{"paper_id":"1c0b1ff5-f037-4150-98cc-bb4cba9da7a7","body_text":"Editorial \n236 Acta Obstet Ginecol Port 2025;19(4):236-239 \n1. Professor Auxiliar, NOVA Medical School/Faculdade de Ciências Médi -\ncas, Universidade NOVA de Lisboa, Lisboa (Portugal). Médico Assistente \nGraduado/Consultor em Ginecologia e Obstetrícia, Serviço de Obstetrícia \ne Ginecologia, Hospital CUF Descobertas, Lisboa (Portugal). \nA\nendometriose é uma doença ginecológica crónica \ncom grande impacto clínico, social e económico. \nEm Portugal estima-se que cerca de 700.000 pessoas se -\njam afetadas, muitas subdiagnosticadas, e o atraso mé -\ndio no diagnóstico continua a ser um problema rele -\nvante. Por isso, recomenda-se considerar a implemen -\ntação gradual, no Serviço Nacional de Saúde (SNS), de \num modelo operativo faseado e adaptado localmente \nque integre: (1) triagem clínica padronizada nos cui -\ndados primários, com um instrumento (questionário) \nvalidado; (2) ecografia ginecológica precoce, realizada \nsegundo um protocolo orientado para endometriose; \n(3) formação teórico-prática e certificação de operado -\nres; e (4) vias rápidas de referenciação para centros mul -\ntidisciplinares, quando indicado. Este editorial sinteti -\nza a evidência recente, apresenta um algoritmo prático \nde decisão e formula recomendações de implementação \ne investigação aplicáveis ao contexto nacional. \nCONTEXTO E JUSTIFICA ÇÃ O\nRevisões recentes sugerem que cerca de 190 milhões de \npessoas em todo o mundo vivem com endometriose e \ndocumentam atrasos médios de diagnóstico de 5-7 anos, \ncom início dos sintomas muitas vezes já na adolescência 1.\nEsse atraso acentua o desgaste físico associado à dor cró -\nnica, à carga psicológica, à infertilidade potencialmente \nevitável e à perda de produtividade. Políticas públicas \nbem concebidas (planos nacionais de ação, legislação, \nredes de referenciação, entre outras) têm demonstrado \nbenefícios nalguns países, mas são, no geral, isoladas 2.\nPelo exposto, medidas práticas e escaláveis ao nível co -\nmunitário são prioritárias. \nPRINCIPAIS PROPOSTAS E EVIDÊNCIA \n1. Triagem cl ínica em cuidados primários \nInstrumento recomendado: história clínica que integre \num questionário validado para avaliação da dor asso -\nciada à endometriose – por exemplo, o ENDOPAIN□4D \n– o qual apresenta boa performance psicométrica para \nidentificar risco intermédio/alto 3,4 .\nObjetivo: estratificar precocemente as doentes na \nconsulta de Medicina Geral e Familiar (MGF), para \npriorizar exames imagiológicos, iniciar tratamento em -\npírico quando indicado e agilizar a referenciação para \ncentros multidisciplinares diferenciados em endome -\ntriose. \n2. Avalia ção ecográfica precoce \nTécnica recomendada: ecografia ginecológica com son -\nda vaginal ou retal (por exemplo, em doentes virgens \nque aceitem a abordagem retal), complementada por \navaliação com sonda abdominal. \nObjetivo: identificar sinais de adenomiose, endo -\nmetriose ovárica (endometriomas), aderências pélvicas \ne endometriose profunda (EP) nas localizações mais fre -\nquentes, orientando a decisão clínica atempada (início \nde tratamento empírico) e encaminhamento para ava -\nliação e tratamento multidisciplinar diferenciados \nquando clinicamente indicado. \nProtocolo ecográfico (baseado nas recomendações \nIDEA – International Deep Endometriosis Analysis, sim -\nplificado 5-7 ): \nEarly Diagnosis of Endometriosis in the Community – Integrating \nClinical Screening, Early Ultrasound and Workforce Training \nDiagnóstico Precoce da Endometriose na Comunidade – Integração \nda Triagem Clínica, Ecografia Precoce e Formação dos Profissionais \nDusan Djokovic, MD PhD 1\nDOI: 10.69729/aogp.v19i4a01 \n\nDusan Djokovic \nActa Obstet Ginecol Port 2025;19(4):236-239 237 \n• Avaliação uterina – metodologia MUSA 8 (Morpholo -\ngical Uterus Sonographic Assessment), e IETA 9 (Inter -\nnational Endometrial Tumour Analysis), – com atenção \na sinais diretos e indiretos de adenomiose (critérios \nMUSA 10 ); \n• Avaliação anexial – metodologia IOTA 11 (Internatio -\nnal Ovarian Tumour Analysis) – com pesquisa siste -\nmática de endometriomas; \n• Avaliação dinâmica – avaliação da mobilidade úte -\nro-ovário e pesquisa de aderências no fundo de saco \nde Douglas por meio de manobras ecográficas de \nmobilização uterina e anexial, com observação do \ndeslizamento sob o peritoneu e relativamente às es -\ntruturas pélvicas adjacentes 5;\n• Avaliação limitada do compartimento pélvico pos -\nterior – pesquisa dirigida de EP nos ligamentos úte -\nro-sagrados e no alto reto 6.\nEste protocolo adapta o exame ecográfico ginecológi -\nco rotineiro (“básico”) realizado por especialistas em Gi -\nnecologia e Radiologia. A inclusão da avaliação dirigida \ndos ligamentos útero-sagrados e do alto reto constitui \num reforço específico que, quando executado por ope -\nradores treinados, melhora a sensibilidade para deteção \nde endometriomas e permite identificar EP nas estrutu -\nras mais frequentemente afetadas, com acréscimo mar -\nginal do tempo de exame 6,12 . No entanto, a ausência de \nsinais ecográficos de endometriose não exclui a doença, \nsobretudo quando a suspeita clínica é elevada. \n3. Critérios m ínimos de forma ção e qualidade \npara ecografia na comunidade \nRecomendações destinadas a especialistas em Gineco -\nlogia e Radiologia que realizam ecografias na comuni -\ndade: \n• Formação teórico-prática: curso de 1-2 dias (con -\nteúdos teóricos) acompanhado de sessões práticas \ndirigidas à ecografia pélvica orientada para endo -\nmetriose. \n• Exames tutelados: realização de 20-50 exames sob \nsupervisão por formador certificado antes da práti -\nca autónoma. \n• Avaliação e certificação: avaliação teórica e prática \nno final do programa; certificação conjunta coorde -\nnada pela Ordem dos Médicos (OM), Sociedade Por -\ntuguesa de Ginecologia (SPG) e Sociedade Portu -\nguesa de Radiologia e Medicina Nuclear (SPRMN). \n• Continuidade formativa: revisão periódica de casos \nem centros de referência, protocolos de segunda lei -\ntura remota para casos duvidosos e programas de \nmelhoria contínua. \n• Relatórios padronizados: adoção de modelos de re -\nlatório standard 13 (incluindo descritores MUSA 8,10 ,\nIETA 9 e IOTA 11 ). \n• Auditoria e monitorização: auditorias periódicas de \nrelatórios e imagens com indicadores-chave – por \nexemplo, tempo desde a suspeita até à realização da \necografia, percentagem de relatórios completos e de \nacordo com a padronização proposta, e taxa de con -\ncordância diagnóstica com centros de referência es -\npecializados. \n4. Referencia ção para centros \nmultidisciplinares diferenciados \nCritério de referenciação: critérios clínicos e imagioló -\ngicos precisamente definidos – por exemplo, ecografia \nsugestiva de EP , endometrioma atípico ou >10 cm, fa -\nlha de tratamento empírico ou suspeita clínica elevada \napesar de ecografia negativa). \nRequisitos operacionais: mapa de centros especia -\nlizados certificados com capacidade multidisciplinar \n(Ginecologia/Cirurgia Minimamente Invasiva, Radio -\nlogia, Gastroenterologia, Urologia, Dor Crónica, Me -\ndicina da Reprodução, Psicologia, Nutrição); vias ele -\ntrónicas de referência com tempos□alvo e mecanismos \nde segunda leitura/avaliação remota; planos de retor -\nno (referenciação inversa) ao circuito local com res -\nponsabilidades e prazos claros. \nAlgoritmo prático –s íntese: \n• Avaliação inicial (MGF ou ginecologista assistente): \nhistória clínica + questionário validado + exame fí -\nsico + ecografia ginecológica precoce. \n• Se exame físico/ecografia sem alterações: iniciar te -\nrapêutica empírica por 3-6 meses; referenciar se au -\nsência de resposta. \n• Se endometrioma ecograficamente típico e sinto -\nmatologia controlável: tratamento conservador e vi -\ngilância; referenciar se sem resposta em 6 meses. \n• Endometrioma ecograficamente atípico, >10 cm, \ndiagnosticado na pós-menopausa ou sinais sugesti -\nvos de EP: referência direta para centro diferencia -\ndo. \n\nEarly Diagnosis of Endometriosis in the Community – Integrating Clinical Screening, Early Ultrasound and Workforce Training \n238 Acta Obstet Ginecol Port 2025;19(4):236-239 \nVIAS DE IMPLEMENTA ÇÃ O NO SNS \nA Direção□Geral da Saúde (DGS), a OM e as sociedades \ncientíficas (SPG e SPRMN) devem promover um plano \ncoordenado que inclua: \n• Elaborar uma orientação nacional que integre tria -\ngem com questionário validado, ecografia precoce \npadronizada e critérios de referenciação claros. \n• Financiar programas regionais para formação práti -\nca, alocar tempo dedicado à ecografia em cuidados \nprimários e criar incentivos para unidades que im -\nplementem o protocolo e participem em auditoria de \nqualidade. \n• Consolidar e operacionalizar a rede de centros cer -\ntificados e vias eletrónicas de referenciação. \n• Definir tempos□alvo operacionais (por exemplo, tempo \ndesde a suspeita até à realização da ecografia na comu -\nnidade; tempo até consulta em centro diferenciado) e \nincorporar esses indicadores em auditorias regulares. \n• Monitorizar a implantação por meio de estudos prag -\nmáticos com indicadores predefinidos: tempo até re -\nferência/diagnóstico, melhoria da dor/qualidade de \nvida, impacto na fertilidade, taxa de referenciação \napropriada, custo-efetividade e equidade de acesso. \nPRIORIDADES DE INVESTIGA ÇÃ O EM \nPORTUGAL \n• Validar o ENDOPAIN□4D em português e em sub -\npopulações (adolescentes; grupos étnicos/socioeco -\nnómicos), definindo propriedades psicométricas e \npontos de corte. \n• Realizar estudos pragmáticos de implementação \npara avaliar se triagem clínica + ecografia ginecoló -\ngica precoce + formação reduzem o tempo até diag -\nnóstico e melhoram desfechos clínicos. \n• Avaliar a custo-efetividade de programas regionais de \nformação, certificação e suporte, com análise de impac -\nto orçamental e custo□utilidade a curto/médio prazo. \nRESUMO DE RECOMENDA ÇÕES \n• Implementar questionário validado como triagem \nem MGF . \n• Adotar ecografia ginecológica precoce com proto -\ncolo orientado simplificado como exame de primei -\nra linha na suspeita clínica. \n• Financiar formação prática e certificação de opera -\ndores em ecografia ginecológica orientada para en -\ndometriose. \n• Padronizar relatórios ecográficos e recomendações \nde encaminhamento. \n• Criar vias rápidas de referenciação para centros mul -\ntidisciplinares quando a ecografia for sugestiva de \nEP ou a suspeita clínica for alta. \n• Promover estudos pragmáticos no SNS para medir \nimpacto clínico, económico e equidade. \nConcluindo, reduzir o atraso diagnóstico da endo -\nmetriose parece exequível se combinarmos triagem pa -\ndronizada em cuidados primários, ecografia pélvica \nprecoce de qualidade segundo protocolo orientado, \nformação e certificação dos operadores e uma rede de \nreferenciação consolidada e avaliada sistematicamente. \nInvestir em formação prática dos profissionais e em ca -\nminhos de referenciação organizados é a medida com \nmaior potencial de impacto imediato para transformar \na evidência em melhores resultados clínicos e aumen -\ntar a equidade no cuidado às pessoas com endome -\ntriose. \nREFERÊNCIAS BIBLIOGR ÁFICAS \n1. Gibbons T, Evans D, Skidmore B, et al. Endometriosis policy \nand delivery systems: a comprehensive global scoping review. Lan -\ncet Obstet Gynaecol Women’s Health. 2025;1(3):E232-E244. \n2. Evans D, Gibbons T, Skidmore B, et al. Availability of region- \nspecific endometriosis care guidance: a global scoping review. Lan -\ncet Obstet Gynaecol Women’s Health. 2025;1(3):E219-E231. \n3. Rosenbloom BN, Di Renna T, Nella A, et al. Screening for en -\ndometriosis: A scoping review of screening measures that could sup -\nport early diagnosis. BMC Womens Health. Jul 16 2025;25(1):353. \ndoi:10.1186/s12905-025-03866-1 \n4. Puchar A, Panel P , Oppenheimer A, Du Cheyron J, Fritel X, \nFauconnier A. The ENDOPAIN 4D Questionnaire: A New Valida -\nted Tool for Assessing Pain in Endometriosis. J Clin Med. Jul 21 \n2021;10(15)doi:10.3390/jcm10153216 \n5. Guerriero S, Condous G, van den Bosch T, et al. 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Terms, defini -\ntions and measurements to describe sonographic features of myo -\nmetrium and uterine masses: a consensus opinion from the Mor- \nphological Uterus Sonographic Assessment (MUSA) group. Ultra -\nsound Obstet Gynecol. Sep 2015;46(3):284-98. doi:10.1002/uog. \n14806 \n9. Leone FP , Timmerman D, Bourne T, et al. Terms, definitions \nand measurements to describe the sonographic features of the en -\ndometrium and intrauterine lesions: a consensus opinion from the \nInternational Endometrial T umor Analysis (IETA) group. Ultrasound \nObstet Gynecol. Jan 2010;35(1):103-12. doi:10.1002/uog.7487 \n10. Harmsen MJ, Van den Bosch T, de Leeuw RA, et al. Consen -\nsus on revised definitions of morphological uterus sonographic \nassessment (MUSA) features of adenomyosis: results of a modified \nDelphi procedure. Ultrasound Obstet Gynecol. Sep 29 2021;doi: \n10.1002/uog.24786 \n11. Timmerman D, Valentin L, Bourne TH, et al. Terms, defini -\ntions and measurements to describe the sonographic features of \nadnexal tumors: a consensus opinion from the International Ova -\nrian T umor Analysis (IOTA) Group. Ultrasound Obstet Gynecol. \nOct 2000;16(5):500-5. doi:10.1046/j.1469-0705.2000.00287.x \n12. Li JL, Yong-Hing CJ, Jessup J, Kielar AZ, Pang EHT. Endo -\nmetriosis imaging in the community setting: implementation of the \nSRU consensus recommendations on routine pelvic US. Abdom Ra -\ndiol (NY). Oct 2025;50(10):4878-4885. doi:10.1007/s00261-025- \n04906-y \n13. Djokovic D, Pinto P , van Herendael BJ, Laganà AS, Thomas \nV , Keckstein J. Structured report for dynamic ultrasonography in \npatients with suspected or known endometriosis: Recommenda -\ntions of the International Society for Gynecologic Endoscopy (ISGE). \nEur J Obstet Gynecol Reprod Biol. Aug 2021;263:252-260. \ndoi:10.1016/j.ejogrb.2021.06.035 \nCONFLITO DE INTERESSES \nO autor declara não haver conflitos de interesse. \nENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA \nDusan Djokovic \nE-mail: dusan.djokovic@nms.unl.pt \nhttps://orcid.org/0000-0002-1013-8455 \nDusan Djokovic \nActa Obstet Ginecol Port 2025;19(4):236-239 239","source_license":"CC0","license_restricted":false}