{"paper_id":"f406e471-deab-4da8-a9eb-040b3dbfb364","body_text":"| 853 \nFEMINA 2025;53(6):853-8\nPROTOCOLOS FEBRASGO\nDescritores\nEndometriose; Infertilidade; \nEndometrioma; Dor \npélvica; Infertilidade\nComo citar? \nFederação Brasileira das \nAssociações de Ginecologia \ne Obstetrícia (Febrasgo). \nEndometriose. Femina. \n2025;53(6):853-8.\nEste protocolo foi elaborado pela \nComissão Nacional Especializada \nem Endometriose e validado \npela Diretoria Científica como \nDocumento Oficial da Febrasgo. \nProtocolo Febrasgo de Ginecologia \nnº 27. Acesse: https://www.febrasgo.\norg.br/\nTodo conteúdo está licenciado sob \na Licença Creative Commons do tipo \natribuição BY. \nEndometriose \nHIGHLIGHTS\n1. A endometriose é uma doença benigna e prevalente, que pode \ncomprometer a qualidade de vida e a fertilidade feminina.\n2. Sua etiopatogenia ainda é obscura, porém estão envolvidos aspectos \ngenéticos, imunológicos e ambientais no seu estabelecimento.\n3. O diagnóstico deve ser baseado na suspeita clínica pelos \nsintomas típicos da doença: dismenorreia, dispareunia, dor \nacíclica, sintomas intestinais e urinários, além de infertilidade.\n4. Os exames de imagem devem ser, sempre, requisitados \npara uma melhor compreensão da extensão da doença \ne sua programação cirúrgica, quando indicado.\n5. O tratamento clínico deve ser multidisciplinar, envolvendo \npsicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, educadores \nfísicos, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, além do \nmédico, com tratamento hormonal e analgésico.\n6. O tratamento cirúrgico deve ser restrito às pacientes sem resposta \nao tratamento clínico ou na presença da doença avançada \ncom comprometimento funcional de órgãos acometidos.\n7. O seguimento das pacientes com a doença deve \nser rigoroso e regular, para identificação da \nprogressão dos sintomas e/ou da doença. \n8. O tratamento da infertilidade associada à \nendometriose deve ser feito por especialista.\nINTRODUÇÃO\nA endometriose é uma doença ginecológica crônica, benigna, estrogênio-de-\npendente e de natureza multifatorial que acomete principalmente mulheres \nem idade reprodutiva. Pode ser definida pela presença de tecido que se as -\nsemelha a glândula e/ou estroma endometrial fora do útero, com predomí-\nnio, mas não exclusivo, na pelve feminina.\nA endometriose se divide em três doenças distintas: peritoneal, ovariana e \nendometriose profunda. A peritoneal caracteriza-se pela presença de implan-\ntes superficiais no peritônio; a ovariana é caracterizada por implantes superfi-\nciais ou cistos (endometriomas) no ovário; e a endometriose profunda é defi-\nnida como uma lesão que penetra no espaço retroperitoneal ou na parede dos \nórgãos pélvicos, com profundidade de 5 mm ou mais (nível de evidência B).(1)\nEmbora os dados epidemiológicos da doença sejam de difícil caracteriza-\nção, pois apresentam grande variação entre os autores, principalmente re -\nlacionado ao diagnóstico da endometriose, acredita-se haver prevalência da \ndoença entre 5% e 10% da população feminina em idade reprodutiva (nível \nde evidência B).(2)\nFISIOPATOLOGIA\nA fisiopatologia da endometriose ainda é tema de discussão e apresenta \nvárias teorias baseadas em evidências clínicas e experimentais. \nTeoria de Sampson ou da menstruação retrógrada\nFoi observado que 90% das mulheres apresentam líquido livre na pelve \nem época menstrual, sugerindo que ocorra certo grau de refluxo tubário. \n\nFederação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo)\nComissão Nacional Especializada em Endometriose\n854 |\nFEMINA 2025;53(6):853-8\nCélulas endometriais, então, implantariam-se no peri -\ntônio e nos demais órgãos pélvicos, iniciando a doença. \nComo somente 10% das mulheres apresentam endome-\ntriose, os implantes ocorreriam pela influência de um \nambiente hormonal favorável e de fatores imunológicos \nque não eliminariam essas células desse local impró -\nprio (nível de evidência B).(3)\nTeoria da metaplasia celômica\nLesões de endometriose poderiam originar-se direta -\nmente de tecidos normais mediante um processo de di-\nferenciação metaplásica (nível de evidência B).(4)\nTeoria genética\nPredisposição genética ou alterações epigenéticas associa-\ndas a alterações no ambiente peritoneal (fatores inflama-\ntórios, imunológicos e estresse oxidativo) poderiam iniciar \na doença nas suas diversas formas (nível de evidência B).(4)\nQUADRO CLÍNICO\nÉ de vital importância o ginecologista reconhecer os prin-\ncipais sintomas e o que se observa no exame físico da \npaciente com endometriose para realizar o diagnóstico \nprecoce da doença. Infelizmente, ainda hoje, a média esti-\nmada do tempo entre o início dos sintomas referidos pe-\nlas pacientes até o diagnóstico definitivo é de aproxima-\ndamente sete anos (nível de evidência B).(5) Os principais \nsintomas associados são: dismenorreia, dor pélvica crô-\nnica, dispareunia de profundidade, alterações intestinais \ncíclicas (distensão abdominal, sangramento nas fezes, \nconstipação, disquezia e dor anal no período menstrual), \nalterações urinárias cíclicas (disúria, hematúria, polaciúria \ne urgência miccional no período menstrual) e infertilidade. \nEm casos de dor associada à endometriose, é preciso fazer \no diagnóstico diferencial com outras causas de dor pélvi-\nca crônica como a síndrome do intestino irritável, cistite \nintersticial e alterações miofasciais do assoalho pélvico.\nO exame físico é de suma importância na suspeita \nclínica da endometriose. Nódulos ou rugosidades ene -\ngrecidas em fundo de saco posterior ao exame especu -\nlar sugerem a doença. Ao toque, útero com pouca mobi-\nlidade sugere aderências pélvicas. Nódulos geralmente \ndolorosos também em fundo de saco posterior podem \nestar associados a lesões retrocervicais, ligamento ute -\nrossacro e fundo de saco vaginal posterior ou intestinal. \nMassas anexiais podem estar relacionadas a endome -\ntriomas ovarianos. A realização do exame durante perío-\ndo menstrual melhora performance diagnóstica. \nA ausência de alterações ao exame físico não afasta \na doença.\nDIAGNÓSTICO\nA suspeita clínica associada ao exame físico traz a hipóte-\nse de endometriose, mas é necessária a utilização de ferra-\nmentas diagnósticas auxiliares. As ultrassonografias pélvica \ne transvaginal com preparo intestinal e a ressonância mag-\nnética são os principais métodos por imagem para detecção \ne estadiamento da endometriose e deverão ser realizadas \npor profissionais habilitados na detecção da doença.(6,7)\nNão há indicação para a dosagem de biomarcadores \ncomo o CA-125, entre outros.(7) \nO médico imagenologista deverá contemplar, em sua \navaliação, o compartimento anterior, envolvendo a bexiga \ne ligamentos redondos; o compartimento posterior, que \nenvolve a região retrocervical e fórnice vaginal posterior; \nos ligamentos uterossacrais; a região paracervical; os ure-\nteres; o retossigmoide; o apêndice; o íleo e, possivelmen-\nte, o ceco, além do diafragma e, claro, do útero, ovários e \ntubas uterinas, que são locais de possível acometimento \nda doença. É importante ficar claro que os exames de \nimagem especializados podem evidenciar a presença das \nlesões profundas e dos endometriomas ovarianos, mas \nnão é possível visualizar as lesões superficiais.(6)\nA videolaparoscopia tinha, no passado, papel no \ndiagnóstico da endometriose. Porém, atualmente, com \no avanço dos métodos por imagem, ela é indicada em \ncasos individualizados de mulheres que apresentam \nexames normais e falha no tratamento clínico.(7) \nTRATAMENTO CLÍNICO DA DOR PÉLVICA \nEM MULHERES COM ENDOMETRIOSE\nA endometriose deve ser abordada como uma doença \ncrônica e merece acompanhamento durante a vida re -\nprodutiva da mulher, momento no qual a doença mani-\nfesta seus principais sintomas (nível de evidência A).(8)\nO tratamento clínico é eficaz no controle da dor pél -\nvica e deve ser a primeira escolha na ausência de indi -\ncações absolutas para cirurgia (nível de evidência A). (8) \nO principal objetivo do tratamento clínico é o alívio dos \nsintomas álgicos e a melhora da qualidade de vida, não \nse esperando diminuição das lesões ou cura da doença, \nmas o controle do quadro clínico e certa estabilidade de \nalguns focos da doença pelo período em que se faz o \ntratamento medicamentoso hormonal.(9)\nO tratamento clínico não deve ser usado nas seguin-\ntes situações:\n • Uropatia obstrutiva; \n • Estenose intestinal sintomática (semioclusão);\n • Massa anexial (“duvidosa”);\n • Más respondedoras;\n • Mulheres que não desejam usar medicação \npor vários anos ou com contraindicação \nao tratamento hormonal; \n • Lesão de íleo terminal e ceco (válvula ileocecal).\nÉ fundamental avaliar outras causas de dor em mu -\nlheres já diagnosticadas com endometriose que apre -\nsentam sintomas recorrentes ou que não respondem ao \ntratamento clínico.\nEntre as opções disponíveis para o tratamento farma-\ncológico da dor, estão os progestágenos isolados e os \n\nEndometriose\n| 855 \nFEMINA 2025;53(6):853-8\nanticoncepcionais orais combinados, que constituem a \nprimeira linha, enquanto os análogos do hormônio libe-\nrador de gonadotrofinas (GnRH) são a segunda opção. \nA escolha da medicação deve ser individualizada e le -\nvar em consideração o perfil de efeitos colaterais, assim \ncomo os custos, os riscos e os benefícios.\nOs progestagênios usados de forma contínua resultam \nem bloqueio ovulatório e são efetivos no controle da dor \npélvica decorrente da endometriose (nível de evidência \nA).(8-10) Medicações orais que podem ser utilizadas de for-\nma contínua são:(10,11) acetato de noretindrona, na dose de \n2,5 a 10 mg ao dia; dienogeste, na dose de 2 mg ao dia; e \ngestrinona, na dose de 2,5 a 5 mg ao dia, reafirmando que \no uso é por via oral, pois até o momento outras vias de \nadministração são off-label. Outras formas de apresen -\ntação são o acetato de medroxiprogesterona, que deve \nser aplicado na dose de 150 mg intramuscular a cada três \nmeses,(8) e anticoncepcionais de longa duração, como o \ndispositivo intrauterino (DIU) liberador de levonorgestrel \ne o implante de etonogestrel.(8,12) Os efeitos colaterais dos \nprogestagênios são ganho de peso, alteração de humor \ne perda de massa óssea, esta última associada principal-\nmente ao acetato de medroxiprogesterona de depósito.(8)\nAssim como os progestagênios isolados, as pílulas com-\nbinadas de estrogênios e progestagênios podem ser indi-\ncadas como tratamento de primeira linha por diversas dire-\ntrizes de sociedades (nível de evidência B).(7-9) O mecanismo \nde ação é similar ao dos progestagênios.(13) Nenhuma com-\nbinação se mostrou superior à outra no tratamento clínico \nda endometriose, e ainda não há quanto à consenso se a \nadministração deve ser contínua ou cíclica, ou na forma de \napresentação (oral, injetável, adesivo ou anel vaginal).(14)\nExistem medicações adjuvantes hormonais para con-\ntrole da dor, que, apesar de apresentarem bons resulta-\ndos em estudos clínicos, não têm sido amplamente utili-\nzadas na prática clínica, pelos efeitos colaterais, como o \ndanazol (nível de evidência A),(15) os agonistas do GnRH(13) \n(nível de evidência A) e os inibidores da aromatase (ní -\nvel de evidência B).(8)\nOs anti-inflamatórios não hormonais são frequente -\nmente utilizados na dismenorreia primária, porém não \nexiste evidência científica para o uso nas pacientes com \nendometriose (nível de evidência D).(16)\nTerapias complementares podem se r indicadas no \nseguimento das pacientes com endometriose sintomá -\ntica, como acupuntura, (17) fisioterapia do assoalho pél -\nvico,(18) psicoterapia de apoio, acompanhamento nutri -\ncional com mudança de hábitos alimentares e melhora \nda qualidade de vida, além de seguimento em conjunto \ncom um especialista no manejo da dor, a fim de otimizar \na analgesia (nível de evidência A).(8)\nTRATAMENTO CIRÚRGICO DA DOR PÉLVICA \nEM MULHERES COM ENDOMETRIOSE \nO tratamento cirúrgico deve ser oferecido às pacientes \nem que o tratamento clínico for ineficaz ou contrain -\ndicado por alguma razão, assim como em situações \nespecíficas (nível de evidência A).(19) O objetivo da cirur-\ngia é a remoção completa de todos os focos de endome-\ntriose, restaurando a anatomia e preservando a função \nreprodutiva (nível de evidência A).(19)\nA endometriose retrocervical pode envolver os liga -\nmentos uterossacros, tórus uterino, cúpula vaginal e \nsepto retovaginal, e as lesões podem também acometer \na parede anterior do retossigmoide. É consenso que se \ndeve realizar a excisão completa dos focos e, para isso, \nnão basta cauterizar os focos, mas retirá-los, por meio de \nexérese, utilizando-se pontos de referência e dissecção \nde espaços avasculares da pelve como pontos funda -\nmentais para desfazer a obliteração do fundo de saco e \nindividualizar os órgãos da pelve (nível de evidência B).(20)\nExiste técnica mais conservadora, como o shaving, \nas nodulectomias, que podem ser as ressecções circu -\nlares ou lineares, e a ressecção segmentar, com maior \nradicalidade. Todos esses procedimentos podem ser \nrealizados com uma abordagem minimamente invasiva, \npor meio de laparoscopia, por equipe multidisciplinar. \nAs características da lesão determinam a técnica a ser \nrealizada (nível de evidência B).(20)\nA literatura mostra uma ampla gama de técnicas de \nshaving aplicadas por diferentes autores, em diferentes \ntipos de nódulos, com diâmetros, tamanhos e profun -\ndidades bastante díspares entre si. Estudos mostram \naté 43,8% de endometriose remanescente nas paredes \nintestinais adjacentes após a ressecção por shaving (ní-\nvel de evidência B).(21) No entanto, Donnez e Squifflet, em \nsérie prospectiva de 500 casos de ressecção por sha-\nving, observaram taxa de recidiva de 8% (nível de evi -\ndência B).(22) Já a ressecção discoide é definida como a \nressecção do nódulo de endometriose, incluindo todas \nas camadas da parede anterior do reto, utilizando-se \ntesoura e sutura em planos ou grampeador circular ou \nlinear. Essa técnica é indicada para nódulos de até 3 cm \n(nível de evidência B).(23) As limitações para a realização \ndesse procedimento são o tamanho da lesão e a dis -\ntância dessa da borda anal (nível de evidência B).(20) Por \nfim, a ressecção de um segmento do retossigmoide, com \nsubsequente anastomose término-terminal, é indicada \npara lesões maiores que 3 cm ou na presença de duas \nou mais lesões intestinais. Diversos estudos mostraram \nque o tratamento da endometriose intestinal melhora \na qualidade de vida das pacientes, com baixas taxas de \ncomplicações e morbidade (nível de evidência B).(24)\nO endometrioma de ovário pode ser abordado por \ndiversas técnicas cirúrgicas, no entanto, temos que ter \nem mente que a cirurgia deve ser muito cuidadosa, pois \na retirada da cápsula do cisto pode lesar o parênquima \novariano e diminuir a reserva ovariana (C).(25) Por essa ra-\nzão, o congelamento de oócitos deve ser discutido antes \nda cirurgia. A preservação da fertilidade deve ser leva -\nda em consideração para aquelas com endometriomas \nbilaterais não operados e aquelas que removeram en -\ndometriomas unilaterais anteriormente e precisam de \ncirurgia para uma recorrência contralateral.\n\nFederação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo)\nComissão Nacional Especializada em Endometriose\n856 |\nFEMINA 2025;53(6):853-8\nA European Society of Gastrointestinal Endoscopy  \n(ESGE) publicou em 2017 (25) (nível de evidência C) uma \ndiretriz de estratégias para o tratamento do endome -\ntrioma ovariano; entre elas estão: separar o ovário com \nendometrioma da parede abdominal, à qual comumen-\nte está aderido. É importante a identificação do ureter \npara evitar danos a ele. Também, nesse momento, essa \nseparação geralmente resulta na drenagem do endome-\ntrioma. Lesões endometrióticas da parede pélvica e liga-\nmento largo também devem ser removidas.\nA endometriose do trato urinário pode ocorrer em 1% \na 5% dos casos, sendo a bexiga mais acometida em 85% \ndos casos e o ureter, em 15% dos casos. O tratamento \ncirúrgico preferencial para a bexiga é a cistectomia, com \na retirada total do nódulo, não o shaving da lesão. Em \nrelação ao ureter, o lado esquerdo é o mais acometido, o \nterço distal do ureter é mais frequentemente acometido, \na doença é extrínseca em 80% dos casos e intrínseca em \n20% dos casos, sendo a ureterólise a técnica mais reali-\nzada em 41% dos casos. A anastomose término-terminal \nou o reimplante ureteral fica reservado para as lesões \nintrínsecas do ureter acometido (nível de evidência B).(26)\nA histerectomia total com salpingo-ooforectomia bi -\nlateral deve ficar reservada aos casos graves com sinto-\nmas debilitantes atribuíveis à doença, com prole defi -\nnida e ausência de resposta a tratamentos alternativos. \nCaso seja realizada a remoção dos ovários, é preciso \nconsiderar as consequências em longo prazo do hipoes-\ntrogenismo, principalmente em mulheres antes dos 45 \nanos de idade. Nesses casos, a reposição hormonal está \nindicada até a idade esperada da ocorrência natural da \nmenopausa.(7)\nTRATAMENTO DA INFERTILIDADE EM \nMULHERES COM ENDOMETRIOSE\nExiste grande associação entre endometriose e inferti -\nlidade; alguns estudos mostram que entre 25% e 50% \ndas mulheres inférteis são portadoras de endometriose \ne que 30% a 50% das mulheres com endometriose apre-\nsentam infertilidade.(27)\nA abordagem da paciente com endometriose e inferti-\nlidade é controversa, uma vez que muitas condutas não \nforam avaliadas em ensaios clínicos randomizados, o \nque reduz o nível de evidência para as recomendações. \nSendo assim, deve ser considerado o quadro clínico da \npaciente, sua idade, sintomas, tempo de infertilidade e \npresença de outros fatores de infertilidade.(27)\nO tratamento medicamentoso hormonal para supres-\nsão ovariana em pacientes com infertilidade e endome-\ntriose para melhora da fertilidade não deve ser pres -\ncrito, pois não existe evidência científica de qualquer \nbenefício (nível de evidência A). O análogo do GnRH \npode ter benefício para melhora das taxas de gestação \nquando utilizado por até três meses, porém especifica -\nmente antes da fertilização in vitro (FIV) (nível de evi -\ndência B). (7) No entanto, a European Society of Human \nReproduction and Embryology (ESHRE), em 2022, relatou \nem sua diretriz que a administração prolongada de ago-\nnista do GnRH previamente à FIV para melhorar a taxa \nde nascidos vivos em mulheres inférteis com endome -\ntriose não é recomendada, pois o benefício é incerto. (7) \nEstudos mais robustos serão necessários para reafirmar \nessa sugestão.\nUma alternativa para essas pacientes é o tratamento \ncirúrgico da endometriose para melhora da fertilidade \nespontânea. Nas pacientes com endometriose em está-\ndios I e II, é recomendado realizar exérese dos focos du-\nrante a laparoscopia diagnóstica, que melhora as taxas \nde gestação espontânea (nível de evidência A). Nas pa -\ncientes com estádios III e IV, não existe consenso quanto \nà indicação de abordagem cirúrgica apenas para trata -\nmento da infertilidade. Alguns trabalhos mostraram me-\nlhora das taxas de sucesso de técnicas de reprodução \nassistida (FIV), quando precedida da cirurgia (nível de \nevidência C).(28) Entretanto, a tendência atual é bem mais \nconservadora, e as últimas metanálises têm demons -\ntrado que a cirurgia não tem impacto significativo nas \ntaxas de gestação associadas a técnicas de reprodução \nassistida. A cirurgia seria indicada, não a fertilização as-\nsistida, nos casos de risco aumentado de complicações \ndecorrentes da doença, queixa de dor muito importante \nque comprometa demais a qualidade de vida da mulher \nou falha de implantação embrionária.\nEm pacientes com endometrioma ovariano, a exé -\nrese não evidenciou melhora das taxas de gestação. \nPortanto, o procedimento cirúrgico só deve ser indicado \nnos endometriomas grandes, para comprovação histo -\nlógica, controle da dor ou acesso facilitado aos folículos \nno momento da captação oocitária (nível de evidência \nA).(7,27) Nos casos em que a cirurgia for indicada, é preferí-\nvel realizar a exérese da cápsula do pseudocisto, em vez \nde drenagem e eletrocoagulação da parede do cisto.(7)\nAs mulheres com endometriomas bilaterais não ope-\nrados e aquelas que anteriormente tiveram endometrio-\nmas unilaterais removidos e precisam de cirurgia para \numa recorrência contralateral devem ser aconselhadas \nsobre preservação da fertilidade e sobre as estratégias \ndisponíveis, que incluem criopreservação de embriões \ne oócitos.(29)\nENDOMETRIOSE E MENOPAUSA\nEmbora os estudos disponíveis sejam escassos, é possí-\nvel que as lesões de endometriose permaneçam ativas \napós a menopausa e/ou os sintomas permaneçam. A \npresença de endometriose, entretanto, não é contrain -\ndicação para o uso de terapia hormonal na pós-meno -\npausa. Ressalta-se, todavia, a necessidade de avalia -\nção dos sintomas porventura presentes em mulheres \nna pós-menopausa, e a exclusão de malignidade deve \nser realizada por meio de exames de imagem e cirur -\ngia quando necessário, pincipalmente se houver massa \npélvica.(7)\n\nEndometriose\n| 857 \nFEMINA 2025;53(6):853-8\nA escolha do tratamento deve ser orientada pela pre-\nsença e gravidade dos sintomas atuais da endometriose; \npela natureza dos sintomas da menopausa; pela avalia-\nção do risco de potenciais contraindicações para o tra -\ntamento na história da paciente e por preferências da \nmulher, que deve ser devidamente informada.(7)\nA presença de endometriose não tem contraindi -\ncação absoluta para o uso de terapia hormonal na \npós-menopausa. O uso de estrogênio isolado não implica \ngrande aumento de recorrência das lesões, com cifras de \napenas 3,5%. Em mulheres submetidas à histerectomia, a \nterapia hormonal, todavia, não deve ser feita apenas com \nestrogênio, em vista do risco de transformação maligna.(7)\nO tratamento com estrogênio e progesterona em mu-\nlheres com menopausa cirúrgica é recomendado pelo \nmenos até a idade da menopausa natural.\nDor pélvica: suspeita de endometriose\nQuadro clínico/Exame físico/Exame de imagem\nTratamento clínico\nTratamento cirúrgicoSem melhora\nNão Sim\nExame físico e \nimagem normais\nEndometriose profunda\nEndometrioma ovariano\nEndometrioma ovariano \n> 5 cm, lesão em ureter, íleo, \napêndice ou retossigmoide \n(com sinais de suboclusão)\nFonte: Traduzido de Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Endometriosis and infertility: a committee opinion. Fertil Steril. \n2012;98(3):591-8.(27)\nFLUXOGRAMA DE CONDUTA\nFonte: Traduzido de Practice Committee of the American Society for Reproductive Medicine. Endometriosis and infertility: a committee opinion. Fertil Steril. \n2012;98(3):591-8.(27)\nInfertilidade: suspeita de endometriose\nQuadro clínico/Exame físico/Exames de imagem\nDor pélvica\nSem gestação\nNão\nTratamento cirúrgico Bom prognóstico Mau prognóstico\nFertilização in vitro\nSem gestação\nSim\nEndometrioma ovariano \n> 5 cm, lesão em ureter, íleo,\n apêndice ou retossigmoide \n(com sinais de suboclusão)\nReprodução assistida\nBaixa ou alta complexidade\nAvaliar fatores prognósticos\n- Idade\n- Tempo de infertilidade\n- Reserva ovariana\n- Outros fatores de infertilidade\n\nFederação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo)\nComissão Nacional Especializada em Endometriose\n858 |\nFEMINA 2025;53(6):853-8\nRECOMENDAÇÕES FINAIS\nA endometriose pode ser dividida em três apresentações \ndistintas (superficial, ovariana e profunda). Os principais \nsintomas associados são dismenorreia, dor pélvica crô-\nnica, dispareunia de profundidade, alterações intestinais \ncíclicas, alterações urinárias cíclicas e infertilidade. O \nexame físico, em especial o toque do fundo de saco vagi-\nnal posterior, é fundamental para verificar a presença de \nsuspeita de lesões profundas nessa região. A ultrassono-\ngrafia pélvica e transvaginal e/ou a ressonância magné-\ntica têm papel significativo na decisão terapêutica.\nA endometriose deve ser encarada como doença crô-\nnica, assim o tratamento clínico deve ser maximizado e \nevitar procedimentos cirúrgicos repetidos. As mulheres \ndevem ser aconselhadas de que a supressão da doença \né temporária, e a cura definitiva não ocorre.\nO tratamento clínico hormonal é eficaz no controle da \ndor pélvica e deve ser o tratamento de escolha na au -\nsência de indicações absolutas para cirurgia, sendo os \nprogestagênios isolados e contraceptivos orais combi -\nnados as medicações de primeira linha para tratamento \ndesses quadros, mas não deve ser oferecido para mu -\nlheres com desejo reprodutivo.\nO tratamento cirúrgico deve ser oferecido às pacien -\ntes em que o tratamento clínico for ineficaz ou na pre -\nsença de endometriomas ovarianos volumosos, lesões \nde ureter causando hidronefrose, lesões suboclusivas \nou obstrutivas intestinais e lesões de apêndice.\nExiste grande associação entre endometriose e infer-\ntilidade, e tanto a cirurgia quanto às técnicas de repro -\ndução assistida podem ser oferecidas para o tratamento \ndos casais.\nREFERÊNCIAS \n1. Nisolle M, Donnez J. 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