Abstract
Objective: To investigate the knowledge of adolescents about Endometriosis, which
is a progressive, estrogen/dependent disease, which can be progressive and which is
characterized by the presence of endometrial tissue outside the uterus. It is estimated
that it affects about 10% of women of reproductive age, of which 2%-4% are postme-
nopausal, with or without hormonal treatment, and 4% to 17% of adolescents. Me -
thods: The research was carried out with adolescent students in the 3rd year of high
school from state schools in the city of Avaré (São Paulo) in a descriptive, exploratory
and qualitative-quantitative manner in three stages: application of a questionnaire,
Impacto da disseminação de informação sobre endometriose no autocuidado de adolescentes de escola pública
Impact of dissemination of information about endometriosis on self-care of public school adolescents
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holding a lecture and a new application of quiz. Four schools
participated, totaling 80 adolescents participating in the first
phase and 48 adolescents in the third phase. Results: There
was a 21.35-fold increase in the number of adolescents who
benefited from the knowledge generated by the lectures, in
addition to the replication of information to third parties,
possibly an increase in the number of women who learned
about what endometriosis is. Conclusion: It was found that
the application of informative lectures on signs and symp -
toms of endometriosis increased the level of knowledge of
adolescents between 16 and 17 years of age in public school.
INTRODUÇÃO
A endometriose é uma doença estrogênio-dependen-
te que pode ser progressiva e que se caracteriza pela
presença de tecido endometrial fora do útero. Estima-se
que acometa cerca de 10% das mulheres, das quais 4% a
17% são adolescentes.(1-3)
No Brasil e em países desenvolvidos, a endometriose
é considerada um problema de saúde pública e está en-
tre as principais causas de hospitalização ginecológica,
o que gera altos custos para os sistemas de saúde, tor -
nando-se um problema de natureza econômica.(4)
A presença de tecido semelhante ao endométrio na
cavidade peritoneal está associada a alterações imuno-
lógicas e aumento da reação inflamatória, que pode levar
à formação de aderências e lesões endometrióticas, que
podem causar disfunções de órgãos reprodutores e dor.(5)
A endometriose pode ter impacto negativo na vida da
paciente, com danos físicos, no bem-estar e na vida con-
jugal, social e profissional, devendo ser tratada adequa-
damente para prevenir quadros mais severos que com-
prometam toda a qualidade de vida dessas mulheres.(6)
Por ser uma doença pouco conhecida pela população
em geral, o diagnóstico da endometriose pode demorar,
em média, de 6 a 12 anos após o início dos sintomas, e
os obstáculos ao diagnóstico continuam altos.(7)
Os obstáculos pioram e tornam-se mais evidentes em
adolescentes com a doença. Em geral, não há informações
suficientes na literatura sobre o quanto as adolescentes
conhecem sobre a doença e seus sintomas. Há uma lacu-
na de conhecimento sobre a doença e as divulgações nas
escolas são restritas. Muitas adolescentes não procuram
ajuda dos profissionais de saúde para iniciar o tratamen-
to, por medo, constrangimento ou falta de informação, o
que dificulta ainda mais o diagnóstico precoce, causando
danos físicos e absenteísmo escolar, comprometendo o
desempenho acadêmico e o desenvolvimento psicosso-
cial, cognitivo, emocional e comportamental. É comum
portadoras de endometriose apresentarem quadros de
depressão e ansiedade; na adolescência, o impacto ne-
gativo pode ser ainda maior e piorar com o passar dos
anos, eventualmente na fase adulta.(8,9)
Com base nessa lacuna observada, o objetivo do pre-
sente estudo foi verificar o conhecimento sobre endo-
metriose de estudantes adolescentes do terceiro ano
do ensino médio de escolas estaduais do município de
Avaré.
MÉTODOS
A pesquisa foi realizada com adolescentes do terceiro
ano do ensino médio de escolas estaduais do município
de Avaré (São Paulo) de forma descritiva, exploratória e
quali-quantitativa, em três etapas: a primeira etapa foi a
aplicação de um questionário, a segunda etapa baseou-
-se na realização de uma palestra e, por fim, a terceira
etapa foi uma nova aplicação de um questionário dife-
rente do aplicado na primeira etapa.
O município de Avaré possui seis escolas que ofere-
cem ensino médio, entre as quais quatro colaboraram
para a realização desta pesquisa. As escolas que par -
ticiparam foram: E.E. Coronel João Cruz, E.E. Dona Cota
Leonel, E.E. Dr. Paulo Araújo Novaes e E.E. Prof. João
Teixeira de Araújo.
O número total de alunas que participaram dos semi-
nários foi de 630, entretanto os terceiros anos do ensino
médio totalizaram 150 alunas. Dessas, 80 adolescentes
aceitaram participar da primeira fase e 48 adolescentes,
da terceira fase.
Na primeira fase, realizou-se a aplicação de um ques-
tionário com 11 questões às alunas do terceiro ano que
estiveram presentes na sala de aula no dia, incluindo
questões como: Idade; Você sabe o que é endometriose?;
Quais sintomas você tem quando está próximo da mens-
truação ou menstruada?; Qual o motivo de você ir ao gi-
necologista? Descreva:; Depois desse questionário, você
gostaria de saber o que é endometriose?; entre outras.
Na segunda fase, aconteceu exposição de palestra
ministrada pela própria autora deste estudo nas esco-
las, para alunos do segundo e terceiro ano, nos turnos
matutino e vespertino, tanto para meninas quanto para
meninos, além de professores, coordenadores e colabo-
radores que ali estiveram presentes. As palestras dura -
ram em torno de uma hora, com conteúdo sobre o que
é a endometriose, o público-alvo, locais acometidos,
teorias, sintomas, avaliação diagnóstica, tratamentos e
problemas causados pela endometriose.
Na terceira fase, decorridos 30 dias, aplicou-se ou-
tra pesquisa com 11 perguntas para as mesmas adoles -
centes da primeira etapa, que incluía perguntas como:
Idade; Você sabe o que é endometriose?; Por quais
meios você teve conhecimento sobre a endometriose?;
Quais foram os motivos que a fez procurar saber sobre a
endometriose?; Para você, qual foi a importância da di-
vulgação da endometriose na sua escola?; Você passou
as informações aprendidas na palestra sobre endome-
triose a outras pessoas?; entre outras.
Os critérios de inclusão das participantes foram:
ter entregado, antes dos questionários, o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), devidamente
preenchido pelo responsável, assim como o Termo de
Medeiros SM, Medeiros LT, Corazza LC, Cardoso AL, Malvezzi H, Guarato AF, et al.
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Assentimento Livre e Esclarecido (TALE), no qual elas nos
autorizaram a utilizar os dados obtidos no questionário.
Durante o tempo de preenchimento dos questioná -
rios, a pesquisadora supervisionou e sanou possíveis
dúvidas das adolescentes.
O questionário foi baseado na pesquisa de Zannoni
et al., (10) sendo aprovado pelo Comitê de Ética, com o
parecer nº 2.775.239 (Certificado de Apresentação de
Apreciação Ética: 90130518.1.0000.5411).
RESULTADOS
Primeira etapa
As adolescentes que participaram da pesquisa tinham
entre 16 e 17 anos. Em relação à questão 1 (Tabela 1), 96%
das adolescentes não sabiam o que era endometriose.
O total de alunas com dismenorreia foi de 71%, confor -
me mostra a tabela 2. Queixas de alterações urinárias e
intestinais surgiram em 9% dos questionários.
Do total das adolescentes, 65 (81%) relataram não
procurar o ginecologista (Tabela 3). Os motivos de elas
irem ao ginecologista são cuidar da saúde (34%), mens-
truação atrasada ou cólica muito forte (3%), começar a
tomar anticoncepcional (9%) e quando algo está dife-
rente (4%) (Tabela 4). Os motivos de elas não procura -
rem o profissional da saúde são vergonha (14%), não ver
necessidade (14%), falta de tempo (9%), falta de dinheiro
(8%) e porque, pelo posto de saúde, é muito demorado
(8%) (Tabela 5).
Na questão 11, na qual se pergunta se, após o ques -
tionário, elas gostariam de saber o que é endometriose,
100% responderam que sim.
Segunda etapa
Das 80 adolescentes que participaram da primeira eta -
pa, apenas 48 participaram da terceira etapa. O número
reduzido de participantes da terceira etapa se deve a di-
versos fatores, entre eles, mudança de escola, mudança
de cidade, não querer participar e/ou não estar presen-
te na sala no dia da aplicação do questionário. Os resul-
tados obtidos na questão 1 (Tabela 6) mostraram que o
percentual das adolescentes que, após a palestra, têm
conhecimento sobre o que é endometriose foi de 85%.
Entre as adolescentes, 88% (42 adolescentes) disse-
ram que o meio de conhecimento sobre a doença foi
a palestra proferida e 13%, palestra, internet e família
(Tabela 7).
Dos dados obtidos na questão 3, foram seleciona -
das as frases que descrevem os motivos que levaram as
adolescentes a procurarem saber sobre a endometriose,
como:
• “Foi dada uma palestra na escola
sobre endometriose, isso me deixou
curiosa sobre o assunto.”
• “Já tive alguns dos sintomas e quis
procurar saber mais a fundo.”
• “Informar-se mais sobre a doença.”
• “O modo como ela está presente na
vida das jovens e mulheres.”
• “Foi dada uma palestra explicando; tenho dores
iguais, fiquei curiosa para aprender mais.”
Entre as adolescentes, 21% procuraram um profissio-
nal de saúde após o questionário e a palestra (Tabela 8).
Tabela 1. Resultados da questão 1 (Você sabe o que é
endometriose?)
Respostas n (%)
Não sabem 77 (96)
Sabem 3 (4)
Tabela 2. Resultados da questão 4 (Quais sintomas você tem
quando está perto da menstruação ou menstruada?)
Sintomas n (%)
Dor 57 (71)
Alterações intestinais e/ou urinárias 7 (9)
Nenhum 16 (20)
Tabela 3. Resultados da questão 5 (Realiza exames
ginecológicos com frequência?)
Frequência n (%)
Sim 15 (19)
Não 65 (81)
Tabela 4. Resultados da questão 6 (Qual o motivo de você IR
ao ginecologista?)
Motivos n (%)
Cuidar da saúde 27 (34)
Menstruação atrasada ou cólica muito forte 2 (3)
Começar a tomar anticoncepcional 7 (9)
Quando algo está diferente 3 (4)
Não responderam 41 (51)
Tabela 5. Resultados da questão 7 (Qual o motivo de você NÃO
ir ao ginecologista?)
Motivos n (%)
Não vê necessidade 11 (14)
Vergonha 11 (14)
Falta de tempo 7 (9)
Falta de dinheiro 6 (8)
Demora no atendimento 6 (8)
Não respondeu 39 (49)
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Na questão 8, que pergunta “Para você, qual foi a im-
portância da divulgação sobre a endometriose na sua
escola?”, as frases selecionadas escritas por elas foram:
• “Foi de muita importância, pois me
incentivou a procurar um médico.”
• “Bem informativa e um alerta à saúde.”
• “Para eu saber e conhecer essa doença, assim
podendo procurar um médico caso algum
sintoma parecido com a doença apareça.”
• “É importante, pois muitas pessoas
têm, mas não sabem.”
• “É muito grande, pois é um problema, infelizmente,
muito presente entre as mulheres brasileiras.”
• “Para conscientização de todos.”
• “Informar para ficar atenta, dor não é normal.”
Os resultados obtidos na questão 9 (Tabela 9) mos -
tram que 100% das adolescentes repassaram as infor -
mações aprendidas para outras pessoas da família ou
próximas a elas.
Foi perguntado às adolescentes sobre a frequência
de palestras de informação sobre a saúde na sua escola
(Tabela 10), e 88% delas responderam que é de uma a
duas vezes ao ano.
Cabe salientar que na questão 11 foi perguntado se
elas gostariam de ter mais palestras sobre a saúde da
mulher na sua escola, e 100% responderam que sim.
DISCUSSÃO
Os dados obtidos neste estudo corroboram os dados
da literatura, em que a prevalência de dismenorreia em
adolescentes varia de 60% a 93%, fato que deve chamar
mais atenção para aquelas que se queixam de disme-
norreia intensa, pois a dismenorreia é um sintoma co-
mum de quem tem endometriose.(11)
Outro fator importante é que, apesar de haver 44%
de pessoas que apresentam sintomas de endometriose
com menos de 20 anos, apenas 3,5% recebem o diagnós-
tico nessa faixa etária, o que mostra, mais uma vez, que
o diagnóstico é, na maioria das vezes, tardio.(11)
Apesar do alto índice de adolescentes com disme-
norreia, o índice daquelas que procuram regularmente
o ginecologista é muito baixo. Os motivos de não pro-
curarem o profissional da saúde são a vergonha, o fato
de ficarem sem roupa na frente de um estranho, inde-
pendentemente de ser médico ou médica, e a posição
desconfortável, e a falta de necessidade, divergindo dos
resultados relatados por Gomes et al.,(12) que colocam o
medo e o constrangimento como os principais motivos
para as adolescentes não irem ao ginecologista. Os re-
sultados conflitantes podem ser causados pela diferen-
ça de idade entre as entrevistadas, pela localidade do
estudo e por se misturarem escolas públicas e privadas.
Gomes et al.(12) incluíram adolescentes entre 14 e 17 anos
de escolas públicas e particulares do Rio Grande do Sul.
Ficou notório que, após o questionário e a palestra,
houve aumento de 21,35 vezes no conhecimento sobre
endometriose. A partir dos resultados apresentados,
torna-se evidente a importância da realização de pa -
lestras para o conhecimento das adolescentes sobre o
que é a endometriose e para que elas sejam capazes
de identificar sintomas que possam ser semelhantes e
procurem ajuda médica.
Apesar de ter sido grande a curiosidade e de as ado-
lescentes perceberem a importância de conhecer a
Tabela 6. Resultados da Questão 1 (Você sabe o que é
endometriose?)
Respostas n (%)
Sim 41 (85)
Não 7 (15)
Tabela 7. Resultados da questão 2 (Por quais meios você teve
conhecimento sobre essa doença)
Resultados n (%)
Palestra na escola 42 (88)
Palestra na escola/família/internet 6 (13)
Tabela 8. Resultados da questão 4 (A palestra contribuiu
no direcionamento para procurar o médico para investigar
possível endometriose?)
Procurou médico n (%)
Não foi ao médico após a palestra 38 (79)
Foi ao médico após a palestra 10 (21)
Tabela 9. Resultados da questão 9 (Você passou as
informações aprendidas na palestra sobre endometriose a
outras pessoas?)
Respostas n (%)
Mãe/amigos/família 19 (40)
Mãe 14 (29)
Pessoas da família 7 (15)
Amigos 7 (15)
Namorado 1 (2)
Tabela 10. Resultados da questão 10 (Com qual frequência
anual acontecem as palestras de informação sobre saúde na
sua escola?)
Palestras n (%)
Uma vez 21 (44)
Duas vezes 21 (44)
Três vezes 6 (13)
Medeiros SM, Medeiros LT, Corazza LC, Cardoso AL, Malvezzi H, Guarato AF, et al.
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doença, não houve aumento real (1,39 vez) da procura
por um profissional da saúde após o questionário e pa-
lestra, demonstrando a dificuldade de mudança das re-
presentações sociais sobre consulta ginecológica pree-
xistentes, representações que pertencem ao meio social
do grupo dessas adolescentes.(13,14)
Os resultados obtidos neste trabalho, de acordo com
as frases escritas pelas adolescentes, demonstram que
foi positiva a divulgação sobre a endometriose nessas es-
colas, o que foi corroborado pela divulgação entre fami-
liares e amigos, e isso confirma, mais uma vez, a impor-
tância da divulgação do tema, pois todas as entrevistadas
passaram as informações obtidas nas palestras para ou-
tras pessoas, sugerindo que, a partir de uma palestra, se
pode alcançar um número muito maior de pessoas.
CONCLUSÃO
Por meio dos resultados obtidos nesta pesquisa, con-
cluiu-se que houve aumento de 21,35 vezes no reconhe-
cimento da endometriose como doença entre as adoles-
centes, demonstrando-se a importância da orientação e
organização de palestras da área da saúde sobre a vida
sexual e reprodutiva, em escolas públicas do estado de
São Paulo. Além disso, as adolescentes perpetuaram as
informações a outras pessoas, principalmente às suas
mães, demonstrando, assim, que a pesquisa atingiu posi-
tivamente o público-alvo, além do público adulto, que é
considerado o grupo mais acometido pela endometriose.
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