Endometriose extrapélvica com isquemia intestinal associada: um relato de caso

In: Brazilian Journal of Health Review · 2025 · vol. 8(1) , pp. e77811 · doi:10.34119/bjhrv8n1-446 · W4407939319
article OA: diamond CC0

Abstract

A endometriose afeta de 6 a 10% das mulheres em idade reprodutiva¹ e caracteriza-se pela proliferação de células do endométrio fora da cavidade uterina. Classicamente, gera dor pélvica crônica, dismenorreia e infertilidade², com a confirmação diagnóstica feita por visualização das lesões em cirurgia4,5. O objetivo deste relato é divulgar o caso de uma paciente atípica, ampliando o repertório médico quanto às diversas apresentações da doença. A paciente, sexo feminino, 40 anos, G3P3, foi encaminhada ao serviço terciário com dor abdominal intensa com 1 dia de duração e sangramento vaginal vermelho vivo. Relata perda ponderal de 11kg em 2 meses. À admissão, apresentava sinais vitais estáveis, exame físico com abdome distendido, hipertimpânico, com dor difusa à palpação superficial, pior em andar inferior e presença de defesa. Os exames laboratoriais eram sugestivos de hemorragia e infecção, e a paciente foi internada para melhor avaliação do caso. Na investigação, a tomografia demonstrou lesão nodular em ovário esquerdo e lesão volumosa (1618 cm³) envolvendo porção anterior da pelve, fossas ilíacas (FI) e regiões anexiais, indissociável do fundo uterino e em íntimo contato com o ceco, com encarceramento de alças intestinais. Foram encontrados também espessamentos difusos de íleo terminal e ceco, densificação adiposa e linfonodomegalia regional. As hipóteses levantadas foram abscesso tubo-ovariano e neoplasia de ovário. 8 dias após a admissão foi realizada laparotomia exploratória pela equipe de Ginecologia e Obstetrícia e executadas ooforectomia e salpingectomia esquerdas devido à infecção e necrose, sendo confirmado em anatomopatológico salpingite aguda por endometrioma. A equipe de Cirurgia Geral foi chamada para avaliação do achado em FI direita, que estava endurecido e aderido a planos profundos, entremeado em mesentério, com necrose difusa. A equipe realizou ileocolectomia direita, ileostomia terminal e retirada de linfonodo retroperitoneal e peritônio para biópsia. Apesar da semelhança visual da massa com neoplasia, a análise indicou endometriose profunda. Após 5 dias em Unidade de Terapia Intensiva e 13 dias em Enfermaria, a paciente apresentou boa recuperação e recebeu alta hospitalar. A endometriose intestinal corresponde a cerca de ¼ dos casos de endometriose profunda, sendo a maioria das lesões localizadas em reto e cólon3. A localização atípica somada a sintomatologia inespecífica que esse subtipo causa (dor abdominal, náuseas e vômitos) corrobora para a confusão diagnóstica com patologias inflamatórias abdominais diversas e neoplasias3,4,5. No caso relatado, os fatores citados somados à ocorrência simultânea do abscesso tubo-ovariano por endometrioma, complexificaram o diagnóstico da paciente. Em suma, endometriose intestinal, mesmo rara, deve ser levada em consideração no diagnóstico diferencial das causas de abdome agudo em mulheres em idade fértil.
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Endometriose extrapélvica com isquemia intestinal associada: um relato de caso DOI: https://doi.org/10.34119/bjhrv8n1-446Keywords: abdome agudo, isquemia, endometriose, laparotomia, peritônioAbstract A endometriose afeta de 6 a 10% das mulheres em idade reprodutiva¹ e caracteriza-se pela proliferação de células do endométrio fora da cavidade uterina. Classicamente, gera dor pélvica crônica, dismenorreia e infertilidade², com a confirmação diagnóstica feita por visualização das lesões em cirurgia4,5. O objetivo deste relato é divulgar o caso de uma paciente atípica, ampliando o repertório médico quanto às diversas apresentações da doença. A paciente, sexo feminino, 40 anos, G3P3, foi encaminhada ao serviço terciário com dor abdominal intensa com 1 dia de duração e sangramento vaginal vermelho vivo. Relata perda ponderal de 11kg em 2 meses. À admissão, apresentava sinais vitais estáveis, exame físico com abdome distendido, hipertimpânico, com dor difusa à palpação superficial, pior em andar inferior e presença de defesa. Os exames laboratoriais eram sugestivos de hemorragia e infecção, e a paciente foi internada para melhor avaliação do caso. Na investigação, a tomografia demonstrou lesão nodular em ovário esquerdo e lesão volumosa (1618 cm³) envolvendo porção anterior da pelve, fossas ilíacas (FI) e regiões anexiais, indissociável do fundo uterino e em íntimo contato com o ceco, com encarceramento de alças intestinais. Foram encontrados também espessamentos difusos de íleo terminal e ceco, densificação adiposa e linfonodomegalia regional. As hipóteses levantadas foram abscesso tubo-ovariano e neoplasia de ovário. 8 dias após a admissão foi realizada laparotomia exploratória pela equipe de Ginecologia e Obstetrícia e executadas ooforectomia e salpingectomia esquerdas devido à infecção e necrose, sendo confirmado em anatomopatológico salpingite aguda por endometrioma. A equipe de Cirurgia Geral foi chamada para avaliação do achado em FI direita, que estava endurecido e aderido a planos profundos, entremeado em mesentério, com necrose difusa. A equipe realizou ileocolectomia direita, ileostomia terminal e retirada de linfonodo retroperitoneal e peritônio para biópsia. Apesar da semelhança visual da massa com neoplasia, a análise indicou endometriose profunda. Após 5 dias em Unidade de Terapia Intensiva e 13 dias em Enfermaria, a paciente apresentou boa recuperação e recebeu alta hospitalar. A endometriose intestinal corresponde a cerca de ¼ dos casos de endometriose profunda, sendo a maioria das lesões localizadas em reto e cólon3. A localização atípica somada a sintomatologia inespecífica que esse subtipo causa (dor abdominal, náuseas e vômitos) corrobora para a confusão diagnóstica com patologias inflamatórias abdominais diversas e neoplasias3,4,5. No caso relatado, os fatores citados somados à ocorrência simultânea do abscesso tubo-ovariano por endometrioma, complexificaram o diagnóstico da paciente. Em suma, endometriose intestinal, mesmo rara, deve ser levada em consideração no diagnóstico diferencial das causas de abdome agudo em mulheres em idade fértil. References Zondervan KT, Becker CM, Missmer SA. Endometriosis. N Engl J Med. 2020 Mar 26;382(13):1244-1256. doi: 10.1056/NEJMra1810764. Fernandes CE, De Sá MFS, editores. Tratado de ginecologia FEBRASGO. Rio de Janeiro: Elsevier, 2019. Fedele L, Berlanda N, Corsi C, Gazzano G, Morini M, Vercellini P. Ileocecal endometriosis: clinical and pathogenetic implications of an underdiagnosed condition. Fertility and Sterility. 2014 Mar 1;101(3):750–3. doi: 1016/j.fertnstert.2013.11.126. López AC, Hernández AG, Hidalgo PAG, Rodríguez RG, Marijuán JLM, Zapardiel I, et al. Ileocecal endometriosis: diagnosis and management. Taiwanese Journal of Obstetrics & Gynecology. 2017 Apr 1;56(2):243–6. doi: 10.1016/j.tjog.2016.09.007. Verzoviti I, Kalliouris D, Boptsi A, Kiriakos N, Keramidaris D. Endometriosis in the Cecum: A Rare Clinical Entity. Cureus [Internet]. 2023 Mar 5 [cited 2024 Mar 1];15(3):e35782. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC10072167/. doi: 10.7759/cureus.35782.

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