Endometriose de parede: estudo topográfico em série de casos

In: Jornal Brasileiro de Ginecologia · 2025 · pp. 26 · doi:10.5327/jbg-2965-3711-2025135s1064 · W7135060907
article OA: closed CC0
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Abstract

Introdução: A endometriose corresponde à presença de tecido endometrial funcional fora da cavidade uterina. Embora seja mais comum na pelve, pode ser encontrada em locais como a parede abdominal. A principal hipótese é o transplante iatrogênico de células endometriais durante procedimentos cirúrgicos uterinos, como cesarianas e histerectomias. A associação com cesariana apresenta incidência estimada entre 0,03 e 3,50%, sendo relevante para ginecologistas e obstetras. O objetivo do estudo é mapear a localização dos casos de endometriose na parede abdominal e especificar os tecidos mais comumente acometidos pela doença. Relato da série de casos: Foram diagnosticados 20 casos de endometriose de parede abdominal no serviço, entre 2018 e 2025. A distribuição topográfica, segundo o exame físico, foi: 13 casos (65%) em cicatriz de Pfannenstiel – 6 à direita, 5 à esquerda e 2 não especificados; 2 casos (10%) em mesogástrio; e 5 (25%) em umbigo. Quanto às manifestações clínicas, as pacientes queixaram-se de: dor na parede abdominal em 19 casos (95%); abaulamento na parede em 7 (35%); dismenorreia em 5 (25%); e sangramento na parede abdominal em 4 (20%). A profundidade da lesão no intraoperatório envolveu o peritônio em 3 casos (15%) e o músculo em 6 (30%). O subcutâneo e a aponeurose foram os tecidos mais acometidos, com 16 (80%) e 12 casos (60%), respectivamente. A pele foi acometida em 7 casos (35%). Dezesseis pacientes (80%) possuíam antecedente de cesariana; 10 haviam sido submetidas a uma cesárea; 5 a duas cesáreas; e 1 a quatro cesáreas. Os 4 casos (20%) sem cesárea tiveram endometriose exclusivamente umbilical, uma delas com histerectomia prévia. Apenas uma paciente com cesariana apresentou a doença em cicatriz umbilical. Foi realizada a excisão cirúrgica das lesões, com análise anatomopatológica. Nenhum fragmento apresentava dimensão inferior a 1 cm; 4 casos (20%) apresentaram fragmentos entre 1 e 3 cm; 5 casos (25%) entre 3,1 e 5 cm; 8 casos (40%) entre 5,1 e 7 cm; e 3 casos (15%) com fragmentos superiores a 7 cm. O uso de tela sintética foi necessário em quatro pacientes, todas com lesões superiores a 5 cm. Os diagnósticos de endometriose foram confirmados por exame histopatológico. Comentários: A série evidencia predominância de endometriose de parede abdominal em pacientes com cesárea prévia e lesões mais comuns em cicatriz de Pfannenstiel. A topografia e o histórico obstétrico sugerem implantação iatrogênica, enquanto os casos umbilicais, correspondentes a todas as ocorrências no subgrupo sem cesariana prévia, apontam para outras fisiopatologias, como metaplasia ou disseminação linfovascular. Apenas uma paciente com cesárea prévia apresentou endometriose em cicatriz umbilical, sendo possível que sua etiologia também seja por implantação iatrogênica, a depender da técnica cirúrgica-obstétrica utilizada. As manifestações clínicas foram compatíveis com a literatura, e o tratamento consistiu na ressecção cirúrgica com confirmação histopatológica. Os achados destacam a importância dos antecedentes cirúrgicos e da localização da lesão para o diagnóstico diferencial e o manejo adequado.

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