Hesitação e recusa vacinal como trama discursiva: estratégias de resistência à imunização na pandemia de covid-19

preprint OA: closed CC-BY-4.0

Abstract

Vaccine hesitancy, widely studied as a public-health phenomenon, is often reduced to the effects of misinformation or so-called fake news. However, more than a mere informational miscue, vaccine hesitancy and refusal can be understood as a structured discursive fabric composed of utterances that confer legitimacy on the refusal of, or questioning about, immunization. Drawing entirely on my master’s dissertation, this article situates itself within the horizon of Foucaultian biopolitics to analyze the layers that emerge in discourses of vaccine hesitancy and refusal in Brazil during the COVID-19 pandemic. The specific objectives were: (i) to investigate vaccination discourses and practices in the country; (ii) to describe how the pandemic and its unfoldings traverse anti-vaccination utterances; (iii) to discuss the social world of vaccination in times of a health crisis; and (iv) to delineate proximities and differences between hesitancy and refusal. The corpus comprises posts made in two Facebook groups that connected individuals partially or wholly opposed to vaccination. Posts were identified via a search for the term “covid” and selected by number of interactions, in order to mitigate curatorial bias, considering that, on social networks, technodiscursive validation mobilizes regimes of visibility and authority. The central hypothesis holds that discourses opposing vaccination— frequently reduced to a “lack of information” or explained solely by the circulation of fake news— constitute a complex discursive fabric in which heterogeneous utterances articulate the (re)production of subjectivities and the reordering of truth criteria. The secondary hypothesis indicates that efforts to expand vaccination coverage require acknowledging the insufficiency—if not the absence— of consistent public discussions of pharmacovigilance in institutional and media discourses, a dimension that shapes expectations, beliefs, and trust. The analysis identified four recurring discursive strategies: (i) adoption of a christian morality that sacralizes the body and shifts protection to the realm of faith; (ii) adoption of “alternative health” discourses that re-signify prevention and immunity as natural self-care outside state– biomedical mediation; (iii) rejection of institutions (the state, health agencies, the media, the judiciary) through the delegitimation of their practices and decisions; and (iv) contestation of the scientific and market discourse of the chemical– pharmaceutical industry, which reinterprets vaccination as a mass experiment and heightened risk. These strategies do not operate in isolation: they compose dynamic intersections and overlaps, reorganized with each new discursive event, producing an economy of suspicion that shifts the vaccine from the axis of care/solidarity to that of risk/subjection. It follows that simplifying such discourses—reducing them to ignorance or informational error— tends to reinforce hesitancy and refusal themselves. Addressing them demands dialogic, transparent communication strategies sensitive to moral and community belongings, as well as the publicization of pharmacovigilance routines, so as to reinscribe vaccination within circuits of trust and shared care.
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DOI do preprint publicado https://doi.org/10.5007/1807-1384.2025.e109362 Preprint / Versão 1 Hesitação e recusa vacinal como trama discursiva: estratégias de resistência à imunização na pandemia de covid-19 article.authors6a11a56d8cdaf Leticia Ferreira Camargo Universidade Federal de Santa Catarina image/svg+xml .st0{fill:#A6CE39;} .st1{fill:#FFFFFF;} https://orcid.org/0000-0001-9271-127X DOI: https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.12971 Palavras-chave: Hesitação vacinal, Recusa de Vacinação, Antivacina, Biopolítica, COVID-19, Análise do discurso Resumo A hesitação vacinal, amplamente estudada enquanto fenômeno de saúde pública, é frequentemente reduzida ao efeito da desinformação ou da influência das chamadas fake news. No entanto, mais do que um chamado equívoco informacional, a hesitação e recusa vacinal pode ser compreendida como uma trama discursiva estruturada, composta por enunciados que conferem legitimidade à recusa ou ao questionamento da imunização. Este artigo, baseado integralmente em minha dissertação de mestrado, inscreve-se no horizonte da biopolítica foucaultiana para analisar as camadas que emergem nos discursos de hesitação e recusa vacinal no Brasil durante a pandemia de covid-19. Os objetivos específicos da pesquisa foram: i) investigar discursos e práticas de vacinação no país; ii) descrever como a pandemia e seus desdobramentos atravessam os enunciados antivacinação; iii) discutir o mundo social da vacinação em tempos de crise sanitária; e iv) delimitar aproximações e diferenças entre hesitação e recusa vacinal. O corpus é composto por postagens realizadas em dois grupos do Facebook que conectavam sujeitos parcial ou totalmente contrários à vacinação. As publicações foram identificadas por meio da busca pelo termo “covid” e selecionadas pelo número de interações, a fim de mitigar enviesamentos curatoriais, considerando que, nas redes, a validação tecnodiscursiva mobiliza regimes de visibilidade e autoridade. A hipótese central sustenta que os discursos contrários à vacinação, com frequência reduzidos à “falta de informação” ou explicados apenas pela circulação de fake news, configuram uma trama discursiva complexa, em que enunciados heterogêneos se articulam na (re)produção de subjetividades e na reordenação de critérios de verdade. A hipótese secundária indica que o esforço por ampliar coberturas vacinais requer reconhecer a insuficiência — quando não a ausência — de discussões públicas consistentes sobre farmacovigilância nos discursos institucionais e midiáticos, dimensão que impacta expectativas, crenças e confiança. A análise identificou quatro estratégias discursivas recorrentes: i) assunção de uma moralidade cristã que sacraliza o corpo e desloca a proteção para o âmbito da fé; ii) assunção de discursos de “saúde alternativa”, que ressignificam prevenção e imunidade como autocuidado natural, fora da mediação estatal-biomédica; iii) negação das instituições (Estado, órgãos sanitários, mídia, judiciário), por meio da deslegitimação de suas práticas e decisões; e iv) contestação do discurso científico e mercadológico da indústria químico-farmacêutica, que reinterpreta a vacinação como experimento em massa e risco ampliado. Essas estratégias não operam isoladamente: compõem intersecções e sobreposições dinâmicas, reorganizadas a cada novo acontecimento discursivo, produzindo uma economia de suspeição que desloca a vacina do eixo cuidado/solidariedade para o eixo risco/sujeição. Conclui-se que simplificar tais discursos — reduzindo-os a ignorância ou equívoco informacional — tende a reforçar a própria hesitação e recusa. Enfrentá-los demanda estratégias comunicacionais dialógicas, transparentes e sensíveis às pertenças morais e comunitárias, bem como à publicização de rotinas de farmacovigilância, de modo a reinscrever a vacinação em circuitos de confiança e cuidado partilhado. Downloads Os dados de download ainda não estão disponíveis. PDF Postado 08/09/2025 Como Citar Hesitação e recusa vacinal como trama discursiva: estratégias de resistência à imunização na pandemia de covid-19. (2025). Em SciELO Preprints . https://doi.org/10.1590/SciELOPreprints.12971 Formatos de Citação ACM ACS APA ABNT Chicago Harvard IEEE MLA Turabian Vancouver Baixar Citação Endnote/Zotero/Mendeley (RIS) BibTeX Série Linguística, letras e artes Copyright (c) 2025 Leticia Ferreira Camargo Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License . Dados de financiamento Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina .citations-container { overflow-y: auto; overflow-x: hidden; max-height: 1000px; } Plaudit Declaração de dados Os dados de pesquisa estão contidos no próprio manuscrito Aviso de preprints Preprints são manuscritos não avaliados por um periódico científico ou já avaliados mas em processo de publicação. .block_announcements_article:not(:last-child) { padding-bottom: 1.5em; border-bottom: 1px solid; } .block_announcements_article { text-align: left; } .block_announcements #show-all{ font-style: italic; } Notícias SciELO Preprints adota obrigatoriedade de declaração de disponibilização de dados de pesquisa 19 agosto 2025 A partir de 1º de setembro de 2025 os manuscritos submetidos ao SciELO Preprints devem incluir uma declaração de disponibilidade de dados informando sobre onde e como os dados da pesquisa que deram origem ao artigo podem ser acessados. 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