Endometriose profunda e acesso ao Sistema Único de Saúde: quando a judicialização é a porta de entrada para o tratamento

In: Jornal Brasileiro de Ginecologia · 2025 · pp. 24 · doi:10.5327/jbg-2965-3711-2025135s1058 · W7135034346
article OA: closed CC0
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Abstract

Introdução: A endometriose é uma doença ginecológica crônica que afeta cerca de uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva. Quando profunda, pode comprometer múltiplos órgãos, como o intestino, ureteres e ovários, causando dor pélvica intensa e comprometimento funcional significativo. Além da complexidade clínica, o acesso ao tratamento cirúrgico especializado no Sistema Único de Saúde (SUS) representa um desafio, dada a carência de políticas públicas direcionadas e a escassez de centros de referência para o manejo da doença. Relato do caso: Trata-se de paciente do sexo feminino, 29 anos, com história de dor pélvica crônica de longa evolução, agravada progressivamente nos últimos meses. Relatou dispareunia, polaciúria, constipação intestinal e perda ponderal de aproximadamente 20 kg em razão da hiporexia. Realizou múltiplas consultas em diferentes serviços de saúde, sem sucesso na obtenção de diagnóstico e tratamento definitivos. Ao dar entrada em hospital de referência, encontrava-se hemodinamicamente estável, porém com dor abdominal intensa, necessitando de analgesia com uso contínuo de morfina venosa em doses elevadas. Foi diagnosticada com endometriose profunda, com acometimento peritoneal, intestinal, ureteral, uterino, tubário e ovariano, com indicação de cirurgia de alta complexidade. Apesar da gravidade do quadro, enfrentava impossibilidade de acesso ao procedimento pelo SUS. Após intervenção judicial, foi autorizada a realização da cirurgia na própria instituição. O procedimento foi conduzido por videolaparoscopia, com abordagem multidisciplinar, envolvendo as equipes da Ginecologia e Cirurgia Geral, visando à preservação máxima dos órgãos, embora com risco previamente discutido de possíveis ressecções intestinais e anexiais. No pós-operatório imediato, a paciente apresentou remissão completa da dor intensa, não necessitando mais de analgesia opioide. Recebeu alta hospitalar em boas condições clínicas, sem necessidade de medicações para o controle da dor. Comentários: Este caso evidencia a gravidade da endometriose profunda e o impacto clínico, funcional e psicossocial gerado pela demora no acesso ao tratamento adequado. Destaca-se o sofrimento físico e emocional da paciente, que chegou a necessitar de morfina em razão da dor refratária. A cirurgia teve papel fundamental na recuperação clínica, demonstrando que a abordagem cirúrgica, quando bem indicada, pode ser curativa e restaurar a qualidade de vida. Dessa forma, o caso reforça a necessidade urgente de políticas públicas que ampliem o acesso ao diagnóstico precoce e ao tratamento especializado da endometriose, a fim de evitar sofrimento prolongado e a judicialização como única alternativa para muitas pacientes.

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