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Palavras-Chave: Endometriose; Saúde da Mulher; Infertilidade
Capítulo 4
ANA CLARA CARVALHAIS MOROSOLI¹
LORENA MIRANDA HAZANA CARVALHO¹
MARIA TERESA SALUM FLORES¹
PAULA RODRIGUES DE CASTILHO JACOB¹
ENDOMETRIOSE
1. Discente de Medicina da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais
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INTRODUÇÃO
O útero é uma estrutura anatômica muscular
oca, em formato piriforme e com paredes espes-
sas. Suas paredes são divididas em 3 camadas:
Perimétrio, Miométrio e Endométrio ( Figura
4.1). Esta última é a camada mais interna, é a
que sofre o processo de descamação no ciclo
menstrual e é onde ocorre a implantação do
embrião na gravidez (RESUMO DA ANA -
TOMIA DO ÚTERO, 2021).
Figura 4.1 Útero e anexos
Fonte: NETTER, 2000.
A endometriose é considerada uma doença
catamenial, ou seja, uma patologia que se ma -
nifesta durante o período menstrual (HO -
FFMAN et al., 2013). Ela consiste em uma con-
dição inflamatória crônica em que as células do
endométrio crescem para fora do útero, prolife-
rando-se em estruturas como intestino, tubas
uterinas e ovários. Essa proliferação anormal
causa diversos sintomas e impacta demasiada -
mente a qualidade de vida das mulheres (FREI-
TAS et al., 2011).
Epidemiologia
A endometriose possui uma incidência difí-
cil de ser quantificada. Isso porque, quase sem-
pre, as mulheres afetadas por ela são assintomá-
ticas, e exames de imagem apresentam baixa
sensibilidade para diagnosticá-las (HOFFMAN
et al., 2013) Por esse motivo, o principal mé -
todo de diagnóstico é a laparoscopia, ou seja, o
diagnóstico é cirúrgico e feito de forma inva -
siva. Assim, a laparoscopia só é realizada
quando já há forte suspeita de endometriose, e
muitos dos casos acabam sendo perdidos
quando são realizados estudos sobre a epidemi-
ologia da endometriose (SANTOS et al., 2012).
A endometriose afeta a vida de 1,6 em cada
1.000 mulheres entre 15 e 49 anos, segundo da-
dos cirúrgicos (HOUSTON, 1987). Em mulhe-
res sem sintomas, a prevalência varia entre 2%
e 22%, dependendo da população (ESKENAZI
& WARNER, 1997; MAHMOOD, 1991;
MOEN, 1997). No entanto, a endometriose se
torna mais comum em subgrupos com queixas
específicas, como infertilidade e dor pélvica.
Nesses casos, a prevalência relatada chega a
50% (BALASCH, 1996; ESKENAZI & WAR-
NER, 2001; MEULEMAN, 2009; HOFFMAN
et al., 2013).
Fisiopatologia
A fisiopatologia da endometriose ainda é
desconhecida, porém existem teorias que bus -
cam compreendê-la.
Teoria de Sampson
A teoria mais antiga e mais aceita é a Teoria
de Sampson, ou Teoria da Menstruação Retró-
grada. De acordo com essa teoria, a causa da
endometriose é a menstruação retrógrada pelas
tubas uterinas, que causa disseminação do te -
cido do endométrio em diferentes regiões da ca-
vidade peritoneal. Dessa forma, os fragmentos
do endométrio invadem o mesotélio peritoneal,
se aderindo nele de forma a desenvolver supri -
mento sanguíneo, o que torna o implante capaz
de sobreviver e se expandir. (HOFFMAN,
2013) A teoria da menstruação retrógrada foi
proposta na década de 1920 e ganhou mais em-
basamento com achados de maior volume de
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sangue de refluxo menstrual, com fragmentos
de tecido endometrial, em mulheres que possu-
íam endometriose (HALME, 1984). Também
foi provado que mulheres com amenorreia cau-
sada por obstrução do canal cervical apresen -
tam maior incidência de endometriose (SANFI-
LIPPO, 1986).
Entretanto, estima-se que 70% a 90% das
pacientes apresentam menstruação retrógrada,
porém apenas parte delas desenvolve endome -
triose. Assim, foram criadas diversas outras te-
orias que buscam explicar a causa do desenvol-
vimento dos focos endometrióticos, ou a causa
da incapacidade de alguns organismos de impe-
dir o desenvolvimento desses focos (PASSOS
et al., 2017).
Teoria da metaplasia celômica
Nessa teoria, células totipotenciais sofrem
metaplasia e formam um tecido endometrial
fora do endométrio. Ela afeta, principalmente,
casos de endometriose sem menstruação, como
períodos pós e pré menopausa (HOFFMAN et
al., 2013). Entretanto, essa teoria não consegue
explicar como ocorre essa transformação das
células totipotentes, o que a limita considera -
velmente (FREITAS et al., 2011).
Teoria da indução
É uma teoria considerada complementar à
da metaplasia celômica para explicar as lesões
endometriais. Ela propõe que a partir de fatores
imunológicos e bioquímicos as células -tronco
totipotentes são induzidas e se transformam em
células que constituem o tec ido endometrial,
fora da cavidade uterina, que se proliferam,
causando a endometriose (FREITAS et al.,
2011).
Teoria dos restos embrionários
Essa teoria foi construída a partir dos Duc -
tos de Muller, também chamados de ductos pa-
ramesonéfricos, estruturas importantes para a
constituição do sistema reprodutor feminino,
uma vez que formam o útero, tubas uterinas e
parte superior da vagina (DUCTO DE MUL -
LER, 2020). Nessa teoria, é proposto que rema-
nescentes desses ductos de Muller transfor -
mam-se em tecido endometrial viável, que se
proliferam em outros locais do corpo fora do
útero. Um dos primeiros relatores dessa teoria,
Russel, supôs que essa fosse a causa da endo -
metriose quando observou em lâminas histoló -
gicas de ovários, a presença de glândulas uteri-
nas e de tecido interglandular (FREITAS et al.,
2011).
Teoria da metástase linfovascular
Nessa teoria, células endometriais viáveis
são enviadas, por meio de uma propagação
anormal linfática ou vascular, a sítios inco -
muns, como peritônio ou região inguinal, e de -
senvolvem tecido endometrial. Esse tecido, vi -
ável, se prolifera e se aloja em estruturas fora da
cavidade uterina, causando a endometriose
(WILLIANS, 2013)
Fatores de risco
Grupos familiares
A endometriose, embora não siga um pa -
drão mendeliano clássico, apresenta fortes indí-
cios de influência familiar e hereditariedade.
Estudos demonstram um aumento da incidência
da doença entre parentes de primeiro grau, su -
gerindo um padrão poligênico/multifatorial
(HOFFMAN et al., 2013)
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Por exemplo, em um estudo realizado por
Simpson e colaboradores (1980) foi relatado
que, em um grupo de mulheres com endometri-
ose, 5,9% de suas irmãs e 8,1% de suas mães
tinham endometriose, em comparação a 1% dos
familiares de primeiro grau de seus maridos
(HOFFMAN, 2013).
Defeitos anatômicos
A obstrução do trato reprodutivo feminino
pode aumentar o risco de desenvolver endome-
triose. Essa teoria se baseia na ideia de que a
obstrução impede o fluxo menstrual normal,
causando o refluxo do sangue menstrual para a
cavidade abdominal, onde pode se implantar e
proliferar, levando à endometriose (BREECH,
1999).
Idade
A endometriose é rara antes da menarca
(primeira menstruação) e tende a diminuir após
a menopausa. Dessa forma, ela apresenta forte
associação com a idade reprodutiva, apesar de
existirem relatos de endometriose em mulheres
que nunca menstruaram ou em meno pausa
(PASSOS et al., 2012).
Características do ciclo menstrual
A maioria dos estudos epidemiológicos,
como PARAZZINI et al . (2004) e MOEN
(1993), indica que a menarca precoce, ou seja,
antes dos 11 anos, aumenta o risco de desenvol-
ver endometriose. Essa associação pode estar
relacionada à exposição prolongada ao estrogê-
nio durante a vida reprodutiva da mulher (PAS-
SOS et al., 2012).
Além disso, acredita -se que exista relação
entre endometriose e ciclos menstruais mais
curtos. Vários estudos, como CANDIANI et al.
(1991), sugerem que ciclos menstruais com du-
ração inferior a 27 dias também elevam o risco
de endometriose. Acredita-se que ciclos curtos
estejam associados a maior frequência de san -
gramento menstrual retrógrado, um fator que
pode contribuir para a implantação e desenvol -
vimento de tecido endometrial fora do útero
(PASSOS et al., 2012).
Sintomatologia
Uma das formas clínicas da endometriose é
a assintomática, na qual o diagnóstico acontece
de maneira casual em consultas de rotina e du -
rante a realização de exames ginecológicos.
(Freitas et al., 2011). Entretanto, ela pode se
manifestar por meio de alguns sintomas carac -
terísticos, são eles: dor pélvica cíclica ou crô -
nica, alterações menstruais precoces e infertili -
dade (HOFFMAN et al., 2013)
A dor pélvica ainda não tem sua causa com-
pletamente esclarecida, porém acredita -se que
está relacionada com a liberação de substâncias,
por exemplo, citocinas e prostaglandinas dentro
do líquido peritoneal, além da relação com a
profundidade da lesão (HOFFMAN et al .,
2013). Essa dor pode ser sentida de diferentes
formas:
Dismenorreia intensa
A chamada cólica menstrual acontece de
maneira cíclica, uma vez que costuma aconte -
cer de 24 a 48 horas antes das menstruações,
além de ser pouco responsiva a medicamentos
(HOFFMAN et al., 2013).
Dispareunia
A dor durante as relações sexuais é menos
frequente em lesões ovarianas e mais frequente
quando a doença localiza-se no septo retrovagi-
nal e no ligamento uterossacral, pois a tensão
exercida no ato sexual sobre essas estruturas já
lesadas gera desconforto e dor. Ela pode se ma-
nifestar em todas as relações ou surgir após
anos de vida sexual ativa (HOFFMAN et al .,
2013).
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Disúria
A dor ao urinar não é um sintoma tão co -
mum, mas chama atenção quando vem acompa-
nhada de urgência urinária, culturas negativas
de urina, hematúria e sintomas vesicais signifi-
cativos (HOFFMAN et al., 2013).
Dor defecatória
Ocorre de forma crônica ou cíclica e é indi-
cativa de lesão no retossigmoide (HOFFMAN
et al., 2013). Pode vir acompanhada de tenesmo
e disquezia (FREITAS et al., 2011).
Dor pélvica não cíclica
Ela varia de acordo com o foco da lesão e é
o sintoma mais comum de mulheres com endo-
metriose. Ainda não existe um consenso se a
gravidade da dor está relacionada com o estágio
em que a doença se encontra (HOFFMAN et
al., 2013).
As alterações menstruais precoces foram
investigadas em um estudo o qual mostrou rela-
ção inversa entre endometriose e menarca após
14 anos de idade (HOFFMAN et al., 2013).
A infertilidade é algo frequente em pacien -
tes com endometriose. Estudos indicam que a
taxa de fecundidade para uma mulher normal
varia de 15 a 20% enquanto para mulheres com
endometriose não tratada varia de 2 a 10%. En-
tretanto, os mecanismos que correlacionam as
duas condições ainda são desconhecidos, já que
pacientes com lesões mínimas, ou seja, sem al-
teração anatômica também apresentam dimi -
nuição do desenvolvimento oocitário, da em -
briogênese e da implantação embrionária, assim
como mulheres com estágios avançados da do -
ença, que apresentam grandes adesões pélvicas,
levando à distorções anatômicas. Além disso,
perda fetal, parto pré -termo, pré -eclâmpsia e
crescimento intrauterino restrito são efeitos da
endometriose que podem se manifestar durante
a gestação (FREITAS et al., 2011).
Classificação
O sistema de classificação da American So-
ciety for Reproductive Medicine (ASRM), pu-
blicado em 1997, é o método mais utilizado
para avaliar a extensão da endometriose. Essa
classificação divide a doença em quatro está -
gios (Figura 4.2) (HOFFMAN, 2013):
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Figura 4.2 Classificação Revisada de Endometriose
Fonte: American Society for Reproductive Medicine
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Estágio I – Mínima
● Lesões superficiais, planas ou pequenas
(até 0,5 cm).
● Pouca ou nenhuma aderência (LEE et
al., 2011)
Estágio II – Leve
● Lesões superficiais, planas ou pequenas
(até 0,5 cm).
● Aderências pontuais (LEE et al., 2011)
Estágio III – Moderada
● Lesões superficiais maiores (acima de
0,5 cm) ou profundas.
● Aderências moderadas.
● Cistos ovarianos endometrióticos meno-
res que 3 cm (LEE et al., 2011)
Estágio IV – Grave
● Lesões profundas.
● Aderências intensas.
Cistos ovarianos endometrióticos maiores que 3
cm. (LEE et al., 2011)
Endometriose e infertilidade
A endometriose apresenta forte associação
com a infertilidade, afetando entre 5% e 50%
das mulheres inférteis. Mulheres com endome-
triose têm 6 a 8 vezes mais chances de ter a do-
ença, além disso, acredita-se que a gravidade da
endometriose está relacionada ao estágio da
infertilidade (FREITAS et al., 2011).
A relação entre as duas condições é multi -
fatorial e envolve diversos mecanismos, que
podem ser divididos em três categorias princi -
pais:
Aderências Pélvicas
Em estágios avançados da endometriose, o
crescimento de tecido endometrial fora do útero
pode levar à formação de aderências pélvicas.
(FREITAS et al., 2011) Essas aderências, como
cicatrizes fibrosas, podem distorcer a anatomia
da região pélvica e causar diversos problemas,
incluindo:
● Obstrução das trompas de Falópio:
impede o encontro do óvulo com o espermato -
zóide, dificultando ou impossibilitando a ferti -
lização natural (FREITAS et al., 2011)
● Deformação da cavidade uterina: pre-
judica a implantação do embrião na parede ute-
rina, reduzindo as chances de gravidez (FREI -
TAS et al., 2011).
● Dificuldade no transporte do óvulo:
mesmo que a fertilização ocorra, o transporte do
óvulo fecundado até o útero pode ser dificul -
tado pelas aderências, aumentando o risco de
aborto espontâneo (FREITAS et al., 2011).
Alterações Hormonais
A endometriose pode afetar o equilíbrio
hormonal do corpo feminino, levando a diver -
sas alterações que prejudicam a fertilidade,
mesmo em casos de doença leve (FREITAS et
al., 2011). Entre os principais distúrbios hormo-
nais observados estão:
● Insuficiência da fase lútea: a fase lútea
do ciclo menstrual é crucial para o desenvolvi -
mento do endométrio e da receptividade embri-
onária. A endometriose pode reduzir a produ -
ção de progesterona na fase lútea, dificultando
a implantação do embrião (FREITAS et al.,
2011).
● Alterações na secreção de prolactina:
a prolactina é um hormônio importante para a
produção de leite materno, mas também
29erá29mpenha um papel na ovulação. A
endometriose pode aumentar os níveis de
prolactina, interfe rindo na ovulação e na
qualidade dos óvulos (FREITAS et al., 2011).
● Alterações na fase folicular: a fase fo-
licular é responsável pelo desenvolvimento dos
folículos ovarianos e pela maturação dos óvu -
los. A endometriose pode afetar essa fase, le -
vando à produção de óvulos de menor quali -
dade e à diminuição da reserva ovariana (FREI-
TAS et al., 2011).
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Alterações Uterinas e Peritoneais
Além das aderências pélvicas, a endometri-
ose pode causar outras alterações no útero e no
peritônio, a membrana que reveste a cavidade
abdominal. Essas alterações podem afetar a
qualidade dos óvulos e a receptividade embrio-
nária, dificultando a gravidez (FREITAS et al.,
2011). Entre os principais efeitos estão:
● Inflamação crônica: a endometriose
provoca uma inflamação crônica na região pél-
vica, que pode liberar substâncias nocivas para
os óvulos e o embrião (FREITAS et al., 2011).
● Alterações na receptividade endome -
trial: o endométrio é o local onde o embrião se
implanta para iniciar o desenvolvimento fetal.
A endometriose pode alterar a receptividade
semdometrial, dificultando a implantação e
aumentando o risco de aborto espontâneo
(FREITAS et al., 2011).
● Diminuição do fluxo sanguíneo ute -
rino: o fluxo sanguíneo adequado é essencial
para nutrir o embrião em desenvolvimento. A
endometriose pode reduzir o fluxo sanguíneo
uterino, prejudicando o desenvolvimento em -
brionário (FREITAS et al., 2011).
Diagnóstico
O diagnóstico da endometriose ainda é
complicado uma vez que essa doença apresenta
um quadro clínico parecido com várias outras
condições. Ele se inicia a partir de uma suspeita
clínica, por meio da identificação dos sintomas
característicos da doença apr esentados pela
própria mulher. A partir desse momento, exa -
sem auxiliares poderão ser requisitados para a
confirmação do diagnóstico. Dentre eles desta -
cam-se os seguintes exames de imagem:
● Ultrassonografia transvaginal: o obje-
tivo desse exame é analisar órgãos e estruturas
pélvicas. Garante alta precisão, possui amplo
acesso e baixo custo. Realizada a partir de um
preparo intestinal prévio.
● Ressonância magnética: apesar de ser
indicada para casos em que a mulher já́ tem um
diagnóstico de endometriose, com o objetivo de
acompanhar o desenvolvimento e evolução da
doença, é o exame que apresenta as maiores ta-
xas de especificidade e sensibilidade na avalia-
ção de uma paciente com endometriose e pode
ser realizada para o diagnóstico. Apesar disso,
apresenta alto custo, o que limita o seu acesso.
● Ultrassonografia transretal e ecoen -
doscopia: ambos os exames são indicados para
identificação de casos de endometriose do septo
retovaginal e dos ligamentos uterossacrais.
● Biopsia da lesão por laparoscopia ou
laparotomia: a biópsia por laparoscopia é sem-
siderada padrão-ouro no diagnóstico de endo -
metriose. Além de permitir o diagnóstico, per -
mite a visualização e a descrição das lesões, a
coleta de material para avaliação histológica e
o manejo cirúrgico das lesões endometri óticas.
A laparoscopia deve ser realizada após ter sido
terminada a fase de avaliação a partir dos exa -
sem de imagem. A laparoscopia.
Além disso, exames de sangue também po-
dem auxiliar no diagnóstico de endometriose,
uma vez que ela provoca alterações locais e um
processo inflamatório sistêmico. Dessa forma,
em estágios mais avançados da doença, a pes -
quisa do material sanguíneo pode revelar valo -
res mais elevados de marcadores sorológicos
dessa reação inflamatório-imunológica. O CA-
125 é um desses marcadores e sua sensibilidade
variou de 4 a 100%, e a especificidade, de 38 a
100%, para qualquer estágio da doença. Esse
exame é menos invasivo porém não é especifico
para a identificação da endometriose, por isso
deve ser complementado com algum outro dos
exames citados.
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Tratamento
O tratamento da endometriose tem como
objetivos principais, melhorar a sintomatologia
e evitar a progressão da doença. A endometri -
ose é uma doença crônica que apresenta um
curso prolongado e períodos de piora; por isso,
múltiplos tratamentos e abordagens podem ser
necessários para essas pacientes. De maneira
geral, na endometriose, não h á dados conclusi-
vos até́ o momento sobre qual tratamento (me -
dicamentoso ou cirúrgico) é mais eficaz, ou
qual deve ser empregado primeiro. As taxas de
sucesso são equivalentes, assim como as de re-
corrência. Assim, o tratamento deve ser perso -
nalizado, considerando os seguintes aspectos:
extensão da doença, número de filhos, desejo de
engravidar, aceitação das taxas de recorrência
do tratamento e aceitação dos possíveis efeitos
colaterais ou complicações do método.
Existem várias opções para tratar a endome-
triose dentre as quais se destacam:
Tratamentos medicamentosos:
Dado que o tecido endometriótico responde
a estímulos hormonais e os sintomas da endo -
metriose tendem a melhorar durante a gravidez
e a menopausa, os tratamentos medicamentosos
buscam simular essas condições. As opções
mais comuns atualmente induzem um estado de
ausência de menstrua ção: simulação da meno -
pausa (análogos do GnRH), amenorreia (gestri-
nona, danazol) ou gestação (anticoncepcionais
orais e progestágenos). Embora esses tratamen-
tos não sejam invasivos, apresentam uma des -
vantagem para as mulheres que desejam engra-
vidar, pois a concepção geralmente é impedida
durante o tratamento. Portanto, é essencial dis-
cutir este aspecto detalhadamente com a paci -
ente antes de iniciar a medicação. A eficácia
semsem as diferentes opções varia pouco, no
entanto, os perfis de efeitos colaterais são
bastante dis tintos. At é́ o momento, nenhuma
medicação comprovou ser superior as outras.
Assim, a es colha do tratamento deve ser
baseada em uma análise de custo -benefício e
interesses da paciente.
Os remédios mais utilizados para tratar a
endometriose são:
● Análogos do GnRH
Podem ser administrados por via nasal ou
injetável e são muito eficientes na melhora dos
sintomas da endometriose. Se ligam ao receptor
de GnRH suprimindo-no e como consequência
disso há́ uma diminuição de gonadotrofinas, ge-
rando hipoestrogenismo. Assim, a amenorreia é
induzida e os focos de endometriose diminuem
sua atividade. Os efeitos colaterais resultam da
redução dos níveis de estrogênio e incluem fo -
gachos, secura vaginal, diminuição da libido,
mudanças de humor, dores de cabeça e perda
óssea. Quando o tratamento dura mais de seis
meses, é recomendada a associação com repo -
sição hormonal para mitigar os efeitos do baixo
estrogênio. A reposição hormonal complemen-
tar não compromete a eficácia do tratamento e
reduz os efeitos colaterais.
● Anticoncepcionais orais (ACOs)
São muito efetivos para alívio da dismenor-
reia em pacientes com endometriose. Tanto as
formulações de dose média quanto as de dose
baixa mostraram -se eficientes no controle da
dor, podendo ser usadas de forma cíclica ou
contínua. No entanto, os ACOs foram mais efi-
cazes quando administrados continuamente em
comparação com o uso cíclico. Eles são melhor
tolerados do que o danazol e os an álogos do
GnRH, além de terem menor custo e menos im-
pacto metabólico. Os ACOs funcionam ini -
bindo a ovulação, reduzindo os níveis de gona-
dotrofinas, diminuindo o fluxo menstrual e pro-
vocando a decidualização dos focos de endome-
triose.
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● Progestágenos
Os progest ágenos induzem a deciduali -
zação e a atrofia dos focos de endometriose. Es-
tudos demonstraram uma redução na vasculari-
zação dos focos endometrióticos e na liberação
de mediadores da inflama ção. Os efeitos cola -
terais mais comuns incluem sangramento irre -
gular, ganho de peso, acne e edema. Os pro -
gestágenos estão disponíveis em comprimidos,
formas injet áveis, implantes e dispositivos in -
trauterinos (DIU). Pesquisas confirmaram a
eficácia do DIU de levonorgestrel no controle
da dismenorreia em pacientes com endometri -
ose. Al ém disso, o DIU de levonorgestrel
também ajuda a controlar os sintomas retais em
pacientes com endometriose no septo retovagi-
nal, tornando-se uma op ção adicional no trata -
mento dessas pacientes.
● Danazol e gestrinona
O danazol é um androgênio oral que inibe o
LH e a esteroidog êsem, aumentando os n íveis
de testosterona livre. Os efeitos colaterais mais
comuns incluem hirsutismo, acne e altera ções
na voz. Deve ser evitado em pacientes com do-
enças hepáticas ou hiperlipidemia. É essencial
usar contracep ção eficaz durante o tratamento
com danazol.A gestrinona é um antipro -
gestágeno que inibe a esteroidogêsem ovariana.
Os efeitos colaterais resultam de suas proprie -
dades androgênicas e antiestrog ênicas. Com o
maior acesso aos an álogos do GnRH, o uso de
gestrinona e danazol tem diminuído.
● Analgésicos
Para pacientes com endometriose, o uso de
analgésicos não deve ser descartado. Anti-infla-
matórios não esteroides (AINEs) são uma exce-
lente op ção para o manejo da dismenorreia,
mostrando-se mais eficazes do que o paraceta -
mol. Os AINEs mais estudados em ginecologia
são ibuprofeno, naproxeno e ácido me -
fenâmico. Além disso, medidas auxiliares como
acupuntura, interven ções comportamentais
(exercícios f ísicos, dieta rica em ômega 3) e
aplicação de calor tópico podem ser eficazes no
manejo da dor pélvica.
● Tratamento cirúrgico
O tratamento laparosc ópico para endome -
triose alivia a dor e pode ser iniciado durante o
diagnóstico. Esse tratamento cirúrgico envolve
cauterizar os focos de endometriose e remover
aderências, visando restaurar a anatomia nor -
mal da pelve. Pacientes com endometriomas
geralmente necessitam de interven ção
cirúrgica. A terapia medicamentosa pode redu -
zir temporariamente o tamanho dos cistos, mas
não os elimina. O melhor m étodo cir úrgico
ainda é debatido. Op ções mais conservadoras
incluem a drenagem do cisto ou a drenagem
com cauterização da cápsula do endometrioma.
A cistectomia, uma abordagem mais agressiva,
tem melhores resultados, com menor taxa de re-
corrência e maior alívio da dismenorreia, dispa-
reunia profunda e dor n ão menstrual. A drena -
gem simples est á associada a alta taxa de reci -
diva. Em pacientes inférteis, o manejo do endo-
metrioma é ainda mais controverso. A cistecto-
mia, apesar de eficaz, pode danificar o tecido
ovariano e afetar a reserva ovariana, importante
para pacientes com fertilidade reduzida. Nesses
casos, um tratamento conservador pode ser
semsiderado, reconhecendo-se a maior chance
de recorr ência. O uso de anticoncepcionais
orais após a cirurgia tem sido associado a uma
menor taxa de recidiva em um ano.
Nos últimos 20 anos, aumentou o conheci -
mento sobre a invas ão das les ões endome -
trióticas, levando a uma maior identifica ção da
endometriose profunda. A ressec ção dessas
lesões apresenta melhores resultados do que o
tratamento medicamentoso. O tratamento ideal
é a cirurgia, realizada por laparoscopia ou lapa-
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rotomia, para remover todo o tecido endome -
triótico. Muitas vezes, uma equipe multiprofis-
sional (cirurgi ão ginecol ógico, digestivo e
urológico) é necessária. A extensão da cirurgia
depende da gravidade da doença e do desejo de
ter filhos. A paciente deve estar ciente da
possível extensão da cirurgia, que pode incluir
ressecção parcial da bexiga, reimplante urete -
ral, ressecção intestinal e colostomia. Para pa -
cientes com endometriose profunda e infertili -
dade, n ão h á consenso sobre o melhor trata -
mento.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DUCTO DE MULLER. Glossário. [S. l.], 4 fev. 2020. Disponível em: . Acesso em: 30 abr. 2024.
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