{"paper_id":"47a7c6fe-c421-41a4-b729-037c36891e0e","body_text":"82 | P á g i n a  \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \nPalavras-Chaves: Endometriose; Dismenorreia; Infertilidade.  \nISADORA COSTA AVELAR¹ \nJORDANA DE OLIVEIRA MONTEIRO¹ \nLARISSA PIRES ORLANDI2 \nMARCO ANTÔNIO SOLIMAR ARAÚJO3 \n1. Discente – Medicina na Faculdade de Minas de Belo Horizonte (FAMINAS – BH).  \n2. Discente – Centro Universitário de Belo Horizonte – UNIBH. \n3. Médico – Graduado em Medicina pela Faculdade de Minas de Belo Horizonte \n(FAMINAS – BH).  \nENDOMETRIOSE \nCapítulo \n10 \n\n \n83 | P á g i n a  \nEPIDEMIOLOGIA \nSua primeira citação ocorreu em 1860 por \nRokitansky, tendo o mesmo descrito como a \npresença de células similares ao endométrio no \ntecido do miométrio. Em outras futuras versões, \nforam chamadas de adenomiomas e cistos cor \nde chocolate presentes no septo retovaginal e \novário, respectivamente. Numa teoria mais atu-\nalizada, denominada teoria genético -epigené-\ntica de Koninckx é postulado que as mulheres \nnascem com características genéticas e epige -\nnéticas específicas, explicando o aspecto here -\nditário, a suscetibilidade ao desenvolvimento \nda endometriose e muito s fatores associados, \ncomo infertilidade, alterações endometriais e \nplasmáticas (VILLAVERDE, 2023). \nA endometriose é uma doença ginecológica \nde caráter sistêmico inflamatório, crônico, de -\nbilitante, dependente de estrogênio, multifato -\nrial e que é caracterizada pelo crescimento de \ntecido semelhante ao endométrio fora da cavi -\ndade uterina, muitas vezes com dor pélvica crô-\nnica e disúria, além de infertilidade, distúrbios \nimunológicos e com plicações na gravidez. Es-\nse crescimento benigno do tecido endometrial \nfrequentemente invade os ovários, o peritônio \npélvico, as tubas uterinas e o septo reto-vaginal. \nEmbora a doença pélvica seja a mais comum, \nela pode se apresentar, raramente, em locais ex-\ntrapélvicos (por exemplo, umbigo, vasos linfá -\nticos, raízes nervosas, pleura do pulmão, cére -\nbro, pericárdio). Cerca de 6% a 10% das mulhe-\nres em idade reprodutiva sofrem desta condição \nem todo o mundo, com estimativa final de em \ntorno de quase 200 milhões de mulheres (MAT-\nTHES et al ., 2024; BASTOS et al ., 2023; \nSINGH et al., 2023; FRANÇA et al., 2022).  \nSeu pico de incidência ocorre entre as ida -\ndes de 25 aos 35 anos, sendo caracterizada co -\nmo uma das principais causas de infertilidade. \nDas mulheres acometidas, apenas 65% são di -\nagnosticadas inicialmente, denotando um desa-\nfio: o reconhecimento e tratamento precoces \nainda residem na laparoscopia diagnóstica, uma \nindicação que resulta em um atraso diagnóstico \nde 4 a 11 anos (VILLAVERDE, 2023). \nEmbora a endometriose seja descrita como \nmais prevalente em mulheres brancas, fatores \nde raça/etnia, socioeconômicos e de gênero po-\ndem influenciar a capacidade de buscar e aces -\nsar cuidados para diagnóstico e tratamento, dis-\ntorcendo os dados de prevalência (MATTHES \net al., 2024).  \nEtiologia  \nA endometriose é uma doença complexa \ncuja fisiopatologia envolve múltiplos mecanis -\nmos inter-relacionados, incluindo fatores gené-\nticos, epigenéticos, hormonais, imunológicos e \ninflamatórios (BASTOS et al., 2023). As inte -\nrações gene -ambiente também podem  levar à \nconversão de tecidos endometriais benignos em \ntecidos malignos que proliferam rapidamente \nem comparação com o tecido normal. A endo -\nmetriose tem certas semelhanças com o carci -\nnoma, como invasividade, crescimento pro -\ngressivo, dependência de estrogênio, cresci -\nmento e recorrência (FRANÇA et al ., 2022; \nSINGH et al., 2023; MATTHES et al., 2024).  \nSeu caráter hereditário é significativo: fi -\nlhas de mães com endometriose confirmada ci-\nrurgicamente têm mais que o dobro do risco de \ndesenvolver a doença do que filhas de mães sem \nendometriose e, por sua vez, mulheres com en-\ndometriose que têm um parente de primeiro \ngrau afetado tendem a desenvolver formas mais \ngraves da doença (FRANÇA et al., 2022; VIL-\nLAVERDE, 2023). \nA fisiopatologia desta condição clínica in -\nclui a presença de citocinas pró-inflamatórias e \nalterações nas populações de células imunes \ncirculantes no organismo, criando um ambiente \ninflamatório generalizado que pode se estender \npara fora da pelve, promovendo um estado de \n\n \n84 | P á g i n a  \ninflamação sistêmica, responsável, entre outras, \npor manifestações neurológicas que incluem \naumento da sensibilidade à dor e distúrbios do \nhumor (VILLAVERDE, 2023; MATTHES et \nal., 2024). \nA teoria genético -epigenética sugere que a \nendometriose surge quando alterações acumu -\nladas em genes relacionados ao reparo de DNA \ne crescimento celular ultrapassam um limiar \ncrítico, resultando na formação de lesões hete -\nrogêneas. Mutações em genes como KRAS, \nARID1A e PIK3CA, além de alterações epige -\nnéticas, contribuem para a resistência a proges-\ntogênios e a superexpressão de aromatase, le -\nvando a um ambiente hiperestrogênico. No ní -\nvel hormonal, o estradiol promove o crescimen-\nto dos implantes endometri óticos, enquanto a \nprogesterona tem sua ação inibitória compro -\nmetida devido à redução dos receptores PR-B e \nao aumento dos receptores ER-β. Esse desequi-\nlíbrio cria um microambiente peritoneal pró-in-\nflamatório, com maior produção de prostaglan-\ndina E2 e estresse oxidativo (VILLAVERDE, \n2023). \nA participação de células-tronco endometri-\nais também é crucial, pois são atraídas para os \nimplantes pelo fator SDF -1, diferenciando -se \nem tecido endometriótico e perpetuando as le -\nsões. Além disso, disfunções imunológicas, co-\nmo a diminuição da apoptose de neutrófilos, a \nredução da atividade das células NK e o aumen-\nto de macrófagos e citocinas inflamatórias (co-\nmo IL-6 e TNF -α), favorecem a sobrevivência \ne invasão dos implantes. Alterações na expres -\nsão de miRNAs, como miR -196a e miR -451c, \ntambém desempenham um papel, modulando a \nresistência à progesterona e a inflamação. Já a \nendometriose profunda, definida por infiltração \nsuperior a 5 mm, é mais influenciada pelos hor-\nmônios plasmáticos e apresenta características \ndistintas das lesões superficiais (VILLAVER -\nDE, 2023). \nEm resumo, a endometriose é resultado de \numa combinação de fatores que incluem predis-\nposição genética, desregulação hormonal, fa -\nlhas imunológicas e inflamação crônica, crian -\ndo um ciclo vicioso que perpetua a doença. No \nque diz respeito aos fatores de risco, possui \ngrande relação com questões como perfil gené-\ntico, atividade hormonal, estado imunológico \nou inflamatório, fatores ambientais, estilo de vi-\nda, histórico familiar e estado ginecológico e re-\nprodutivo. Um grande exemplo é a ingestão de \ncafeína e álcool, já que ambos podem influen -\nciar no aparecimento da endometriose devido à \nsua capacidade de ativar a aromatase e aumen -\ntar a conversão de testosterona em estrogênio. \nÉ esse mesmo mecanismo de aumento nos ní -\nveis de estrogênio, que também ocorre durante \no desenvolvimento de atividades físicas inten -\nsas, o que pode ser fator que contraindica essa \nprática em mulheres que sofrem de endometri -\nose, sendo por vezes preferível praticar exercí -\ncios de intensidade normal (VILLAVERDE, \n2023). \nO tabagismo, por sua vez, carece de evidên-\ncias que relacionem ou não o uso ao maior aco-\nmetimento pela endometriose. Já as carnes ver-\nmelhas, tendem a aumentar o risco (VILLA -\nVERDE, 2023). \nDentre os antecedentes ginecológicos, a \nidade de início da menarca, a duração do ciclo \nmenstrual, a paridade, o uso de anticoncepcio -\nnais ou a obstrução tubária, como fatores de ris-\nco ou proteção, são justificados pelo maior ou \nmenor acúmulo de células endometriais na ca -\nvidade que originam, ou por alterações no mi -\ncrobioma intestinal ou pelas diferentes concen-\ntrações de estradiol (VILLAVERDE, 2023). \n \nSinais e sintomas \n \nOs sintomas variam de dor pélvica crônica \n(dismenorreia, dor pélvica acíclica, dispareu -\n\n \n85 | P á g i n a  \nnia, disquezia, disúria), com gravidade que va -\nria de leve a fatal, até infertilidade; no entanto, \ntambém pode ser assintomática (BASTOS et \nal., 2023; VILLAVERDE, 2023). Evidências \nrecentes também indicam um componente in -\nflamatório sistêmico subjacente a comorbida -\ndes associadas, como enxaquecas e doenças \ncardiovasculares e autoimunes (FRANÇA et \nal., 2022; GIUDICE et al., 2023).  \nO tipo mais frequente de dor relatado por \npacientes com endometriose é a que ocorre du-\nrante o período menstrual, iniciando já nos pri -\nmeiros ciclos menstruais e, com o tempo, evo -\nluindo para uma dor pélvica crônica que pode \nsurgir fora do ciclo menstrual, de forma inespe-\nrada. Essa dor muitas vezes interfere significa -\ntivamente nas atividades diárias, incluindo as \nescolares. Além disso, sintomas como altera -\nções gastrointestinais e dor ao urinar também \nsão comuns, mas não são exclusivos da endo -\nmetriose, o que pode dificultar o diagnóstico \npor se confundirem com outras condições clíni-\ncas (GIUDICE et al., 2023).  \nA variedade topográfica de lesões na cavi -\ndade pélvica é ampla, com lesões superficiais \nou profundas que podem estar localizadas no \nperitônio. Tradicionalmente, três fenótipos de \nlesões de endometriose são reconhecidos: peri-\ntoneal, ovariano (endometrioma) e profundo \n(FRANÇA et al., 2022; VILLAVERDE, 2023). \nA endometriose peritoneal é caracterizada \npela presença de implantes frequentemente po-\nlimórficos de tecido endometrial heterotópico \nna superfície do peritônio pélvico, embora pos-\nsam ser encontrados em todo o abdômen. É o \ntipo de endometriose mais difícil de diagnosti -\ncar, pois não é facilmente visível com as técni -\ncas de imagem não invasivas disponíveis e re -\nquer visualização direta por laparoscopia ou la-\nparotomia (VILLAVERDE, 2023). \nA endometriose ovariana com a presença de \ncistos endometrióticos, comumente chamados \nde endometriomas, é o tipo de endometriose \nmais fácil de diagnosticar devido à sua acessi -\nbilidade ao exame de ultrassom (VILLAVER -\nDE, 2023). \nA endometriose profunda é definida como a \npresença de nódulos fibróticos infiltrantes nos \nespaços peritoneais pélvicos, com profundidade \nde invasão superior a 5 mm, ou que afetam a \ncamada muscular de vísceras ocas. Embora es -\nses nódulos sejam onipresentes, são comumen-\nte encontrados no septo retovaginal, ligamentos \nútero-sacros e parede retossigmoide, com graus \nvariados de invasão que podem até levar a sin -\ntomas obstrutivos. Essa forma de endometriose \né considerada a mais avançada e a de maior in-\ncidência (VILLAVERDE, 2023). \nDiagnóstico  \nDevido à falta de indicadores diagnósticos \nsensíveis e confiáveis, o diagnóstico muitas ve-\nzes fica atrasado. Além disso, algumas mulhe -\nres também podem permanecer por um longo \ntempo assintomáticas, dificultando o diagnós -\ntico. As técnicas diagnósticas empregadas são \nprincipalmente técnicas de imagem como lapa-\nroscopia de endometriose, ressonância magné -\ntica (RM), cistoscopia, sigmoidoscopia ou co -\nlonoscopia e aspiração com agulha fina guiada \npor ultrassom (SINGH et al., 2023).  \nO diagnóstico da endometriose continua \nsendo um dos maiores desafios dentro da prá -\ntica ginecológica, principalmente devido à va -\nriedade de manifestações clínicas e à limitação \nde alguns exames em detectar lesões menores \nou superficiais (BASTOS et al., 2023). A abor-\ndagem diagnóstica recomendada baseia -se na \ncombinação entre avaliação clínica, exames de \nimagem, marcadores laboratoriais e, em deter -\nminados casos, investigação cirúrgica (VILLA-\nVERDE, 2023; MATTHES et al., 2024). \nO exame clínico, embora útil, apresenta bai-\nxa sensibilidade e especificidade, sendo reco -\nmendado principalmente para pacientes com \n\n \n86 | P á g i n a  \nsintomas sugestivos. O toque vaginal, por e -\nxemplo, pode identificar nódulos ou lesões em \nregiões acessíveis, como os ligamentos uteros -\nsacros ou cistos ovarianos volumosos, mas não \né suficiente para excluir a doença em casos com \nexame físico normal (FRANÇA et al ., 2022; \nVILLAVERDE, 2023; MATTHES et al ., \n2024). \nEntre os exames de imagem, a ultrassono -\ngrafia transvaginal é a principal ferramenta di -\nagnóstica de primeira linha. Trata-se de um mé-\ntodo amplamente utilizado devido à sua acessi-\nbilidade, baixo custo e elevada acurácia, espe -\ncialmente para o diagnóstico de endometriomas \novarianos. Estudos apontam que a sensibilidade \nda ultrassonografia para essas lesões varia entre \n93% e 98%, enquanto a especificidade situa -se \nentre 95% e 97%. Os endometriomas geralmen-\nte se apresentam como cistos uniloculares com \nconteúdo de baixa ecogenicidade homogênea, \nsem vascularização interna expressiva, o que \ngera a clássica imagem de \"vidro fosco\". Em ca-\nsos mais complexos, pode -se observar lesões \ncom múltiplos lóculos e conteúdo ecogênico \nheterogêneo, o que exige diferenciação com tu-\nmores de ovário. A ultrassonografia transvagi -\nnal ou transretal de alta frequência, especial -\nmente com preparo adequado utilizando gel ou \nsolução salina na vagina e/ou reto, é particu -\nlarmente eficaz na identificação da endométrio-\nse profunda, permit indo a visualização de nó -\ndulos hipoecoicos arredondados que podem in-\nfiltrar estruturas como a bexiga, a parede retal \nou os ligamentos pélvicos (FRANÇA et al ., \n2022; GIUDICE et al., 2023; VILLAVERDE, \n2023; MATTHES et al., 2024). \nComplementarmente, a ressonância magné-\ntica (RM) tem se mostrado uma ferramenta útil, \nsobretudo para a avaliação da extensão e pro -\nfundidade das lesões infiltrativas. A RM é ca -\npaz de identificar características específicas da \nendometriose, como áreas de hemorragia antiga \ne alterações fibrosas. As lesões podem apresen-\ntar sinais de alta intensidade em T1 devido à \npresença de sangue e, em algumas situações, si-\nnais de alta intensidade em T2, compatíveis \ncom tecido glandular endometrial. A sensibili -\ndade da RM pode chegar a 91% e a especifici -\ndade a 96% em casos de endometriose profun -\nda, especialmente nas localizações intestinais, \ncomo o reto e o sigmoide. No entanto, este exa-\nme apresenta limitações em pacientes com vari-\nações anatômicas como útero retrofletido ou em \ncasos com reduzido peristaltismo intestinal, \nsituações que podem interferir negativamente \nna acurácia diagnóstica (FRANÇA et al., 2022; \nGIUDICE et al., 2023; VILLAVERDE, 2023; \nMATTHES et al., 2024). \nOs biomarcadores laboratoriais também \ntêm sido estudados como ferramentas com -\nplementares. O marcador CA-125, embora bas-\ntante conhecido e utilizado no rastreio de câncer \nde ovário, pode estar elevado em casos de en -\ndometriose. Apesar de apresentar boa especifi -\ncidade (em torno de 93% quando os valores es-\ntão acima de 30 U/mL), sua sensibilidade é con-\nsiderada baixa (cerca de 53%), o que impede \nseu uso isolado como exame diagnóstico. Nos \núltimos anos, os microRNAs (miRNAs) circu -\nlantes passaram a ser investigados como marca-\ndores promissores, já que são estáveis na circu-\nlação e têm perfis de expressão específicos. Es-\ntudos sugerem que a combinação de diferentes \nmiRNAs, como miR-125b-5p, miR-451a, miR-\n150-5p e let -7b, pode permitir a identificação \nprecisa de pacientes com endometriose, além de \nindicar potenciais alvos terapêuticos, especial -\nmente o let-7b, que demonstrou efeitos anti-in-\nflamatórios e capacidade de reduzir a expressão \nde aromatase e receptores de estrogênio em mo-\ndelos experimentais. Também se observa que a \nexpressão do receptor de progesterona nas le -\nsões endometrióticas pode ser um bom preditor \nde resposta ao tratamento hormonal. Mulheres \ncom alta expressão desses receptores tendem a \n\n \n87 | P á g i n a  \nresponder melhor à terapia com progestagênios \ndo que aquelas com baixa expressão (FRANÇA \net al ., 2022; GIUDICE et al ., 2023; VILLA -\nVERDE, 2023: MATTHES et al., 2024). \nApesar dos avanços não invasivos, a lapa -\nroscopia ainda é considerada o padrão -ouro \npara o diagnóstico definitivo da endometriose, \nespecialmente quando os exames de imagem \nnão confirmam a suspeita clínica ou quando o \ntratamento empírico falha. A laparoscopia per -\nmite não apenas a visualização direta das le -\nsões, como também a realização de biópsias e a \nintervenção terapêutica no mesmo procedi -\nmento. A confirmação histológica das lesões é \nrecomendada, embora a ausência de achados \nhistológicos não exclua comp letamente a do -\nença. Cerca de 67% das lesões suspeitas são \nconfirmadas histologicamente, dependendo da \naparência, tamanho e estágio da doença, com \nvariabilidade entre os cirurgiões na identifica -\nção de tipos incomuns de lesões (FRANÇA et \nal., 2022; GIUDICE et al., 2023; VILLAVER-\nDE, 2023; MATTHES et al., 2024). \nAs diretrizes da Sociedade Europeia de Re-\nprodução Humana (ESHRE), atualizadas em \n2022, recomendam que a investigação diagnós-\ntica da endometriose considere o conjunto de si-\nnais e sintomas cíclicos e não cíclicos, como \ndismenorreia, dispareunia profunda, disúria, \ndor na evacuação, hematúria, dor torácica cata-\nmenial ou dor no ombro, além de sintomas \ncomo fadiga e infertilidade. A imagem é indi -\ncada sempre que possível, mas os profissionais \ndevem estar atentos ao fato de que resultados \nnegativos, sobretudo na ultrassonografia e na \nRM, não excluem a presença da doença, espe -\ncialmente na forma peritoneal superficial. A la-\nparoscopia deve ser considerada em pacientes \ncom sintomas persistentes, falha terapêutica ou \nalta suspeição clínica (VILLAVERDE, 2023; \nMATTHES et al., 2024). \nEmbora atualmente não existem evidências \nsólidas de que o uso de diários, aplicativos ou \nquestionários de sintomas leve a um diagnós -\ntico mais precoce, seu uso é incentivado como \numa forma de empoderar a paciente e auxiliar \nno relato mais preciso dos sintomas durante a \nanamnese (VILLAVERDE, 2023). \nPortanto, o diagnóstico da endometriose \nexige uma abordagem multidisciplinar, indivi -\ndualizada e baseada em múltiplos métodos. Ne-\nnhum exame isolado é suficiente para confirmar \nou descartar a doença, sendo fundamental a in-\ntegração entre queixas clínicas, achados físicos, \nexames de imagem, marcadores laboratoriais e, \nquando necessário, avaliação laparoscópica pa-\nra assegurar a correta identificação e tratamento \nda patologia (VILLAVERDE, 2023; MAT -\nTHES et al., 2024). \nTratamento  \nDependendo dos sintomas, da gravidade do \ndistúrbio e da necessidade de manter a fertili -\ndade, vários tratamentos para endometriose são \nrecomendados. Atualmente, a condição é tra -\ntada com medicamentos, cirurgia ou em combi-\nnação. Essas intervenções têm eficácia limitada \ncom vários efeitos colaterais. Além disso, o uso \nprolongado de medicamentos pode aumentar o \nrisco de inflamação, distúrbios do ciclo mens -\ntrual, sangramento incomum, náusea, aumento \nde peso, osteoporose, dor nas mamas, dificul -\ndade para dormir e humor deprimido. Se as le -\nsões endometriais não forem completamente re-\nmovidas após a cirurgia, a paciente tenderá a \nsentir dor novamente, juntamente com proble -\nmas urológicos, gastrointestinais, vasculares e \nneurológicos (FRANÇA et al., 2022; SINGH et \nal., 2023; MATTHES et al., 2024).  \nO tratamento da endometriose envolve uma \nabordagem escalonada, baseada na intensidade \ndos sintomas, no desejo reprodutivo da paciente \ne na extensão da doença (BASTOS et al ., \n2023). A terapêutica inicial costuma priorizar \nintervenções menos invasivas, partindo do uso \n\n \n88 | P á g i n a  \nde anti -inflamatórios não esteroidais (AINEs) \nassociados a anticoncepcionais orais combina -\ndos de uso contínuo ou a progestagênios isola -\ndos. Essa combinação visa, por um lado, redu -\nzir a inflamação por meio da inibição das pros-\ntaglandinas e, por outro, promover atrofia endo-\nmetrial, com boa tolerabilidade na maioria das \npacientes. Entretanto, uma parcela significativa \ndas mulheres não responde adequadamente a \nessa primeira linha terapêutica, em parte por \nefeitos colaterais intoleráveis ou pela resistên -\ncia do tecido endometriótico à ação da proges -\nterona (FRANÇA et al., 2022; VILLAVERDE, \n2023; MATTHES et al., 2024). \nQuando a dor persiste ou há falha terapêu -\ntica, parte -se para a segunda linha de trata -\nmento, que busca bloquear a produção de estro-\ngênio, essencial para o crescimento das lesões. \nNessa fase, destacam-se os agonistas e antago -\nnistas do GnRH, os inibidores da aromatase e \nos moduladores seletivos dos receptores hor -\nmonais. Os agonistas de GnRH promovem hi -\npoestrogenismo profundo, levando à regressão \ndas lesões, mas com efeitos colaterais como sin-\ntomas vasomotores e perda de massa óssea. Já \nos antagonistas, como o elagolix, têm ação mais \nrápida e controlada, podendo manter níveis hor-\nmonais mais estáveis e com menos sintomas as-\nsociados. Os inibidores da aromatase, como o \nletrozol e o anastrozol, também reduzem o es -\ntrogênio localmente, sendo indicados principal-\nmente em casos de resistência hormonal, mas \nseu uso deve ser associado a bloqueadores da \novulação devido aos riscos para a função ovari-\nana. Já os moduladores hormonais, como a mi-\nfepristona e o bazedoxifeno, interferem direta -\nmente na resposta dos tecidos aos hormônios, \nproduzindo alívio sintomático e amenorreia, \nembora alguns apresentem riscos hepáticos que \nlimitam seu uso (FRANÇA et al., 2022; GIU -\nDICE et al ., 2023; VILLAVERDE, 2023; \nMATTHES et al., 2024). \nA cirurgia representa uma estratégia de ter-\nceira linha, indicada quando os métodos clíni -\ncos falham ou quando há comprometimento \nanatômico severo. O objetivo da intervenção ci-\nrúrgica é aliviar a dor, restaurar a anatomia e, \nquando necessário, melhorar as chances de con-\ncepção. Lesões superficiais podem ser destruí -\ndas por métodos como vaporização com laser \nou coagulação bipolar, mas sua eficácia é limi-\ntada em lesões mais profundas. Já a endometri-\nose infiltrativa exige excisão completa, po -\ndendo envolver ressecções intestinais ou uroló-\ngicas. Em casos de endometriomas volumosos, \ncom mais de 6 cm, pode ser necessário remover \no ovário afetado, especialmente se a reserva \novariana estiver severamente comprometida. \nNo entanto, a cirurgia raramente é curativa, pois \napresenta taxas de recorrênc ia de dor em até \n45% dos casos em cinco anos, exigindo avalia-\nção individualizada dos riscos e benefícios \n(FRANÇA et al., 2022; GIUDICE et al., 2023; \nVILLAVERDE, 2023; MATTHES et al ., \n2024). \nTanto a excisão quanto a ablação laparoscó-\npica são técnicas cirúrgicas utilizadas no trata -\nmento da endometriose e têm demonstrado efi-\ncácia na redução da dor. Uma meta -análise de \n2021 avaliou dados limitados de ensaios clíni -\ncos randomizados e não encontrou diferença \nsignificativa entre os dois métodos quanto ao \nalívio de sintomas como dismenorreia, dispa -\nreunia e disquezia. No entanto, outra análise \nsistemática com base em estudos mais antigos \nconcluiu que a excisão oferece melhores resul -\ntados no controle da dor. Um estudo de acom -\npanhamento por mais de cinco anos indicou que \na excisão proporcionou melhora mais dura -\ndoura na dor durante as relações sexuais e foi \nassociada a menor necessidade de terapias mé -\ndicas contínuas, embora os resultados a curto \nprazo não mostrassem diferenças relevantes. A \nmaioria dos estudos exclui pacientes com endo-\nmetriose profunda infiltrativa, sendo escassos \n\n \n89 | P á g i n a  \nos dados comparando estratégias cirúrgicas \nconservadoras com abordagens mais radicais \nnesse grupo. De forma geral, ainda faltam evi -\ndências conclusivas para estabelecer superiori -\ndade definitiva entre excisão e ablação, embora \nos dados de longo prazo tendam a favorecer a \nexcisão (GIUDICE et al ., 2023; VILLAVER -\nDE, 2023). \nA recorrência da endometriose após trata -\nmento cirúrgico pode se manifestar pelo retorno \nda dor, reaparecimento das lesões em exames \nde imagem ou necessidade de novas cirurgias. \nEstima-se que até metade das pacientes experi-\nmentem recorrência em até cinco anos, sendo \ncomum a realização de múltiplas cirurgias. En-\ntre os possíveis mecanismos envolvidos estão \nlesões não totalmente removidas, doença mi -\ncroscópica remanescente ou novos focos de im-\nplantes. A taxa de recidiva é maior em mulheres \nmais jovens, com doença mais grave ou que op-\ntam pela preservação de ovários e útero. A pre-\nparação cuidadosa antes da cirurgia, especial -\nmente nos casos de endometriose profunda com \nacometimento intestinal, é essencial para o su -\ncesso do tratamento e prevenção de novos epi -\nsódios. Apesar de uma revisão anterior não ter \nidentificado benefício claro com o uso de tera -\npia hormonal após a cirurgia, pesquisas mais re-\ncentes sugerem que o uso prolongado de con -\ntraceptivos orais combinados, progestágenos \nisolados ou o dispositivo intrauterino com levo-\nnorgestrel pode ajudar a prevenir a recorrência \nde endometriomas e da dor menstrual. No en -\ntanto, ainda há incertezas quanto à eficácia des-\nsas abordagens na prevenção de outros sinto -\nmas, como dispareunia profunda e dor pélvica \ncontínua, especialmente em pacientes com for-\nmas mais graves da doença (GIUDICE et al., \n2023; VILLAVERDE, 2023). \nNovas abordagens terapêuticas para a endo-\nmetriose têm sido exploradas com o objetivo de \noferecer alternativas mais eficazes e com menos \nefeitos adversos. Entre elas, destaca-se o Elago-\nlix, um antagonista oral do GnRH que atua na \nsupressão parcial do estradiol, evitando o hipo-\nestrogenismo intenso provocado pelos agonis -\ntas. Esse mecanismo permite a redução signifi-\ncativa de sintomas como dismenorreia e dor \npélvica, com melhora na qualidade de vida e \nprodutividade das pacientes. Apesar de sua efi-\ncácia comprovada em estudos de fase 3, cerca \nde 70% das mulheres relataram efeitos adver -\nsos, e seu uso é contraindicado em gestantes, \nmulheres com osteoporose, insuficiência hepá -\ntica grave ou que não responderam a outros mo-\nduladores hormonais. Outra substância promis-\nsora é o resveratrol, um polifenol com proprie -\ndades antioxidantes e anti-inflamatórias. Ele re-\nduz a produção de citocinas pró -inflamatórias, \nfatores angiogênicos e espécies reativas de oxi-\ngênio, além de interferir na transição epitélio -\nmesenquimal e em vias de sinalização celular, \ncomo a PI3K/AKT/NF -κB, fundamentais para \no desenvolvimento das lesões endometrióticas. \nA curcumina, derivada da planta Curcuma \nlonga, também tem demonstrado efeitos bené -\nficos por sua capacidade de inibir mediadores \ninflamatórios como COX-2 e TNF-α, diminuir \na proliferação celular e reduzir o tamanho das \nlesões e a formação de novos vasos, apresen -\ntando um importante papel antiangiogênico. \nAdicionalmente, atua sobre vias intracelulares \ncomo NF-κB, IKK, STAT3 e JNK, reduzindo a \ninflamação e a progressão da doença. Já a pue -\nrarina, um isoflavonoide encontrado na planta \nPueraria lobata, mostra potencial terapêutico ao \ninibir a aromatase e limitar a adesão, migração \ne proliferação de células endometriais. Em mo-\ndelos animais, demonstrou redução nos níveis \nde estradiol e prostaglandina E2, além de au -\nmento na expressão de enzimas que degradam \no estrogênio, o que contribui para a inibição do \ncrescimento das lesões. Apesar do avanço nas \npesquisas e do surgimento dessas novas tera -\n\n \n90 | P á g i n a  \npias, ainda há grande variação nas diretrizes clí-\nnicas internacionais quanto ao tratamento da \nendometriose, especialmente nos casos de in -\nfertilidade. Há um consenso sobre o uso de an -\nticoncepcionais combinados e progestagênios \ncomo primeira linha no controle da dor, mas di-\nvergências permanecem em relação às aborda -\ngens de segunda e terceira linha, refletindo a \ncomplexidade da doença e a necessidade de in-\ndividualização no tratamento (FRANÇA et al., \n2022).  \nPrognóstico  \nAinda que a endometriose afete um grande \nnúmero de mulheres globalmente e, dessa ma -\nneira, configura-se como uma questão de saúde \nglobal, ainda persistem terapias insuficientes e \nopções de diagnóstico limitadas (BASTOS et \nal., 2023). Por fim, tornam-se cada vez mais ne-\ncessárias estratégias personalizadas com o ob -\njetivo de reduzir o sofrimento, as patologias re-\nlacionadas ao estresse e melhorar a qualidade \nde vida das mulheres afetadas (SINGH et al., \n2023; MATTHES et al., 2024). \nPor fim, a preservação da fertilidade e as \ntécnicas de reprodução assistida tornam-se cru-\nciais em muitas pacientes com endometriose, \nespecialmente aquelas com desejo reprodutivo \natual ou futuro. A presença da doença, em es -\npecial quando acomete os ovários, pode reduzir \na reserva ovariana, afetando a resposta à esti -\nmulação hormonal e o número de óvulos obti -\ndos. Estudos mostram que mulheres com endo-\nmetriomas tendem a produzir menos folículos, \novócitos e embriões de boa qualidade, embora \na taxa de fertilização e de nascidos vivos não se \nmostre significativamente inferior em compara-\nção a mulheres sem a doença. Isso sugere que \nos danos causados pela endometriose são mais \nquantitativos do que qualitativos (VILLA -\nVERDE, 2023). \nAs principais técnicas de reprodução assis -\ntida utilizadas incluem a inseminação intraute -\nrina (IIU) com estimulação ovariana em casos \nmais leves (estágios I e II da doença) e a fertili-\nzação in vitro (FIV) ou a injeção intracitoplas -\nmática de espermatozoides (ICSI) nos casos \nmoderados a graves. Nessas situações, mesmo \nque a endometriose afete a reserva ovariana, a \nresposta à estimulação pode ser adequada, e os \nresultados gestacionais satisfatórios, principal -\nmente quando não há distorções anatômicas \ngraves. Há também consenso sobre a importân-\ncia da vitrificação de ovócitos em mulheres que \ndesejam preservar a fertilidade, principalmente \nantes de intervenções cirúrgicas ovarianas. A \nescolha do protocolo de estimulação (com ago-\nnistas ou antagonistas do GnRH) não parece \nafetar significativamente os resultados da FIV, \ne não há evidências suficientes para recomendar \no uso de anticoncepcionais orais como preparo \nprévio à estimulação (VILLAVERDE, 2023). \nA decisão de utilizar técnicas de reprodução \nassistida deve ser tomada com base em uma \nanálise individualizada, considerando o estágio \nda doença, a idade da paciente, sua reserva ova-\nriana e seus objetivos reprodutivos. Apesar dos \navanços, muitas dúvidas ainda persistem, como \no real impacto da gravidade da endometriose na \nqualidade dos ovócitos e embriões e nas taxas \nde gestação, o que reforça a necessidade de \nmais pesquisas na área para aprimorar as estra-\ntégias terapêuticas (VILLAVERDE, 2023).  \n  \n\n \n91 | P á g i n a  \nREFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS \nBASTOS, L.F. et al. Endometriose: fisiopatologia, diagnóstico e abordagem terapêutica. Brazilian  Journal of Health \nReview, v. 6, n. 4, p. 16753–16764, 2023. Doi:10.34119/bjhrv6n4-211. \nFRANÇA, P.R.C. et al. Endometriosis: a disease with few direct treatment options. Molec ules (Basel, Switzerland), v. \n27, n. 13, p. 4034, 2022. doi: 10.3390/molecules27134034.  \nGIUDICE, L.C. et al. Endometriosis in the era of precision medicine and impact on sexual and reproductive health \nacross the lifespan and in diverse populations. The FASEB Journal, v. 37, n. 9, 2023. Doi: 10.1096/fj.202300907. \nMATTHES, A.L.B. et al. Endometriose - uma revisão abrangente sobre patogenia e epidemiologia, investigação diag -\nnóstica, abordagem clínica e cirúrgica. Brazilian  Journal of Health Review, v. 7, n. 2, p. e68595–e68595, 2024. Doi: \n10.34119/bjhrv7n2-256. \nSINGH, M. et al. Diagnostic and therapeutic approaches for endometriosis: a patent landscape. Archives of Gynecology \nand Obstetrics, v. 309, n. 3, p. 831-842, 2024. Doi: 10.1007/s00404-023-07151-0. \nVILLAVERDE, V.L. Endometriosis E Infertilidad: Una Puesta Al Día . Revista Iberoamericana de Fertilidad y \nReproducción Humana, v. 40, 2023. Disponível em: <https://www.revistafertilidad.com/index.php/ rif/ar -\nticle/view/99/61>. Acesso em: 20 jul. 2025.","source_license":"CC0","license_restricted":false}