Fonologia corporificada: uma agenda de pesquisa ancorada em fundamentos da cognição não cartesiana

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Abstract

Este artigo discute criticamente a associação naturalizada entre cognição e atividade mental interna, argumentando que tal vínculo é resultado histórico da virada cartesiana e da consolidação de arcabouços cognitivistas amodais. A partir de uma reconstrução teórica que articula concepções pré-mentalistas de cognição e abordagens contemporâneas não cartesianas, em especial a cognição corporificada, sustentamos que conhecer é um processo situado, enativo e indissociável da ação corporal e da interação com o ambiente. No campo da fonética e da fonologia, argumentamos que a herança cartesiana contribuiu para a separação entre esses domínios e para a consolidação de modelos mentalistas que tratam a fonologia como um sistema abstrato e encapsulado. Embora abordagens emergentes, como a Fonologia Baseada no Uso e modelos captados pela Teoria dos Sistemas Dinâmicos Complexos (TSDC), representem avanços importantes, defendemos que essas perspectivas não garantem, por si só, uma concepção plenamente corporificada da fonologia. Como alternativa, propomos a Fonologia Corporificada não como um modelo formal ou paradigma substitutivo, mas como uma agenda de pesquisa comprometida com uma concepção não cartesiana de cognição, na qual corpo, ação e ambiente são constitutivos da arquitetura gramatical.

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