Endometriose

In: Saúde da Mulher - Ed. XXVI · 2025 · pp. 70–76 · doi:10.59290/2202822382 · W4415164806
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70 | P á g i n a Palavras-Chave: Endometriose; Mulher; Dor Pélvica. Capítulo 10 ALINE APARECIDA DA SILVA PIEROTTO¹ GERMANA VICTÓRYA MARTINS BORELLI2 LARA CAROLINA DUARTE ORÇA2 ANA CAROLINA BERSANI2 CAROLINE LAIMER DAVESAC2 ELOIZA DO CANTO GASPERIN2 FREDERICO HELLWIG VALÉRIO2 JÚLIA HICKMANN2 SABRINA ALVES DE OLIVEIRA2 SOFIA DARDE ORSOLIN2 1Discente – Enfermagem da Universidade do Vale do Rio dos Sinos 2Docente – Medicina da Universidade do Vale do Rio dos Sinos ENDOMETRIOSE: UMA DOENÇA CRÔNICA 10.59290/2202822382 71 | P á g i n a INTRODUÇÃO A endometriose é uma doença crônica infla- matória, caracterizada pela presença de tecido endometrial extrauterino, diretamente correla - cionada ao estrogênio, a qual afeta inúmeras mulheres em idade reprodutiva (MARTINS et al., 2025). Com repercussões além do sistema reprodutivo, afetando diversos sistemas, a en- dometriose tem como principais manifestações clínicas a dor pélvica crônica e a infertilidade, além de comprometer a qualidade de vida e a função sexual feminina (ALVES et al., 2023; SOUZA et al., 2024). As pacientes podem apresentar sintomas clássicos como: dismenorreia, dispareunia, di - súria e disquezia. Conhecidos como os quatro Ds, geralmente estão associados ao ciclo mens- trual (SINGH et al., 2022). A endometriose po- de afetar estruturas genitais e extragenitais e é classificada em três tipos: endometriose super - ficial, endometrioma ovariano e endometriose infiltrativa profunda, sendo esta última a forma mais grave, caracterizada por penetração abai - xo da superfície peritoneal e envolvimento de órgãos pélvicos com aderências e distorção ana- tômica (DEL FORNO et al., 2023; IMPERIA- LE et al., 2023). A identificação da doença é tardia, com atraso médio de seis a sete anos após o início dos sintomas, o que contribui para a persistên - cia e recorrência dos sintomas (HORNE; MIS - SMER, 2022; IMPERIALE et al., 2023). O di- agnóstico definitivo é geralmente obtido por vi- sualização cirúrgica, preferencialmente por la - paroscopia, embora modalidades de análise por imagem possam ser suficientes para alguns ti - pos de lesões, conforme recomendações recen- tes da ESHRE (Sociedade Europeia de Repro - dução Humana e Embriologia) (IMPERIALE et al., 2023). A avaliação clínica deve ser detalhada, com exame abdominal e pélvico focado, incluindo a investigação de sinais de sensibilização central, como alodínia ou hiperalgesia, que podem in - dicar envolvimento neurossensorial da dor (SINGH et al., 2022). Atualmente, não há tratamento curativo pa- ra a endometriose, e o manejo clínico concen - tra-se principalmente no controle dos sintomas. As estratégias médicas baseiam-se na supressão hormonal dos ciclos menstruais, visando redu - zir a inflamação e bloquear os efeitos estrogê - nicos. Já o manejo cirúrgico busca remover le - sões volumosas ou realizar excisão completa em casos mais complexos. No entanto, nenhu - ma das abordagens garante alívio a longo prazo, e os efeitos adversos associados às terapias po- dem compr ometer a adesão das pacientes ao tratamento (IMPERIALE et al ., 2023; DEL FORNO et al., 2023). O objetivo deste estudo foi revisar de forma crítica evidências atuais so- bre a endometriose, visando tratar temas desde a epidemiologia, fisiopatologia, tratamentos e diagnósticos, além das repercussões clínicas, sociais e psicossociais da doença. Ademais, destacar a importância de um atendimento mul- tidisciplinar para o melhor manejo do quadro, reconhecendo a condição complexa e sistêmica da endometriose, a fim de melhorar a qualidade de vida das pacientes. MÉTODO O capítulo foi elaborado a partir de uma re- visão de literatura, realizada nas bases de dados SciELO e PubMed, utilizando como descritores “endometriose”, “mulher”, “dor pélvica”, além de “infertilidade”. Foram incluídos artigos pu - blicados entre os anos 2008 e 2025, em portu - guês e inglês, os quais abordassem a endometri- ose em mulheres em idade reprodutiva, com sintomas clínicos, dentre esses a dor pélvica crônica e disfunção sexual, além da confirma - 72 | P á g i n a ção diagnóstica, seja por métodos de imagem, histopatologia e/ou critérios clínicos bem defi - nidos. Ademais, estudos originais de caráter ob- servacional e experimental, revisões sistemáti - cas e narrativas que abrangem os aspectos epi - demiológicos, fisiopatológicos, diagnósticos e de tratamento. Como critérios de exclusão, fo - ram definidos os artigos os quais não foi possí- vel obter acesso ao texto completo, publica - ções que não apresentavam foco primário na endometriose, relatos de caso isolados e revi - sões de escopo limitados, pois esses não atende- ram aos critérios definidos para essa revisão. RESULTADOS E DISCUSSÃO Ao longo da pesquisa pode-se concluir que a maioria dos artigos utilizados trazem resul - tados que abordam os desafios de diagnósticos, o impacto psicossocial, a desigualdade no aces- so ao tratamento, a falta de atenção multidis - ciplinar e a importância da conscientização so - bre essa doença que impacta a vida de cerca de 10% de mulheres em idade fértil (ARAUJO et al., 2022). A partir disso abordaremos esses te- mas como principais tópicos da nossa discus - são. Desafios no diagnóstico Os principais desafios encontrados para o diagnóstico da endometriose se dão por conta da fisiopatologia da doença que, por ainda não estar definida e conter sintomas sobrepostos a outras condições ginecológicas e gastrointesti - nais, pode comprometer a diagnose precoce da enfermidade, atrasando em média 10 anos o di- agnóstico da doença. Essa dificuldade também está relacionada à falta de conhecimento da patologia por parte da população, que confunde os sintomas como comuns da fase menstrual e só buscam ajuda médica quando esses sintomas se intensificam. Soma -se a isso a escassez de médicos especializados na área, o que contribui para a confirmação tardia do quadro clínico (CAMARGO et al ., 2022; ARAUJO et al ., 2022). Além disso, o diagnóstico definitivo só é dado por meio de laparoscopia, o que leva mui- tas mulheres a não receberem o laudo, por não se submeterem a um procedimento cirúrgico que, embora avançado, muitas vezes pode ser inconclusivo (SOUZA et al., 2024). Dessa for- ma, fica evidente que a saúde da mulher é dei - xada de lado por conta da falta de incentivo em diagnosticar essa enfermidade. A longo prazo, esse atraso pode levar à progressão da doença, com aumento da dor e complicações relaciona- das à fertilidade. Portanto, os sistemas de saúde devem investir na capacitação de profissionais para que reconheçam os sinais precoces e em- caminhem as pacientes para o diagnóstico de forma ágil. Impacto psicossocial e necessidade de a- bordagem interdisciplinar Diante do cenário de doença crônica, faz-se necessário uma abordagem interdisciplinar, pois na manifestação da patologia muitas um- lheres relatam sintomas que vão além da dor. Entre eles, destacam -se enxaqueca, fibromial - gia, Síndrome de Intestino Irritável, Síndrome da Bexiga Dolorosa (cistite intersticial), dispa - reunia, menometrorragia e cólicas intensas. A - lém disso, o sofrimento emocional decorrente da convivência com a dor pode gerar mudanças de humor, ansiedade e depressão. Esses sintomas psicológicos são frequente - mente consequência da sensação de impotência diante da dor, influenciando negativamente as atividades diárias. Portanto, um tratamento ape- nas no âmbito ginecológico pode ser insufici - ente (ALVES et al., 2023). Para um melhor tratamento dessa doença, deve-se focar o cuidado no paciente, ao invés de colocar a doença no centro do tratamento. O ideal é que o cuidado seja realizado por uma 73 | P á g i n a equipe multidisciplinar, composta por gineco - logistas, urologistas, gastroenterologistas, psi - quiatras, fisioterapeutas, nutricionistas e psicó- logos. O plano terapêutico será mais eficiente quando a equipe atuar de forma integrada, bus- cando conjuntamente a melhora da qualidade de vida da paciente (ALVES et al., 2023). Consequências para a fertilidade e in- tervenções A endometriose é uma das principais causas de infertilidade feminina, com prevalência de 30% a 50% das mulheres diagnosticadas (E - VANS, 2017). Essa relação decorre de fatores fisiopatológicos, como alterações anatômicas, distorções na estrutura dos órgãos reprodutores e aderências pélvicas, além de respostas infla - matórias locais que prejudicam a ovulação, a fertilização, o ambiente peritoneal e a implanta- ção embrionária. Há também evidências de que a endometriose pode afetar a qualidade dos óvulos, altera r a receptividade endometrial e comprometer a comunicação celular necessária ao sucesso da gestação (FAN et al., 2025). O impacto da endometriose vai muito além dos sintomas físicos. A dor crônica leva as mu- lheres a terem que enfrentar frequentemente de- safios emocionais e psicológicos significativos, principalmente em relação às dificuldades de fertilidade que essa patologia traz. A maioria das mulheres afetadas estão em idade reproduti- va fértil, o que pode levar ao medo desde o iní- cio do diagnóstico e, por não terem o acompa - nhamento ideal, coloca a mulher em uma situ - ação delicada ao lidar com uma doença que pode acabar com um desejo, que seria a gesta - ção. A depressão é uma comorbidade muito as- sociada à endometriose, devido ao desgaste emocional de lidar com essa dor persistente e sintomas que, associados ou não, pioram sig - nificativamente a qualidade de vida da mulher. Sabe-se, também, que a endometriose é uma doença invisível, na qual muitas mulheres são descredibilizadas por familiares, amigos e pro - fissionais da saúde, por muitas vezes não com - preenderem a intensidade da dor, resultando em isolamento social, problemas nas relações pes - soais e laborais, além de agravar a sensação de solidão. A relação entre endometriose e saúde mental tem sido amplamente reconhecida, prin- cipalmente sobre as taxas altas de depressão re- lacionadas à infertilidade e às repercussões so - bre a vida sexual, os estudos reforçam a rele - vância deste impacto, deixando evidente que o sofrimento psíquico se explica não somente por fatores sociais, mas também por dificuldade de acesso a tratamentos e desigualdades em saúde. Além disso, alguns mecanismos fisiopatológi - cos ultrapassam a barreira hematoencefálica ou ativam vias neurais, repercutindo diretamente no sistema nervoso central, estabelecendo uma ligação biológica entre a doença pélvica e trans- tornos mentais. Nesse contexto, o estresse se intensifica a partir dos sintomas clínicos característicos, e, quando se juntam a um estado inflamatório, perpetuam as alterações neurobiológicas relaci- onadas à endometriose. Um dos assuntos desta- cados mostra que não só apenas alterações com- portamentais compatíveis com depressão, ansi- edade e hiperalgia, mas também alterações ge- néticas e morfológicas na percepção da dor, hu- mor e regulação emocional. Logo, a endometri- ose precisa ser reconhecida como uma condição sistêmica, com impacto não apenas na saúde re- produtiva, mas também na saúde mental e qua- lidade de vida das mulheres afetadas. O diagnóstico precoce e o tratamento são fundamentais tanto para preservar a fertilidade quanto para minimizar o sofrimento psicológi - co associado. A conduta terapêutica pode inclu- ir medicamentos hormonais, cirurgias láparos- cópicas para remoção de lesões e restauração da anatomia pélvica. Em casos persistentes de in - fertilidade, recorrem-se às técnicas de reprodu- 74 | P á g i n a ção assistida, como a fertilização in vitro (FIV) e a inseminação intrauterina (IIU). Estratégias de tratamento multidisciplinares aumentam o sucesso terapêutico (COCCIA et al., 2008). O tratamento pode ser clínico ou cirúrgico, depen- dendo da gravidade do quadro e da resposta de cada paciente. No manejo clínico, destacam-se os medica- mentos hormonais, que buscam reduzir a ativi - dade estrogênica e, consequentemente, minimi- zar a progressão da doença e os sintomas dolo - rosos. Também são utilizados analgésicos e an- ti-inflamatórios para o alívio da dor. Já o trata - mento cirúrgico, indicado em casos graves ou que não apresentam melhoras diante à terapia clínica, consiste na excisão das lesões endome- trióticas. Essa abordagem pode proporcionar melhora significativa dos sintomas e, em alguns casos, aumentar as chances de gravidez, embora não elimine o risco de recidivas. Entretanto, o acesso a um tratamento integral e multidiscipli- nar — que envolva ginecologistas, endocrino - logistas, psicólogos, fisioterapeutas e educado- res físicos — ainda é um grande desafio no Bra- sil, principalmente no Sistema Único de Saúde (SUS), devido a demora no diagnóstico e a limi- tação de recursos. Como consequência, muitas mulheres dependem de serviços privados para ter acesso a terapias mais completas e individu- alizadas, o que aprofunda desigualdades sociais e regionais no enfrenta -mento da doença (AL - VES et al., 2023). Importância da educação, conscientiza- ção, políticas públicas e apoio social As pesquisas bibliográficas reforçam a rele- vância da conscientização sobre os impactos da endometriose na saúde integral da mulher. Tra- ta-se de uma condição inflamatória crônica, fre- quentemente subdiagnosticada, que comprome- te de forma significativa a qualidade de vida. Os sintomas mais comuns incluem síndro - me do intestino irritável, síndrome da bexiga dolorosa, fibromialgia, enxaquecas, dispareu - nia e transtornos de humor. Esses sinais persis- tentes e multifatoriais limitam a realização de atividades rotineiras, comprometendo o desem- penho social, familiar e profissional. Além dis- so, observa -se alta prevalência de transtornos psíquicos, sobretudo depressão e ansiedade. O manejo deve, portanto, incluir acompa - nhamento psicológico como parte do plano te - rapêutico, além de campanhas de conscientiza- ção que ampliem o conhecimento da população e dos profissionais de saúde. Reconhecer a en- dometriose como uma condição complexa, que demanda intervenções clínicas, sociais e psi - cossociais, é fundamental para garantir o cuida- do integral e humanizado às mulheres (ALVES et al., 2023). A análise dos estudos evidencia que a endo- metriose é uma condição inflamatória crônica de elevada complexidade clínica e social, carac- terizada pelo atraso diagnóstico, em média de 6 a 10 anos, devido à inespecificidade dos sinto - mas, sobreposição com outras patologias e li - mitações dos métodos diagnósticos. Além do comprometimento fisiológico, a doença impõe impactos psicossociais significativos, como in- fertilidade, dor crônica, ansiedade e depressão, que repercutem negativamente na qualidade de vida das pacientes. Observa-se ainda desigualdade no acesso ao tratamento, sobretudo no sistema público, onde o manejo multidisciplinar é restrito. As - sim, torna-se imprescindível adotar uma abor - dagem integral, envolvendo equipes interdisci - plinares e estratégias terapêuticas que contem - plem os aspectos físicos e emocionais da paci - ente. Por fim, destaca-se a urgência da amplia- ção de políticas públicas, programas de educa - ção em saúde e ações de conscientização social, a fim de reduzir o atraso no diagnóstico, mini - mizar o s ofrimento associado à infertilidade e promover o cuidado humanizado e equitativo. 75 | P á g i n a CONCLUSÃO A partir dessa revisão de literatura é possí - vel evidenciar que a endometriose é uma con - dição inflamatória crônica, sistêmica e comple- xa, cujos efeitos vão além do sistema reprodu - tor, atingindo a saúde física, psicológica e so - cial de mulheres na idade reprodutiva, além de expor o quanto o atraso diagnóstico acaba sen - do um obstáculo no tratamento efetivo, esten - dendo uma dor crônica, também como inferti - lidade e comprometimento da qualidade de vi - da. Embora haja novos tratamentos, já avança - dos tecnologicamente, ainda não há conheci - mento sobre cura para a endometriose, tornan - do, ainda mais, necessário uma adoção multi - disciplinar de cuidados voltados ao paciente, através do controle de sintomas, na preservação da fertilidade e também no suporte psicológico. Ademais, como fator atenuante para a piora do quadro, a desigualdade de acesso ao trata - mento, além do sistema público de saúde, de - monstrando a necessidade de maior investimen- to em políticas públicas de saúde, programas de capacitação profissional e ações para conscien- tização populacional sobre os riscos e malefí - cios da doença. Portanto, fica claro que para o melhor en - frentamento da endometriose exige muito além de uma inovação científica para terapêutica, mas também, uma mudança de paradigmas re - lacionados no cuidado da mulher, buscando o diagnóstico precoce e a abordagem multiprofis- sional. A partir disso, será possível reduzir o so- frimento associado à doença, promovendo a equidade no acesso ao tratamento e melhora da qualidade de vida. 76 | P á g i n a REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, M. C. et al. Importance of an interdisciplinary approach in the treatment of women with endometriosis and chronic pelvic pain. Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 45, n. 12, p. 967-974, 2023. ARAUJO, F. F. et al. “A little monster inside me that comes out now and again”: experiences of endometriosis pain among women in Austria. Cadernos de Saúde Pública, v. 38, n. 8, p. 1-12, 2022. CAMARGO, K. C. C. et al. miRNA-223 expression in patient -derived eutopic and ectopic endometrial stromal cells. Clinics (São Paulo), v. 77, p. e3329, 2022. CAVALCANTI, L. F. et al. Sonographic signs of deep infiltrative endometriosis among women submitted to routine transvaginal sonography. Einstein (São Paulo), v. 20, p. eAO7304, 2022. COCCIA, M. E et al . 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