{"paper_id":"cbb90dbf-46c6-4583-ad22-58240954277f","body_text":"952 |\nFEMINA 2025;53(7):952-8\nARTIGO DE REVISÃO\nDescritores\nEndometriose; Função sexual; \nRelação interpessoal\nKeywords\nEndometriosis; Sexual function; \nInterpersonal relations\nSubmetido: \n21 de janeiro de 2025\nAceito: \n3 de abril de 2025\n1. Faculdade Ciências Médicas de \nMinas Gerais, Belo Horizonte, MG, \nBrasil. \n2. Hospital Felício Rocho, Belo \nHorizonte, MG, Brasil. \nConflitos de interesse: \nNada a declarar. \nAutor correspondente:\nBeatriz Maria Monteiro Sousa \nbeatrizmmonteiro25@gmail.com \nComo citar:\nSousa BM, Pontes LA, Cunha LF, \nFalcão Júnior JO. Qual é o impacto \nda endometriose na sexualidade \ne no relacionamento amoroso: \numa revisão sistemática. Femina. \n2025;53(7):952-8.\nQual é o impacto da \nendometriose na \nsexualidade e no \nrelacionamento amoroso: \numa revisão sistemática\nWhat is the impact of endometriosis \non sexuality and couple relationship: \na systematic review\nBeatriz Maria Monteiro Sousa¹, Laura Avellar Chaves Pontes¹, Letícia Fernandes Cunha 1, \nJoão Oscar de Almeida Falcão Júnior2 \nRESUMO\nObjetivo: Compilar e analisar estudos existentes sobre como a disfunção sexual as-\nsociada à endometriose influencia a intimidade e a qualidade dos relacionamen -\ntos. Os objetivos incluem identificar os principais fatores que afetam a sexualidade \ne o relacionamento, destacando lacunas no manejo clínico e no suporte aos casais \nimpactados pela endometriose. Métodos: Esta revisão sistemática foi conduzida \nde acordo com as diretrizes Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and \nMeta-Analyses (PRISMA). Foram selecionados artigos na língua inglesa utilizando a \ncombinação dos descritores “endometriosis” e “sexuality”, dos quais foram anali-\nsados os títulos e resumos para posterior leitura na íntegra e seleção baseada nos \ncritérios de inclusão e exclusão. Resultados: Verificou-se nos estudos analisados \nque os parceiros masculinos e femininos parecem ter perspectivas divergentes so-\nbre a satisfação sexual em geral e a frequência desejada de contatos sexuais. O \nefeito da endometriose na vida sexual é significativo, sendo a dispareunia um dos \nprincipais sintomas da doença. Conclusão: A endometriose tem impacto profundo \ne multifacetado na sexualidade e nos relacionamentos amorosos. É fundamental \nque profissionais de saúde abordem esses aspectos em seus atendimentos, pro -\nmovendo um espaço para discussões sobre sexualidade e relacionamento. \nABSTRACT\nObjective: Compile and analyze existing studies on how sexual dysfunction associated \nwith endometriosis influences intimacy and relationship quality. The objectives include \nidentifying the main factors affecting sexuality and relationships, highlighting gaps in \nclinical management and support for couples impacted by endometriosis. Methods: \nThis systematic review was conducted following the Preferred Reporting Items for Syste-\nmatic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) guidelines. Articles in English were selected \nusing the combination of the descriptors “endometriosis” and “sexuality,” and titles and \nabstracts were analyzed for subsequent full reading and selection based on inclusion \nand exclusion criteria. Results: The analyzed studies indicated that male and female \npartners seem to have divergent perspectives on overall sexual satisfaction and the \ndesired frequency of sexual contact. The effect of endometriosis on sexual life is signifi-\ncant, with dyspareunia being one of the primary symptoms of the disease. Conclusion: \nEndometriosis has a profound and multifaceted impact on sexuality and romantic re-\nlationships. It is essential for healthcare professionals to address these aspects in their \ncare, promoting a space for discussions about sexuality and relationships. \n\nQual é o impacto da endometriose na sexualidade e no relacionamento amoroso: uma revisão sistemática\nWhat is the impact of endometriosis on sexuality and couple relationship: a systematic review\n| 953 \nFEMINA 2025;53(7):952-8\nINTRODUÇÃO \nA endometriose é uma doença ginecológica definida \npela presença de implantes endometriais (glândula e/ou \nestroma) fora do útero, com predomínio, mas não ex -\nclusivo, na pelve feminina. Consiste em uma condição \ninflamatória crônica, estrogênio-dependente, que aco -\nmete principalmente mulheres em idade fértil.(1)\nO espectro clínico dessa doença é amplo, e os sinto -\nmas podem variar de mínimos a severamente debilitan-\ntes. No entanto, mulheres com endometriose apresen -\ntam frequentemente, durante seus anos reprodutivos, \ndor pélvica (incluindo dismenorreia e dispareunia), in -\nfertilidade ou massa ovariana.(2) \nEmbora a endometriose seja amplamente estudada \npelos seus sintomas físicos, como dor e dispareunia, \neste artigo destaca de forma inédita o impacto conjunto \nsobre sexualidade, saúde emocional e a perspectiva dos \nparceiros, temas que ainda carecem de maior explora -\nção científica. Todos esses sinais impactam a vida social \ne profissional das mulheres, bem como seus relaciona -\nmentos e vida íntima.(3) \nDessa forma, a endometriose também impacta o par-\nceiro da paciente. Estudos qualitativos indicaram altos \níndices de depressão e ansiedade entre esses parceiros, \nalém de sentimentos de impotência, frustração, preocu-\npação e raiva. Os parceiros de mulheres com endome -\ntriose relataram que a vida sexual, a intimidade e o rela-\ncionamento do casal foram prejudicados pela condição, \no que pode gerar sérios problemas na relação conjugal. \nEsses problemas podem se intensificar quando há pou-\nca comunicação sobre sexualidade, presença de disfun-\nção sexual e evitação das relações íntimas. A endome -\ntriose também pode comprometer o relacionamento do \ncasal, afetando o apoio social que os parceiros mascu -\nlinos oferecem às mulheres, o que pode impactar nega-\ntivamente a união do casal. Contudo, ainda há escassez \nde estudos que reconheçam o impacto da endometriose \nsobre os parceiros masculinos, o que também limita o \nsuporte social oferecido a eles.(3-6)\nMÉTODOS \nOs dados foram coletados a partir de uma revisão siste-\nmática da literatura, realizada no período de outubro a \nnovembro de 2024. As bases de dados utilizadas foram \nMedical Literature Analysis and Retrieval System Online  \n(MEDLINE), Literatura Latino-Americana e do Caribe em \nCiências da Saúde (LILACS) e Scientific Electronic Library \nOnline (SciELO). Como descritores, foram utilizados os \ntermos em inglês: “endometriosis” AND “sexual function” \nAND “relationship”. A pesquisa foi limitada a estudos pu-\nblicados nos últimos cinco anos, em inglês, disponíveis \nna íntegra, que apresentassem informações pertinentes \npara a resposta da pergunta norteadora. \nOs critérios de inclusão determinaram que apenas \nartigos originais publicados em inglês nos últimos cinco \nanos, disponíveis na íntegra, e que abordassem o impacto \nda endometriose na função sexual e na relação do casal \nseriam incluídos. Foram excluídos dissertações, revisões \nde literatura, artigos duplicados, não originais, ou aque-\nles que não respondiam à pergunta norteadora ou não \nestavam disponíveis na íntegra. Essa exclusão seguiu cri-\ntérios de qualidade para minimizar vieses. Contudo, re -\nconhece-se que a limitação aos estudos em inglês pode \nreduzir a representatividade global dos resultados. O \nprocesso de seleção seguiu uma análise criteriosa para \ngarantir a relevância e a qualidade dos estudos. \nOs dados foram extraídos de forma sistemática a par-\ntir dos artigos selecionados. Esse processo envolveu a \nleitura completa dos textos para identificar informações \nrelacionadas à pergunta norteadora, bem como aos ob-\njetivos do estudo. As informações extraídas incluíram \ndetalhes sobre a população, contexto, interesse, desfe -\nchos e intervenções, conforme a estratégia PICO. \nA síntese dos dados foi realizada qualitativamente, \ncom foco em uma análise descritiva e narrativa dos re -\nsultados. Esse processo foi estruturado em três etapas \nprincipais: extração dos dados relevantes, análise temá-\ntica dos conteúdos e integração dos achados em uma \nsíntese narrativa. Os estudos analisados destacaram o \nimpacto significativo da endometriose na sexualidade \ndas mulheres e nas dinâmicas de seus relacionamen -\ntos íntimos, oferecendo uma visão abrangente sobre as \nimplicações dessa condição na qualidade de vida dos \ncasais. Para analisar e sintetizar os dados dos estudos \nincluídos, será realizada uma síntese qualitativa, com o \nobjetivo de interpretar e integrar as evidências de ma -\nneira descritiva e narrativa. A síntese qualitativa será de-\nsenvolvida em três etapas principais: extração de dados, \nanálise temática e síntese narrativa dos resultados.\nRESULTADOS \nO levantamento de dados foi realizado por meio de \numa leitura exploratória, eliminando-se os artigos que \nnão continham todos os descritores selecionados. Não \nfoi realizada metanálise devido à heterogeneidade dos \nestudos, o que limita a generalização dos resultados. \nDessa forma, após a aplicação dos critérios de inclu -\nsão, um total de 57 artigos científicos foram identifica -\ndos nas bases de dados MEDLINE, SciELO e BVS. Desses, \nexcluíram-se artigos de revisão e metanálise. Também \nfoi feita uma breve leitura dos resumos de cada artigo, \nexcluindo-se aqueles que não eram relevantes ao tema \nproposto, permanecendo 18 artigos. Posteriormente, \nforam avaliados os textos completos, e apenas 11 arti -\ngos responderam à questão norteadora e definiram a \namostra principal da presente revisão, como observado \nna figura 1. Os resultados podem ser vistos na tabela 1.\nDISCUSSÃO \nA disfunção sexual é um dos aspectos mais impactan -\ntes da endometriose na vida das mulheres, refletindo \ndiretamente na insatisfação conjugal. Entre os sintomas \n\nSousa BM, Pontes LA, Cunha LF, Falcão Júnior JO\n954 |\nFEMINA 2025;53(7):952-8\nQuadro 1. Síntese dos artigos resumidos\nAutor e ano de \npublicação\nTipo de estudo Objetivos Resultados\nRao et al. (2023)(5) Estudo transversal Avaliar a prevalência de disfunção \nsexual e desarmonia conjugal \nem pacientes com endometriose, \nincluindo diagnóstico e tratamento.\nA maioria das participantes (n96) \nrelatou satisfação conjugal ruim a muito \ngrave, com pontuação MV FSFI acima \nde 5. Disfunção sexual e insatisfações \nconjugais são comuns e interligadas \nem mulheres com endometriose.\nEl Hadad et al. (2024)(6) Estudo caso-controle Avaliar a parceria no contexto da \nendometriose e seus sintomas, \nconsiderando as perspectivas de \nambos os indivíduos envolvidos.\nMulheres com endometriose relataram \nmais pensamentos de separação ligados \nà satisfação sexual (34,9%/28,3%) \ne mais conflitos de parceria que \nmulheres sem endometriose.\nVan Eickels et \nal. (2024)(3)\nEstudo transversal Determinar a associação de diferentes \npreditores de parceria e satisfação \nsexual e efeitos diádicos em casais \ncom endometriose e infertilidade.\nA depressão afetou negativamente a \nsatisfação com a parceria em homens e a \nsatisfação sexual em mulheres. O apoio \nsocial teve efeito positivo na satisfação \ncom a parceria entre as mulheres.\nPrivitera et al. (2023)(4) Estudo transversal Medir o sofrimento sexual, a evitação do \nsexo e o impacto negativo percebido dos \nsintomas da endometriose na vida sexual \ndas mulheres e examinar essas relações.\n80,3% das participantes relataram \nimpacto negativo da endometriose \nna vida sexual, e 67,5% evitaram \nrelações sexuais por causa dela.\nHelfenstein et \nal. (2023)(7)\nEstudo transversal Avaliar perspectivas divergentes de \nhomens e mulheres sobre aspectos da \nsexualidade no contexto da endometriose.\nCasais lidando com endometriose \ntêm percepções diferentes sobre sua \nsexualidade, com tendência a superestimar \na satisfação do parceiro. Homens \nsubestimam a frequência com que suas \nparceiras mantêm relações sexuais \napesar do desconforto. Isso reforça a \nnecessidade de aconselhamento sexual \nque inclua ambos no suporte médico.\nSchick et al. (2022)(8) Estudo transversal Explorar as inter-relações em casais \ncom endometriose em questões de \nsofrimento psicológico, satisfação \nsexual e de parceria e apoio social.\nAltas pontuações de depressão, \nansiedade e estresse em mulheres \ncorrelacionaram-se com maior impacto \nda dor por endometriose em homens, \nenquanto estresse e depressão elevados \nem homens estiveram associados \na maior impacto em mulheres.\nSullivan-Myers \net al. (2023)(9)\nEstudo transversal Investigar a relação entre imagem \ncorporal (positiva e negativa), sofrimento \nsexual e o papel da autocompaixão.\nMais de 80% relataram sofrimento sexual \nsignificativo e alta perturbação da imagem \ncorporal. Distúrbio da imagem teve efeito \nmoderado no sofrimento sexual, enquanto \na autocompaixão teve efeito inverso mais \nfraco, sem efeito moderador evidente.\nBusca em base \nde dados com \ndescritores \nMesh/Desh\nCritérios de \ninclusão\nExclusão de artigos de revisão e/\nou resumos irrelevantes ao tema \nArtigos restantes que responderam \nà questão norteadora após \nleitura do texto completo\nN(57)\nFigura 1. Representação esquemática da escolha de artigos\n\nQual é o impacto da endometriose na sexualidade e no relacionamento amoroso: uma revisão sistemática\nWhat is the impact of endometriosis on sexuality and couple relationship: a systematic review\n| 955 \nFEMINA 2025;53(7):952-8\nmais relatados, a dispareunia, dor durante a relação se-\nxual, se destaca como o principal fator limitante na vida \níntima das pacientes. Estudos, como o de Privitera et al. \n(2023),(4) mostram que mais de 80% das mulheres acre -\nditavam que os sintomas de endometriose afetavam ne-\ngativamente sua vida sexual, enquanto 67,5% relataram \nevitar relações sexuais por conta da dor. Essa condição \nnão apenas reduz a frequência dos encontros íntimos, \nmas também cria barreiras psicológicas, como medo do \ndesconforto e frustração, o que dificulta a intimidade.(4) \nJuntamente a isso, o impacto na vida conjugal é \nigualmente significativo. Mulheres com endometriose \nfrequentemente enfrentam insatisfação nos relacio -\nnamentos, como descrito por Rao et al.  (2023), (5) que \nencontraram que a maioria das participantes relatou \nproblemas conjugais graves. A dor crônica e a evitação \ndo sexo frequentemente resultam em um descompas -\nso de expectativas entre os parceiros, aumentando os \nconflitos e a distância emocional. Embora a dispareunia \nesteja fortemente relacionada à qualidade da parceria \nno contexto da endometriose, outros fatores e sinto -\nmas influenciam essa associação. Segundo o estudo de \nEl Hadad et al. (2024),(6) a fadiga, sintoma prevalente na \nendometriose, foi associada à menor qualidade da par-\nceria entre casais e à dificuldade em lidar com demons-\ntrações de afeto.(5,6) \nOutro motivo para os diferentes níveis de satisfação \npode ser questões relacionadas à fertilidade, o que é \nconhecido por estar associado à redução da satisfação \nno relacionamento e sexual, além de maior prevalência \nde disfunção sexual.(7)\nA endometriose causa dificuldades emocionais e se -\nxuais não apenas nas mulheres afetadas, mas também \nnos seus parceiros, que frequentemente relatam senti -\nmentos de rejeição, frustração e impotência diante da \nsituação, como aponta Schick et al. (2022).(8) Esses sen-\ntimentos de estresse e ansiedade acabam sendo com -\npartilhados, criando um ciclo de insatisfação no rela -\ncionamento. El Hadad et al. (2024)(6) mostraram que, em \n29% dos casos em que os homens cogitaram terminar o \nrelacionamento, a endometriose foi considerada a prin-\ncipal causa. Muitos parceiros se sentiram angustiados \nao ver suas companheiras enfrentando a dor, demons -\ntraram preocupação com a saúde delas e sentiram-se \nimpotentes, sem, no entanto, diminuir a capacidade de-\nlas de lidar com a situação.(6) \nEm se tratando de saúde mental, a endometriose im-\npacta profundamente a saúde psicológica das mulheres, \ncriando uma relação intrínseca entre o sofrimento emo-\ncional e os desafios enfrentados na sexualidade e nos \nrelacionamentos conjugais. Essa relação é multifaceta -\nda, envolvendo aspectos como depressão, ansiedade, \nestresse e autoestima, que muitas vezes são agravados \npelos sintomas crônicos da doença.(3)\nMulheres com endometriose frequentemente en -\nfrentam elevados níveis de depressão e ansiedade, \nAutor e ano de \npublicação\nTipo de estudo Objetivos Resultados\nKfoury et al. (2023)(10) Estudo caso controle Avaliar o estado emocional e o aspecto \nrelacional íntimo da vida em mulheres \nlibanesas que vivem com endometriose.\nMulheres sem endometriose \ntiveram pontuação de satisfação \nsexual significativamente maior \nem comparação com aquelas com \nendometriose. Maior satisfação do \ncasal e responsividade do parceiro \nforam associadas a maior satisfação \nsexual, enquanto maior depressão e \na presença de endometriose foram \nassociadas a menor satisfação sexual.\nFacchin et al. (2021)(11) Estudo transversal Explorar as associações entre \nrelacionamentos íntimos, saúde psicológica \ne variáveis relacionadas à endometriose, \ncomo dor pélvica e infertilidade.\nA satisfação relacional e o enfrentamento \ndiádico estão ligados à saúde psicológica. \nO maior impacto da endometriose em \nrelacionamentos íntimos correlacionou-\nse com dor pélvica mais intensa, \nespecialmente dispareunia.\nPereira et al. (2021)(12) Estudo transversal Examinar o efeito indireto da frequência \nda atividade sexual e da presença de \ninfertilidade na relação entre variáveis \nclínicas e satisfação conjugal/sexual.\nHá um efeito direto entre a percepção \nda gravidade dos sintomas, satisfação \nconjugal e morbidade psicológica das \nmulheres. A satisfação sexual teve efeito \ndireto na satisfação conjugal das mulheres \ne de seus parceiros, prevendo menos \nmorbidade psicológica em ambos.\nMaiorana et \nal. (2023)(13)\nEstudo observacional Avaliar a relação entre variáveis \npsicológicas e duração da endometriose \nnão tratada em uma amostra de \nmulheres com endometriose.\nFoi encontrada uma correlação entre \nendometriose não tratada e pior \nqualidade de vida no domínio da saúde.\n\nSousa BM, Pontes LA, Cunha LF, Falcão Júnior JO\n956 |\nFEMINA 2025;53(7):952-8\nsentimentos que podem ser exacerbados pela croni -\ncidade da dor e pela percepção de perda de controle \nsobre suas próprias vidas. Estudos como o de Sullivan-\nMyers et al. (2023)(9) evidenciam que mais de 80% das \nmulheres pesquisadas apresentaram sofrimento sexual \nclinicamente significativo, associado também a altos ní-\nveis de perturbação da imagem corporal.(9) \nDessa forma, essa interferência na feminilidade e no \ndesejo sexual com a distorção da autoimagem contribui \npara a diminuição da autoestima e para o aumento da \nvulnerabilidade emocional.(3) \nOutro aspecto importante é a influência da percep -\nção social sobre a saúde psicológica das mulheres com \nendometriose. A falta de compreensão ou apoio social \nmuitas vezes reforça sentimentos de isolamento e ina -\ndequação. Estudos como o de Van Eickels  et al. (2024)\n(3) mostram que o apoio social tem um efeito positivo \nsignificativo na satisfação conjugal e pode atuar como \num fator protetor contra a deterioração da saúde emo -\ncional. A ausência desse suporte, por outro lado, pode \nagravar os sentimentos de vulnerabilidade e estresse.(3) \nOs fatores psicológicos têm papel central nessa dinâ-\nmica. Muitas mulheres desenvolvem uma autoimagem \nnegativa em decorrência da endometriose, seja pela \ndor constante, pela infertilidade ou por outros sintomas \nassociados. Essa percepção prejudicada de si mesma, \nfrequentemente associada a baixa autoestima, inten -\nsifica o sofrimento sexual, como observado no estudo \nde Sullivan-Myers et al. (2023).(9) Além disso, essas difi -\nculdades emocionais e sexuais não afetam apenas as \npacientes, mas também seus parceiros, que frequente -\nmente relataram sentimentos de rejeição, frustração e \nimpotência diante da situação, como evidenciado por \nSchick et al. (2022),(8) em estudo que destacou o impacto \nemocional mútuo entre os membros do casal. Assim, o \nestresse e a ansiedade tornam-se sentimentos recípro -\ncos, criando um ciclo de insatisfação conjugal.(8,9) \nAs perspectivas dos parceiros de mulheres com endo-\nmetriose são frequentemente negligenciadas em estu -\ndos sobre os impactos da doença, mas são cruciais para \ncompreender o alcance dos efeitos dessa condição nos \nrelacionamentos e no bem-estar emocional do casal. A \nendometriose afeta não apenas as mulheres diagnos-\nticadas, mas também seus parceiros, que vivenciam de \nperto o estresse emocional, as dificuldades de comuni -\ncação e os sentimentos de impotência diante dos desa-\nfios impostos pela doença.(8) \nConforme evidenciado por Schick et al. (2022),(8) par-\nceiros de mulheres com endometriose constantemente \nrelatam altos níveis de estresse, ansiedade e até mesmo \nsintomas de depressão. Esses sentimentos podem es -\ntar associados à incapacidade de aliviar o sofrimento da \nparceira, ao impacto da dor crônica na vida íntima do ca-\nsal e à percepção de perda de conexão emocional. Além \ndisso, a dor e os sintomas da endometriose alteram as \ndinâmicas diárias, como a capacidade de compartilhar \natividades conjuntas, o que intensifica sentimentos de \nfrustração e distanciamento.(8) \nUm dos desafios mais significativos enfrentados pe -\nlos parceiros é lidar com a diminuição da frequência ou \nqualidade das interações sexuais. Estudos, como o de \nRao et al. (2023),(5) mostram que o impacto na vida se -\nxual cria um descompasso de expectativas entre os par-\nceiros. Enquanto a mulher pode evitar relações sexuais \ndevido à dor ou desconforto, o parceiro pode interpretar \nessa evasão como rejeição, e isso pode gerar frustração \ne possíveis conflitos.(5) \nEm mulheres com endometriose e em mulheres do \ngrupo controle, um relacionamento de longo prazo foi \nassociado a uma melhor qualidade geral de parceria, \nbem como a pontuações mais altas em “ternura”, “união” \ne “comunicação”, enquanto os homens apresentaram \nresultados opostos. Consequentemente, as mudanças \nassociadas à duração de uma parceria (inclusive ao lidar \ncom a endometriose) parecem ser experimentadas de \nmaneira diferente por homens e mulheres.(6) \nAlém disso, a falta de comunicação aberta sobre os \nimpactos da endometriose é uma barreira adicional. \nMuitos casais evitam discutir a influência da doença em \nsua vida íntima por vergonha, medo de magoar o outro \nou desconhecimento sobre como abordar o tema. De \nacordo com estudos de Kfoury  et al. (2023)(10) e Facchin \net al. (2021),(11) mulheres que perceberam seus parceiros \ncomo mais informados sobre a endometriose e inte -\nressados em suas condições de saúde e que relataram \nque seus parceiros costumavam acompanhá-las às con-\nsultas apresentaram maior satisfação relacional assim \ncomo melhor enfrentamento diádico. \nOutro fator importante é o impacto da endometriose \nna autoimagem do parceiro e na percepção de seu papel \nno relacionamento. Sentimentos de impotência, preocu-\npação com o bem-estar da parceira e a frustração de \nnão poder aliviar seu sofrimento podem levar à erosão \nda autoconfiança. Em alguns casos, conforme observado \npor Pereira et al. (2021),(12) o desgaste emocional pode \nser tão significativo que os pensamentos de separação \nse tornam recorrentes, especialmente em casos de insa-\ntisfação sexual prolongada. \nNesse mesmo contexto, as variáveis socioculturais e \nos diferentes contextos nos quais as mulheres com en -\ndometriose vivem desempenham um papel significativo \nno impacto da doença sobre a sexualidade e os rela -\ncionamentos amorosos. As percepções culturais sobre \ngênero, sexualidade e o papel da mulher na sociedade \ninfluenciam diretamente a forma como as pacientes en-\nfrentam os desafios impostos pela endometriose, bem \ncomo a dinâmica de apoio nos relacionamentos.(10)\nNormas culturais influenciam a percepção da sexua -\nlidade. Em culturas nas quais o sexo é tabu ou ligado à \nreprodução, como em partes do Oriente Médio e Ásia, \no estigma da infertilidade e da endometriose se inten -\nsifica. O estudo de Kfoury et al.  (2023) (10) mostrou que \nmulheres libanesas com endometriose têm menor sa -\ntisfação sexual e conjugal, especialmente em contextos \nque valorizam a fertilidade como parte da identidade \n\nQual é o impacto da endometriose na sexualidade e no relacionamento amoroso: uma revisão sistemática\nWhat is the impact of endometriosis on sexuality and couple relationship: a systematic review\n| 957 \nFEMINA 2025;53(7):952-8\nfeminina. Já em sociedades mais abertas, apesar de \nmaior suporte social, os padrões de beleza e papéis \nsexuais ainda prejudicam a autoimagem e contribuem \npara o aumento do sofrimento psicológico.(9)\nOutro ponto importante é o impacto das diferenças \nno acesso a recursos de saúde e educação. Em países \nem desenvolvimento ou em comunidades mais isoladas, \na falta de informações sobre a endometriose e o limi -\ntado acesso a tratamentos especializados podem levar \nao diagnóstico tardio e ao agravamento dos sintomas \nfísicos e psicológicos. Esses fatores não apenas difi -\ncultam o manejo da doença, mas também perpetuam \no estigma e o isolamento das mulheres. Em contraste, \npaíses com sistemas de saúde mais acessíveis oferecem \num contexto mais favorável para o diagnóstico precoce \ne o tratamento integrado, incluindo suporte psicológico \ne terapias para casais.(10)\nAs disparidades regionais também influenciam a \nforma como a dor e os sintomas da endometriose são \npercebidos e tratados. Em culturas nas quais a dor é \nnormalizada como parte do ciclo menstrual femini -\nno, mulheres podem demorar mais para buscar ajuda \nmédica, enfrentando anos de sofrimento antes de se -\nrem diagnosticadas. Essa normalização cultural da dor \nmenstrual foi apontada por estudos como um dos prin-\ncipais fatores para o diagnóstico tardio da endometrio -\nse, exacerbando seus impactos na sexualidade e nos \nrelacionamentos.(10)\nAlém disso, as expectativas sociais sobre o papel \ndas mulheres como esposas e mães podem influenciar \nsignificativamente a forma como elas e seus parceiros \npercebem e enfrentam os desafios da endometriose. Em \ncontextos em que o desempenho sexual e a reprodu -\nção são vistos como pilares da identidade feminina, a \ndoença pode ser vivida com maior sentimento de culpa \ne inadequação, o que afeta profundamente a saúde psi-\ncológica e os relacionamentos.(10)\nA importância de estratégias de enfrentamento e in -\ntervenções clínicas no manejo da endometriose está \nrelacionada não apenas ao alívio dos sintomas físicos, \nmas também ao impacto emocional e relacional da \ndoença. A complexidade dos desafios enfrentados por \nmulheres com endometriose exige abordagens inte -\ngradas que contemplem aspectos físicos, psicológicos \ne sociais, promovendo uma melhor qualidade de vida \ne restaurando a intimidade e a conexão nos relaciona -\nmentos.(11-13)\nIntervenções clínicas têm um papel fundamental no \nmanejo dos sintomas físicos da endometriose, como a \ndor crônica e a dispareunia, que são os principais fa -\ntores que comprometem a vida sexual e conjugal das \npacientes. Abordagens farmacológicas, como o uso de \nterapias hormonais, e tratamentos cirúrgicos para re -\nmoção de implantes endometrióticos são comuns. No \nentanto, para muitas mulheres, esses tratamentos, em -\nbora essenciais, não são suficientes para lidar com os \nimpactos emocionais e sociais da doença. Estudos como \no de Maiorana et al. (2023)(13) destacam a importância de \nmonitorar não apenas os sintomas físicos, mas também \nos fatores psicológicos associados, como depressão e \nansiedade, que agravam o sofrimento sexual e conjugal.\nDo ponto de vista psicológico, intervenções terapêu -\nticas são indispensáveis. A terapia cognitivo-comporta -\nmental, por exemplo, tem se mostrado eficaz em ajudar \nmulheres a lidarem com a dor crônica e a melhorarem \nsua autoimagem, reduzindo o sofrimento psicológico e \nsexual. O estudo de Sullivan-Myers et al. (2023)(9) sugere \nque intervenções que promovem a autocompaixão e a \naceitação corporal podem desempenhar um papel im -\nportante na diminuição do impacto emocional da endo-\nmetriose. Além disso, o envolvimento de fisioterapeutas \nespecializados em saúde pélvica pode ajudar a aliviar a \ndor durante as relações sexuais, aumentando o conforto \ne a confiança das pacientes.(9)\nJuntamente a isso, a comunicação aberta e a inclusão \ndos parceiros no processo de tratamento também são \nessenciais para melhorar a dinâmica conjugal. Terapias \nde casal podem ajudar a abordar conflitos relacionados \nà sexualidade e promover um ambiente de apoio mútuo. \nSegundo Van Eickels et al. (2024),(3) casais que adotam \nestratégias de enfrentamento compartilhadas relatam \nmaior satisfação conjugal, e isso destaca a importância \nde intervenções que não se concentrem apenas na pa -\nciente, mas também em seu parceiro.\nAlém disso, programas de educação e conscientiza -\nção desempenham papel crucial no enfrentamento da \nendometriose. Ao fornecer informações claras sobre \na doença, seus sintomas e opções de tratamento com \numa abordagem multidisciplinar, é possível reduzir o es-\ntigma e facilitar um diagnóstico mais precoce. A criação \nde redes de suporte, como grupos de apoio para mulhe-\nres e seus parceiros, também pode oferecer um espaço \nseguro para compartilhar experiências e aprender estra-\ntégias de enfrentamento.(3)\nTerapias como a cognitivo-comportamental, aliadas à \ninclusão dos parceiros e à criação de redes de apoio, \nsão essenciais para mitigar os impactos emocionais e \nrestaurar a qualidade de vida e a intimidade nos rela -\ncionamentos. Além disso, são necessários mais estudos \npara compreender todas as variáveis que afetam as pa-\ncientes com esse diagnóstico. Assim, a atenção plena às \nnecessidades físicas, emocionais e socioculturais das \nmulheres com endometriose é essencial para promover \nseu bem-estar e fortalecer os laços conjugais.(14,15)\nCONCLUSÃO \nA endometriose apresenta um impacto significativo \ne multifacetado na vida das mulheres, afetando não \napenas sua saúde física, mas também sua saúde emo -\ncional, sexualidade e relacionamentos. Os desafios in -\ncluem a disfunção sexual, muitas vezes agravada pela \ndispareunia, que contribui para a insatisfação conjugal \ne intensifica barreiras emocionais e de comunicação. \n\nSousa BM, Pontes LA, Cunha LF, Falcão Júnior JO\n958 |\nFEMINA 2025;53(7):952-8\nEsses fatores são amplificados por questões psicológi -\ncas, como ansiedade, depressão e baixa autoestima, que \nestão intrinsecamente ligadas aos sintomas da doença \ne ao estigma associado.  Além disso, os parceiros tam -\nbém sofrem com os efeitos indiretos da endometriose, \nenfrentando sentimentos de impotência, frustração e \ndistanciamento emocional, enquanto variáveis sociocul-\nturais e contextos culturais moldam tanto a experiência \nda doença quanto a resposta das redes de apoio. As li -\nmitações no acesso a cuidados de saúde e as normas \nculturais que normalizam a dor menstrual ou priorizam \na fertilidade como parte central da identidade femini -\nna intensificam o sofrimento das pacientes em muitos \ncontextos. Dada essa complexidade, o enfrentamento \nda endometriose requer uma abordagem integrada e \nmultidisciplinar, que inclua suporte psicológico e estra-\ntégias específicas para os parceiros, visando restaurar a \nqualidade de vida e a intimidade conjugal. Tratamentos \nclínicos devem ser acompanhados por intervenções te -\nrapêuticas que abordem a saúde mental, promovam a \ncomunicação entre parceiros e incluam estratégias de \nsuporte social. \nREFERÊNCIAS \n1. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia \n(Febrasgo). Endometriose. São Paulo: Febrasgo; 2021 (Protocolo \nFebrasgo-Ginecologia; nº 78/Comissão Nacional Especializada em \nEndometriose). \n2. Vercellini P, Viganò P, Somigliana E, Fedele L. Endometriosis: \npathogenesis and treatment. Nature Rev Endocrinol. 2013;10(5):261-\n75. doi: 10.1038/nrendo.2013.255\n3. Van Eickels D, Schick M, Germeyer A, Rösner S, Strowitzki \nT, Wischmann T, et al. Predictors of partnership and \nsexual satisfaction and dyadic effects in couples affected \nby endometriosis and infertility. Arch Gynecol Obstet. \n2024;310(5):2647-55. doi: 10.1007/s00404-024-07516-z\n4. Privitera G, O’Brien K, Misajon R, Lin CY. 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