{"paper_id":"8227c23b-33db-46cc-b1df-ff81de255a3f","body_text":"UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO \nFACULDADE DE MEDICINA DE RIBEIRÃO PRETO \nDEPARTAMENTO DE GINECOLOGIA E OBSTETRÍCIA \nSETOR DE REPRODUÇÃO HUMANA \n \n \n \n \n \n \n \nFertilidade, resultados gestacionais e perinatais relacionados a \nendometriose experimental em modelo murino \n \n \n \n \n \n \n  \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \nRibeirão Preto \n2023 \n\n \n \n \nNATHALIA FRANZONI SMARGIASSI \n \n \n \n \n \n \n \n \nFertilidade, resultados gestacionais e perinatais relacionados a \nendometriose experimental em modelo murino \n \n \n \n \nVersão corrigida. A versão original encontra-se disponível tanto na Biblioteca da Unidade \nque aloja o Programa, quanto na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP \n(BDTD) \n \n \nDissertação apresentada ao Programa de \nPós-Graduação em Ginecologia e \nObstetrícia da  Faculdade de Medicina de \nRibeirão Preto para obtenção do título de \nMestre em Ciências  \n \nÁrea de Concentração: Ginecologia e \nObstetrícia – Opção: Biologia da \nReprodução \n \nOrientadora: Profª. Dra. Paula Andrea de \nAlbuquerque Salles Navarro \n \n \n \nRibeirão Preto \n2023  \n\n \n \n \nAutorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer \nmeio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que \ncitada a fonte. \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n  \nSmargiassi, Nathalia Franzoni \n \n Fertilidade, resultados gestacionais e perinatais relacionados a \nendometriose experimental em modelo murino / Nathalia Franzoni Smargiassi; \norientadora, Paula Andrea de Albuquerque Salles Navarro. Ribeirão Preto: \nFaculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, 2023  \n  \n51p. : il. ; 30 cm \n  \n Dissertação (Mestrado em Ciências)  - Programa de Pós -Graduação em \nGinecologia e Obstetrícia, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, \nUniversidade de São Paulo, São Paulo, 2023. \n  \n  \n 1. Endometriose; 2. Infertilidade; 3. Modelo murino; 4. Morbidade gestacional; \n5. Prole. \n  \n \n \n \n\n \n \n \nNome: SMARGIASSI, Nathalia Franzoni \n \nTítulo: Fertilidade, resultados gestacionais e perinatais relacionados a \nendometriose experimental em modelo murino \n \nDissertação apresentada ao Programa de Pós -Graduação em Ginecologia e \nObstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto para obtenção do título \nde Mestre em Ciências. \n  \nAprovada em: 22 de novembro de 2023. \n \nBanca Examinadora  \nProfª. Dra.: Paula Andrea de Albuquerque Salles Navarro \nInstituição: Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São \nPaulo  \nJulgamento: Aprovada \n \nProfª. Dra.: Marcia Mendonça Carneiro \nInstituição: Universidade Federal de Minas Gerais \nJulgamento: Aprovada \n \nProf. Dr.: Eduardo Schor \nInstituição: Universidade Federal de São Paulo \nJulgamento: Aprovada \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n \n \n \nAGRADECIMENTOS \nÀ Deus. \nÀ minha orientadora Profª. Dra. Paula Andrea de Albuquerque Salles Navarro, por ser \num exemplo de profissional a ser seguido  e por toda a paciência e dedicação ao me \nensinar tanto. Serei eternamente grata pelos conselhos, acolhimento e amizade. \nÀ Profª. Dra. Juliana Meola, pelos conselhos, oportunidades de aprendizado e, \nprincipalmente, pelo acolhimento e carinho. \nAo Prof. Dr. Julio Cesar Rosa e Silva, por todos os ensinamentos, conselhos e \ndedicação ao me ensinar. \nÀ Prof. Dra. Ana Carolina Japur de Sá Rosa e Silva, pelos ensinamentos e apoio. \nÀ Caroline Mantovani, pela amizade, parceria, por todo o apoio e gentileza ao me treinar \ne pelo auxílio nos experimentos. \nÀ técnica Cristiana Padovan, pelo auxílio nos experimentos, ensinamentos e conselhos, \nsempre com boas risadas. \nÀ técnica Maria Aparecida Vasconcelos pelo carinho, acolhimento, pelos ensinamentos \ne apoio nos experimentos. \nAos técnicos José Carlos Vanni e Danniely Nair da Silva Barros pelo auxílio nos \nexperimentos. \nÀ técnica Paula Payão, pela amizade, pelo apoio durante todos os momentos e auxílio \nnos experimentos.  \nÀ estatística Suleimy Mazin, pela ajuda e paciência. \nÀ secretária Suelen Soares, pela ajuda e por todo o apoio. \nÀ comissão organizadora do 4° Curso de Inverno em Saúde da Mulher , p elo \naprendizado e amizade. \nÀ minha querida Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (UNESP – Jaboticabal) \ne todas as amizades que me proporcionou, pela minha formação profissional e pessoal. \nAos meus pais, Maria Cristina e Edemir por toda o amor, dedicação, paciência, suporte \ne, principalmente, por sempre me apoiarem. \nÀ minha irmã Mariana e meus primos Lucas e Thiago, por serem meu porto seguro.  \nAo meu melhor amigo e namorado Iago, pelo amor, compreensão e por estar sempre \nao meu lado. \nÀ Mell, Suri, Sophia, Clara e Cecília, minhas companheiras leais, pela contribuição direta \nem me tornar uma profissional melhor a cada dia e pela companhia e amor  \nincondicionais. \nÀ Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) por \nmeio do Programa de Excelência Acadêmica (PROEX) pelo apoio financeiro.  \n\n \n \n \nÀ Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo  (FAPESP) pelo apoio \nfinanceiro através do auxílio a projetos de pesquisa (Processo Nº 2021/13512-6).  \nAo Programa de Pós -Graduação em Ginecologia  e Obstetrícia, Departamento de \nGinecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de \nSão Paulo (USP) pelo suporte financeiro e estrutural.  \nAos membros da banca avaliadora pela disponibilidade e pelas contribuições. \nDe modo muito especial, aos animais que contribuíram para que esse estudo fosse \nrealizado. \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n“Às vezes é época de flores; em outra estação está tudo seco e parece que \nnunca mais veremos uma folha! São apenas nossos sentidos nos pregando \numa peça. Sabemos, na alma, que a vida está lá, debaixo do solo em forma de \nsementes, ganhando força para brotar com os raios de sol da primavera e tudo \no que temos que fazer é aguardar o tempo certo. Não é possível apressar; \nsequer precisamos ter esperança, porque vai acontecer!” \n(Mariana Rios, 2020) \n \n \n“Eu quase que nada não sei. \nMas desconfio de muita coisa.” \n(Guimarães Rosa, 1956) \n \n\n \n \n \nRESUMO \nSMARGIASSI, N. F. Fertilidade, resultados gestacionais e perinatais \nrelacionados a endometriose exp erimental em modelo murino . 2023. \nDissertação (Mestrado em Ciências) – Programa de Pós -Graduação em \nGinecologia e Obstetrícia, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, \nUniversidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2023. \n \nA endometriose está relacionada à infertilidade e ao aumento do risco de \nefeitos adversos gestacionais e neonatais, cujos mecanismos precisam ser \nmelhor esclarecidos para fundamentar novas abordagens terapêuticas. \nRecentemente foi identificado um modelo murino de infertilidade relacionada à \nendometriose, cuja infertilidade foi avaliada por um mês após o procedimento \ncirúrgico de indução da endometriose experimental. Para saber se este modelo \npoderá ser usado em estudos de intervenção terapêutica, é importante testá -lo \ne entendê -lo, inclusive no  sentido de investigar seus potenciais impactos na \ngestação e prole. Desta forma, objetivamos investigar se o transplante de 1 e 2 \nfragmentos de tecido endometrial em cada lado da parede peritoneal de \ncamundongos fêmeas promove endometriose experimental e redução da \nfertilidade natural por 4 semanas após a realização do procedimento cirúrgico. \nAlém disso, comparamos a duração da prenhez, o tamanho da ninhada, os \npesos dos filhotes ao nascer e ao desmame, assim com as taxas de retorno ao \nacasalamento, perdas gestacionais, natimortos e canibalismo entre animais dos \ngrupos experimentais. Para isso, foi desenvolvido um estudo experimental em \nque as fêmeas foram divididas em 4 grupos: grupo controle 1 (cirurgia simulada), \ngrupo endometriose 1 (transplante periton eal de 2 fragmentos de tecido \nendometrial de 5 mm cada), grupo controle 2 (cirurgia simulada), grupo \nendometriose 2 (transplante peritoneal de 4 fragmentos de tecido endometrial de \n5 mm cada), e, criadas com machos férteis após 4 semanas do procedimento \ncirúrgico.  As fêmeas prenhas foram eutanasiadas após o desmame da ninhada. \nApós a eutanásia foi coletado tecido dos implantes dos grupos experimentais \npara análise histológica. Não observamos diferença estatisticamente significativa \nnas taxas de gestação, t empo de gestação, número total de filhotes ao \nnascimento, número de filhotes vivos ao nascimento, retorno ao acasalamento, \nperda gestacional, natimortos e canibalismo ao compararmos os grupos C, E1 e \nE2. Observamos que o peso da ninhada ao nascer foi menor  em E2 quando \n\n \n \n \ncomparado aos grupos C (p= 0,0467) e E1 (0,0004) e maior em E1 comparado \nao C (p=0,0183). O número de filhotes vivos ao desmame foi menor em E2 \ncomparado aos grupos C (p= 0,0398) e E1 (0,0004) e maior em E1 comparado \nao C (p=0,0197). O peso da ninhada ao desmame foi menor em E2 comparado \nao E1 (0,0009), mas não houve diferença dessa variável entre E2 e C. O peso \nda ninhada ao desmame foi maior em E1 comparado ao grupo C (p=0,0076).  A \nendometriose experimental com sutura de fragmentos de tecido  endometrial no \nperitônio de camundongos não comprometeu a fertilidade das fêmeas após 4 \nsemanas do procedimento de indução de endometriose ao compararmos os \ngrupos, sugerindo que esse não é um modelo translacional adequado para o \nestudo da infertilidade relacionada a endometriose. Fêmeas transplantadas com \n2 fragmentos de endométrio ectópico tiveram ninhadas com maior peso ao \nnascer e ao desmame e maior número de filhotes vivos ao desmame. Fêmeas \ntransplantadas com 4 fragmentos de endométrio ectópico tiveram ninhadas com \nmenor peso ao nascer e menor número de filhotes vivos ao desmame.  Esses \nachados indicam que ninhadas provenientes de fêmeas com maior número de \nfragmentos uterinos transplantados podem ter desenvolvimento prejudicado \ndurante a gestação, apr esentando menor peso ao nascer e maior mortalidade \nperinatal, mas estudos com casuísticas adequadas para esses desfechos devem \nser feitos para melhor avaliação se esse é um modelo adequado para investigar \no impacto da endometriose experimental em resultado s gestacionais e \nperinatais. \n \nPalavras-chave \nEndometriose, infertilidade, modelo murino , morbidade gestacional, \nprole. \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n \n \n \nABSTRACT \nSMARGIASSI, N. F. Fertility, pregnancy outcomes and perinatal results \nrelated to experimental endometriosis in a murine model. 2023. Dissertation \n(Master’s Degree in Sciences) – Graduated Program in Gynecology and \nObstetrics, Ribeirão Preto Medical School, University of São Paulo, Ribeirão \nPreto, 2023. \n \nEndometriosis is related to infertility and an increased risk of advers e \npregnancy and neonatal outcomes, the mechanisms of this disease need to be \nbetter understood to support new therapeutic approaches. Recently, a murine \nmodel of endometriosis related to infertility was developed, and its infertility was \nassessed for one m onth following the surgical induction of experimental \nendometriosis. To determine if this model can be used in therapeutic intervention \nstudies, it is important to test and understand it. Our objective was to investigate \nwhether the transplantation of 1 an d 2 fragments of endometrial tissue on each \nside of the peritoneal wall of female mice promotes experimental endometriosis \nand reduces natural fertility (pregnancy rate) 4 weeks after the surgical \nprocedure. Additionally, we compared pregnancy duration, li tter size, pup \nweights, mating return rates, pregnancy losses, stillbirths, and cannibalism rates \namong animals in the experimental groups. For this purpose, an experimental \nstudy was conducted in which females were divided into 4 groups: control group \n1 ( sham surgery), endometriosis group 1 (peritoneal transplantation of 2 \nfragments of endometrial tissue, each 5 mm in size), control group 2 (sham \nsurgery), and endometriosis group 2 (peritoneal transplantation of 4 fragments of \nendometrial tissue, each 5 mm  in size). These females were then paired with \nfertile males 4 weeks after the surgical procedure. Pregnant females were \neuthanized after weaning the offspring. After euthanasia, implant tissue of the \nexperimental groups was collected for histological anal ysis. We did not observe \na statistically significant difference in pregnancy rates, pregnancy duration, total \nnumber of pups at birth, number of live pups at birth, return to mating, gestational \nloss, stillbirths, and cannibalism when comparing groups C, E 1, and E2. We \nobserved that the litter weight at birth was lower in E2 when compared to groups \nC (p=0.0467) and E1 (p=0.0004), and higher in E1 compared to C (p=0.0183). \nThe number of live pups at weaning was lower in E2 compared to groups C \n\n \n \n \n(p=0.0398) and E1 (p=0.0004), and higher in E1 compared to C (p=0.0197). The \nlitter weight at weaning was lower in E2 compared to E1 (p=0.0009), but there \nwas no difference in this variable between E2 and C. The litter weight at weaning \nwas higher in E1 compared to the C group (p=0.0076).  Experimental \nendometriosis with the suture of fragments of endometrial tissue in the \nperitoneum of mice did not compromise the fertility of females after 4 weeks of \nthe endometriosis induction procedure when comparing the groups, sugges ting \nthat this is not an appropriate translational model to study endometriosis related \nto infertility. Females transplanted with 2 fragments of ectopic endometrium had \nlitters with higher birth and weaning weights and a higher number of live pups at \nweaning. Females transplanted with 4 fragments of ectopic endometrium had \nlitters with lower birth weights and a lower number of live pups at weaning. These \nfindings indicate that litters from females with a higher number of transplanted \nuterine fragments may have impaired development during pregnancy, with lower \nbirth weights and higher perinatal mortality. However, studies with adequate \nsample sizes for these outcomes should be conducted for a better evaluation of \nwhether this is an appropriate model to invest igate the impact of experimental \nendometriosis on gestational and perinatal outcomes. \n \nKeywords: \nEndometriosis, infertility, murine model, gestational morbidity, offspring. \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n \n \n \nLista de Figuras \n \nFigura 1. ..................................................................................................................... 25 \nFigura 2. ..................................................................................................................... 26 \nFigura 3. ..................................................................................................................... 26 \nFigura 4. ..................................................................................................................... 27 \nFigura 5. ..................................................................................................................... 29 \nFigura 6. ..................................................................................................................... 33 \nFigura 7. ..................................................................................................................... 33 \nFigura 8. ..................................................................................................................... 34 \nFigura 9. ..................................................................................................................... 34 \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n \n \n \nLista de Tabelas \n \nTabela 1. ..................................................................................................................... 21 \nTabela 2. ..................................................................................................................... 35 \nTabela 3. ..................................................................................................................... 36 \nTabela 4. ..................................................................................................................... 36 \nTabela 5. ..................................................................................................................... 36 \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n \n \n \nLista de siglas \n \nC  Controle \nC1  Controle 1 \nC2  Controle 2 \nE1  Endometriose 1 \nE2  Endometriose 2 \nFMRP  Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto \nH.E.  Hematoxilina e eosina \nkg  quilograma \nmg  miligrama \nPIG  pequenos para idade gestacional \nUSP  Universidade de São Paulo \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n \n \n \nSumário \n1. INTRODUÇÃO................................ ................................ ................................ ..... 15 \n1.1 Endometriose e infertilidade .......................................................................................... 15 \n1.2 Endometriose e resultados gestacionais ..................................................................... 16 \n1.3 Modelo experimental murino ......................................................................................... 19 \n1.3.1 Acasalamento .......................................................................................................................... 21 \n1.3.2 Ninhadas .................................................................................................................................. 21 \n1.4 Endometriose e modelo experimental murino ............................................................. 22 \n2. OBJETIVOS ................................ ................................ ................................ ........ 23 \n2.1 Objetivo primário ............................................................................................................. 23 \n2.2 Objetivo secundário ........................................................................................................ 23 \n3. MATERIAL E MÉTODOS ................................ ................................ .................... 24 \n3.1 Considerações éticas ..................................................................................................... 24 \n3.2 Animais ............................................................................................................................. 24 \n3.3 Delineamento experimental............................................................................................ 24 \n3.4 Procedimento cirúrgico .................................................................................................. 25 \n3.5 Acasalamento dos animais ............................................................................................ 27 \n3.6 Variáveis analisadas ....................................................................................................... 28 \n3.7 Eutanásias........................................................................................................................ 28 \n3.8 Análise histológica do endométrio ectópico ................................................................ 29 \n3.9 Cálculo amostral ............................................................................................................. 30 \n3.10 Análises estatísticas ..................................................................................................... 30 \n4. RESULTADOS ................................ ................................ ................................ .... 31 \n4.1 Fluxograma do grupo Controle 1 .................................................................................. 31 \n4.2 Fluxograma do grupo Controle 2 .................................................................................. 31 \n4.3 Fluxograma do grupo Endometriose 1 ......................................................................... 32 \n4.4 Fluxograma do grupo Endometriose 2 ......................................................................... 32 \n4.5 Histologia ......................................................................................................................... 33 \n4.6 Variáveis analisadas ....................................................................................................... 34 \n5. DISCUSSÃO ................................ ................................ ................................ ....... 37 \n6. CONCLUSÃO ................................ ................................ ................................ ...... 41 \nREFERÊNCIAS ................................ ................................ ................................ .......... 43 \nANEXO A ................................ ................................ ................................ .................... 51 \n \n\n15 \n \n \n \n \n1. INTRODUÇÃO \n1.1 Endometriose e infertilidade \n \nA endometriose é uma doença ginecológica estrogênio -dependente \ncomum, debilitante e complexa. É caracterizada pelo implante e crescimento de \ntecido endometrial, glândulas e/ou estroma, fora da cavidade uterina (Giudice e \nKao, 2004; Sonavane et al., 2011). Implantes ectópicos podem ser encontrados \nem ovários, tubas uterinas, ligamentos útero-sacros, parede abdominal, períneo, \ntratos urinário e gastrointestinal, tórax e mucosa nasal (Simoglou et al., 2012). \nConsiderada um problema de saúde pública, e stima-se que entre 2% e \n10% das mulheres na população tenham endometriose e que 30% a 50% das \nmulheres com problemas de fertilidade tenham endometriose (ESHRE, 2022). \nOs sintomas da endometriose são comuns a outras desordens \nginecológicas e não ginecológicas, não apresentando sintomas \npatognomônicos, o que pode dificultar o diagnóstico e impactar negativamente \nna qualidade de vida das pacientes (Taylor et al., 2021). Sintomas de desordens \nginecológicas, incluindo dismenorreia primária, cistos ovarianos, doença \ninflamatória pélvica e aderências pélvicas, se sobrepõem à endometriose e \ndistúrbios funcionais do intestino e da bexiga, fibromialgia e distúrbios \nmusculoesqueléticos também podem apresentar sintomas semelhantes aos da \nendometriose (Brawn et al., 2014; Nezhat et al., 2016). \nEmbora a etiopatogenia da infertilidade relacionada a endometriose ainda \nnão esteja completamente esclarecida, existem diversas teorias sobre as causas \nda doença. Alguns estudos evidenciam que a endometriose, mesmo nos \nestágios iniciais (estágios I e II), em que não existem alterações anatômicas \nsignificativas na cavidade pélvica, pode favorecer a subfertilidade. Acredita -se \nque os microambientes peritoneal, folicular e endometrial apresentem alterações \npró inflamatórias e estresse oxidativo, impactando negativamente na \nfoliculogênese, ovulação, qualidade do oócito, receptividade endometrial e na \nfunção espermática (Andrade et al., 2010 ; Agarwal et al., 2012; Da Broi et al., \n2014; Da Broi et al., 2016; Da Broi e Navarro, 2016; Gupta et al., 2008; Jianini et \nal., 2017; Sanchez et al., 2017; Malvezzi et al., 2018; Da Broi et al., 2018; Da \nBroi et al., 2019; Ferreira et al., 2019). \n\n16 \n \n \n \n \nAlterações peritoneais parecem promover um microambiente prejudicial e \npró-oxidativo, podendo haver comprometimento do complexo cumulus -oócito e \ndo microambiente folicular, impactando negativamente na foliculogênese e, \npossivelmente, afetando também a competência oocitária de mulheres com \nendometriose. As mudanças peritoneais também podem danificar os \nespermatozoides e dificultar a interação dos gametas. Evidências sugerem que \na piora da qualidade gamética está associada ao estresse oxidativo sistêmico e \nfolicular (Da Broi et al., 2019), uma vez que o uso de antioxidantes foi passível \nde reverter os efeitos deletérios da doença sobre marcadores de qualidade \noocitária (Giorgi et al., 2016). \nDiversas teorias abordam a etiopatogênese da endometriose. Atualmente, \na teoria que parece melhor aceita é a proposta por Sampson (1927), conhecida \ncomo teoria da menstruação retrógrada, que propõe que parte do tecido \nendometrial flua para trás durante a menstruação, chegando até as tubas \nuterinas. Dessa maneira, o tecido pode impl antar e crescer fora do útero, \npossivelmente sendo também disseminado através do sistema linfático ou \nsanguíneo através de diferentes órgãos e formando, assim, lesões de \nendometriose. \nMiller et al. (2017) sugere que o sistema imunológico de mulheres com \ninfertilidade relacionada a endometriose pode estar potencialmente disfuncional, \npodendo implicar em danos a foliculogênese, qualidade de oócitos e embriões e \nreceptividade endometrial. \nÉ possível notar através de estudos que existe uma severa complexidade \nna etiopatogenia da doença, que provavelmente envolve interações entre \ndiversos fatores e, portanto, pesquisas relacionadas a infertilidade de mulheres \ncom endometriose se fazem necessárias para aprofundar o conhecimento \nacerca da relação entre essas condições. \n \n1.2 Endometriose e resultados gestacionais \n \nAlém de sua forte relação com a infertilidade, diferentes mecanismos vêm \nsendo associados aos impactos negativos da endometriose na gravidez. \nEventos hormonais agudos ou crônicos em resposta ao estresse, ev entos \ninfecciosos ou fatores como estresse oxidativo podem causar um desequilíbrio \n\n17 \n \n \n \n \nde citocinas, que ocasiona produção de citocinas inflamatórias relacionadas ao \naumento da contratilidade uterina, amadurecimento do colo do útero e ruptura \nde membranas devi do ao enfraquecimento das mesmas, sinais fortemente \nrelacionados ao parto, mas também relacionados ao aborto espontâneo e ao \nparto prematuro (Challis et al., 2009). \nA inflamação está envolvida tanto nos principais processos fisiológicos \n(menstruação, ovula ção, implantação do embrião e gravidez) quanto em \ncondições patogênicas no sistema reprodutivo feminino. É um processo usado \ncomo resposta à infecção, irritação ou lesão e é reconhecida como um tipo de \nresposta imune não específica (aguda ou crônica). A co ndição de inflamação \nexacerbada pode resultar em distúrbios entre o sistema imunológico e endócrino, \npredispondo a alterações na gestação (Weiss et al., 2009; Vannuccini et al., \n2016; Vaisi-Raygani e Asgari, 2021). Diabetes mellitus gestacional, hipertensão \ngestacional, pré -eclâmpsia e parto prematuro são exemplos de resultados \nadversos gestacionais relacionados à inflamação bem estabelecidos (Wolf et al., \n2004; Bodnar et al., 2005; Goldenberg et al., 2008). \nDistúrbios reprodutivos como a endometriose e a infertilidade inexplicada \ncompartilham vias inflamatórias, alterações hormonais, senescência decidual e \nanormalidades vasculares que podem comprometer o sucesso da gravidez \n(Vannuccini et al., 2016). \nAlém da inflamação local, peritoneal e sistêmica, mecanis mos como má \nqualidade do oócito (prejudicando a implantação do embrião), contratilidade \nuterina inadequada e placentação deficiente parecem estar associados à \nresultados adversos na implantação, crescimento fetal e duração da gestação \nde mulheres com endometriose (Aguilar e Mitchell, 2010; Maggiori et al., 2016). \nMaggiori et al. (2016) realizaram uma revisão sistemática de artigos que \nexaminaram as relações entre endometriose e gravidez, trazendo evidências de \numa associação da endometriose com aborto espon tâneo, parto prematuro, \nplacenta prévia e recém -nascidos pequenos para a idade gestacional. Além \ndisso, parece não haver evidências de que a cirurgia profilática evitaria o \npotencial impacto negativo da endometriose no resultado da gravidez.  Glavind \net al. (2017) indicaram haver um maior risco de pré -eclâmpsia, parto prematuro \n(com risco mais elevado para partos muito prematuros) e necessidade de \n\n18 \n \n \n \n \ncesariana em mulheres com endometriose quando comparadas com mulheres \nsem a doença. \nBreintoft et al. (2021) realizaram uma revisão sistemática com metanálise \nque apoia a ideia de que a endometriose está associada a aumento no risco de \nresultados gestacionais adversos como hipertensão gestacional, pré-eclâmpsia, \nparto prematuro, placenta prévia, descolamento de place nta, necessidade de \ncesariana e natimortos. Além disso, também apresenta indícios de associação \nda doença com hemoperitônio espontâneo e perfuração intestinal espontânea \nna gravidez. \nResultados de estudos mais recentes como o de Gebremedhin et al. \n(2023) são semelhantes aos relatados previamente, apoiando a hipótese de que \na endometriose está associada a resultados adversos na gravidez, como maior \nrisco de pré -eclâmpsia, placenta prévia e parto prematuro. Velez et al. (2022) \ntambém constatou associação da d oença com aumento no risco de distúrbios \nhipertensivos da gravidez, parto prematuro, cesariana, indução do trabalho de \nparto, placenta prévia, descolamento de placenta, hemorragia pós -parto e \nnatimortos. \nAssim como descrito por Maggiori et al. (2016), é importante destacar que, \naparentemente, não há evidências que comprovem que o procedimento cirúrgico \nde retirada das lesões de endometriose traria bons resultados gestacionais. A \neliminação dessas lesões e restauração anatômica local não necessariamente \nirá reverter possíveis alterações inflamatórias e biomoleculares relacionadas a \ninfertilidade (Bafort el al., 2020). \nTodavia, estudos observacionais não permitem estabelecermos relações \ncausais, de modo que a utilização de modelos animais seria de grande valia para \nesclarecermos os mecanismos etiopatogênicos envolvidos no potencial impacto \ndeletério da endometriose na gestação e prole, cujo conhecimento poderá \nfundamentar novas abordagens diagnósticas e terapêuticas. \nEscassos estudos experimentais investigaram o potencial impacto da \nendometriose em resultados gestacionais e perinatais. Bilotas et al. (2015) \nestudaram um modelo experimental de endometriose e notaram uma queda na \nfertilidade das fêmeas de camundongos com lesões de endometriose, porém \nnão encontrar am diferenças significativas na taxa de reabsorção fetal, no \n\n19 \n \n \n \n \ntamanho da ninhada e no peso dos filhotes ao compararem animais com e sem \nendometriose, após realizarem a eutanásia das fêmeas com 18 dias de prenhez.  \nElsherbini et al. (2022) avaliaram o impact o da exposição crônica à \nendometriose em resultados perinatais através de investigações em fêmeas  de \ncamundongos jovens e idosas. As fêmeas foram submetidas a injeções \nintraperitoneais de úteros de doadoras, acasaladas em 1 (jovens) ou 43 dias \n(idosas) após o procedimento e eutanasiadas no 18° dia de gestação. O número \nde filhotes e reabsorções foi contado, o peso corporal dos filhotes foi medido, e \na lesão de endometriose foi identificada e pesada . Fêmeas jovens não tiveram \nalterações significativas entre os grupos, mas as fêmeas acasaladas após maior \ntempo de exposição à endometriose experimental apresentaram número de \nreabsorções significativamente maior e o  peso corporal dos filhotes  foi \nsignificativamente menor na endometriose em comparação com o grupo de \ncontrole. O peso total da lesão de endometriose por mãe foi significativamente \nmenor no grupo de Endometriose Idoso em comparação com o grupo de \nEndometriose Jovem , o que pode sugerir  que a exposição crônica à \nendometriose antes da gestação pode ter  impactos negativos nos resultados \nperinatais. \nJá Hayashi et al. (2020) estabeleceram um modelo de endometriose \novariana em camundongos que revelou um número significativamente reduzido \nde filhotes implantados no grupo experimental. Tan et al. (2023) também \ndesenvolveram um estudo de endometrioma em camundongos e notaram, além \nde uma redução da fertilidade, menores tamanho dos filhotes e peso das \nninhadas de fêmeas com endometrioma experimental, além de maior taxa de \naborto e natimortos nesse grupo quando comparado ao grupo controle (sham). \n \n1.3 Modelo experimental murino \n \nGrande parte dos estudos no campo de ciências da vida utiliza modelo \nmurino experimental (Mus musculus) para investigar as implicações na saúde e \nno corpo humano. Seres humanos e esse modelo compartilham grande parte de \nsuas características fisiológicas e patológicas. Existem semelhanças na \ndiferenciação e morte celular e nos mecanismos moleculares pelos quais ambas \nas espécies executam processos celulares básicos. Além disso, roedores como \n\n20 \n \n \n \n \nratos e camundongos e humanos também compartilham órgãos e fisiologia \nsistêmica e apresentam consistência na patogênese de doenças (Demetrius, \n2006; Rosenthal e Brown, 2007). \nPor meio de análises comparativas dos genomas de ambas as espécies \né possível relacionar características comuns e realizar manipulações genômicas \nno animal para gerar modelos de patologias humanas. Assim, esses animais \npodem ser submetidos a experimentos biomédicos que não são possíveis em \npacientes humanos. Conforme ocorre a evolução nos  estudos sobre doenças \nhumanas que roedores normalmente não contraem, existe uma crescente de \nabordagens experimentais sendo aplicadas para “humanizar” a fisiologia do \nroedor e mimetizar as manifestações clínicas que ocorrem em humanos \n(Rosenthal e Brown, 2007). \nCamundongos fornecem condições experimentais análogas e resultados \ncomparáveis aos humanos. Quase 80% dos animais experimentais são \nroedores, incluindo ratos, camundongos, cobaias e outros e, comparado a outros \nmamíferos, esses animais são baratos, fáceis de manter e simples de criar em \ncativeiro. São pequenos, dóceis, rápidos e prolíficos reprodutores ( Rosenthal e \nBrown, 2007; Sengupta, 2013). \nConsiderando a reprodução desses animais, algumas similaridades entre \na placenta de camundongos e humanos s ão relatadas. Em ambas as espécies \né do tipo discoidal, além disso há íntimo contato na barreira materno -fetal, \ncaracterizando a placentação de humanos e roedores como hemocorial (Burton \net al, 2006).  \nExistem diversos modelos experimentais murinos para es tudar \nmecanismos patogênicos de doenças humanas que cursam com problemas de \nplacentação, como a diabetes gestacional e a pré-eclâmpsia (Plows et al., 2017; \nChau et al., 2020; Bakrania et al., 2022; Liu et al., 2022; Grupe e Scherneck, \n2023). Modelos experi mentais contribuem significativamente para a \ncompreensão das bases moleculares, patogênese e eficácia terapêutica de \nmedicamentos em doenças multifatoriais (Chatzigeorgiou et al., 2009). \n \n \n\n21 \n \n \n \n \n \n1.3.1 Acasalamento \n \nA evidência de acasalamento nos camundongos pode ser detectada pela \npresença de placa vaginal, que pode persistir por 16 a 24 horas após a cópula. \nA placa preenche a vagina desde a cérvix até a vulva. A hipófise anterior libera \nprolactina para capacitar o corpo lúteo a secretar progesterona por \naproximadamente 13 dias. Se ocorrer fertilização, a placenta assume a produção \nde progesterona. Caso a fertilização não ocorra, há um período de \npseudoprenhez, não ocorrendo estro e ovulação durante os 12 dias dessa fase. \nA fertilização geralmente ocorre na ampo la do oviduto, 10 a 12 horas após a \novulação (Ko et al., 2017). \nAlguns parâmetros importantes sobre fisiologia e reprodução de \ncamundongos usados em pesquisa são listados na Tabela 1. \n \nTabela 1. Fisiologia geral e dados reprodutivos de camundongos Mus musculus (adaptada de \nDutta e Sengupta, (2016) e Ko et al., (2017)) \nDados fisiológicos comuns Dados reprodutivos \nTamanho da ninhada 2-10 animais Maturidade sexual macho 6-8 semanas \nPeso ao nascer 1-2 gramas Maturidade sexual fêmea 6-8 semanas \nDuração do período reprodutivo 10-15 meses Duração do ciclo estral 4-5 dias \nPeso macho adulto 20-30 gramas Duração do estro 10-20 horas \nPeso fêmea adulta 18-35 gramas Tempo de ovulação 8,5 horas após início do estro \nLongevidade 1-3 anos Duração média gestação 20 dias \nVolume sanguíneo total 1,5-2,5 mL   \n \n1.3.2 Ninhadas \n \nO camundongo nasce sem pelos, com o corpo avermelhado, de olhos \nfechados e pavilhões auriculares fechados, aderidos à cabeça. Por volta do \nterceiro dia de vida, a pele desses animais começa a clarear ou escurecer \n(dependendo da coloração da linhagem), os pelos começam a aparecer e as \norelhas começam a se afastar da cabeça e se abrir. Aos dez dias de vida, abrem \nos olhos e, a partir dos quinze dias, já começam a se alimentar de ração que a \nmãe fornece. Após o parto, a fêmea amamenta a ninhada e apesar de, aos 18 \ndias de idade, já estarem aptos ao desmame, linhagens consanguíneas \n\n22 \n \n \n \n \ngeralmente realizam o desmame por volta de 4 semanas de idade (Andrade e \nOliveira, 2002). \nA perda de filhotes e ninhadas parece  ser comum na espécie. Fatores \nestressantes relacionados a manejo, ambiente, socialização e fatores genéticos \nparecem afetar a sobrevivência desses animais (Reeb -Whitaker et al., 2001; \nBond et al., 2002; Gaskill et al., 2009; Gaskill et al., 2013; Weber et  al., 2013; \nGaskill et al., 2015; Wasson, 2017; Leidinger et al., 2019). Alguns protocolos \nevitam inspecionar as gaiolas de reprodução nos primeiros dias de vida dos \nanimais, na tentativa de evitar a mortalidade perinatal, mas inspecionar de 12 a \n24 horas após o parto pode resultar em subestimação da mortalidade, visto que \nadultos canibalizam filhotes mortos, tornando -os incontáveis. Sendo assim, o \nadiamento na inspeção pode ser inadequado. Apesar de o infanticídio de filhotes \nser raro em condições normais na criação de camundongos de laboratório, pode \nocorrer (Brajon et al., 2021). \n \n1.4 Endometriose e modelo experimental murino \n \nA endometriose ocorre espontaneamente apenas em humanos e \nprimatas que eliminam endométrio durante o ciclo menstrual (Jabbour et a l., \n2006; Emera et al., 2012), sendo possível realizar a indução da patologia \ncirurgicamente em alguns modelos animais. Neste contexto, um estudo \nrecentemente publicado estudou um modelo murino de infertilidade relacionada \nà endometriose (Rosa e Silva et al., 2019). Neste estudo, foram avaliados quatro \ngrupos experimentais, sendo um controle (cirurgia simulada) e três grupos de \nendometriose induzida pelo transplante peritoneal de 1, 2 ou 4 fragmentos \nendometriais de 5 mm de cada lado da parece peritoneal, p rovenientes de \nfêmeas doadoras. Um mês após o procedimento cirúrgico, as fêmeas foram \ninseridas no mesmo ambiente que machos de fertilidade comprovada, durante \nquatro semanas ou até apresentarem sinais de prenhez e as taxas de gestação, \ntempo até o parto e  tamanho da ninhada foram comparados entre os 4 grupos. \nOs autores evidenciaram que as taxas de prenhez foram significativamente \nmenores nas fêmeas transplantadas com 2 (67%) ou 4 segmentos (57%) de \ntecido endometrial (de cada lado da parede peritoneal da fêmea) em comparação \ncom os grupos controle (100%) ou 1 segmento (100%). Todavia, os animais não \n\n23 \n \n \n \n \nevidenciaram aderências peritoneais quando da eutanásia, sugerindo que a \nredução da fertilidade observada nestes animais não foi decorrente de fator \nanatômico, o que, talvez, permita extrapolar os achados para mulheres com \ninfertilidade relacionada a endometriose, em que não se observam alterações \nsignificativas da morfologia pélvica. \nOs achados de Rosa e Silva et al., (2019) são bastante interessantes, e, \nverificar se são reprodutíveis é importante para justificar o seu uso para avaliar \nos mecanismos etiopatogênicos da infertilidade relacionada a endometriose, \nassim como testar novas intervenções terapêuticas. Aliado a isto, considerando \no potencial impacto negativo da endometriose na gestação e na prole, ainda não \nconfirmado em estudos experimentais, investigar estes desfechos também é de \ngrande relevância, justificando a realização do presente estudo. \n \n2. OBJETIVOS \n \n2.1 Objetivo primário \n \nEste trabalho teve como objetivo primário investigar se o transplante de 1 \ne 2 fragmentos de tecido endometrial em cada lado da parede peritoneal de \ncamundongos fêmeas promoveria endometriose experimental e redução da \nfertilidade natural, avaliada 4 semanas após a realização do pr ocedimento \ncirúrgico, comparando animais controle (cirurgia simulada) e animais \ntransplantados com 1 e 2 fragmentos de tecido endometrial em cada lado da \nparede peritoneal. \n \n2.2 Objetivo secundário \n \nO objetivo secundário foi investigar se o transplante de 1 e 2 fragmentos \nde tecido endometrial em cada lado da parede peritoneal de camundongos \nfêmeas promoveria comprometimento dos resultados gestacionais e perinatais \nda prole até o desmame , comparando a duração da prenhez, o tamanho da \nninhada, o peso dos filhotes ao nascer e ao desmame , natimortos, canibalismo \npor parte da mãe, perdas gestacionais e retorno ao acasalamento entre animais \ncom e sem endometriose experimental. \n\n24 \n \n \n \n \n \n3. MATERIAL E MÉTODOS \n \n3.1 Considerações éticas \n \nO presente projeto foi aprovado pela Com issão de Pesquisa do \nDepartamento de Ginecologia e Obstetrícia, FMRP/USP e pela Comissão de \nÉtica no Uso de Animais, FMRP/USP, sob o protocolo 163/2020. \n \n3.2 Animais \n \nFoi realizado um estudo experimental, usando o camundongo C57BL/6J \n(linhagem Black) como modelo experimental. Foram utilizadas fêmeas com 8 a \n12 semanas de vida e machos reprodutores com fertilidade comprovada por \nacasalamento e proles anteriores, provenientes do Biotério Central da Faculdade \nde Medicina de Ribeirão Preto - Universidade de São  Paulo. As fêmeas foram \nrecebidas do Biotério Central após 6 semanas de vida e mantidas no Biotério de \nCirurgia Experimental até completarem 8-12 semanas de vida. Neste período os \nanimais foram mantidos em ciclo de claro -escuro de 12 horas com temperatura \ncontrolada e com água e ração Nuvilab ad libitum. \n \n3.3 Delineamento experimental \n \nO estudo conta com quatro grupos experimentais (Figura 1):  \n Controle 1 (C1): cirurgia simulada com um ponto cirúrgico de cada \nlado da parede abdominal da fêmea (total de 19 animais); \n Endometriose 1 (E1): cirurgia com sutura de 1 fragmento de 5 mm \nde tecido uterino de doadora em cada lado da parede pélvica da receptora, \ntotalizando 2 fragmentos (total de 20 animais); \n Controle 2 (C2): cirurgia simulada com dois pontos cirúrgicos  de \ncada lado da parede abdominal da fêmea (total de 23 animais); \n Endometriose 2 (E2): cirurgia com sutura de 2 fragmentos de 5 mm \nde tecido uterino de doadora em cada lado da parede pélvica da receptora, \ntotalizando 4 fragmentos (total de 22 animais). \n\n25 \n \n \n \n \nPelo fato de o procedimento cirúrgico em si causar uma resposta \ninflamatória, optamos por desenvolver grupos sham como controle. Os animais \npassaram pelo mesmo procedimento que as fêmeas dos grupos experimentais, \nassim eliminamos possíveis efeitos que sejam consequência da cirurgia. \n \nFigura 1. Resumo do delineamento experimental. \nFonte: acervo pessoal. \n \n3.4 Procedimento cirúrgico \n \nOs úteros de 32 doadoras foram removidos por histerectomia sob \nanestesia e imersos em tampão de solução salina fisiológica para im plantação \nimediata na parede peritoneal de 42 receptoras. Antes da implantação, os cornos \nforam separados e o lúmen de cada um foi aberto longitudinalmente. \nAs fêmeas foram submetidas a laparotomia sob anestesia, com aplicação \nde xilazina 2% (5 mg/kg) e cetamina 10% (25 mg/kg) intramuscular, para indução \nde endometriose ou cirurgia simulada como controle. Os procedimentos \ncirúrgicos foram realizados por cirurgião experiente. A cavidade pélvica foi aberta \npor incisão longitudinal mediana de aproximadamente 2  cm, a face peritoneal \ninterna foi exposta e os fragmentos do útero suturados no local com Vicryl 5.0. A \nquantidade total de tecido uterino suturado foi dois fragmentos de tecido de 5 \nmm por animal no grupo Endometriose 1 (N=21) e quatro fragmentos de teci do \nde 5 mm no grupo Endometriose 2 (N=22). Os animais pertencentes ao grupo \ncontrole foram submetidos ao mesmo procedimento, recebendo duas e quatro \nsuturas de Vicryl 5.0, sem o tecido endometrial (Grupos C1 e C2, \n\n\n26 \n \n \n \n \nrespectivamente). A incisão abdominal foi então fechada com Sutura Vicryl 4.0. \nNão houve suplementação hormonal ou administração de antibióticos antes ou \napós a cirurgia. Para minimizar a dor pós-operatória, todos os animais receberam \nanalgesia com meloxicam 1,0 mg/kg de peso corporal por meio de injeções \nintraperitoneais, a cada 24 horas por 72 horas. Os procedimentos cirúrgicos \nestão demonstrados nas Figuras 2, 3 e 4. \n \nFigura 2. Parede abdominal de fêmea de camundongo pertencente ao grupo Controle.  \n \nNota: A: realização do ponto cirúrgico sem a presença de fragmento endometrial. B: Ponto cirúrgico \nfinalizado. Fonte: acervo pessoal. \n \nFigura 3.  Útero e p arede abdominal de fêmea de camundongo pertencente ao grupo \nEndometriose 1. \n \nNota: C: cornos uterinos expostos. D: sutura de um fragmento de tecido uterino  suturado na parede \nperitoneal da fêmea. Fonte: acervo pessoal. \n \n \nA B \nC D \n\n27 \n \n \n \n \n \nFigura 4. Parede abdominal de fêmea de camundongo pertencente ao grupo Endometriose 2. \n \nNota: Dois fragmentos de tecido uterino suturados na parede peritoneal da fêmea. Fonte: acervo pessoal. \n \n3.5 Acasalamento dos animais \n \nQuatro semanas após a cirurgia, as fêmeas de cada um dos 4 grupos \nforam colocadas em caixas com camundongos machos com fertilidade \ncomprovada por um período de até 4 semanas. Foram colocadas, no máximo, 2 \nfêmeas para 1 macho em cada caixa. As fêmeas foram avaliadas diariamente \nquanto a sinais de acasalamento e prenhez. A confirmação de acasalamento foi \nrealizada através de visualização de placa vaginal, quando a fêmea foi separada \ndo macho e mantida com outras fêmeas até três dias antes da data prevista para \no parto (20 dias após visualização da placa vaginal). Ao atingir esse período de \nprenhez, cada fêmea foi isolada em uma gaiola e ali mantida com sua ninhada. \nO desenvolvimento da prenhez foi moni torado por meio de pesagens a \ncada 2 dias. Não havendo aumento de peso até próximo do sétimo dia após \nvisualização da placa vaginal, a fêmea era novamente colocada na presença do \nmacho para acasalar até apresentar plugue ou completar 4 semanas de criada \ncom macho. Esse ato diminui a possibilidade de a fêmea não ter desenvolvido a \ngestação por motivos que não possuam relação com a indução da endometriose \npor procedimento cirúrgico, visto que o plugue vaginal indica presença de cópula, \nmas a fertilização pode não ter ocorrido. \n\n\n28 \n \n \n \n \nSabe-se que , na medicina humana, a  infertilidade é definida pela \ndificuldade de um casal engravidar tendo relações sexuais sem uso de nenhuma \nforma de anticoncepção no período de um ano. Apesar de não haver um conceito \ndefinido sobre qua ndo um camundongo é considerado infértil, levamos em \nconsideração a definição para humanos e permitimos que a fêmea tivesse mais \nde uma cópula para evitar possíveis considerações errôneas a respeito da taxa \nde gestação. \n \n3.6 Variáveis analisadas \n \nA taxa de  prenhez (definida como a porcentagem de animais que \ngestaram em relação ao número total de animais do grupo), a duração da \nprenhez (número de dias a partir da visualização da placa vaginal até a data do \nparto), o número de filhotes por ninhada ao nascer e  ao desmame (quatro \nsemanas após o nascimento), o peso dos filhotes ao nascimento e ao desmame, \nnatimortos (feto que nasceu morto), presença de canibalismo  (prática de um \nindivíduo se alimentar de outro da mesma espécie) por parte da mãe, as perdas \ngestacionais e necessidade de retorno ao acasalamento foram comparados \nentre os grupos. A fêmea foi considerada gestante a partir do momento em que \nganhou peso após apresentar placa vaginal. Duas situações foram consideradas \nperda gestacional: a prenhez que passou da data prevista para o parto e a fêmea \nperdeu peso gradualmente e a fêmea prenhe que, pouco tempo antes da data \nprevista para o parto começou, lentamente, a perder peso. Já a variável retorno \nao acasalamento remete às fêmeas que, após visualização da placa vaginal, não \nganharam peso na primeira semana de acompanhamento e, portanto, foram \nnovamente colocadas para criar com machos até presença de nova placa vaginal \n(ou até completar 30 dias de exposição ao macho). \n \n3.7 Eutanásias \n \nAs fêmeas foram submetidas a eutanásia após o desmame dos filhotes e \ntecido das lesões de endometriose foi coletado para análise histológica. \nMachos após criados com fêmeas e filhotes (após devidas avaliações) \ntambém foram submetidos a eutanásia. \n\n29 \n \n \n \n \nAs eutanásias dos animais foram re alizadas por meio de deslocamento \ncervical para evitar possíveis alterações em parâmetros plasmáticos associadas \nao uso de anestésicos. \n \n3.8 Análise histológica do endométrio ectópico \n \nAs lesões de endometriose foram coletadas após eutanásia dos animais \ne posicionadas em cassetes histológicos. Macroscopicamente, algumas lesões \neram estruturas ovais translúcidas preenchidas com fluido. Outras lesões \npossuíam aspecto amarronzado, com conteúdo espesso e escuro. Além disso, \nem algumas fêmeas foram encontradas a derências à intestino, corno uterino e \novário. Na Figura 5 é possível perceber essas características citadas em apenas \num animal. \n \nFigura 5. Animal eutanasiado apresentando lesões ectópicas de endometriose.  \n \nNota: Em vermelho: lesão oval e preenchida por fluido translúcido. Em azul: lesão de aspecto castanho, \ncom conteúdo espesso e escuro. Em verde: aderência da lesão em corno uterino e ovário direito. Fonte: \nacervo pessoal. \n \nA fixação do material foi realizada com solução formalina neutra \ntamponada a 10% pelo período de 24 horas. Após esse período, as lesões foram \n\n\n30 \n \n \n \n \ntransferidas para o álcool 70% e mantidas até as próximas etapas de preparação \nda lâmina. A etapa de fixação tem por finalidade a interrupção do metabolismo \ncelular, preservando e conservando elementos teciduais (Santos et al., 2021). \nAs lesões então passaram pelos processos de clivagem, desidratação, \ndiafanização, impregnação e inclusão. A microtomia fez cortes com espessura \nde 3 micrômetros para passagem de luz e observação do tecido ao microscópio. \nA coloração utilizada para a técnica foi hematoxilina e eosina (H.E.), indicada \npara observação geral de tecidos (Santos et al., 2021). \nPara a leitura da lâmina foi utilizado um microscópio binocular Zeiss Axio \nScope.A1 de luz convencio nal com aumento de 20 vezes  e as lâminas foram \nvisualizadas e analisadas em busca de células endometriais. \n \n3.9 Cálculo amostral \n \nConsiderando a gestação como desfecho (variável binária) e assumindo \numa diferença clinicamente relevante de 43% na taxa de g estação entre os \ngrupos (100% no grupo controle versus 57% no grupo 1; Rosa e Silva et al., \n2019) e assumindo um nível de significância de 5% com um poder de teste de \n80%, necessitamos de 16 animais por grupo. O cálculo do tamanho da amostra \nfoi realizado usando a calculadora implementada no site \nhttps://www.sealedenvelope.com/. \n \n3.10 Análises estatísticas \n \nFoi realizada uma análise exploratória dos dados por meio de medidas de \nposição central e dispersão. O g ráfico box plot  foi utilizado para verificar a \ndistribuição dos dados. Após verificar os resultados da análise exploratória de \ndados, optamos pela mediana e o intervalo interquartil para sumarizar os \nresultados obtidos na amostra. \nAs variáveis qualitativas (taxas de prenhez, natimortos, perda gestacional, \nretorno ao acasalamento e canibalismo ) foram resumidas considerando as \nfrequências absolutas e relativas. Para verificar se os grupos diferiam em relação \na estas variáveis foi aplicado o teste Qui-Quadrado. \n\n31 \n \n \n \n \nÀ princípio foi utilizado o teste estatístico de Wilcoxon para amostras \nindependentes para comparar as variáveis quantitativas (duração da prenhez, \nnúmero de filhotes por ninhada e pesos dos filhotes ao nascimento e ao \ndesmame) entre os dois grupos contr ole (C1 e C2) e garantir que não há \ndiferença estatística entre eles. Após isto,  os grupos Controle 1 e Controle 2 \nforam unificados em grupo Controle, visto que apenas diferem no período em \nque foram realizados  e o teste não paramétrico de Kruskal Wallis f oi aplicado \npara verificar se existe diferença estat isticamente significativa entre os grupos \nde estudo (Controle, Endometriose 1 e Endometriose 2) em cada variável \nanalisada. Quando o teste demonstrou a existência de uma diferença entre os \ngrupos, realizamos o pós-teste de Dunn para encontrar tal fator. \nAs análises foram realizadas no programa SAS versão 9.4 e no programa \nR versão 4.2.2. \n \n4. RESULTADOS \n \n4.1 Fluxograma do grupo Controle 1 \n \nDezenove fêmeas foram submetidas ao procedimento cirúrgico simulado. \nDuas fêmeas morreram: uma fêmea por distocia fetal e outra por aborto seguido \nde morte da gestante com 18 dias de prenhez, sem causa aparente , restando \num total de dezessete fêmeas analisadas . Dessas, três fêmeas cometeram \ncanibalismo de seus filhotes e não foi possível checar as variáveis ao desmame. \nAlém disso, uma fêmea perdeu a gestação aos 18 dias de prenhez. \n \n4.2 Fluxograma do grupo Controle 2 \n \nVinte e três  fêmeas foram submetidas ao procedimento cirúrgico  \nsimulado. Duas  fêmeas morreram  no decorrer do es tudo: uma fêmea com \nninhada de 14 dias e outra com ninhada de 5 dias, ambas sem causas aparentes, \nrestando um total de vinte e uma fêmeas analisadas. Dessas, nenhuma fêmea \ncometeu canibalismo dos filhotes, mas três fêmeas perderam gestações: a \nprimeira fêmea perdeu a gestação com 14 dias de prenhez, após retornar ao \nacasalamento duas vezes. A segunda fêmea perdeu a gestação aos 21 dias de \n\n32 \n \n \n \n \nprenhez (houve perda de peso sem sinais de parto na gaiola) e a terceira fêmea \nperdeu a gestação com 13 dias de prenhez, após retornar ao acasalamento duas \nvezes. \n \n4.3 Fluxograma do grupo Endometriose 1 \n \nVinte fêmeas foram submetidas ao procedimento cirúrgico  para indução \nde endometriose. Uma  fêmea morreu no decorrer do estudo por distocia fetal, \nrestando dezenove fêmeas. Dessas, uma fêmea cometeu canibalismo dos \nfilhotes, e não houve perda gestacional. \n \n4.4 Fluxograma do grupo Endometriose 2 \n \nVinte e duas  fêmeas foram submetidas ao procedimento cirúrgico  para \nindução de endometriose. Nenhuma fêmea desse grupo morreu duran te o \ndecorrer do estudo. Quatro fêmeas cometeram canibalismo dos filhotes. Houve \numa perda gestacional de fêmea com 15 dias de prenhez, após retornar ao \nacasalamento uma vez. Uma  fêmea desse grupo foi encontrada sem ninhada \nimediatamente após o parto, portanto não foi possível monitorar esses filhotes.  \n \nA Figura 6 resume as perdas de animais durante o experimento. As \nninhadas foram eutanasiadas por meio de dose excessiva de isoflurano após \ndetecção da morte das mães. Nenhum animal teve complicação pós-cirúrgica.  \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n33 \n \n \n \n \nFigura 6. Perdas de animais por morte durante o experimento. \n \nFonte: acervo pessoal. \n \n4.5 Histologia \n \nFoi realizada a confirmação histológica das lesões ectópicas de \nendometriose em todos os animais submetidos ao procedimento cirúrgico (como \nexemplificado nas Figuras 7, 8 e 9). \n \nFigura 7. Fragmentos uterinos de diferentes animais vistos no aumento de 5x em microscopia \nótica. \nFonte: acervo pessoal. \n \n\n\n34 \n \n \n \n \nFigura 8. Fragmentos uterinos de diferentes animais visto no aumento de 10x em microscopia \neletrônica. \nFonte: acervo pessoal. \n \nFigura 9. Células endometriais vistas no aumento de 40x em microscopia eletrônica.  \n \n \n \n \n \n \n \n \n \nNota: células endometriais destacadas por círculo vermelho. Fonte: acervo pessoal. \n \n4.6 Variáveis analisadas \n \nÀ princípio, as taxas d e prenhez, tempo de gestação, número total de \nfilhotes ao nascer, número de filhotes vivos ao nascer, peso da ninhada ao \nnascer, número de filhotes vivos no desmame e peso da ninhada ao desmame \nforam comparados entre os grupos Controle 1 e Controle 2. Não houve diferença \nestatisticamente significativa nestas variáveis entre os grupos controle 1 e \ncontrole 2 (Tabela 2), de modo que foram agrupados como grupo Controle (C) \ne, a seguir, comparado com os grupos experimentais Endometriose 1 e \nEndometriose 2. \n \n \n\n\n35 \n \n \n \n \nTabela 2. Comparação dos resultados gestacionais nos grupos Controle 1 e Controle 2 \nVariável Controle 1 \nN = 17 \nControle 2 \nN = 21 \np \nTaxa de prenhez (%) 100% 100%  \nTempo gestação 20 (20; 21) 20 (20; 20) 0,2754 \nTotal filhotes nascimento 8 (7,5; 9) 8 (7; 9) 1,000 \nFilhotes vivos nascimento 8 (7; 8) 8 (7; 9) 0,7717 \nPeso ninhada nascimento 10 (8; 10) 10 (8; 10) 0,7963 \nFilhotes desmame 6 (4,5; 7) 7 (6; 7) 0,2792 \nPeso ninhada desmame 108 (102; 118) 102 (96; 106) 0,0842 \nNota: dado apresentado como mediana (quart il inferior; quartil superior). N= número. p<0,05 considerado \nestatisticamente significante. Teste estatístico da soma dos postos de Wilcoxon. Tempo de gestação: dias. \nPesos ninhadas nascimento e desmame: gramas. \n \nNão observamos diferença estatisticamente significativa nas taxas de \ngestação, tempo de gestação, número total de filhotes ao nascimento e número \nde filhotes vivos ao nascimento ao compararmos os grupos C, E1 e E2 ( Tabela \n3). \nO peso da ninhada ao nascer foi significativamente menor em E2 quando \ncomparado aos grupos C (p= 0,0467) e E1 (0,0004)  e significativamente maior \nem E1 quando comparado ao C (p=0,0183) (Tabela 3).  \nO número de filhotes vivos ao desmame foi significativamente menor em \nE2 quando comparado aos grupos C (p= 0,0398) e E1 (0,0004)  e \nsignificativamente maior em E1 do que no C (p=0,0197) (Tabela 3).  \nO peso da ninhada ao desmame foi significativamente menor em E2 \nquando comparado ao e E1 (0,0009 ), mas não houve diferença dessa variável \nentre E2 e C. O peso da ninhada ao desmame foi  maior em E1 quando \ncomparado ao grupo C (p=0,0076) (Tabela 3).  \nNão houve diferença estatisticamente significativa nas taxas de retorno ao \nacasalamento, perda gestacional, natimortos e canibalismo ao compararmos os \ngrupos C, E1 e E2 (Tabelas 4 e 5 ). Enquanto 23,6% das fêmeas do grupo \nControle não emprenharam na primeira vez que apresentaram placa vaginal, o \nmesmo ocorreu em 10,5% (1/10) das fêmeas do grupo E1 e em 4,5% (1/25) das \nfêmeas do grupo E2 (Tabela 4). Apesar de não haver diferença estatisticamente \nsignificativa no número de natimortos entre os três grupos, em pouco mais que \n1/5 (23,5%) das fêmeas pertencentes ao grupo C foi possível notar a presença \nde filhotes mortos ao nascimento. Já nos grupos E1 e E2 a porcentagem de \n\n36 \n \n \n \n \nfêmeas com filhotes natimortos foi de 42,1% (poucos mais que 2/5) e 40% (2/5), \nrespectivamente (Tabela 5 ). Apesar de não haver diferença estatisticamente \nsignificativa também na taxa de canibalismo entre os 3 grupos, no grupo C, 1/10 \n(8,8%) das fêmeas cometeram ato de canibalismo, no grupo E1, 1/20 (5,2%) das \nfêmeas e no grupo E2, 1/5 (20%) das fêmeas (Tabela 5).  \n \nTabela 3. Comparação dos resultados gestacionais observados nos grupos Controle, \nEndometriose 1 e Endometriose 2 \nNota: N= número. Tempo de gestação: dias. Pesos ninhadas nascimento e desm ame: gramas. Dados \napresentados como mediana (quartil inferior; quartil superior). A mesma letra na mesma linha significa \npresença de diferença significativa (p<0,05). Teste estatístico Kruskal-Wallis e pós-teste Dunn. \n \nTabela 4. Comparação de e retorno a o acasalamento e perda gestacional observados nos \ngrupos Controle, Endometriose 1 e Endometriose 2 \nVariável Controle \nN = 38 \nEndometriose 1 \nN = 19 \nEndometriose 2 \nN = 22  p \nRetorno acasalamento 9 (23,68%) 2 (10,53%) 1 (4,55%) 0,1117 \nPerda gestacional 4 (10,53%) 0 (0%) 1 (4,55%) 0,2821 \nNota: dado apresentado como frequência e porcentagem. N= número. p<0,05 considerado estatisticamente \nsignificante. Teste estatístico Qui-quadrado. \n \nTabela 5. Comparação de natimortos e presença de canibalismo observados nos g rupos \nControle, Endometriose 1 e Endometriose 2 \nVariável Controle \nN = 34 \nEndometriose 1 \nN = 19 \nEndometriose 2 \nN = 20  p \nNatimortos 8 (23,53%) 8 (42,11%) 8 (40%) 0,2809 \nCanibalismo 3 (8,82%) 1 (5,26%) 4 (20%) 0,2914 \nNota: dado apresentado como frequência e porcentagem. N= número. p<0,05 considerado estatisticamente \nsignificante. Teste estatístico Qui-quadrado. \n \n \n \nVariável Controle \nN = 38 \nEndometriose 1 \nN = 19 \nEndometriose 2 \nN= 22 p \nTaxa de gestação 100% 100% 100%  \nTempo gestação 20 (20; 20) 20 (20; 20) 20 (20; 20) 0,17 \nTotal filhotes nascimento 8 (7; 9) 9 (8; 10) 8 (7; 8,5) 0,13 \nFilhotes vivos nascimento 8 (7; 8) 8 (7; 9) 8 (6,5; 8) 0,23 \nPeso ninhada nascimento 10 (8; 10) ac 10 (10; 12) ab 8 (6; 10) bc 0,00001 \nFilhotes desmame 7 (5; 7) ac 8 (7; 8) ab 5 (3,5; 7) bc 0,00001 \nPeso ninhada desmame 104 (96; 112) a 116 (110; 128) ab 96 (67; 109) b 0,01 \n\n37 \n \n \n \n \n5. DISCUSSÃO \n \nInicialmente observamos que o transplante de um ou dois fragmentos de \ntecido uterino em cada lado da parede peritoneal de fêmeas de camundongo não \ncomprometeu a taxa de prenhez dos animais, evidenciando que o modelo não é \nadequado para o estudo da infertilidade relacionada a endometriose. Esse fato \nnão corrobora com o estudo de Rosa e Silva et al. (2019) que, ao compararem \nquatro grupos: Sham (cirurgia simulada), Endometriose 1 (sutura de 1 fragmento \nde tecido uterino na parede pélvica), Endometriose 2 (sutura de 2 fragmentos de \ntecido uterino) e Endometriose 4 (sutura de 4 fragmentos), não encontraram \ndiferença significativa entre as taxa s de gestação dos grupos Sham e \nEndometriose 1, porém encontraram uma redução significativa da fertilidade nos \ngrupos Endometriose 2 e 4. Neste contexto, é importante salientarmos que o \nprocedimento cirúrgico experimental no nosso trabalho foi realizado por cirurgião \nexperiente e, além disso, na eutanásia foram visualizadas lesões macroscópicas \ncompatíveis com as de endometriose em todas as fêmeas operadas. Também \nconfirmamos histologicamente a presença de tecido endometrial em todos os \nanimais dos grupos experimentais, de modo que nossos dados são confiáveis.  \nA técnica de transplante de fragmentos uterinos murinos para testar o \nmodelo de infertilidade relacionada a endometriose foi selecionada de acordo \ncom o que havia disponível quando o nosso projeto com eçou a ser realizado, \nmas atualmente já existem outros estudos, como de Hayashi et al. (2020) e Tan \net al. (2023) , que desenvolveram endometriose em modelos translacionais por \nmeio de procedimentos diferentes. Questionamos se o transplante de maior \nquantidade de tecido uterino poderia comprometer a fertilidade de uma parcela \ndas fêmeas. Também questionamos se outros modelos de endometriose \nexperimental murino poderão ser adequados para o estudo da infertilidade , o \nque precisará ser avaliado em estudos futuros. \nInvestigamos também  se o transplante de 1 e 2 fragmentos de tecido \nendometrial em cada lado da parede peritoneal de camundongos fêmeas \npromoveria comprometimento dos resultados gestacionais e perinatais da prole \naté o desmame . Evidenciamos que os implantes endometriais não interferiram \nno tempo de gestação e no tamanho da ninhada ao nascer de acordo com \nnossos resultados e, o estudo de Rosa e Silva et al. (2019), corrobora com esses \n\n38 \n \n \n \n \nachados. P orém, nesse trabalho , não foi realizado o  acompanhamento das \nninhadas até o desmame e, até o momento, não foram encontrados, na literatura, \ntrabalhos que acompanharam as ninhadas pelo período de 30 dias após o parto. \nSe por um la do o implante de endométrio ectópico não comprometeu a \nfertilidade, o tempo de gestação, o total de filhotes e o número de filhotes vivos \nao nascimento , por outro, tanto dois quanto quatro fragmentos de tecido \nendometrial implantados promoveram algumas alterações nos desfechos \ngestacionais e/ou perinatais avaliados.  \nO grupo E1 teve o peso da  ninhada ao nascer e ao desmame \nsignificativamente maior quando comparado aos grupos C e E2. Na tentativa de \nprocurar explicações para estes achados, supomos que o desenvolvimento \ndesses filhotes poderia ser comparado ao desenvolvimento de bebês humanos \nrecém-nascidos grandes para a idade gestacional. A exposição a um ambiente \nintrauterino adverso pode resultar em alterações epigenéticas durante o \ndesenvolvimento, resultando em alterações na estrutura e função de órgãos e \nsistemas de controle na prole (Bark er, 1995). Um exemplo disso é a exposição \nà hiperglicemia materna, que pode contribuir para o aumento da obesidade, \nintolerância à glicose, hipertensão, dislipidemia e risco cardiovascular alterado \nnos descendentes, sabe -se que existe uma forte associação entre a diabetes \ngestacional e a hiperglicemia materna (Ma et al., 2015). Há tempos estudos \nlevam a crer que existe uma relação direta entre o diabetes gestacional e recém-\nnascidos grandes para a idade gestacional (Formby et al., 1987; Vohr et al., \n1999). O diabetes, assim como a endometriose, é uma doença inflamatória \ntambém relacionada ao estresse oxidativo e distúrbios imunológicos, sendo o \ndiabetes gestacional relacionado a inflamação sistêmica e a endometriose \nrelacionada a inflamação crônica (Richards on e Carpenter, 2007; King et al., \n2008; López -Tinoco et al., 2013; Shang et al., 2015). O estado inflamatório \npoderia levar a complicações na gestação que impactem no desenvolvimento \nfetal, podendo afetar o aporte de nutrientes ao feto. Acreditamos que as  \nsemelhanças em ambas as doenças podem ser uma hipótese para justificar o \nmaior peso dos filhotes pertencentes ao grupo E1, fato que permaneceu desde \no nascimento até o período de desmame, porém a conexão entre a endometriose \ne esses resultados não está estabelecida na literatura. \n\n39 \n \n \n \n \nPor outro lado, evidenciamos  que o peso da ninhada ao nascer e o \nnúmero de filhotes vivos ao desmame foi significativamente menor em E2 \nquando comparado aos grupos C e E1.  Além disso, o  peso da ninhada ao \ndesmame foi significativamente menor em E2 quando comparado ao E1, porém \nsem diferença quando comparado ao  C.  Esses dados demonstram que as \nninhadas provenientes de fêmeas com maior número de fragmentos uterinos \ntransplantados podem ter desenvolvimento prejudicado durante a gestação, \nnascendo com menor peso e apresentando maior mortalidade perinatal. Porém, \nos filhotes que sobrevivem, parecem conseguir recuperar o peso ao desmame , \nvisto que não há diferença significativa entre os grupos E2 e C na variável peso \ndos filhotes ao desmame.  \nTan et al. (2023)  desenvolveram um modelo de endometriose ovariana , \naplicando fragmentos de tecido uterino na bolsa ovariana de camundongos \nreceptoras. D emonstraram, além de redução da fertilidade de fêmeas \npertencentes ao grupo experimental, redução do número e tamanho dos filhotes \nao nascer , similarmente ao que observamos no grupo E2 do nosso estudo . \nApesar de não podermos relacionar diretamente esses achados com os nossos \nresultados, uma vez que o modelo experimental é distinto, não há mais detalhes \nsobre o desenvolvimento dos filhotes, o que dificulta nossa comparação no que \ndiz respeito à recuperação do peso dos filhotes ao desmame. \nAs revisões de literatura e meta-análises de Bruun et al. (2018) e de Zullo \net al. (2017) demonstram que mulheres co m endometriose e adenomiose \npossuem maior probabilidade de parto prematuro e restrição de crescimento \nintrauterino, culminando em recém -nascidos pequenos para idade gestacional. \nHorton et al. (2019) publicaram uma revisão sistemática e meta -análise a \nrespeito de resultados neonatais de mulheres com endometriose, concluindo que \na doença pode impactar de forma negativa parâmetros como peso ao nascer \nadequado para o período gestacional e necessidade de internação neonatal por \ncomplicações variadas. Uma metanálise recentemente publicada (Breintoft et al., \n2021) evidenciou que a endometriose está associada a aumento no risco de \nresultados gestacionais adversos em mulheres, como hipertensão gestacional, \npré-eclâmpsia, parto prematuro, placenta prévia, descolamento  de placenta, \nnecessidade de cesariana e natimortos. Gebremedhin et al. (2023) e Velez et al. \n(2022) também destacam a associação de aumento no risco de distúrbios \n\n40 \n \n \n \n \nhipertensivos da gravidez, parto prematuro, necessidade de cesariana, indução \ndo trabalho de parto e natimortos em mulheres com endometriose. Alguns destes \ndesfechos gestacionais adversos podem favorecer a restrição de crescimento \nintrauterino, cursando com o nascimento de recém -nascidos pequenos para a \nidade gestacional. Crianças nascidas pequen as para idade gestacional (PIG) \n(Hokken-Koelega et al., 2023) possuem maior risco de morbidade perinatal, \nestatura baixa persistente e alterações metabólicas (Clayton et al, 2007). Além \ndisto, o baixo peso ao nascer é considerado uma causa importante de morbidade \ne mortalidade na primeira infância e na infância. (Clayton et al, 2007). Grande \nparte dos recém-nascidos PIG a termo alcança crescimento compensatório até \n2 anos de vida, principalmente no que diz respeito ao peso, que supera o \naumento de comprimento (Huang et al., 2018). Questionamos, assim, se o grupo \nE2 poderia ser utilizado como modelo translacional para investigar o papel da \nendometriose em alguns dos desfechos gestacionais adversos observados em \nhumanos, assim como nos mecanismos associados, o que precisa ser mais bem \nestudado em estudos futuros.  \nAs taxas de retorno ao acasalamento, perda gestacional, natimortos e \ncanibalismo não foram estatisticamente diferentes entre os grupos C, E1 e E2 . \nTodavia, é interessante notar que os grupos E1 e E2 apresentaram uma taxa de \nnatimortos clinicamente mais elevada (42,1 e 40%, respectivamente) do que o  \ngrupo C (23,5%) e o grupo E2 apresentou taxa de canibalismo (20%) maior \nquando comparado aos outros grupos (8,8 e 5,3%, respectivamente nos grupos \nC e E1). É possível que, se esses parâmetros forem mantidos, em estudos com \nmaiores casuísticas, evidenciarão impacto adverso em ambas as variáveis, \nsendo mais um desfecho gestacional negativo relacionado ao modelo murino de \nendometriose. Enquanto tais estudos não são desenvolvidos, nossa hipótese \npara explicar a aparente maior fragilidade dos fetos pertencentes aos grupos \nexperimentais é um possível estresse sistêmico que os implantes endometriais \ntrariam à fêmea. O estresse de variadas origens vem sendo, há muito tempo, \napontado como causa de fêmeas de camundongos negligenciarem, matarem \ne/ou comerem suas ninhadas (Poley, 1974; Elwood, 1991). O canibalismo \nparece ser incomum e, quando ocorre, geralmente é observado nos dois \nprimeiros dias de vida dos filhotes, acon tecendo principalmente com filhotes já \nmortos, para manutenção do ninho limpo. O infanticídio parece ser raro e est á \n\n41 \n \n \n \n \nassociado a fatores estressantes para a mãe (Neto et al., 2015; Ko et al., 2017; \nBrajon et al., 2021). Neste contexto, Li et al., 2018 desenvolveram endometriose \nexperimental em modelo murino, por meio de procedimento cirúrgico semelhante \nao realizado em nosso trabalho, e evidenciaram que as fêmeas pertencentes ao \ngrupo endometriose parecem possuir maior ansiedade, menor atividade \nlocomotora e maior sensibilidade a dor quando comparadas às fêmeas do grupo \nsham. Todos esses sinais podem ser relacionados a fatores estressantes para a \nmãe, o que nos faz refletir sobre a possiblidade do estresse relacionado à dor no \nlocal dos implantes ectópicos ter impactado diretamente nos possíveis achados \nde negligência e canibalismo por parte das fêmeas pertencentes ao grupo E2. \nLarauche et al., 2012 sugerem que a dor crônica, o estresse e funções \nexecutivas compartilham circuitos neurais centrais comuns  em roedores, sendo \nque alterações estruturais e funcionais que ocorrem no cérebro induzidas pela \ndor e pelo estresse crônicos podem resultar até mesmo em prejuízo no \ndesempenho cognitivo. Sugerimos que esses fatores podem estar relacionados \na negligência das ninhadas por parte das mães, mas destacamos a importância \nde estudos com maior casuística para comprovação.  \n \n6. CONCLUSÃO \nEste trabalho teve como objetivos investigar se o transplante de 1 e 2 \nfragmentos de tecido endometrial em cada lado da parede peritoneal de \ncamundongos fêmeas promoveria endometriose experimental e redução da \nfertilidade natural e se o transplante também promoveria comprometimento dos \nresultados gestacionais e perinatais da prole até o desmame, comparando a \nduração da prenhez, o tamanho da ninhada, o peso dos filhotes ao nascer e ao \ndesmame, natimortos, canibalismo por parte da mãe, perdas gestacionais e \nretorno ao acasalamento entre animais com e sem endometriose experimental. \nA endometriose experimental com sutura de fragmentos de tecido \nendometrial no peritônio de animais não comprometeu a fertilidade das fêmeas \napós 4 semanas do procedimento de indução de endometriose ao compararmos \nos grupos experimentais ao grupo controle, sugerindo que esse não é um modelo \ntranslacional adequado para o  estudo da infertilidade relacionada a \nendometriose. \n\n42 \n \n \n \n \nAté o momento, nosso estudo parece ser o primeiro que avalia desfechos \ngestacionais e perinatais até 30 dias de vida das ninhadas provenientes de \nmodelo animal de endometriose. Evidenciamos que fêmeas transplantadas com \n2 fragmentos de endométrio ectópico tiveram ninhadas com maior peso ao \nnascer e ao desmame e maior número de filhotes vivos ao desmame. Por outro \nlado, fêmeas transplantadas com 4 fragmentos de endométrio ectópico tiveram \nninhadas com meno r peso ao nascer e menor número de filhotes vivos ao \ndesmame. Esses dados demonstram que as ninhadas provenientes de fêmeas \ncom maior número de fragmentos uterinos transplantados podem ter \ndesenvolvimento prejudicado durante a gestação, nascendo com menor peso e \napresentando maior mortalidade perinatal. Todavia, estudos subsequentes, com \ncasuísticas adequadas para analisar os desfechos citados , devem ser \ndesenvolvidos para melhor avaliação se esse pode ser um modelo adequado \npara investigar o impacto da end ometriose experimental  em resultados \ngestacionais e perinatais. \nTambém consideramos importante refletir sobre os desafios de encontrar \num modelo translacional adequado para estudar o potencial impacto da \nendometriose na fertilidade e desfechos gestacionais  e perinatais. O fato de a \nendometriose espontânea não ocorrer em camundongos e as diferenças entre a \nfisiologia de humanos e camundongos nos levam a reconhecer que precisamos \naprofundar os estudos acerca de como a doença se comporta no modelo murino \nantes de afirmarmos que esse possa ser um modelo adequado para estudarmos \nestes desfechos relacionados a endometriose. \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n\n43 \n \n \n \n \n \nREFERÊNCIAS \n \nAGARWAL, Ashok et al. 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