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Palavras-Chaves: Endometriose; Dismenorreia; Infertilidade.
ISADORA COSTA AVELAR¹
JORDANA DE OLIVEIRA MONTEIRO¹
LARISSA PIRES ORLANDI2
MARCO ANTÔNIO SOLIMAR ARAÚJO3
1. Discente – Medicina na Faculdade de Minas de Belo Horizonte (FAMINAS – BH).
2. Discente – Centro Universitário de Belo Horizonte – UNIBH.
3. Médico – Graduado em Medicina pela Faculdade de Minas de Belo Horizonte
(FAMINAS – BH).
ENDOMETRIOSE
Capítulo
10
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EPIDEMIOLOGIA
Sua primeira citação ocorreu em 1860 por
Rokitansky, tendo o mesmo descrito como a
presença de células similares ao endométrio no
tecido do miométrio. Em outras futuras versões,
foram chamadas de adenomiomas e cistos cor
de chocolate presentes no septo retovaginal e
ovário, respectivamente. Numa teoria mais atu-
alizada, denominada teoria genético -epigené-
tica de Koninckx é postulado que as mulheres
nascem com características genéticas e epige -
néticas específicas, explicando o aspecto here -
ditário, a suscetibilidade ao desenvolvimento
da endometriose e muito s fatores associados,
como infertilidade, alterações endometriais e
plasmáticas (VILLAVERDE, 2023).
A endometriose é uma doença ginecológica
de caráter sistêmico inflamatório, crônico, de -
bilitante, dependente de estrogênio, multifato -
rial e que é caracterizada pelo crescimento de
tecido semelhante ao endométrio fora da cavi -
dade uterina, muitas vezes com dor pélvica crô-
nica e disúria, além de infertilidade, distúrbios
imunológicos e com plicações na gravidez. Es-
se crescimento benigno do tecido endometrial
frequentemente invade os ovários, o peritônio
pélvico, as tubas uterinas e o septo reto-vaginal.
Embora a doença pélvica seja a mais comum,
ela pode se apresentar, raramente, em locais ex-
trapélvicos (por exemplo, umbigo, vasos linfá -
ticos, raízes nervosas, pleura do pulmão, cére -
bro, pericárdio). Cerca de 6% a 10% das mulhe-
res em idade reprodutiva sofrem desta condição
em todo o mundo, com estimativa final de em
torno de quase 200 milhões de mulheres (MAT-
THES et al ., 2024; BASTOS et al ., 2023;
SINGH et al., 2023; FRANÇA et al., 2022).
Seu pico de incidência ocorre entre as ida -
des de 25 aos 35 anos, sendo caracterizada co -
mo uma das principais causas de infertilidade.
Das mulheres acometidas, apenas 65% são di -
agnosticadas inicialmente, denotando um desa-
fio: o reconhecimento e tratamento precoces
ainda residem na laparoscopia diagnóstica, uma
indicação que resulta em um atraso diagnóstico
de 4 a 11 anos (VILLAVERDE, 2023).
Embora a endometriose seja descrita como
mais prevalente em mulheres brancas, fatores
de raça/etnia, socioeconômicos e de gênero po-
dem influenciar a capacidade de buscar e aces -
sar cuidados para diagnóstico e tratamento, dis-
torcendo os dados de prevalência (MATTHES
et al., 2024).
Etiologia
A endometriose é uma doença complexa
cuja fisiopatologia envolve múltiplos mecanis -
mos inter-relacionados, incluindo fatores gené-
ticos, epigenéticos, hormonais, imunológicos e
inflamatórios (BASTOS et al., 2023). As inte -
rações gene -ambiente também podem levar à
conversão de tecidos endometriais benignos em
tecidos malignos que proliferam rapidamente
em comparação com o tecido normal. A endo -
metriose tem certas semelhanças com o carci -
noma, como invasividade, crescimento pro -
gressivo, dependência de estrogênio, cresci -
mento e recorrência (FRANÇA et al ., 2022;
SINGH et al., 2023; MATTHES et al., 2024).
Seu caráter hereditário é significativo: fi -
lhas de mães com endometriose confirmada ci-
rurgicamente têm mais que o dobro do risco de
desenvolver a doença do que filhas de mães sem
endometriose e, por sua vez, mulheres com en-
dometriose que têm um parente de primeiro
grau afetado tendem a desenvolver formas mais
graves da doença (FRANÇA et al., 2022; VIL-
LAVERDE, 2023).
A fisiopatologia desta condição clínica in -
clui a presença de citocinas pró-inflamatórias e
alterações nas populações de células imunes
circulantes no organismo, criando um ambiente
inflamatório generalizado que pode se estender
para fora da pelve, promovendo um estado de
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inflamação sistêmica, responsável, entre outras,
por manifestações neurológicas que incluem
aumento da sensibilidade à dor e distúrbios do
humor (VILLAVERDE, 2023; MATTHES et
al., 2024).
A teoria genético -epigenética sugere que a
endometriose surge quando alterações acumu -
ladas em genes relacionados ao reparo de DNA
e crescimento celular ultrapassam um limiar
crítico, resultando na formação de lesões hete -
rogêneas. Mutações em genes como KRAS,
ARID1A e PIK3CA, além de alterações epige -
néticas, contribuem para a resistência a proges-
togênios e a superexpressão de aromatase, le -
vando a um ambiente hiperestrogênico. No ní -
vel hormonal, o estradiol promove o crescimen-
to dos implantes endometri óticos, enquanto a
progesterona tem sua ação inibitória compro -
metida devido à redução dos receptores PR-B e
ao aumento dos receptores ER-β. Esse desequi-
líbrio cria um microambiente peritoneal pró-in-
flamatório, com maior produção de prostaglan-
dina E2 e estresse oxidativo (VILLAVERDE,
2023).
A participação de células-tronco endometri-
ais também é crucial, pois são atraídas para os
implantes pelo fator SDF -1, diferenciando -se
em tecido endometriótico e perpetuando as le -
sões. Além disso, disfunções imunológicas, co-
mo a diminuição da apoptose de neutrófilos, a
redução da atividade das células NK e o aumen-
to de macrófagos e citocinas inflamatórias (co-
mo IL-6 e TNF -α), favorecem a sobrevivência
e invasão dos implantes. Alterações na expres -
são de miRNAs, como miR -196a e miR -451c,
também desempenham um papel, modulando a
resistência à progesterona e a inflamação. Já a
endometriose profunda, definida por infiltração
superior a 5 mm, é mais influenciada pelos hor-
mônios plasmáticos e apresenta características
distintas das lesões superficiais (VILLAVER -
DE, 2023).
Em resumo, a endometriose é resultado de
uma combinação de fatores que incluem predis-
posição genética, desregulação hormonal, fa -
lhas imunológicas e inflamação crônica, crian -
do um ciclo vicioso que perpetua a doença. No
que diz respeito aos fatores de risco, possui
grande relação com questões como perfil gené-
tico, atividade hormonal, estado imunológico
ou inflamatório, fatores ambientais, estilo de vi-
da, histórico familiar e estado ginecológico e re-
produtivo. Um grande exemplo é a ingestão de
cafeína e álcool, já que ambos podem influen -
ciar no aparecimento da endometriose devido à
sua capacidade de ativar a aromatase e aumen -
tar a conversão de testosterona em estrogênio.
É esse mesmo mecanismo de aumento nos ní -
veis de estrogênio, que também ocorre durante
o desenvolvimento de atividades físicas inten -
sas, o que pode ser fator que contraindica essa
prática em mulheres que sofrem de endometri -
ose, sendo por vezes preferível praticar exercí -
cios de intensidade normal (VILLAVERDE,
2023).
O tabagismo, por sua vez, carece de evidên-
cias que relacionem ou não o uso ao maior aco-
metimento pela endometriose. Já as carnes ver-
melhas, tendem a aumentar o risco (VILLA -
VERDE, 2023).
Dentre os antecedentes ginecológicos, a
idade de início da menarca, a duração do ciclo
menstrual, a paridade, o uso de anticoncepcio -
nais ou a obstrução tubária, como fatores de ris-
co ou proteção, são justificados pelo maior ou
menor acúmulo de células endometriais na ca -
vidade que originam, ou por alterações no mi -
crobioma intestinal ou pelas diferentes concen-
trações de estradiol (VILLAVERDE, 2023).
Sinais e sintomas
Os sintomas variam de dor pélvica crônica
(dismenorreia, dor pélvica acíclica, dispareu -
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nia, disquezia, disúria), com gravidade que va -
ria de leve a fatal, até infertilidade; no entanto,
também pode ser assintomática (BASTOS et
al., 2023; VILLAVERDE, 2023). Evidências
recentes também indicam um componente in -
flamatório sistêmico subjacente a comorbida -
des associadas, como enxaquecas e doenças
cardiovasculares e autoimunes (FRANÇA et
al., 2022; GIUDICE et al., 2023).
O tipo mais frequente de dor relatado por
pacientes com endometriose é a que ocorre du-
rante o período menstrual, iniciando já nos pri -
meiros ciclos menstruais e, com o tempo, evo -
luindo para uma dor pélvica crônica que pode
surgir fora do ciclo menstrual, de forma inespe-
rada. Essa dor muitas vezes interfere significa -
tivamente nas atividades diárias, incluindo as
escolares. Além disso, sintomas como altera -
ções gastrointestinais e dor ao urinar também
são comuns, mas não são exclusivos da endo -
metriose, o que pode dificultar o diagnóstico
por se confundirem com outras condições clíni-
cas (GIUDICE et al., 2023).
A variedade topográfica de lesões na cavi -
dade pélvica é ampla, com lesões superficiais
ou profundas que podem estar localizadas no
peritônio. Tradicionalmente, três fenótipos de
lesões de endometriose são reconhecidos: peri-
toneal, ovariano (endometrioma) e profundo
(FRANÇA et al., 2022; VILLAVERDE, 2023).
A endometriose peritoneal é caracterizada
pela presença de implantes frequentemente po-
limórficos de tecido endometrial heterotópico
na superfície do peritônio pélvico, embora pos-
sam ser encontrados em todo o abdômen. É o
tipo de endometriose mais difícil de diagnosti -
car, pois não é facilmente visível com as técni -
cas de imagem não invasivas disponíveis e re -
quer visualização direta por laparoscopia ou la-
parotomia (VILLAVERDE, 2023).
A endometriose ovariana com a presença de
cistos endometrióticos, comumente chamados
de endometriomas, é o tipo de endometriose
mais fácil de diagnosticar devido à sua acessi -
bilidade ao exame de ultrassom (VILLAVER -
DE, 2023).
A endometriose profunda é definida como a
presença de nódulos fibróticos infiltrantes nos
espaços peritoneais pélvicos, com profundidade
de invasão superior a 5 mm, ou que afetam a
camada muscular de vísceras ocas. Embora es -
ses nódulos sejam onipresentes, são comumen-
te encontrados no septo retovaginal, ligamentos
útero-sacros e parede retossigmoide, com graus
variados de invasão que podem até levar a sin -
tomas obstrutivos. Essa forma de endometriose
é considerada a mais avançada e a de maior in-
cidência (VILLAVERDE, 2023).
Diagnóstico
Devido à falta de indicadores diagnósticos
sensíveis e confiáveis, o diagnóstico muitas ve-
zes fica atrasado. Além disso, algumas mulhe -
res também podem permanecer por um longo
tempo assintomáticas, dificultando o diagnós -
tico. As técnicas diagnósticas empregadas são
principalmente técnicas de imagem como lapa-
roscopia de endometriose, ressonância magné -
tica (RM), cistoscopia, sigmoidoscopia ou co -
lonoscopia e aspiração com agulha fina guiada
por ultrassom (SINGH et al., 2023).
O diagnóstico da endometriose continua
sendo um dos maiores desafios dentro da prá -
tica ginecológica, principalmente devido à va -
riedade de manifestações clínicas e à limitação
de alguns exames em detectar lesões menores
ou superficiais (BASTOS et al., 2023). A abor-
dagem diagnóstica recomendada baseia -se na
combinação entre avaliação clínica, exames de
imagem, marcadores laboratoriais e, em deter -
minados casos, investigação cirúrgica (VILLA-
VERDE, 2023; MATTHES et al., 2024).
O exame clínico, embora útil, apresenta bai-
xa sensibilidade e especificidade, sendo reco -
mendado principalmente para pacientes com
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sintomas sugestivos. O toque vaginal, por e -
xemplo, pode identificar nódulos ou lesões em
regiões acessíveis, como os ligamentos uteros -
sacros ou cistos ovarianos volumosos, mas não
é suficiente para excluir a doença em casos com
exame físico normal (FRANÇA et al ., 2022;
VILLAVERDE, 2023; MATTHES et al .,
2024).
Entre os exames de imagem, a ultrassono -
grafia transvaginal é a principal ferramenta di -
agnóstica de primeira linha. Trata-se de um mé-
todo amplamente utilizado devido à sua acessi-
bilidade, baixo custo e elevada acurácia, espe -
cialmente para o diagnóstico de endometriomas
ovarianos. Estudos apontam que a sensibilidade
da ultrassonografia para essas lesões varia entre
93% e 98%, enquanto a especificidade situa -se
entre 95% e 97%. Os endometriomas geralmen-
te se apresentam como cistos uniloculares com
conteúdo de baixa ecogenicidade homogênea,
sem vascularização interna expressiva, o que
gera a clássica imagem de "vidro fosco". Em ca-
sos mais complexos, pode -se observar lesões
com múltiplos lóculos e conteúdo ecogênico
heterogêneo, o que exige diferenciação com tu-
mores de ovário. A ultrassonografia transvagi -
nal ou transretal de alta frequência, especial -
mente com preparo adequado utilizando gel ou
solução salina na vagina e/ou reto, é particu -
larmente eficaz na identificação da endométrio-
se profunda, permit indo a visualização de nó -
dulos hipoecoicos arredondados que podem in-
filtrar estruturas como a bexiga, a parede retal
ou os ligamentos pélvicos (FRANÇA et al .,
2022; GIUDICE et al., 2023; VILLAVERDE,
2023; MATTHES et al., 2024).
Complementarmente, a ressonância magné-
tica (RM) tem se mostrado uma ferramenta útil,
sobretudo para a avaliação da extensão e pro -
fundidade das lesões infiltrativas. A RM é ca -
paz de identificar características específicas da
endometriose, como áreas de hemorragia antiga
e alterações fibrosas. As lesões podem apresen-
tar sinais de alta intensidade em T1 devido à
presença de sangue e, em algumas situações, si-
nais de alta intensidade em T2, compatíveis
com tecido glandular endometrial. A sensibili -
dade da RM pode chegar a 91% e a especifici -
dade a 96% em casos de endometriose profun -
da, especialmente nas localizações intestinais,
como o reto e o sigmoide. No entanto, este exa-
me apresenta limitações em pacientes com vari-
ações anatômicas como útero retrofletido ou em
casos com reduzido peristaltismo intestinal,
situações que podem interferir negativamente
na acurácia diagnóstica (FRANÇA et al., 2022;
GIUDICE et al., 2023; VILLAVERDE, 2023;
MATTHES et al., 2024).
Os biomarcadores laboratoriais também
têm sido estudados como ferramentas com -
plementares. O marcador CA-125, embora bas-
tante conhecido e utilizado no rastreio de câncer
de ovário, pode estar elevado em casos de en -
dometriose. Apesar de apresentar boa especifi -
cidade (em torno de 93% quando os valores es-
tão acima de 30 U/mL), sua sensibilidade é con-
siderada baixa (cerca de 53%), o que impede
seu uso isolado como exame diagnóstico. Nos
últimos anos, os microRNAs (miRNAs) circu -
lantes passaram a ser investigados como marca-
dores promissores, já que são estáveis na circu-
lação e têm perfis de expressão específicos. Es-
tudos sugerem que a combinação de diferentes
miRNAs, como miR-125b-5p, miR-451a, miR-
150-5p e let -7b, pode permitir a identificação
precisa de pacientes com endometriose, além de
indicar potenciais alvos terapêuticos, especial -
mente o let-7b, que demonstrou efeitos anti-in-
flamatórios e capacidade de reduzir a expressão
de aromatase e receptores de estrogênio em mo-
delos experimentais. Também se observa que a
expressão do receptor de progesterona nas le -
sões endometrióticas pode ser um bom preditor
de resposta ao tratamento hormonal. Mulheres
com alta expressão desses receptores tendem a
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responder melhor à terapia com progestagênios
do que aquelas com baixa expressão (FRANÇA
et al ., 2022; GIUDICE et al ., 2023; VILLA -
VERDE, 2023: MATTHES et al., 2024).
Apesar dos avanços não invasivos, a lapa -
roscopia ainda é considerada o padrão -ouro
para o diagnóstico definitivo da endometriose,
especialmente quando os exames de imagem
não confirmam a suspeita clínica ou quando o
tratamento empírico falha. A laparoscopia per -
mite não apenas a visualização direta das le -
sões, como também a realização de biópsias e a
intervenção terapêutica no mesmo procedi -
mento. A confirmação histológica das lesões é
recomendada, embora a ausência de achados
histológicos não exclua comp letamente a do -
ença. Cerca de 67% das lesões suspeitas são
confirmadas histologicamente, dependendo da
aparência, tamanho e estágio da doença, com
variabilidade entre os cirurgiões na identifica -
ção de tipos incomuns de lesões (FRANÇA et
al., 2022; GIUDICE et al., 2023; VILLAVER-
DE, 2023; MATTHES et al., 2024).
As diretrizes da Sociedade Europeia de Re-
produção Humana (ESHRE), atualizadas em
2022, recomendam que a investigação diagnós-
tica da endometriose considere o conjunto de si-
nais e sintomas cíclicos e não cíclicos, como
dismenorreia, dispareunia profunda, disúria,
dor na evacuação, hematúria, dor torácica cata-
menial ou dor no ombro, além de sintomas
como fadiga e infertilidade. A imagem é indi -
cada sempre que possível, mas os profissionais
devem estar atentos ao fato de que resultados
negativos, sobretudo na ultrassonografia e na
RM, não excluem a presença da doença, espe -
cialmente na forma peritoneal superficial. A la-
paroscopia deve ser considerada em pacientes
com sintomas persistentes, falha terapêutica ou
alta suspeição clínica (VILLAVERDE, 2023;
MATTHES et al., 2024).
Embora atualmente não existem evidências
sólidas de que o uso de diários, aplicativos ou
questionários de sintomas leve a um diagnós -
tico mais precoce, seu uso é incentivado como
uma forma de empoderar a paciente e auxiliar
no relato mais preciso dos sintomas durante a
anamnese (VILLAVERDE, 2023).
Portanto, o diagnóstico da endometriose
exige uma abordagem multidisciplinar, indivi -
dualizada e baseada em múltiplos métodos. Ne-
nhum exame isolado é suficiente para confirmar
ou descartar a doença, sendo fundamental a in-
tegração entre queixas clínicas, achados físicos,
exames de imagem, marcadores laboratoriais e,
quando necessário, avaliação laparoscópica pa-
ra assegurar a correta identificação e tratamento
da patologia (VILLAVERDE, 2023; MAT -
THES et al., 2024).
Tratamento
Dependendo dos sintomas, da gravidade do
distúrbio e da necessidade de manter a fertili -
dade, vários tratamentos para endometriose são
recomendados. Atualmente, a condição é tra -
tada com medicamentos, cirurgia ou em combi-
nação. Essas intervenções têm eficácia limitada
com vários efeitos colaterais. Além disso, o uso
prolongado de medicamentos pode aumentar o
risco de inflamação, distúrbios do ciclo mens -
trual, sangramento incomum, náusea, aumento
de peso, osteoporose, dor nas mamas, dificul -
dade para dormir e humor deprimido. Se as le -
sões endometriais não forem completamente re-
movidas após a cirurgia, a paciente tenderá a
sentir dor novamente, juntamente com proble -
mas urológicos, gastrointestinais, vasculares e
neurológicos (FRANÇA et al., 2022; SINGH et
al., 2023; MATTHES et al., 2024).
O tratamento da endometriose envolve uma
abordagem escalonada, baseada na intensidade
dos sintomas, no desejo reprodutivo da paciente
e na extensão da doença (BASTOS et al .,
2023). A terapêutica inicial costuma priorizar
intervenções menos invasivas, partindo do uso
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de anti -inflamatórios não esteroidais (AINEs)
associados a anticoncepcionais orais combina -
dos de uso contínuo ou a progestagênios isola -
dos. Essa combinação visa, por um lado, redu -
zir a inflamação por meio da inibição das pros-
taglandinas e, por outro, promover atrofia endo-
metrial, com boa tolerabilidade na maioria das
pacientes. Entretanto, uma parcela significativa
das mulheres não responde adequadamente a
essa primeira linha terapêutica, em parte por
efeitos colaterais intoleráveis ou pela resistên -
cia do tecido endometriótico à ação da proges -
terona (FRANÇA et al., 2022; VILLAVERDE,
2023; MATTHES et al., 2024).
Quando a dor persiste ou há falha terapêu -
tica, parte -se para a segunda linha de trata -
mento, que busca bloquear a produção de estro-
gênio, essencial para o crescimento das lesões.
Nessa fase, destacam-se os agonistas e antago -
nistas do GnRH, os inibidores da aromatase e
os moduladores seletivos dos receptores hor -
monais. Os agonistas de GnRH promovem hi -
poestrogenismo profundo, levando à regressão
das lesões, mas com efeitos colaterais como sin-
tomas vasomotores e perda de massa óssea. Já
os antagonistas, como o elagolix, têm ação mais
rápida e controlada, podendo manter níveis hor-
monais mais estáveis e com menos sintomas as-
sociados. Os inibidores da aromatase, como o
letrozol e o anastrozol, também reduzem o es -
trogênio localmente, sendo indicados principal-
mente em casos de resistência hormonal, mas
seu uso deve ser associado a bloqueadores da
ovulação devido aos riscos para a função ovari-
ana. Já os moduladores hormonais, como a mi-
fepristona e o bazedoxifeno, interferem direta -
mente na resposta dos tecidos aos hormônios,
produzindo alívio sintomático e amenorreia,
embora alguns apresentem riscos hepáticos que
limitam seu uso (FRANÇA et al., 2022; GIU -
DICE et al ., 2023; VILLAVERDE, 2023;
MATTHES et al., 2024).
A cirurgia representa uma estratégia de ter-
ceira linha, indicada quando os métodos clíni -
cos falham ou quando há comprometimento
anatômico severo. O objetivo da intervenção ci-
rúrgica é aliviar a dor, restaurar a anatomia e,
quando necessário, melhorar as chances de con-
cepção. Lesões superficiais podem ser destruí -
das por métodos como vaporização com laser
ou coagulação bipolar, mas sua eficácia é limi-
tada em lesões mais profundas. Já a endometri-
ose infiltrativa exige excisão completa, po -
dendo envolver ressecções intestinais ou uroló-
gicas. Em casos de endometriomas volumosos,
com mais de 6 cm, pode ser necessário remover
o ovário afetado, especialmente se a reserva
ovariana estiver severamente comprometida.
No entanto, a cirurgia raramente é curativa, pois
apresenta taxas de recorrênc ia de dor em até
45% dos casos em cinco anos, exigindo avalia-
ção individualizada dos riscos e benefícios
(FRANÇA et al., 2022; GIUDICE et al., 2023;
VILLAVERDE, 2023; MATTHES et al .,
2024).
Tanto a excisão quanto a ablação laparoscó-
pica são técnicas cirúrgicas utilizadas no trata -
mento da endometriose e têm demonstrado efi-
cácia na redução da dor. Uma meta -análise de
2021 avaliou dados limitados de ensaios clíni -
cos randomizados e não encontrou diferença
significativa entre os dois métodos quanto ao
alívio de sintomas como dismenorreia, dispa -
reunia e disquezia. No entanto, outra análise
sistemática com base em estudos mais antigos
concluiu que a excisão oferece melhores resul -
tados no controle da dor. Um estudo de acom -
panhamento por mais de cinco anos indicou que
a excisão proporcionou melhora mais dura -
doura na dor durante as relações sexuais e foi
associada a menor necessidade de terapias mé -
dicas contínuas, embora os resultados a curto
prazo não mostrassem diferenças relevantes. A
maioria dos estudos exclui pacientes com endo-
metriose profunda infiltrativa, sendo escassos
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os dados comparando estratégias cirúrgicas
conservadoras com abordagens mais radicais
nesse grupo. De forma geral, ainda faltam evi -
dências conclusivas para estabelecer superiori -
dade definitiva entre excisão e ablação, embora
os dados de longo prazo tendam a favorecer a
excisão (GIUDICE et al ., 2023; VILLAVER -
DE, 2023).
A recorrência da endometriose após trata -
mento cirúrgico pode se manifestar pelo retorno
da dor, reaparecimento das lesões em exames
de imagem ou necessidade de novas cirurgias.
Estima-se que até metade das pacientes experi-
mentem recorrência em até cinco anos, sendo
comum a realização de múltiplas cirurgias. En-
tre os possíveis mecanismos envolvidos estão
lesões não totalmente removidas, doença mi -
croscópica remanescente ou novos focos de im-
plantes. A taxa de recidiva é maior em mulheres
mais jovens, com doença mais grave ou que op-
tam pela preservação de ovários e útero. A pre-
paração cuidadosa antes da cirurgia, especial -
mente nos casos de endometriose profunda com
acometimento intestinal, é essencial para o su -
cesso do tratamento e prevenção de novos epi -
sódios. Apesar de uma revisão anterior não ter
identificado benefício claro com o uso de tera -
pia hormonal após a cirurgia, pesquisas mais re-
centes sugerem que o uso prolongado de con -
traceptivos orais combinados, progestágenos
isolados ou o dispositivo intrauterino com levo-
norgestrel pode ajudar a prevenir a recorrência
de endometriomas e da dor menstrual. No en -
tanto, ainda há incertezas quanto à eficácia des-
sas abordagens na prevenção de outros sinto -
mas, como dispareunia profunda e dor pélvica
contínua, especialmente em pacientes com for-
mas mais graves da doença (GIUDICE et al.,
2023; VILLAVERDE, 2023).
Novas abordagens terapêuticas para a endo-
metriose têm sido exploradas com o objetivo de
oferecer alternativas mais eficazes e com menos
efeitos adversos. Entre elas, destaca-se o Elago-
lix, um antagonista oral do GnRH que atua na
supressão parcial do estradiol, evitando o hipo-
estrogenismo intenso provocado pelos agonis -
tas. Esse mecanismo permite a redução signifi-
cativa de sintomas como dismenorreia e dor
pélvica, com melhora na qualidade de vida e
produtividade das pacientes. Apesar de sua efi-
cácia comprovada em estudos de fase 3, cerca
de 70% das mulheres relataram efeitos adver -
sos, e seu uso é contraindicado em gestantes,
mulheres com osteoporose, insuficiência hepá -
tica grave ou que não responderam a outros mo-
duladores hormonais. Outra substância promis-
sora é o resveratrol, um polifenol com proprie -
dades antioxidantes e anti-inflamatórias. Ele re-
duz a produção de citocinas pró -inflamatórias,
fatores angiogênicos e espécies reativas de oxi-
gênio, além de interferir na transição epitélio -
mesenquimal e em vias de sinalização celular,
como a PI3K/AKT/NF -κB, fundamentais para
o desenvolvimento das lesões endometrióticas.
A curcumina, derivada da planta Curcuma
longa, também tem demonstrado efeitos bené -
ficos por sua capacidade de inibir mediadores
inflamatórios como COX-2 e TNF-α, diminuir
a proliferação celular e reduzir o tamanho das
lesões e a formação de novos vasos, apresen -
tando um importante papel antiangiogênico.
Adicionalmente, atua sobre vias intracelulares
como NF-κB, IKK, STAT3 e JNK, reduzindo a
inflamação e a progressão da doença. Já a pue -
rarina, um isoflavonoide encontrado na planta
Pueraria lobata, mostra potencial terapêutico ao
inibir a aromatase e limitar a adesão, migração
e proliferação de células endometriais. Em mo-
delos animais, demonstrou redução nos níveis
de estradiol e prostaglandina E2, além de au -
mento na expressão de enzimas que degradam
o estrogênio, o que contribui para a inibição do
crescimento das lesões. Apesar do avanço nas
pesquisas e do surgimento dessas novas tera -
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pias, ainda há grande variação nas diretrizes clí-
nicas internacionais quanto ao tratamento da
endometriose, especialmente nos casos de in -
fertilidade. Há um consenso sobre o uso de an -
ticoncepcionais combinados e progestagênios
como primeira linha no controle da dor, mas di-
vergências permanecem em relação às aborda -
gens de segunda e terceira linha, refletindo a
complexidade da doença e a necessidade de in-
dividualização no tratamento (FRANÇA et al.,
2022).
Prognóstico
Ainda que a endometriose afete um grande
número de mulheres globalmente e, dessa ma -
neira, configura-se como uma questão de saúde
global, ainda persistem terapias insuficientes e
opções de diagnóstico limitadas (BASTOS et
al., 2023). Por fim, tornam-se cada vez mais ne-
cessárias estratégias personalizadas com o ob -
jetivo de reduzir o sofrimento, as patologias re-
lacionadas ao estresse e melhorar a qualidade
de vida das mulheres afetadas (SINGH et al.,
2023; MATTHES et al., 2024).
Por fim, a preservação da fertilidade e as
técnicas de reprodução assistida tornam-se cru-
ciais em muitas pacientes com endometriose,
especialmente aquelas com desejo reprodutivo
atual ou futuro. A presença da doença, em es -
pecial quando acomete os ovários, pode reduzir
a reserva ovariana, afetando a resposta à esti -
mulação hormonal e o número de óvulos obti -
dos. Estudos mostram que mulheres com endo-
metriomas tendem a produzir menos folículos,
ovócitos e embriões de boa qualidade, embora
a taxa de fertilização e de nascidos vivos não se
mostre significativamente inferior em compara-
ção a mulheres sem a doença. Isso sugere que
os danos causados pela endometriose são mais
quantitativos do que qualitativos (VILLA -
VERDE, 2023).
As principais técnicas de reprodução assis -
tida utilizadas incluem a inseminação intraute -
rina (IIU) com estimulação ovariana em casos
mais leves (estágios I e II da doença) e a fertili-
zação in vitro (FIV) ou a injeção intracitoplas -
mática de espermatozoides (ICSI) nos casos
moderados a graves. Nessas situações, mesmo
que a endometriose afete a reserva ovariana, a
resposta à estimulação pode ser adequada, e os
resultados gestacionais satisfatórios, principal -
mente quando não há distorções anatômicas
graves. Há também consenso sobre a importân-
cia da vitrificação de ovócitos em mulheres que
desejam preservar a fertilidade, principalmente
antes de intervenções cirúrgicas ovarianas. A
escolha do protocolo de estimulação (com ago-
nistas ou antagonistas do GnRH) não parece
afetar significativamente os resultados da FIV,
e não há evidências suficientes para recomendar
o uso de anticoncepcionais orais como preparo
prévio à estimulação (VILLAVERDE, 2023).
A decisão de utilizar técnicas de reprodução
assistida deve ser tomada com base em uma
análise individualizada, considerando o estágio
da doença, a idade da paciente, sua reserva ova-
riana e seus objetivos reprodutivos. Apesar dos
avanços, muitas dúvidas ainda persistem, como
o real impacto da gravidade da endometriose na
qualidade dos ovócitos e embriões e nas taxas
de gestação, o que reforça a necessidade de
mais pesquisas na área para aprimorar as estra-
tégias terapêuticas (VILLAVERDE, 2023).
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BASTOS, L.F. et al. Endometriose: fisiopatologia, diagnóstico e abordagem terapêutica. Brazilian Journal of Health
Review, v. 6, n. 4, p. 16753–16764, 2023. Doi:10.34119/bjhrv6n4-211.
FRANÇA, P.R.C. et al. Endometriosis: a disease with few direct treatment options. Molec ules (Basel, Switzerland), v.
27, n. 13, p. 4034, 2022. doi: 10.3390/molecules27134034.
GIUDICE, L.C. et al. Endometriosis in the era of precision medicine and impact on sexual and reproductive health
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MATTHES, A.L.B. et al. Endometriose - uma revisão abrangente sobre patogenia e epidemiologia, investigação diag -
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SINGH, M. et al. Diagnostic and therapeutic approaches for endometriosis: a patent landscape. Archives of Gynecology
and Obstetrics, v. 309, n. 3, p. 831-842, 2024. Doi: 10.1007/s00404-023-07151-0.
VILLAVERDE, V.L. Endometriosis E Infertilidad: Una Puesta Al Día . Revista Iberoamericana de Fertilidad y
Reproducción Humana, v. 40, 2023. Disponível em: . Acesso em: 20 jul. 2025.
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