação e prole, cujo conhecimento poderá
fundamentar novas abordagens diagnósticas e terapêuticas.
Escassos estudos experimentais investigaram o potencial impacto da
endometriose em resultados gestacionais e perinatais. Bilotas et al. (2015)
estudaram um modelo experimental de endometriose e notaram uma queda na
fertilidade das fêmeas de camundongos com lesões de endometriose, porém
não encontrar am diferenças significativas na taxa de reabsorção fetal, no
19
tamanho da ninhada e no peso dos filhotes ao compararem animais com e sem
endometriose, após realizarem a eutanásia das fêmeas com 18 dias de prenhez.
Elsherbini et al. (2022) avaliaram o impact o da exposição crônica à
endometriose em resultados perinatais através de investigações em fêmeas de
camundongos jovens e idosas. As fêmeas foram submetidas a injeções
intraperitoneais de úteros de doadoras, acasaladas em 1 (jovens) ou 43 dias
(idosas) após o procedimento e eutanasiadas no 18° dia de gestação. O número
de filhotes e reabsorções foi contado, o peso corporal dos filhotes foi medido, e
a lesão de endometriose foi identificada e pesada . Fêmeas jovens não tiveram
alterações significativas entre os grupos, mas as fêmeas acasaladas após maior
tempo de exposição à endometriose experimental apresentaram número de
reabsorções significativamente maior e o peso corporal dos filhotes foi
significativamente menor na endometriose em comparação com o grupo de
controle. O peso total da lesão de endometriose por mãe foi significativamente
menor no grupo de Endometriose Idoso em comparação com o grupo de
Endometriose Jovem , o que pode sugerir que a exposição crônica à
endometriose antes da gestação pode ter impactos negativos nos resultados
perinatais.
Já Hayashi et al. (2020) estabeleceram um modelo de endometriose
ovariana em camundongos que revelou um número significativamente reduzido
de filhotes implantados no grupo experimental. Tan et al. (2023) também
desenvolveram um estudo de endometrioma em camundongos e notaram, além
de uma redução da fertilidade, menores tamanho dos filhotes e peso das
ninhadas de fêmeas com endometrioma experimental, além de maior taxa de
aborto e natimortos nesse grupo quando comparado ao grupo controle (sham).
1.3 Modelo experimental murino
Grande parte dos estudos no campo de ciências da vida utiliza modelo
murino experimental (Mus musculus) para investigar as implicações na saúde e
no corpo humano. Seres humanos e esse modelo compartilham grande parte de
suas características fisiológicas e patológicas. Existem semelhanças na
diferenciação e morte celular e nos mecanismos moleculares pelos quais ambas
as espécies executam processos celulares básicos. Além disso, roedores como
20
ratos e camundongos e humanos também compartilham órgãos e fisiologia
sistêmica e apresentam consistência na patogênese de doenças (Demetrius,
2006; Rosenthal e Brown, 2007).
Por meio de análises comparativas dos genomas de ambas as espécies
é possível relacionar características comuns e realizar manipulações genômicas
no animal para gerar modelos de patologias humanas. Assim, esses animais
podem ser submetidos a experimentos biomédicos que não são possíveis em
pacientes humanos. Conforme ocorre a evolução nos estudos sobre doenças
humanas que roedores normalmente não contraem, existe uma crescente de
abordagens experimentais sendo aplicadas para “humanizar” a fisiologia do
roedor e mimetizar as manifestações clínicas que ocorrem em humanos
(Rosenthal e Brown, 2007).
Camundongos fornecem condições experimentais análogas e resultados
comparáveis aos humanos. Quase 80% dos animais experimentais são
roedores, incluindo ratos, camundongos, cobaias e outros e, comparado a outros
mamíferos, esses animais são baratos, fáceis de manter e simples de criar em
cativeiro. São pequenos, dóceis, rápidos e prolíficos reprodutores ( Rosenthal e
Brown, 2007; Sengupta, 2013).
Considerando a reprodução desses animais, algumas similaridades entre
a placenta de camundongos e humanos s ão relatadas. Em ambas as espécies
é do tipo discoidal, além disso há íntimo contato na barreira materno -fetal,
caracterizando a placentação de humanos e roedores como hemocorial (Burton
et al, 2006).
Existem diversos modelos experimentais murinos para es tudar
mecanismos patogênicos de doenças humanas que cursam com problemas de
placentação, como a diabetes gestacional e a pré-eclâmpsia (Plows et al., 2017;
Chau et al., 2020; Bakrania et al., 2022; Liu et al., 2022; Grupe e Scherneck,
2023). Modelos experi mentais contribuem significativamente para a
compreensão das bases moleculares, patogênese e eficácia terapêutica de
medicamentos em doenças multifatoriais (Chatzigeorgiou et al., 2009).
21
1.3.1 Acasalamento
A evidência de acasalamento nos camundongos pode ser detectada pela
presença de placa vaginal, que pode persistir por 16 a 24 horas após a cópula.
A placa preenche a vagina desde a cérvix até a vulva. A hipófise anterior libera
prolactina para capacitar o corpo lúteo a secretar progesterona por
aproximadamente 13 dias. Se ocorrer fertilização, a placenta assume a produção
de progesterona. Caso a fertilização não ocorra, há um período de
pseudoprenhez, não ocorrendo estro e ovulação durante os 12 dias dessa fase.
A fertilização geralmente ocorre na ampo la do oviduto, 10 a 12 horas após a
ovulação (Ko et al., 2017).
Alguns parâmetros importantes sobre fisiologia e reprodução de
camundongos usados em pesquisa são listados na Tabela 1.
Tabela 1. Fisiologia geral e dados reprodutivos de camundongos Mus musculus (adaptada de
Dutta e Sengupta, (2016) e Ko et al., (2017))
Dados fisiológicos comuns Dados reprodutivos
Tamanho da ninhada 2-10 animais Maturidade sexual macho 6-8 semanas
Peso ao nascer 1-2 gramas Maturidade sexual fêmea 6-8 semanas
Duração do período reprodutivo 10-15 meses Duração do ciclo estral 4-5 dias
Peso macho adulto 20-30 gramas Duração do estro 10-20 horas
Peso fêmea adulta 18-35 gramas Tempo de ovulação 8,5 horas após início do estro
Longevidade 1-3 anos Duração média gestação 20 dias
Volume sanguíneo total 1,5-2,5 mL
1.3.2 Ninhadas
O camundongo nasce sem pelos, com o corpo avermelhado, de olhos
fechados e pavilhões auriculares fechados, aderidos à cabeça. Por volta do
terceiro dia de vida, a pele desses animais começa a clarear ou escurecer
(dependendo da coloração da linhagem), os pelos começam a aparecer e as
orelhas começam a se afastar da cabeça e se abrir. Aos dez dias de vida, abrem
os olhos e, a partir dos quinze dias, já começam a se alimentar de ração que a
mãe fornece. Após o parto, a fêmea amamenta a ninhada e apesar de, aos 18
dias de idade, já estarem aptos ao desmame, linhagens consanguíneas
22
geralmente realizam o desmame por volta de 4 semanas de idade (Andrade e
Oliveira, 2002).
A perda de filhotes e ninhadas parece ser comum na espécie. Fatores
estressantes relacionados a manejo, ambiente, socialização e fatores genéticos
parecem afetar a sobrevivência desses animais (Reeb -Whitaker et al., 2001;
Bond et al., 2002; Gaskill et al., 2009; Gaskill et al., 2013; Weber et al., 2013;
Gaskill et al., 2015; Wasson, 2017; Leidinger et al., 2019). Alguns protocolos
evitam inspecionar as gaiolas de reprodução nos primeiros dias de vida dos
animais, na tentativa de evitar a mortalidade perinatal, mas inspecionar de 12 a
24 horas após o parto pode resultar em subestimação da mortalidade, visto que
adultos canibalizam filhotes mortos, tornando -os incontáveis. Sendo assim, o
adiamento na inspeção pode ser inadequado. Apesar de o infanticídio de filhotes
ser raro em condições normais na criação de camundongos de laboratório, pode
ocorrer (Brajon et al., 2021).
1.4 Endometriose e modelo experimental murino
A endometriose ocorre espontaneamente apenas em humanos e
primatas que eliminam endométrio durante o ciclo menstrual (Jabbour et a l.,
2006; Emera et al., 2012), sendo possível realizar a indução da patologia
cirurgicamente em alguns modelos animais. Neste contexto, um estudo
recentemente publicado estudou um modelo murino de infertilidade relacionada
à endometriose (Rosa e Silva et al., 2019). Neste estudo, foram avaliados quatro
grupos experimentais, sendo um controle (cirurgia simulada) e três grupos de
endometriose induzida pelo transplante peritoneal de 1, 2 ou 4 fragmentos
endometriais de 5 mm de cada lado da parece peritoneal, p rovenientes de
fêmeas doadoras. Um mês após o procedimento cirúrgico, as fêmeas foram
inseridas no mesmo ambiente que machos de fertilidade comprovada, durante
quatro semanas ou até apresentarem sinais de prenhez e as taxas de gestação,
tempo até o parto e tamanho da ninhada foram comparados entre os 4 grupos.
Os autores evidenciaram que as taxas de prenhez foram significativamente
menores nas fêmeas transplantadas com 2 (67%) ou 4 segmentos (57%) de
tecido endometrial (de cada lado da parede peritoneal da fêmea) em comparação
com os grupos controle (100%) ou 1 segmento (100%). Todavia, os animais não
23
evidenciaram aderências peritoneais quando da eutanásia, sugerindo que a
redução da fertilidade observada nestes animais não foi decorrente de fator
anatômico, o que, talvez, permita extrapolar os achados para mulheres com
infertilidade relacionada a endometriose, em que não se observam alterações
significativas da morfologia pélvica.
Os achados de Rosa e Silva et al., (2019) são bastante interessantes, e,
verificar se são reprodutíveis é importante para justificar o seu uso para avaliar
os mecanismos etiopatogênicos da infertilidade relacionada a endometriose,
assim como testar novas intervenções terapêuticas. Aliado a isto, considerando
o potencial impacto negativo da endometriose na gestação e na prole, ainda não
confirmado em estudos experimentais, investigar estes desfechos também é de
grande relevância, justificando a realização do presente estudo.
2. OBJETIVOS
2.1 Objetivo primário
Este trabalho teve como objetivo primário investigar se o transplante de 1
e 2 fragmentos de tecido endometrial em cada lado da parede peritoneal de
camundongos fêmeas promoveria endometriose experimental e redução da
fertilidade natural, avaliada 4 semanas após a realização do pr ocedimento
cirúrgico, comparando animais controle (cirurgia simulada) e animais
transplantados com 1 e 2 fragmentos de tecido endometrial em cada lado da
parede peritoneal.
2.2 Objetivo secundário
O objetivo secundário foi investigar se o transplante de 1 e 2 fragmentos
de tecido endometrial em cada lado da parede peritoneal de camundongos
fêmeas promoveria comprometimento dos resultados gestacionais e perinatais
da prole até o desmame , comparando a duração da prenhez, o tamanho da
ninhada, o peso dos filhotes ao nascer e ao desmame , natimortos, canibalismo
por parte da mãe, perdas gestacionais e retorno ao acasalamento entre animais
com e sem endometriose experimental.
24
3. MATERIAL E MÉTODOS
3.1 Considerações éticas
O presente projeto foi aprovado pela Com issão de Pesquisa do
Departamento de Ginecologia e Obstetrícia, FMRP/USP e pela Comissão de
Ética no Uso de Animais, FMRP/USP, sob o protocolo 163/2020.
3.2 Animais
Foi realizado um estudo experimental, usando o camundongo C57BL/6J
(linhagem Black) como modelo experimental. Foram utilizadas fêmeas com 8 a
12 semanas de vida e machos reprodutores com fertilidade comprovada por
acasalamento e proles anteriores, provenientes do Biotério Central da Faculdade
de Medicina de Ribeirão Preto - Universidade de São Paulo. As fêmeas foram
recebidas do Biotério Central após 6 semanas de vida e mantidas no Biotério de
Cirurgia Experimental até completarem 8-12 semanas de vida. Neste período os
animais foram mantidos em ciclo de claro -escuro de 12 horas com temperatura
controlada e com água e ração Nuvilab ad libitum.
3.3 Delineamento experimental
O estudo conta com quatro grupos experimentais (Figura 1):
Controle 1 (C1): cirurgia simulada com um ponto cirúrgico de cada
lado da parede abdominal da fêmea (total de 19 animais);
Endometriose 1 (E1): cirurgia com sutura de 1 fragmento de 5 mm
de tecido uterino de doadora em cada lado da parede pélvica da receptora,
totalizando 2 fragmentos (total de 20 animais);
Controle 2 (C2): cirurgia simulada com dois pontos cirúrgicos de
cada lado da parede abdominal da fêmea (total de 23 animais);
Endometriose 2 (E2): cirurgia com sutura de 2 fragmentos de 5 mm
de tecido uterino de doadora em cada lado da parede pélvica da receptora,
totalizando 4 fragmentos (total de 22 animais).
25
Pelo fato de o procedimento cirúrgico em si causar uma resposta
inflamatória, optamos por desenvolver grupos sham como controle. Os animais
passaram pelo mesmo procedimento que as fêmeas dos grupos experimentais,
assim eliminamos possíveis efeitos que sejam consequência da cirurgia.
Figura 1. Resumo do delineamento experimental.
Fonte: acervo pessoal.
3.4 Procedimento cirúrgico
Os úteros de 32 doadoras foram removidos por histerectomia sob
anestesia e imersos em tampão de solução salina fisiológica para im plantação
imediata na parede peritoneal de 42 receptoras. Antes da implantação, os cornos
foram separados e o lúmen de cada um foi aberto longitudinalmente.
As fêmeas foram submetidas a laparotomia sob anestesia, com aplicação
de xilazina 2% (5 mg/kg) e cetamina 10% (25 mg/kg) intramuscular, para indução
de endometriose ou cirurgia simulada como controle. Os procedimentos
cirúrgicos foram realizados por cirurgião experiente. A cavidade pélvica foi aberta
por incisão longitudinal mediana de aproximadamente 2 cm, a face peritoneal
interna foi exposta e os fragmentos do útero suturados no local com Vicryl 5.0. A
quantidade total de tecido uterino suturado foi dois fragmentos de tecido de 5
mm por animal no grupo Endometriose 1 (N=21) e quatro fragmentos de teci do
de 5 mm no grupo Endometriose 2 (N=22). Os animais pertencentes ao grupo
controle foram submetidos ao mesmo procedimento, recebendo duas e quatro
suturas de Vicryl 5.0, sem o tecido endometrial (Grupos C1 e C2,
26
respectivamente). A incisão abdominal foi então fechada com Sutura Vicryl 4.0.
Não houve suplementação hormonal ou administração de antibióticos antes ou
após a cirurgia. Para minimizar a dor pós-operatória, todos os animais receberam
analgesia com meloxicam 1,0 mg/kg de peso corporal por meio de injeções
intraperitoneais, a cada 24 horas por 72 horas. Os procedimentos cirúrgicos
estão demonstrados nas Figuras 2, 3 e 4.
Figura 2. Parede abdominal de fêmea de camundongo pertencente ao grupo Controle.
Nota: A: realização do ponto cirúrgico sem a presença de fragmento endometrial. B: Ponto cirúrgico
finalizado. Fonte: acervo pessoal.
Figura 3. Útero e p arede abdominal de fêmea de camundongo pertencente ao grupo
Endometriose 1.
Nota: C: cornos uterinos expostos. D: sutura de um fragmento de tecido uterino suturado na parede
peritoneal da fêmea. Fonte: acervo pessoal.
A B
C D
27
Figura 4. Parede abdominal de fêmea de camundongo pertencente ao grupo Endometriose 2.
Nota: Dois fragmentos de tecido uterino suturados na parede peritoneal da fêmea. Fonte: acervo pessoal.
3.5 Acasalamento dos animais
Quatro semanas após a cirurgia, as fêmeas de cada um dos 4 grupos
foram colocadas em caixas com camundongos machos com fertilidade
comprovada por um período de até 4 semanas. Foram colocadas, no máximo, 2
fêmeas para 1 macho em cada caixa. As fêmeas foram avaliadas diariamente
quanto a sinais de acasalamento e prenhez. A confirmação de acasalamento foi
realizada através de visualização de placa vaginal, quando a fêmea foi separada
do macho e mantida com outras fêmeas até três dias antes da data prevista para
o parto (20 dias após visualização da placa vaginal). Ao atingir esse período de
prenhez, cada fêmea foi isolada em uma gaiola e ali mantida com sua ninhada.
O desenvolvimento da prenhez foi moni torado por meio de pesagens a
cada 2 dias. Não havendo aumento de peso até próximo do sétimo dia após
visualização da placa vaginal, a fêmea era novamente colocada na presença do
macho para acasalar até apresentar plugue ou completar 4 semanas de criada
com macho. Esse ato diminui a possibilidade de a fêmea não ter desenvolvido a
gestação por motivos que não possuam relação com a indução da endometriose
por procedimento cirúrgico, visto que o plugue vaginal indica presença de cópula,
mas a fertilização pode não ter ocorrido.
28
Sabe-se que , na medicina humana, a infertilidade é definida pela
dificuldade de um casal engravidar tendo relações sexuais sem uso de nenhuma
forma de anticoncepção no período de um ano. Apesar de não haver um conceito
definido sobre qua ndo um camundongo é considerado infértil, levamos em
consideração a definição para humanos e permitimos que a fêmea tivesse mais
de uma cópula para evitar possíveis considerações errôneas a respeito da taxa
de gestação.
3.6 Variáveis analisadas
A taxa de prenhez (definida como a porcentagem de animais que
gestaram em relação ao número total de animais do grupo), a duração da
prenhez (número de dias a partir da visualização da placa vaginal até a data do
parto), o número de filhotes por ninhada ao nascer e ao desmame (quatro
semanas após o nascimento), o peso dos filhotes ao nascimento e ao desmame,
natimortos (feto que nasceu morto), presença de canibalismo (prática de um
indivíduo se alimentar de outro da mesma espécie) por parte da mãe, as perdas
gestacionais e necessidade de retorno ao acasalamento foram comparados
entre os grupos. A fêmea foi considerada gestante a partir do momento em que
ganhou peso após apresentar placa vaginal. Duas situações foram consideradas
perda gestacional: a prenhez que passou da data prevista para o parto e a fêmea
perdeu peso gradualmente e a fêmea prenhe que, pouco tempo antes da data
prevista para o parto começou, lentamente, a perder peso. Já a variável retorno
ao acasalamento remete às fêmeas que, após visualização da placa vaginal, não
ganharam peso na primeira semana de acompanhamento e, portanto, foram
novamente colocadas para criar com machos até presença de nova placa vaginal
(ou até completar 30 dias de exposição ao macho).
3.7 Eutanásias
As fêmeas foram submetidas a eutanásia após o desmame dos filhotes e
tecido das lesões de endometriose foi coletado para análise histológica.
Machos após criados com fêmeas e filhotes (após devidas avaliações)
também foram submetidos a eutanásia.
29
As eutanásias dos animais foram re alizadas por meio de deslocamento
cervical para evitar possíveis alterações em parâmetros plasmáticos associadas
ao uso de anestésicos.
3.8 Análise histológica do endométrio ectópico
As lesões de endometriose foram coletadas após eutanásia dos animais
e posicionadas em cassetes histológicos. Macroscopicamente, algumas lesões
eram estruturas ovais translúcidas preenchidas com fluido. Outras lesões
possuíam aspecto amarronzado, com conteúdo espesso e escuro. Além disso,
em algumas fêmeas foram encontradas a derências à intestino, corno uterino e
ovário. Na Figura 5 é possível perceber essas características citadas em apenas
um animal.
Figura 5. Animal eutanasiado apresentando lesões ectópicas de endometriose.
Nota: Em vermelho: lesão oval e preenchida por fluido translúcido. Em azul: lesão de aspecto castanho,
com conteúdo espesso e escuro. Em verde: aderência da lesão em corno uterino e ovário direito. Fonte:
acervo pessoal.
A fixação do material foi realizada com solução formalina neutra
tamponada a 10% pelo período de 24 horas. Após esse período, as lesões foram
30
transferidas para o álcool 70% e mantidas até as próximas etapas de preparação
da lâmina. A etapa de fixação tem por finalidade a interrupção do metabolismo
celular, preservando e conservando elementos teciduais (Santos et al., 2021).
As lesões então passaram pelos processos de clivagem, desidratação,
diafanização, impregnação e inclusão. A microtomia fez cortes com espessura
de 3 micrômetros para passagem de luz e observação do tecido ao microscópio.
A coloração utilizada para a técnica foi hematoxilina e eosina (H.E.), indicada
para observação geral de tecidos (Santos et al., 2021).
Para a leitura da lâmina foi utilizado um microscópio binocular Zeiss Axio
Scope.A1 de luz convencio nal com aumento de 20 vezes e as lâminas foram
visualizadas e analisadas em busca de células endometriais.
3.9 Cálculo amostral
Considerando a gestação como desfecho (variável binária) e assumindo
uma diferença clinicamente relevante de 43% na taxa de g estação entre os
grupos (100% no grupo controle versus 57% no grupo 1; Rosa e Silva et al.,
2019) e assumindo um nível de significância de 5% com um poder de teste de
80%, necessitamos de 16 animais por grupo. O cálculo do tamanho da amostra
foi realizado usando a calculadora implementada no site
https://www.sealedenvelope.com/.
3.10 Análises estatísticas
Foi realizada uma análise exploratória dos dados por meio de medidas de
posição central e dispersão. O g ráfico box plot foi utilizado para verificar a
distribuição dos dados. Após verificar os resultados da análise exploratória de
dados, optamos pela mediana e o intervalo interquartil para sumarizar os
resultados obtidos na amostra.
As variáveis qualitativas (taxas de prenhez, natimortos, perda gestacional,
retorno ao acasalamento e canibalismo ) foram resumidas considerando as
frequências absolutas e relativas. Para verificar se os grupos diferiam em relação
a estas variáveis foi aplicado o teste Qui-Quadrado.
31
À princípio foi utilizado o teste estatístico de Wilcoxon para amostras
independentes para comparar as variáveis quantitativas (duração da prenhez,
número de filhotes por ninhada e pesos dos filhotes ao nascimento e ao
desmame) entre os dois grupos contr ole (C1 e C2) e garantir que não há
diferença estatística entre eles. Após isto, os grupos Controle 1 e Controle 2
foram unificados em grupo Controle, visto que apenas diferem no período em
que foram realizados e o teste não paramétrico de Kruskal Wallis f oi aplicado
para verificar se existe diferença estat isticamente significativa entre os grupos
de estudo (Controle, Endometriose 1 e Endometriose 2) em cada variável
analisada. Quando o teste demonstrou a existência de uma diferença entre os
grupos, realizamos o pós-teste de Dunn para encontrar tal fator.
As análises foram realizadas no programa SAS versão 9.4 e no programa
R versão 4.2.2.
4. RESULTADOS
4.1 Fluxograma do grupo Controle 1
Dezenove fêmeas foram submetidas ao procedimento cirúrgico simulado.
Duas fêmeas morreram: uma fêmea por distocia fetal e outra por aborto seguido
de morte da gestante com 18 dias de prenhez, sem causa aparente , restando
um total de dezessete fêmeas analisadas . Dessas, três fêmeas cometeram
canibalismo de seus filhotes e não foi possível checar as variáveis ao desmame.
Além disso, uma fêmea perdeu a gestação aos 18 dias de prenhez.
4.2 Fluxograma do grupo Controle 2
Vinte e três fêmeas foram submetidas ao procedimento cirúrgico
simulado. Duas fêmeas morreram no decorrer do es tudo: uma fêmea com
ninhada de 14 dias e outra com ninhada de 5 dias, ambas sem causas aparentes,
restando um total de vinte e uma fêmeas analisadas. Dessas, nenhuma fêmea
cometeu canibalismo dos filhotes, mas três fêmeas perderam gestações: a
primeira fêmea perdeu a gestação com 14 dias de prenhez, após retornar ao
acasalamento duas vezes. A segunda fêmea perdeu a gestação aos 21 dias de
32
prenhez (houve perda de peso sem sinais de parto na gaiola) e a terceira fêmea
perdeu a gestação com 13 dias de prenhez, após retornar ao acasalamento duas
vezes.
4.3 Fluxograma do grupo Endometriose 1
Vinte fêmeas foram submetidas ao procedimento cirúrgico para indução
de endometriose. Uma fêmea morreu no decorrer do estudo por distocia fetal,
restando dezenove fêmeas. Dessas, uma fêmea cometeu canibalismo dos
filhotes, e não houve perda gestacional.
4.4 Fluxograma do grupo Endometriose 2
Vinte e duas fêmeas foram submetidas ao procedimento cirúrgico para
indução de endometriose. Nenhuma fêmea desse grupo morreu duran te o
decorrer do estudo. Quatro fêmeas cometeram canibalismo dos filhotes. Houve
uma perda gestacional de fêmea com 15 dias de prenhez, após retornar ao
acasalamento uma vez. Uma fêmea desse grupo foi encontrada sem ninhada
imediatamente após o parto, portanto não foi possível monitorar esses filhotes.
A Figura 6 resume as perdas de animais durante o experimento. As
ninhadas foram eutanasiadas por meio de dose excessiva de isoflurano após
detecção da morte das mães. Nenhum animal teve complicação pós-cirúrgica.
33
Figura 6. Perdas de animais por morte durante o experimento.
Fonte: acervo pessoal.
4.5 Histologia
Foi realizada a confirmação histológica das lesões ectópicas de
endometriose em todos os animais submetidos ao procedimento cirúrgico (como
exemplificado nas Figuras 7, 8 e 9).
Figura 7. Fragmentos uterinos de diferentes animais vistos no aumento de 5x em microscopia
ótica.
Fonte: acervo pessoal.
34
Figura 8. Fragmentos uterinos de diferentes animais visto no aumento de 10x em microscopia
eletrônica.
Fonte: acervo pessoal.
Figura 9. Células endometriais vistas no aumento de 40x em microscopia eletrônica.
Nota: células endometriais destacadas por círculo vermelho. Fonte: acervo pessoal.
4.6 Variáveis analisadas
À princípio, as taxas d e prenhez, tempo de gestação, número total de
filhotes ao nascer, número de filhotes vivos ao nascer, peso da ninhada ao
nascer, número de filhotes vivos no desmame e peso da ninhada ao desmame
foram comparados entre os grupos Controle 1 e Controle 2. Não houve diferença
estatisticamente significativa nestas variáveis entre os grupos controle 1 e
controle 2 (Tabela 2), de modo que foram agrupados como grupo Controle (C)
e, a seguir, comparado com os grupos experimentais Endometriose 1 e
Endometriose 2.
35
Tabela 2. Comparação dos resultados gestacionais nos grupos Controle 1 e Controle 2
Variável Controle 1
N = 17
Controle 2
N = 21
p
Taxa de prenhez (%) 100% 100%
Tempo gestação 20 (20; 21) 20 (20; 20) 0,2754
Total filhotes nascimento 8 (7,5; 9) 8 (7; 9) 1,000
Filhotes vivos nascimento 8 (7; 8) 8 (7; 9) 0,7717
Peso ninhada nascimento 10 (8; 10) 10 (8; 10) 0,7963
Filhotes desmame 6 (4,5; 7) 7 (6; 7) 0,2792
Peso ninhada desmame 108 (102; 118) 102 (96; 106) 0,0842
Nota: dado apresentado como mediana (quart il inferior; quartil superior). N= número. p<0,05 considerado
estatisticamente significante. Teste estatístico da soma dos postos de Wilcoxon. Tempo de gestação: dias.
Pesos ninhadas nascimento e desmame: gramas.
Não observamos diferença estatisticamente significativa nas taxas de
gestação, tempo de gestação, número total de filhotes ao nascimento e número
de filhotes vivos ao nascimento ao compararmos os grupos C, E1 e E2 ( Tabela
3).
O peso da ninhada ao nascer foi significativamente menor em E2 quando
comparado aos grupos C (p= 0,0467) e E1 (0,0004) e significativamente maior
em E1 quando comparado ao C (p=0,0183) (Tabela 3).
O número de filhotes vivos ao desmame foi significativamente menor em
E2 quando comparado aos grupos C (p= 0,0398) e E1 (0,0004) e
significativamente maior em E1 do que no C (p=0,0197) (Tabela 3).
O peso da ninhada ao desmame foi significativamente menor em E2
quando comparado ao e E1 (0,0009 ), mas não houve diferença dessa variável
entre E2 e C. O peso da ninhada ao desmame foi maior em E1 quando
comparado ao grupo C (p=0,0076) (Tabela 3).
Não houve diferença estatisticamente significativa nas taxas de retorno ao
acasalamento, perda gestacional, natimortos e canibalismo ao compararmos os
grupos C, E1 e E2 (Tabelas 4 e 5 ). Enquanto 23,6% das fêmeas do grupo
Controle não emprenharam na primeira vez que apresentaram placa vaginal, o
mesmo ocorreu em 10,5% (1/10) das fêmeas do grupo E1 e em 4,5% (1/25) das
fêmeas do grupo E2 (Tabela 4). Apesar de não haver diferença estatisticamente
significativa no número de natimortos entre os três grupos, em pouco mais que
1/5 (23,5%) das fêmeas pertencentes ao grupo C foi possível notar a presença
de filhotes mortos ao nascimento. Já nos grupos E1 e E2 a porcentagem de
36
fêmeas com filhotes natimortos foi de 42,1% (poucos mais que 2/5) e 40% (2/5),
respectivamente (Tabela 5 ). Apesar de não haver diferença estatisticamente
significativa também na taxa de canibalismo entre os 3 grupos, no grupo C, 1/10
(8,8%) das fêmeas cometeram ato de canibalismo, no grupo E1, 1/20 (5,2%) das
fêmeas e no grupo E2, 1/5 (20%) das fêmeas (Tabela 5).
Tabela 3. Comparação dos resultados gestacionais observados nos grupos Controle,
Endometriose 1 e Endometriose 2
Nota: N= número. Tempo de gestação: dias. Pesos ninhadas nascimento e desm ame: gramas. Dados
apresentados como mediana (quartil inferior; quartil superior). A mesma letra na mesma linha significa
presença de diferença significativa (p<0,05). Teste estatístico Kruskal-Wallis e pós-teste Dunn.
Tabela 4. Comparação de e retorno a o acasalamento e perda gestacional observados nos
grupos Controle, Endometriose 1 e Endometriose 2
Variável Controle
N = 38
Endometriose 1
N = 19
Endometriose 2
N = 22 p
Retorno acasalamento 9 (23,68%) 2 (10,53%) 1 (4,55%) 0,1117
Perda gestacional 4 (10,53%) 0 (0%) 1 (4,55%) 0,2821
Nota: dado apresentado como frequência e porcentagem. N= número. p<0,05 considerado estatisticamente
significante. Teste estatístico Qui-quadrado.
Tabela 5. Comparação de natimortos e presença de canibalismo observados nos g rupos
Controle, Endometriose 1 e Endometriose 2
Variável Controle
N = 34
Endometriose 1
N = 19
Endometriose 2
N = 20 p
Natimortos 8 (23,53%) 8 (42,11%) 8 (40%) 0,2809
Canibalismo 3 (8,82%) 1 (5,26%) 4 (20%) 0,2914
Nota: dado apresentado como frequência e porcentagem. N= número. p<0,05 considerado estatisticamente
significante. Teste estatístico Qui-quadrado.
Variável Controle
N = 38
Endometriose 1
N = 19
Endometriose 2
N= 22 p
Taxa de gestação 100% 100% 100%
Tempo gestação 20 (20; 20) 20 (20; 20) 20 (20; 20) 0,17
Total filhotes nascimento 8 (7; 9) 9 (8; 10) 8 (7; 8,5) 0,13
Filhotes vivos nascimento 8 (7; 8) 8 (7; 9) 8 (6,5; 8) 0,23
Peso ninhada nascimento 10 (8; 10) ac 10 (10; 12) ab 8 (6; 10) bc 0,00001
Filhotes desmame 7 (5; 7) ac 8 (7; 8) ab 5 (3,5; 7) bc 0,00001
Peso ninhada desmame 104 (96; 112) a 116 (110; 128) ab 96 (67; 109) b 0,01
37
5. DISCUSSÃO
Inicialmente observamos que o transplante de um ou dois fragmentos de
tecido uterino em cada lado da parede peritoneal de fêmeas de camundongo não
comprometeu a taxa de prenhez dos animais, evidenciando que o modelo não é
adequado para o estudo da infertilidade relacionada a endometriose. Esse fato
não corrobora com o estudo de Rosa e Silva et al. (2019) que, ao compararem
quatro grupos: Sham (cirurgia simulada), Endometriose 1 (sutura de 1 fragmento
de tecido uterino na parede pélvica), Endometriose 2 (sutura de 2 fragmentos de
tecido uterino) e Endometriose 4 (sutura de 4 fragmentos), não encontraram
diferença significativa entre as taxa s de gestação dos grupos Sham e
Endometriose 1, porém encontraram uma redução significativa da fertilidade nos
grupos Endometriose 2 e 4. Neste contexto, é importante salientarmos que o
procedimento cirúrgico experimental no nosso trabalho foi realizado por cirurgião
experiente e, além disso, na eutanásia foram visualizadas lesões macroscópicas
compatíveis com as de endometriose em todas as fêmeas operadas. Também
confirmamos histologicamente a presença de tecido endometrial em todos os
animais dos grupos experimentais, de modo que nossos dados são confiáveis.
A técnica de transplante de fragmentos uterinos murinos para testar o
modelo de infertilidade relacionada a endometriose foi selecionada de acordo
com o que havia disponível quando o nosso projeto com eçou a ser realizado,
mas atualmente já existem outros estudos, como de Hayashi et al. (2020) e Tan
et al. (2023) , que desenvolveram endometriose em modelos translacionais por
meio de procedimentos diferentes. Questionamos se o transplante de maior
quantidade de tecido uterino poderia comprometer a fertilidade de uma parcela
das fêmeas. Também questionamos se outros modelos de endometriose
experimental murino poderão ser adequados para o estudo da infertilidade , o
que precisará ser avaliado em estudos futuros.
Investigamos também se o transplante de 1 e 2 fragmentos de tecido
endometrial em cada lado da parede peritoneal de camundongos fêmeas
promoveria comprometimento dos resultados gestacionais e perinatais da prole
até o desmame . Evidenciamos que os implantes endometriais não interferiram
no tempo de gestação e no tamanho da ninhada ao nascer de acordo com
nossos resultados e, o estudo de Rosa e Silva et al. (2019), corrobora com esses
38
achados. P orém, nesse trabalho , não foi realizado o acompanhamento das
ninhadas até o desmame e, até o momento, não foram encontrados, na literatura,
trabalhos que acompanharam as ninhadas pelo período de 30 dias após o parto.
Se por um la do o implante de endométrio ectópico não comprometeu a
fertilidade, o tempo de gestação, o total de filhotes e o número de filhotes vivos
ao nascimento , por outro, tanto dois quanto quatro fragmentos de tecido
endometrial implantados promoveram algumas alterações nos desfechos
gestacionais e/ou perinatais avaliados.
O grupo E1 teve o peso da ninhada ao nascer e ao desmame
significativamente maior quando comparado aos grupos C e E2. Na tentativa de
procurar explicações para estes achados, supomos que o desenvolvimento
desses filhotes poderia ser comparado ao desenvolvimento de bebês humanos
recém-nascidos grandes para a idade gestacional. A exposição a um ambiente
intrauterino adverso pode resultar em alterações epigenéticas durante o
desenvolvimento, resultando em alterações na estrutura e função de órgãos e
sistemas de controle na prole (Bark er, 1995). Um exemplo disso é a exposição
à hiperglicemia materna, que pode contribuir para o aumento da obesidade,
intolerância à glicose, hipertensão, dislipidemia e risco cardiovascular alterado
nos descendentes, sabe -se que existe uma forte associação entre a diabetes
gestacional e a hiperglicemia materna (Ma et al., 2015). Há tempos estudos
levam a crer que existe uma relação direta entre o diabetes gestacional e recém-
nascidos grandes para a idade gestacional (Formby et al., 1987; Vohr et al.,
1999). O diabetes, assim como a endometriose, é uma doença inflamatória
também relacionada ao estresse oxidativo e distúrbios imunológicos, sendo o
diabetes gestacional relacionado a inflamação sistêmica e a endometriose
relacionada a inflamação crônica (Richards on e Carpenter, 2007; King et al.,
2008; López -Tinoco et al., 2013; Shang et al., 2015). O estado inflamatório
poderia levar a complicações na gestação que impactem no desenvolvimento
fetal, podendo afetar o aporte de nutrientes ao feto. Acreditamos que as
semelhanças em ambas as doenças podem ser uma hipótese para justificar o
maior peso dos filhotes pertencentes ao grupo E1, fato que permaneceu desde
o nascimento até o período de desmame, porém a conexão entre a endometriose
e esses resultados não está estabelecida na literatura.
39
Por outro lado, evidenciamos que o peso da ninhada ao nascer e o
número de filhotes vivos ao desmame foi significativamente menor em E2
quando comparado aos grupos C e E1. Além disso, o peso da ninhada ao
desmame foi significativamente menor em E2 quando comparado ao E1, porém
sem diferença quando comparado ao C. Esses dados demonstram que as
ninhadas provenientes de fêmeas com maior número de fragmentos uterinos
transplantados podem ter desenvolvimento prejudicado durante a gestação,
nascendo com menor peso e apresentando maior mortalidade perinatal. Porém,
os filhotes que sobrevivem, parecem conseguir recuperar o peso ao desmame ,
visto que não há diferença significativa entre os grupos E2 e C na variável peso
dos filhotes ao desmame.
Tan et al. (2023) desenvolveram um modelo de endometriose ovariana ,
aplicando fragmentos de tecido uterino na bolsa ovariana de camundongos
receptoras. D emonstraram, além de redução da fertilidade de fêmeas
pertencentes ao grupo experimental, redução do número e tamanho dos filhotes
ao nascer , similarmente ao que observamos no grupo E2 do nosso estudo .
Apesar de não podermos relacionar diretamente esses achados com os nossos
resultados, uma vez que o modelo experimental é distinto, não há mais detalhes
sobre o desenvolvimento dos filhotes, o que dificulta nossa comparação no que
diz respeito à recuperação do peso dos filhotes ao desmame.
As revisões de literatura e meta-análises de Bruun et al. (2018) e de Zullo
et al. (2017) demonstram que mulheres co m endometriose e adenomiose
possuem maior probabilidade de parto prematuro e restrição de crescimento
intrauterino, culminando em recém -nascidos pequenos para idade gestacional.
Horton et al. (2019) publicaram uma revisão sistemática e meta -análise a
respeito de resultados neonatais de mulheres com endometriose, concluindo que
a doença pode impactar de forma negativa parâmetros como peso ao nascer
adequado para o período gestacional e necessidade de internação neonatal por
complicações variadas. Uma metanálise recentemente publicada (Breintoft et al.,
2021) evidenciou que a endometriose está associada a aumento no risco de
resultados gestacionais adversos em mulheres, como hipertensão gestacional,
pré-eclâmpsia, parto prematuro, placenta prévia, descolamento de placenta,
necessidade de cesariana e natimortos. Gebremedhin et al. (2023) e Velez et al.
(2022) também destacam a associação de aumento no risco de distúrbios
40
hipertensivos da gravidez, parto prematuro, necessidade de cesariana, indução
do trabalho de parto e natimortos em mulheres com endometriose. Alguns destes
desfechos gestacionais adversos podem favorecer a restrição de crescimento
intrauterino, cursando com o nascimento de recém -nascidos pequenos para a
idade gestacional. Crianças nascidas pequen as para idade gestacional (PIG)
(Hokken-Koelega et al., 2023) possuem maior risco de morbidade perinatal,
estatura baixa persistente e alterações metabólicas (Clayton et al, 2007). Além
disto, o baixo peso ao nascer é considerado uma causa importante de morbidade
e mortalidade na primeira infância e na infância. (Clayton et al, 2007). Grande
parte dos recém-nascidos PIG a termo alcança crescimento compensatório até
2 anos de vida, principalmente no que diz respeito ao peso, que supera o
aumento de comprimento (Huang et al., 2018). Questionamos, assim, se o grupo
E2 poderia ser utilizado como modelo translacional para investigar o papel da
endometriose em alguns dos desfechos gestacionais adversos observados em
humanos, assim como nos mecanismos associados, o que precisa ser mais bem
estudado em estudos futuros.
As taxas de retorno ao acasalamento, perda gestacional, natimortos e
canibalismo não foram estatisticamente diferentes entre os grupos C, E1 e E2 .
Todavia, é interessante notar que os grupos E1 e E2 apresentaram uma taxa de
natimortos clinicamente mais elevada (42,1 e 40%, respectivamente) do que o
grupo C (23,5%) e o grupo E2 apresentou taxa de canibalismo (20%) maior
quando comparado aos outros grupos (8,8 e 5,3%, respectivamente nos grupos
C e E1). É possível que, se esses parâmetros forem mantidos, em estudos com
maiores casuísticas, evidenciarão impacto adverso em ambas as variáveis,
sendo mais um desfecho gestacional negativo relacionado ao modelo murino de
endometriose. Enquanto tais estudos não são desenvolvidos, nossa hipótese
para explicar a aparente maior fragilidade dos fetos pertencentes aos grupos
experimentais é um possível estresse sistêmico que os implantes endometriais
trariam à fêmea. O estresse de variadas origens vem sendo, há muito tempo,
apontado como causa de fêmeas de camundongos negligenciarem, matarem
e/ou comerem suas ninhadas (Poley, 1974; Elwood, 1991). O canibalismo
parece ser incomum e, quando ocorre, geralmente é observado nos dois
primeiros dias de vida dos filhotes, acon tecendo principalmente com filhotes já
mortos, para manutenção do ninho limpo. O infanticídio parece ser raro e est á
41
associado a fatores estressantes para a mãe (Neto et al., 2015; Ko et al., 2017;
Brajon et al., 2021). Neste contexto, Li et al., 2018 desenvolveram endometriose
experimental em modelo murino, por meio de procedimento cirúrgico semelhante
ao realizado em nosso trabalho, e evidenciaram que as fêmeas pertencentes ao
grupo endometriose parecem possuir maior ansiedade, menor atividade
locomotora e maior sensibilidade a dor quando comparadas às fêmeas do grupo
sham. Todos esses sinais podem ser relacionados a fatores estressantes para a
mãe, o que nos faz refletir sobre a possiblidade do estresse relacionado à dor no
local dos implantes ectópicos ter impactado diretamente nos possíveis achados
de negligência e canibalismo por parte das fêmeas pertencentes ao grupo E2.
Larauche et al., 2012 sugerem que a dor crônica, o estresse e funções
executivas compartilham circuitos neurais centrais comuns em roedores, sendo
que alterações estruturais e funcionais que ocorrem no cérebro induzidas pela
dor e pelo estresse crônicos podem resultar até mesmo em prejuízo no
desempenho cognitivo. Sugerimos que esses fatores podem estar relacionados
a negligência das ninhadas por parte das mães, mas destacamos a importância
de estudos com maior casuística para comprovação.
6. CONCLUSÃO
Este trabalho teve como objetivos investigar se o transplante de 1 e 2
fragmentos de tecido endometrial em cada lado da parede peritoneal de
camundongos fêmeas promoveria endometriose experimental e redução da
fertilidade natural e se o transplante também promoveria comprometimento dos
resultados gestacionais e perinatais da prole até o desmame, comparando a
duração da prenhez, o tamanho da ninhada, o peso dos filhotes ao nascer e ao
desmame, natimortos, canibalismo por parte da mãe, perdas gestacionais e
retorno ao acasalamento entre animais com e sem endometriose experimental.
A endometriose experimental com sutura de fragmentos de tecido
endometrial no peritônio de animais não comprometeu a fertilidade das fêmeas
após 4 semanas do procedimento de indução de endometriose ao compararmos
os grupos experimentais ao grupo controle, sugerindo que esse não é um modelo
translacional adequado para o estudo da infertilidade relacionada a
endometriose.
42
Até o momento, nosso estudo parece ser o primeiro que avalia desfechos
gestacionais e perinatais até 30 dias de vida das ninhadas provenientes de
modelo animal de endometriose. Evidenciamos que fêmeas transplantadas com
2 fragmentos de endométrio ectópico tiveram ninhadas com maior peso ao
nascer e ao desmame e maior número de filhotes vivos ao desmame. Por outro
lado, fêmeas transplantadas com 4 fragmentos de endométrio ectópico tiveram
ninhadas com meno r peso ao nascer e menor número de filhotes vivos ao
desmame. Esses dados demonstram que as ninhadas provenientes de fêmeas
com maior número de fragmentos uterinos transplantados podem ter
desenvolvimento prejudicado durante a gestação, nascendo com menor peso e
apresentando maior mortalidade perinatal. Todavia, estudos subsequentes, com
casuísticas adequadas para analisar os desfechos citados , devem ser
desenvolvidos para melhor avaliação se esse pode ser um modelo adequado
para investigar o impacto da end ometriose experimental em resultados
gestacionais e perinatais.
Também consideramos importante refletir sobre os desafios de encontrar
um modelo translacional adequado para estudar o potencial impacto da
endometriose na fertilidade e desfechos gestacionais e perinatais. O fato de a
endometriose espontânea não ocorrer em camundongos e as diferenças entre a
fisiologia de humanos e camundongos nos levam a reconhecer que precisamos
aprofundar os estudos acerca de como a doença se comporta no modelo murino
antes de afirmarmos que esse possa ser um modelo adequado para estudarmos
estes desfechos relacionados a endometriose.
43
REFERÊNCIAS
AGARWAL, Ashok et al. The effects of oxidative stress on female reproduction:
a review. Reproductive biology and endocrinology, v. 10, p. 1-31, 2012.
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ANEXO A