{"paper_id":"127002e5-3460-4931-acb3-82a065937b18","body_text":"144 | FEMINA 2025;53(2):144-9\nARTIGO DE REVISÃO\nEndometriose e síndrome \ndo intestino irritável: \numa associação real? \nO papel da dieta, \nprobióticos e microbioma\nEndometriosis and irritable bowel \nsyndrome: a real connection? The role \nof diet, probiotics, and the microbiome\nLetícia Lenharo Hayashi1, Priscila Bezan1, Julia Kefalas Troncon1, Juliana Meola1, \nOmero Benedicto Poli Neto1, Carla Barbosa Nonino1, Júlio Cesar Rosa e Silva1\nRESUMO\nA endometriose é uma doença crônica e inflamatória que ocasiona adesão e \nproliferação celular, estimulação da vascularização e quebra da resposta imune \nprotetora. Pode ocasionar sintomas intestinais de forma cíclica ou não e aumenta \nem 2-3 vezes o risco de as portadoras serem diagnosticadas com síndrome do \nintestino irritável. A já documentada alteração da microbiota intestinal e do trato \nreprodutor feminino (disbioses) associada ao desenvolvimento dessas doenças \nnos encoraja a explorar a ligação entre essas comorbidades e analisar a influên-\ncia de intervenções nutricionais, o uso de probióticos e a análise de microbioma \ndessas pacientes por meio de uma revisão narrativa baseada nas principais ba-\nses de dados eletrônicas. Sendo assim, esta revisão recicla grandes informações \nacerca da relação entre essas doenças e o potencial efeito positivo das dietas \nanti-inflamatórias nos seus sintomas e reforça a possibilidade de tratamentos \nnão farmacológicos, sugerindo novos caminhos para avançar na compreensão e \nno tratamento da endometriose. \nABSTRACT\nEndometriosis is a chronic inflammatory condition marked by abnormal cellular \nadhesion and proliferation, enhanced vascularization, and disruption in the protec-\ntive immune response. It can cause gastrointestinal symptoms, either cyclically or \nnon-cyclically, and increases the likelihood of being diagnosed with irritable bowel \nsyndrome by 2-3 fold. The previously documented dysbiosis in the gut and the fe-\nmale reproductive tract linked to these disorders encourages an exploration of the \nassociation between these comorbidities. This narrative review examines the impact \nof nutritional interventions, the use of probiotics, and microbiome analysis in pa-\ntients, drawing from key electronic databases. Therefore, this review consolidates key \ninformation on the connection between these conditions, highlights the potential \nbenefits of anti-inflammatory diets in managing symptoms, and strengthens the case \nfor non-pharmacological treatments, suggesting new avenues for advancing the un-\nderstanding and treatment of endometriosis.\nDescritores:\nEndometriose; Síndrome do \nintestino irritável; Dietético; \nProbióticos; Disbiose; Microbioma\nKeywords:\nEndometriosis; Irritable bowel \nsyndrome; Dietary; Probiotics; \nDysbiosis; Microbiome\nSubmetido: \n06/11/2024\nAceito: \n31/01/2025\n1. Faculdade de Medicina de \nRibeirão Preto, Universidade de São \nPaulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil.\nConflitos de interesse: \nNada a declarar. \nAutor correspond ente: \nJulio Cesar Rosa e Silva \njuliocrs@usp.br \nComo citar: \nHayashi LL, Bezan P, Troncon JK, \nMeola J, Poli N eto OB, Nonino CB, \net al. Endometriose e síndrome \ndo intestino irritável: uma \nassociação real? O papel da \ndieta, probióticos e microbioma. \nFemina. 2025;53(2):144-9. \n\nEndometriose e síndrome do intestino irritável: uma associação real? O papel da dieta, probióticos e microbioma\nEndometriosis and irritable bowel syndrome: a real connection? The role of diet, probiotics, and the microbiome\n| 145 \nFEMINA 2025;53(2):144-9\nINTRODUÇÃO\nA dor pélvica crônica (DPC) é definida como sensação \nde dor originada nos órgãos ou estruturas pélvicas \ndurando ao menos seis meses. Frequentemente é as -\nsociada a consequências cognitiva, comportamental, \nsexual e emocional negativas, bem como a sintomas \nsugestivos de disfunções do trato urinário baixo, trato \nintestinal, assoalho pélvico e miofascial e disfunção gi-\nnecológica.(1) A prevalência global é entre 2% e 27% da \npopulação.(2)\nDesordens ginecológicas, gastrointestinais, uroló-\ngicas, musculoesqueléticas e psicológicas levam a po-\ntenciais mecanismos associados à sensibilização do \nsistema nervoso, ocasionando sintomas álgicos muitas \nvezes originários a esses diversos órgãos, dificultando o \nmanejo com os tratamentos convencionais.(2) É estimado \nque apenas 30% das etiologias atribuídas à DPC sejam \nprimariamente ginecológicas. Dessas, a endometriose é \na principal, com taxa de 24%-40%.(3) \nEsta revisão narrativa teve por objetivo rever na li-\nteratura a presença de sintomas intestinais associados \nà endometriose e sua relação com a síndrome do in-\ntestino irritável (SII). Analisar a importância do micro-\nbioma intestinal e genital na gênese da endometriose e \nSII, bem como o impacto da dietética no tratamento dos \nsintomas relacionados a essas doenças. \nMÉTODOS\nAs buscas foram realizadas nas bases de dados eletrô-\nnicas PubMed, Cochrane e SciELO, no período de 2014 \na 2024. Foi utilizada uma estratégia de busca incluindo \nos seguintes termos e suas variações na língua ingle-\nsa: “endometriosis”, “irritable bowel syndrome”, “dietary”, \n“probiotics” e “microbiome”. Apenas artigos publicados \nna íntegra e na língua inglesa foram considerados e tria-\ndos com base nos seus títulos e resumos. Foram sele-\ncionados 17 artigos lidos na íntegra para a elaboração \nda revisão narrativa. \nENDOMETRIOSE \nEndometriose é uma doença ginecológica crônica, sis -\ntêmica e inflamatória caracterizada pela presença de \nglândulas e/ou estroma endometrial fora do útero. (4,5) \nAfeta ao menos 10% das mulheres em idade reprodutiva, \nocasionando sintomas como dor pélvica, dismenorreia, \ndispareunia e infertilidade.(6) \nConsiderada uma doença estrógeno-dependente e \nmultifatorial, o tecido endometrial ectópico originário \nda menstruação retrógrada provoca uma resposta infla-\nmatória local que ocasiona adesão e proliferação celu-\nlar, estimulação da vascularização e quebra da resposta \nimune protetora, fatos que explicam em parte a origem \nda doença.(5-8) \nQUADRO CLÍNICO\nA dismenorreia tende a ser o primeiro sintoma do início \nda doença, que pode evoluir com dispareunia de pro-\nfundidade, disquesia, disúria e DPC (acíclica), bem como \ninfertilidade.(9,10) \nSintomas intestinais, como disquesia, constipação cícli-\nca, maior tempo para evacuação e outras dores acíclicas \ngastrointestinais gerais, são mais associados a pacientes \ncom endometriose infiltrativa profunda intestinal e, de for-\nma curiosa, os mesmos sintomas digestivos também são \nobservados na SII, que frequentemente leva à confusão e \nao atraso no diagnóstico dessas duas doenças.(11,12) \nTRATAMENTO\nOs tratamentos voltados para a endometriose envolvem \nbasicamente três modalidades terapêuticas: (I) farma -\ncológica, (II) cirúrgica e (III) técnicas de reprodução as -\nsistida para tratamento da infertilidade.(6) A indicação do \ntratamento deve ser individualizada e exige ainda um \nmanejo multimodal e interdisciplinar, incluindo terapias \nnão medicamentosas como dieta, atividade física, su-\nporte psicológico, terapia cognitivo-comportamental e \nfisioterapia.(6,10,13) \nIntervenções dietéticas têm demonstrado impacto \npositivo nos sintomas relacionados à endometriose por \nmeio da redução do estresse oxidativo. (6) Revisões sis-\ntemáticas recentes sugerem que a terapêutica voltada \npara o microbioma pode, potencialmente, ser utilizada \nnum futuro próximo para restaurar o equilíbrio dos mi-\ncrobiomas e aliviar a inflamação crônica que é comu-\nmente observada na endometriose.(10,14) Estudos contro-\nlados vêm observando significativa queda nos escores \nde dismenorreia e dor crônica após tratamento suple-\nmentar com probióticos como Lactobacillus, em espe-\ncial o L. gasseri.(10) \nENDOMETRIOSE INTESTINAL\nAlterações gastrointestinais estão presentes em 5%-15% \ndas pacientes com endometriose. (4) A maioria das mu-\nlheres que sofrem de DPC e sintomas intestinais asso-\nciados à menstruação tem incidência maior que a usual \nde endometriose.(15) \nA endometriose intestinal é caracterizada pela en-\ndometriose infiltrando ao menos a camada muscular \ndo intestino, mais comumente o retossigmoide, e afe-\nta 1 a cada 10 mulheres com endometriose, apresen-\ntando impacto na saúde pública. (12,13) A maioria dessas \nmulheres apresenta sintomas cíclicos ou acíclicos ca -\nracterizados por distensão abdominal, cólica intesti-\nnal, diarreia ou constipação, sem sinais de obstrução \nda passagem intestinal. (13) Sintomas como disquesia e \nconstipação cíclicas e maior tempo para evacuação são \nmais associados às pacientes com endometriose retal, \nenquanto a endometriose infiltrativa profunda intesti-\nnal está associada a dores acíclicas mais frequentes e \ndores gastrointestinais gerais. (11)\n\nHayashi LL, Bezan P, Troncon JK, Meola J, Poli Neto OB, Nonino CB, et al.\n146 |\nFEMINA 2025;53(2):144-9\nA patogênese desses sintomas gastrointestinais não é \nclara, mas sugere-se que lesões endometrióticas na pa-\nrede intestinal fazem aumentar níveis de prostaglandi-\nnas, levando a alteração do funcionamento intestinal.(16) \nHá grande proximidade entre as inervações dos ór -\ngãos viscerais por meio do sistema nervoso central. Essa \nconvergência nervosa contribui para a coexistência de \nestados de dor afetando mais do que um órgão, cha -\nmada de reatividade cruzada, podendo explicar os sin-\ntomas gastrointestinais na endometriose. De maneira \ngeral, sintomas gastrointestinais não são relacionados \nà localização das lesões de endometriose ou outras ca-\nracterísticas, o que torna difícil identificar os preditores \ne a etiologia desses sintomas na endometriose.(16) \nA incidência de constipação intestinal nas mulheres \ncom endometriose intestinal chega a 45%. Essas mulhe-\nres apresentam mais dispareunia, DPC e disquesia, além \nde maior consistência das fezes e pior qualidade de vida \ne da função sexual, comparadas a mulheres com endo-\nmetriose sem constipação.(13,17) \nSÍNDROME DO INTESTINO IRRITÁVEL\nA SII é uma doença de interação cérebro-intestinal ca -\nracterizada por dor abdominal e alteração do hábito \nintestinal.(11,16) Tem prevalência global em torno de 10%, \nenquanto na atenção secundária especializada em dis -\nfunções gastrointestinais a prevalência dessa desordem \nconstitui 35% dos pacientes, gerando significativo impac-\nto negativo na saúde pública e na qualidade de vida.(11,15,16) \nA fisiopatologia da SII ainda não é clara, mas há in-\ndícios de que alterações da motilidade e secreções \ndigestivas, hipersensibilidade visceral e alterações no \nsistemas endócrino, imune e da microbiota intestinal \nestejam envolvidas. (12,16) Tanto na endometriose como \nna SII, a inflamação com aumento de citocinas infla -\nmatórias e hipersensibilidade visceral fazem parte do \nmecanismo fisiopatológico da doença.(11) No entanto, na \nendometriose há atividade inflamatória com efeito sis -\ntêmico, enquanto a suposta inflamação da SII está mais \nrelacionada à parede intestinal, com aumento do núme-\nro de linfócitos e mastócitos.(16) \nInflamação é uma explicação para a sensibilização \nvisceral, que significa aumento exagerado na sensação \nde dor relacionada ao órgão visceral, podendo contribuir \npara os sintomas tanto da SII como da endometriose.(16) \nPacientes com endometriose apresentam 2-3 vezes \nmaior risco de serem diagnosticadas com SII, quando \ncomparadas às mulheres sem a doença.(15,16) Uma vez que \nnão apresenta achados objetivos, a SII tem o seu diag -\nnóstico baseado em sintomas avaliados por meio dos \ncritérios de Roma IV.(11) \nDe forma semelhante à endometriose, a SII apresen-\nta sintomas inespecíficos, como dor abdominal recor -\nrente, constipação e cólicas, e carece de marcadores \ndiagnósticos não invasivos. (15) Dessa maneira, com um \nmétodo diagnóstico não simples e pouco custo-efetivo, \nmuitas pacientes com endometriose e sintomas gas -\ntrointestinais se enquadram nos critérios de Roma e \nsão erroneamente diagnosticadas com SII. (11,15) Essa so-\nbreposição de sintomas faz pesquisadores questiona -\nrem se mulheres com endometriose são erroneamente \ndiagnosticadas com SII ou se sofrem, de fato, com as \nduas comorbidades.(11,15) \nIMUNOPATOLOGIA DA ENDOMETRIOSE E \nSÍNDROME DO INTESTINO IRRITÁVEL   \nAcredita-se que a inflamação, o estresse oxidativo e al -\nterações imunológicas contribuem para o desenvolvi-\nmento da endometriose, (5,8) promovendo um ambiente \nque permite a aderência da célula endometrial ao te-\ncido e sua proliferação, levando a endometriose e pro-\ngressão da doença.(8) \nO estresse oxidativo parece ser a chave para esse \nprocesso inflamatório. (8) Quando ocorre o desbalanço \nde antioxidantes versus espécies reativas de oxigênio \n(EROs) com o predomínio deste último, ocorre o estresse \noxidativo. Na endometriose, esse desequilíbrio vem dos \neritrócitos da cavidade peritoneal, e os seus produtos \ntóxicos heme e ferro levam à formação de EROs. Esse es-\ntresse oxidativo ocasiona não apenas dano celular, mas \ntambém da função celular, ao ativar ou inibir a expres -\nsão de genes e secreção de citocinas pro-inflamatórias, \ncontribuindo para o processo de adesão, proliferação e \nneovascularização na endometriose peritoneal.(8)\nEm parte, o possível mecanismo fisiopatológico na for-\nmação dessa doença pode ser explicado pelo alto nível \nde inflamação sistêmica ocasionado pela dieta pró-infla-\nmatória, aumentando os níveis de PCR, IL-6, IL-8, TNF-a, \ncitocinas (ERK), leucócitos e neutrófilos, contribuindo \nainda mais com a implantação das células endometriais, \nseu crescimento e invasão, o que é intensificado pelas \npropriedades angiogênicas do fator de crescimento en-\ndotelial vascular (VEGF) das lesões ectópicas.(4-6,8,14,18) \nENDOMETRIOSE, SÍNDROME DO \nINTESTINO IRRITÁVEL E ALIMENTAÇÃO \nApesar de haver evidências do potencial dietético em \npromover melhora dos sintomas da endometriose, elas \nainda são fracas. Terapias voltadas para o estilo de vida \nainda não fazem parte dos principais guidelines interna-\ncionais e não são rotineiramente recomendadas pelos \nprofissionais de saúde.(19) \nDesordens crônicas no sistema digestivo influen-\nciam no comportamento alimentar dessas pacientes, \nque, com intuito de reduzir os sintomas, frequente-\nmente se submetem a restrições alimentares que po-\ndem levar à desnutrição, que, por sua vez, exacerba as \ndesordens digestivas e os também transtornos alimen-\ntares, como a anorexia nervosa, bulimia e transtorno \nda compulsão alimentar periódica, reforçando a impor-\ntância da orientação nutricional de qualidade a essas \npacientes.(12,19) \n\nEndometriose e síndrome do intestino irritável: uma associação real? O papel da dieta, probióticos e microbioma\nEndometriosis and irritable bowel syndrome: a real connection? The role of diet, probiotics, and the microbiome\n| 147 \nFEMINA 2025;53(2):144-9\nDesordens alimentares e SII são mais prevalentes em \npacientes com endometriose do que na população ge-\nral.(19) Mulheres com endometriose apresentam baixo \níndice de massa corpórea (IMC) ou apresentam baixo \npeso.(9) De forma lamentável, as principais fontes de in-\nformação sobre estilo de vida e mudanças dietéticas para \nas portadoras de endometriose ainda advêm da internet \nou de informações não científicas. Dietas autoadministra-\ndas são muito comuns nessas pacientes e, além da não \nmelhora dos sintomas álgicos, podem levar a frustração, \nfalta de esperança, perda de peso excessivo e ansiedade \nrelacionada à leitura dos rótulos dos alimentos. \nO padrão alimentar é reconhecido como um impor -\ntante fator influenciador no bem-estar físico. Além de \nauxiliar no controle de peso, o bom hábito alimentar \ncontribui para a redução do risco de diversas doenças \nque impactam a qualidade de vida relacionada à saúde, \nalém de prevenir que os sintomas de dor se agravem.(2,5) \nSendo uma entidade complexa de compostos anti ou \npró-inflamatórios, a dieta desempenha papel decisivo \nna modulação da inflamação sistêmica. (18) O alto con-\nsumo de álcool, gorduras trans ou insaturadas e carnes \nvermelhas está relacionado ao aumento do risco de en-\ndometriose. Em contraste, o maior consumo de ômega 3, \nvitamina D, frutas, particularmente as cítricas, e, durante \na adolescência, de lácteos está relacionado a menor ris-\nco da doença.(18) \nMulheres com alto nível sérico de ácido graxo eico-\nsapentaenoico (EPA) demonstraram redução de 82% \nde diagnóstico de endometriose, quando comparadas \nàquelas com níveis menores. (5) Por outro lado, Liu et \nal. (2023)(18) concluíram que pacientes com ingestão de \nmaior Índice Inflamatório Dietético tiveram 57% maior \nrisco de endometriose, sugerindo que intervenções \nbaseadas em dieta anti-inflamatória podem, eventual -\nmente, prevenir a endometriose. \nPacientes com SII estão mais associados a intolerân-\ncia a frutose e lactose, portanto é recomendado que \ncontrolem o consumo dessas substâncias, bem como \nmonitorem o consumo de tomates, soja, condimentos, \npimenta, cafeína, alimentos ricos em sódio e frutas cítri-\ncas. Cafeína, álcool, glúten e FODMAPs (oligossacarídeos \nfermentáveis, dissacarídeos, monossacarídeos e polióis) \nparecem reduzir a abundância de bifidobactéria intes -\ntinal, em comparação ao controle, e devem ser tempo-\nrariamente evitados nas pacientes com DPC, particular-\nmente quando a DPC está associada ao agravamento \ndos sintomas de SII.(2,20) \nSegundo metanálise realizada por Baradwan et al. \n(2024)(6) envolvendo 541 mulheres em 10 estudos clínicos \nrandomizados, sugere-se que a dieta antioxidante en-\nvolvendo vitamina D, ômega 3, resveratrol, melatonina \ne combinação de antioxidantes versus placebo reduz a \ndismenorreia de forma significante e melhora a dor pél-\nvica, apesar de não promover melhora da dispareunia. \nDa mesma forma, a mais recente metanálise con-\ncluiu que o uso de suplementos, comparado ao placebo, \ntambém foi associado à redução da dismenorreia (di-\nferença média: 1,95; intervalo de confiança [IC] de 95%: \n-3,78 a -0,13). No entanto, não apresentou melhora signi-\nficativa da DPC (diferença média: -2,22; IC de 95%: -4,99 a \n0,55) e da dispareunia (diferença média: -2,56; IC de 95%: \n-5,22 a 0,10). Os autores sugerem que esses resultados \ndevem ser analisados com parcimônia, uma vez que se \ntratam de estudos de alta heterogeneidade e modera -\ndo/alto risco de vieses.(20,21)\nEvidências sugerem que o resveratrol atua reduzindo \na inflamação, regulando a apoptose e viabilidade celu-\nlar, a proliferação, a adesão e invasão celular, a angiogê-\nnese e o metabolismo lipídico envolvidos na patogêne-\nse da endometriose, reduzindo o crescimento do tecido \nendometriótico. O maior consumo de ácido graxo ômega \n3 e 6, além do efeito anti-inflamatório, também possui \nefeito antitumorogênico com ação antiproliferativa e \npró-apoptótica.(5)\nA efetividade da vitamina D em reduzir a dismenor -\nreia associada a endometriose ocorre por meio de suas \npropriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras. \nPor outro lado, a melatonina também produz um poten-\nte efeito antioxidante, combatendo o estresse oxidativo, \ncujos produtos são pivôs da exacerbação da inflamação \ne da dor por meio do dano celular e do aumento da \nsensibilidade da dor.(6)\nNo mesmo contexto, as vitaminas C e E são reconhe-\ncidas por regularem níveis de ferro e reduzirem o es -\ntresse oxidativos, devido ao seu efeito antioxidante, e \nparecem reduzir a dismenorreia e a DPC.(6,21) \nO lipopolissacarídeo (LPS) aumenta o processo infla-\nmatório, contribuindo para a gênese da endometriose. A \nsuplementação do ácido alfalipoico (ALA) promove a re-\ndução do LPS e da agregação de macrófagos na parede \nintestinal, minimizando a perturbação da sua microbio-\nta. A administração de misturas probióticas também tem \nsido efetiva em reduzir lesões de endometriose e danos \nà mucosa intestinal em estudo animal.(7)\nHá mínima evidência da eficácia do uso da medicina \nherbal e não herbal na melhora da dismenorreia, tais \ncomo o feno-grego, gengibre, valeriana, zataria, óleo de \npeixe, vitamina B1 e sulfato de zinco.(21)\nMICROBIOTA INTESTINAL\nO aumento no entendimento acerca da microbiota e da \ndisbiose imunológica em diversas doenças vem trazen-\ndo à luz a possibilidade da sua participação no desen-\nvolvimento da endometriose. A microbiota é definida \ncomo a comunidade de microrganismos que moram no \ncorpo humano (dentro ou fora), a qual inclui bactérias, \nfungos, eucariotos e vírus e organismos unicelulares e \nanucleados (arqueias).(8)\nA disbiose é definida como um desbalanço ocorrido \nnessa microbiota, que, além dos microrganismos, é ro-\ndeada de elementos estruturais, metabólitos, molécu-\nlas sinalizadoras e condições ambientais que garantem \na função imunológica, metabólica e epitelial saudável \n\nHayashi LL, Bezan P, Troncon JK, Meola J, Poli Neto OB, Nonino CB, et al.\n148 |\nFEMINA 2025;53(2):144-9\ndesse local. A quebra desse equilíbrio pode ocasionar \ntranslocação de micróbios e seus metabólitos para dife-\nrentes sítios do corpo e desencadear respostas imunes e \ninflamatórias que estão envolvidas em diversas doenças \nassociadas a desordens metabólicas e neurológicas, ar-\ntrite, psoríase, doença inflamatória intestinal e câncer.(8)\nConsiderado um fator de confusão, o termo microbio-\nma refere-se ao coletivo de grupos de microrganismos, \nou seja, ao coletivo de genomas desses micróbios que \nvivem em um habitat ou local específico, incluindo mi-\ncrorganismos comensais, simbióticos e patogênicos.(7,8,10) \nÉ compreensível que o microbioma no corpo humano \napresente diferenças na população de micróbios, como, \nexemplo clássico, o trato gastrointestinal. O microbioma \nintestinal tem um grande número de microrganismos \nque desempenham importantes funções nos processos \nmetabólicos, imunológicos, neuronais e endócrinos do \ncorpo humano.(7,10) \nEstima-se que o número de bactérias em relação ao \nnúmero de células do corpo humano adulto (pesando 70 \nkg) chegue à taxa de 1:1. Isso destaca o potencial impacto \nque as células bacterianas têm no organismo, auxilian-\ndo no metabolismo e na maturação do sistema imune.(10)\nEstudos vêm demonstrando alteração na microbiota \nintestinal, líquido peritoneal e trato reprodutivo de mu-\nlheres com endometriose, comparadas a mulheres sau-\ndáveis.(8,10) Não fica definido se essas alterações estão \nassociadas à causa ou à consequência da doença. Por \noutro lado, a disbiose e as infecções no trato genital de \nmulheres podem induzir mudanças genéticas e epige-\nnéticas, levando ao aumento do estresse oxidativo e a \nmudanças na resposta imune que apresentam um signi-\nficativo papel na formação da doença.(8)\nA disbiose intestinal já foi relacionada tanto à gra -\nvidade da SII como à inflamação intestinal. Da mesma \nmaneira, está relacionada à desregulação do sistema \nimune e à alteração no metabolismo do estrogênio em \npacientes com endometriose.(12)\nNa maioria dos humanos saudáveis, a microbiota in-\ntestinal é dominada por bactérias, especialmente de dois \nfilos dominantes – Bacterioidetes e Firmicutes –, compon-\ndo 95% do total.(8) A disbiose, em sua maioria, é decorren-\nte do desequilíbrio desses dois filos, que representam as \npopulações de Gram-positivos e Gram-negativos.(14)\nA relação de Firmicutes e Bacteroidetes está aumen-\ntada em pacientes com SII, em comparação ao controle \nintestinal de pacientes saudáveis.(14,22) Mulheres com en-\ndometriose têm 50% maior risco de apresentar doença \ninflamatória intestinal, evidenciando uma sólida relação \nentre resposta imunológica intestinal e a injúria ocasio-\nnada pela endometriose.(4,14) \nSegundo revisões sistemáticas, a microbiota intes -\ntinal de mulheres com endometriose é predominada \npelos filos Actinobacterias, Firmicutes, Proteobacterias \ne Verrucomicrobia, enquanto o filo Lactobacillaceae foi \nsignificativamente reduzido nessas mulheres, em com-\nparação ao controle.(8,14) \nAlém da disbiose intestinal, pacientes com endome-\ntriose, dor pélvica e dispareunia também podem ter a \nassinatura microbiana do trato reprodutor alterada, con-\nceito conhecido como “microbiota endometriótica”.(8,10,14) \nUma vez reduzidas as proporções de Lactobacillus sp. \nque protegem o hospedeiro contra patógenos, em as -\nsociação ao aumento de espécies oportunistas que se \nsugere estarem associadas a inflamação, desregulação \nimune e disbiose tanto da vagina como do intestino, \ncria-se um microbioma que pode estar envolvido na \nprogressão da endometriose, em particular por meio da \nredução nos níveis de Bacteroidetes.(7,10,14) \nExperimentos em animais sugerem que a administra-\nção de antibióticos, em especial o metronidazol, reduz \no tamanho e a progressão das lesões de endometriose, \nalém de modificar a diversidade bacteriana da micro-\nbiota intestinal de camundongos com endometriose in-\nduzida cirurgicamente.(22)\nEstudos recentes têm demonstrado que a adminis -\ntração de suplementos, antibióticos e substâncias es -\npecíficas pode efetivamente modular a composição das \nbactérias intestinais e, consequentemente, reduzir a res-\nposta inflamatória, contribuindo para reduzir a quanti-\ndade e o tamanho das lesões endometrióticas.(7,14) \nApesar de estudos em animais sugerirem uma ligação \nentre microbiota intestinal e endometriose, nenhuma \nrelação de causa-efeito foi formalmente estabelecida \nentre disbiose e endometriose em humanos. Estabelecer \no possível mecanismo de relação entre esses fatores \npoderia auxiliar no desenvolvimento de estratégias pre-\nventivas ou terapêuticas.(12) \nO PAPEL DO MICROBIOMA NA \nPATOGÊNESE DA ENDOMETRIOSE \nO efeito da disbiose pode contribuir para a patogêne-\nse da endometriose via inflamação e modulação da \nimunidade, mostrando a importância do microbioma \nno desenvolvimento da doença. (7,8,10,14) Também pode in-\nfluenciar o desenvolvimento da endometriose por meio \nda alteração do metabolismo do estrogênio. Uma parte \ndo microbioma, também conhecida como estroboloma, \né responsável por metabolizar o estrogênio e, quando \nestá em disbiose, o faz de forma alterada, aumentando \nos níveis circulantes de estrogênio no corpo.(8)\nO microbioma intestinal produz vitaminas K e B12, que \nauxiliam na integridade da mucosa intestinal, reparo epi-\ntelial, angiogênese e processo de imune.(10) As alterações \ndecorrentes da disbiose levam a respostas imunes que \nresultam no descontrole de expressões celulares, aumen-\ntando a produção de citocinas pró-inflamatórias como a \nIL-6, IL-8, VEGF e supressão da resposta imune celular. A \nprogressão da endometriose pode correr paralela a essas \nocorrências, num estado de inflamação crônica, aderên-\ncias celulares e angiogênese ao longo do tempo.(14)\nA favor da teoria da “contaminação bacteriana”, postula-\n-se que haja aumento na concentração de Escherichia coli \nno sangue menstrual de mulheres com endometriose.(10) \n\nEndometriose e síndrome do intestino irritável: uma associação real? O papel da dieta, probióticos e microbioma\nEndometriosis and irritable bowel syndrome: a real connection? The role of diet, probiotics, and the microbiome\n| 149 \nFEMINA 2025;53(2):144-9\nEssa contaminação do sangue, que também pode ocorrer \ncom Proteobacteria, pode ser fonte constante de endoto-\nxinas bacterianas ou lipopolissacarídeos na cavidade peri-\ntoneal, ocasionando inflamações que desencadeiam uma \nsérie de mediadores inflamatórios secundários.(8,10) \nO aumento de citocinas pró-inflamatórias e o es -\ntresse relacionado à dor na endometriose aumentam a \npermeabilidade intestinal. Essa desregulação está for -\ntemente associada a redução da produção de ácidos \ngraxos de cadeia curta, o butirato, que apresenta papel \nimportante na manutenção da barreira intestinal, na \namortização imunológica e na otimização do funciona -\nmento mitocondrial.(7,23) \nDiversas classes de bactérias Gram-negativas pro-\ndutoras de betaglucoronidase estão aumentadas na \nmicrobiota de pacientes com endometriose. A betaglu-\ncoronidase está relacionada à proliferação do estroma \nendometrial e ao aumento do tamanho das lesões en-\ndometrióticas em camundongos e, dessa maneira, está \nsendo investigada como tendo possível participação na \npatogênese da endometriose. Diversos metabólicos, in-\ncluindo o ácido quínico, foram identificados em níveis \naumentados nas fezes de camundongos com endome-\ntriose, e foi demonstrado que esses metabólitos são ca-\npazes de aumentar significativamente a proliferação de \ncélulas epiteliais endometrióticas.(7) \nCONCLUSÃO\nMuitas evidências sugerem que o estilo de vida, princi-\npalmente aquele relacionado aos aspectos nutricionais, \nestá significativamente relacionado à gênese da endo-\nmetriose e à SII, bem como ao processo da dor crônica \nsecundária a essas enfermidades. A quase totalidade dos \nestudos foi conduzida em modelos animais ou baseada \nem análise retrospectiva, não possibilitando a definição \nexata da relação entre causa e efeito. Explorar a ligação \nentre endometriose e SII e os aspectos relacionados a \nintervenções nutricionais e ao uso de probióticos nas \npacientes com essas comorbidades inflamatórias crô-\nnicas é de grande importância para trazer informações \nacerca da possibilidade de tratamentos não farmacoló-\ngicos, a fim de oferecer novos caminhos para avançar na \ncompreensão e tratamento da endometriose. \nREFERÊNCIAS\n1. Chronic Pelvic Pain: ACOG Practice Bulletin, Number 218. Obstet Gynecol. \n2020;135(3):e98-e109. doi: 10.1097/AOG.0000000000003716\n2. Siqueira-Campos VM, de Deus MS, Poli-Neto OB, Rosa-e-Silva JC, de Deus \nJM, Conde DM. Current challenges in the management of chronic pelvic \npain in women: from bench to bedside. Int J Womens Health. 2022;14:225-\n44. doi: 10.2147/IJWH.S224891\n3. Hayashi LF, Ribeiro PA, Brito LG, Ribeiro HS. Adaptation and validation \nof the international pelvic pain society’s quality of life questionnaire in \nportuguese. 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