{"paper_id":"222fe9e4-aaa1-4845-95f2-c6ebac310b20","body_text":"UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO  \nPÓS-GRADUAÇÃO DO PROGRAMA DE PSICOLOGIA CLÍNICA DO INSTITUTO DE \nPSICOLOGIA \n  \n \n \n \n \n  \nTAYANE APARECIDA TEIZEN RUFINO \n \n  \n   \n \n \nPOR UM FIO: A COMPREENSÃO DA DOR NA ENDOMETRIOSE A PARTIR DA \nDUPLA ANALÍTICA. \n  \n  \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n  \nSão Paulo \n2025\n\n \n \nTAYANE APARECIDA TEIZEN RUFINO \n   \n  \n \n \n \n \n \n \n \nPOR UM FIO: A COMPREENSÃO DA DOR NA ENDOMETRIOSE A PARTIR DA \nDUPLA ANALÍTICA. \n \n  \n \nVersão Corrigida \n  \n  \nDissertação apresentada ao programa de pós-graduação \nstricto sensu de mestrado na área de Psicologia Clínica \ndo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo \ncomo requisito para obtenção do título de Mestre em \nCiências. \n \nOrientador: Prof. Dr. Andrés Eduardo Aguirre Antúnez. \n  \n    \n \n \n \n \n \n \nSão Paulo \n2025 \n\n \n \nAUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE   TRABALHO, POR \nQUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO,     PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA, \nDESDE QUE CITADA A FONTE. \nCatalogação na publicação      \nBiblioteca Dante Moreira Leite \nInstituto de Psicologia da Universidade de São Paulo \nDados fornecidos pelo(a) autor(a) \nAparecida Teizen Rufino, Tayane \n     POR UM FIO: A COMPREENSÃO DA DOR NA ENDOMETRIOSE A PARTIR DA DUPLA \nANALÍTICA / Tayane Aparecida Teizen Rufino; orientador Andrés  Eduardo Aguirre Antúnez. -- São Paulo, \n2025. \n     153 f. \n     Dissertação (Mestrado - Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica) -Instituto de Psicologia, \nUniversidade de São Paulo, 2025. \n     1. Estudo de caso. 2. Psicologia da saúde. 3. Psicanálise. 4. Saúde da mulher. I. \nEduardo Aguirre Antúnez, Andrés , orient. II. Título.  \n \n  \n\nRUFINO, T. A. T. Por um fio: A compreensão da dor na endometriose a partir da dupla \nanalítica. 2025. Dissertação ( Mestrado em Psicologia Clínica ) - Instituto de Psicologia, \nUniversidade de São Paulo, São Paulo, 2025. \n \n \n \n \n Aprovada em: 16 de junho de 2025 \n \n \n \nBanca Examinadora \n \n  \n  \nProf. Dr.: Andrés Eduardo Aguirre Antúnez (Presidente da Banca). \nInstituição: Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP). \nJulgamento: _______________________________________________________. \n  \nProf. Dr.: Mauricio Simões Abrão. \nInstituição: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). \nJulgamento: _______________________________________________________. \n  \nProf. Dr.: Alexandre Patricio de Almeida. \nInstituição: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. \nJulgamento: _______________________________________________________. \n  \n \n\n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \n \nDedico este trabalho a todas as pessoas que depositaram em mim a confiança de escutá-las, \nem especial à paciente que aqui chamo Rosa. Sua coragem em partilhar dores e descobertas \nalimentou a minha própria trajetória e, agora, reverbera nesta pesquisa, alcançando muitas \noutras vozes.  \n \nObrigada.  \n\nAGRADECIMENTOS \n \nAo Fabrício Sobrinho Rufino, meu parceiro de todos os dias e grande amigo que \nincentivou meu estudo desde a faculdade, estando ao meu lado em todas as decisões, sendo \nsuporte emocional e estrutural permitindo minha dedicação, me motivando todos os dias. \nAo Luiz Roney de Siqueira e Noemia Silvestre de Siqueira ( in memoriam ), que \ncuidaram de mim com todo amor que tinha no mundo. Mesmo sem condições, me \nproporcionaram o melhor. Eu amo vocês para sempre.   \nA minha mãe, que acredita mais em mim do que eu mesma. Obrigada por ensinar o que \né batalhar para alcançar sonhos. \nAo instituto de psicologia da Universidade de São Paulo, pela grande oportunidade de \nrealização deste trabalho de pesquisa, acreditando no meu potencial de estudo e na contribuição \nque pode trazer à ciência na psicologia.  \nAo meu orientador, o professor Dr. Andrés Eduardo Aguirre Antúnez, por seu \ncaracterístico acolhimento e respeito ao longo desses anos, acreditando no meu potencial e no \nmeu projeto de pesquisa.  \nAos meus professores, que se tornaram meus grandes amigos, Dr. Alexandre Patrício \nde Almeida e Ms. Filipe Pereira Vieira. Acolheram -me e ao meu trabalho, dedicam -se em \ntempo e energia ao tema e ideias. Me receberam em seminários da teoria de Winnicott, \nfacilitando o percurso teórico que eu precisei na elaboração deste trabalho.  \nAo Prof. Dr. Francisco Lotufo Neto, que esteve prontamente disponível para ajudar e a \nsanar dúvidas, acolhendo e mostrando novos caminhos. \nAos meus amigos que entenderam minhas ausências e dedicação aos estudos, ajudando \nsempre como podiam. Cito especialmente: Jaqueline de Oliveira Rodrigues, Camilla Sobrinho \nPaisano, Marina José Abud, Marina Kleinschmidt Leal Santos, Yasmin Meireles Aragão, Lilian \nDonatti, Francisco Diógenes Lima de Assis, Ariane Voltolini Paião, Rafaela Andrade, Bárbara \nGonçalves e Tatiana Ribeiro. \nAs pessoas que representam o Instituto de Psicologia da USP em meu dia a dia, ajudando \nna concretização desse sonho, Claudia Rocha e Lucila Borges. \nAos professores das disciplinas que foram realizadas na USP para a complementação \ndeste trabalho de pesquisa, em especial ao: Prof. Dr. Rogério Lerner, pelos ensinamentos de \nmetodologia de pesquisa padrão ouro aplicadas a psicanálise; Prof. Dr. Daniel Kupermann, pelo \nperíodo de estágio PAE em atendimento clínico e seus ensinamentos de conexão de teoria e \nclínica; Prof. Dr. Leopoldo Pereira Fulgêncio Junior, pelos ensinamentos da leitura em  \n\nWinnicott; Prof. Dr. Christian Ingo Lenz Dunker, pelo período de estágio PAE na disciplina de \nintrodução a psicopatologia ; Prof. Dr. Avelino Luiz Rodrigues, pelos ensinamentos  da \nabordagem em psicossomática;  Prof.ª. Drª. Marina Ribeiro, pelos ensinamentos do \ncontemporâneo a Winnicott e Bion, Thomas Ogden; As Professoras ministrantes da matéria de \nViolência contra a Mulher, Prof.ª Drª. Lilia Blima Schraiber , Belinda Piltcher Haber \nMandelbaum e Ana Flávia Pires Lucas D'Oliveira. \nAos colaboradores do Laboratório de Saúde Mental e Multimétodo (LabSamm) , em \nespecial a os colegas do grupo de estudos das obras de Massud Khan e Teoria do \nAmadurecimento de Winnicott : Frida Zolty , Janice de Lourdes Pedronio Gaspar , Adriana, \nTatiana Hoffmann Palmieri Perches, Vivian Montag,e Vera Purcina Paulino Vieira. \n \n \n  \n\n \n \nRESUMO \n  \nRUFINO, T. A. T. Por um fio: A compreensão da dor na endometriose a partir da dupla \nanalítica. 2025. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica) - Instituto de Psicologia, \nUniversidade de São Paulo, São Paulo, 2025. \n \nA endometriose afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva e pode acarretar em \nprejuízos físicos, emocionais e sociais significativos. No Brasil, o diagnóstico é obtido, em \nmédia, após sete anos, possivelmente em consequência da escassa clareza etiológica e da \nbanalização histórica da dor feminina, o que agrava os quadros de depressã o, ansiedade, \ninsegurança e compromete a qualidade de vida. Fundamentada na teoria psicanalítica de \nWinnicott, que aborda a integração psique -soma, esta dissertação tem  dois objetivos. Em um \nprimeiro momento, procedeu-se ao mapeamento abrangente e sistematizado das contribuições \nda psicologia para a endometriose. Em seguida, realizou-se uma análise aprofundada da escuta \ne da abordagem winnicottiana na elaboração subjetiva da dor. Foi adotada uma metodologia \nmista. Quantitativamente, u ma revisão de escopo foi  realizada em novembro de 2024 nas \nprincipais bases internacionais e na literatura cinzenta brasileira, identificou 1.825 estudos. \nContudo, apenas 3 1 estudos (n=2.370), correspondendo a 1, 70%, satisfizeram os critérios de \nelegibilidade estabelecidos, o que evidencia uma escassez de investigações psicológicas sobre \na doença. Qualitativamente, um estudo de caso único, concluído em 2022 e complementado por \numa entrevista semiestruturada retrospectiva, revelou uma redução autopercebida da dor e uma \nmaior integração psique-soma após o percurso analítico. Os resultados obtidos indicam que a \nescuta psicanalítica promove cuidado clínico  subjetivo que impacta na melhoria de qualidade \nde vida percebida, destacando a necessidade de suporte psicológicos para essa população. Ao \ncombinar uma análise bibliográfica rigorosa com levantamento clínico qualitativa, esta \ndissertação contribui para preencher uma lacuna internacional, reforçando a relevância de \nabordagens interdisciplinares em saúde da mulher e oferecendo subsídios para futuras políticas \npúblicas e investigações sobre os impactos psicossociais da endometriose. \nPalavras-chave: endometriose; psicossomática; psicanálise;  Winnicott; estudo de caso . \n\n \n \nABSTRACT \n \nRUFINO, T. A. T. Hanging by a Thread: An analytical perspective on the pain associated \nwith endometriosis. 2025. Dissertation for a Master's Degree in Clinical Psychology - Instituto \nde Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2025. \n \nEndometriosis affects approximately 10% of women of reproductive age and can result in \nsignificant physical, emotional, and social consequences. In Brazil, on average, a diagnosis is \nobtained after seven years, possibly due to the lack of etiological clari ty and the historical \ntrivialization of female pain. This aggravates depression, anxiety, and insecurity while \ncompromising quality of life. Based on Winnicott's psychoanalytic theory of psyche -soma \nintegration, this dissertation has two objectives. First, a comprehensive and systematic mapping \nof psychological contributions to endometriosis was created. Next, an in -depth analysis of the \nWinnicottian approach to the subjective experience of pain and an analysis of pain perception \nwere performed. A mixed met hodology was adopted. Quantitatively, a scoping review was \nconducted in November 2024, searching the main international databases and Brazilian gray \nliterature. This search identified 1,825 studies. However, only 3 1 studies (n = 2.370), \ncorresponding to 1. 70%, met the established eligibility criteria, highlighting the scarcity of \npsychological research on the disease. Qualitatively, a single case study completed in 2022, \ncomplemented by a retrospective semi-structured interview, revealed a self-perceived reduction \nin pain and greater psyche -soma integration after the analytical process. The results indicate \nthat psychoanalytic listening promotes subjective clinical care, impacting perceived quality of \nlife and highlighting the need for psychological support fo r this population. By combining a \nrigorous literature review with qualitative clinical research, this dissertation contributes to \nfilling an international gap and reinforces the relevance of interdisciplinary approaches in \nwomen's health. It also offers input for future public policies and research on the psychosocial \nimpacts of endometriosis. \nKeywords: pain; endometriosis; psychosomatics; psychoanalysis; case study. \n \n\n \n \nRESUMEN \n \nRUFINO, T. A. T. Por un hilo: La comprensión del dolor en la endometriosis a partir del \ntrabajo analítico. 2025. Tesis (Máster en Psicología Clínica)  - Instituto de Psicologia, \nUniversidade de São Paulo, São Paulo, 2025. \n \nLa endometriosis, una condición patológica caracterizada por la presencia de tejido endometrial \nen áreas fuera del útero, afecta aproximadamente al 10 % de las mujeres en edad reproductiva \ny puede ocasionar daños físicos, emocionales y sociales significativos. En Brasil, el diagnóstico \nse obtiene, en término medio, siete años después, lo que podría ser atribuido a la limitada \nclaridad etiológica y a la banalización histórica del dolor femenino, lo que agrava los cuadros \nde depresión, ansiedad e inseguridad y compromete la calidad de vida. El presente estudio se \nfundamenta en la teoría psicoanalítica de Winnicott, la cual aborda la integración psique-soma. \nLa presente tesis se ha desarrollado en torno a dos objetivos específicos.  En primer lugar, se \nllevó a cabo un mapeo minucioso y sistematizado de las contribuciones de la psicología a la \nendometriosis. A continuación, se realizó un análisis en profundidad de la escucha y el enfoque \nwinnicottiano en la elaboración subjetiva del do lor. Se empleó una metodología mixta. En el \námbito cuantitativo, en noviembre de 2024 se llevó a cabo una revisión de alcance en las \nprincipales bases de datos internacionales y en la literatura gris brasileña, que identificó 1825 \nestudios. Sin embargo, solo 31 estudios (n = 2.370), lo que corresponde al 1,70 %, cumplieron \nlos criterios de elegibilidad establecidos, lo que pone de manifiesto la escasez de \ninvestigaciones psicológicas sobre la enfermedad. Cualitativamente, un estudio de caso único, \nconcluido en 2022 y complementado con una entrevista semiestructurada retrospectiva, reveló \nuna reducción autopercibida del dolor y una mayor integración psicosomática tras el proceso \nanalítico. Los resultados indican que la escucha psicoanalítica promueve una aten ción clínica \nsubjetiva que repercute en la mejora de la calidad de vida percibida, lo que pone de relieve la \nnecesidad de apoyo psicológico para esta población. Al combinar un análisis bibliográfico \nriguroso con una encuesta clínica cualitativa, esta tesis  contribuye a llenar un vacío \ninternacional y destaca la relevancia de los enfoques interdisciplinarios en la salud de la mujer, \nal tiempo que ofrece información para futuras políticas públicas e investigaciones sobre los \nimpactos psicosociales de la endometriosis. \nPalabras clave: dolor; endometriosis; psicosomática; psicoanálisis; estudio de caso. \n\n \n \nLISTAS DE ILUSTRAÇÕES \n \n \n \nFigura 1 – Gráfico de contagem de estudos ao longo dos anos    65. \n \n\n \n \nLISTA DE TABELAS \n \n \n \nTabela 1: Quadro conceitual         44. \nTabela 2: Cronograma de entrevista e procedimentos      61. \nTabela 3: Identificação da fonte de coleta de dados entre científica e cinzenta   63. \nTabela 4: Diferenciação da conduta dos estudos comportamentais revisados   63. \nTabela 5: Categorias de estudos         70. \nTabela 6: Descrição e métodos dos estudos de intervenções psicológicas    72. \nTabela 7: Descrição e métodos dos estudos de fundamentos na psicologia    75. \nTabela 8: Descrição e métodos dos estudos de relatos, relatórios e dados    78. \n  \n\nLISTA DE SIGLAS E ABREVIAÇÕES \n  \n \n  \nSiglas Descrição \nANAHP Associação Nacional de Hospitais Privados  \nAVD'S Atividades de vida diária \nDOI Digital Object Identifier ou, em português, identificador de Objeto Digital \nDr. Doutor \nINCA Instituto Nacional do Câncer \nIP Instituto de Psicologia \nIPUSP Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo \nJBI Joanna Briggs Institute, instituto de pesquisa \nOMS Organização Mundial da Saúde \nOSF Center for Open Science, plataforma online gratuita para pesquisa científica \nPRISMA ScR Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses ou, em português, Itens \nPreferenciais de Relato para Revisões Sistemáticas e Meta-Análises \nRMP Relaxamento muscular progressivo  \nSAPS Secretaria de Atenção Primária à Saúde \nSESA Secretaria da Saúde do Ceará \nSOP Síndrome dos Ovários Policísticos \nSUS Sistema único de Saúde \nTCC Terapia Cognitivo Comportamental \nUSP Universidade de São Paulo \n \n \n  \n\nSUMÁRIO \n \n1. Introdução.......................................................................................................................... 14 \n1.1. Contextualização ...................................................................................................... 14 \n1.2. Justificativa ............................................................................................................... 19 \n1.3. Problema De Pesquisa E Percurso Argumentativo................................................... 21 \n1.4. Objetivos ................................................................................................................... 22 \n2. Matrizes Teóricas De Referência ................................................................................... 23 \n2.1. Endometriose: O Quadro Clínico, Prevalência E Diagnóstico ................................. 23 \n2.2. Impactos Psicológicos E Emocionais ....................................................................... 26 \n2.3. Marco Teórico Psicanalítico ..................................................................................... 28 \n2.3.1. Teoria Psique-Soma Em Winnicott ...................................................................... 28 \n2.3.2. Estar Em Si Mesmo .............................................................................................. 33 \n2.3.3. Vir A Ser: Constituição Do Self ........................................................................... 37 \n2.3.4. A Análise Sob A Ótica Winnicottiana .................................................................. 40 \n2.3.5. Quadro Conceitual ................................................................................................ 44 \n3. Metodologia...................................................................................................................... 45 \n3.1. Desenho Geral De Delineamento Misto ................................................................... 45 \n3.2. Revisão De Escopo ................................................................................................... 46 \n3.2.1. Estratégia De Busca .............................................................................................. 47 \n3.2.2. Seleção De Estudos .............................................................................................. 48 \n3.3. Estudo De Caso Psicanalítico ................................................................................... 55 \n4. Resultados ........................................................................................................................ 62 \n4.1. Revisão De Escopo .................................................................................................. 62 \n4.1.1. Seleção Dos Estudos E Da Amostra ..................................................................... 62 \n4.1.2. Categorias De Análises ......................................................................................... 70 \n4.1.2.1. Intervenções E Contribuições Da Psicologia.................................................... 71 \n4.1.2.2. Fundamentados Nas Contribuições Da Psicologia ........................................... 75 \n4.1.2.3. Relatos E Dados De Condutas Da Psicologia Na Endometriose...................... 78 \n4.1.3. Abordagens Psicológicas ...................................................................................... 79 \n4.1.4. Lacunas De Pesquisa ............................................................................................ 82 \n4.2. Estudo De Caso ....................................................................................................... 83 \n4.2.1. A Apresentação Ao Caso Rosa ............................................................................. 84 \n4.2.2. Entrevista .............................................................................................................. 92 \n5. Discussão .......................................................................................................................... 96 \n5.1. Integração Dos Achados ........................................................................................... 96 \n\n5.2. Winnicott E A Dor Como Experiência Subjetiva ................................................... 101 \n5.3. Contribuições Críticas Da Psicologia Diante Da Dor Feminina ............................ 103 \n5.4. Limitações E Futuras Pesquisas ............................................................................. 104 \n6. Considerações Finais ..................................................................................................... 106 \nReferências ............................................................................................................................ 107 \nAnexos .................................................................................................................................... 122 \nAnexo A - Estratégia E Critérios De Elegibilidade ............................................................ 122 \nAnexo B - Prisma-Scr ......................................................................................................... 124 \nAnexo C – Estratégias Usadas ............................................................................................ 125 \nAnexo D - Prompt Para Ia ................................................................................................... 127 \nAnexo E - Discussão De Elegibilidade Com Ia .................................................................. 131 \nAnexo F - Guia Para Avaliação De Elegibilidade .............................................................. 137 \nAnexo G - Formulário De Extração De Dados ................................................................... 138 \nAnexo H - Termo De Consentimento Livre E Esclarecido – Tcle ..................................... 140 \nAnexo I - Roteiro De Entrevista Semiestruturada .............................................................. 144 \nAnexo J - Aprovação Comitê De Ética ............................................................................... 146 \nAnexo K – Respostas Da Entrevista ................................................................................... 147 \n\n \n14 \n \n1. INTRODUÇÃO \n1.1. CONTEXTUALIZAÇÃO \n \nTodos esses que aí estão \nAtravancando meu caminho, \nEles passarão... \nEu passarinho! \n(QUINTANA, M., 2005, p.257) \n \nHá dores que não cabem em exames e que resistem à lógica biomédica1. Dores que \nescapam dos prontuários clínicos . A endometriose é uma dessas condições, marcada por uma \ndor que atravanca o cotidiano de muitas mulheres e, ao mesmo tempo, permanece à margem do \nreconhecimento pleno em diversos contextos de cuidado, como descreve Ledermann (2023).  \nCompreender essa experiência exige abordagens que vão além do corpo físico , engloba a \ninteração entre processos biológicos e vivências psíquicas. \nEssa temática despertou meu interesse por se conectar diretamente ao meu percurso \nacadêmico, o qual considero importante situar. Inicialmente, dediquei -me aos estudos em \nneurociência e neuropsicologia, numa tentativa de decifrar os mecanismos da mente. Em um \nsegundo momento, aprofundei-me no campo do desenvolvimento emocional e das experiências \nsubjetivas que moldam o sujeito. A presente pesquisa emerge desse trajeto de inquietações \nsobre a articulação entre psique e soma. Além disso, atuo profissionalmente  como psicóloga \nclínica, com base na psicanálise, espaço onde me deparo cotidianamente com histórias reais e \ncom os modos singulares de expressão do sofrimento. \nNa clínica, a teoria de Winnicott acompanha minha trajetória e fundamenta minha \nescuta, auxiliando-me no manejo das queixas que emergem nas sessões de psicoterapia. Entre \nos atravessamentos das demandas clínicas, fui especialmente tocada pelas falas femini nas e \npelos possíveis impactos psíquicos que nelas se inscrevem. \nO ponto de virada ocorreu ao acompanhar uma paciente com queixas de endometriose \ne qualidade de vida reduzida. Durante nossas sessões percebi semelhanças com minhas próprias \n \n1 O modelo biomédico compreende a doença como uma disfunção biológica localizada, focando no corpo físico e \nem evidências objetivas, com pouca interlocução para os aspectos subjetivos e sociais do adoecimento \n(KOIFMAN, 2001). \n\n \n15 \n \ndificuldades relacionadas ao ciclo menstrual.  Deste modo , a  partir da dupla analítica 2 que \nconstruímos, senti-me motivada (em minha intimidade e vida privada) a buscar outras opiniões \nmédicas, quando finalmente recebi meu diagnóstico endometriose.  \nA descoberta lançou nova luz sobre sintomas físicos e psicológicos que me \nacompanham há anos. Ser ao mesmo tempo pesquisadora, psicoterapeuta e paciente aprofundou \nminha compreensão sobre os impactos da dor corporal na psique, aspecto central desta nascente \nda presente investigação. \nQuando o atendimento da paciente chegou ao fim eu fiquei ainda mais implicada na \ndiscussão sobre a escuta em saúde da mulher. Aprendi que muitas mulheres levam anos até \nalcançar um diagnóstico preciso, situação que tende a agravar o mal -estar emocional. \nQuestionei a possível influência da minha identificação co m o caso , algo como uma  \ncontratransferência3 que pudesse ser negativo para o desenvolvimento da paciente , mas fui \npercebendo que uma escuta sustentada por supervisão e fundamentação teórica pode auxiliar \npacientes dentro da psicoterapia de conduta psicanalítica. \nA endometriose já havia sido  reconhecida desde as observações de Hipócrates (460 –\n370 a.C.), avançando em estudos até o marco de 1925, quando John Sampson propôs o termo \nque nomearia a doença. A partir daí, iniciou-se um processo de construção de sentidos sobre o \nque significa adoecer cronicamente por uma condição de difícil diagnóstico, que desafia tanto \na medicina quanto a escuta (ARAFAH et al., 2021) \nO tempo diagnóstico da endometriose é um dos maiores desafios para o gerenciamento \ndos impactos da doença (OMS, 2023). Em 2020 o tempo médio de diagnóstico no Brasil foi \nentre sete e doze anos e neste intervalo de tempo essas mulheres convivem com dores intensas, \nimpactos funcionais em sua vida social, afetiva e profissional, e uma sensação de abandono \ninstitucional (ANAHP, 2020). Este dado é bastante crítico, principalmente, quando comparado \n \n2 Embora alguns psicanalistas utilizem o termo “dupla” com sentidos específicos, como na “colocação em cena da \ndupla”, proposta por Cassorla (2003), aqui opto por empregar a expressão “dupla analítica” com base no estudo \nde Silva (2015). Nesse referencial, o  termo está diretamente associado à dinâmica da relação transferencial, \nconstituída pelas figuras do paciente e do analista. Escolho essa denominação porque ela expressa, de forma \nprecisa, como a experiência analítica ressoava em mim. Éramos paciente e ana lista, mas, sobretudo, uma dupla \natravessada e afetada mutuamente pelas dores físicas que ocupavam o espaço da análise. A dor não era apenas da \npaciente. \n \n3 Contratransferência é um conceito da psicanálise sobre sentimento, relações e identificações anormais reprimidas \npelo analista. Pode sugerir que o analista esteja precisando fazer mais análise, pois tais anormalidades geralmente \nsão vistas como negativ as ao paciente. O trabalho do analista é suportar a tensão de suas defesas diante novas \nsituações até que o paciente esteja preparado para lidar com tais tensões. É ter paciência com o processo do paciente \nde forma naturalizada espontaneamente, tolerando a experiência da psicoterapia abrindo campo para a criatividade \n(WINNICOTT, 1947/2021; 1960a/1983). \n \n\n \n16 \n \nàs outras patologias de diagnóstico realizadas por exames de imagem, como é o caso do câncer \nde mama. Em caráter de comparação, o diagnóstico de câncer de mama apresentou o intervalo \nde tempo mediano de 53 dias no Nordeste, 55 no Norte, 58 no Centro-oeste, 61 no Sul e 65 no \nSudeste (INCA, 2019).   \nA problemática do longo período para o diagnóstico é ampla e complexa, indo além da \nmera similaridade com sintomas do ciclo menstrual. Podendo se referir a  uma experiência \nprofundamente subjetiva, atravessada por questões relacionadas a gênero, identidade feminina, \nmaternidade e desejo , gerando  consequências significativas, como a possível progressão da \ndoença e a piora acentuada na qualidade de vida das mulheres afetadas (MAZUR BIALY, 2024; \ndel PINO-SEDEÑO, 2024; LUNDE, 2024).  \nAinda no contexto brasileiro, a  endometriose tem se consolidado como uma questão \nsignificativa de saúde pública. Segundo dados da Associação Nacional de Hospitais Privados \n(ANAHP), publicados pelo Estado de São Paulo (2020), a doença foi uma das principais causas \nde hospitalização feminina entre 2009 e 2013, totalizando 71.818 internações. A relevância \ndesse quadro também foi evidenciada pela Secretaria de Atenção Primária à Saúde (SAPS), que \ndivulgou que, em 2021, o Sistema Único de Saúde (SUS) realizou mais de 8 mil procedimentos \nhospitalares relacionados à endometriose (SAPS, 2022).  \nDiante do impacto hospitalar expressivo da endometriose, tornou -se evidente a \nnecessidade de políticas voltadas à saúde e qualidade de vida das mulheres afetadas. Em 13 de \nabril de 2022, o Governo Federal sancionou uma lei instituindo o Dia Nacional de Luta contra \na Endometriose e a Semana Nacional de Educação Preventiva e de Enfrentamento à \nEndometriose, estabelecendo o dia 13 de março como marco para a disseminação  de \ninformações sobre a doença e a promoção de ações preventivas e terapêuticas (SAPS, 2022).  \nNo primeiro Dia Nacional de Luta contra a Endometriose, celebrado em 13 de março de \n2023, o Ministério da Saúde (2023) divulgou, no Caderno de Saúde Sexual e Reprodutiva, \ndados alarmantes sobre a evolução das internações hospitalares. Comparando com os registros \nde 2019, que contabilizaram cerca de sete mil procedimentos no ano, observou-se um aumento \npara mais de dez mil internações hospitalares em 2022. Dados do SUS corroboram a gravidade \ndo quadro, apontando que 70% das mulheres diagnosticadas convivem c om dor pélvica. A \nSecretaria de Saúde do Ceará reforça a complexidade do impacto da endometriose ao descrever \nas consequências para a vida das mulheres: \n \nAlguns pacientes têm dores tão intensas que chegam a ir para o hospital para \nmedicação endovenosa. São afastadas do trabalho , enfrentam dificuldades na vida  \n\n \n17 \n \nsexual e, em quadros mais graves, necessitam de atendimento multiprofissional, \nincluindo psicólogos, assistentes sociais, cirurgiões e ginecologistas. (SESA, 2023 , \ngrifos meus) \n \nNos dados brasileiros acima apresentados , a endometriose é reconhecida como um \nproblema relevante de saúde pública  levando a impactos profundos na qualidade de vida das \nmulheres. Informações de órgãos como o SUS e secretarias estaduais de saúde citam o aumento \ndos atendimentos e a necessidade de cuidados multiprofissionais, além da realização de \ncampanhas de conscientização para ampliar o reconhecimento da doença.  \nNo cenário internacional , uma análise preliminar da produção científica revela um \ncrescente interesse na investigação da doença , embora o número de publicações sobre \nendometriose tenha revelado um crescimento importante das publicações  desde 2013 . O  \ninteresse específico pelos impactos psicológicos permanece restrito, apontando uma lacuna \nimportante na produção científica . Em abril de 2025, a Web of Science 4 apresentava 38.194 \nestudos com o termo “Endometriosis”5. No entanto, ao combinar com “Psychological”6, esse \ntotal despenca para 565, representando apenas 1,5 %. A queda na quantidade de estudos é ainda \nmaior quando a pesquisa combina os termos de endometriose e psicanálise, “ Endometriosis \nAND Psychoanalysis”7, surgindo apenas 2 estudos. Tais números deixam claro um vazio \ninvestigativo sobre os impactos psíquicos da doença e suas abordagens na psicologia e na \npsicanálise.  \nUma das implicações desse resultado pode se dar ao financiamento de pesquisa para a \nendometriose, que é alarmantemente baixo, com apenas 0,038% do orçamento de saúde do NIH \n(National Institutes of Health 8) alocado para ela, apesar de afetar milhões de pessoas em todo \n \n4 Segundo o portal da Biblioteca da Faculdade de Medicina da USP (2025), a Web of Science (Web da Ciência) é \numa base de dados internacional amplamente reconhecida por indexar publicações científicas de alto impacto em \ndiversas áreas do conheciment o. Uma base m ultidisciplinar que indexa somente os periódicos mais citados em \nsuas respectivas áreas. É também um índice de citações, informando, para cada artigo, os documentos por ele \ncitados e os documentos que o citaram. Possui hoje mais de 9.000 periódicos indexados.  \n \n5 Em português: “Endometriose”. \n \n6 Em português: “Psicológico”. \n \n7 Em português: “Endometriose E Psicanálise”, utilizando operadores booleanos padronizados.  Neste caso, o \noperador lógico usado para combinar termos e refinar buscas foi “e”. \n \n8 Segundo o National Institutes of Health (NIH, 2025) é a principal agência do governo dos Estados Unidos voltada \nao financiamento e à condução de pesquisas científicas na área da saúde. Vinculado ao Departamento de Saúde e \nServiços Humanos (HHS), reúne 27 institutos e centros especializados em diferentes campos, como câncer, saúde \nmental e doenças infecciosas. Seu orçamento anual ultrapassa 40 bilhões de dólares e é destinado a pesquisas \ninternas e a projetos financiados em instituições acadêmicas e científicas ao redor do mundo, conforme prioridades \nem saúde pública. \n\n \n18 \n \no mundo (ELLIS et al., 2022 ). A maioria dos estudos  multidisciplinar de cunho psicológico \nfocam na regulação dos sintomas emocionais por meio de estratégias, predominantemente, \ncomportamentais, mas carece de investigações mais amplas que aprofundem a compreensão \ndos processos psíquicos envolvidos na experiência da doença (DONATTI et al., 2022).  Além \ndisso, observa-se uma predominância de pesquisas voltadas para abordagens comportamentais, \ncom escassez de estudos que explorem outras perspectivas psicológicas que também podem ser \ncapazes de contribuir na complexidade que é a relação entre a endome triose e o sofrimento \npsíquico (EVANS et al., 2019). \nDessa forma, esta pesquisa se insere no esforço de ampliar a compreensão do sofrimento \nvivido por mulheres com endometriose, reconhecendo que, muitas vezes, a dor persiste mesmo \napós intervenções médicas convencionais. Ao articular os campos da medicina e da psicanálise, \nespecialmente a partir das contribuições de Winnicott, busca -se evidenciar o valor da escuta \nanalítica e da psicoterapia no cuidado à saúde da mulher. Ainda que classificada como uma \ndoença ginecológica, a endometriose transborda os limites  do corpo, revelando uma vivência \npsicossomática complexa que demanda abordagens sensíveis, integradas e comprometidas com \na singularidade da experiência subjetiva. É nesse entrelaçamento entre corpo e psique que esta \ninvestigação se sustenta e propõe contribuir. \n \nWinnicott fez de perto a experiência da inadequação de se pensar a saúde e a doença \nem termos puramente organicistas. Ele parece ter sido, muito cedo, despertado para o \nfato de que a saúde, e mais do que a saúde, o sentir-se vivo, não pode resumir -se ao \nbom funcionamento dos órgãos e das funções, e que separar o físico do psíquico é um \nprocedimento intelectualmente possível, mas altamente artificial (DIAS, 20 17, p. 41, \ngrifos meus). \n \nInspirada por essa concepção mais ampla de saúde, a presente pesquisa se apoia na teoria \nde Donald Woods Winnicott, cuja formação médica e atuação como psicanalista ofereceram \numa escuta atenta ao corpo e à psique como dimensões indissociáveis da experiênc ia humana. \nSua crítica ao olhar exclusivamente biológico sobre o adoecimento permite reconhecer que o \nsintoma corporal pode carregar uma dimensão simbólica e afetiva, que muitas vezes se expressa \nquando outras formas de comunicação falham  (KHAN, 1971/2021). A compreensão de que o \nsofrimento pode se inscrever no corpo como um pedido de escuta e cuidado é o que sustenta a \nproposta deste estudo. A partir dessa perspectiva, busca-se acolher a endometriose não apenas \ncomo uma condição física, mas como uma manifes tação que envolve também aspectos \nemocionais e subjetivos profundos, que merecem atenção clínica e teórica. \n\n \n19 \n \nEm um de seus primeiros textos, Winnicott (1931/2021) afirma que um médico com \ncompreensão dos estudos da psicologia poderia identificar “causas subjacentes da doença”. \nEssa perspectiva permite uma abordagem que consider a a interação entre o paciente e o \nambiente, favorecendo um enfrentamento da vida mais integrado e adaptado às limitações de \ncada fase do desenvolvimento.  \nA concepção de unidade psique -soma, central no pensamento de D. W. Winnicott  \n(1945/2021), fundamenta sua compreensão do desenvolvimento humano. Para o autor, não se \ntrata apenas de considerar o funcionamento psíquico isoladamente, mas de reconhecer a \nindissociabilidade entre mente e corpo na constituição do self. Winnicott enfatiza que diversas \nmanifestações somáticas podem ser interpretadas à luz do processo de amadurecimento \nemocional e das experiências relacionais precoces. Assim, a experiência de viver cada etapa do \namadurecimento torna -se um fator essencial para a integração do ser (WINNICOTT, \n1945/2021). \nDeste modo, após a realização de uma busca  preliminar, a ausência de produções \ndisponíveis que considerem a endometriose sob a ótica da teoria psique -soma de Winnicott \nenfatiza a necessidade de investigação ao sofrimento de mulheres com endometriose . A partir \nda psicanálise, que tem a premissa de  priorizar a escuta do inconsciente, os atravessamentos \nsimbólicos e a singularidade do sujeito podem ser uma ferramenta potente para a compreensão \nda complexidade do adoecimento , tornando-se essencial ampliar a gama de investigações  e \nofertar um conhecimento agregador por compreender o sofrimento a partir da relação mente -\ncorpo (psique-soma). \n1.2.  JUSTIFICATIVA \n \nO sofrimento de quem passa, em média, sete anos enfrentando sintomas dolorosos e \nimpactos cotidianos intensos não pode ser reduzido  a tratamentos que não incluam o suporte \nemocional. Com o tempo, a dor pélvica crônica, tão frequentemente relatada por essas \nmulheres, se transforma em linguagem simbólica de um corpo adoecido que muitas vezes não \nfoi reconhecido (DONATTI et al., 2022) . Apesar do crescimento significativo de pesquisas \ndedicadas à endometriose e às suas consequências psicossociais (BALLARD et al.,2006), existe \numa escassez considerável de estudos que investiguem o sofrimento psíquico associado a essa \ncondição sob uma perspectiva psicanalítica, com foco em processos inconscientes e simbólicos \n(Del PINO-SEDEÑO, 2024; DONATTI, 2022).  \n\n \n20 \n \nEste estudo é motivado pela necessidade de ampliar a compreensão sobre a interseção \nentre psicologia, psicanálise e endometriose, especialmente considerando as lacunas \nidentificadas tanto na prática clínica quanto na literatura científica atual , como a f alta de \nprotocolos estudados ou aplicados de natureza psicológica , poucos estudos de fundamentação \nna psicologia, estudos sem detalhamento de técnicas psicológicas utilizadas e sem comparação \nentre os diversos campos da psicologia (DONATTI et al., 2022; De GRAAFF et al., 2013).  \nA presente pesquisa adota um delineamento de método misto, integrando abordagens \nquantitativa e qualitativa para compreender, de forma ampla e aprofundada, as contribuições da \npsicologia à vivência da endometriose. A partir de uma revisão de escopo e de um  estudo de \ncaso clínico, busca-se articular os achados da literatura científica com a escuta da experiência \nsingular de uma paciente, favorecendo uma leitura integrada entre dor, subjetividade e cuidado \nterapêutico. \nA revisão de escopo foi adotada devido à sua capacidade única de mapear amplamente \nos campos emergentes da pesquisa científica , como as diferentes abordagens subjetivas da \npsicologia no conhecimento da endometriose , permitindo identificar padrões, tendências, \nlacunas conceituais e metodológicas (MUNN, et al., 2018).  \nO estudo de caso clínico retrospectivo, por sua vez, baseia -se na metodologia da \npesquisa-escuta, pela interpretação pela  perspectiva winnicottiana. Tal método privilegia a \nelaboração contínua de significados a partir da experiência emocional vivida na relação \nanalítica, destacando a importância da subjetividade da pesquisadora, que participa ativamente \nda construção do conhecimento, articulando teoria e clínica em um movimento interpretativo \ndinâmico e afetivo  (MEZAN, 2006; NAFFAH NETO & CINTRA, 2019) . Nesse contexto, a \npsicanálise, ao privilegiar a escuta do inconsciente e a singularidade de cada sujeito, oferece \num espaço ético e potente para a compreensão dessas experiências, ao ultrapassar a lógica \nbiomédica, permite que a dor encontre expressão nas palavras e possa ser simbolicamente \nelaborada (KUPERMANN, 2009). \nO encontro entre a psicanálise e os impactos psíquicos das doenças ginecológicas \nconstitui um campo fundamental de investigação clínica, no qual corpo e subjetividade se \nentrelaçam intensamente, frequentemente de forma silenciosa. Condições como a \nendometriose, a infertilidade e a dor pélvica crônica ultrapassam o corpo físico, repercutindo \nprofundamente na vida psíquica e afetando humor, desejo, sexualidade e a qualidade das \nrelações interpessoais.  \nEssa abordagem metodológica singular permite investigar em profundidade o impacto \npsicológico da endometriose em uma paciente específica, destacando como a escuta analítica \n\n \n21 \n \npôde contribuir para a elaboração do sofrimento psíquico e da dor crônica  da endometriose, \ntemas ainda pouco explorados no campo psicanalítico (DALLAZEN et al., 2012; MEZAN, \n2019). Assim como todo escrito psicanalítico, este trabalho traz consigo marcas pessoais da \nautora, funcionando como elaboração do encontro com o outro e expressão simbólica de um \nobjeto interno, que ganha contorno e sentido por meio da escrita (MEZAN, 2019). \nAssim, esta pesquisa justifica -se pela relevância de fornecer uma compreensão mais \nintegrada, crítica e abrangente sobre os impactos psicológicos e subjetivos da endometriose. Ao \nunir uma visão panorâmica proporcionada pela revisão de escopo com a profundidade teórico-\nclínica do estudo de caso psicanalítico, busca-se oferecer subsídios valiosos tanto para o campo \nacadêmico quanto para práticas clínicas inovadoras no acolhimento psicológico das mulheres \nafetadas pela doença. Dessa forma, contribui -se diretamente para o avanço do conhecimento \ncientífico e para a ampliação das possibilidades de intervenção e suporte emocional \nespecializado, articulando de maneira singular a experiência subjetiva das pacientes com a \nescuta sensível e atenta proposta pela psicanálise. \n1.3. PROBLEMA DE PESQUISA E PERCURSO ARGUMENTATIVO  \n \nNa tentativa de explorar como a compreensão dos processos inconscientes pode ampliar \no olhar sobre a endometriose, este estudo busca oferecer contribuições de abordagem \npsicanalíticas inéditas sobre os sentidos psíquicos relacionados à dor crônica, à identidade \nfeminina, à relação com o corpo e ao sofrimento emocional associado à doença  da \nendometriose. Com isso, propõe-se a preencher uma lacuna existente no campo da psicanálise, \nao apresentar uma fundamentação teórica baseada em conceitos de Winnicott que podem \nauxiliar na compreensão e no manejo dos impactos psicológicos da endometriose. Ao promover \no diálogo entre a ginecologia e a psicologia, esta pesquisa visa favorecer novas estratégias \nterapêuticas mais integradas e sensíveis à subjetividade da mulher. A questão central que orienta \nesta investigação é: como a psicologia e a psicanálise contribuem para a compreensão e o \nmanejo dos impactos psicológicos da endometriose? \nA hipótese que apresento neste estudo é de que mulheres com endometriose e \nsofrimento psíquico associado à doença podem encontrar na psicoterapia psicanalítica um \nespaço para elaboração subjetiva do sofrimento, o que pode contribui r para a melhoria da \nqualidade de vida e o manejo da dor. A partir do estudo de caso, busca -se aprofundar a \ncompreensão sobre o papel da psicanálise nesse contexto, contribuindo para o aumento de \n\n \n22 \n \npossibilidades de abordagem psicológica para o manejo dos impactos emocionais da mulher \ncom endometriose. \nEsta dissertação está organizada de forma a explorar o campo de intersecção entre a \npsicologia e a endometriose. Na introdução, são apresentados o contexto e a justificativa da \npesquisa, seguidos pela formulação dos objetivos gerais e específicos. O primei ro capítulo é \ndedicado à fundamentação teórica, com a apresentação de dados  fundamentais sobre a \nendometriose e os principais conceitos da psicanálise que embasam a proposta do estudo. A \nseção de metodologia descreve o delineamento de métodos mistos adotado, detalhando as duas \netapas da pesquisa: a revisão de escopo da literatura científica e o estudo de caso clínico \nretrospectivo. Na sequência, são apresentados os resultados obtidos em cada etapa, permitindo \na construção de uma análise integrada. Por fim, a dissertação se encerra com uma discussão \nsobre a importância da escuta psicanalítica no acolhimento de mulheres que vivenciam dor \ncrônica e sofrimento emocional, buscando ampliar as possibilidades de cuidado no campo da \nsaúde da mulher. \n1.4. OBJETIVOS \n \nOBJETIVOS GERAIS \n \nInvestigar as contribuições da psicologia para o manejo dos impactos psicológicos da \nendometriose, integrando achados teóricos e clínicos para ampliar a compreensão sobre essa \nintersecção. \n \nOBJETIVOS ESPECÍFICOS  \n \n• Mapear as contribuições da psicologia para a endometriose em pesquisas científicas, \nanalisando abordagens teóricas, intervenções e compreensões psicológicas. \n• Identificar lacunas e oportunidades na literatura científica e na prática clínica sobre o \npapel da psicologia no manejo da endometriose. \n• Explorar, a partir da psicanálise, o impacto psicológico da endometriose em uma \npaciente submetida a cirurgia durante o acompanhamento psicoterapêutico.  \n\n \n23 \n \n2. MATRIZES TEÓRICAS DE REFERÊNCIA \n2.1. ENDOMETRIOSE: O QUADRO CLÍNICO, PREVALÊNCIA E \nDIAGNÓSTICO \n \nA endometriose é uma doença ginecológica de condição inflamatória crônica que \nacomete milhões de mulheres ao redor do mundo em idade reprodutiva . É caracterizada pela \npresença de tecido endometrial fora do útero desencadeando quadros inflamatórios e sintomas \ndebilitantes, como dor pélvica crônica, dismenorreia e dispareunia (OMS, 2023). A estimativa \natual é de que aproximadamente 8 a 15% das mulheres em idade reprodutiva apresent am \nendometriose e a complexidade da doença resulta em um atraso significativo no diagnóstico, \nque pode levar anos (MAZUR BIALY, 2024; FACCHIN, 2021; PEHLIVAN, 2024).  \nClinicamente, na endometriose, as células endometriais podem ser observadas na região \npélvica, incluindo os ovários, ligamentos, peritônio, intestinos, bexiga e linfonodos, podendo \naté mesmo ser encontrado nos pulmões, diafragma ou pericárdio (MAZUR BIALY,  2024; \nLUNDE, 2024). Mesmo que seja uma doença descrita e com grandes conhecimentos \nalcançados, a etiologia da doença não segue da mesma maneira. Ainda que o sintoma mais \nprevalente nas mulheres sintomáticas que possuem endometriose seja a dor pélvica crôn ica, \nDavenport (2024) ressalta que esse sintoma não é exclusivo da endometriose e precisa ser bem \nconhecido e avaliado por quem ouve a queixa. \nA endometriose apresenta estudos complexos e inconclusivos a respeito da etiologia. \nConforme aponta Donatti et al. (2022), há teorias causais que buscam explicar o quadro da \nendometriose e a teoria que é mais usada nos estudos recentes é que hormônios relacionados ao \nciclo menstrual sejam uma das motivações possíveis para o surgimento dos focos de \nendometriose, o que acaba gerando prevalência de casos na população em idade reprodutiva, \nmas não sendo a idade uma característica exclusiva da doença.  \nZondervan, et al (2020) e Lamceva et al. (2023) apresenta as três principais teorias da \netiologia da doença. A primeira é sobre a menstruação retrógrada, que é o refluxo menstrual de \ncélulas endometriais, associada a ciclos curtos . A segunda é sobre a metaplasia, sugerida nos \nraros casos de mulheres com defeitos no ducto mülleriano; nessa hipótese esse defeito \nanatômico provocaria a transformação celular para endométrios. Por último, a metástase \nlinfática e vascular, que seria o transporte de células endometriais através dos vasos sanguíneos.  \nPara tanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) (2023) reforça o quanto essas \ninformações ainda não são precisas e que são necessários mais estudos no tema . Assim, como \n\n \n24 \n \nreconhece a atual dificuldade diagnóstica. Um estudo de campo feito por Ballard et al (2006) \nbuscou entender as razões que levariam ao atraso no diagnóstico. Esse estudo identificou uma \nvariação de tempo de 1 mês a 22 anos para o diagnóstico e constatou que muitas mulheres \ndesenvolvem estratégias para lidar com a dor sozinhas, o que inclui evitar atividades sociais, \npassar tempo na cama e, às vezes, recorrer a analgésicos em excesso.  \nDurante o tempo de percurso rumo ao diagnóstico da endometriose, muitas pacientes \nenfrentam impactos profundos na funcionalidade diária, incluindo limitações nas atividades de \nvida diária (AVD ’s), na esfera profissional e nos relacionamentos interpessoais. Quando as \nmulheres acessam o diagnóstico e podem, finalmente, ser tratadas por médicos especializados, \nenfrentam desafios que podem ser irreparáveis, como planejamento familiar modificado pelo  \ntempo, condição econômica impactada e inserção no mercado de t rabalho prejudicada por \neventuais ausências de saúde (FACCHIN et al., 2015). \nOs fatores principais para buscar por essas estratégias foram sobre a normalização da \ndor pelos médicos de família, a busca por alívio temporário dos sintomas com o uso de \nsupressores hormonais e a falta de investigações específicas para a endometriose.  O estudo \nestatístico conduzido por Shafrir et al. (2018) também indica um importante atraso no \ndiagnóstico da endometriose que pode levar ao aumento dos riscos sintomáticos, os quais \ndesempenham um papel crucial na manifestação e na gravidade dos sintomas relacionados à \ncondição.  \nOs principais tratamentos  atuais são de intervenções cirúrgicas e farmacológicas que \nvisam melhorar a qualidade de vida e fertilidade , podendo auxiliar no controle da dor. Porém \num dado importante encontrado em Szypłowska , et al (2023) é de que as cirurgias repetitivas \nimpactam negativamente na saúde mental e psicológica das pacientes. Nesse sentido, é prudente \na afirmação da OMS (2023) sobre os tratamentos também precisa rem ser melhor explorados . \nApontando também a importância da escuta ativa e clara comunicação com a paciente que sofre \nde sintoma de dor para que um plano singular possa ser feito. Sendo assim, fica evidente que a \npaciente diagnosticada endometriose não só enfrenta a patologia e o quadro de dor, mas também \nestá sujeita a interferências emocionais, hormonais e outras influências físicas e ambientais.  \nEmbora seja uma condição orgânica, seu impacto não se restringe ao plano físico , a \nendometriose afeta diretamente a saúde mental, a sexualidade, os vínculos afetivos e a \nidentidade das mulheres que convivem com ela. O sintoma predominante da endometriose é a \ndor, que pode ser nociceptiva (quando os tecidos inflamados ativam os nocicept ores9), \n \n9 Nociceptores são terminações nervosas responsáveis pela detecção e transmissão dos estímulos dolorosos \n(DICIONÁRIO DE TERMOS MÉDICOS, 2025). \n\n \n25 \n \ninflamatória e/ou neuropática 10, sendo que a dor pélvica crônica é um dos sintomas de dor \nsignificativos associado à endometriose, estando presente em cerca de 80% das pacientes com \na doença (MAZUR BIALY, 2024; del PINO-SEDEÑO, 2024; LUNDE, 2024).  \nA dor pélvica crônica é um dos tipos de dores relatados pelas pacientes com \nendometriose e esse sintoma pode ocorrer em outras condições ginecológicas que não sejam a \nendometriose. Pehlivan (2024) aponta que há a ocorrência de dor pélvica crônica na síndro me \ndo ovário policístico (SOP) e a vulvodínia (dor crônica na região da vulva). Como também pode \nestar presente na dispareunia (dor durante a relação sexual), síndrome da bexiga dolorosa  \n(cistite intersticial) e síndrome da dor pélvica miofascial (FACCHIN, 2021). Quando a dor está \nassociada a questões ginecológicas, é necessário um cuidado ainda mais abrangente e \nmultifacetado, uma vez que podem surgir atravessamentos transculturais e sociais que levam \nao processo de “dor em silêncio”. Esse fenômeno pode favorecer a vivência da dor pela \nnegação, resultando em pensamentos negativos exacerbados em relação à dor e sintomas \ndepressivos (ZONDERVAN, et al, 2020) , podendo interferir inclusive no processo de \ndiagnóstico. \nHogg e Vyas (2015) descrevem sobre a longa história de invisibilização da dor feminina \ne desconhecimento dos sintomas de dor pélvica crônica, revelando possíveis lacunas no \nconhecimento médico, mas também a naturalização da vivência corporal dolorosa de mulheres \ne banalização da dor menstrual. Mengarda et al. (2008) e Silva et al. (2021) também entendem \nque ainda há certo nível de desconhecimento sobre a doença, tanto por parte da sociedade \nquanto dos profissionais de saúde, corroborando com a ideia de desv alorização da queixa das \nmulheres, reforçando um discurso que naturaliza a dor e dificulta o reconhecimento da doença \ne da gravidade da condição.  \nAinda que na endometriose haja a prevalência da dor pélvica , acima detalhada , os \nsintomas podem variar bastante, desde a ausência de sintomas até a presença de menstruação \ndolorosa (dismenorreia), sangramento intermenstrual, infertilidade 11, problemas urinários \n(disúria), relações sexuais dolorosas (dispareunia), evacuações dolorosas (disquezia), diarreia, \ndor abdominal não menstrual, dor pélvica, fadiga, distúrbios do sono, ansiedade, depressão, \nprodutividade diminuída, disfunção sexual, dor de cabeça, dor lombar e problemas \n \n10 Dor neuropática é uma condição na qual há sensação de dor de difícil localização, frequentemente descrita como \nqueimação, cansaço ou câimbras (DICIONÁRIO DE TERMOS MÉDICOS, 2025). \n \n11 “A infertilidade é uma doença do sistema reprodutivo masculino ou feminino definida pela incapacidade de \nengravidar após 12 meses ou mais de relações sexuais regulares desprotegidas” (ORGANIZAÇÃO PAN -\nAMERICANA DA SAÚDE, 2023). \n\n \n26 \n \ngastrointestinais (MAZUR BIALY, 2024; del PINO -SEDEÑO, 2024; FACCHIN, 2021).  \nTodos esses sintomas apresentados na  endometriose possuem alto potencial de  afetar a \nqualidade de vida e a saúde emocional das mulheres que vivem com essa condição (del PINO-\nSEDEÑO, 2024; FACCHIN, 2021). Desses sintomas, será dado o foco aos impactos \npsicológicos e emocional \n2.2. IMPACTOS PSICOLÓGICOS E EMOCIONAIS \n \nA endometriose impacta profundamente a qualidade de vida, influenciando aspectos \nemocionais, sociais e laborais. As mulheres acometidas pela doença podem vivenciar dores que \ninterferem no desejo, na intimidade, nos vínculos e na própria relação com o feminino. \nPesquisas recentes apontam uma forte associação entre essa condição e o aumento de quadros \ndepressivos, ansiosos e de disfunções sexuais (ZIPPL et al., 2023; SZYPLOWSKA et al., 2023; \nRAMOS et al., 2024).  \nConforme percebido na sistematização feita por Szypłowska et al. (2023), é evidente \nque a dor pélvica crônica e os impactos psicológicos da endometriose constituem um problema \ncomplexo e pouco explorado. Dos estudos avaliados nesta revisão, por conta da baixa qualidade \nde vida, pode-se identificar que há uma relação intrincada entre a endometriose e a saúde \nmental, conferindo importância ao aprofundamento desse debate. \nA dor diminui a qualidade de vida das pacientes com endometriose em maior proporção \ndo que aquelas com outras condições ginecológicas benignas, concluindo que “quanto mais \nintensa a dor, maior a ocorrência de sintomas afetivos e pior a qualidade de vida”  \n(SZYPLOWSKA, et al., 2023 , p.  8). O cuidado com a qualidade de vida da mulher com \nendometriose pode ser um dos elementos centrais do atendimento dessas pacientes, cuidando \ndos impactos psicossociais e financeiros relevantes. Entre os efeitos do impacto na qualidade \nde vida, os mais comuns estão o absenteísmo em atividades profissionais ou acadêmicas, \nhospitalizações recorrentes devido à dor intensa, procedimentos cirúrgicos e a necessidade \nconstante de exames e acompanhamentos médicos (Mengarda et al., 2008).  Nesse sentido \npensamos nos tratamentos que são ofertados para essa população. \nO principal objetivo dos tratamentos para endometriose é de controle dos sintomas, pois \nnão há cura definitiva para a doença (DAVENPORT, 2024). As opções de tratamento são \ngerenciadas de acordo com os sintomas individuais de cada paciente, à gravidade da dor e aos \nobjetivos reprodutivos da mulher, como de planejamento familiar (LUNDE, 2024). \n\n \n27 \n \nFrequentemente é realizado o tratamento por terapia hormonal, opção de primeira linha \nconsiderada segura para aliviar a dor pélvica em mulheres com endometriose, pois pode ajudar \na reduzir a dor e desacelerar o crescimento do tecido endometrial ao interferir na produção de \nestrogênio. Além disso, analgésicos e anti -inflamatórios podem ser utilizados para controlar a \ndor associada à endometriose. Em casos mais complexos  é avaliado o tratamento cirúrgico \n(LUNDE, 2024; DONATTI et al., 2022). Muitos destes tratamentos possuem como escala de \navaliação de eficácia e efetiv idade a melhora de sintomas de qualidade de vida e aspectos \npsicológicos. Nesse sentido, é importante notar que o tratamento da endometriose precisa ir \nalém do manejo médico e cirúrgico, incluindo um suporte multidisciplinar.  \nExiste uma variedade de métodos não médicos que já são utilizados no tratamento dos \nsintomas associados à endometriose, que possuem como objetivo principal o alívio da dor e a \nmelhora da função do assoalho pélvico, como é o caso de encaminhamento a fisiote rapia, \natividade física (exercícios, treinamento aeróbico, yoga), terapia manual, acupuntura e agentes \neletrofísicos (como ondas TENS), dietas que busquem diminuir os fatores inflamatórios e yoga \n(MAZUR BIALY, 2024).  \nAlém disso, também há tratamentos psicológicos validados para melhorar a saúde \nmental e a qualidade de vida dessas mulheres . Dentre eles, há intervenções psicológicas já \ntestadas com essa população associadas a relaxamento muscular progressivo (RMP), atenção \nplena (mindfulness), psicoterapia e terapia cognitivo-comportamental (TCC). Esses tratamentos \ncitados têm sido estudados cada vez mais e têm demonstrado potencial na melhora da qualidade \nde vida e no alívio dos sintomas clínicos como na redução da dor, ansiedade e depressão, e na \nmelhora da qualidade de vida (del PINO -SEDEÑO, 2024; DONATTI  et al. , 2022).  A \nintervenção psicológica clínica mais pesquisada para endometriose é o uso das técnicas da TCC, \nque visa m modificar pensamentos e comportamentos disfuncionais e promover re spostas \nadaptativas (del PINO-SEDEÑO, 2024).  \nEmbora a TCC e outras intervenções mencionadas já tenham demonstrado eficácia \nsignificativa na literatura atual, o sofrimento associado à endometriose também pode envolver \naspectos inconscientes e simbólicos. Nesse sentido, abre-se espaço para explorar contribuições \nadicionais a partir da psicanálise, que historicamente se dedica a compreender processos \nsubjetivos mais profundos e inconscientes, especialmente na articulação entre mente, corpo e \nexperiências emocionais. Ao incorporar essa perspectiva psicanalítica, torn a-se possível \noferecer às mulheres com endometriose mais uma compreensão integrada e sensível da vivência \nda dor, ampliando assim as possibilidades de acolhimento e intervenção terapêutica no campo.  \n\n \n28 \n \n2.3. MARCO TEÓRICO PSICANALÍTICO  \n2.3.1. TEORIA PSIQUE-SOMA EM WINNICOTT \n \nConsiderando que este estudo busca dialogar com profissionais de diferentes áreas do \nconhecimento e, sobretudo, contribuir para que mulheres com endometriose possam ter acesso \na novos olhares terapêuticos e alternativas de cuidado , reconheço a importância de situar o \nreferencial winnicottiano dentro da tradição psicanalítica. Tal contextualização não apenas \nsustenta a legitimidade teórica da abordagem adotada, como também permite ampliar a \ncompreensão do sofrimento psíquico e corporal em sua dimensão relaci onal e intersubjetiva.  \nNão se trata de reconstruir todos os detalhes dessa filiação teórica 12, mas de destacar alguns \npontos que considero fundamentais para a compreensão do caminho que será trilhado ao longo \ndeste trabalho. \nSigmund Freud (1856 -1939) morou durante a juventude em  Viena com sua família . \nPoliglota e interessado pelos saberes humanos, formou-se em Medicina aos 25 anos, dedicando-\nse à pesquisa e à prática clínica da neurologia (ZIMERMAN, 2014). Seu caminho profissional \nse transportou para os campos da psicologia e da mente após conhecer Josef Breuer (1842 -\n1925), quando se deparou com questões clínicas que iam além dos limites da lógica biomédica \ne demandam uma abordagem mais sensível ao sofrimento psíquico (VOLICH, 2016). \nAo atender casos de pacientes histéricas , quadro em que os  sintomas físicos não \napresentavam causa orgânica identificável, Freud voltou -se à investigação dos conflitos \npsíquicos subjacentes, desbravando um novo campo de escuta  e compreensão do sofrimento \nhumano (VOLICH, 2016).  Entre 18 85 e 1886, Freud trabalhou, em Paris com Jean -Martin \nCharcot, renomado neurologista francês que já estudava as manifestações da histeria13 desde o \n \n12 Destaco aqui o trabalho de longos anos do Professor Dr. Leopoldo Fulgêncio (IP -USP), cuja contribuição tem \nsido fundamental para o aprofundamento do pensamento winnicottiano no Brasil. Seu livro Winnicott & \ncompanhia: Winnicott e Freud  (2022) consolida parte de um percurso acadêmico minucioso, dedicado à análise \nda obra de Winnicott e à sua inserção na tradição psicanalítica. Além dessa obra, Fulgêncio desenvolve reflexões \nem outros textos que ampliam o entendimento sobre as especificid ades do autor, permitindo situar Winnicott não \napenas em relação à psicanálise freudiana, mas também como um pensador singular no campo dos cuidados com \no ser, do amadurecimento emocional e da constituição do self.  \nPara além de sua contribuição, também reconheço a relevância de outros autores brasileiros que têm me auxiliado \nna leitura de Winnicott no contexto da nossa sociedade: destaco, especialmente, os trabalhos de Zeljko Loparic, \nElsa Oliveira Dias e Alfredo Naf fah Neto, cujas interpretações e desenvolvimentos teóricos enriquecem a \ninterlocução com a obra winnicottiana em solo brasileiro. \n \n13 Pereira (1999) O autor apresenta o percurso dos estudos de Charcot. Uma das grandes contribuições é de que a \nhisteria não era uma simulação dos pacientes e m si, mas sim uma manifestação incontrolável. Também reforça a \nideia de que a hipnose estava inteiramente associada aos pacientes com diagn óstico de histeria.  \n \n\n \n29 \n \nano de 1870 (PEREIRA, 1999; ZIMERMAN, 2014). Essa experiência marcou a transição de \nFreud da ciência física para a psicologia (FREUD, 1983/1996).  \nCom Charcot, Freud aprofundou seus conhecimentos  sobre hipnose e sobre as \nmanifestações clínicas da histeria, sendo determinante para a formulação posterior dos \nconceitos freudianos sobre o inconsciente14 e para a criação da psicanálise (ZIMERMAN, \n2014). Essa mudança profissional realizada por Freud ampliou o escopo tradicional das ciências \nnaturais ao enfatizar a relevância da escuta do sofrimento subjetivo. Como salienta Rubens \nMarcelo Volich (2016) no capítulo \"A revolução freudiana\" de seu livro Psicossomática: \n  \nA obra freudiana marcou de forma indelével a evoluç ão das concepções acerca das \nrelações entre o psíquico e o somático.  Percebemos no próprio percurso de Freu d a \nmaneira como suas inquietações pessoais e os desafios encontrados durante sua \nformação e ao longo de sua prática clínica foram constituindo um corpo teórico clínico \nque sistematicamente propõe e reformula modelos para a compreensão de tais \nrelações. (p. 75, grifos meus) \n \nNesse contexto, Freud inaugurou um novo campo de saber clínico, que possibilitou \ncompreender o adoecimento como expressão simbólica de tensões intrapsíquicas. Essa virada \nteórica permitiu a elaboração de um modelo de aparelho e abriu caminhos decisivos para a \ncompreensão dos sonhos, da sexualidade e das pulsões (VOLICH, 2016).  Com isso , Freud \nestruturou a psicanálise como um método clínico de tratamento, como explica Fulgêncio (2022, \np. 12), “o método de tratamento consiste, grosso modo, em trazer para a consciência do paciente \nconteúdos inconscientes que estariam na origem de suas perturbações neuróticas”. \nDo método freudiano, o acesso ao inconsciente segue um percurso técnico fundamental \nentre as  técnicas de associação livre 15, interpretação e análise da transferência. A eficácia \n \n14 No artigo publicado em 1900, intitulado  A Interpretação dos Sonhos , Freud apresenta a primeira tópica do \naparelho psíquico, na qual propõe a existência de três instâncias: o inconsciente, o pré -consciente e o consciente. \nEmbora obras anteriores, como Estudos sobre a histeria (1893-1895), já tivessem delineado os contornos iniciais \nde sua teoria, é nesse momento que Freud aprofunda a compreensão dos conflitos internos, frequentemente \ninacessíveis à consciência devido à ação das defesas psíquicas. Esses conteúdos, no entanto, podem emergir em \nformas substitutivas e simbólicas, como nos sonhos, nos chistes e nos atos falhos – manifestações que revelam as \nbrechas nas barreiras defensivas do eu (VOLICH, 2016). \n \n15 Freud define a associação livre como a regra fundamental da psicanálise no texto Sobre o mecanismo psíquico \ndos fenômenos histéricos , publicado em 1 898 (1996) . Trata -se de um dispositivo clínico no qual o paciente é \norientado a falar livremente, dizendo tudo o que lhe vier à mente, sem censura ou julgamento. A proposta consiste \nem observar e expressar pensamentos, lembranças, imagens ou ideias que surjam ao longo da sessão, ainda que \npareçam desconexos, irrelevantes ou incômodos. Espera -se que o paciente se comprometa (de forma intencional) \ncom uma postura de honestidade  (livremente) consigo mesmo e com o analista, suspendendo qualquer tentativa \n \n\n \n30 \n \ndessas ferramentas repousa no  princípio do determinismo psíquico , onde o s fenômenos \npsíquicos não são aleatórios, eles seguem uma lógica interna que pode ser investigada no campo \nde estudo do mundo interno (FULGÊNCIO, 2022; ZIMERMAN, 2014). \nA partir desse referencial, Leopoldo Fulgêncio (2018) propõe um estudo cuidadoso \nsobre como os fundamentos clássicos da teoria freudiana são retomados, adaptados e \ntransformados na obra de Winnicott. Na análise realizada por Fulgêncio, destaca a permanência \nadaptada de conceitos fundamentais como a centralidade do inconsciente, a escuta das \nformações do desejo e a importância da transferência para Winnicott.  \nEssa adaptação ocorre no contexto de ressignificar esses elementos a partir da \ncompreensão do amadurecimento emocional, perspectiva em que o ambi ente, especialmente \nnos primeiros momentos da vida, passa a ter um papel essencial na formação do ser . Como \nexemplo a  concepção de inconsciente para além d a repressão e conflito libidinal e se \naproximando mais no desenvolvimento do self (ALMEIDA, 2023). \nCom isso, Winnicott  (1961/2021) redefine a psicanálise como um campo aplicado, \nsustentado por um saber que se implica na experiência humana , sobretudo na experiência de \nser. Nesse sentido, destaco as palavras do autor: \n \nPrimeiro, você precisa ter uma ideia do esquema geral do desenvolvimento emocional \ndo ser humano. Depois, precisa conhecer tensões inerentes à vida e as formas de lidar \ncom essas tensões. E aí precisa conhecer o colapso das defesas normais e a instalação \nda segunda e da terceira linha de defesa, isto é,  a organização da doença como um \nmodo de dar continuidade à vida após o colapso das defesas comuns . Os instintos \nsubjazem às defesas, e são funções corporais que operam orgasticamente. [...] Em \noutras palavras, a psicanálise influenciou profundamente nosso modo de considerar a \nvida, e muito mais ainda virá dela em relação ao estudo da sociedade e das pessoas \ncomuns. (WINNICOTT, 1961/2021, p. 14, grifos meus) \n \nA psicanálise winnicottiana não se restringe à interpretação de conteúdos inconscientes \nnem somente à eliminação do sofrimento psíquico , trata-se de uma ampliação do pensamento \nfreudiano, que coloca em destaque a importância do processo de amadurecimento emocional e \nda integração do self  como condições para que a vida seja vivida como algo real \n(FULGÊNCIO, 2022). \n \n \nde filtragem racional ou moral do conteúdo que emerge, mesmo que, à primeira vista, ele pareça insignificante ou \ninadequado (FINK, 2017; ZIMERMAN, 2014; FREUD, 1898/1996).  \n \n\n \n31 \n \n[...] não é possível dizer que a psicanálise de Winnicott esteja no mesmo quadro \nepistemológico e metodológico que a de Freud, ainda que tenha sido construída a \npartir do método psicanalítico fundado por Freud. Nesse sentido, talvez seja \nnecessário afirmar  que Winnicott é freudiano para além de Freud. (FULGÊNCIO, \n2022, n.p.)  \n \nÀ guisa de uma melhor compreensão da clínica psicanalítica, Volich (2016) apresenta-\na como uma forma de escuta, leitura e interpretação dos sentidos que atravessam o indivíduo , \ninclusive em relação ao corpo. Trata -se de uma prática que reconhece que o indivíduo cria \nrepresentações imaginárias do próprio corpo como construções simbólicas que não se limitam \nà anatomia objetiva, mas que fazem parte de sua experiência subjetiva.  \nQuando aproximando do objetivo deste estudo, de analisar a integração psique soma, \ncria-se a necessidade de explicar  o campo da psicossomática psicanalítica de orientação \nfreudiana16. Deste modo, a tradição deste estudo baseia -se na representação do corpo como \numa atividade sensorial e não verbal que, desde os primórdios da vida, registra as vivências do \nsujeito. Essas inscrições iniciais vão se entrelaçando, aos poucos, a estados afetivos como dor, \nprazer, satisfação e amor, conformando em um corpo simbolicamente constituído a partir da \nrelação com os primeiros objetos 17, ou seja, desde os primeiros momentos  já há uma \norganização que articula o somático e o psíquico em torno das relações de objetos18 (VOLICH, \n2016).  \nWinnicott (1967/2021), por sua vez, propõe uma etapa ainda mais primordial do \ndesenvolvimento antes mesmo do estabelecimento das relações de objeto, etapa em que o \n \n16 Santos (2019) apresenta um percurso interessante desde Marty até Winnicott. No texto é explicada a condição \ndiferenciada das pessoas que possuem alguma viv ência somática e o quanto essa condição pode impacta r no \ndesenvolvimento, aproximando de Winnicott sobre a capacidade de personalizar para integrar a vivência somática \nenquanto própria.  \n \n17 Na psicanálise freudiana, o objeto é, em um primeiro momento, aquilo que satisfaz a pulsão . Um meio externo \ne contingente que serve à realização de uma necessidade interna. No entanto, o texto de Coelho Jr. (2001) aponta \nque, em algumas passagens da obra de Freud, há indícios de que o objeto também participa da constituição  do \nsujeito. Essa perspectiva abre caminho para a compreensão de que o objeto pode ser estruturante do psiquismo, \nideia que se tornará central nas teorias das relações objetais. \n \n18 Sobre as relações de objeto em psicanálise, o termo é melhor explicado por Fulgêncio (2022), referido ao objeto \nlibidinal da pulsão de Freud: “No entanto, tomar a relação humana como uma relação com um objeto, tomar o \noutro como um objeto, é uma metáfora um tanto quanto desajeitada, pois quando alguém nos toma como se \nfôssemos um objeto ou quando o outro é, para nós, um objeto, parece que já nos distanciamos  das relações \npropriamente humanas; e ninguém se sente muito confortável nessa objetificação. Pode -se dizer que este é um \nmodo de falar conceitual que se mostrou extremamente útil no campo da ciência psicanalítica e que é necessário \nentender a expressão “relações de objeto” considerando-se os seus significados e referentes no contexto semântico-\nteórico da psicanálise” (p. 109).  \n \n\n \n32 \n \nchamado “corpo biológico” ainda não foi reconhecido como um “corpo humano” pelo bebê.  \nNesse estágio inicial, a distinção entre o eu e o ambiente ainda não se delineou, e a experiência \ncorporal permanece fusionada ao meio externo , principalmente ao cuidador primário , sem a \nseparação entre dentro e fora que marcará, mais adiante, a constituição do self (ALMEIDA, \n2023).  \nAs vivências do corpo  como próprio só podem  tornar-se possíveis a partir de \nexperiências suficientemente boas com o ambiente. É nesse contexto de cuidado e sustentação \n(o holding, que será melhor explicado mais adiante) que o bebê começa a elaborar, de forma \nimaginativa, suas funções corporais, inaugurando uma relação subjetiva com o próprio corpo  \n(NAFFAH NETO, 2017).  \nEm sua obra Natureza humana  (1971/2024), Winnicott  apresenta conceitos \nfundamentais para a compreensão do psique-soma, aprofundando a ideia de que, embora o \ncorpo biológico já exista ao nascer, as delimitações entre o externo e o interno só se constituem \npor meio das experiências vividas por meio do um ambiente suficientemente bom19.  \nÉ na repetição de vivências de cuidados básicos  que o bebê começa a experimentar \npequenas integrações psíquicas e somáticas. Esse processo gradual permite que ele amadureça \ne, finalmente, possa se reconhecer como alguém distinto do meio. Esse processo abrange desde \nexperiências elementares, como respirar, digerir, evacuar e sentir dor, até formas mais \nsofisticadas de vivência corporal, culminando na elaboração e integração dessas experiências \n(WINNICOTT, 1962/1983).  \n \nPsique e soma não devem ser distinguidos um do outro, exceto quanto à posição a \npartir de onde olhamos. É possível olhar para o corpo em desenvolvimento ou para a \npsique em desenvolvimento. Suponho que a palavra psique, aqui, significa \nelaborações imaginativas das partes,  sentimentos e funções somátic as, ou seja, da  \nvivacidade física. (WINNICOTT, 1949/2021, p. 410, grifos meus) \n \nNessa direção, o termo “realidade oceânica”, utilizado por Naffah Neto (2017), ilustra \npoeticamente os estágios iniciais da vida psíquica segundo a perspectiva winnicottiana.  \n \n19 Cabe aqui um adendo: para Winnicott, é somente por meio de um ambiente suficientemente bom que o bebê \npode, pouco a pouco, experimentar a vida. Quando o cuidado oferecido é acolhedor e estável, a experiência pode \nser assimilada de forma criativa, com o corpo como instrumento de simbolização. Contudo, diante de um ambiente \nhostil ou falho, aquilo que poderia ser vivido como experiência torna -se reação. Desse modo, a elaboração \nimaginativa das vivências corporais cede lugar a mecanismos defensivos que visam proteger o self de novas \nameaças. É nesse contexto que Winnicott (1949/2021) descreve a emergência de uma “hipertrofia intelectual” \n(split of intellect), fenômeno em que o funcionamento mental  se diferencia da experiência emocional e corporal, \ncomprometendo a integração psíquica. \n\n \n33 \n \nInterpreto: assim como no oceano não se distinguem claramente os limites continentais, o bebê \nrecém-nascido ainda não diferencia o s limites do que é “dentro” do que é “fora”. O meio que \nenvolve o corpo biológico não é, para Winnicott, um objeto separado, mas uma extensão de si \nmesmo. Para que ocorra a compreensão de si mesmo diferenciando -se da externalidade, é \nnecessário o processo de integração. Ou seja: \n \n[...] é necessário que passem pela elaboração imaginativa das funções corporais. É \ntambém essa função que criará, paulatinamente, a sexualidade infantil, primeiramente \ndando sentido humano a movimentos puramente fisiológicos e transformando -os em \nbusca de prazer ou de descarga agressiva. (NAFFAH NETO, 2017, p. 142) \n \nA esse ponto de desenvolvimento, Winnicott (1945/2021) chamou de personalização o \nsentimento de estar dentro do próprio corpo. Esse sentimento abre caminho para a constituição \nda unidade psique -soma, um conceito central na teoria winnicottiana, que une a vivência \ncorporal às primeiras organizações psíquicas construídas a partir da relação com o ambiente , \nconceito a que este trabalho se dedica. \n2.3.2. ESTAR EM SI MESMO \n \nEu sou um corpo \nUm ser \nUm corpo só \nTem cor, tem corte \nE a história do meu lugar  \n(LUNA, 2017). \n \nA expressão “um corpo só” evoca a ideia de que, muitas vezes, nos encontramos em \npedaços, e que conquistar essa unidade constitui uma verdadeira construção subjetiva. No \nreferencial adotado neste trabalho, ser “um só” refere-se à conquista da unidade entre corpo e \npsique, compreendida por Winnicott (1967/2021) como  a própria constituição do “ser”. \nSegundo Winnicott (1945/2021), esse processo se  realiza por meio de experiências repetidas \nque favorecem a integração e a personalização. O autor aponta três etapas fundamentais do \namadurecimento emocional: 1) integração  no tempo e no espaço ; 2) personalização; e 3) \nrealização  \n\n \n34 \n \nNos estágios iniciais da vida, especialmente na fase de dependência absoluta20, o bebê \nainda não possui uma unidade psique -soma estabelecida. Cada encontro com o ambiente \ncuidador que acolhe suas necessidades fisiológicas, como ser alimentado ao sentir fome, \npossibilita experiências de integração. Como salienta Almeida (2023, p. 79), “a mãe será \nresponsável por apresentar o mundo ao bebê em pequenas doses, sustentando o seu sentimento \nde onipotência inicial (criatividade primária), no qual estará presente uma sensação temporária \nde ilusão”. \nA repetição dessas experiências corporais de cuidado e reconhecimento sustenta, aos \npoucos, a construção de uma vivência coesa entre corpo e mente (WINNICOTT, 1952/2021). \nEm decorrência disso, o conceito de elaboração imaginativa das funções corporais assume \npapel central no pensamento do psicanalista britânico.  \nComo aponta Naffah Neto (2017), é por meio da elaboração imaginativa que o bebê \ngradualmente se diferencia das sensações  de saciedade fisiológica daquelas associadas ao \nprazer, formando memórias corporais que se tornarão parte de sua história de vida. Explica: \n  \n[...] a elaboração imaginativa das funções corporais começa a dar um sentido psíquico \nàs sensações fisiológicas geradas pela mamada (e que são prenunciadas pela presença \ndo instinto), e o bebê vem a distinguir, gradativamente, sensações de pura saciedade \nfisiológica de sensações de prazer. É somente a partir desse sentido dado às funções \ncorporais pela elaboração imaginativa que as experiências do bebê podem começar \na ser armazenadas como memória, vindo a formar gradativamente uma história de \nvida. (p. 56, grifos meus) \n \nDias (2017), em concordância com a explicação desse conceito, explica que “a primeira \ntarefa da psique é a elaboração imaginativa das funções corpóreas ” (p. 87), e é nesse processo \nque o corpo do bebê pode ser vivido como um corpo vivo: aquele que respira, mama, se move, \nchora, busca consolo, é acolhido e tocado. Tais experiências, no início, são todas mediadas pelo \ncorpo e são progressivamente personalizadas pela atividade psíquica. \nEssa vivência do corpo como um território próprio é a abertura do  processo de \npersonalização, o fluxo que evolui da integração para a conquista do sentimento de estar dentro \n \n20 Fulgêncio e Humberg  (2023) sistematiza as fases do desenvolvimento que preparam o sujeito para a vivência \ndos fenômenos transicionais, a partir da perspectiva de Winnicott. Esses fenômenos emergem por volta do sexto \nmês de vida, quando o indivíduo já percorreu três estágios do amadurecimento emocional: a dependência absoluta \n(do nascimento até aproximadamente o quarto mês), a dependência relativa (do quarto mês até cerca de um ano e \nmeio) e a transição rumo à independência, também chamada de independência relativa (que se est ende ao longo \ndo restante da vida).  \nAlmeida (2023) reforça que as fases de desenvolvimento da dependência não dizem a fragilidade e suscetibilidade \nao ambiente, mas sim sobre o nível de maturidade do indivíduo no reconhecimento totalitário da vida. \n\n \n35 \n \ndo próprio corpo . Esse movimento implica um trabalho psíquico silencioso e repetitivo que \ntransforma a vivacidade física em corpo subjetivamente habitado (WINNICOTT, 1945/2021).  \nEm definição, a personalização é um processo de estruturação espacial do psique -\nsoma, no qual o sujeito conquista um sentimento de totalidade e unidade. Trata-se do momento \nem que ele passa a viver dentro de seu próprio corpo, em continuidade com sua existência. Ou \nseja, estamos diante de uma perspectiva ontológica do sujeito, que é a ideia de uma tendência \ninata à integração e ao amadurecimento, o que marca a continuidade de ser desde os primórdios \nda vida psíquica (NAFFAH NETO, 2017; DIAS, 2017). \nPois bem, para que a integração e a personalização ocorram de forma satisfatória, é \nindispensável que o ambiente ofereça condições adequadas e adaptadas às necessidades do \nbebê. Winnicott (1960c/1983) descreve essas condições como holding (sustentação) e handling \n(manejo), que são práticas do cuidado materno que favorecem o processo de alocação da psique \nno corpo . Naffah Neto (2017) destaca  que o  holding exerce duas funções fundamentais no \nprocesso de amadurecimento psíquico: \n \nTalvez a forma mais completa para se definir holding seja descrevendo a mãe como \num ego auxiliar do bebê, posta a serviço da sua sustentação no tempo e no espaço , \ndurante um longo período de tempo em que o bebe vive fundido ao meio ambiente, \ntendo uma identidade totalmente evanescente e fugidia e dependendo desse cuidado \nmaterno, como forma de manter minimamente uma continuidade de ser; a mãe como \nelo, manutenção e sustentação de um conjunto de exper iências fragmentárias e \ndispersas. (p. 91, grifos meus) \n \nDeste modo, p ara concluir este percurso sobre a noção de personalização e os \nmovimentos de integração entre psique e soma, gostaria de enfatizar que estamos lidando com \num processo contínuo, e não com um evento pontual. É um caminho que se desdobra ao longo \ndo desenvolvimento, exigindo condições ambientais suficientemente boas  para que o sujeito \npossa, progressivamente, habitar seu próprio corpo e sustentar um sentimento de existência \nintegrado. Estar em si mesmo é  constituído no cotidiano dos cuidados corporais e das \nexperiências repetidas, esse percurso se constrói nos pequenos lapsos de integração. É nesse \nenraizamento sutil, tecido por cuidados primários sensíveis, que a psique encontra m orada no \nsoma, consolidando a vivência de uma unidade psicossomática  plena (WINNICOTT, \n1945/2021). \n \n\n \n36 \n \nA integração, em seus diversos aspectos (no tempo, no espaço, na associação psique-\nsoma, da personalidade etc.), não está, no entanto, garantida por essa tendência, ou \nseja, há uma série de fatores que podem contribuir ou atrapalhar seu funcionamento. \nÉ considerando, pois, a natureza humana como o ente que tem necessidade de ser e \ncontinuar sendo impulsionado por uma tendência inata à integração, que Winnicott \ncaracterizará, em termos ontológicos, o que é a vida socioemocional do homem. Mais \nainda, ele integrará nessa concepção de natureza humana o fato de que o ser humano \né um ser dependente e que isso é mais fundamental e constitucional do que a própria \nquestão das excitações da vida instintual do homem: primeiro ser, mas o ser depende \nde ser -com e, depois, o fazer, inclusive o instintual. (FULG ÊNCIO, 2018, p. 349 , \ngrifos meus) \n \nQuando esse alicerce psique-soma se firma, torna -se possível a construção de um self \nfortalecido, capaz de sustentar a vida emocional e de seguir seu amadurecimento a partir da \ndiferenciação alcançada , porém e sse processo de construção é delicado e dependente da \ncontinuidade das experiências ambientais que favorecem a integração entre as vivências \ncorporais e psíquicas. A ausência ou falha significativa nesse cuidado inicial pode comprometer \na formação dessa unidade, impactando a capacidade do indivíduo de se sentir inteiro, enraizado \nem seu próprio corpo e em sua existência (WINNICOTT, 1949/2021; 1971/2024).  \nPara uma compreensão do desenvolvimento, dos primeiros momentos e de dependência \nabsoluta até esta fase de maturidade, cito Almeida (2023), que traz a constituição desse processo \nde unidade a partir do conceito da primeira mamada teórica: \n \nWinnicott usará a expressão “primeira mamada teórica” para enunciar a sequência das \nprimeiras experiências concretas de amamentação. O termo, em si, supera o \nentendimento desse processo como algo puramente fisiológico, que apenas tem como \nobjetivo saciar a fome do bebê. O ato de mamar, na concepção winnicottiana, \nrepresenta a ocasião em que começam a se estabelecer as bases da relação com a \nrealidade externa. Independentemente do uso do seio ou não, o que mais conta nesse \nperíodo é a qualidade do contato  humano – refiro-me ao grau de compromisso da \nfigura materna com os cuidados gerais demandados pelo recém-nascido, que, quando \nbem exercidos, estruturam uma espécie de sintonia. (p. 81)   \n \nNesse sentido, retomo que o trabalho clínico de Winnicott (1949/2021) nos revela que \no self não emerge como uma estrutura pronta e acabada, trata -se do percurso do \namadurecimento emocional, ou seja, do processo que envolve uma integração progressiva entre \nas dimensões psíquica e somática. À medida que essa integração ocorre, a psique passa a \n\n \n37 \n \nhabitar o corpo, e este, por sua vez, é vivido como pertencente ao sujeito, sentido como próprio. \nCito Winnicott novamente: \n \nNum estágio posterior, o corpo vivo, com seus limites e com um interior e um exterior, \né sentido pelo indiv íduo como formando o cerne do self imaginativo. O \ndesenvolvimento desse estágio é extremamente complexo, e apesar de tratar-se de um \nprocesso que bem poderia já ter sido praticamente completado poucos dias depois do \nnascimento, há oportunidade de sobra para  distorções de seu curso natural nesse \nsentido. E mais: tudo aquilo que se aplica aos estágios iniciais aplica -se também, até \ncerto ponto, a todos os estágios, e mesmo ao estágio que chamamos de maturidade da \nfase adulta. (1949/2021, p. 411)  \n \nSintetizando o que foi discutido: os princípios fundamentais dos estágios iniciais do \namadurecimento emocional não são lineares  e permanecem operantes, em certa medida, ao \nlongo de toda a vida, inclusive na maturidade adulta. Nesse sentido, releva-se o valor da a noção \nde psique-soma, conforme formulada por Winnicott (1949/2021), que diz respeito à articulação \nentre dois polos que são, num primeiro momento concebidos como distintos (provisoriamente); \nde um lado, temos a psique, compreendida como a base da vida subjetiva; de outro, o soma, ou \ncorpo físico, vivido como fonte de sensações instintuais diretamente ligadas à sobrevivência, \ncomo a fome, a dor e o sono.  \nA integração entre psique e soma é conduzida por uma tendência inata ao \namadurecimento, que impulsiona o bebê em direção à construção de um self unificado. É essa \nvivência integrada o sujeito pode experienciar sua existência de maneira coesa, sendo capaz de \nsustentar sua existência de modo contínuo, criativo e singular (WINNICOTT, 1971/2024). \nA unidade psicossomática, portanto, é a condição para que o sujeito possa entrar em \ncontato com a alteridade, ou seja, com a compreensão daquilo que é externo e distinto de si, a \npartir de uma base corporal minimamente integrada. Quando o indivíduo se integra no tempo \ne no espaço ele passa a se perceber de forma total, assim como  perceber o mundo de forma \nigualmente inteira.  \n2.3.3. VIR A SER: CONSTITUIÇÃO DO SELF \n \nAinda estou confuso só que agora é diferente \nTô tão tranquilo e tão contente \n \nQuantas chances desperdicei \n\n \n38 \n \nQuando o que eu mais queria \nEra provar pra todo mundo \nQue eu não precisava provar nada pra ninguém \n \nMe fiz em mil pedaços pra você juntar \nE queria sempre achar explicação pra o que eu sentia \nComo um anjo caído fiz questão de esquecer \nQue mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira \n \nMas não sou mais tão criança \nA ponto de saber tudo \n \nJá não me preocupo se eu não sei por que \nÀs vezes o que eu vejo quase ninguém vê \n(LEGIÃO URBANA, 1986) \n \nPara Winnicott (1971/2024), existe um “eu”21 central que, aos poucos, vai se conectando \nàs experiências do corpo, da psique e da mente, compondo o campo necessário para o \ndesenvolvimento emocional . Esse processo, ao integrar vivências corporais e subjetivas, \npermite o surgimento do self, entendido como uma organização singular que se constitui na \nrelação com o ambiente. \nNo ensaio Distorção do ego em termos de self verdadeiro e falso self (1960b/1983), é \nquando esses conceitos se apresentam bem definidos por Winnicott. Para ele, o verdadeiro self \nrepresenta a expressão autêntica , espontânea e subjetiva  do ser, e o falso self representaria o \nsurgimento de uma defesa necessária ao núcleo do self diante de um ambiente que, por vezes, \nfalha em acolher o gesto espontâneo do bebê.  Essa estrutura pode se configurar de maneira \nrelativamente saudável e funcional, mas nem sempre é assim.  \nAo nascer, o infante encontra -se em um estado de fusão com o meio, que lhe é \napresentado por meio da figura que desempenha os cuidados primários. Por estar imerso nessa \nfusão inicial, a descoberta do ambiente deve ocorrer de forma gradual e mediada , assim, é \nfundamental que a pessoa responsável pela maternagem seja capaz de se adaptar às \nnecessidades específicas daquele bebê em desenvolvimento (WINNICOTT, 1949/2021). \n \n21  Vale destacar que, ao me referir ao “eu” central, não estou apontando para um “eu” plenamente constituído. Na \nperspectiva de Winnicott, o “eu” não é dado, mas uma conquista progressiva, fruto do processo de amadurecimento \nemocional e da integração da psique ao soma. O “eu”, nesse sentido, diz respeito a um núcleo em formação — um \ncampo de experiências subjetivas que se entrelaçam, possibilitando, ao longo do tempo, a constituição de um corpo \nhabitado, no qual psique, soma e mente se integram como expressão de uma existência viva.  \n\n \n39 \n \nCom o tempo, o sujeito passa a desenvolver também formas saudáveis de defesa, \nconstituindo um falso self funcional, capaz de mediar as exigências da vida em sociedade sem \ncomprometer a integridade do self verdadeiro. Nas palavras de Winnicott: “Estou dizendo, de \ncerta forma, que cada pessoa tem um self educado ou socializado e também self pessoal privado \n(parte secreta do self), que só aparece na intimidade” (1964/2021, p. 77). Sob esse prisma, \nocorre um equilíbrio entre espontaneidade e adaptação, condição  essencial para o \namadurecimento emocional. \nNo entanto, quando o ambiente falha em adaptar -se às necessidades do bebê, por \nexemplo, diante de atrasos insistentes no atendimento a sinais de fome, como o choro, o bebê \npassa a registrar que ele próprio precisa se adaptar ao ambiente, e não o contrário. Nesses casos, \no bebê não enc ontra uma sustentação emocional adequada  e desenvolve uma organização \ndefensiva para sobreviver em um meio que não é suficientemente bom (WINNICOTT, \n1960c/1983). Diante das formulações do autor, compreende-se que a constituição do falso self \nestá intimamente ligada à qualidade do ambiente nos estágios iniciais do desenvolvimento.  \n \nDesse modo é possível traçar o ponto de origem do falso self, que pode então ser visto \ncomo uma defesa, a defesa contra o que seria inimaginável, a exploração do self \nverdadeiro, que resultaria em seu aniquilamento . (Se o self verdadeiro chega a ser \nexplorado e aniquilado, isto é parte da vida de um lactente cuja mãe foi não apenas \n“não suficientemente boa” [...], mas foi boa e má de uma maneira torturamente \nirregular). (WINNICOTT, 1960b/1983, p. 134, grifos meus) \n \nÀ medida em que essas falhas se tornam mais intrusivas ou constantes, o falso self pode \ntornar-se mais rígido, estabelecendo -se como uma estrutura exigente, voltada quase \nexclusivamente à acomodação às demandas externas. Em casos ainda mais extremos, essa \ndefesa pode adquirir um caráter patológico, conduzindo a graves cisões da experiência \nsubjetiva, como se observa nos quadros psicóticos  (falso self  cindido)22 (NAFFAH NETO, \n2017).  \nAssim, o falso self é um modo de defesa que pode variar em gravidade, oscilando entre \numa função protetora ou um aprisionamento alienante do verdadeiro self.  Tal dinâmica estará \n \n22 Conforme bem enunciado por Naffah Neto: “No âmbito do falso self cindido, não podemos, pois, falar \nde experiência, no sentido winnicottiano do termo, ou seja, como entre jogo, já que não existe mais \nnenhum self verdadeiro para interagir ludicamente com o ambiente. Aí, todas as aquisições se dão, primeiramente \npor mimetização e, num segundo momento, por introjeções de traços ambientais, formadores da casca adaptativa \ne desconectada do “ser” próprio da criança” (2017, p. 40). \n\n \n40 \n \nsempre em função da possibilidade (ou não) de um ambiente suficientemente bom que favoreça \na espontaneidade e o vir-a-ser do indivíduo.  \nEm síntese, a constituição do self verdadeiro e a possibilidade de continuidade de ser \ndependem diretamente da qualidade das primeiras experiências ambientais, especialmente da \npresença de um cuidado suficientemente bom que sustente a integração entre psique e soma. A \npartir dessa base, o sujeito desenvolve a capacidade de habitar o próprio corpo, distinguir o \ninterno do externo e organizar experiências subjetivas saudáveis. Quando esse processo falha, \no falso self  pode se estruturar como uma defesa necessá ria, mas, em sua forma patológica, \ncompromete a espontaneidade, a criatividade e a saúde psíquica do indivíduo (NAFFAH \nNETO, 2017).  \nEssa compreensão do desenvolvimento emocional primitivo  e da formação do self, \nconforme proposta por Winnicott (1959 -64/1983), fornece os fundamentos clínicos e teóricos \npara pensar a psicoterapia: “Somente o self verdadeiro  pode ser analisado” (p. 122). Essa \nabordagem parte do reconhecimento da fragilidade ou até mesmo da ausência dessas estruturas \nem casos de sofrimento psíquico mais primitivo, propondo, então, uma escuta e uma prática \nque buscam restaurar as condições ambientais necessárias  para que o sujeito possa, \ngradualmente, reencontrar a experiência de ser. \n2.3.4. A ANÁLISE SOB A ÓTICA WINNICOTTIANA \n \nOnde queres descanso, sou desejo \nE onde sou só desejo, queres não \nE onde não queres nada, nada falta \nE onde voas bem alto, eu sou o chão \n(VELOSO, 1986). \n \nO acompanhamento em  psicoterapia pode, ou não, ter base psicanalítica. A \nconceitualização de uma intervenção varia conforme a abordagem teórica adotada e, sobretudo, \nconforme a concepção de sujeito  de cada autor  (FULGÊNCIO, 2018).  Na psicoterapia \npsicanalítica de abordagem guiada pela contribuição winnicottiana a busca é por oferecer, na \nrelação transferencial23, as condições ambientais necessárias para que o paciente possa retomar \n \n23 Kuppermann (2008) apresenta um estudo comparativo da técnica  da transferência e as diferenças práticas nas \nabordagens de Freud, Feren czi e Winnicott. Neste último, a transferência é uma experiência afetiva complexa e \ndinâmica que, baseada na qualidade do encontro entre analista e analisando, especialmente na possibilidade de \nregressão à dependência e no brincar compartilhado, permite a expressão de afetos intensos (i ncluindo o ódio), a \n \n\n \n41 \n \nou iniciar (regredir24) o processo de amadurecimento emocional  interrompido, por meio da \nsustentação de um espaço potencial  seguro e confiável  que favoreça a espontaneidade e a \ncontinuidade de ser, ajudando nesse processo de integração, pois essa posição não é como uma \nconquista, mas como uma condição que podemos viver em alguns momentos de vida e em \noutros, não (DIAS, 2023).  \nDesta forma , para Winnicott (1962/1983) o trabalho de análise se dá por meio da \ncooperação inconsciente que advém do paciente após superar as resistências (defesas presentes \nno falso self) no processo de terapia, sendo como a parte positiva da relação transferencial. \nNesse sentido, o nosso autor afirma: \n \nA análise não consiste apenas em um exercício técnico. É algo que nos tornamos \ncapazes de fazer quando alcançamos determinado estágio na aquisição de uma técnica \nbásica. Aquilo que passamos a poder fazer é ajudar o paciente a seguir um processo, \nprocesso este que em cada paciente tem seu próprio ritmo e traça seu próprio percurso. \nTodos os aspectos importantes desse processo originam -se no paciente, e não em nós \ncomo analistas. (WINNICOTT, 1954/2021, pp. 462-463, grifos meus) \n \nA transferência, na perspectiva teórica adotada, representa a via por meio da qual o \npaciente comunica sua vida emocional. Trata-se da repetição de padrões afetivos e relacionais \nvividos anteriormente, que se reatualizam no vínculo terapêutico (WINNICOTT, 1960a/1983). \nA contratransferência, por sua vez, é o campo das respostas emocionais do analista, que também \npode ser instrumento de escuta, elaboração e cuidado. \nNão obstante, o papel do analista é constantemente implicado na escuta de \ndeslocamentos de experiências relatadas pelo paciente de vivências que, muitas vezes, \nencontram no analista  um lugar de ressonância e elaboração . Cabe -nos, então, favorecer a \nintegração dessas experiências, apoiando o paciente na construção de um sentido mais amplo \npara sua história emocional. Isto é: possibilitar a conquista do ser (e continuar sendo). Nesse \n \ncriação de um espaço compartilhado e a eventual capacidade do analisando de “usar” o analista como um objeto \nreal, levando ao contato com o verdadeiro self e à capacidade de estar só na presença do outro. \n \n24 No texto de 1954,  Aspectos clínicos e metapsicológicos  da regressão no contexto analítico , Winnicott \n(1954/2021) propõe uma compreensão da regressão a partir de três perspectivas, relacionadas ao estágio de \ndesenvolvimento em que  o paciente se encontra ao iniciar a análise. Segundo o autor, o paciente pode: (1) \napresentar consciência de seu mundo interno e capacidade de simbolização – se reconhece como pessoa inteira; \n(2) necessitar de maior elaboração em direção à personalização e  à consideração plena do outro; ou (3) requerer \numa regressão aos estágios mais primitivos do desenvolvimento, nos quais a integração psique -soma ainda está \nem processo de constituição. Winnicott enfatiza, assim, a importância de adaptar a técnica analítica de acordo com \na posição do paciente em seu processo maturacional. Considerando esse fator, a regressão deixa de ser \ncompreendida como mero recuo defensivo, passando a ser reconhecida como parte essencial do tratamento em \ncertos quadros, desde que sustentada por um enquadre suficientemente bom. \n\n \n42 \n \ncontexto, o objetivo do processo analítico é possibilitar a conquista de uma espontaneidade de \nser acompanhada da capacidade de assumir responsabilidade  por escolhas que, embora \ninconscientes, expressam a verdade do self. Com efeito, Winnicott enfatiza: \n \n[...] é muito simples, e que poucas palavras são suficientes para dar conta do assunto. \nA psicoterapia ocorre na intersecção entre duas áreas do brincar, a do paciente e a do \nterapeuta. Tem a ver com duas pessoas brincando juntas. O corolário disso é que, \nquando essa brincadeira não é possível, o trabalho do terapeuta consiste em retirar o \npaciente de um estado marcado pela incapacidade de brincar e trazê -lo para um \nestado em que consegue fazê-lo. (1971/2019, p. 69, grifos meus) \n \nO brincar, conforme conceituado por Winnicott (1971/2019), ocupa um lugar central na \npsicoterapia, justamente por estabelecer um espaço intermediário entre a realidade interna e a \nrealidade externa. Trata -se de um espaço potencial,  onde espaço e tempo suficientes são \ndisponíveis para que a ação se realize por si mesma e sem a exigência imediata de ser traduzida \nem pensamento ou desejo. É nesse território lúdico que o sujeito pode vivenciar suas demandas \nde maneira criativa, transitando da simples necessidade de agir para a capacidade de refletir, \nconsiderar e elaborar suas experiências. \nO espaço potencial, de intermédio, é conceituado por Winnicott (1971/2019) como pilar \nfundamental da capacidade do ambiente de se adaptar ao indivíduo , ou seja, o meio precisa \nser suficiente e sensível às necessidades da pessoa, promovendo um ambiente que favoreça o \ndesenvolvimento e a expressão singular. Estas experiências são possíveis somente nas relações \nde confiança.  \nElsa Dias (2023), destaca o valor da confiança na psicanálise de Winnicott e reforça que \na construção dessa relação de confiança não ocorre somente por uma via de realidade concreta, \né uma qualidade de relação que supera o poder contar e confiar em alguém intimidades, \nsegredos e/ou vulnerabilidades, é  parte de fantasias que percorrem esse relacionamento, \nbaseado no compromisso ético  e profissional de cuidar de cada caso clínico com \nresponsabilidade. \nNo processo de psicoterapia com adultos, o brincar mantém sua importância, ainda que \nem forma adaptada, pois torna-se um modo autoral de apropriação da realidade e das próprias \nnecessidades, sustentado em uma relação suficientemente confiável. O “fazer” no brincar \nestabelece um equilíbrio singular entre desejo, pensamento e demandas do ambiente, \ncompondo, assim, um modo criativo e subjetivo de existir. É nessa direção que Winnicott \n\n \n43 \n \n(1971/2019) afirma: “a psicanálise foi desenvolvida como uma forma altamente especializada \nde brincar, em prol da comunicação consigo mesmo e com os outros” (p. 72).  \nEssa comunicação não começa pela fala, para Winnicott (1949/2021) é pelo gesto, pelo \ncorpo, pela vivência partilhada no campo transicional da clínica. Desse modo, a escuta \npsicanalítica pode operar como um lugar de reinscrição simbólica da dor. Um espaço onde \naquilo que o corpo expressa possa, finalmente, ser escutado, reconhecido e transformado  em \nnarrativa. “Uma característica da psicanálise é que o analista não desperdiça o valioso material \nque emerge para análise nos termos do relacionamento emocional entre paciente e o analista” \n(WINNICOTT, 1958/1983, p.108).  \n \nO analista deve dispor de toda a paciência, tolerância e confiabilidade  de uma mãe \ndedicada a seu bebe. Deve reconhecer os desejos do paciente como necessidades. \nDeve deixar de lado quaisquer outros interesses a fim de estar disponível e ser pontual \ne objetivo. (WINNICOTT, 1947/2021, p. 369, grifos meus) \n \nDizer “meu trabalho é ser eu mesmo ”, como afirma Winnicott (1968/2021, p.  63), é \nreconhecer que o exercício clínico implica oferecer algo de si sem perder a totalidade . A \npsicoterapia, nessa direção, torna -se um encontro cuidadoso entre dois mundos psíquicos , o \nanalista e o analisado. É um espaço em que o analista oferece sua presença como continente e \ndado de realidade, possibilitando que o outro se experimente como alguém inteiro e real. \nPor isso, a psicoterapia Winnicottiana pode ser especialmente potente para acolher \nmulheres que vivem dores que ultrapassam os limites do corpo biológico. Ao permitir que a dor \nencontre forma simbólica e seja sustentada na relação, a clínica se torna espaço de cuidados  \ndo self, de reconexão com o corpo habitado e de reflexões das experiências que marcaram a \ncontinuidade de ser.  \n  \n\n \n44 \n \n2.3.5. QUADRO CONCEITUAL \n \nTabela 1: Quadro conceitual \n \nConceito Descrição Referência \nEndometriose Doença inflamatória crônica caracterizada pela \npresença de tecido endometrial fora do útero, \nprovocando dor, infertilidade e comprometimento \nda qualidade de vida. \nOMS, 2023; MAZUR BIALY, \n2024; FACCHIN, 2021 \nDor pélvica crônica Sintoma predominante na endometriose, muitas \nvezes resistente a tratamentos médicos e associada \na prejuízos físicos e emocionais. \nMAZUR BIALY, 2024; del \nPINO-SEDEÑO, 2024; \nLUNDE, 2024 \nImpactos psicológicos da \nendometriose \nA endometriose compromete a saúde mental, \nsexualidade, vínculos afetivos e identidade \nfeminina, podendo provocar ansiedade, depressão \ne sofrimento emocional. \nZIPPL et al., 2023; \nSZYPLOWSKA et al., 2023; \nRAMOS et al., 2024 \nTeoria Psique-Soma Conceito de Winnicott que expressa a integração \nentre psique e corpo, construída desde as primeiras \nexperiências corporais mediadas pelo cuidado , \nbusca pela unidade “psicossoma”. \nWINNICOTT, 1962/1983; \n1949/2021; 1971/2024 \nPersonalização Sentimento de estar dentro do próprio corpo, \nindicando que a psique passou a habitar o soma de \nforma a ser uma unidade  subjetiva. Sentir em si \nmesmo. \nWINNICOTT, 1945/2021; \nNAFFAH NETO, 2017; DIAS, \n2017 \nSelf verdadeiro e falso self Dimensões do self descritas por Winnicott: o \nverdadeiro self  é espontâneo e autêntico; o falso \nself surge como defesa quando o ambiente falha em \nacolher o sujeito. \nWINNICOTT, 1960b/1983; \nNAFFAH NETO, 2017 \nEspaço potencial Espaço intermediário entre realidade interna e \nexterna, onde o brincar, o cuidado e a subjetividade \nse desenvolvem na relação terapêutica. \nWINNICOTT, 1971/2019; \nDIAS, 2023 \nEscuta analítica \nwinnicottiana \nForma de escuta clínica baseada na teoria de \nWinnicott, que valoriza a expressão simbólica e \nsustenta a continuidade do ser por meio da relação \ntransferencial. \nWINNICOTT, 1947/2021; \n1958/1983; 1960a/1983 \n \nFonte: Elaboração própria. \n  \n\n \n45 \n \n3. METODOLOGIA \n3.1. DESENHO GERAL DE DELINEAMENTO MISTO \n \nA presente pesquisa adota um delineamento de métodos mistos, integrando abordagens \nquantitativa e qualitativa para ampliar a compreensão sobre os impactos psicológicos da \nendometriose. A primeira etapa consiste em uma revisão de escopo, de caráter quantita tivo e \ndescritivo, voltada ao mapeamento das contribuições da psicologia no tratamento de mulheres \ncom endometriose. A escolha por essa metodologia surgiu da necessidade de ampliar o olhar  \npara diversos tipos de estudos e resultados possíveis nos estudos que relacionem a psicologia \ncom a endometriose. Essa escolha permitiu não apenas identificar as contribuições já existentes \nna psicologia, mas também abrir caminhos para que o campo da psicanálise encontre bases mais \nsólidas para futuras pesquisas, respeitando o tempo e o amadurecimento que o conhecimen to \ncientífico exige. \nPara isso, analisou-se publicações científicas que abordam a interseção entre a \npsicologia e a endometriose a partir da metodologia de Arksey e O’Malley (2005), conforme \nas diretrizes atualizadas do Joanna Briggs Institute (JBI) (PETERS et al., 2020). Esse método \npermite um mapeamento amplo das evidências científicas, sem restrição a desenhos de estudo  \nespecíficos, o que é adequado para explorar um campo de pesquisa que ainda está em \ndesenvolvimento como a intersecção entre psicologia e endometriose, buscando por achados da \npsicanálise. Essa escolha se deu a partir da  avaliação realizada preliminarmente no percentual \nde estudos do campo da psicologia comparado com os estudos de endometriose. \nA segunda etapa compreende um estudo de caso clínico, de natureza qualitativa e \ninterpretativa, cuja finalidade é analisar, à luz da teoria psicanalítica de Donald Winnicott, o \nprocesso psicoterapêutico de uma paciente com diagnóstico de endometriose. O estudo é de um \ncaso único, escolhido por conveniência, retrospectivamente, conduzido metodologicamente sob \numa perspectiva psicanalítica teórico-clínica. O objetivo dessa etapa é investigar a experiência \nsubjetiva de uma paciente com endometriose.  A pesquisa-escuta sob a perspectiva \nWinnicottiana permit e que,  através da  escuta clínica , possa haver elaboração  subjetiva do \nanalista. Refere-se a um método que privilegia a construção de sentido a partir da experiência \nemocional vivida na relação analítica, permitindo que o pesquisador se deixe afetar pelos \natravessamentos do caso (MEZAN, 2006; NAFFAH NETO & CINTRA, 2019).  \nA escolha dessa abordagem se apoia na singularidade da clínica psicanalítica e enfatiza \no valor interpretativo e ético do encontro com o outro. A construção narrativa do caso não se \n\n \n46 \n \nlimita ao relato cronológico de eventos, mas emerge como uma reelaboração da experiência  a \npartir da memória da analista e nos efeitos da escuta (KUPERMANN, 2009). O material clínico, \nportanto, é apresentado como produto de uma escuta que se construiu ao longo do processo e \nque respeita a singularidade da análise da paciente , o sigilo e os efeitos transferenciais \nimplicados (DALLAZEN et al., 2012; MEZAN, 2019).  \nA análise foi realizada a partir da reconstrução d e parte do  percurso terapêutico com \nbase na memória da analista e nas contribuições retrospectivas da paciente, as quais foram \nobtidas por meio de perguntas direcionadas ao foco deste estudo. \n3.2. REVISÃO DE ESCOPO  \n \nDELINEAMENTO E REGISTRO \n \nPara alcançar um dos objetivos específicos delineados neste trabalho, um estudo de \nrevisão de escopo foi propos to para mapear e compreender as contribuições da psicologia no \ntratamento emocional de mulheres acometidas pela endometriose. Este método investiga de \nforma ampla assuntos que podem, ainda, estar fragmentados conceitualmente, como temos nas \ndiferentes formas de contribuição da psicologia para uma clínica – intervenção (MUNN et al., \n2018).  \nEmbora revisões sistemáticas sejam as estratégias mais utilizadas para avaliar a eficácia \nde intervenções, um dos diferenciais desse trabalho , alinhado à revisão de escopo, é de poder \ncompreender a amplitude do conhecimento produzido sobre um tema. Logo, a revisão de \nescopo permite uma perspectiva panorâmica sobre a interseção entre psicologia e endometriose \n(PETERS et al., 2020, MUNN et al., 2018) . O objetivo é esclarecer conceitos, mapear \nabordagens metodológicas e evidenciar lacunas no conhecimento para futuras pesquisas como \nem casos de elaborações de protocolos de cuidado psicológico a essa população (ARKSEY & \nO’MALLEY, 2005; TRICCO et al., 2018). \nA revisão seguiu a estrutura metodológica proposta pelas diretrizes do Joanna Briggs \nInstitute (JBI) para revisões de escopo que orienta m a condução desse tipo de investigação de \nmaneira sistematicamente rigorosa e transparente (PETERS et al., 2020). Além disso, adota-se \ncomo referência as diretrizes do PRISMA -ScR ( Preferred Reporting Items for Systematic \n\n \n47 \n \nReviews and Meta -Analyses extension for Scoping Reviews )25 para garantir a clareza na \nidentificação, seleção e análise dos estudos incluídos (TRICCO et al., 2018). \nA revisão de escopo é conduzida em etapas sequenciais a fim de garantir a \nconfiabilidade dos achados e a reprodutibilidade do processo. Essas etapas incluem: elaboração \nde pergunta de pesquisa, definição do s objetivos, escolha de tema e hipótese  para elaboração \nda estratégia de busca; identificação e seleção das bases de informação de dados, científicos e \ncinzenta; definição dos critérios de inclusão e de exclusão; elaboração dos descritores e escolha \ndos operadores booleanos da estratégia adotada para as buscas; buscas nas bases selecionadas; \ntriagem de estudos; extração dos dados obtidos; análise, síntese e apresentação dos resultados; \ndiscussão dos resultados; e redação de acordo com as diretrizes PRISMA-ScR para a publicação \nem revistas científicas de alto impacto.  \nO protocolo foi registrado no Open Science Framework (OSF) e pode ser consultado \npela identificação  DOI 10.17605/OSF.IO/WXE7V  (RUFINO et al., 2025) , garantindo \ntransparência e reprodutibilidade do estudo. \nA elaboração da pergunta norteadora foi baseada no percurso de exploração do tema \napresentado na introdução deste estudo, que apresentou escassez de estudos na psicanálise com \nmulheres com endometriose e  importante lacuna sobre a psicoterapia a mulheres com \nendometriose. Sendo assim, a pergunta que norteia esta revisão de escopo é: “De que maneira \na psicologia tem contribuído para o tratamento emocional de mulheres acometidas pela \nendometriose, e quais intervenções psicológicas já têm se mostrado eficazes no apoio a essa \npopulação?”. \n3.2.1. ESTRATÉGIA DE BUSCA  \n \nA pergunta norteadora foi estruturada com base no acrônimo PCC: População (P) – \nmulheres diagnosticadas com endometriose; Conceito (C) – estudos que abordam a psicologia \nna compreensão teórica ou em intervenções psicoterapêuticas; e Contexto (C) – atuação da \npsicologia no tratamento dos sintomas psicológicos da endometriose (ANEXO A).  \nA metodologia PRISMA, já traduzida ao português (PAGE et al., 2020), foi selecionada \npara a exposição do percurso deste estudo e dos resultados da revisão (ANEXO B). A busca foi \nrealizada de forma sistemática nas principais bases de dados da área da saúde e psicologia: Web \n \n25 Uma lista de Itens Preferenciais para Relato de Revisões Sistemáticas e Extensão de Meta -Análises para \nRevisões de Escopo que auxilia na sistematização das informações e garante a reprodução da pesquisa futuramente. \n\n \n48 \n \nof Science ; Scopus26; BVS27; PsycInfo28; e PubMed29; além da literatura cinzenta, como \ndissertações, teses  e relatórios técnicos  disponíveis na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS -\nBDTD).  \nA estratégia de busca esteve de acordo com os conceitos que estruturam acrônimo PCC: \n\"Endometrios*\" presente no título do artigo para capturar artigos especificamente sobre  \nendometriose, combinados com termos relacionados ao campo psicológico, tais como \"Mental \nhealth\", \"Mental\", \"Psychological\", \"Psychopathological\", \"Psychosomatic\", \"Quality of life\", \n\"Interpersonal relationships \", \" Psychiatric\", \" Emotional complaints \", \" Psychotherapy\", \n\"Depression\" e \" Anxiety\". Esses termos serão combinados utilizando operadores booleanos \n(\"AND\" e \"OR\") para garantir uma busca abrangente e precisa (ANEXO C).  \nA exemplo, a pesquisa realizada na Web Of Sciece que seguiu a seguinte estratégia de \nbusca: \"Endometrios*\" ( Title) e \"Mental health \" OR \"Mental\" OR \"Psychological\" OR \n\"Psychopathological\" OR \" Psychosomatic\" OR \" Quality of life \" OR \" Interpersonal \nrelationships\" OR \" Psychiatric\" OR \" Emotional complaints\" OR \" psychotherapy\" OR \n\"Depression\" OR \"Anxiety\" (Any Field) (ANEXO C). \nO processo de seleção dos estudos seguirá as diretrizes PRISMA -ScR e será realizado \nem três grandes etapas: Leitura de títulos e resumos para eliminar artigos irrelevantes;  Leitura \nintegral dos textos selecionados para verificar o alinhamento com os critérios de inclusão;  e \nExtração e categorização dos dados em uma planilha padronizada. \n3.2.2. SELEÇÃO DE ESTUDOS \n \n \n26 Segundo o portal da Biblioteca da Faculdade de Medicina da USP (2025), a base Scopus, da editora Elsevier, é \numa plataforma internacional de indexação científica que disponibiliza acesso a milhões de registros atualizados \nsemanalmente. Reúne informações sobre artigos, revistas, métricas de impacto, autores e instituições, abrangendo \nmais de 23 mil títulos de revistas e outros documentos acadêmicos, como patentes e anais de eventos . \n \n27 Segundo o portal da Biblioteca da Faculdade de Medicina da USP (2025), o Portal Regional da Biblioteca Virtual \nem Saúde (BVS) integra diversas fontes de informação científica e técnica em saúde, com o objetivo de ampliar o \nacesso ao conhecimento na América  Latina e no Caribe. Desenvolvido pela BIREME, oferece interface trilíngue \ne recursos como filtros, busca avançada, exportação de resultados e integração com os vocabulários DeCS/MeSH. \n \n28 Segundo o portal da Biblioteca da Faculdade de Medicina da USP (2025), a PsycINFO é reconhecida como a \nprincipal base de dados em psicologia do mundo, abrangendo também áreas correlatas como psiquiatria, educação \ne ciências sociais. Atualizada semanalmente, oferece acesso a milhões de resumos de artigos, capítulos de livros, \neditoriais e outras referências bibliográficas provenientes de publicações altamente qualificadas. Com mais de \nquatro milhões de registros, incluindo cobertura retrospectiva desde o século XVI, a base reúne atualmente cerca \nde 2.500 títulos, sendo a maioria de periódicos revisados por pares. \n \n29 Segundo o portal da Biblioteca da Faculdade de Medicina da USP (2025), o PubMed compreende mais de 26 \nmilhões de citações para literatura biomédica do MEDLINE, revistas de ciências da vida e livros on -line. As \ncitações podem incluir links para conteúdo de texto completo da PubMed Central e sites de editores. \n\n \n49 \n \nA seleção dos estudos seguiu conforme o fluxo sistemático fundamentado nas diretrizes \nPRISMA-ScR (PETERS et al., 202 0; TRICCO et al., 2018) e foi realizada em três etapas \nsequenciais, sendo a primeira a remoção de duplicatas, seguido da triagem de títulos e resumos \ne por último a leitura completa dos textos selecionados. Essas etapas seguiram os critérios que \nforam pré-estabelecidos para esse estudo, abaixo discriminados.  \n \nCRITÉRIOS DE ELEGIBILIDADE \n \nO estudo proposto é dedicado a mapear e identificar, através da pesquisa sistematizada, \na contribuição da psicologia para a população de mulheres acometida pela endometriose . Para \nacessar os artigos que oferecem esse conhecimento, a partir da estratégia PCC, acima explicada, \nalguns critérios foram melhor descritos para orientar na triagem dos artigos desta revisão. \n \nCRITÉRIOS DE INCLUSÃO \n \nOs critérios de inc lusão adotados estão organizados por participantes, conceito e \ncontexto. Para participantes, fo ram considerados elegíveis os estudos com: Mulheres com \nendometriose, uma doença ginecológica que pode ria ou não ter comorbidades ; Das \ncomorbidades, foi considerado a Endometriose e Adenomiose  ou Dor Pélvica Crônica  ou \nCistite Intersticial (Síndrome da Bexiga Dolorosa – BPS) ou Síndrome do Cólon Irritável (SII); \nDesses estudos, foram incluídos se os dados qualitativos puderem ser atribuídos de forma clara \ne singular à população de interesse, no caso, endometriose; As participantes poderiam ser de \nqualquer país, grupo étnico ou raça, orientação sexual, idade ou estado de saúde, desde \ncondições de saúde mental, qualidade de vida e aspectos psicológicos estivessem relatados; As \nqueixas psicológicas poderiam incluir comorbidades psiquiátricas como depressão, ansiedade \ne impactos nas atividades diárias por conta da dor ; e o utras comorbidade s psicológicas ou \npsiquiátricas poderiam ser incluídas. \nPara o critério definido para o conceito, foram considerados elegíveis os estudos que: \nsão baseados na psicologia, de compreensão teórica, experimental ou outros, focados na \nintersecção entre os conceitos da endometriose e impactos emocionais de foco psicológico ; \npoderiam ser estudos que explor assem os aspectos psicológicos da endometriose de forma \nquantitativa ou qualitativa, desde que houvesse interesse em compreender a psicologia como \numa forma de intervir ou analisar isoladamente as pacientes diagnosticadas com endometriose; \nprecisavam focar nas considerações da psicologia a população acometida pela doença, \n\n \n50 \n \npensando em impactos psicológicos e/ou psiquiátricos, em qualidade de vida, na produtividade, \nvida financeira, sexual, entre outros achados que poderiam ser mapeados se forem encontrados \ne estivessem dentro do campo da psicologia ; e no que se refere à compreensão da psicologia, \nfoi incluído qualidade de vida e saúde mental. \nPara o critério definido para o contexto, foram considerados elegíveis os estudos que: o \ncontexto de tratamento foi de matriz psicológica, como intervenções diretas  psicoterapêuticas \nou reflexivas sobre o adoecimento da mulher com endometriose, como em estudos teóricos ou \nestudos de caso; levou-se em consideração estudos globais que possuem o fator interventivo de \npsicologia; objetivo do estudo deveria estar dedicado a diferenciar os tratamentos e intervenções \nda psicologia já pensados e testados, seus possíveis resultados ou resultados e as reflexões \npsicológicas ou interventivas acerca de casos. \nNão foi incluído nenhum critério de tempo, pois o  intuito é apresentar e explorar os \nconteúdos que tragam contribuições teórico -prática da clínica  na psicologia para o \nacompanhamento dos sintomas psicológicos de mulheres com endometriose e mapear como os \nestudos foram evoluindo, ao longo dos anos, compreendendo o percurso que a ciência adotou.  \nDurante a fase de leitura completa dos estudos selecionados, surgiram casos de \nduplicidade ou sobreposição de publicações, os quais foram discutidos coletivamente. De \nacordo com o Cochrane Handbook for Systematic Reviews of Interventions  (HIGGINS et al., \n2019), a unidade de análise em revisões é o estudo, e não a publicação. Um mesmo estudo pode \noriginar diversos documentos (como artigos, relatórios e resumos), sendo responsabilidade dos \npesquisadores de revisão identificar e agrupar esses registros, selecionando aquele que melhor \nrepresente o conjunto de dados do estudo. \nDiante disso, foi definido que, nos casos em que dissertações ou teses fossem \ncomplementadas por artigos científicos, a preferência foi dada aos artigos. Apenas quando não \nhouvesse artigo correspondente que respondesse adequadamente à pergunta de pesquisa é que \na dissertação ou tese seria mantida como fonte principal. \nDa mesma forma, quando dois ou mais artigos referiam -se a um mesmo estudo, foi \nrealizada uma análise conjunta entre os pesquisadores, com base nos critérios da revisão, para \neleger aquele que apresentava de forma mais clara e completa as informações releva ntes à \npergunta de pesquisa. Essa escolha visou evitar duplicidade de dados e garantir maior \nconsistência à análise. \nProtocolos de estudo foram incluídos, exceto nos casos em que os resultados finais já \nhaviam sido publicados; nesses casos, optou-se pela inclusão apenas do artigo completo. Cada \n\n \n51 \n \nprotocolo foi rastreado nas bases de dados para verificar se sua versão final havia sido \ndivulgada. \nNo caso de publicações corrigidas, considerou -se apenas a versão com correções. Isso \nse justifica pelo fato de que os dados originalmente publicados podem conter equívocos, e a \nversão corrigida assegura maior clareza, confiabilidade e atualidade às informa ções \napresentadas. \n \nCRITÉRIOS DE EXCLUSÃO \n \nPara auxiliar na decisão, os critérios de exclusão foram organizados tais quais os \ncritérios de inclusão, podendo ser facilmente identificados e decididos. Como critérios de \nexclusão, dentro do critério de população, foram desconsiderados para essa revisão : estudos \ncom animais; estudos com mulheres com outras doenças ginecológicas que não endometriose  \nou que não citaram a endometriose em seus estudos; e studos dos quais os dados de \nendometriose foram secundários a ponto de não poderem ser mapeados de forma \nindividualizada para essa população; e estudos que não tiveram fundamentos da psicologia e de \naspectos psicológicos da endometriose, como estudos que focaram em abordar a etiologia de  \ndoenças ou características hormonais, por exemplo. \nDentro do critério de conceito, foram desconsiderados para essa revisão: e studos de \nintervenções e considerações acerca de outras áreas, como terapias hormonais, medicamentosos \ne procedimentos cirúrgicos; estudos com foco em outras terapêuticas complementares como \nfisioterapia, yoga, a cupuntura, artes ou outros que,  ainda que os achados fossem de aspectos \npsicológicos, não eram oriundo de contribuições da psicologia; e estudos em que os resultados \npsicológicos fossem consequências dos tratamentos outros.  \nDentro do critério de conceito, foram desconsiderados para essa revisão: estudos que \nobjetivaram resultados focados em achados clínicos, médicos, laboratoriais, como resultados \nde exames médicos  ou te tratamentos cirúrgicos; resultados secundários a intervenções \nmedicamentosas ou outras áreas que não fossem de intervenção psicológica, como melhora no \nsofrimento percebido após a introdução medicamentosa; e studos que vis am validações \npsicométricas de questionários de qualidade de vida e outros ; Diretrizes; es tudos de \nmetodologia de resumo; e Comentários de textos, palestras ou congressos. \nOptou-se por excluir revisões sistemáticas para evitar a duplicação de achados e garantir \nque os estudos analisados sejam primários, permitindo uma avaliação mais detalhada das \nabordagens psicológicas na endometriose sem interferência da síntese de dados pré-existentes. \n\n \n52 \n \nA razão da escolha pela exclusão de revisões é pela repetição percebida nas referências dos \nestudos de revisão e os estudos primário acessados diretamente, interferindo na compreensão \ndos resultados que pudessem contribuir exclusivamente para o campo em qu e estamos \nestudando a intersecção, que é da psicologia com a endometriose. \nArtigos que não estivessem disponíveis pelas bases assinadas pela universidade de São \nPaulo e/ou que o contato não obteve retorno e também artigos dos idiomas que nenhum membro \ndo grupo tivesse domínio, como foi o caso dos idiomas: Holandês, grego, árabe. \n \nEXTRAÇÃO DE DADOS  \n \nA coleta de estudos elegíveis foi realizada nas bases de dados escolhida entre os dias 12 \ne 19 de novembro de 2024. Para a realização da pesquisa uma equipe de oito pessoas foi \nformada. Esta equipe é composta por um professor livre docente, uma colaboradora doutora, \ntrês colaboradores mestres e três colaboradoras especialistas. Foram recebidas contribu ições \nmetodológicas de um professor supervisor do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina \nda USP, destes, sete participantes foram pesquisadores ativos nessa revisão. \nInicialmente foram realizadas as buscas diretamente em cada uma das bases de dados \nescolhidas para essa revisão, então, todos os arquivos foram importados para o gerenciador de \nreferências EndNote30 (versão 21.4, Build 18113, atualizado em julho de 2024), que permitiu a \nidentificação automatizada de registros duplicados. Posteriormente uma checagem manual foi \nrealizada, reduzindo redundâncias e garantindo maior precisão e assertividade na fase seguinte. \nOs estudos selecionados foram exportados para a plataforma Rayyan31 (versão 1.5.1, \nimplantada em outubro de 2024) para a realização da triagem por títulos e resumos. Nessa etapa, \nforam montados três grupos de trabalho , contendo, em cada um deles, d ois revisores, cegados \ne independentes (MOURAD et al., 2016) . Em caso de divergências, um terceiro avaliado r \nestava disponível para resolver as discordâncias. A organização foi: Grupo 1, com os Revisores \nprimários TR e YM e terceiro avaliador LD; Grupo 2, com os Revisores primários MK e BG e \nterceiro avaliador TR; e Grupo 3, com os Revisores primários LD e TA e terceiro avaliador TR.  \n \n30 O EndNote é um software de gerenciamento de referências bibliográficas amplamente utilizado por \npesquisadores, pois facilita a organização, formatação e inserção automática de citações e referências ao longo da \nredação de artigos e trabalhos científicos (ENDNOTE, 2025). \n \n31 Rayyan é uma ferramenta online desenvolvida para auxiliar pesquisadores na triagem e seleção de estudos em \nrevisões sistemáticas, permitindo colaboração entre membros da equipe, marcação de critérios e acesso remoto, \ninclusive offline (RAYYAN, 2025). \n\n \n53 \n \nPara garantir um trabalho  metodologicamente uniforme , foram realizadas reuniões \nquinzenais que favoreceram um trabalho transparente  e de fortalecimento dos critérios de \nelegibilidade. Nos casos de divergências, a lém do terceiro revisor, o grupo de pesquisa \npresenciou cerca de 10% das tomadas de decisões do terceiro revisor e, em caso de eventuais \ndiscordâncias, a discussão era colocada em pauta para resolvermos em reunião e haver tomada \nde decisão coletiva.  \nNa terceira e última etapa de triagem , uma planilha de Excel32® foi elaborada para a \norganização dos estudos selecionados . A recuperação dos textos completos foi realizada \nmanualmente, utilizando os acessos institucionais da universidade. Os artigos foram \narmazenados em uma pasta online compartilhada, permitindo o acesso de todos os membros do \ngrupo de pesquisa. \n Nesta revisão foi testado o uso da inteligência artificial (IA) Chat GPT 33(versão Plus \n4.0) como ferramenta auxiliar na primeira revisão dos textos completos incluídos. A IA foi \naplicada de forma experimental, utilizando um comando previamente testado em 5% dos artigos \nantes da definição final do modelo de triagem. O comando utilizado está disponível para fins \nde replicação e aprimoramento metodológico com uso de ferramentas como essa (ANEXO D).  \nÉ importante ressaltar que todas as decisões foram revisadas por humanos, garantindo \nque a IA não substituísse a análise crítica dos revisores , ou seja, os estudos analisados pela IA \nforam posteriormente lidos integralmente por pelo menos um revisor humano (TR ou YM), que \nvalidou ou contestou as sugestões geradas pela ferramenta.  \nEssa etapa foi feita tanto pela dupla checagem humana, como diretamente com o uso da \nferramenta (ANEXO E). Essa etapa não terá seus resultados apresentados aqui, pois será feito \num estudo de estatística básica para avaliação da assertividade das respostas, bem como os \nproblemas e os benefícios identificados neste recurso. No entanto, destaco o uso desse recurso \npara afirmar que ele fez parte da leitura do artigo  e que foi um norteador importante para a \norganização das informações de acordo com os critérios de elegibilidade, sendo um ótimo guia \npara ajudar a identificar os critérios de elegibilidade. \nDito isso, a leitura completa dos artigos foi realizada individualmente pelos \npesquisadores LD, MK, TA, BG, DL, TR e YM, sem o uso de ferramentas automatizadas. Nos \n \n32 O Microsoft Excel é um software que facilita o cálculo, a organização e a análise de dados por meio de \nferramentas como gráficos, fórmulas e formatação condicional, permitindo uma visualização eficiente das \ninformações (MICROSOFT, 2024). \n \n33 O ChatGPT é um modelo de linguagem baseado em inteligência artificial desenvolvido pela OpenAI, projetado \npara compreender e gerar textos em linguagem natural, sendo amplamente utilizado em contextos educacionais, \nprofissionais e de pesquisa (OPENAI, 2025). \n\n \n54 \n \ncasos de discordância entre a primeira e a segunda avaliação, um terceiro revisor independente \ntomou a decisão final. Essas decisões foram discutidas semanalmente em reuniões do grupo de \npesquisa, assegurando transparência e alinhamento a escolha metodológica. Quando não havia \nconsenso entre os avaliadores , um revisor sênior (FL) foi consultado para a decisão final, \ngarantindo um critério de supervisão externa para casos mais complexos. \nO instrumento de coleta e extração dos dados foi feito em planilha elaborada pela autora \nno Microsoft® Excel®, em uma tabela geral, disponibilizada em Google Drive34que abarcasse \ndesde a identificação até a avaliação. Cada artigo foi examinado por pelo menos dois revisores \ncom extração de dados realizada por um revisor. Foram registradas justificativas para inclusão \nou exclusão. Nos casos de dúvida, os estudos passaram por uma dupla verificação, realizada \npor um terceiro revisor e/ou em discussão de grupo em reuniões semanais. \nO instrumento de extração de dados  incluiu o resumo estruturado  do artigo , \ncontemplando os objetivos, a pergunta de pesquisa e os critérios de inclusão estabelecidos pelos \nautores, quando presentes. Os artigos foram classificados conforme a metodologia empregada \ne o tipo de estudo (qualitativo, quantitativo, misto, revisão teórica, ensaio clínico etc.).  \nNos casos em que os estudos apresentavam intervenção psicológica, foram extraídos \ndetalhes sobre a natureza da intervenção, seu formato e, caso fosse uma terapia, a duração do \ntratamento, quantidade de participantes, grupo controle e entre outras considerações \napresentadas. \nA identificação da abordagem psicológica, do método ou conceito teórico da psicologia \nutilizado no estudo foi um dos principais focos da extração. Foram registrados instrumentos de \nmedições ou escalas psicométricas utilizadas, bem como as principais queixas relatadas pelas \nparticipantes, incluindo variáveis clínicas e físicas associadas à endometriose.  Os principais \nresultados e conclusões fornecidos pelos artigos foram sintetizados, com destaque para a \nintersecção entre a psicologia e a endometriose, respo ndendo à questão central da revisão: O \nque a psicologia fez pela endometriose neste estudo? \nAlém disso, foram registradas as conclusões dos revisores leitores, considerando a \nqualidade metodológica e a relevância dos achados para a revisão de escopo. Por fim, foram \nextraídas as limitações informadas pelos próprios autores, possibilitando uma avaliação crítica \nda robustez dos estudos analisados.  Essas informações foram preenchidas de forma ampla, \n \n34 O Google Drive é uma plataforma de armazenamento em nuvem que permite aos usuários salvar, acessar e \ncompartilhar arquivos de forma segura em diversos dispositivos, facilitando o trabalho colaborativo e o acesso \nremoto aos documentos (GOOGLE, 2025). \n\n \n55 \n \nincluindo tanto com os dados fornecidos objetivamente pelos estudos quanto com as \ncompreensões surgidas após a leitura em um formulário de extração (ANEXO F).  \nA análise será realizada de forma descritiva, com o objetivo mapear possibilidades de \naplicação das contribuições da psicologia na atenção à saúde mental de mulheres com \nendometriose e dor pélvica crônica.  Os pontos a serem destacados são: Quais intervenções \npsicológicas têm sido mais investigadas? Quais abordagens teóricas predominam nos estudos? \nQuais lacunas ainda persistem na literatura científica? \n3.3. ESTUDO DE CASO PSICANALÍTICO \n \nWinnicott (1931/2021) já afirmava, antes mesmo de se tornar psicanalista, que as \n“complicações” e as “anormalidades” de um único indivíduo podem fornecer contribuições \nteóricas mais significativas do que a análise de grandes índices estatísticos. Para o au tor, a \nsingularidade da experiência  subjetiva pode revelar dinâmicas psíquicas profundas, muitas \nvezes encobertas em estudos de larga escala. Essa perspectiva se contrapõe à abordagem \ndominante na época e lança luz sobre a importância do estudo de caso como ferramenta para a \nconstrução teórica na psicanálise.  Com base nessa concepção, este estudo de caso tem como \nobjetivo contribuir com a lacuna identificada n o mapeamento da  literatura sobre o papel da \npsicologia no manejo da endometriose, por meio da análise de um caso clínico  único \nretrospectivo atendido sob a abordagem da psicanálise e de contribuições Winnicottiana em \nmeu consultório de psicologia, validando o valor de um estudo de caso singular e único, ainda \nque não permita a generalização para fins de reprodução de estudo . A escolha do caso foi por \nconveniência, de forma retrospectiva, pelas ressonâncias provocadas pelo caso. \nO caso foi atendido em consultório particular entre os anos de 2018 e 2022 e refere -se \na uma mulher, branca, nascida em 1994, solteira, portadora de endometriose e sintomas de dor \ne dor pélvica crônica, cujas queixas iniciais , quando iniciou a psicoterapia, estavam \nrelacionadas a conflitos familiares e amorosos. A escolha desse caso , ainda que por \nconveniência, não se deu por critérios aleatórios , pois a relação terapêutica  viabilizou um \nprocesso pessoal que permitiu a melhora em qualidade de vida , ou seja,  emergiu da \ntransferência estabelecida durante o processo analítico, conforme postulado por Mezan (2019). \nComo destaca o autor, mesmo após a finalização de um processo terapêutico,  certas vivências \ncontratransferenciais continuam ecoando no analista, tornando possível uma releitura \nretrospectiva do caso clínico a partir de novas articulações teóricas. \n\n \n56 \n \nA metodologia psicanalítica escolhida para embasar este  estudo fundamenta -se na \nmetodologia de pesquisa-escuta, conceito que envolve um modo de atenção ao efeito \nterapêutico, originando -se de um efeito percebido e indo rumo ao conhecimento maior, \npermitindo que o pesquisador se deixe afetar pelo repertório clínico construído. O processo \ndessa metodologia é de uma interpretação constante do contexto clínico, conforme analisado \npor Mezan (2006) ao reforçar de que a psicanálise em si é definida por sua singularidade \nafastando-se de explicações causais rígidas típicas das ciências naturais e privilegiando a \nconstrução de sentido a partir do inconsciente e da relação analítica. \n Segundo Naffah Neto e Cintra (2019, p. 24), a metodologia de pesquisa-escuta possui \na característica de “uma posição mais passiva de se deixar afetar pelo outro, numa forma de \natenção não-seletiva: a atenção flutuante, que Bion recomenda que seja ‘sem memória e sem \ndesejo’”. Nesse sentido, a  pesquisa-escuta se diferencia dos métodos empíricos tradicionais, \npois não busca a confirmação de hipóteses previamente estabelecidas, mas sim a elaboração \ncontínua de significados a partir da escuta analítica. Essa abordagem de pesquisa reforça a \nimportância da subjetividade do pesquisador, que, longe de ser um observador neutro, participa \nativamente da construção do conhecimento, articulando a clínica e a teoria em um movimento \ninterpretativo e de afetação pessoal.  \nA escrita  presente nesse estudo de  caso clínico de método pesquisa -escuta segue a \nmetodologia da construção narrativa do caso, na qual a experiência da paciente não é \nsimplesmente relatada, mas reconstruída e interpretada a partir da memória da analista. Segundo \nKupermann (200 9, pp. ), a construção do caso psicanalítico deve ser entendida como um \nprocesso dinâmico , pois “Um caso  não é apenas um relato dos eventos clínicos, mas uma \nelaboração interpretativa baseada na escuta e na reconstrução subjetiva do analista” . Assim, o \ntempo e distância do caso refletem em novos modos de construção t eórica. Esse processo \npermite atualizações da interpretação do caso e novas perspectivas.  \nRibeiro (2022) corrobora essa visão ao afirmar que, ao escrever um caso clínico, o \nanalista não apenas descreve e detalha o que ocorreu nas sessões e os estudos que permearam \no caso durante seu processo , mas também atualiza as elaborações clínicas ao reorganizar os \ndados e partes acessadas do conteúdo terapêutico, podendo ressignificar as experiências vividas \nno setting terapêutico. Dessa forma, a escrita retrospectiva assume u ma conduta  criativa e \ninvestigativa de novos detalhes e construções, permitindo novas articulações entre a teoria e a \nclínica que antes não estavam em foco. Essa criação teórica de atualização reflexiva  do caso \npode ser constituída com a escrita, leitura, e assim repetidamente. É como uma continuação \n\n \n57 \n \npara a transformação do que já aconteceu, de forma única, subjetiva, particular  da leitura \nenquanto autor de um texto de sua pesquisa. \nNa articulação da teoria com os ecos da clínica  a relação entre analista e analisando, já \npermeada pela transferência e contratransferência, não apenas constitui o campo de \ninvestigação da  pesquisa em  psicanálise, mas também orienta a própria construção teórica \n(MEZAN, 2006). Assim, a pesquisa na psicanálise está essencialmente conectada ao contexto \ncultural em que se desenvolve, sendo atravessada por influências filosóficas, sociais e \ninstitucionais, que configuram diferentes modos de compreender e praticar a clínica. \nDo ponto de vista clínico, a transferência desempenha um papel central na construção \ndo caso. Winnicott (1958/1983) destaca que  a transferência se origina n o relacionamento da \ndupla analítica que se forma no processo de análise. Nessa relação, partes inconscientes vão \nencontrando lacunas de possibilidade de surgir no ambiente confiável que se forma e o analista, \nduplamente afetado, vai compreendendo, pouco a pouco, até que seja possível a oferta de uma \ninterpretação para que aquilo seja oferecido para a consciência.  \nEssa concepção é fundamental para este estudo, pois o material clínico rememorado \ncomo um sonho e surge dentro da s possib ilidades criadas pela  transferência e \ncontratransferência, posteriormente, foi resgatado na escrita retrospectiva. A relação analítica, \nportanto, não se limita ao momento do encontro, mas continua operando na memória e na escrita \ndo analista, caracterizando o relato como uma construção de dimensão onírica ( PINHEIRO, \n2022). A pesquisa em psicanálise, então, foi feita através de uma elaboração de um texto sob a \nconstrução de algo inédito a partir da relação terapêutica, com a presença de interpretações de \nconteúdos de forma teórica daquilo que já foi prático, reven do os desejos que já estiveram \npresentes e podendo pensar na atualização deles no momento da pesquisa (DALLAZEN, 2012).   \nFinalmente, seguindo a abordagem metodológica da construção teórico -clínica de \npesquisa-escuta proposta por Naffah Neto e Cintra (2019), o estudo de caso que será elaborado \nneste trabalho terá sua concepção em parte de um efeito clínico percebido e caminha em direção \nà produção de conhecimento mais amplo sobre o impacto psicológico da endometriose. Esse \nmovimento metodológico caracteriza -se pelo método indutivo, onde a análise do caso \nindividual permite inferências teóricas mais abrangentes. \nComo destaca Mezan (2019), ainda que  a escrita retrospectiva possa atenuar certos \nconflitos transferenciais que estavam presentes no momento da psicoterapia, as marcas da \ncontratransferência continuam atuando no analista. Esse aspecto anuncia as possibilidades de \ndisponíveis para as linhas de  pesquisa em psicanálise, que nunca se fecha em conclusões \ndefinitivas, mas permanece em constante transformação. \n\n \n58 \n \nO método em psicanálise é baseado justamente na clínica da psicanálise, ou seja, \nponderações levaram em conta a subjetividade de quem pesquisa e a interferência pessoal do \nanalista / pesquisador, assim, o  estudo possui como pressuposto o estudo do inconsciente, a \nescuta, a singularidade da experiência subjetiva e a relação intersubjetiva entre o analista e \nanalisando – transferência (DALLAZEN, 2012 & TOSTA, 2019). \nPara Safra (2001), o método psicanalítico se debruçou sobre a subjetividade do sujeito \ndiante suas particularidades de modo investigativo e processual, rigoroso e não conclusivo, \nlevando em consideração a verdade de que uma psicanálise irá sempre além, bus cará sempre \nmais. Em outros termos, a consideração da singularidade de um caso único pode (e deveria, \ncada vez mais) se aproximar de uma investigação metodologicamente rigorosa e de interlocução \ncom outras áreas, ainda que não traga um resultado absoluto (e nenhum estudo de saúde traz).  \nAssim, dediquei-me, como afirma Mezan (2019), em estudar e pesquisar em psicanálise \npara permitir o estudo de pensar em si mesma para reencontrar, clarificar e aprofundar a prática \ne método.  \n \nCONSIDERAÇÕES ÉTICAS E IMPACTO DO PROCEDIMENTO \n \nEssa pesquisa segue com as diretrizes da Resolução nº 510, de 07 de Abril de 2016, \nsobre a Ética em Pesquisa na área de Ciências Humanas e Sociais, seguindo os cuidados com a \npreservação ética da pesquisa como uma a construção de revisão integrativa, histórica, social e \ncultural, priorizando pelo respeito à dignidade humana. Sendo assim, preservamos a \nidentificação da paciente garantindo sigilo, privacidade e respeito à dignidade da participante.  \nO projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do In stituto de Psicologia da USP \n(CAAE nº 75458523.2.0000.5561, Parecer nº 6.577.871) (ANEXO J). \nO termo referia a permissão da utilização da memória da analista do processo bem como \na participação ativa na entrevista semiestruturada para coletar a percepção da paciente sobre a \ndupla analítica perante os sintomas de dor pélvica crônica na endometriose. A apresentação do \nTCLE foi realizada às 19h do dia 05 de fevereiro de 2024 por um vídeo chamada no aplicativo \nGoogle Meet. Neste encontro conseguimos esgotar todas as dúvidas, assinar o termo e coletar \na disponibilidade para que as entrevistas pudessem ser marcadas.  \nA inclusão de uma entrevistadora independente possibilitou a coleta de dados de forma \nética e metodologicamente consistente, reduzindo possíveis influências transferenciais na \ncoleta de informações e, posteriormente, resultados. \n\n \n59 \n \nO encerramento da participação da paciente ocorreu no dia 28/03/2024, quando foram \nretomados os pontos do TCLE, reforçando que a participante poderia solicitar revisão ou \nretirada dos dados coletados a qualquer momento. Caso surjam novas demandas ou questões \néticas imprevistas, medidas adicionais poderiam ser tomadas para assegurar o bem -estar da \nparticipante e a integridade da pesquisa. \n \nPROCEDIMENTOS \n \nO interesse por este estudo ocorreu após o encerramento do caso clínico, quando os ecos \ndas sessões já finalizadas levaram ao interesse de realizar reflexões mais aprofundada sobre a \nrelação entre psicoterapia e os impactos psicológicos da endometriose. Dessa forma, a pesquisa \nfoi elaborada a partir da experiência clínica, configurando -se como um estudo retrospectivo, \nem que a escolha da participante antecedeu a construção da metodologia. \nA apresentação do caso clínico não será feita na íntegra, em vez disso, a análise teórico-\nclínica será fundamentada na memória da terapeuta sobre as vivências da paciente que possam \nser relacionadas à endometriose durante o processo de psicoterapia. A narrativa será construída \nde forma livre, ao longo da escrita, respeitando o método psicanalítico de análise da experiência. \nAlém disso, para complementar a reconstrução do caso e permitir um olhar mais amplo \ne atualizado sobre a experiência do atendimento psicoterapêutico , as memórias da paciente \ntambém foram recuperadas por meio de uma entrevista. Para isso, foram adotados os seguintes \nprocedimentos, passo a passo. \nApós a apresentação e aprovação do projeto e a assinatura do Termo de Consentimento \nLivre e Esclarecido (TCLE) (ANEXO H), a participante passou por uma entrevista (ANEXO \nI). Ressalta-se que a construção da entrevista foi elaborada com base em modelos utilizados na \nliteratura científica e diretrizes voltadas para mulheres com endometriose. \nPara diminuir o impacto da interferência da transferência do relacionamento terapêutico \ne permitir maior  neutralidade na coleta de dados, a entrevista não foi conduzida pela \nterapeuta/pesquisadora, mas sim por uma psicóloga independente  (MA). Essa profissional \npossui registro ativo no CRP e experiência em psicanálise psicodinâmica na clínica e na \npesquisa. Além disso, a entrevistadora é mestranda do Programa de Psicologia Clínica do \nInstituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, garant indo um olhar q ualificado e \nalinhado ao presente estudo. \nA entrevista englobou perguntas direcionadas ao diagnóstico da  endometriose e \nsintomas de dor pélvica crônica para que seu relato pessoal pudesse ser conhecido, bem como \n\n \n60 \n \nsua percepção sobre o impacto ou não que  a psicoterapia pode gerar na experiência subjetiva \nda doença.  \n \nINSTRUMENTOS \n \nA coleta de dados para este estudo foi realizada por meio de uma entrevista \nsemiestruturada por uma psicóloga colaboradora, de forma blindada garantindo que a \nentrevistadora não tivesse conhecimento prévio do caso clínico nem do conteúdo deste \nmanuscrito. Esse procedimento teve como objetivo minimizar possíveis vieses transferenciais, \npreservando a neutralidade na coleta de dados e assegurando maior rigor metodológico. Para \ntanto, foi aplicado o conceito de cegamento simples descrito por Nunan e Heneghan (2018), no \nqual a participante tinha conhecimento de quem é a aplicadora e de que ela não é quem fará a \nanálise das informações coletadas e não participará na escrita da pesquisa.  \nA entrevista teve duração total de aproximadamente três horas, distribuídas em três \nencontros, abaixo listados: \n \n11/03/2024 – Primeira sessão da entrevista semiestruturada. \n18/03/2024 – Segunda sessão da entrevista semiestruturada. \n25/03/2024 – Terceira sessão da entrevista semiestruturada. \n \nA entrevista semiestruturada foi utilizada como elemento complementar à reconstrução \nnarrativa do caso clínico, respeitando a perspectiva psicanalítica de livre associação; o vínculo \nterapêutico, ainda que esteja formalmente encerrado, continua ativo por meio de uma abertura \npara consultas eventuais combinadas entre as partes. Esse fator é relevante, pois demonstra que \na experiência do caso não se restringe ao período de análise, mas segue reverberando na \nsubjetividade da paciente e da analista, reforçando ainda mais a validade da investigação \nretrospectiva neste campo de estudo. \nEmbora haja um atravessamento da pesquisa teórico-clínica pela aplicação da entrevista, \nessa interferência não compromete a livre associação nem a autenticidade da experiência \nanalítica. Pelo contrário, trata -se de um dado adicional que possibilita novas l eituras sobre a \ntrajetória da paciente e seus atravessamentos emocionais ao longo do tratamento.  O desejo \natrelado a este desenho de pesquisa é ajudar mulheres que buscam compreensão de suas queixas \npsicológicas da endometriose.  \n  \n\n \n61 \n \nO Cronograma dos procedimentos se deu da seguinte forma: \n \nTabela 2: Cronograma de entrevista e procedimentos. \n \nData Atividade \n \n05/02/2024 \n \nAnalista faz apresentação do TCLE e projeto de estudo atualizado. \n  \n \n06/03/2024 \n \nApresentação da aplicadora e Rapport. \n  \n \n11/03/2024 \n \nColeta de entrevista semiestruturada pela aplicadora. \n  \n \n18/03/2024 \n \nColeta de entrevista semiestruturada pela aplicadora. \n  \n \n \n25/03/2024 \n \nColeta de entrevista semiestruturada pela aplicadora e Finalização do contato com a aplicadora \nem coleta de dados. \n  \n \n \n28/03/2024 \n \nAnalista fará encerramento das intervenções e retomará os pontos do TCLE, que podem ser \nsolicitados e acionados inclusive após a coleta de dados. Caso haja alguma intercorrência, \nmudanças podem acontecer. \n  \n \nFonte: Elaboração própria. \n \n  \n\n \n62 \n \n4. RESULTADOS \n4.1. REVISÃO DE ESCOPO \n4.1.1. SELEÇÃO DOS ESTUDOS E DA AMOSTRA \n \nA coleta nas bases de dados ocorreu entre os dias 12 e 21 de novembro de 2024  e \nresultou na identificação de 3.33 1 registros, os quais foram importados para o EndNote Web \npara a exclusão automatizada de duplicatas. Após essa etapa, restaram 2.553 registros, já sem \nas duplicatas detectadas pelo sistema.  Contudo, como a exclusão automática pode apresentar \nfalhas, foi realizada uma segunda triagem manual, na qual os títulos, autores e anos de \npublicação foram revisados detalhadamente para identificar duplicações remanescentes não \ndetectadas pelo software. E ssa etapa foi conduzida em dupla revisão  (TR e YM) , garantindo \nmaior precisão e evitando exclusões indevidas.  \nPor fim, 1.850 registros foram considerados e importados no Rayyan, versão 1.5.1.  para \na leitura de resumos e triagem detalhada de acordo com os critérios de inclusão e exclusão \nestabelecidos para esta revisão de escopo . Destes, mais 25 artigos duplicados foram \nidentificados na etapa de leitura de títulos e resumos, resultando em 1.825 registros incluídos.  \nEstiveram elegíveis à inclusão e passaram por leituras completas um total de 21 4 \nestudos, no entanto, 3 6 registros não foram acessíveis mesmo após tentativas de contato com \nos autores tanto via e-mail como por site de pesquisadores. Um dos autores contatados enviou \num artigo extra que correspondia aos descritores de pesquisa, foi realizada leitura na íntegra, \nporém não atendeu aos critérios de inclusão . Este estudo está incluso no total de estudos \nelegíveis citado anteriormente. \nRevisões de escopo não apresentam a obrigatoriedade ou necessidade de avaliação de \nrisco de viés e credibilidade do artigo e, por essa razão, optou -se por não realizar essa etapa, \ngarantindo que nenhum estudo deixe de ser apresentado no mapeamento a ser apresentado, uma \nvez que se trata de uma interlocução relativamente nova e que apresenta poucos ensaios clínicos \nem diferentes abordagens, por exemplo (MUNN et al., 2018). \nEm grupo, realizamos a leitura completa de  178 arquivos. Desses arquivos, 165 são \ncategorizados como  artigos e 1 3 pertencem a literatura cinzenta . Dos arquivos lidos, 1 47 \nregistros foram excluídos. Um dos maiores motivos de exclusão foi o foco na prevalência de \nsintomas psicológicos e resultados psicológicos secundários a outros tratamentos, como forma \nde medida de melhora e efetividade de outras terapêuticas, como medicamentosas ou cirúrgicas. \nAo final, 31 estudos (amostra de participantes no estudo de revisão contempla N = 2.370) \n\n \n63 \n \natenderam aos critérios de inclusão estabelecidos para esta revisão de escopo, como pode ser \nverificado no Prisma SrC (ANEXO B). \nDos 31 estudos incluídos , 2 5 são de bases científicas (artigos) e 6 são de campo \nacadêmico (teses ou dissertações) (TABELA 2). Dos estudos incluídos, 10 estudos foram feitos \na partir de compreensões subjetivas, como no caso de abordagens sociais, e 21 de estudos foram \nfeitos a partir das perspectivas comportamentais (TABELA 3).  \n \nTabela 3: Identificação da fonte de coleta de dados entre científica e cinzenta. \n \nIdentificação de base de \npesquisa \nCitações dos estudos pela autoria e ano  \n \nLiteratura cinzenta \n \nBonfim, 2019; Blunt, A. J., 2023; Brunello, 2019; Inocente, 2018; Petrelluzzi et al., \n2005; Donatti, 2015. \n  \n \n \n \n \nBase de dados científica \n \nPetrelluzzi et al., 2012; Hansen et al., 2023; Lorençatto et al., 2007; Meissner et al., \n2016; Miazga et al., 2024; Mikocka -Walus et al., 2021; Mills et al., 2023; \nShahriyaripoor et al., 2023; Spyrelis et al., 2024; Bernini et al., 2022; Boersen et \nal., 2021A; Dowding et al., 2024; Güvenç & Bozo, 2023; Hansen et al., 2017; Mor \net al., 2021; Morán -Sánchez et al., 2021; Schubert et al., 2022; Sechi et al., 2024; \nBoersen et al., 2021B; Donatti et al., 2024; Grant, 1956; Lores et al., 2024; Wu et \nal., 2022; De Hoyos et al., 2023; Moreira et al., 2023. \n  \n \nFonte: Elaboração própria. \n \nTabela 4: Diferenciação da conduta dos estudos comportamentais revisados. \n \nConduta Citações dos estudos pela autoria e ano \n \n \n \nComportamental \n \nPetrelluzzi et al., 2012; Hansen et al., 2023; Lorençatto et al., 2007; Meissner et al., \n2016; Miazga et al., 2024; Mikocka-Walus et al., 2021; Shahriyaripoor et al., 2023; \nBernini et al., 2022; Boersen et al., 2021a; Dowding et al., 2024; Hansen et al., \n2017; Schubert et al., 2022; Boersen et al., 2021b; Brunello, 2019; Donatti et al., \n2024; Inocente, 2018; Lores et al., 2024; Petrelluzzi et al., 2005; Wu et al., 2022; \nDe Hoyos et al., 2023; Moreira et al., 2023.  \n \nSubjetiva \n \nBonfim, 2019; Mills et al., 2023; Spyrelis et al., 2024; Blunt, A. J., 2023; Güvenç \n& Bozo, 2023; Mor et al., 2021; Morán-Sánchez et al., 2021; Sechi et al., 2024; \nGrant, 1956; Donatti, 2015. \n  \n \nFonte: Elaboração própria. \n \n\n \n64 \n \nGeograficamente, esta revisão revelou uma predominância de estudos oriundos do \nBrasil, que corresponde a 29,03% da amostra analisada . Na sequência, destaca-se a Austrália \n(12,90%), refletindo o compromisso dessas duas nações com investigações voltadas aos estudos \nde endometriose a partir de fundamentos da psicologia . e Dinamarca, Alemanha, Estados \nUnidos, Países Baixos e Itália aparecem com participação moderada ( 6,45% cada). Enquanto \nEspanha, China, Irã, Porto Rico, Canadá, Turquia, Israel e África do Sul  compõem a parcela \nmenos expressiva ( 3,23% cada), mas ainda assim importantes para a composição de uma \namostra internacionalmente diversa.  \nA presença marcante do Brasil pode ser compreendida a partir do uso do banco de teses \nnacional, o que abre espaço para reconhecer o valor da literatura cinzenta na divulgação de \npesquisas significativas que, por vezes, ainda não alcançaram os meios tradici onais de \npublicação científica internacional. \nMetodologicamente, os estudos analisados incluem metodologias diversas, sendo que \nos estudos de ensaios clínicos randomizados representaram um dado expressivo, indicando uma \nforte ênfase em delineamentos experimentais controlados para avaliação de intervenções \npsicológicas. Foram identificados 18 estudos de caráter interventivo  com avalição antes e \ndepois, representando um percentual de 58,06% da amostra.  Em seguida, observou -se uma \ndistribuição equilibrada entre outras metodologias. Essa diversidade metodológica sugere uma \nabordagem ampla e multifacetada no campo, combinando investigações exploratórias, \ndescritivas e experimentais, ainda que com predominância de estudos com maior controle \nmetodológico e mensuração quantitativa. \nEntre os estudos analisados, pouco mais da metade, ou seja, 62,86% dedica-se à questão \nda dor, dividindo-se entre estudos que citam a importância da dor na endometriose e o papel \nfundamental de abordar este tema como estudos que estudam formas de reduzir a dor junto as \nimplicações psicológicas estudas. Neste dado pode -se perceber o reconhecimento d o papel \ncentral na experiência da endometriose. Cito-os na explicação a seguir. \nDentro des sa análise, a maioria, correspondente a 73,68%, concentra -se em buscar \nformas de reduzir o sofrimento físico, mostrando como o alívio da dor se impõe como uma \nnecessidade contínua na clínica e na vida das mulheres afetadas , partindo do campo de estudo \nda dor para os outros sintomas, enquanto 10,53% dos estudos optam por explorar os impactos \nemocionais da dor, ampliando a compreensão para além do sintoma físico e trazendo à tona as \nmarcas que ela deixa no campo subjetivo. Em contrapartida, 15,79% dos estudos não abordam \na dor entre seus objetivos de pesquisa, ainda que apresentem de forma brevemente, em alguns \n\n \n65 \n \ncasos, que se trata de um sintoma importante para a endometriose, por sua prevalência nos casos \nrelatados no meio acadêmico e clinico.  \nEm análise temporal dos estudos , uma trajetória de crescimento progressivo é \nperceptível na produção científica ao longo das décadas. Entre 1956 e 201 8, observa-se um \npadrão de baixa frequência, com no máximo 3% de representatividade por ano isolado. A partir \nde 2019, essa tendência começa a se modificar, com aumento importante na quantidade de \npublicações. O ano de 2021 já mostra um salto expressivo, com 16% do total. Os anos de 2023 \ne 2024 se destacam como os mais produtivos, concentrando 42% dos estudos , juntos, o que \nevidencia a ampliação da investigação científica recente sobre o relacionamento entre a \nendometriose e a psicologia.  \nDo total, mais da metade dos estudos foram realizados entre os anos de 2022 a 2024 , \nsomando o percentual de 52% da amostra. Esse panorama sugere uma consolidação \ncontemporânea do campo, com maior visibilidade, investimento em pesquisas e, possivelmente, \nreconhecimento da relevância clínica e social do objeto de estudo , que é a atenção a saúde \nmental e psicológica de mulheres que sofrem com impactos  sintomáticos e emocionais  da \nendometriose (FIGURA 1). \n \nFigura 1 – Gráfico de contagem de estudos ao longo dos anos  \n \n \nFonte: Elaboração própria. \n\n\n \n66 \n \nDas características sociodemográficas,  as pesquis as selecionadas costumam incluir \ninformações de idade, nível de escolaridade, profissão, ocupação, religião e renda pessoal, bem \ncomo os dados de raça e estado civil. Alguns estudos se ocuparam de estudar um recorte racial, \ncomo no caso de Blunt (2023) , que focou especificamente em mulheres negras com \nendometriose para obter uma compreensão mais aprofundadas  das experiências específicas \ndessa população.  \nO status econômico é um ponto importante para ser avaliado na endometriose. Bonfim \n(2019) realizou um estudo qualitativo que identificou um perfil de mulheres com endometriose \nem idade reprodutiva, com ensino superior e bons salários  (BONFIM, 2019). Nesse sentido, \nShahriyaripoor et al., (2023) examinou especificamente o status socioeconômico, nível de \nsatisfação com o status socioeconômico, status de propriedade da casa, ocupação, nível de \neducação e estado civil. \n \nIMPACTOS SUBJETIVOS \n \nDiante os impactos da endometriose, o aspecto subjetivo é um dos pontos que ainda \nprecisamos ampliar estudos . Atravessados pelos aspectos físicos, a subjetividade vai se \nmanifestando de diferentes formas. Nos estudos analisados na revisão realizada, o atraso no \ndiagnóstico é um dado recorrente nos casos de endometriose ( DONATTI, 2015). A demora \nentre os sintomas e a conclusão diagnóstica é um dos pontos mais sensíveis e importantes para \nserem pensados e estudados  com mais afinco  no que tangenciamos aos impactos subjetivos , \npois mulheres sofrem todos os dias sem nenhuma compreensão do campo da saúde, até que \ntenham seus diagnósticos alcançados. Esse apontamento aparece em alguns dos estudos \nanalisados, revelando que a maior parte das pesquisas se ocupam a estudar os impactos da \nqualidade de vida dessas mulheres , inclusive como fatores de medida em intervenções \n(INOCENTE, 2018; BONFIM, 2019; SCHUBERT et al. , 2022 ; BOERSEN  et al. , 2021 b; \nMOREIRA et al., 2023). \nCompilando os estudos, pode -se verificar alguns dos os impactos psicológicos e \nemocionais mais queixados. O primeiro  fator de impacto subjetivo identificado na amostra \nanalisada é o estresse, que pode ser explicado, de acordo com os próprios artigos, como uma  \nreação inadequada do organismo que pode estar relacionada a um agente estressor ou a forma \nde p ercepção do meio.  Na condição da endometriose  os sintomas e até mesmo o próprio \ndiagnóstico podem ser fonte de estresse com a presença de estressores físicos, psicológicos e \nsociais. A incerteza sobre o futuro  pessoal, mas especialmente em relação a tratamentos \n\n \n67 \n \nmédicos e cirúrgicos, também geram estresse (PETRELLUZZI et al., 2005; DONATTI et al., \n2024; DOWDING et al., 2024). A dificuldade em engravidar também é uma fonte significativa \nde estresse diante o cenário de cobranças da sociedade para que mulheres casadas tenham filhos \n(BRUNELLO, 2019; INOCENTE, 2018; BLUNT, 2023). Somado a isso, o medo de que suas \nfilhas tenham endometriose e infertilidade por conta de aspectos genéticos e hereditários é outra \npreocupação estressante (BLUNT, 2023).  \nO estresse também pode levar a um sentimento de impotência em relação à saúde física \ne emocional, como uma falta de controle ou um sentimento de corpo que se volta conta a própria \npessoa. Deste modo, a  percepção da própria capacidade de controlar a dor está inversamente \nrelacionada ao estresse. Nesse sentido, o estresse percebido tem correlação com a pontuação de \nimpacto global da endometriose (DONATTI et al., 2024; De HOYOS et al., 2023). Do mesmo \nmodo, ou até derivando do ponto apresentado,  pode-se haver  sintomas e/ou impactos \npsicológicos, emocionais e mentais como ansiedade ou irritabilidade, depressão, ataques de \npânico e tristeza (MIAZGA et al., 2024).  \nDiante disso, o risco de desenvolvimento de problemas da ordem da saúde mental em \nmulheres com endometriose é maior, possuindo índices importantes de quadros de ansiedade e \ndepressão, independentemente de seu estado clínico ou sintomas específicos (WU et al., 2022). \nEste dado reforça a relação do e stresse à depressão, de modo que quanto maior o nível de \nestresse, mais grave a manifestação da depressão, ou vice-versa (DONATTI, 2015).  \nAdentrando melhor no campo da saúde mental, Miazga (2024) menciona a ansiedade \ncomo um impacto emocional e mental, bem como, em outros estudos, esta comorbidade é dada \ndos transtornos psicológicos mais comuns em mulheres com endometriose (DOWDING et al., \n2024). Dos gatilhos de ansiedade, são identificados a dor crônica , preocupações que cercam \nesse sintoma e a catastrofização do risco de aumento da dor  (BOERSEN et al., 2021b ). Bem \ncomo, pode -se correlaciona os quadros de ansiedade com as incertezas sobre o futuro  em \nrelação a tratamentos cirúrgicos, a dificuldade em engravidar e o medo de infertilidade também \nsão fontes de incerteza e ansiedade  endometriose, tal qual no estresse, reafirmando o \nentrelaçamento destes quadros nessas pacientes (DOWDING et al., 2024; MORÁN-SÁNCHEZ \net al., 2021; BLUNT, 2023). \nDiante o exposto, a ansiedade advém ao mesmo modo que exerce um impacto profundo \nsobre o bem -estar psicológico e emocional de mulheres que vivem com endometriose. \nFrequentemente, essa condição  se associa ao estresse, mas não estão de forma isoladas, há \nquadros de associação à depressão. A associação de tantos aspectos subjetivos e psicológicos \npode levar a um quadro de sofrimento psíquico complexo e interligado. Estudos indicam que \n\n \n68 \n \nmulheres com endometriose apresentam um risco aumentado de desenvolver sintomas  e \ndiagnósticos de ansiedade e depressão  (MIAZGA et al., 2024; DONATTI , et al.,  2024; \nDOWDING et al., 2024; BLUNT, 2023; MILLS et al., 2023; INOCENTE, 2018). \nNo estudo realizado por Dowding et al. (2024), estimou-se que a prevalência de \ndepressão na população de pessoas com endometriose seja em torno de 29% . Corroborando \ncom esse dado, o estudo de Donatti (2015) com mulheres com endometriose revelou que 86% \ndo primeiro grupo (com dor) apresentavam depressão (34% leve e 52% moderada/grave), \nenquanto no grupo sem dor, 38% tinham depressão (24% leve e 14% moderad a/grave). Estes \ndados indicam que que  a dor tem um fator importante no s sintomas depressivos, ma s que \npacientes que não tenham o sintoma de dor continuam apresentando dados expressivos de \nsintomas psicológicos depressivos.  \nAmpliando mais sobre o quadro de depressão, essa condição pode levar a importantes \nalterações de humor ( DONATTI, 2015; BLUNT, 2023), impactando na percepção de saúde \nmental e qualidade de vida de forma negativa (PETRELLUZZI et al., 2005). A dificuldade em \nfalar sobre a doença e a falta de acolhimento podem levar a sentimentos de desvalia e \nincapacidade, favorecendo a reação depressiva (LORENÇATTO et al., 2007). \nAs alterações de humor pode m levar a tristeza, que pode estar tanto relacionada aos \nsintomas depress ivos, conforme mencionado anteriormente, como também podem estar \natrelados a frustração com o diagnóstico. Nesse último caso, o caso de pacientes que se frustram \ncom seus quadros clínicos ginecológicos,  é percebido um processo de estranhamento de si \nmesmas e essas sensações podem ser um reflexo da desorganização psíquica gerada pelo \nimpacto do diagnóstico e pela necessidade de abdicar de alguns sonhos ou desejos  (BONFIM, \n2019).  \nUm sentimento presente em alguns dos relatos estudados nos artigos selecionados é de \nculpa. Este sentimento é frequente, pois, mulheres com endometriose possuem dificuldade de \ncumprir com as demandas da rotina laboral e atividade da rotina diária. D evido às dores \nincapacitantes causadas pela endometriose  muitas mulheres apresentam faltas corriqueiras no \ntrabalho, atrapalhando nas relações e a saúde financeira. A dificuldade em falar sobre a doença \npode agravar esse sentimento  de culpa . Um  exemplo possível de ser avaliado é de uma  \nparticipante do estudo de Bonfim (2019)  que relatou sentimento de culpa por não querer \nincomodar a mãe com sua d or, escondendo como realmente se sentia  (BONFIM, 2019). Em \noutro prisma podemos ver os estudos de Inocente (2018) e Moreira et al. (2023) abordarem a \npossibilidade d o sentimento de culpa estar atrelado as cobranças sociais para que mulheres \ncasadas engravidem e tenham filhos. \n\n \n69 \n \nA sintomatologia da endometriose, especialmente a dor, além do que já foi exposto, \npode levar a um quadro de falta de energia, fadiga e diminuição do interesse em atividades antes \nprazerosas. Uma das entrevistadas descreve especificamente seu sentimento de inutilidade \nnesse contexto (BONFIM, 2019).  \nA perda de um corpo saudável e ativo, associada à dor persistente, pode gerar um estado \nde dependência e limitações, contribuindo para esses sentimentos  (LORENÇATTO et al. , \n2007). Embora não explicitamente ligado ao termo “inutilidade”, a infertilidade é apontada \ncomo um fator que pode levar a sentimentos de fracasso e inferioridade  (INOCENTE, 2018). \nA preocupação com as consequências da infertilidade também é mencionada como parte da \nexperiência negativa das mulheres com endometriose (MOREIRA et al., 2023). \nA persistência dos sintomas dolorosos da endometriose pode levar as mulheres  a se \nsentirem “quebradas ou inadequadas”. A batalha contínua de viver com a doença pode adicionar \numa carga cognitiva considerável e afetar negativamente a maneira como as mulheres se sentem \nsobre seus corpos, o que pode impactar a autoestima (MILLS et al., 2023). \nA infertilidade  também é apontada como um dos principais sintomas clínicos da \nendometriose, exercendo um grande impacto na vida conjugal e social (BRUNELLO, 2019). A \npreocupação e medo com as consequências da infertilidade é uma experiência negativa comum \npara mulheres com endometriose  (INOCENTE, 2018; MOREIRA et al., 2023 ; BONFIM, \n2019). \nEm alguns estudos  outros sentimentos, além da culpa, são apresentados. A  raiva é \nbastante relatada e é apresentada como direcionada a o corpo como uma resposta emocional \nsignificativa no contexto do impacto psicológico e emocional da endometriose. Essa raiva \nparece emergir da experiência de conviver com os sintomas da doença e da percepção de que o \ncorpo não está funcionando como esperado ou desejado, sendo reconhecido como inadequado \ne não confiável . A batalha constante contra a dor e outros sintomas pode gerar exaustão \nemocional e contribuir para a raiva do corpo  (DOWDING et al., 2024 ; MILLS et al., 2023 ; \nLORES et al., 2024).  \nNesse sentido, de batalha contra o próprio corpo, m ulheres com endometriose relatam \nsentir que estão em guerra, como se seus corpos não fossem seus e estivessem fora de controle \n(MILLS et al., 2023). A fadiga também é descrita como algo sobre o qual não se tem domínio, \nassim como a imprevisibilidade dos sintomas e sua recorrência podem levar a uma sensação de \nincerteza e à perda da capacidade de prever as próprias experiências corporais, resultando em \numa sensação de falta de controle sobre o próprio corpo  (SPYRELIS et al., 2024 ). Nesse \n\n \n70 \n \ncontexto, a infertilidade também pode ser pensada como uma frustração do controle \n(MOREIRA et al., 2023). \nA experiência de mulheres de não serem ouvidas pelas equipes de saúde é destacada  \ncomo importante para o impacto no bem-estar mental (BLUNT, 2023). A falta de acolhimento \ndiante das queixas pode levar a um aumento da sensibilidade à rejeição ou julgamento  \n(BONFIM, 2019). \nNo que diz respeito à vida social, várias fontes destacam o afastamento do convívio \nsocial como uma consequência da endometriose. Uma entrevistada relatou não ter mais vontade \nde explicar por que está passando mal, pois frequentemente encontra julgamento e m vez de \nacolher (BONFIM, 2019). Mills et al. (2023) também destaca que o afastamento pode estar \nrelacionado a imprevisibilidade dos sintomas. No contexto da vida sexual, o isolamento \ntambém se manifesta. A dor durante a relação sexual (dispareunia) é um s intoma comum da \nendometriose que leva à evitação do parceiro. O medo da dor pode fazer com que a mulher não \nqueira o toque e evite a intimidade (BLUNT, 2023; BONFIM, 2019).  \nA sociedade pode ver a pessoa com dor crônica apenas na dimensão da dor, e não como \num indivíduo com múltiplas facetas, o que dificulta a manutenção de relacionamentos sociais \nsaudáveis (PETRELLUZZI et al., 2005). \n4.1.2. CATEGORIAS DE ANÁLISES \n \nA fim de responder q uais intervenções psicológicas têm sido mais investigadas, foi \nimportante identificar as diferentes categorias presentes nos estudos. Analisando -os, pode-se \ndiferenciar entre intervenções psicológicas, estudos de conceitualização e interpretação e \nestudos de relatos e correlação.  \nA i ntervenção psicológica (terapias, grupos, protocolos , estudos pilotos e ensaios \nclínicos) é a categoria que abrange estudos que descrevem, avaliam e propõem intervenções \npsicológicas específicas  e testadas  para mulheres com endometriose, incluindo diferentes \nabordagens terapêuticas, formatos (individuais, em grupo, online) e protocolos de tratamento. \nA categoria de estudos fundamentados na psicologia se destina, em seus estudos, a \napresentar dados com implicações teóricas que somam na contribuição de estudos dentro do \ncampo da psicologia para a endometriose.  \nPor fim, a categoria de relatos e dados dentro da psicologia tem como características \nestudos da psicologia que encontraram nos casos de endometriose dados importantes que foram \napresentados de forma qualitativa e narrativa.  \n\n \n71 \n \n \nTabela 5: Categorias de estudos. \n \n \nCategoria do tipo de \nestudos \nCitações dos estudos pela autoria e ano \n \n \nIntervenções \npsicológicas \n \nPetrelluzzi et al., 2012; Hansen et al., 2023; Lorençatto et al., 2007; Meissner et al., \n2016; Miazga et al., 2024; Mikocka-Walus et al., 2021; Shahriyaripoor et al., 2023; \nHansen et al., 2017; Mor et al., 2021; Schubert et al., 2022; Boersen et al., 2021b; \nBrunello, 2019; Donatti et al., 2024; Inocente, 2018; Petrelluzzi et al., 2005; Wu et \nal., 2022; De Hoyos et al., 2023; Moreira et al., 2023. \n  \n \nFundamentados na \npsicologia \n \nBonfim, 2019; Mills et al., 2023; Spyrelis et al., 2024; Blunt, A. J., 2023; Boersen \net al., 2021a; Dowding et al., 2024; Güvenç & Bozo, 2023; Morán -Sánchez et al., \n2021; Lores et al., 2024; Donatti, 2015. \n  \nRelatos e dados dentro \nda psicologia \n \nBernini et al., 2022; Sechi et al., 2024; Grant, 1956. \n  \n \n \nFonte: Elaboração própria. \n \n4.1.2.1. INTERVENÇÕES E CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA  \n \nNa categoria de intervenções, s ão 18 estudos , eles são equivalentes a 58,06% da \namostra. Desses estudos, 12 intervenções foram em grupo (66,67%), 5 intervenções foram \nindividuais (27,78%) e uma intervenção foi mista, com metade das sessões em grupo e metade \nde modo individualizado (5,56%).  \nDeste modo  fica evidente que no c onjunto de estudos de categoria de intervenção \npsicológica, há uma ênfase em abordagens coletivas para manejo e apoio, possivelmente \nexplorando benefícios como suporte social, troca de experiências e técnicas compartilhadas. \nDos estudos, apenas um (5,56%) foi classificado como conduta subjetiva (MOR et al, \n2021). Nesse estudo é realizada uma intervenção grupal baseada na terapia narrativa, com foco \nna qualidade de vida e bem-estar de mulheres com endometriose. O planejamento foi realizado \nsomente depois da avaliação das necessidades das mulheres recrutadas a partir de um modelo \nde intervenção em grupo de mulheres que sofreram violência que foi adaptado a tais fins.  \n \n  \n\n \n72 \n \nTabela 6: Descrição e métodos dos estudos de intervenções psicológicas. \n \nAutoria Descrição Formato Método \nMor et al., \n2021 \nDescreve intervenção grupal \nbaseada na terapia narrativa, \ncom foco na qualidade de vida e \nbem-estar de mulheres com \nendometriose. O planejamento \nfoi realizado após avaliação das \nnecessidades de 23 mulheres e \nimplementado de forma \nadaptada de um modelo de \nviolência.  \nEm grupo A intervenção foi elaborada diante uma \nadaptação de um modelo para mulheres que \nsofreram violência e agressão sexual e \nconduzida como um grupo de curto prazo ao \nlongo de sete sessões separadas para apenas \ntrês das participantes com endometriose. Não \nhouve determinação do tempo da sessão ou do \ngrupo. \nPetrelluzzi \net al., 2012 \nAvalia a eficácia de um \nprotocolo terapêutico \nenvolvendo fisioterapia e terapia \npsicológica para mulheres com \nendometriose e dor pélvica \ncrônica. \nEm grupo Intervenção em grupo baseada nos princípios \nda TCC no campo psicológico e experiências \nde outras intervenções multidisciplinares para \ndor crônica. Consistia em 10 encontros \nsemanais de 2h30 com música ambiente \nrelaxante e de até 12 participantes: Primeira \nhora para intervenção fisioterapêutica; restante \npara intervenção psicológica. Foram utilizadas \ntécnicas para ensinar as pacientes a lidar com a \ndoença e a dor. \nHansen et \nal., 2023 \nInvestiga o efeito de \nintervenções psicológicas de \natenção plena e de aceitação e \ncompromisso (ACT) na dor \npélvica crônica e na qualidade de \nvida em mulheres com \nendometriose. \nEm grupo A intervenção em grupo foi baseada em \natenção plena e aceitação (ACT) (MY-ENDO). \nConsistia em 10 encontros, semanais de 3h de \nduração. Foram apresentados temas para \neducação sobre a doença, terapia de \nenfrentamento, exercícios de atenção plena e \nioga. Era recomendado pratica diária de \nmeditação.  \nLorençatt\no et al., \n2007 \nDescreve intervenção em grupo \nde apoio multiprofissional \n(GAPFAME) para mulheres \ncom endometriose no \nCAISM/UNICAMP. Avalia os \nresultados da intervenção em \nambos os grupos apresentados. \nEm grupo Grupo estruturado com base nos princípios da \nTCC e experiências de outras intervenções \nmultidisciplinares para dor crônica. Consistia \nem 10 encontros semanais de 2h30 com até 12 \nmulheres: Primeira hora para intervenção \nfisioterapêutica; restante para intervenção \npsicológica. Houve aplicação de cronograma \ncom temas de: autoconhecimento, aceitação, \nenfrentamento da doença e dor, estresse, \nendometriose (conceitos e tratamentos), \nsexualidade, relacionamentos afetivos e \nresolução de problemas.  \nMeissner \net al., 2016 \nInvestiga os efeitos de uma \npsicoterapia integrativa para a \ndor associada à endometriose por \nmeio de intervenções mistas. \nIndividual A intervenção foi individual de conduta \nintegrativa combinando elementos de \nmindfulness, hipnoterapia, terapia de resolução \nde problemas e terapia cognitivo -\ncomportamental, além de técnicas de \nestimulação somatossensorial da medicina \ntradicional chinesa, como acupuntura, \nmoxabustão e ventosa terapia. Consistia em no \nmínimo 4 encontros com cerca de 30 a 60 \nminutos de temas de desejos e necessidades \natuais do paciente, geralmente de sentimentos \nde pressão, tensão ou dor. \n  \n\n \n73 \n \nMiazga et \nal., 2024 \nAvalia a eficácia de uma \nplataforma virtual usando o teste \nt para análise quantitativa de \ndados do programa de \nmindfulness e da qualidade de \nvida das participantes. \nEm grupo Intervenção em grupo de forma virtual via \nZoom. Baseado em um curso de atenção plena \ne redução de estresse e ministrado por um \nprofissional de assistência social. Consistia em \n8 semanas, sem descrição de frequência, com \ngrupos de duração de 2h30: Sessões incluíam \nensino didático combinado, meditações e aulas \nguiadas. Exercício para criação de senso de \ncomunidade. \nMikocka-\nWalus et \nal., 2021 \nAvalia as intervenções em três \nfrentes: ioga, Terapia Cognitivo-\nComportamental (TCC) e \neducação (no grupo controle). \nEm grupo A intervenções de ioga e TCC comparadas a \ngrupo de educação (controle). Tanto a ioga \ncomo a TCC consistiam em 8 encontros, \nsemanais. Para TCC eram 2h de intervenção, \npara Ioga 1h. Foram recomendadas atividades \nde TCC 3x na semana. Para ioga, atividades de \nioga 3x na semana. Grupo controle recebeu e-\nmail semanais de educação. \nShahriyar\nipoor et \nal., 2023 \nAvalia o efeito da hipnoterapia \nna redução da dor de pacientes \ncom endometriose tratadas com \nDienogest (hipnoterapia como \nprática da psicologia - \nparticularidades de alguns \npaíses). \nIndividual A intervenção individual foi baseada na \nhipnoterapia (terapeuta habilitado pela \nsociedade cientifica iraniana de hipnose \nclínica). Consistia em 8 encontros, semanais. O \nprimeiro foi presencial com duração de 40 \nminutos e os demais foram online entre 30 e 45 \nminutos. Ao final era gravado um áudio e \nenviado ao mediador. Era recomendado prática \nde hipnose 2x ao dia com registro. \nHansen et \nal., 2017 \nAvalia o efeito de intervenções \npsicológicas na dor pélvica \ncrônica e na qualidade de vida \nem mulheres com endometriose \npor meio de técnicas \ncomportamentais como de \nmindfulness. \nMisto: \nGrupal e \nindividual. \nA intervenção consistiu em 10 sessões, \nsemanais, 5 individuais e 5 em grupo, \ntotalizando 15 horas não detalhadas de como \nforam distribuídas, a contribuição do estudo \ntambém avaliou a qualidade de vida e sintomas \nrelacionados à endometriose (\"controle e \nimpotência\", \"bem -estar emocional\", \"apoio \nsocial\", \"disquezia\" e \"constipação\") através de \nquestionários, fornecendo uma avaliação do \nfuncionamento psicológico e do impacto da \ndoença pelo tempo de seis anos do estudo de \nKold (2012) \nSchubert \net al., 2022 \nTestará a eficácia da terapia \ncognitivo-comportamental \ninterativa (iCBT) para qualidade \nde vida, comparando um grupo \nde intervenção a um grupo \ncontrole em lista de espera. \nEm grupo A intervenção grupal baseada na terapia \ncognitivo comportamental. Consistiu em uma \nproposta de encontros online, por 8 semanas, 1 \nmódulo interativo por semana, utilizando \ndiferentes formatos e mídias. As sessões seriam \nonline, autoaplicável com feedbacks por escrito \ndos terapeutas. \nBoersen et \nal., 2021b \n167 \nEficácia da TCC, adicionada aos \ncuidados pós -cirúrgicos \nhabituais, na qualidade de vida \nem pacientes submetidas à \ncirurgia de endometriose devido \nà dor crônica associada à doença \nIndividual Intervenção de base TCC. Consiste de 1 \nencontro pré -cirúrgico 2 semanas antes do \nprocedimento e 6 encontros pós cirúrgico após \n4 semanas, presenciais ou por vídeo \nconferencia. Encontros quinzenais entre 45 \nminutos e 1h. Os temas são em torno da \nPsicoeducação sobre a ligação biológica entre \ndor e comportamento relacionados à \nendometriose.  \nBrunello, \n2019 \nAnalisa os resultados de uma \nintervenção em grupo para \nmulheres com endometriose sob \na perspectiva da Análise do \nComportamento (AC). \nEm grupo A intervenção em grupo com base da AC. \nConsistia em 6 encontros filmados com 6 \nparticipantes e 2 psicoterapeutas. Foram \nanalisados comportamentos verbais vocais de \nterapeutas. Foram agrupados em categorias e \n\n \n74 \n \nanalisados em termos de frequência e duração. \nUsou-se registros em vídeo e transcrições. \nDonatti et \nal., 2024 \nApresenta um protocolo de \ntratamento psicológico para \nmulheres com endometriose \nbaseado na terapia cognitivo -\ncomportamental (TCC) aplicado \nem ambulatório de referência. \nIndividual A intervenção individual com base da TCC. \nConsistia em 16 encontros, semanais, 1 \npsicoterapeuta e duração de 50 minutos cada \nencontro. Estudo enfatizou áreas como o \nfortalecimento da capacidade de lidar com o \nestado atual da endometriose, a educação sobre \no modelo cognitivo e a endometriose em si, e o \nmanejo da dor. Havia grupo intervenção e \ngrupo controle. Iniciou de modo presencial e \npassou a ser online por conta da pandemia \nCovid-19. \nInocente, \n2018 \nDescreve e analisa uma \nintervenção psicológica em \ngrupo sob o enfoque Analítico \nComportamental (AC) para \nmulheres com endometriose. \nEm grupo A intervenção em grupo com base da AC. \nConsistia em 10 encontros com 6 participantes \ne 2 psicoterapeutas. Objetivo de desenvolver \nrepertório de: habilidades sociais (expressão de \nsentimentos, empatia, assertividade) e \nautoconhecimento. Esperando reduzir a \nfrequência de padrões de fuga e esquiva de \ncontextos sociais. \nPetrelluzzi \net al., 2005 \nAvalia a eficácia de um \nprotocolo terapêutico \nenvolvendo fisioterapia e terapia \npsicológica para mulheres com \nendometriose e dor pélvica \ncrônica. \nEm grupo Grupo estruturado com base nos princípios da \nTCC e experiências de outras intervenções \nmultidisciplinares para dor crônica. Consistia \nem 10 encontros semanais de 2h30 com até 12 \nmulheres: Primeira hora para intervenção \nfisioterapêutica; restante para intervenção \npsicológica. Foram utilizadas técnicas \ncomportamentais e cognitivas para ensinar as \npacientes a lidar com a doença e a dor, além \ndisso: Materiais psicoeducativos e atividades \nlúdicas também foram empregados. \nWu et al., \n2022 \nVerifica o tratamento artes \nmarciais chinesas combinado \ncom a TCC sobre a depressão, a \nansiedade e o estresse em \nmulheres com endometriose \nIndividual Todas as pacientes receberam o tratamento em \nartes marciais chinesas, preferencialmente Tai \nChi Chuan, 30 minutos diários, 5 dias na \nsemana. Grupo intervenção fez de sete sessões \nindividuais de TCC, divididas em uma sessão \npré-cirúrgica e seis sessões pós-cirúrgicas. Não \nhá definições sobre tempo de sessão de TCC ou \nfrequência. \nDe Hoyos \net al., 2023 \nAdapta e testa uma intervenção \nde ambientes enriquecidos (EE) \nna dor pélvica, saúde mental, \nestresse percebido e qualidade de \nvida em pacientes com \nendometriose. \nEm grupo A intervenção em grupo foi baseada no \nparadigma EE (enriquecimento ambiental) - \nárea psicossocial. Consistia em 6 encontros, em \nsábados alternados de 3h de duração. Foram \napresentadas propostas da EE como suporte \nsocial, novidade e espaços abertos. Exames \nforam realizados para marcadores biológicos. \nMoreira et \nal., 2023 \nExaminar o papel de mediação \nde fatores cognitivo -afetivos \n(catastrofização da dor, afeto \npositivo e afeto negativo) nos \nefeitos da intervenção bMBI \nsobre a dor e a qualidade de vida \nrelacionada à saúde mental \nEm grupo A intervenção foi realizada em grupos. O \nprograma breve de mindfulness foi entregue em \n2 ciclos com 15 e 16 mulheres por aula, \nconsistindo em quatro aulas presenciais, uma \nvez por semana, com duração média de 1h30. \nInstrutor experiente conduziu a intervenção. \n \nFonte: Elaboração própria. \n\n \n75 \n \nOs dados  metodológicos dos estudos desta categoria  (intervenções) mostram o uso \npredominante de abordagens comportamentais estruturadas, com destaque para métodos de \nTerapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e intervenções combinadas (mindfulness, aceitação \ne compromisso, fisioterapia, hipnose, ioga), aplicadas tanto em formato grupal quanto \nindividual. \nDeste modo, houve forte tendência a s i ntervenções multidisciplinares e integrativas, \nmesclando técnicas psicológicas e corporais. Quanto a duração, os protocolos estiveram dentro \nde curta a média duração (4 a 16 encontros)  e de frequência, geralmente, semanais. \nIdentificando-se foco na psicoeducação, manejo da dor e melhora da qualidade de vida. \n4.1.2.2. FUNDAMENTADOS NAS CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA  \n \nNa categoria de fundamentados na psicologia, são 1 0 estudos, eles são equivalentes a \n32,26% da amostra. Estudos de conceitualização e interpretação teórica (fundamento em teorias \nda psicologia) apresentaram a categoria que inclui estudos que utilizam teorias psicológicas \nespecíficas para compreender a experiência da endometriose e seu impacto nas mulheres. \nAbrange estudos que exploram o papel de fatores emocionais e relacionais na experiência da \nendometriose. \nDesses estudos, 7 autores utilizaram de abordagens classificadas como subjetivas  \n(70%), 3 autores utilizaram de abordagens classificadas como comportamentais  (30%). Deste \nmodo fica evidente que no conjunto de estudos de categoria de fundamentos na psicologia, há \numa ênfase em abordagens de origem subjetiva  para estudar a população alvo.  Houve uma \ncompreensão de que nest a categoria há preferência por analise de entrevistas realizadas de \nforma online e de preenchimento individual. Essa estratégia de coleta foi frequente e permitiu \no levantamento de dados únicos dessa população.  \n \nTabela 7: Descrição e métodos dos estudos de fundamentos na psicologia. \n \nAutoria Descrição Formato Método \nBonfim, \n2019 \nInvestiga os impactos \nda endometriose, \ndescreve produções \nimaginárias que \npermeiam o \npsicológico e \nidentifica a trajetória \nterapêutica \npercorrida. \nProcedimentos de \ncoleta de dados \nindividualizado com \nanalise fundamentada \nna psicanálise de \nforma grupal e \nindividualizada \nAbordagem qualitativa que visa compreensão \nda subjetividade das mulheres com \nendometriose. A teoria psicanalítica como \nreferencial teórico para compreender as \nmanifestações na vida psíquica relacionadas ao \nsofrimento do corpo e fornecer suporte para \nrefletir sobre as vivências. \n\n \n76 \n \nMills et \nal., 2023 \nInvestiga como \nmulheres com \nendometriose se \nsentem em relação aos \nseus corpos e se \npossuem \ncompreensão da \nvivência da \nendometriose como \num problema. \nPesquisa online, \nassíncrona com \nperguntas abertas a \nserem respondidas \npor escrito de forma \nindividual para serem \nanalisadas as redações \ne as temáticas \nidentificadas com \nmaior prevalência.  \nO método qualitativo, exploratório. Análise de \ncompreensão do relacionamento que as \nmulheres têm com seus corpos, considerando a \nvariedade em sua apresentação, sintomas e \nimpacto da doença. Teoria sociocultural e a \nteoria da objetificação ajudam a explicar  e \ninterpretar como a perturbação da imagem \ncorporal se desenvolve. \nSpyrelis et \nal., 2024 \nEntende e descreve \nexperiências vividas \npor pacientes \ncronicamente \nfatigadas, buscando \nvisão mais profunda \nde como elas \nentendem essas \nexperiências por meio \nde uma análise \ntemática \nfenomenológica. \nProcedimentos de \ncoleta de dados \nindividualizado e \nsíncrona com análise \ndedutiva da \ntranscrição das \ngravações, seguida \npela análise temática \n(IPA) \nAnálise Fenomenológica Interpretativa (IPA) e \nanálise temática (TA) de dados foram coletados \npor meio de entrevistas semiestruturadas \nrealizadas individualmente para identificar as \nexperiências vividas pelos participantes, suas \npercepções e interpretações da fadiga crônica. \nConsistia em entrevistas que variaram de 30 a \n76 minutos que foram transcritas na íntegra e \nanalisadas por uma gravação e por um software \n- Atlas. Ti versão 8. \nBlunt, A. \nJ., 2023 \nExplora as \nexperiências vividas \npor mulheres negras \ncom endometriose por \nmeio de análise \ntemática e teoria \nfeminista especifica \npara a população \nnegra de Collins \n(1990), explorando o \nsexismo e machismo. \nA IPA foi usada por \nvalorizar as \ndiferenças \nsocioculturais. \nProcedimentos de \ncoleta de dados \nindividualizado e \nsíncrono, de forma \nremota, via Zoom. \nAnálise fenomenológica interpretativa (IPA) \ndas experiências biológicas, psicológicas e \nsociais e as necessidades individuais. Orientada \npela Teoria Feminista Negra de Collins (1990) \ne informada pela abordagem Biopsicossocial \nde Engel (1977), fornecendo es trutura de \ncompreender como fatores biológicos, \npsicológicos, sociais e econômicos interagem \nna experiência. Consistiu na realização de \nentrevistas de 70 minutos, semiestruturadas \ncom 8 participantes. Análise de relatos de uma \nperspectiva psicológica, busc ando entender \nsuas experiências em vez de preconceitos \nteóricos preexistentes. \nBoersen et \nal., 2021a \nIdentifica se as \npacientes com \nendometriose \nacreditam que a TCC \ndeveria ser adicionada \nao tratamento da \nendometriose e qual \nforma de TCC elas \nprefeririam: sessões \nindividuais ou em \ngrupo presenciais, ou \nsessões individuais \npela internet. \nProcedimentos de \ncoleta de dados grupal \ne presencial de forma \nsemiestruturada com \ntemas comuns e \nfrequentes de \npacientes com \nendometriose. \nDurante três meses ocorreu uma coleta de \ndados até a saturação, definida como a ausência \nde novas informações relevantes em duas \nreuniões subsequentes do grupo focal. \nConsistiu em 5 grupos focais semiestruturado \ncom temas a serem abordados. Os grupos \nfocais foram transcrito e analisados usando \ncodificação aberta por dois pesquisadores de \nforma independente (usou -se Atlas -ti). O \nobjetivo foi identificar as preferencias das \npacientes diante as intervenções da TCC, passa \nisso, um dos momentos iniciais era destinado a \nexplicações da abordagem e seus métodos e \ntécnicas. \n\n \n77 \n \nDowding \net al., 2024 \nCompreende os \nfatores que predizem \no envolvimento em \nterapia psicológica e \nexplora \nqualitativamente sua \nexperiência com \napoio psicológico. \nProcedimentos de \ncoleta de dados \nindividualizada, \nassíncrona, online por \nmeio de questionário \nde perguntas de \nrespostas e textos \nabertos. \nMétodo quantitativos de dados preditores \ndemográficos e clínicos do envolvimento em \nterapia psicológica e dados qualitativos sobre \nas experiências das mulheres com a terapia. \nAbordagem descritiva e indutiva orientaram o \ndesenvolvimento de temas. Abordagem realista \ncrítica (RC) utilizada, reconhecendo a \nperspectiva dos pesquisadores e existência de \numa realidade a ser compreendida. A análise \ntemática do modelo para medir efeitos das \npsicoterapias. Consistiu na aplicação de \nentrevista online por questionário de \ninvestigação de processo de terapia. As \nrespostas foram em texto livre e analisadas \nposteriormente. \nGüvenç & \nBozo, \n2023 \nAnálise de caminho \npara testar o modelo \nproposto de investigar \na qualidade de vida \nrelacionada à saúde \n(QVRS), utilizando -\nse da teoria do apego \npara analisar os dados \nlevantados. \nProcedimento de \ncoleta de dados \nindividualizada, \nassíncrona, online por \nmeio de questionário \nQualtrics. \nEstudo qualitativo observacional com \nrecrutamento em plataformas de redes sociais \ndigitais. Consistia no preenchimento de \nquestionários e de inventários selecionados que \nforam apresentados em ordem aleatória para \neliminar o efeito de transferência. O \nquestionário levou cerca de 25 minutos para ser \npreenchido. \nMorán-\nSánchez et \nal., 2021 \nInvestiga se otimismo \nestá associado a \nendometriomas e à \nendometriose \ninfiltrada profunda, \ncompara e avalia os \nníveis de associação a \ndor. \nProcedimento de \ncoleta de dados \nindividualizada, \nassíncrona, online por \nmeio de questionário \nonline. \nDiante a seleção de dois grupos de participantes \n(casos e controles) e a coleta de dados sobre \nsuas características e níveis de otimismo foi \nrealizada por uma entrevista  online sem a \naplicação de qualquer intervenção ativa por \nparte dos pesquisadores. A análise subsequente \ndos dados visou identificar associações e \ndiferenças entre os grupos. \nLores et \nal., 2024 \nViabilidade, \naceitabilidade e \neficácia preliminar de \natividade de escrita \npara a imagem \ncorporal em pessoas \ncom endometriose \nIndividual Tarefa de escrita individual e online guiada \npelas bases de aceitação e compromisso (ACT). \nForam 30 minutos de escrita e  6 etapas focadas \nna autocompaixão, adaptada endometriose \n(versão original para sobreviventes de cancer \nde mama). Atividade de cerca de  30 minutos. \nEscrever sobre 1 experiência negativa \nrelacionada à imagem corporal e saúde física, \nseguindo prompts para encorajar \nautocompaixão, culminando na escrita de 1 \ncarta compassiva para si. \nDonatti, \n2015 \nInvestiga como as \npacientes convivem \ncom a endometriose, \nobserva a correlação \nde estratégias ao \nenfrentamento \n(coping), depressão, \nexpressão do stress e \npercepção da dor. \nProcedimento de \ncoleta de dados \nindividualizada em \nencontro único. \nA abordagem quantitativa, empregando escalas \npara medir as variáveis mencionadas. A \ninterpretação dos resultados foi pautada nos \npressupostos da Teoria Psicossomática \nJunguiana, buscando compreender o \nsignificado individual da doença para cada \npaciente, como ela entende sua condição física, \ncomo se percebe e como vivencia suas emoções \ne seu corpo. Coleta de dados aplicado \nindividualmente. \n \nFonte: Elaboração própria. \n \n\n \n78 \n \n4.1.2.3. RELATOS E DADOS DE CONDUTAS DA PSICOLOGIA NA \nENDOMETRIOSE  \n \nFoi classificado como estudos de r elatos, avaliações e estudos correlacionais , artigos \nque abrangem estudos que investigam os efeitos psicológicos da endometriose, como \ndepressão, ansiedade, estresse, isolamento social e qualidade de vida. Também inclui estudos \nque utilizam instrumentos de avaliação psicológica para caracterizar aspectos da saúde mental  \ne do funcionamento psicológico em mulheres com endometriose (GRANT, 1956; BERNINI et \nal., 2022; SECHI et al., 2024). \nA representação desses estudos diante o resultado da revisão de escopo é de 9,68%, ou \nseja, somente três estudos obtiveram essa classificação. Um dado importante é de o estudo mais \nantigo que foi selecionado para essa análise é de 1956. Coerente com as publicações da época, \nse trata de um artigo em forma de documento de um caso de uma paciente com endometriose \nque foi atendida multidisciplinarmente . É uma discussão breve e inaugural na história da \ninterlocução entre as áreas, porém rica do que diz respeito a colaboração entre áreas para o \ncuidado integral e adequado a essas pacientes.  \nNo estudo de Bernini (2022) outras propostas são feitas. Também há a descrição de \ndados coletados através de uma entrevista  e a proposta é localizar características e associa -las \ncom as contribuições da terapia da aceitação e compromisso, área que está dentro das condutas \ncomportamentais.  \nNo último estudo realizado dentro dessa categoria, Sechi (2024)  também se utiliza da \nmetodologia de coleta de dados, neste caso, longitudinal, e com os dados, propostas baseadas \nna teoria do apego são articuladas. Um estudo que traz a tona contribuições de seguimentos de \ncondutas subjetivas.  \n \nTabela 8: Descrição e métodos dos estudos de relatos, relatórios e dados \n \nAutoria Descrição Formato Método \nGrant, \n1956 \nDescreve a situação de um \ncaso único e o \nacompanhamento por \nprofissionais da saúde por \npsicoterapia breve \npsicodinâmica. \nIndividual Discussão entre os profissionais sobre as \ntendências da paciente, suas dificuldades, \ne a abordagem terapêutica utilizada, \nincluindo a observação da transferência. \nRelato detalhado da experiência de um \núnico caso clínico e das interpretações dos \nprofissionais envolvidos. São 15 \nencontros realizados com a paciente. \n\n \n79 \n \nBernini et \nal., 2022 \nAnalisa a validade de critério \nda aceitação das pacientes e \nrelaciona com a terapia com \neste foco para possíveis \nintervenções e análises de \ncasos de pacientes com \nendometriose (aborda as \nconexões com a ACT). Tem \nobjetivo de explicar o \najustamento em uma am ostra \nde mulheres com \nendometriose. \nProcedimentos de \ncoleta de dados \nindividualizado e \nassíncrono, de \nforma remota, \ncom análise de \nenfrentamento e \ncorrelação na \nterapia de \naceitação e \ncompromisso \n(ACT). \nForam avaliados os níveis de depressão, \nansiedade, incapacidade e bem -estar \npsicológico, buscando correlações com a \naceitação psicológica. O estudo utilizou \ninstrumentos para caracterizar esses \naspectos da saúde mental. Aceitação \npsicológica é um constructo importante na \nforma como essas mulheres lidam com o \nsofrimento causado pela doença. Essa \ncoleta consistiu em um preenchimento de \nformulário online, individualizado. \nSechi et \nal., 2024 \nInvestiga a qualidade do apego \npassado (parental), o apego \natual (romântico) e percepção \nda qualidade e satisfação do \ncasal em mulheres com \nendometriose, comparando -as \na mulheres sem a condição. \nProcedimento de \ncoleta de dados \npor meio de \ninstrumentos e \nescalas \nautoaplicáveis \nsem detalhamento \nse a coleta foi \nindividual ou em \ngrupo; \nEstudo transversal observacional. A teoria \ndo apego foi usada para compreender \npadrões de relacionamento passados e \npresentes e como podem influenciar a \nexperiência, especialmente ao bem -estar \npsicológico e qualidade de seus \nrelacionamentos. Essa avaliação  foi feita \npor meio de escalas e questionários. \n \nFonte: Elaboração própria. \n \n4.1.3. ABORDAGENS PSICOLÓGICAS  \n \nOs registros selecionados destacam contribuições de fundamentação na psicologia. Dos \nestudos, é apresentada a importância do tratamento psicológico/terapia no contexto do \ndiagnóstico e tratamento da endometriose, abordando diversos aspectos relacionados a essa \nintervenção (DOWDING et al., 2024; BONFIM, 2019; DONATTI, 2015; INOCENTE, 2018). \nNo estudo de Dowding (2024) é enfatizado que a endometriose e a dor têm efeitos \npsicológicos multifacetados, e o apoio psicológico é valioso para o ajuste e a vida com a doença. \nO estudo de Hansen (2023) sugere que intervenções psicológicas em geral podem ser úteis para \nmelhorar o manejo dos sintomas e a qualidade de vida. \nA Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é frequentemente mencionada como útil \npara explorar a ligação entre dor e problemas de saúde mental  (DOWDING et al., 2024; \nDONATTI et al., 2024; PETRELLUZZI et al., 2005 ; PETRELLUZZI et al., 2012; WU et al., \n2022). A TCC também é vista como uma abordagem promissora relativamente nova no \ncombate às síndromes de dor crônica , com explorações pós cirúrgicas (SCHUBERT et al., \n2022; BOERSEN et al., 2021a; BOERSEN et al., 2021b). \nSchubert (2022) descreve um protocolo de ensaio clínico randomizado para avaliar a \neficácia da TCC interativa (iCBT) na melhora da qualidade de vida relacionada à endometriose, \n\n \n80 \n \ndor e incapacidade relacionada à dor. Boersen (2021 b) descreve o desenvolvimento de um \nprotocolo de TCC voltado para melhorar a qualidade de vida em pacientes submetidas a \ncirurgia, focando nas cognições relacionadas à dor. Donatti (2024) busca avaliar a eficácia da \nTCC no aprimoramento de estratégias de en frentamento e na melhora de diversos aspectos \ncomo depressão, estresse, percepção da dor e qualidade de vida. Wu (2022) visa verificar se a \ncombinação de tratamento habitual com TCC melhora a saúde mental após a cirurgia. \nAbordagens baseadas em Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e técnicas de \nterapia comportamental dialética (DBT) foram relatadas como benéficas para os efeitos físicos \ne psicológicos da endometriose (DOWDING et al., 2024). A ACT enfatiza a aceitação da s \nexperiências dolorosas (DOWDING et al., 2024; BERNINI et al., 2022). \nBrunello (2024) analisa uma intervenção em grupo com base analítico-comportamental, \nfocando na interação terapeuta -cliente e no potencial para fornecer apoio e troca de \nexperiências. Inocente (2018) descreve uma intervenção em grupo sob enfoque Analítico \nComportamental com o objetivo de melhorar sintomas e qualidade de vida, desenvolvendo \nhabilidades sociais e autoconhecimento. \nOutras abordagens incluem a investigação de Ambientes Enriquecidos (EE) por De \nHoyos (2023) como uma possível intervenção para dor pélvica, saúde mental e qualidade de \nvida, e a avaliação de ioga por Mikocka-Walus (2021) como uma intervenção mente-corpo para \nmelhorar a qualidade de vida. \nTécnicas baseadas em mindfulness demonstraram diminuir a dor e melhorar a qualidade \nde vida em pessoas com dor crônica  (MIAZGA et al., 2024) . Uma psicoterapia integrativa \ncombinando elementos de psicoterapia baseada em mindfulness foi utilizada em um estudo  \n(MEISSNER et al., 2016).  \nEsse dado pode ser verificado no estudo de Hansen (2017) onde os  resultados \npreliminares sugerem que  a abordagem é relevante para mulheres com endometriose, com \npotencial para melhorar a qualidade de vida. O estudo mostrou melhorias significativas em \n“dor”, “controle e impotência ”, “bem-estar emocional ” e “apoio social ” no questionário \nespecífico para endometriose (EHP-30), além de melhorias em várias escalas do SF-36 a curto \nprazo. Seis anos após a intervenção, as participantes relataram uma melhor ou muit o melhor \nqualidade de vida e nível de dor. Miazga (2024) também discute a pesquisa emergente sobre a \neficácia da atenção plena para o tratamento da endometriose, abordando os impactos \npsicológicos e a sensibilização central. \n\n \n81 \n \nMoreira (2023) investiga o papel da atenção plena não reativa e da catastrofização da \ndor como mediadores do efeito de terapias baseadas em mindfulness, sugerindo que alterar a \ncognição da dor mal adaptativa pode melhorar a qualidade de vida. \nA terapia focada na compaixão e a terapia baseada em autocompaixão (TCS) mostraram \neficácia na redução dos sintomas de depressão e ansiedade em condições crônicas de saúde, \ncorroborando sua inclusão na terapia psicológica para mulheres com endometriose  \n(DOWDING et al., 2024) . A hipnoterapia também foi parte de uma psicoterapia integrativa \nutilizada em um estudo. (MEISSNER et al., 2016).  \nPetrelluzzi (2005) propõe um modelo de tratamento psicossomático que associa \nreuniões com o parceiro e tratamento físico, considerando a psicoterapia benéfica para lidar \ncom as alterações psicológicas causadas pela dor. \nUm protocolo de tratamento em grupo com abordagem analítico -comportamental é \napresentado como uma alternativa à psicoterapia individual, visando desenvolver vínculo, \nassertividade, expressão de sentimentos e autoconhecimento (INOCENTE, 2018). \nA terapia psicodinâmica também é mencionada como relevante para auxiliar mulheres \ncom endometriose (DOWDING et al., 2024).  Uma intervenção que combinava fisioterapia e \nterapia cognitivo -comportamental demonstrou redução nos escores de dor e depressão  \n(DONATTI et al., 2024; DONATTI, 2015). \nDowding (2024) e Bonfim (2019) enfatizam a natureza multifacetada e biopsicossocial \nda endometriose e a importância de considerar as vivências das pacientes em suas dimensões \npessoal, profissional, social e sexual. Blunt (2023) também aplica o modelo biops icossocial \npara compreender as percepções de mulheres negras com endometriose, defendendo uma \nabordagem de cuidado que considere suas diversas necessidades. Sechi (2024) destaca que o \nmanejo da endometriose é um processo relacional, sugerindo a importância  de envolver os \nparceiros. \nEm suma, os estudos e pesquisas indicam que diversas intervenções psicológicas e \nmente-corpo têm potencial para impactar positivamente a dor e a qualidade de vida de pacientes \ncom endometriose. No entanto, há uma necessidade contínua de pesquisas mais robu stas para \nexplorar sobre a eficácia impacto de diferentes abordagens, identificar os mecanismos de ação \ne desenvolver modelos de intervenção personalizados e mais eficazes, considerando a \ncomplexidade biopsicossocial da condição. \n \n\n \n82 \n \n4.1.4. LACUNAS DE PESQUISA \n \nHá um reconhecimento de uma lacuna de conhecimento referente às questões \npsicológicas e socioafetivas em pacientes com endometriose, com poucas pesquisas analisando \na repercussão da doença na vida das mulheres  (INOCENTE, 20 18; BONFIM, 2019; \nDONATTI, 2015). \nMuitos estudos se baseiam em dados autorrelatados, o que pode introduzir vieses de \ndesejabilidade social (DOWDING et al., 2024; MOREIRA et al., 2023; SECHI  et al., 2024). \nPesquisas futuras devem considerar a incorporação de métodos alternativos, como entrevistas \ne registros clínicos (MOREIRA et al., 2023; SECHI et al., 2024). \nA pesquisa qualitativa é utilizada para compreender os significados que as pessoas \natribuem às suas experiências da doença e como interpretam esse mundo  (BONFIM, 2019). \nMétodos como entrevistas em profundidade sem dirigidas (BONFIM, 2019), análise temática \n(BLUNT, 2023; MILLS et al., 2023; SPYRELIS  et al., 2024), e a Teoria Fundamentada nos \nDados (Grounded Theory)  (INOCENTE, 2018) são aplicados para explorar as vivências das \nmulheres. \nA abordagem biopsicossocial é considerada ideal para o cuidado de pacientes com \nendometriose, integrando fatores biológicos, sociais e psicológicos  (BLUNT, 2023) . Existe \numa tendência atual de encontrar novas maneiras de complementar a competência médica com \numa equipe multidisciplinar, incluindo psicólogos, para a gestão da endometriose (BOERSEN \net al., 2021, INOCENTE, 2018). \nEstudos futuros precisam de amostras maiores e mais diversas para responder a questões \nsobre especificidade de efeitos de intervenções e para generalizar descobertas  DOWDING et \nal., 2024; HANSEN et al., 2023; MILLS et al., 2023; BERNINI et al., 2022).  \nHá uma necessidade de desenvolver e avaliar protocolos de intervenção psicológica \ndirecionados a mulheres com endometriose para a diminuição do sofrimento e melhora da \nqualidade de vida (INOCENTE, 2018; DONATTI, 2015). Intervenções em grupo com enfoque \nanalítico comportamental são consideradas alternativas promissoras (INOCENTE, 2018). \nPesquisas futuras devem aprofundar não apenas o aspecto individual das mulheres com \nendometriose, mas também a dimensão relacional dentro do contexto dessa condição, incluindo \no envolvimento dos parceiros (SECHI et al., 2024). \n \n\n \n83 \n \n4.2. ESTUDO DE CASO \n \nA psicanálise pode ser compreendida tanto como um método de investigação quanto \ncomo uma prática clínica. Essas duas dimensões se entrelaçam constantemente, pois, no \nexercício da análise, o psicanalista reflete sobre as experiências clínicas e os conceitos teóricos, \nconstruindo novas compreensões e interpretações. Esse movimento ocorre em cada sessão e, da \nmesma forma, permeia as pesquisas psicanalíticas conduzidas por clínicos, nos quais a prática \nse torna um espaço de produção e reflexão teórica. \nNo contexto da pesquisa, o estudo de caso na psicanálise não se limita a descrever uma \nexperiência clínica específica, mas também contribui para a construção do conhecimento \nanalítico e teórico. Como apontam Guimarães e Bento (2008), esse método permite expandir a \ncompreensão do campo clínico ao articular teoria e prática de maneira singular. Além disso, \npossibilita a formulação de novas hipóteses e discussões que podem aprofundar, confirmar ou \naté mesmo questionar concepções estabelecidas. \nFigueiredo e Minerbo (2006) destacam que a pesquisa em psicanálise é melhor \nconduzida por psicanalistas em atividade clínica, pois é a partir da experiência analítica que \ncertas questões teóricas e metodológicas acontecem com maior clareza. Assim, ao apresentar \num estudo de caso, não estamos apenas relatando uma experiência, mas promovendo uma \nreflexão aprofundada sobre os processos psíquicos e sobre o próprio método psicanalítico. \nO processo analítico aqui apresentado ocorreu entre os anos de 2018 e 2022, com  \natendimentos realizados tanto presencialmente quanto de forma on -line, durante o período da \npandemia. Atualmente, a paciente não se encontra mais em acompanhamento psicológico. \nOs dados clínicos obtidos nesse período serão analisados em diálogo com a teoria de \nDonald Woods Winnicott  e sua rica contribuição na compreensão da psique e da soma , bem \ncomo com estudos sobre dor pélvica crônica e os impactos psicológicos da endometriose. Para \numa contextualização mais abrangente, serão apresentados aspectos da história de vida da \npaciente e do desenvolvimento da doença. \nEspera-se que esta pesquisa contribua para o aprofundamento teórico e histórico sobre \nos riscos do adoecimento psicológico em mulheres que enfrentam dores crônicas decorrentes \nda endometriose, uma condição ainda pouco estudada em sua interseção com a psicanálise. \n \n  \n\n \n84 \n \n4.2.1. A APRESENTAÇÃO AO CASO ROSA \n \nPara preservar sua identidade e respeitar os princípios éticos da pesquisa, foi adotado o \npseudônimo Rosa. Informações que não impactem na análise do caso também podem sofrer \nalterações a fim de preservar quaisquer possibilidades de reconhecimento.  \nTrata-se de uma mulher branca, nascida em 1994, cristã evangélica, residente com os \npais e atuante na área de administração pessoal, atualmente cursando graduação na área, tendo \nconcluído formação técnica em Marketing. O relato da paciente refere múltiplas queixas \nrelacionadas à dor pélvica crônica desde 2016, acompanhadas de fadiga intensa e episódios \nrecorrentes de enxaqueca, sintomas que interferem diretamente em sua vida cotidiana e laboral. \nNa entrevista inicial, Rosa apresentou queixas relacionadas às dificuldades de adaptação \nfrente às mudanças que vinham se impondo em seus vínculos afetivos e familiares. Ainda que \no diagnóstico de endometriose já fizesse parte de sua história, esse não foi  o ponto central \ntrazido nas primeiras sessões. Ela falava, sobretudo, de uma sobrecarga emocional.  \nRosa já havia passado por uma cirurgia destinada ao tratamento da endometriose. No \nentanto, mesmo após o procedimento, as dores continuavam nas regiões pélvica e lombar. \nSegundo relatava, essas dores eram associadas a sequelas da própria intervenção cirúrgica . \nRelatava angústias relacionadas aos efeitos de sua condição, como as faltas frequentes no \ntrabalho e as limitações nas atividades do dia a dia, evidenciando o quanto a dor ultrapassa os \nlimites do corpo e reverbera em seu mundo relacional. \nNa primeira cirurgia se recordava de ter recebido explicações ou instruções, lembra de  \nnão ter compreendido plenamente o que aquele diagnóstico significava. Rosa, naquele \nmomento, sem identificar  espaço para expressar dúvidas ou receios em relação ao \nprocedimento, seguiu como encaminhado e fez o procedimento.  Ainda, a  experiência da \ncirurgia não correspondeu à expectativa de alívio e o pós-operatório a médio prazo, trazendo \nconsigo dores constantes por uma lesão na região lombar que passou a provocar dor crônica. \nEssa parte da história foi sendo compartilhada de forma gradual no processo terapêutico. \nNão aparecia como um tema central, mas atravessava os relatos de maneira constante, como \nalgo que permanecia ali, silencioso, mas presente. Era uma dor difícil de nome ar, que insistia \nem permanecer, não apenas no corpo, mas também nas bordas do discurso, pedindo escuta e \ncuidado. Havia um desejo claro de compreender os afetos que atravessam sua vida cotidiana. \nAinda assim, quando a conversa se aproximava de sua história  médica ou da vivência com a \nendometriose, surgia uma certa contenção. O tema aparecia de forma pontual, quase sempre \ncomedida, como se habitasse um território à parte em sua narrativa. \n\n \n85 \n \nA reticência apresentada nos primeiros encontros oferecia pistas importantes para o \nmanejo da transferência. Percebia -se busca por confiança, como se precisasse testar a \npossibilidade de existir em um espaço onde pudesse falar sem medo de ser interrompida, \njulgada ou desconsiderada. Com o tempo, foi possível perceber que Rosa se aproximava da \nescuta analítica de maneira gradual. Era um processo de construção paciente e silencios a, em \nque cada gesto de confiança indicava um pequeno deslocamento, uma abertura para a \npossibilidade de ser acolhida em sua totalidade. \nA dor pélvica e a dor lombar crônica, somadas à fragilidade deixada pela cirurgia e às \nperdas subjetivas relacionadas à autonomia sobre o próprio corpo, começaram, aos poucos, a \nganhar contornos simbólicos.  \nA escuta analítica, ao sustentar essa ausência de palavras sem impor qualquer exigência \nde revelação imediata, começou a operar como um continente possível para o que ainda não \npodia ser dito. Foi nesse espaço protegido que a dor, pouco a pouco, começou a encontrar \npassagem em direção à palavra, deslizando do corpo para a linguagem, da sensação bruta para \numa forma possível de elaboração simbólica. \n \nCONTEXTO DE VIDA \n \nAo longo do processo de escuta, foi possível perceber que Rosa mantinha, de modo \ngeral, uma rede de amizades estável. Suas relações não se caracterizavam por rupturas abruptas \nou frequentes, mas havia um padrão cíclico na forma como vivia a intensidade dos  vínculos. \nEm alguns momentos, mostrava -se mais próxima e disponível afetivamente, enquanto em \noutros tendia ao distanciamento, recolhendo-se e tornando-se menos acessível. \nEssa oscilação não apontava para rigidez em seus modos de se relacionar, nem para o \nestabelecimento de regras fixas de convivência. Estava mais ligada a movimentos internos de \nretraimento e sobrecarga, que surgiam com maior frequência em períodos marcados por dor \nfísica mais intensa ou instabilidade emocional. Nessas fases, Rosa parecia buscar uma espécie \nde proteção silenciosa, afastando-se momentaneamente das demandas externas para preservar \nalgo de si. \nChamava atenção o modo como ela refletia sobre essas experiências. Demonstrava um \ngrau elevado de autorreflexão ao falar sobre suas amizades, revelando uma postura ética e \nsensível diante das relações. Com frequência, mostrava -se disposta a revisar seus ví nculos, \nreavaliar sua posição diante do outro e reorganizar sua disponibilidade afetiva a partir de \nsituações de desconforto, descompasso ou frustração. Essa capacidade de se implicar nas \n\n \n86 \n \nrelações, mesmo diante da dor, revelava um desejo de manter a qualidade do laço, mesmo \nquando isso exigia certo afastamento. \nA família ocupava um lugar central na vida de Rosa e estava presente de forma \nrecorrente em seus relatos. A escuta clínica permitia perceber o quanto ela se encontrava \nenvolvida em dinâmicas familiares que exigiam não apenas investimento emocional, mas \ntambém ações concretas no cotidiano. Havia uma percepção interna de responsabilidade, como \nse lhe coubesse cuidar, mediar conflitos e manter um certo equilíbrio dentro do grupo familiar. \nA família expandida era muito presente, e embora esse convívio fosse constante, \ntambém se fazia acompanhar por conflitos de ordem prática que repercuti ram de maneira \nintensa no campo emocional de todos os envolvidos. Rosa se via frequentemente chamada a \nparticipar das decisões e, mesmo compreendendo que nem tudo dependia dela, carregava um \nmal-estar diante do sofrimento dos pais. Sentia-se atravessada pela urgência de tentar remediar \no que estivesse ao seu alcance, ainda que reconhecesse os limites de seu p apel naquela \norganização familiar. \nA sensação de ser convocada a ocupar um lugar de quem promoveria a estabilidade era \nconstante. Havia algo como uma expectativa silenciosa de que ela pudesse suavizar os efeitos \nemocionais das situações difíceis, especialmente quando estes afetam diretamente os pais. Essa \nposição, embora revelasse sua sensibilidade e comprometimento, também a colocava em uma \ncondição de sobrecarga psíquica, muitas vezes silenciosa, que precisava ser escutada com \ndelicadeza no campo analítico. \nNo núcleo familiar,  depois de morar com seu parceiro e encerrar a relação, o maior \nperíodo de psicoterapia  Rosa morava com os pais e um irmão mais velho. A relação com o \nirmão era descrita como distante, marcada por uma diferença de idade e de gênero que, segundo \nela, tornava difícil o estabelecimento de uma aproximação mais profunda. Havia, em seus \nrelatos, a  percepção de um certo descompasso entre suas vivências e o modo como ele \ncompreendia seu momento de vida, o que criava um afastamento silencioso, sem  \nnecessariamente se traduzir em conflitos diretos, mas que interferia no convívio. \nA relação com o pai aparecia de forma mais ambígua. Rosa reconhecia uma demanda \nemocional mais intensa nesse vínculo, mas também apontava limitações afetivas importantes. \nFalava de um tipo de convivência que funcionava quase em paralelo, sustentada por presenças \nsilenciosas, gestos contidos e afetos pouco verbalizados. Existia, por parte do pai, uma \nexpectativa de maturidade que, por vezes, fazia com que suas angústias fossem desconsideradas \nou invalidadas. \n\n \n87 \n \nEm alguns momentos, esse vínculo revelava tensões mais abertas. Rosa relatava \nepisódios em que se sentia profundamente questionada por suas escolhas, o que gerava \ndiscussões mais acaloradas e deixava marcas importantes em sua autoestima. Ainda assim, \nhavia um esforço contínuo para preservar o vínculo, mesmo diante da dificuldade de estabelecer \num espaço de escuta mais empática e acolhedora por parte do pai. \nEra na relação com a mãe que se evidenciava o vínculo mais carregado de afetividade e \nresponsabilidade emocional mútua. Rosa descrevia esse laço como mais amistoso e generoso, \ndestacando a presença de um cuidado constante que parecia atravessar toda a convivência entre \nas duas. Havia um tipo de afeto que se expressava não apenas em gestos de carinho, mas \ntambém em pequenas atenções cotidianas, que revelavam a importância daquela relação em sua \nvida. \nEssa convivência era marcada por uma atenção recíproca, mas trazia também a sensação \nde que Rosa, muitas vezes, ocupava o lugar de quem cuida. Em diferentes momentos, ela \nrelatava situações em que adaptava sua própria rotina para atender às necessidades da  mãe, \nespecialmente em contextos relacionados à saúde. Era como se existisse um pacto silencioso de \nproteção, no qual Rosa se via implicada de forma intensa, buscando garantir o bem -estar \nmaterno mesmo quando isso exigia renúncias pessoais. \nEssa configuração relacional revelava um investimento afetivo significativo. Havia, por \nparte de Rosa, um desejo genuíno de preservar esse vínculo e, ao mesmo tempo, uma \nmobilização emocional que, em certos momentos, parecia pesar sobre seus próprios limites. O \nespaço analítico permitia nomear esses atravessamentos com delicadeza, reconhecendo tanto a \nforça desse afeto quanto os efeitos que ele produzia em sua experiência subjetiva. \n \nATIVIDADES LABORAIS \n \nO impacto da dor sobre a vida laboral de Rosa emergia na escuta como um dos pontos \nmais sensíveis do processo. Com frequência relatava episódios em que precisou se ausentar do \ntrabalho para buscar atendimento emergencial, motivada por crises intensas de do r pélvica ou \nlombar. Essas ausências, por mais inevitáveis que fossem, acabavam se convertendo em perdas \nconcretas, como o cancelamento de compromissos importantes , descontos salariais  ou o \nafastamento de oportunidades profissionais. \nCom o tempo, essas experiências foram se somando e gerando sentimento de culpa, \nmedo de julgamento e uma apreensão constante de ser mal interpretada por seus superiores. A \ncada episódio de dor mais aguda, intensificava -se a preocupação com a estabilidade no \n\n \n88 \n \nemprego, como se sua condição física colocasse em risco não apenas sua saúde, mas também \nsua posição profissional. \nEsse receio revelava não apenas o sofrimento individual, mas também a fragilidade do \nsuporte institucional e social disponível para mulheres em situações semelhantes. Havia um \nvazio de reconhecimento sobre a legitimidade de sua condição, o que contribui para um \nsentimento de desamparo diante da doença e de suas repercussões no cotidiano. \nApesar das limitações impostas pela dor, Rosa demonstrava um forte investimento em \nsua autonomia e no cumprimento das responsabilidades que assumia. Relutava em abrir mão \nde compromissos profissionais, mesmo quando seu corpo já não encontrava mais condições de \nsustentá-los. Em muitos momentos, insistia em manter a rotina de trabalho, mesmo diante do \nagravamento dos sintomas, como se ali também residisse uma forma de afirmação pessoal. O \ntrabalho, nesse contexto, ocupava um duplo lugar em sua vida: era, ao mesmo tempo, um espaço \nde conquista e expressão de sua força, e um cenário onde se intensificava o esgarçamento físico \ne psíquico. \nDurante o período em que frequentava a terapia, Rosa vivenciou uma mudança \nsignificativa em seu ambiente profissional. A empresa onde trabalhava foi vendida, e essa \ntransição impactou diretamente sua experiência cotidiana. A nova gestão reestruturou a equipe \nhierárquica que antes a acompanhava, modificando de forma abrupta a cultura e o clima \norganizacional. Se antes havia um espaço relativamente preparado para a escuta e compreensão \nem relação à sua condição de saúde, esse cuidado foi gradualmente se perdendo. As \nconsiderações que antes acolhiam suas necessidades foram sendo substituídas por exigências \nmais rígidas e impessoais, até que, com o tempo, o vínculo emp regatício se encerrou  com a \ndemissão de Rosa. \n \nA DOR DESORGANIZADORA  \n \nAo longo do processo analítico, foi se tornando cada vez mais claro que a dor ocupava \num lugar central na experiência de Rosa, mesmo que, nos primeiros encontros, esse tema não \naparecesse como o foco principal de sua fala. A dor pélvica e lombar, que persistia mesmo após \na cirurgia para endometriose, funcionava como um pano de fundo constante, atravessando seus \ndias e influenciando diretamente seu humor, sua capacidade de produção e a forma como se \nrelacionava com o mundo ao seu redor. \nEm diferentes momentos, Rosa relatava episódios em que, diante das crises mais \nintensas, foi levada a se afastar do trabalho, cancelar compromissos importantes ou buscar \n\n \n89 \n \natendimento médico emergencial. Essas situações, que se repetiam com frequência, contribuem \npara um sentimento de frustração e impotência, como se sua vida estivesse constantemente \nsendo interrompida por algo que ela não conseguia controlar, mas que ainda assim precisava \nsuportar, esperando passar e se reorganizando, constantemente. \nAo perceber que as dores e as idas ao pronto atendimento estavam se tornando cada vez \nmais frequentes, Rosa começou a desconfiar de que pudesse estar enfrentando um novo quadro \nde saúde. Esse movimento levou-a a buscar maior acompanhamento médico, com o in tuito de \ncompreender melhor o que estava acontecendo em seu corpo. Em uma dessas ocasiões, durante \numa crise que exigiu atendimento emergencial, ela compartilhou na sessão que, por acaso, fora \natendida por um ginecologista especialista em endometriose. A e scuta atenta do profissional \nlevou à suspeita de novos focos da doença, e recomendou a realização de exames \ncomplementares. \nApesar da brevidade deste encontro, o impacto foi significativo. Rosa nunca havia sido \nalertada de forma clara sobre a possibilidade de recorrência da endometriose, tampouco sobre \no fato de que alguns focos poderiam passar despercebidos durante a cirurgia anterior. Também \nnão lhe havia sido dito, com a devida sensibilidade, que a etiologia da doença ainda é \ndesconhecida e que, por isso, não se pode falar em cura definitiva.  \nAo trazer esse episódio para a sessão, Rosa chorou intensamente. Relembrou o \nsofrimento vivido no passado e, tomada por angústia, expressou seu medo diante da \npossibilidade de uma nova cirurgia. Disse, com a voz embargada, que não aguentava mais sentir \ndor, que não queria reviver o que havia passado e que temia, acima de tudo, enfrentar novamente \na insensibilidade com que fora tratada. Perguntava, em meio ao choro, se haveria mais sequelas, \nse suportaria tudo aquilo mais uma vez: “Eu não aguento mais sentir dor, eu não quero passar \npor aquilo de novo, a insensibilidade comigo. E se eu tiver mais sequelas?” (sic). \nA frase dita entre lágrimas, com emoção e  certo desespero, condensava algo essencial \nsobre o lugar que a dor havia ocupado na vida de Rosa. Essa dor não se limitava ao plano físico. \nEla reabriu memórias da cirurgia anterior, reacendeu medos em relação ao futuro e aprofundou \na sensação de abandono vivida em diferentes contextos. Havia, em sua experiência, algo que ia \nalém da dor como sintoma. Ela parecia carregar lembranças de exposição, de invasão e de falhas \nno cuidado, como se seu corpo, em vez de ser vivido como abrigo ou  instrumento de vida, \ntivesse se tornado um território instável, imprevisível e fonte de sofrimento. \nAo mesmo tempo em que  a dor  desestabilizava, também organizava parte de sua \nvivência subjetiva. Era justamente quando a dor se tornava mais evidente que Rosa conseguia \nse aproximar com mais clareza de seus medos, das negligências institucionais que enfrentou, \n\n \n90 \n \nda solidão que a acompanhava em muitos momentos. A dor, de forma paradoxal, parecia \nsustentar e organizar sua experiência afetiva, seus vínculos e sua relação com o próprio corpo. \nE ainda que sua presença fosse marcada por sofrimento, era por meio dela que  Rosa, pouco a \npouco, começava a encontrar palavras, abrindo espaço para que algo do insuportável pudesse, \nenfim, ser nomeado. \nCom o passar do tempo, Rosa foi se sentindo mais livre para falar sobre sua dor, seus \nmedos, suas fantasias e inquietações. Era como se algo já tivesse sido reconhecido no campo \nanalítico, mesmo antes que ela conseguisse nomear aquilo com clareza. A escuta que se oferecia \nali já continha, em si, um gesto de validação, como se dissesse que sua experiência era legítima \ne merecia existir, ser ouvida, acolhida. \nCom o fortalecimento da relação transferencial e a sustentação ética, foi possível \nacompanhar mudanças graduais na forma como Rosa se referia à sua condição física e ao \nsofrimento psíquico que a acompanhava. A endometriose, que durante muito tempo havia \nhabitado um lugar de ameaça silenciosa e desamparo, começou a ser nomeada com mais \nclareza. Suas implicações deixaram de ser apenas vividas no corpo para se tornarem também \nmatéria de reflexão, discussão e linguagem.  \nEsse deslocamento tornou -se possível, sobretudo, a partir do momento em que Rosa \npassou a se sentir suficientemente segura para abordar os aspectos mais traumáticos de sua \nvivência médica. Com o avanço do processo analítico, temas que antes paralisa ram sua fala \ncomeçaram a emergir com maior liberdade. O medo de novas intervenções, o luto pela \nautonomia corporal comprometida e a incerteza em relação ao futuro profissional e reprodutivo \npassaram a ser tratados não mais como ameaças externas, mas como pa rtes legítimas de sua \nexperiência subjetiva. \nUm marco importante desse movimento aconteceu quando  Rosa iniciou a preparação \npara uma possível nova intervenção. Diferente do que havia ocorrido anteriormente, ela foi \ncapaz de entender e compartilhar cada etapa com maior clareza e elaboração. Falou sobre a \ninvestigação diagnóstica, sobre os receios em relação à aderência de órgãos, sobre os riscos do \nprocedimento e, especialmente, sobre o impacto emocional e prático que tudo aquilo provocava \nem sua rotina.  \nAo verbalizar com mais fluidez os efeitos do adoecimento, Rosa também passou a se \napropriar de seu corpo e de sua própria história. A escuta da dor deixou de ser um campo \ninterditado e começou a se configurar como um território possível de subjetivação. Is so não \nsignificava, necessariamente, que os sintomas haviam desaparecido, mas indicava uma \nreorganização psíquica diante deles. Tratava -se de uma nova forma de estar com a dor, agora \n\n \n91 \n \nsustentada não apenas por medicamentos, mas por palavras, por sentidos, por uma escuta que a \nacolhia em sua inteireza. \nRosa passou a demonstrar maior clareza ao falar sobre seus limites físicos, \nreconhecendo os efeitos da dor sobre sua produtividade e sobre seus vínculos afetivos, mas sem \nse reduzir a essa experiência. Em determinado momento, compartilhou que se sentia mai s \npreparada para enfrentar os desafios que poderiam surgir com uma nova cirurgia. Mais do que \nisso, dizia-se mais capaz de comunicar suas necessidades de maneira assertiva em diferentes \ncontextos da vida, incluindo o ambiente de trabalho, as relações famil iares e os atendimentos \nmédicos. \nMesmo que o temor diante de uma possível reincidência da doença ainda estivesse \npresente, esse medo já não a paralisava. Ao contrário, tornou-se uma força de mobilização. Era \nele que impulsionava Rosa a buscar informações, a planejar estratégias para cuidar de si e a \nsustentar, dentro do espaço analítico, uma escuta cada vez mais sensível sobre sua própria \nexperiência. \nUm dos aspectos mais significativos dessa fase final foi a maneira como Rosa passou a \nse referir à psicoterapia. Ela não a via mais como um recurso secundário ou complementar. \nEnxergava que o espaço analítico havia se tornado um apoio real à sua saúde, um continente \nsimbólico capaz de acolher vivências que, em outros contextos, haviam sido tratadas com \ndescaso ou silenciadas. O que antes só era suportável quando calado, agora podia ser \nressignificado pela palavra. \nNesse momento de encerramento, a escuta da dor mostrou-se, mais do que nunca, como \num ato ético e clínico de ampliação do cuidado. Ao tornar possível a simbolização de \nexperiências traumáticas, o processo analítico abriu espaço para que Rosa pudesse restaurar, \nainda que de forma parcial, sua continuidade de ser. A doença continuava presente em sua vida, \nmas junto a ela também permaneciam o vínculo terapêutico, a fala, a possibilidade de nomear  \ne de sustentar o que havia sido vivido. \nAo final do percurso, a transformação não podia ser medida apenas pela intensidade da \ndor. O que se transformou foi, sobretudo, a forma como Rosa se posicionava diante do mundo, \ndo próprio corpo e da própria história. Não se tratava apenas de ter menos dor, mas de ter mais \nvoz. \n  \n\n \n92 \n \n4.2.2. ENTREVISTA \n \nApós a anotação das memórias do caso de Rosa, uma entrevista foi realizada a fim de \ncontribuir para a exploração das percepções de uma paciente diagnosticada com endometriose \nque passou por processo de análise em meio aos dois processos cirúrgicos  que já pass aram. \nDessa forma, este cap ítulo apresenta recortes da entrevista para que possam ser discuti dos na \nsessão seguinte. Essa entrevista foi feita por outra pessoa para que os relatos fossem neutros e \ncontribuíssem com menor risco de viés. \nA entrevista seguiu o percurso semi  dirigido para que Rosa pudesse falar abertamente \nde temáticas abrangentes. Iniciou-se com levantamento sociodemográfico, seguido dos \nlevantamentos de diagnóstico, tratamento, impactos e, por fim, acompanhamento psicológico.   \nDesde de 2016 percebe que “todo ciclo tenho dores, variando a intensidade, mas nunca \nausente. Acompanhado de fadiga intensa e enxaqueca ”. Depois de quase 10 anos , queixa-se: \n“É muito ruim, porque acabo perdendo muitas coisas da minha vida”. \nO diagnóstico levou aproximadamente 2 anos, e ocorreu quando “ o transvaginal deu \numa suspeita de endometriose [...] fui encaminhada para uma ressonância vaginal que \nconfirmou o diagnóstico. O exame foi bastante invasivo, horrível. Quando descobriram, já \nestava no estágio de endometriose profunda ”. E continua: “ Foi um baque descobrir o \ndiagnóstico [...] Não conhecia, e por isso, procurei no Google e fiquei muito assustada fui \nembora chorando”.  \nPor conta do quadro, foi encaminhada a um cirurgião , “um bambambã, mas não me \najudou [..] eu não sabia o que me aguardava, eu estava com medo, insegura”.  Nessa primeira \ncirurgia o pós operatório foi mais desafiador: “eu senti muita dor. O médico queria 45 dias de \nrepouso. Eu não fiquei, fiz 14 dias de repouso absoluto [...] tive um pouco de sequela, fiquei \ncom muita dor na coluna”. \nO quadro clínico de Rosa melhorou, até que depois de cerca de 1 ano “comecei a ir de mês \nem mês para o hospital, me davam um remédio pra dor muito forte”. Além disso, “Tudo o que \neu comia, ia para o banheiro. Náusea, enjoo, dor no estomago”. Ainda sem muita informação, \nmesmo depois de já ter feito tratamento  anteriormente, Rosa “nem suspeitava que a \nendometriose estava voltando”. Ela lembra que “Uma das médicas do pronto socorro percebeu \na recorrência e encaminhou para um especialista em endometriose ”. Neste encaminhamento, \nrealizou novos exames e “saiu novamente a endometriose”. \nRosa lembra de ficar desapontada e revive: “Na minha cabeça, estava resolvido depois \nda primeira cirurgia [...] não achei que poderia voltar. Não acreditei”. Ainda assim, seguiu as \n\n \n93 \n \ninstruções médicas novamente, dessa vez com outro profissional. Rosa conta: “Passei então a \ntratar com esse médico, que é maravilhoso [...] me explicou que a endometriose, se você deixa \num pouquinho, ela retorna sempre”.  \nNa primeira cirurgia Rosa teve impactos no intestino, já na segunda cirurgia o quadro \nde Rosa era mais sério: “a vesícula se mexeu e esmagou a bexiga. Foi subindo  [...] tive que \ntirar a vesícula. Hoje minha vida inteira está em volta disso. Eu descobri vivendo”. Além disso, \nfoi necessário prender a bexiga por fora : “o médico costurou e colocou um botão na minha \nbarriga – ele escolheu um botão rosa35”. \nQuando questionada sobre acompanhamento psicoterapêutico, Rosa lembra que \n“Ninguém nunca indicou a psicoterapia. Nenhum médico, nenhum profissional da saúde, e \ntambém nenhum familiar ou pessoa da minha convivência ”. Porém lembrou-se que logo após \na primeira cirurgia, procurou por ajuda, e durante a segunda cirurgia “já fazia terapia, o que \nme ajudou muito, foi fundamental ”. Rosa aborda, espontaneamente, temas importantes : “As \npessoas precisam entender o quanto é difícil emocionalmente ter a endometriose. Não é só os \nsintomas físicos, mas me trouxe vários problemas emocionais, como inseguranças, medos”. \nQuando pedido para Rosa definir a endometriose em uma palavra, desconfortavelmente \nela responde “dor” e completa “Trauma em pensar que todo mês iria acontecer igual, que eu \nteria de ir para o hospital, tomar medicação, depender das pessoas para me levar e buscar no \nmédico”.  \nSobre os primeiros sintomas, Rosa  lembra que “Da primeira vez eu tinha uma cólica \nmuito intensa [...] Eu achava estranho, mas as pessoas a minha volta achavam que era normal \n– minha mãe inclusive. Tinha muita diarreia, [...] dor de cabeça perto do período menstrual,  \n[...] fadiga. [...] não tinha juntado que todos os sintomas tinham a ver com o mesmo \ndiagnóstico: endometriose”.  \nAtualmente, quanto a sua saúde, Rosa conta que “Tenho medo da endometriose voltar \n[...] gostaria de ter mais qualidade de vida  [...] para que eu viva bem ”. Se incomoda com as \nlimitações “alimentares: gordura, fritura, lactose  [...] Evito comer na rua.  [...] tinha que \nentender que era uma vida completamente diferente, que não ia ser a mesma vida de antes ”. \nNesse momento, Rosa retoma ao assunto da psi coterapia: “A terapia me ajudou muito a \n \n35 Essa passagem do caso de Rosa foi a inspiração para a escolha de seu nome ficcional. A necessidade interventiva \nsimbolizada pelo botão costurado em seu corpo foi muito marcante nos atendimentos. Lembro-me de quando Rosa \nperguntou se poderia mostrar o botão  e se isso não me causaria aflição ou incômodo. Essa pergunta, e a resposta \nque se seguiu, tornaram -se importantes para refletir sobre o vínculo e a dinâmica de regressão no processo \npsicoterapêutico. Chamou-me a atenção a maneira como Rosa se adaptava ao ambiente e a mim, mesmo sendo ela \nquem estava em situação de cuidado, tanto psicológico quanto médico naquele momento.  \n\n \n94 \n \natravessar todas essas mudanças, foi fundamental. Nenhum médico me explicou as mudanças, \nas limitações. Eu fui descobrindo sozinha e levando para as consultas”.  \nNa associação entre endometriose e socia bilidade, lembra que “já tive que desmarcar \ncom amigos por estar com dor  [...] tive que escutar coisas que eu não queria. Hoje sou mais \nseletiva com as minhas amizades. [...] Sinto que eu preciso de amigos que compreendam, que \nfalem coisas positivas. [...] Escutei muitas “piadinhas” [...] Isso me deixou mais fechada para \nconhecer pessoas novas [...] Prefiro não dar o benefício da dúvida para me proteger mesmo – \nainda não sei lidar com isso”.  \nNa associação entre endometriose e relações íntimas, lembra que “Me fecho para não \nter que explicar o que eu passo. Eu sou bem resistente e fechada”. Relata quadro de dispareunia \ne diz resolver “tentando driblar as posições que me incomodam ”. Reconhece que precisaria \nconversar sobre, mas “tenho que ter muita confiança, pois é um assunto que me deixa muito \nvulnerável”. \nNa associação entre endometriose e relação familiar, conta que mora com os pais e que \na “mãe sempre foi muito compreensiva, com todos os sintomas. Mas já tiveram pessoas \n(parentes e amigos) que não entendem: levam como preguiça, “vida fácil”, “está se \nvitimizando”. Achavam que era mentira, que eu estava aumentando a sensação de dor [...] \nMeu pai era uma das pessoas que dizia que eu estava fazendo “corpo mole”.  \nNo trabalho, Rosa lembra do percurso desses últimos anos: “minha antiga empresa [...] \nforam muito compreensivos. Era uma empresa pequena, eles acompanharam as duas cirurgias \n[...] fiquei desempregada, por 2 anos, foi muito difícil de encontrar um novo trabalho. Eu ficava \nsofrendo por antecipação, com medo de entrar em um lugar e precisar faltar”.  \nNesse ponto, Rosa identificou esses sintomas como sofrimento por antecipação e, mais \numa vez, traz espontaneamente informações da psicoterapia: “Essa questão [...] eu trabalhei \nmuito na terapia, e foi graças a uma sessão de terapia que eu consegui encontrar o meu \nemprego atual. Eu ficava pensando “ninguém vai ser tão compreensivo””.  \nOs impactos da endometriose em um sentido amplo, mas que afeta a área laboral é que \na doença “mexeu muito com minha cabeça, me colocava no lugar de incapaz, de que não iria \nconseguir, que ninguém iria entender. Fico tentando pensar: “você não é o que a doença te \ncolocou, você é mais que isso” [...] Acabo sempre me colocando em um papel muito abaixo”. \nDiante disso, no que tangencia o lazer de Rosa, ela conta que  não deixa de se divertir, \nmas “Desmarco coisas que eu gosto de fazer porque estou com dor”. Percebe-se com algumas \nrestrições como: “não vou em show, coisas que tem muito impacto físico, ficar muito em pé, \npular [...] sou meio sedentária”, mas não atribui isso a algo negativo. Suas atuais atividades de \n\n \n95 \n \nlazer são “viajar, de sair para comer, de ir na casa da minha amiga [...] estou com dor, não \ntem como sair. Mas a frustração vem só depois, na hora, só tem espaço para dor ”. De forma \nsimples resume que seus lazeres são programados e diz “Também programo minhas viagens e \npasseios de acordo com meu ciclo. A vida é organizada em ciclos”.  \nNa história pr évia de Rosa havia a dificuldade de falar dessa temática, então uma \npergunta sobre o impacto da entrevista foi adicionada , a fim de garantir o compromisso ético \nestabelecido com a paciente. Rosa divide que “foi legal, mas sempre é um contato com o que \neu tento não ficar falando. Depois da primeira conversa fiquei bem pensativa, lembrando das \ncoisas que eu vivi, sentindo de novo coisas que eu não sentia há muito tempo. Eu falo muito \npouco sobre isso, mas eu vejo que é bom falar, porque eu percebo coisas que eu não percebia \nantes. Esclarece coisas para mim também. Novos pensamentos sobre a endometriose, é \ninteressante. Talvez eu possa falar mais sobre isso com as pessoas ao meu redor”, reforçando \no valor da fala, instrumento chave da psicologia e psicanálise. \n \n  \n\n \n96 \n \n5. DISCUSSÃO \n5.1. INTEGRAÇÃO DOS ACHADOS \n \nPerceba que não tem como saber \nSão só os seus palpites na sua mão \nSou mais do que o seu olho pode ver \nEntão não desonre o meu nome \nNão importa se eu não sou o que você quer \nNão é minha culpa a sua projeção \nAceito a apatia se vier \nMas não desonre o meu nome \nSerá que eu já posso enlouquecer? \n(PITTY, 2009). \n  \nEste estudo buscou compreender como a psicologia, sobretudo na vertente \nwinnicottiana, pode favorecer a elaboração subjetiva da dor na endometriose. Para tanto, \nrecorreu-se a um desenho de pesquisa misto, sendo a revisão de escopo aliada a estudo de caso. \nA metodologia de estudo mista ocorreu  em razão da escassez de contribuições psicanalíticas \nsobre o tema, o que limita o repertório comparativo e reforça a relevância de um olhar clínico \naprofundado. \nA revisão de escopo mapeou o campo interdisciplinar que se forma entre psicologia e \nendometriose, revelando contribuições já estabelecidas e lacunas persistentes. Destacou-se, de \ninício, a quantidade reduzida de estudos (n = 3 1) ancorados em referenciais psicológicos \nsólidos. Embora a doença seja largamente discutida nas ciências da saúde, a produção voltada \nàs repercussões subjetivas da dor pélvica crônica, da infertilidade e das mudanças no cotidiano \npermanece tímida e fragmentária. Tal constatação confirma a hipótese delineada na introdução: \no sofrimento psíquico dessas mulheres segue subestimado ou negligenciado em discursos \nhegemônicos. \nEntre os trabalhos lidos na íntegra, observa-se que, quando a psicologia aparece, ela \ntende a ocupar um lugar auxiliar, secundário ou instrumental, frequentemente restrito à \nmensuração de sintomas de ansiedade e depressão por meio de escalas padronizadas , como \nexemplo os estudos excluídos pelo critério de conceito, onde somente a constatação de impacto \npsicológico por meio de instrumentos da psicologia ou avaliações psicológicas, podendo \ndestacar o estudo de Marschall et al. (2021), que faz uma análise narrativa rica e ampla da saúde \nmental de 120 participantes, constatando que há impacto e apresentando dados psicológicos \n\n \n97 \n \nimportantes, mas que não tinham o objetivo de intervir nos casos  dessas pacientes. O mesmo \nocorreu com os estudos de Nielsen et al. (2022), Olliges (2021) González-Echevarría et al. \n(2018), Rea (20 20) e Van Niekerk (2023). Esse dado relevante evidencia o forte impacto na \nsaúde global e a importância de esgotar formas de ajudar essa s pacientes, mas também alerta \nde que carência de narrativas que sustentem a dor como experiência subjetiva, relacional e \nenraizada na história do sujeito. \nAlém disso, mesmo entre os estudos que reconhecem a relevância do sofrimento \nemocional, são raros aqueles que partem de referenciais psicológicos bem esclarecidos em seus \nartigos. O trabalho de Serizawa Brunello (2019), por exemplo, propôs uma intervenção grupal \nbaseada na Análise do Comportamento, e foi um dos poucos a desenvolver uma  narrativa \ninformativa de conceitualização da abord agem psicoterapêutica utilizada e do aspecto  teórico \nsobre os efeitos da endometriose na autoestima, nos vínculos e na forma  como as mulheres \nsignificam a dor. No entanto, mesmo esse estudo enfatiza a redução de sintomas e a \nfuncionalidade como critérios principais de avaliação, o que não valoriza a singularidade de \ncada paciente. Já a tese, aqui representada pelo artigo de Lorençatto (2007), embora mais aberta \nà compreensão subjetiva  da cognitiva comportamental , ainda foca em aspectos como \nintensidade da dor e índices de depressão  apresentando as estratégias comportamentais \npontualmente.  \nDo campo da psicanálise, um dos estudos que mais se aproximou do que será discutido, \ncuriosamente, é um estudo realizado em 1956 (GRANT), apenas 31 anos após a nomenclatura \nda doença da endometriose. Neste artigo há uma troca de comentários entre uma equipe de \nquatro pessoas da área da saúde, analisando de forma breve e muito simplista o impacto da \nrelação transferência com uma mulher com endometriose. Além deste, uma dissertação \n(BONFIM, 2019) traz um rico contexto teórico da teoria freudiana e discute os resultados de \num levantamento realizado após uma intervenção semi dirigida, a partir desse prisma.  \nO silenciamento, como discutido na introdução, não é neutro. Ele ecoa um padrão \nhistórico de banaliz ação do sofrimento feminino, no qual a dor das mulheres é tratada como \nexagero ou sensibilidade excessiva , como revisado a literatura dos estigmas por Sims et al . \n(2021), em que destaca que pacientes relatam ter sido desacreditadas por profissionais da saúde. \nA ausência de escuta qualificada, tanto na clínica quanto na ciência, reforça estigmas e produz \nefeitos iatrogênicos. A mulher com endometriose, quando n ão encontra um espaço simbólico \npara nomear sua dor, tende a internalizá -la como falha, vergonha ou fraqueza, o que agrava \nainda mais seu sofrimento.  \n\n \n98 \n \nA revisão, portanto, não apenas mapeia um campo em desenvolvimento, mas encontra \numa lacuna ética na produção de conhecimento: a carência de dados sobre a dimensão psíquica \nno cuidado integral à mulher que possui endometriose. Diante disso, a presente pesquisa propõe \ncontribuir com esse campo c ientífico, sobre endometriose na psicologia, mas também sugerir \nque a escuta clínica seja cada vez mais uma ferramenta fundamental para o cuidado em saúde. \nA escuta não como técnica, mas como atitude ética diante da dor que muitas vezes não encontra \nnome.  \nNessa direção, a teoria winnicottiana oferece um referencial potente, pois permite pensar \na dor para além do corpo biológico, situando-a como experiência simbólica e relacional diante \nos conceitos de psique e soma. Dito isso, foi proposto o estudo do caso de Rosa, uma paciente \nque, assim como muitas mulheres com endometriose, chega ao consultório com um histórico \nde diagnóstico difícil e invalidação dos sintomas psicológicos atrelados a ela. Dos impactos, as \nmulheres com endometriose geralmente enfrentam o estigma de várias fontes, inclusive da \nfamília e dos profissionais de saúde, o que pode levar a sentimentos de desespero e exclusão \nsocial (TRAGANTZOPOULOU, 2024). Esse estigma contribui para a falta de conscientização \ne compreensão da doença, podendo ser uma das causas do atraso no diagnóstico e no tratamento \n(SIMS et al., 2021). \nSe por um lado a literatura aponta a carência de investigações psicológicas sensíveis à \ncomplexidade da endometriose, por outro, o percurso de Rosa em psicoterapia revela \njustamente aquilo que não foi captado pelas escalas, mas que ascende com força nas entrelinhas \ndo desejo de ser escutada, de dar sentido à dor e de existir com dignidade no próprio corpo.  \nAo narrar suas experiências, especialmente em torno das cirurgias e da sexualidade \nmarcada por dor, Rosa deixava entrever o modo como o discurso médico a havia interferido no \ndireito à própria palavra. Ela falava e relembra na entrevista  que “era como se tudo isso não \nfosse grande o suficiente para merecer atenção”, revelando a introjeção de uma lógica que \nbanaliza o sofrimento feminino (ZONDERVAN, et al, 2020, pp.). \nUm dos momentos clínicos mais marcantes se deu quando Rosa, de forma hesitante, \nperguntou se poderia mostrar o botão de costura que tinha a cor rosa, que para mim simboliza \nsua dor, e se isso me causaria incômodo. Esse gesto, aparentemente simples, condensava uma \nsérie de processos inconscientes , como o medo de invadir, a necessidade de autorização para \nser vista, o desejo de reconhecimento e, ao mesmo tempo, a desconfiança de que sua dor fosse \n“demais”. Era um gesto de sua dificuldade em ser espontânea, tentando se adaptar ao que o \nambiente viesse a exigir dela, independente do que ela estivesse passando.  \n\n \n99 \n \nA pergunta de Rosa não dizia respeito apenas ao botão, mas à possibilidade de sustentar \nsua subjetividade na presença do outro . O aceite em ver sua complexidade, independente do \nque estivesse “por debaixo dos panos” trouxe o manejo clínico necessário para que Rosa \npudesse se sentir segura . O aspecto do manejo, como explica Kupermann (2008) , enquanto \ncapacidade do analista de se adaptar suficientemente aos modos de subjetivação do analisando, \ncriando um \"contexto analítico\" adequado, foi realizada. \nEsse gesto revela o que Winnicott compreende como o núcleo da transferência em sua \nabordagem, que é a busca por um ambiente que sustente, acolha e possibilite a retomada da \ncontinuidade do ser, ao invés de interpretar prematuramente o que se expressa  em ato. A \ntransferência, nesse contexto, não se apresenta como repetição de padrões infantis apenas, mas \ncomo um movimento relacional em tempo real.  (WINNICOTT, 1935/2021; 1960/2021). Ao \nacolher esse gesto sem interpretações precipitadas, a escuta analítica ofereceu um continente \nsimbólico que permitiu à paciente existir ali sem precisar se ajustar às expectativas de \nnormalidade ou resistência.  \nNo decorrer do processo, tornou -se evidente a função do setting36 como espaço \npotencial, o lugar intermediário entre o mundo interno e a realidade externa, onde o brincar e a \nelaboração simbólica se tornam possíveis (WINNICOTT, 1971/2024; 1971/2019; 1949/2021).  \nRosa, ao explorar suas angústias a partir d e seus impactos corporais, aos poucos \ndeslocou o discurso do “déficit” para o da construção  de que a mulher que sofre por não \ncorresponder à idealização d e um adulto pleno para a mulher que cria modos singulares de \nhabitar seu corpo, mesmo que ainda dolorido ou com considerações singulares.  \nEssa transição entre uma fala marcada pela impotência para uma fala que nomeia, \nressignifica e sustenta o vivido como central na concepção de psique -soma em Winnicott \n(1971/2024), e foi, clinicamente, o fio condutor da psicoterapia. \n \n36  Em uma conferência internacional da sociedade brasileira de psicanálise winnicottiana (2023) os pesquisadores \nXinchun Liu, Chenzhi Zhao, Tingting Tan apresentaram a conceituação de setting que ilustra o proposto aqui. \nDefiniram setting terapêutico na psicoterapia como a combinação do setting analítico (elementos concretos) e da \natitude analítica (elementos virtuais). Foi discutido o  espaço seguro criado para a comunicação e exploração do \ninconsciente, enfatizando a necessidade de um setting interno sólido do terapeuta, independentemente das \nvariações externas. Diferentes abordagens psicanalíticas foram apresentadas para ilustrar a el asticidade e a \ncriatividade na aplicação das regras do setting , como a abordagem de Winnicott: visão mais criativa, definindo o \nsetting como a “soma de todos os detalhes do manejo”. O setting em si é mais importante que a interpretação, \nenfatizando a confiabilidade, previsibilidade, disponibilidade e acessibilidade. Citaram o exemplo da terapia de \nWinnicott com Margaret Little, onde ele demonstrou flexibilidade ao segurar fisicamente sua mão, estender o \ntempo das sessões e visitá -la em casa, ilustrando a importância do “holding” (sustentação) para além da \ninterpretação. \n \n\n \n100 \n \nA dor pélvica crônica, nesse sentido, não foi abordada como sintoma a ser extinto, mas \ncomo uma oportunidade de expressão, algo que buscava linguagem. A clínica winnicottiana \nnos ensina que a dor também pode ser sinal de que o self que está tentando existir de forma \nautêntica, mesmo diante de um ambiente que falhou em reconhecer sua existência.  \nPara Rosa, a dor deixava de ser apenas corporal para se tornar narrativa. Sua \nverbalização, embora por vezes difícil e entrecortada, operava como tentativa de restaurar uma \ncontinuidade de ser comprometida pelas interrupções (intrusões, como Winnicott abordaria) \nambientais. Essa ideia foi explorada por Rosa ao dizer, já ao fim do processo, que “a terapia me \nfez pensar o corpo”, evidenciando a integração que se produziu ali entre psique e soma, diante \na palavra e dor. \nO discurso de difícil aceitação e silenciado, ainda que seja um dado típico com mulheres, \nneste caso, se potencializa pela vivência familiar de Rosa. Mesmo que acolhida e bem atendida \npelos familiares, os questionamentos foram insistentes, levando Rosa a se ajustar e entender \nque suas queixas poderiam ser remediadas por si mesma. Chegar em terapia e ser recebida em \num setting próspero para sua totalidade foi algo a ser elaborado ao longo dos anos, até que Rosa \npudesse se apropriar do setting, e então, de si mesma. \nA regressão37 que se produziu no setting foi, em diversos momentos, uma regressão \nterapêutica, que permitiu à paciente acessar camadas psíquicas mais arcaicas  de forma ética e \ndentro das possibilidades da paciente . Essa fala articula -se diretamente ao conceito \nwinnicottiano de ambiente suficientemente bo m. É ter a possibilidade de se desfazer do falso \nself e reencontrar, ainda que fragmentado, algo de sua autenticidade. O fato de o  \nacompanhamento psicoterapêutico ter ocorrido entre duas cirurgias, confere ainda mais força à \nvivência psíquica de reparação possível na análise. \nA análise do caso clínico, portanto, não apenas dialoga com as lacunas identificadas na \nrevisão de escopo, como também as personifica. Rosa representa o que a literatura muitas vezes \nnão consegue abarcar: uma mulher com endometriose em sofrimento físico e psíquico que ao \nencontrar um espaço de escuta, consegue narrar sua dor, sem medo e sem se desculpar por isso. \nEnquanto os estudos revisados frequentemente assumem o objeto e base  a mensuração de \nsintomas.  \n \n37 Para Fulgêncio (2011) a regressão em terapia é quando o  “eu” do paciente abandona defesas construídas após \num trauma. Isso possibilita um retorno a um estado  anterior ao evento traumático. Em essência, a terapia oferece \num ambiente seguro para re experienciar e integrar o que antes não pôde ser vivido. O objetivo é retomar o \namadurecimento que foi interrompido pela falha ambiental e alcançar a integração. \n\n \n101 \n \nO caso aqui apresentado revela a potência transformadora na psicologia de um vínculo \nterapêutico sustentado pelo reconhecimento ético da dor como experiência validada na \nrealidade com impactos imensuráveis da subjetividade. Nesse ponto, mais do que confirmar \nhipóteses, o estudo de caso demonstra o que  a psicologia pode oferecer: um espaço de \nsimbolização, elaboração e cuidado. \nNesse entre jogo da análise, pode-se viver o espaço potencial, onde a transferência se \nconfigura como campo relacional em que o paciente pode, talvez pela primeira vez, \nexperienciar um vínculo não intrusivo, “suficientemente” bom, que tem o potencial de reparar \nfalhas ambientais anteriores. Para Winnicott (1958/1983; 1961/2021), a transferência não deve \nser apressadamente decodificada via interpretação, mas sustentada como  um campo de \nconfiança onde se possa construir um self fortalecido. No caso de Rosa, a relação transferencial \nfoi marcada por momentos em que ela parecia testar a escuta da analista e sua disponibilidade \nemocional e ética para sustentar sua dor sem julgame nto. Esses momentos não exigiram \ninterpretações, mas presença. \n5.2. WINNICOTT E A DOR COMO EXPERIÊNCIA SUBJETIVA \n \nA teoria psicanalítica desenvolvida por Donald Winnicott oferece um solo fértil para \ncompreender o sofrimento psíquico que atravessa o corpo. Seu pensamento convida a olhar para \nalém do sintoma, buscando escutar o que ele revela sobre o desenvolvimento emocional de um \nsujeito. Na  psicologia e na perspectiva winnicottiana, corpo e mente não são entidades \nseparadas, mas aspectos de uma mesma experiência de ser. A existência humana se estrutura a \npartir da vivência integrada entre o corpo biológico e o mundo emocional. Esse entrelaçamento \né o que Winnicott chamou de unidade psique-soma (WINNICOTT, 1971/2024). \nPara o autor, embora o corpo físico exista desde o nascimento, o sentimento de habitar \nesse corpo, de reconhecê -lo como parte de si, precisa ser construído. Esse processo não é \nautomático. Ele depende da presença e da sensibilidade do ambiente. Quando o bebê é acolhido \npor um cuidado suficientemente bom, começa a se sentir inteiro, com limites entre o que é ele \nmesmo e o que é o outro. A esse ponto de amadurecimento Winnicott deu o nome de \npersonalização, que corresponde à experiência de estar dentro do pró prio corpo e de ter uma \nlocalização psíquica interna (WINNICOTT, 1952/2021; 1968/2021). \nA ausência ou a falha significativa desse cuidado pode comprometer a continuidade do \nprocesso de maturação e integração. O sujeito pode crescer com uma sensação de deslocamento, \nde estranhamento em relação ao próprio corpo, como se ele fosse um lugar desconfortável ou \n\n \n102 \n \ninseguro (WINNICOTT, 1960c/1983). Nesse sentido, mulheres com endometriose podem viver \nessa experiência de forma intensa.  \nA dor recorrente, a demora no diagnóstico, os tratamentos repetitivos e o descrédito em \nrelação às queixas compõem um ambiente que falha em reconhecer subjetivamente a paciente, \npodendo reativar vivências primitivas de desamparo e de não integração . O corpo, nesse \ncontexto, pode ser tratado como um objeto de intervenção, e não como parte de uma pessoa que \nsente, pensa e deseja. \nNo caso de Rosa, essas rupturas e conquistas da integração apareceram de maneira sutil \ne dolorosa. Seu corpo carregava as marcas d a intervenção médica e de alguns silenciamentos \nsubjetivos. A dor que sentia não encontrava lugar nos discursos que a cercavam, o que produzia \nnela um sentimento de inadequação. O sentimento de interrupção  da vida, quando a dor \natravessava seu planejamento, era como se estivesse sempre sendo retomado do zero. Esse tipo \nde vivência, de quando essa continuidade é quebrada, o sujeito sente -se fragmentado, vivendo \nem pedaços (WINNICOTT, 1949/2021; 1971/2024; 1961/2021). \nA psicoterapia, nesse contexto, pode funcionar como um novo ambiente que ofereça ao \nsujeito aquilo que o ambiente original não pôde sustentar. Esse espaço pode ser um lugar \nintermediário entre o mundo interno e o mundo externo. É nesse território que o brincar, a \ncriação e a simbolização se tornam possíveis. Esse espaço foi chamado pelo autor de espaço \npotencial (WINNICOTT, 1971/2024; 1971/2019; 1949/2021) . Ali, o paciente pode expressar \naspectos de si que estavam silenciados ou desorganizados, de maneira protegida e criativa. No \ncaso de Rosa, esse espaço foi sendo constituído ao longo do processo terapêutico, especialmente \nquando ela sentiu que podia mostrar seu botão cor de rosa sem ser julgada ou constrangida. \nEsse gesto representava muito mais do que um símbolo , expressava a busca por um vínculo \ncapaz de acolhê-la. \nRosa não procurava um diagnóstico emocional para a endometriose, ela procurava um \nlugar confiável para testar se r ela mesma por completo . Em consonância, a  psicologia, \nsobretudo aquela inspirada na escuta psicanalítica, pode oferecer justamente isso às mulheres \ncom endometriose e outras condições crônicas. Um lugar onde o sofrimento seja reconhecido, \nonde o corpo seja tratado como extensão do sujeito, integrado, onde a dor possa ser narrada sem \nvergonha ou desconfiança. Em tempos de medicalização e fragment ação dos cuidados em \nsaúde, essa proposta clínica e ética ganha ainda mais relevância. \n\n \n103 \n \n5.3. CONTRIBUIÇÕES CRÍTICAS DA PSICOLOGIA DIANTE DA DOR \nFEMININA \n \nAo longo desta dissertação, buscou -se investigar o sofrimento psíquico de mulheres \ncom endometriose a partir de uma perspectiva psicanalítica sensível à subjetividade, à \nlinguagem do corpo e aos atravessamentos sociais que silenciam ou desacreditam a dor. Em \nambos os eixos, emergiu com força a necessidade de reposicionar a escuta como ferramenta \ncentral no cuidado em saúde. Como aponta Antúnez (2022), ao abordar a compreensão de que \nos afetos devem ser escutados em sua singularidade e complexidade.  \nA revisão de escopo revelou uma carência significativa de estudos psicológicos sobre \nendometriose que se disponham a compreender a dor como uma vivência subjetiva, simbólica \ne relacional. Essa invisibilidade científica acompanha o que historicamente se consolidou como \num silenciamento da dor feminina , principalmente em mulheres latinas \n(TRAGANTZOPOULOU, 2024). A endometriose é um exemplo emblemático desse processo. \nA teoria de Winnicott, ao longo deste trabalho, ofereceu os fundamentos necessários \npara compreender o valor ético e clínico dessa escuta. A dor, sob esse olhar, não é apenas um \nsinal de falha orgânica, mas pode ser também um grito do self que tenta sobrev iver. Ao criar \num ambiente suficientemente bom, a psicoterapia se apresenta como uma forma de cuidado que \nrestitui a confiança básica e permite que o sujeito reconquiste sua integridade.  Oferece um \nespaço de escuta e um campo transferencial que permite a t entativa de  reconstruir seu \nsentimento de existência. A transferência revela-se como mais do que um instrumento técnico, \nmas como experiência viva de reparação  com base na confiabilidade. Rosa não apenas narrou \nsua dor, ela também a encenou na relação analítica, e foi no manejo transferencial, atento e não \nintrusivo, que essa dor pôde ser simbolizada. \nA psicologia, especialmente quando inspirada na psicanálise, tem a tarefa de reconectar \no corpo à linguagem, o sintoma à história e o adoecimento à possibilidade de elaboração \nsimbólica. Dessa forma, esta dissertação reafirma a importância de práticas clínicas \ncomprometidas em ampliar o valor da escuta qualificada da dor. Isso implica reconhecer e \ncompreender a dor, validando e dando espaço para a elaboração dessa vivência. Exige também \nque os profissionais de saúde estejam atentos aos efeitos do discurso usado, e que sejam capazes \nde interrogar as próprias certezas clínicas e sintomatologias, por exemplo, em nome do cuidado \nético.  \n\n \n104 \n \n5.4. LIMITAÇÕES E FUTURAS PESQUISAS \n \nEste estudo baseia -se em um relato retrospectivo de um único caso clínico, o que \nimpossibilita a generalização dos achados. O atendimento ocorreu entre 2018 e 2022 e, nesta \npesquisa, a análise será restrita ao impacto da endometriose no processo terapêutic o. É \nimportante ressaltar que a reconstrução do caso se baseia exclusivamente na memória da \nanalista e nas contribuições retrospectivas da paciente, obtidas por meio de perguntas \ndirecionadas ao foco previamente estabelecido para o estudo. \nAlém disso, o estudo não permite replicação, uma vez que o conteúdo clínico foi \noriginalmente registrado com finalidades estritamente clínicas, sem intenção de pesquisa. Dessa \nforma, as reflexões apresentadas resultam de um esforço posterior de reconstrução do percurso \nterapêutico para construções teórico -clínicas. O acompanhamento psicoterapêutico teve \nduração de quatro anos e, dois anos após seu encerramento, a paciente foi convidada a \ncompartilhar nesta pesquisa sua experiência na psicoterapia em relação  aos impactos da \nendometriose. Embora essa não tenha sido sua queixa principal durante o tratamento, sua \nperspectiva retrospectiva contribuiu para a construção deste estudo. \nAdicionalmente, algumas limitações metodológicas devem ser consideradas. O estudo \nde caso não conta com um grupo de comparação entre diferentes abordagens psicoterapêuticas, \no que impede uma análise direta das especificidades da psicanálise em relação a outras técnicas \nterapêuticas. Além disso, por se tratar de um relato retrospectivo, há o risco de viés de memória \ntanto por parte da paciente quanto da analista, o que pode influenciar a reconstrução clínica. \nPor fim, não foram utilizados instrumentos padronizados para a avaliação quantitativa da \nevolução da dor ou da qualidade de vida durante o acompanhamento, o que restringe a análise \na um enfoque essencialmente qualitativo. \nNo que diz respeito à revisão de escopo, embora o estudo permita comparações \nmetodológicas entre pesquisas sobre o manejo dos impactos psicológicos da endometriose , as \nconclusões derivadas dessa análise estão embasadas à síntese das evidências disponíveis  nos \nestudos encontrados . Também vale destacar que a ausência de avaliação de qualidade de \nevidência é uma sensibilidade dessa revisão.  \nNo entanto, é importante reconhecer que o estudo apresenta algumas limitações, \nespecialmente relacionadas ao caráter retrospectivo do caso clínico analisado, o que implica um \npossível viés de memória tanto da analista quanto da paciente. Além disso, não foram utilizados \ninstrumentos padronizados de avaliação quantitativa da dor ou qualidade de vida durante o \n\n \n105 \n \nacompanhamento terapêutico, restringindo os achados à perspectiva qualitativa e subjetiva da \nexperiência analisada \n \n \n  \n\n \n106 \n \n6. CONSIDERAÇÕES FINAIS  \n \nEste estudo teve como propósito investigar as contribuições da psicologia para o manejo \ndos impactos emocionais da endometriose, articulando evidências teóricas e observações \nclínicas. Os objetivos específicos concentraram-se em mapear, por meio de revisão de escopo, \nas abordagens psicológicas já descritas; identificar lacunas na literatura e na prática; e explorar, \nsob perspectiva psicanalítica, o percurso de uma paciente submetida à cirurgia durante \nacompanhamento psicoterapêutico. \nOs resultados da revisão confirmam uma carência expressiva de pesquisas que abordem \na subjetividade das mulheres com endometriose. Predominam estudos quantitativos, com foco \nem ansiedade e depressão, enquanto reflexões teóricas sobre experiência vivida e intervenções \nindividuais permanecem escassas. O estudo de caso, conduzido a partir do método psicanalítico, \ndemonstrou a viabilidade de interlocução entre psicanálise e endometriose, evidenciando \nganhos clínicos na preparação para o procedimento cirúrgico e  na reconstrução da identidade \nprofissional da paciente. \nChamou atenção o êxito de intervenções psicológicas em grupo, avaliadas \npositivamente pelas participantes não só pelos benefícios terapêuticos, mas também pelo \nfortalecimento de redes de apoio e troca de informações sobre a doença. Igualmente marcante \nfoi o relato de Rosa, que atribuiu à psicoterapia maior segurança para enfrentar a cirurgia e \nsuperar uma autoimagem de inadequação ao trabalho. \nEsses achados indicam que tanto o acompanhamento em grupo quanto o atendimento \nindividual podem beneficiar mulheres com endometriose. Ao mesmo tempo, evidenciam uma \nlacuna importante: a escassez de estudos que capturem relatos subjetivos detalhados. A presente \ndissertação, ao adotar o referencial winnicottiano, inaugura uma via de compreensão que integra \ncorpo e psique, sugerindo que esse enfoque pode enriquecer o cuidado clínico. \nAs evidências levantadas abrem múltiplas trilhas para pesquisas futuras. Urge \naprofundar a investigação dos impactos subjetivos da endometriose com metodologias \nqualitativas e ampliar o diálogo entre psicanálise e saúde pública. Há espaço para desenvolver \nprotocolos breves, inspirados na psicanálise, que sejam exequíveis em centros de atenção \nespecializada, democratizando o acesso a uma escuta terapêutica qualificada. \nEm síntese, o presente trabalho reforça que dor e subjetividade caminham juntas e que \na psicologia, ao oferecer escuta cuidadosa, pode transformar trajetórias marcadas pela \ninvisibilidade em percursos de reconhecimento e cuidado integral. \n\n \n107 \n \nREFERÊNCIAS  \n \nALMEIDA, Alexandre Patricio de. 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O estudo inclui queixas \nde impacto psicológico como depressão, \nansiedade e impactos nas atividades \ndiárias devido à dor; \nO estudo envolve animais; \nO estudo não menciona a \nendometriose ou os dados são \nsecundários e impossibilitam análise \nindividualizada; O estudo não tem \nfundamentos psicológicos ou apenas \naborda aspectos biomédicos da \nendometriose; \n\n \n123 \n \n \n \n \n \n \n \nConceito \nO estudo é baseado na psicologia \n(teórica, conceitual, metodológica ou \ninterventiva); e explora a interseção \nentre endometriose e impactos \npsicológicos; Investiga a psicologia \ncomo intervenção para mulheres \ndiagnosticadas com endometriose; \nEstuda impactos psicológicos e \npsiquiátricos, qualidade de vida, \nprodutividade, vida financeira, \nsexualidade e outros aspectos \npsicológicos; Considera a psicologia no \ncontexto da saúde mental e qualidade de \nvida das mulheres com endometriose; \nAvalia intervenções psicológicas diretas \n(psicoterapia) ou reflexões psicológicas \nsobre o adoecimento; \nFoca exclusivamente em \nintervenções hormonais, \nmedicamentosas ou cirúrgicas; \nEstudo de terapias complementares \n(fisioterapia, yoga, acupuntura, artes \netc.) sem contribuição direta da \npsicologia; Resultados psicológicos \ncomo consequência de tratamentos \nnão psicológicos; Achados clínicos, \nmédicos ou laboratoriais como \nobjetivo de pesquisa; Intervenções \nmedicamentosas sem análise baseada \nna psicologia; Validações \npsicométricas de questionários; O \nestudo é uma diretriz, metodologia de \nrevisão, comentário de tex tos, \npalestra ou congresso; \n \n \n \nContexto \nQualquer contexto (clínico, \nambulatorial, comunitário, hospitalar, \npesquisa), desde que relacionado à \npsicologia aplicada à endometriose; O \nestudo tem fator interventivo da \npsicologia; diferencia intervenções \npsicológicas e seus resultados no \ntratamento da  endometriose; apresenta \nreflexões psicológicas ou interventivas \nsobre os casos de endometriose; \nO estudo não está inserido no \ncontexto de tratamento psicológico da \nendometriose; O estudo não apresenta \nanálise de intervenções psicológicas \naplicadas ao tratamento da \nendometriose; \n \n \n  \n\n \n124 \n \nANEXO B - PRISMA-ScR \n \n \n  \n\n\n \n125 \n \nANEXO C – ESTRATÉGIAS USADAS \nEstratégia de Busca \nDatabase Search Strategy \nPubMed \n(\"Endometrios*\"[Title]) AND (\"Mental health\" OR \"Mental\" \nOR \"Psychological\" OR \"Psychopathological\" OR \"Psychosomatic\" \nOR \"Quality of life\" OR \"Interpersonal relationships\" OR \"Psychiatric\" \nOR \"Emotional complaints\" OR \"psychotherapy\" OR \"Depression\" \nOR \"Anxiety\") \nPsycINFO \n\"Endometrios*\" AND Any Field: \"Mental health\" OR Any \nField: \"Mental\" OR Any Field: \"Psychological\" OR Any Field: \n\"Psychopathological\" OR Any Field: \"Psychosomatic\" OR Any Field: \n\"Quality of life\" OR Any Field: \"Interpersonal relationships\" OR Any \nField: \"Psychiatric\" OR Any Field: \"Emotional complaints\" OR Any \nField: \"psychotherapy\" OR Any Field: \"Depression\" OR Any Field: \n\"Anxiety\" \nWeb of Science \n\"Endometrios*\" (Title) e \"Mental health\" OR \"Mental\" OR \n\"Psychological\" OR \"Psychopathological\" OR \"Psychosomatic\" OR \n\"Quality of life\" OR \"Interpersonal relationships\" OR \"Psychiatric\" OR \n\"Emotional complaints\" OR \"psychotherapy\" OR \"Depression\" OR \n\"Anxiety\" (Any Field) \nScopus \nTITLE-ABS-KEY (\"Endometrios*\") AND TITLE -ABS-KEY \n(\"Mental health\" OR \"Mental\" OR \"Psychological\" OR \n\"Psychopathological\" OR \"Psychosomatic\" OR \"Quality of life\" OR \n\n \n126 \n \n\"Interpersonal relationships\" OR \"Psychiatric\" OR \"Emotional \ncomplaints\" OR \"psychotherapy\" OR \"Depression\" OR \"Anxiety\" )  \nBVS (Biblioteca \nVirtual em Saúde) \n(ti:(Endometrios*)) AND (“Saúde mental” OR “Mental” OR \n“Psicológico” OR “Psicopatológico” OR “Psicossomático” OR \n“Qualidade de vida” OR “Relacionamentos interpessoais” OR \n“Psiquiátrico” OR “Queixas emocionais” OR “psicoterapia” OR \n“Depressão” OR “Ansiedade”) \n  \n\n \n127 \n \nANEXO D - PROMPT PARA IA \n \n“Chat, estou fazendo uma revisão de escopo sobre a intersecção da endometriose e a \npsicologia. Meu objetivo é mapear  estudos que articulem endometriose e psicologia, \nidentificando conhecimentos disponíveis e lacunas científicas, a fim de contribuir para a \nelaboração de novos protocolos de atendimento psicológico para pacientes com endometriose. \nQuero que você funcione como um revisor, avaliando o artigo completo  para informar se os \nartigos que eu lhe enviar estão ou não de acordo com meus critérios de inclusão e de exclusão \nde forma eficiente, e se devo ou não incluir os estudos para a avaliação final dos resultados em \nminha revisão. \nQuero que faça uma avaliação e no final de uma conclusão explicando se deve ou não ser \nincluído na revisão de escopo e quais trechos do artigo te levaram a essa tomada de decisão. \nPara isso, a qui estão os critérios de elegibilidade: Esta revisão de escopo apresentará um \nmapeamento da intersecção de dois conceitos chave, endometriose e psicologia. O mapeamento \nestudou a população que é acometida pela endometriose sob a perspectiva da psicologia para \ncompreender e sintetizar quais as contribuições de intervenções no tratamento emocional e \nsaúde mental.  \nCRITÉRIOS DE INCLUSÃO: \nDOS PARTICIPANTES, CONSIDERAR INCLUSOS: \n● Mulheres com endometriose, doença ginecológica que pode ou não ter \ncomorbidades.  \n● Das comorbidades, será considerado a Endometriose e Adenomiose; e Dor \nPélvica Crônica; e Cistite Intersticial (Síndrome da Bexiga Dolorosa - BPS); e Síndrome do \nCólon Irritável (SII). Desses estudos, serão incluídos se os dados qualitativos puderem ser \natribuídos de forma clara e singular à população de interesse, no caso, endometriose. \n● As participantes podem ser de qualquer país, grupo étnico ou raça, orientação \nsexual, idade ou estado de saúde, desde condições de saúde mental, qualidade de vida e \naspectos psicológicos sejam relatados.  \n● As queixas psicológicas podem incluir comorbidades psiquiátricas como \ndepressão, ansiedade e impactos nas atividades diárias por conta da dor.  \n● Outras comorbidades psicológicas ou psiquiátricas podem ser incluídas, porém \ndevem ser categorizadas em “outras comorbidades psiquiátricas”. \nDOS CONCEITO, CONSIDERAR INCLUSOS:  \n\n \n128 \n \n● Serão selecionados estudos baseados na psicologia, de compreensão \nteórica, experimental ou outros, focando na intersecção entre os conceitos da \nendometriose e impactos emocionais de foco psicológico.  \n● Podem ser estudos que explorem os aspectos psicológicos da \nendometriose de forma quantitativa ou qualitativa, desde que haja interesse em \ncompreender a psicologia como uma forma de intervir as pacientes diagnosticadas com \nendometriose. \n● Para serem incluídos, precisam focar nas considerações da psicologia a \npopulação acometida pela doença, pensando em impactos psicológicos e/ou \npsiquiátricos, em qualidade de vida, na produtividade, vida financeira, sexual, entre \noutros achados que podem se r mapeados se forem encontrados e estiverem dentro do \ncampo da psicologia. \n● No que se refere à compreensão da psicologia, inclui -se qualidade de \nvida e saúde mental. \nDO CONTEXTO, CONSIDERAR INCLUSOS: \n● Esta revisão considerará o contexto de tratamento psicológico, como \nintervenções diretas ou reflexivas sobre o adoecimento da mulher com endometriose. \n● Levaremos em consideração estudos globais que possuam o fator \ninterventivo de psicologia. \n● O foco será diferenciar os tratamentos e intervenções da psicologia já \npensados ou testados, seus possíveis resultados ou resultados e as reflexões psicológicas \nou interventivas acerca de casos. \n● Somente textos nos idiomas inglês, francês, alemão, espanhol, italiano e \nportuguês. \nCRITÉRIOS DE EXCLUSÃO: \nDA POPULAÇÃO, DEVE EXCLUIR: \n● Estudos com animais. \n● Não incluiremos estudos com mulheres com outras doenças \nginecológicas que não endometriose. \n● Estudos dos quais os dados de endometriose sejam secundários a ponto \nde não poderem ser mapeados de forma individualizada. \n● Excluiremos estudos que não tenham relatos de aspectos psicológicos, \ncomo doenças ou características, das participantes em questão, sejam reflexivos, \nexperimentais ou outros. \n\n \n129 \n \nDO CONCEITO, DEVE EXCLUIR: \n● Estudos de intervenções e considerações acerca de outras áreas como \nmedicamentosos e farmacológicos, de processos cirúrgicos ou de terapias \ncomplementares como fisioterapia ou acupuntura, ainda que os achados sejam de \naspectos psicológicos. \n● Não levaremos em consideração estudos em que os resultados \npsicológicos sejam consequências dos tratamentos outros.  \nDO CONTEXTO, DEVE EXCLUIR:  \n● Excluiremos os estudos que objetivam resultados focados em achados \nclínicos, médicos, laboratoriais, como resultados de exames médicos.  \n● Não levaremos em conta resultados secundários a intervenções \nmedicamentosas ou outras áreas que não sejam de intervenção psicológica.  \n● Estudos que visem validações psicométricas de questionários de \nqualidade de vida e outros. \n● Estudos de métodos como os de Diretrizes, Comentários , Resumos, \nPalestras, Revisões ou Congressos.  \n● Artigos não disponíveis pelas bases assinadas pela universidade de São \nPaulo e/ou que o contato não seja efetivo. \n \nOu seja, p ara o artigo ser incluído na revisão de escopo ele não precisará incluir uma \nintervenção psicológica eficaz para tratamento da endometriose, mas deve apresentar \ncontribuições a partir da psicologia, como exemplo, podem ser incluídos artigos que apresentem \numa reflexão teórica baseada em abordagem psicológica para compreender a doença da \nendometriose ou até estudos de caso. Os artigos não devem ser inclusos se tiverem a proposta \nde elucidar as queixas psicológicas das mulheres com endometriose, som ente incluiremos na \nrevisão de escopo se houver alguma sugestão de teórica, conceito, abordagem, método, \npsicoterapia ou compreensão baseada na psicologia através de profissionais de psicologia. O \nfoco do artigo não deve ser na relação médica ou médico paciente.  \nGostaria de ter claro com você que em sua avaliação, se o artigo é ou não um estudo que \ngera apenas uma constatação da necessidade do campo da psicologia ou se se dedica a pensar \npela psicologia o que a endometriose causa na vida das mulheres diagnosticadas. Esse é um \ndado importante para eu ter a decisão de cada artigo.  \nPeço a gentileza de me explicar melhor cada uma das avaliações que você fez e o que o \ntexto reforça sua decisão em cada um dos pontos? Isso é fundamental , pois verificarei se sua \n\n \n130 \n \nrevisão precisará ou não passar por dupla verificação por mim, uma vez que eu não estou lendo \no artigo  na íntegra. Ou seja, se puder informar melhor o que reforça sua avaliação posso \nentender do artigo através dos seus pontos levantados a partir da leitura completa do PDF \nenviado. Inclua uma sessão com a conclusão que você obteve após a leitura do artigo. \nÉ importante você apresentar sua opinião baseada nos critérios de população, conceito e \ncontexto. Deixe claro o que reforça, no texto, sua tomada de decisão.  Me responda em sua \navaliação O que a psicologia fez pela endometriose neste estudo? Qual foi a intersecção? Quais \nas Conclusão e Limitações apresentadas? \nQuero também uma síntese de 2 linhas que responda m o motivo da  sua decisão após \nconfirmar e me informar os dados organizados no instrumento de coleta de dados, junto a \ninformação do idioma original do pdf.  \nAgora, vamos lá, pode assumir o papel de um revisor des te estudo, ocupando a função de \num avaliador de artigos baseados nos critérios de inclusão e exclusão e apresentando sua \nopinião acerca do texto apresentado. Podemos fazer esse trabalho juntos? Inclua na sua \navaliação uma análise se os dados do artigo possuem intenção de trazer contribuições da \npsicologia ou se é com fins de constatar a importância dessa área? Quero que as avaliações \nincluam a leitura crítica também, entende?” \n \n  \n\n \n131 \n \nANEXO E - DISCUSSÃO DE ELEGIBILIDADE COM IA \n \nRESPOSTA MODELO \n \n“Aqui está a avaliação completa e detalhada do artigo Geller et al. (2021) , com aplicação \nrigorosa dos critérios de elegibilidade e preenchimento do instrumento de seleção, já incluindo \nas informações adicionais solicitadas: \n \n   Avaliação completa do artigo \nGeller, Shulamit et al. (2021) – Predictors of Psychological Distress in Women with \nEndometriosis: The Role of Multimorbidity, Body Image, and Self-Criticism. \n \n    Leitura crítica sobre o papel da psicologia no artigo \nEste estudo teve como objetivo investigar como fatores psicológicos (imagem corporal e \nautocrítica), multimorbidade e dor se relacionam com sintomas de ansiedade e depressão em \nmulheres com endometriose, utilizando modelos de mediação para explicar a inter ação desses \nfatores. \nA psicologia está no centro do estudo por vários motivos: \n• Desenvolvido por profissionais da psicologia e ciências comportamentais. \n• Aplicação de conceitos teóricos da psicologia, como imagem corporal, autocrítica, \nautoestima e mecanismos de vergonha corporal. \n• Utiliza escalas psicométricas amplamente reconhecidas na psicologia (PHQ-9, GAD-7, \nBAS-2 e DEQ-SC). \n• Analisa como a interação entre percepção corporal negativa, autocrítica elevada e dor \nintensifica os sintomas de ansiedade e depressão em mulheres com endometriose. \n• Propõe intervenções psicológicas direcionadas, como treinamento da mente \ncompassiva (CMT)  e terapias de aceitação psicológica , para reduzir o impacto \nemocional da doença e suas comorbidades. \n    Resposta à dúvida central: \n   Sim, o artigo pensa a endometriose a partir da psicologia, ao aplicar modelos psicológicos \npara explicar o sofrimento emocional e sugerir intervenções psicoterapêuticas fundamentadas \nna psicologia clínica. \n \n\n \n132 \n \n    Avaliação detalhada com base nos critérios de elegibilidade \nPopulação –   Inclui \n• Amostra de 247 mulheres (73 com endometriose, 62 com endometriose associada a \noutras doenças crônicas, e 112 mulheres saudáveis). \n• Diagnóstico autorrelatado, com foco claro em mulheres com endometriose. \n \nConceito –   Inclui \n• O estudo aplica conceitos psicológicos fundamentais e modelos teóricos robustos da \npsicologia sobre imagem corporal e autocrítica, além de sua relação com sofrimento \nemocional. \n \nContexto –   Inclui \n• Contextualiza a necessidade de intervenções psicológicas específicas para mulheres \ncom endometriose e multimorbidade, indicando técnicas como treinamento de \ncompaixão e aceitação como possibilidades terapêuticas. \n \n   Decisão final do revisor: \n  Incluir o artigo na revisão de escopo. \n \n   Síntese objetiva da decisão: \nO artigo foi incluído por aplicar modelos psicológicos para explicar a intensificação do \nsofrimento emocional na endometriose e propor intervenções psicológicas fundamentadas na \nprática clínica. \n \n   Instrumento de Seleção – Geller et al. (2021) \nCampo Descrição \nResumo \nEstudo que analisou o papel da imagem corporal, \nautocrítica, dor e multimorbidade  como preditores de \nsofrimento emocional em mulheres com endometriose. \nObjetivo \nDesenvolver um modelo explicativo sobre como imagem \ncorporal, autocrítica e dor contribuem para ansiedade e \n\n \n133 \n \nCampo Descrição \ndepressão em mulheres com endometriose, com e sem \noutras doenças crônicas. \nPergunta de pesquisa \nQuais fatores psicológicos e físicos explicam os níveis de \nsofrimento emocional em mulheres com endometriose, \ncom ou sem multimorbidade? \nCritérios de estudo / inclusão \nMulheres de 20 a 50 anos, residentes em Israel, com \ndiagnóstico autorrelatado de endometriose, com ou sem \ndoenças crônicas adicionais. \nMetodologia/Tipo de estudo \nEstudo quantitativo, transversal, com modelos de \nmediação. \nTeve intervenção? Qual? \n  Não houve intervenção terapêutica direta; análise \nobservacional. \nFormato da intervenção e se for \nde terapia, qual a duração \nNão aplicável. \nAbordagem psicológica ou \nmétodo psicológico ou conceito \nde psicologia \nImagem corporal, autocrítica, vergonha corporal, \nsofrimento emocional e propostas de intervenções como \nTreinamento da Mente Compassiva (CMT) e aceitação. \nParticipantes/Alvo de estudo \n247 mulheres (73 com endometriose, 62 com endometriose \n+ doenças crônicas, 112 saudáveis). \nIdade média (Desvio Padrão) 31,3 anos (± 6,4). \nMedições ou escalas \npsicométricas usadas \n- Patient Health Questionnaire (PHQ -9); \n- Generalized Anxiety Disorder Scale (GAD -7); \n- Body Appreciation Scale -2 (BAS -2); \n- Self-Criticism Subscale (DEQ-SC). \nPrincipais queixas, variáveis \nclínicas e físicas \nDor pélvica crônica, ansiedade, depressão, impacto \nnegativo na imagem corporal e sentimentos de autocrítica. \nPrincipais resultados \nMultimorbidade associada a maior sofrimento psicológico, \nmediado por pior imagem corporal, maior autocrítica e dor \nintensa. \n\n \n134 \n \nCampo Descrição \nO que a psicologia fez pela \nendometriose nesse estudo? \nQual foi a intersecção? \nAplicou modelos psicológicos para explicar o sofrimento \nemocional e propôs intervenções psicoterapêuticas \nespecíficas voltadas à autocompaixão e aceitação. \nConclusão de leitores \nMulheres com endometriose e doenças crônicas adicionais \ntêm maior risco de sofrimento emocional, indicando a \nnecessidade de intervenções psicológicas direcionadas. \nLimitações \nDiagnóstico autorrelatado, amostra online, estudo \ntransversal (sem causalidade), impacto potencial da \npandemia de COVID -19, questionários adaptados ao \nhebraico sem validação formal. \nStatus do artigo    Completo. \nQuantidade de páginas 13 páginas. \nIdioma original Inglês. \n \n \nEXEMPLO DE DISCUSSÃO E RESPOSTA OBTIDA \n \n• Discussão:  \n“Neste último artigo analisado fiquei com dúvidas, ao ler sua avaliação fiquei com a \nimpressão de que ele não fala como é possível ver a psicologia nesses casos, parece fazer uma \nindicação superficial de um tratamento psicológico! Você acha que esse artigo tem informações \nsuficientes para ser mapeado na revisão que estamos avaliando? Poderia detalhar melhor sua \nescolha?” \n• O ChatGPT disse: \n“Excelente reflexão! Essa é uma dúvida muito pertinente e, de fato, é fundamental que \nfaçamos essa análise com cautela, especialmente porque estamos trabalhando justamente na \nlinha tênue entre estudos que constatam a necessidade da psicologia e aqueles que \nefetivamente aplicam e elaboram conhecimento psicológico sobre a endometriose. \nVou te explicar com mais profundidade a leitura crítica do artigo Geller et al. (2021), e já te \nadianto: ao revisitar com atenção o texto, concordo que ele se aproxima mais do limite da \nexclusão, e aqui está o porquê: \n \n\n \n135 \n \n    Análise crítica aprofundada do papel da psicologia no artigo \nO que o artigo faz: \n• Identifica níveis elevados de sofrimento psicológico (ansiedade e depressão) em \nmulheres com endometriose, especialmente naquelas com multimorbidades. \n• Avalia como imagem corporal e autocrítica impactam esses sintomas emocionais. \n• Usa instrumentos psicológicos válidos para medir essas variáveis e modela \nestatisticamente como elas interagem. \n• Ao final, sugere que intervenções psicológicas poderiam focar em aspectos como a \nautocompaixão, aceitação e manejo da vergonha corporal. \nAgora, o ponto crucial para sua dúvida:    O artigo não desenvolve ou aprofunda as \nintervenções, técnicas, protocolos ou fundamentações teóricas da psicologia aplicada \nnesses casos.    A menção à psicologia acontece no contexto de \"seria importante intervir\" e \ncitações de possíveis caminhos terapêuticos, mas não há elaboração prática, teórica ou \nmetodológica robusta da psicologia no manejo da endometriose.     Não há proposta \nconcreta de aplicação clínica ou reflexão conceitual que avance a compreensão da ps icologia \nsobre o adoecimento por endometriose – ele se limita a apontar correlações entre sofrimento \npsíquico e variáveis como imagem corporal e autocrítica. \n \n    Em resumo, o que temos: \n•    Aspectos positivos para considerar: \no Aplicação de instrumentos psicológicos. \no Identificação de variáveis da psicologia relevantes no sofrimento da \nendometriose. \no Proposta inicial de que a psicologia pode atuar nesses casos. \n•   Aspectos críticos que pesam para exclusão: \no Atua mais no campo descritivo e diagnóstico do sofrimento psicológico. \no Não há desenvolvimento da psicologia como ciência aplicada ao cuidado da \nendometriose. \no Indicação superficial de intervenção psicológica, sem detalhamento técnico ou \nteórico. \no O \"papel da psicologia\" aparece como recomendação final, não como eixo do \nestudo. \n \n\n \n136 \n \n   Conclusão como revisor: \n  Recomendo a EXCLUSÃO deste artigo da revisão de escopo. \n \n   Justificativa objetiva de exclusão: \nEmbora o artigo avalie aspectos psicológicos importantes relacionados ao sofrimento \nemocional em mulheres com endometriose e identifique possíveis alvos terapêuticos (como \nautocrítica e imagem corporal ), não apresenta desenvolvimento teórico, conceitual ou \naplicado da psicologia sobre a endometriose. Limita -se a constatar a necessidade de suporte \npsicológico sem avançar em proposições concretas fundamentadas no campo psicológico.” \n \n \n  \n\n \n137 \n \nANEXO F - GUIA PARA AVALIAÇÃO DE ELEGIBILIDADE  \n \nGuia para Avaliação de Artigos – Revisão de Escopo Endometriose e Psicologia \ndevidamente registrado no Open Science Framework (OSF) \nDOI 10.17605/OSF.IO/WXE7V \nObjetivo: Garantir uniformidade na avaliação e extração dos dados dos estudos, seguindo os \ncritérios de elegibilidade definidos para a revisão de escopo. \nPara cada artigo avaliado, responda: \nItem Questão Resposta \n  \nPopulação \nO estudo aborda mulheres com diagnóstico de endometriose?   \nSim / \nNão \n  \nConceito \nExiste contribuição da psicologia (teórica, conceitual, \nmetodológica ou interventiva)? \n  \nSim / \nNão \n \nContexto \nO foco é na atuação/intervenção/reflexão psicológica e não \napenas médica? \n  \nSim / \nNão \n Aspectos \nPsicológicos \nSão discutidas impactos emocionais, saúde mental, qualidade \nde vida sob perspectiva psicológica? \n  \nSim / \nNão \n \nIncluir se: Todas as respostas forem “Sim”. \n Excluir se: Alguma das respostas for “Não”.  \n O motivo da exclusão deve ser informado na coluna nomeada como “Motivo da avaliação 2”. \nPasso 2: Preenchimento da Tabela de Extração (segunda revisão / revisor). \nPasso 3: Conferência Final \n• Revisores devem comparar avaliações e resolver divergências.  \n • toda exclusão deve ser registrada com o motivo correspondente. \n \n  \n\n \n138 \n \nANEXO G - FORMULÁRIO DE EXTRAÇÃO DE DADOS  \n \n1. Identificação do estudo \n1.1. Qual é o código ou número de identificação deste artigo no banco de dados da revisão? \n1.2. Lista de autores \n1.3. Quem é o autor principal do artigo? \n1.4. Em que ano o artigo foi publicado? \n1.5. Qual o ISSN da revista científica? \n1.6. Qual é o DOI do artigo? \n1.7. Qual é o título original do artigo? \n1.8. Em que país o estudo foi realizado? \n1.9. Qual é o idioma original do artigo? \n1.10. Qual o link da página da revista em que o artigo foi publicado? \n \n2. Avaliação inicial do artigo \n2.1. Qual foi a avaliação do revisor autor?  \n2.2. Qual a decisão preliminar realizada pelo ChatGPT? \n2.3. Justifique a decisão preliminar com base na avaliação do ChatGPT e da leitura inicial. \n \n3. Segunda avaliação  \n3.1. Qual foi a decisão do segundo avaliador? \n3.2. Existe conflito entre as avaliações etapas 2 e 3? \n \n4. Terceira avaliação (se aplicável) \n4.1. O artigo foi submetido à terceira revisão para resolução de conflito? \n4.2. Qual foi a decisão final após a resolução do conflito? \n \n5. Conteúdo do estudo \n5.1. Qual é o resumo fornecido pelo artigo? \n5.2. Qual o objetivo principal da pesquisa? \n5.3. A pesquisa apresenta uma pergunta de pesquisa explícita? Qual? \n5.4. Quais são os critérios de inclusão e/ou exclusão adotados pelo estudo? \n5.5. Qual a metodologia utilizada (tipo de estudo)? \n \n6. Intervenções e abordagens psicológicas \n6.1. O estudo apresentou alguma intervenção? Se sim, qual foi? \n6.2. Como foi o formato da intervenção (ex: individual, em grupo, presencial, online)? \n6.3. Caso a intervenção tenha sido psicoterapêutica, qual foi a duração e frequência? \n6.4. Qual foi a abordagem psicológica utilizada, ou método, ou conceito teórico vinculado à \npsicologia? \n \n7. Participantes e medidas \n7.1. Quem foram os participantes ou o público-alvo do estudo? \n\n \n139 \n \n7.2. Qual foi a idade média dos participantes? Indique também o desvio padrão, se disponível. \n7.3. Quais instrumentos ou escalas psicométricas foram utilizados na pesquisa? \n7.4. Quais foram as principais queixas, variáveis clínicas e/ou físicas observadas? \n \n8. Resultados e implicações psicológicas \n8.1. Quais foram os principais resultados e conclusões fornecidas pelo artigo? \n8.2. Qual foi a contribuição da psicologia para a endometriose neste estudo? \n8.3. Como se estabeleceu a intersecção entre psicologia e endometriose na pesquisa? \n8.4. Qual foi a conclusão geral dos revisores/leitores da revisão de escopo? \n8.5. O estudo informa limitações? Quais foram? \n  \n\n \n140 \n \nANEXO H - TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO – TCLE \n \nRufino, T. A. T. Por um fio: A compreensão da dor na endometriose a partir da dupla analítica. \n(Dissertação de Mestrado). Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. \nAutora: Tayane Aparecida Teizen Rufino. \nOrientador: Orientador: Prof. Dr. Andrés Eduardo Aguirre Antúnez. \nInstituto de Psicologia da Universidade de São Paulo - Departamento de \nPsicologia Clínica \n Convidamos você a participar de uma pesquisa intitulada: “Por um fio: A compreensão da \ndor na endometriose a partir da dupla analítica”, de responsabilidade da Pesquisadora, \nTayane Aparecida Teizen Rufino, que pode ser contatada pelo e-mail tayane.teizen@usp.br e \npelo telefone +55 11 9 6187 9290, e pelo pesquisador e orientador desta pesquisa responsável \nProf. Dr. Andrés Eduardo Aguirre Antúnez, que pode ser contatado pelo e-mail \nantunez@usp.br ou pelo telefone + 55 11 3091 4160. Sob aprovação do Comitê de Ética em \nPesquisa com Seres Humanos do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo – \nCEP-IPUSP, de forma presencial na Av. Prof. Mello Moraes, 1.721, Bloco G, 2º Andar, sala \n27, Cidade Universitária – São Paulo/SP – 05508-030, por meio de ligação no telefone + 55 \n11 3091 4182 ou pelo e-mail cep.ip@usp.br. \n Do objetivo: Este estudo tem o objetivo de compreender o caso de uma mulher com \ndor pélvica crônica decorrente da endometriose e os possíveis impactos que a dor pode acarretar \nnos aspectos psicológicos e na qualidade de vida a partir da contribuição teórica e clínica de \numa psicoterapia psicanalítica já realizada no período de 2018 a 2023. \nRiscos e benefícios: Essa pesquisa não oferece riscos físicos, porém esclarecemos que, \nem caso de qualquer tipo de desconforto emocional ou angústias que surgirem você será \nprontamente apoiada e dado suporte pela psicóloga responsável. Caso necessário, se a psicóloga \nou você assim achar pertinente, pode haver interrupções, reagendamentos e encaminhamentos \na atendimentos especializados ou serviços de atendimento específicos. \nComo benefício de sua participação, temos o propósito de que essa pesquisa gere \nimpactos importantes na compreensão subjetiva da dor em mulheres com endometriose e a \npossibilidade de melhorar a oferta de tratamento em centros médicos ou de saúde que recebem \n\n \n141 \n \ncasos dessa patologia, podendo impactar positivamente na vida de mulheres que, assim como \nvocê, possuem esse diagnóstico e passam por dores pélvica crônicas. \nParticipação na pesquisa: A sua participação nesta pesquisa requer de 1 até 5 \nencontros virtuais ou presenciais na cidade de São Paulo - SP, que não serão gravados nem por \nvídeo nem áudio de nenhuma das partes, de acordo com a sua disponibilidade e da pesquisadora \npara a realização de uma entrevista semiestruturada elaborada pela mesma e aplicação de uma \nescala recentemente traduzida ao português de qualidade de vida de mulheres com \nendometriose (EHP-30), para um repertório mais amplo sobre seu caso e exper iência com o \ndiagnóstico de endometriose.  \nA duração será de 1 até 5 encontros de aproximadamente 50 minutos cada, podendo ser \npresencial no meu consultório (já de seu conhecimento), ou on -line via plataforma “google \nmeet” em uma sala com senha. Isso poderá ser definido antecipadamente, durante a leitura dos \ndemais itens deste termo ou a posteriori. Caso queira mudar a forma de realização dos encontros \npara a entrevista, mesmo após decidir, não interferirá neste termo e nem na sua participação. \nAo concordar em participar, autorizará e permitirá a realização do questionário \nelaborado pela psicóloga de perguntas abertas, ou seja, de orientação breve da parte da \naplicadora e de possibilidade de um amplo relato seu, sobre sua história de vida, diagnóstico de \nendometriose e o sintoma de dor pélvica crônica, bem como permitirá a utilização dos dados \ncoletados nestes encontros; autorizará e permitirá utilização dos dados já coletados (sínteses e \nlembranças da memória da psicoterapeuta) em seus atendimentos por mim realizados desde seu \ningresso na terapia em 2018 até o ano atual, 2023, ou seja, incluirei o período de atendimentos \nsemanais de psicoterapia e as sessões eventuais que aconteceram até hoje. \n  Sigilo e privacidade: Sua participação nesta pesquisa será tratada de forma total \nanônima e confidencial, ou seja, em nenhuma hipótese serão divulgados dados pessoais que \npossam identificar você, como nome ou algum dado específico de sua história pessoal, \nrespeitando sua privacidade.  \nNeste termo você autorizará e permitirá que as informações coletadas sejam expressas \nneste estudo a que podem ser enviadas para publicação em forma de dissertação, em eventos e \nrevistas científicas, mesmo assim, todas as publicações serão previamente apresentadas à você \npara que verifique se está de acordo. \n\n \n142 \n \n Autonomia e voluntariado:  Sua participação será voluntária, ou seja, se depois de \nconsentir pela participação quiser desistir, a qualquer momento da pesquisa, poderá retirar seu \nconsentimento; para tanto, a qualquer momento você poderá enviar um e -mail à pesquisadora \ndesistindo de  que determinados temas específicos da experiência realizada em psicoterapia \nsejam divulgados. Além disso, pode recusar -se a responder qualquer pergunta ou desistir de \nparticipar, seja antes ou depois da assinatura deste termo, in dependente do motivo e sem \nnenhum prejuízo a possibilidade de ser orientada e esclarecida para alguma dúvida sobre a \npesquisa.  \nDespesas: Não há previsão de despesas destinadas para a você para a realização da \npesquisa e não haverá nenhum valor em dinheiro pela sua participação. \n Comitê de ética:  O grupo de pessoas que compõem o comitê de ética em seres \nhumanos (CEP) atua de forma a garantir que todos os direitos e informações combinadas \npreviamente com você sejam honrados e respeitados. Este comitê é o responsável por avaliar \nse a pesquisa em que stão foi devidamente planejada e se segue os métodos programados de \nforma ética.  \nCaso você ache que esta pesquisa não está seguindo o proposto e não segue de forma \nética, ou mais, caso se sinta prejudicada, a qualquer momento poderá entrar em contato com \nComitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do Instituto de Psicologia da Univer sidade \nde São Paulo – CEP-IPUSP, de forma presencial em Av. Prof. Mello Moraes, 1.721, Bloco G, \n2º Andar, sala 27, Cidade Universitária – São Paulo/SP – 05508-030, por meio de ligação no \ntelefone + 55 11 3091 4182 ou por e-mail cep.ip@usp.br. \nAutorização: Este Termo de Consentimento Livre e Esclarecido é um documento que \ncomprova a sua autorização e permissão para o levantamento e uso dos dados fornecidos na \nentrevista planejada já contextualizada; dados da escala de qualidade de vida na mulher com \nendometriose EHP-30; sínteses e memórias da psicoterapeuta dos atendimentos já realizados \ndesde o ingresso na terapia no ano de 2018 até 2023.  \nPara isso, será necessária a nossa assinatura para oficializar o seu consentimento e meu \ninteresse de pesquisa, documentado aqui, em três vias impressas. Destas, uma será entregue a \nvocê, para que consulte o que lemos juntas a qualquer momento, e as outras  duas cópias serão \narquivadas pela pesquisadora responsável. \n\n \n143 \n \nReforço que sua colaboração nesta pesquisa será muito valiosa e, para formalizarmos, \nestamos de acordo que, juntas, lemos atentamente essa declaração e estando de acordo, \nassinaremos esse Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. \n Declaração de anuência ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido: \nDeclaro que li, entendi e estou de acordo com todo o conteúdo deste Termo de \nConsentimento Livre e Esclarecido, que tive a oportunidade de questionar e sanar todas e \nquaisquer dúvidas e que concordo que a terapeuta-pesquisadora utilize dados de nossa relação \npsicoterapêutica realizada de 2018 a 2023 e os dados novos de 1 a 5 encontros destinados a \nrealização de uma entrevista e aplicação de uma escala de qualidade de vida na mulher com \nendometriose (EHP-30), sabendo que poderei desistir a qualquer momento, sem sofrer qualquer \nprejuízo ou constrangimento, enviando um e-mail à terapeuta, orientador ou Comitê de Ética. \n Sendo assim, eu _____________________________________________, portadora do \nRG ________________ e CPF ____________________________, na data de \n______________________________ na cidade de __________________________, manifesto \nmeu livre consentimento em par ticipar dessa pesquisa, ciente e de acordo que não haverá \nnenhum valor a receber ou a ser pago para participação deste estudo. \n Data de declaração:\n___________________________ \nAssinatura da participante \nNome: \nRG: \n \n___________________________ \nAssinatura da pesquisadora \nTayane Aparecida Teizen Rufino \nCRP: 06/135264\n \n  \n\n \n144 \n \nANEXO I - ROTEIRO DE ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA  \n \nData de preenchimento: ___/___/_____ | Duração: _________________________. \n1.   Identificação \n1. Nome:  \n2. Raça/Etnia: \n3. Data de nascimento e idade: \n4. Cidade e estado de nascimento: \n5. Cidade e estado de residência: \n6. Telefone e e-mail para contato: \n7. Está matriculada em algum curso de graduação ou pós-graduação? Qual ano? \n8. Profissão / Ocupação: \n9. Renda mensal familiar: \n10. Possui religião? Qual? \n11. Estado civil: nunca se casou ou é casada ou é amasiada ou é viúva ou é divorciada? \n12. Escolaridade: \n13. Profissão e/ou ocupação: \n14. Mora com: \n  \n2. Tratamentos em saúde \n1. Possui endometriose?  \n2. Possui queixa / sintoma de dor pélvica crônica, ou seja, acíclica, sem grandes intervalos, \ninterferindo em suas atividades de vida diárias (AVD’s) por seis meses ou mais? \n3. Quanto tempo demorou entre sentir primeiros sintomas e ter o diagnóstico?   \n4. Como foi o diagnóstico de endometriose? Quando e como foi feito? Como foi o \npercurso deste diagnóstico? \n5. Precisou mudar de médico para ser diagnosticada? \n6. Quais tratamentos já foram indicados? E quais foram realizados? \n7. Alguma vez teve indicação de psicoterapia para tratamento da endometriose? \n  \n3. Subjetividade no entendimento do diagnóstico \n1. O que é a Endometriose para você? \n2. O que seu diagnóstico significou? \n\n \n145 \n \n3. Como que foram os primeiros sintomas e como que foi senti-los? \n4. Você se preocupa com algo do seu corpo/saúde? O que? \n5. Sente alguma limitação? Qual/is? \n6. Descreva a relação da sua endometriose com seu relacionamento social: \n7. Descreva a relação da sua endometriose com seu relacionamento íntimo: \n8. Descreva a relação da sua endometriose com seu relacionamento familiar: \n9. Descreva a relação da sua endometriose com seu trabalho / ocupação: \n10. Descreva a relação da sua endometriose com lazer: \n11. Como foi para você fazer essa entrevista e falar sobre esse assunto? \n \n \n  \n\n \n146 \n \nANEXO J - APROVAÇÃO COMITÊ DE ÉTICA \n \n \n  \n\n\n \n147 \n \nANEXO K – RESPOSTAS DA ENTREVISTA \n \n1. Identificação: Nome; Raça/Etnia: Branca; Data de nascimento e idade: 1994; \nCidade e estado de nascimento ; Cidade e estado de residência ; Telefone e e-mail \npara contato; está matriculada em algum curso de graduação ou pós-graduação? \nQual ano? Cursando marketing e Graduação administração. ; Profissão / Ocupação:  \nRecursos Humanos. ; Renda mensal familiar ; possui religião? Qual?  Sim, cristã, \nevangélica; Estado civil: nunca se casou ou é casada ou é amasiada ou é viúva ou é \ndivorciada? Mora com: os pais;  \n2. Tratamentos em saúde \n1. Possui endometriose?  \nSim. \n2. Possui queixa / sintoma de dor pélvica crônica, ou seja, acíclica, sem grandes \nintervalos, interferindo em suas atividades de vida diárias (AVD’s) por seis meses ou \nmais?  \nSim, todo ciclo tenho dores, variando a intensidade, mas nunca ausente. Acompanhado de \nfadiga intensa e enxaqueca. Desde 2016. São sintomas muito ruins que eu tenho até hoje. Esse \nfim de semana, por exemplo, tive que cancelar tudo o que eu tinha programado, e depois fiquei \ncom medo de também ter que faltar no trabalho na segunda. Mas tomei meus remédios e \nconsegui ir. É muito ruim, por que acabo perdendo muitas coisas da minha vida. \n3. Quanto tempo demorou entre sentir primeiros sintomas e ter o diagnóstico?  \nCerca de dois anos entre eu sentir os sintomas e chegar ao diagnóstico. \n4. Como foi o diagnóstico de endometriose? Quando e como foi feito? Como foi o \npercurso deste diagnóstico? \nCerca de dois anos entre eu sentir os sintomas e chegar ao diagnóstico. Antes disso, não \nforam realizados exames específicos. O transvaginal deu uma suspeita de endometriose. E \nentão fui encaminhada para uma ressonância vaginal que confirmou o diagnóstico. O exame \nfoi bastante invasivo, horrível.  Quando descobriram, já estava no estágio de endometriose \nprofunda, um estágio mais grave. Se o diagnóstico tivesse sido feito antes, talvez teria sido \ndiferente. Nesses casos mais graves, a medicação já não resolvia, e por isso, tive que partir para \na cirurgia. Foi um baque descobrir o diagnóstico. Abri o exame, vi o que estava escrito. N ão \nconhecia, e por isso, procurei no Google e fiquei muito assustada fui embora chorando para \nminha casa. O médico depois me acalmou quando eu voltei lá, mas não sabia a metade do que \n\n \n148 \n \neu iria passar. Eu não tinha a menor ideia o que era a endometriose. Não tinha como ter base.  \nPouco se sabia, pouco se falava. Hoje em dia se fala mais disso, mas naquela época, ninguém \nconhecia. O médico que diagnosticou era o meu ginecologista. E ele me encaminhou para um \ncirurgião.  \nO primeiro cirurgião foi bem frio, não acalmou, não teve toque humano. Era um \nbambambã, mas não me ajudou. Por mais que eu não sabia o que me aguardava, eu estava com \nmedo, insegura. E ele era muito frio. Ainda bem que tinha mãe, que me acompanhou em tudo. \nEla é a parte compreensiva.  \nDepois dessa péssima experiência com o cirurgião, marquei com um outro médico. Nessa \népoca eu tinha convenio, graças à Deus, se não acho que eu estaria esperando a cirurgia até \nhoje. Esse segundo médico foi muito humano, paciente, explicou tudo. Conseguiu fazer a \ncirurgia com o valor que o conveio reembolsava. Ele foi um anjo, com humanidade, com tato \npra falar. Marcou super rápido a cirurgia.  \nNessa época eu estava com sintomas bem puxados.  Tudo o que eu comia, ia para o \nbanheiro. Náusea, enjoo, dor no estomago. Tive que tirar grande parte do intestino. A \nendometriose estava no intestino e atrás do útero.  \nA primeira cirurgia foi mais puxada no pós operatório, eu senti muita dor. O médico queria \n45 dias de repouso. Eu não fiquei, fiz 14 dias de repouso absoluto por que não queria entrar \ncom a “Caixa”. Tive um pouco de sequela, fiquei com muita dor na coluna, por que eu não \npodia ficar muito sentada e estava pr eocupada com soltar os pontos. Depois dessa cirurgia, \nmelhorou demais.  \nA melhora foi significativa pra mim. Mas depois de um tempo, comecei a ir de mês em mês \npara o hospital, me davam um remédio pra dor muito forte, um abaixo de morfina, e eu voltava \npra casa. E eu nem suspeitava que a endometriose estava voltando.  \nUma das médicas do PS percebeu a recorrência e encaminhou para um especialista em \nendometriose. Nisso, o antigo cirurgião havia se mudado e perdi o atendimento com ele. Passei \nentão com a indicação da médica do PS. Nos exames específicos saiu novamente a \nendometriose. Na minha cabeça, estava resolvido depois da primeira cirurgia, achei que estava \ncurada. Não achei que poderia voltar. Não acreditei quando eu vi que voltou, chorei, foi um \nbaque. Me lembrei de tudo o que eu já tinha passado, foi um gatilho muito difícil. Penso: “vai \nser sempre assim? Vou sempre ter que passar por isso?” \nPassei então a tratar com esse médico, que é maravilhoso, e que eu trato até hoje. Ele me \nexplicou que a endometriose, se você deixa um pouquinho, ela retorna sempre.  Na segunda \n\n \n149 \n \ncirurgia, a vesícula se mexeu e esmagou a bexiga. Foi subindo para cima, indo para outros \nfocos. Tive que tirar a vesícula. Hoje minha vida inteira está em volta disso.  Eu descobri \nvivendo, ninguém sentou para me explicar o que aconteceria no futuro.  \nVocê já sabe a história do botão? Foi assim: depois dessa segunda cirurgia, o médico \ncosturou e colocou um botão na minha barriga – ele escolheu um botão rosa. Quando eu vi foi \nmuito estranho, mas depois eu fiquei com o botão. Hoje eu emoldurei esse botão e ele está aqui \nem cima da minha mesa. Sempre olho para ele para lembrar de tudo o que já vivi, de como fui \nforte e de que o pior já passou. \n5. Precisou mudar de médico para ser diagnosticada? \nPrecisei mudar sim, da segunda vez. Eu mudei do médico do intestino e ele me encaminhou \npara um médico ginecologista especializado em endometriose, que pediu novos exames e \nconfirmou que a endometriose havia retornado. \n6. Quais tratamentos já foram indicados? E quais foram realizados?  \nJá foram realizadas duas cirurgias. Uma de retirada do intestino e outra de retirada da \nvesícula. Além disso, o tratamento é feito com medicamentos para dor.  \n7. Alguma vez teve indicação de psicoterapia para tratamento da endometriose? \nNinguém nunca indicou a psicoterapia. Nenhum médico, nenhum profissional da saúde, e \ntambém nenhum familiar ou pessoa da minha convivência. Na época eu já fazia terapia, o que \nme ajudou muito, foi fundamental. As pessoas precisam entender o quanto é difícil \nemocionalmente ter a endometriose. Não é só os sintomas físicos, mas me trouxe vários \nproblemas emocionais, como inseguranças, medos. Eu acho que é fundamental a terapia nesse \nprocesso todo. Por isso estou participando dessa entrevista, quero ajudar a con scientizar as \npessoas de como a terapia é importante. \n3. Subjetividade no entendimento do diagnóstico \n1. O que é a Endometriose para você? \nA endometriose em si, a doença, em uma palavra é dor. Todas as vezes eram dores, \nresistência. Pergunta difícil. Trauma em pensar que todo mês iria acontecer igual, que eu teria \nde ir para o hospital, tomar medicação, depender das pessoas para me levar e buscar no médico. \nEssa recorrência era muito ruim. Sempre, todo mês. \n2. O que seu diagnóstico significou? \nA primeira vez que eu tive, foi só um diagnóstico, eu não tive emoções. Eu não sabia o que \nera, não significou nada. Já a segunda vez eu fiquei muito triste, chateada, chorei muito. Eu \n\n \n150 \n \nfiquei muito mal quando vi o resultado dos exames, por que eu sabia que iria enfrentar tudo de \nnovo. Fiquei muito mal, sem chão.  \n3. Como que foram os primeiros sintomas e como que foi senti-los? \nDa primeira vez eu tinha uma cólica muito intensa, extremamente forte. Eu achava \nestranho, mas as pessoas a minha volta achavam que era normal – minha mãe inclusive. Tinha \nmuita diarreia, achava até que era uma virose (a endometriose também estava no intestino). Eu \ntambém sentia muita dor de cabeça perto do período menstrual, e eu achava que era por precisar \nde óculos. E fadiga eu tinha também, mas achava que era normal. A gente não tinha juntado \nque todos os sintomas tinham a ver com o mesmo diagnóstico: endometriose.  \n4. Você se preocupa com algo do seu corpo/saúde? O que? \nHoje me preocupa não estar com o convênio de saúde. Tenho medo da endometriose voltar \ne eu depender do tratamento na rede pública, que eu sei que é diferente. Eu gostaria de ter mais \nqualidade de vida. Sei que a cura 100% não existe, mas queria procurar uma qualidade de vida \nmelhor, para que eu viva bem. Isso é algo que eu sempre levo para o médico. Mas sinto que \nestá dando certo, por exemplo, agora comecei a tomar anticoncepcional, que vem ajudando. \n5. Sente alguma limitação? Qual/is? \nHoje tenho muitas restrições alimentares: gordura, fritura, lactose. Se eu comer, eu passo \nmal e vou para o banheiro. Se eu tiver com muita vontade eu como, mas eu sei que vou sofrer \ndepois. Evito comer na rua. Várias restrições alimentares. No começo foi muito difícil, mas \nhoje sou super acostumada. Além das limitações nas relações sociais, trabalho, lazer. Depois \nda endometriose, tinha que entender que era uma vida completamente diferente, que não ia ser \na mesma vida de antes... (conforme abaixo) A terapia me ajudou muito a atravessar todas essas \nmudanças, foi fundamental. Nenhum médico me explicou as mudanças, as limitações. Eu fui \ndescobrindo sozinha e levando para as consultas, mas acho que teria sido legal eu ter tido mais \norientações sobre isso. Foi muita coisa pra entender sozinha, mas talvez nem mesmo o médico \nsabia de tudo que iria acontecer, é algo muito novo.  \n6. Descreva a relação da sua endometriose com seu relacionamento social: \nJá tive que desmarcar com amigos por estar com dor. Já tive amizades que eu tive que \nescutar coisas que eu não queria. Hoje sou mais seletiva com as minhas amizades, por que se a \npessoa não entende, eu acabo me afastando. Sinto que eu preciso de amigos que compreendam, \nque falem coisas positivas. Não precisam desacreditar ou invalidando minha realidade. Escutei \nmuitas “piadinhas” sobre a minha situação com amigos, e acabei me afastando dessas pessoas. \nIsso me deixou mais fechada para conhecer pessoas novas,  já imaginando que esses \n\n \n151 \n \njulgamentos poderiam se repetir. Prefiro não dar o benefício da dúvida para me proteger mesmo \n– ainda não sei lidar com isso.  \n7. Descreva a relação da sua endometriose com seu relacionamento íntimo: \nCom namorados me travo muito. Me fecho para não ter que explicar o que eu passo. Eu \nsou bem resistente e fechada com relacionamentos amoros os. Na parte sexual, eu sinto dor \napenas em posições específicas, mas nunca tive essa conversa com ninguém. Fico apenas \ntentando driblar as posições que me incomodam, mas não me atrapalha tanto.  Pra eu chegar \nno ponto de conversar disso com alguém eu tenho  que ter muita confiança, pois é um assunto \nque me deixa muito vulnerável. Mas eu tenho vontade de encontrar um parceiro que eu possa \nfalar disso, sem julgamento. \n8. Descreva a relação da sua endometriose com seu relacionamento familiar: \nMoro com minha mãe e meu pai. Minha mãe sempre foi muito compreensiva, com todos \nos sintomas. Mas já tiveram pessoas (parentes e amigos) que não entendem: levam como \npreguiça, “vida fácil”, “está se vitimizando”. Achavam que era mentira, que eu estava \naumentando a sensação de dor. Foi frustrante e chato essa parte. Não achava justo eu ter que \nficar me explicando. Você não espera que as pessoas que te amam te julgam. Meu pai era uma \ndas pessoas que dizia que eu estava fazendo “corpo mole”. Ele sempre me levo u no hospital, \nmas quando eu estava em casa ele fazia comentários, piadas, falas indiretas de que eu estava \nfazendo vitimismo. \n9. Descreva a relação da sua endometriose com seu trabalho / ocupação: \nNa minha antiga empresa, que trabalhei 6 anos, eles foram muito compreensivos. Era uma \nempresa pequena, eles acompanharam as duas cirurgias que eu fiz. Depois que eu fiquei \ndesempregada, por 2 anos, foi muito difícil de encontrar um novo trabalho. Eu ficava sofrendo \npor antecipação, com medo de entrar em um lugar e precisar faltar, de não conseguir algo novo. \nEu não queria contar para ninguém. Essa questão do sofrimento por antecipação eu trabalhei \nmuito na terapia, e foi graças a uma sessão de terapia que eu consegui encontrar o meu emprego \natual. Eu ficava pensando “ninguém vai ser tão compreensivo”.  \nOnde eu trabalho hoje, tenho certeza que não teriam essa compreensão. É uma cultura \ndiferente, empresa grande. Isso mexeu muito com minha cabeça, me colocava no lugar de \nincapaz, de que não iria conseguir, que ninguém iria entender. Fico tentando pensar: “você não \né o que a doença te colocou, você é mais que isso”. Mas assim, porque eles vão querer eu, se \ntem alguém que é 100% de saúde? Acabo sempre me colocando em um papel muito abaixo.  \n \n\n \n152 \n \n10. Descreva a relação da sua endometriose com lazer: \nDesmarco coisas que eu gosto de fazer por que estou com dor. Mas quando estou bem, \nconsigo me divertir. Mas por exemplo, não vou em show, coisas que tem muito impacto físico, \nficar muito em pé, pular. Mas não é só por causa da endometriose, sou meio sedentária. Eu não \nvou, e não sinto falta. Gosto de viajar, de sair para comer, de ir na casa da minha amiga. Mas é \na fase que eu estou hoje. Mas assim, estou com dor, não tem como sair. Mas a frustração vem \nsó depois, na hora, só tem espaço para dor. Também pro gramo minhas viagens e passeios de \nacordo meu ciclo. A vida é organizada em ciclos.  \n11. Como foi para você fazer essa entrevista e falar sobre esse assunto? \nFoi legal, mas sempre é um contato com o que eu tento não ficar falando. Depois da \nprimeira conversa fiquei bem pensativa, lembrando das coisas que eu vivi, sentindo de novo \ncoisas que eu não sentia há muito tempo. Eu falo muito pouco sobre isso, mas eu ve jo que é \nbom falar, por que eu percebo coisas que eu não percebia antes. Esclarece coisas para mim \ntambém. Novos pensamentos sobre a endometriose, é interessante. Talvez eu possa falar mais \nsobre isso com as pessoas ao meu redor.","source_license":"CC0","license_restricted":false}