{"paper_id":"108cfc7c-dbbf-4f9e-8d4d-d1ac2da11776","body_text":"8 \n10.59290/2805201008 \n \n \n \n \n \nCapítulo 2 \n \n \nENDOMETRIOSE APENDICULAR \n \n \n \n \n \nAMANDA XAVIER FUCHS DE JESUS¹ \nGABRIELLE FERREIRA MORAES¹ \nYASMIN DA SILVA FREITAS¹ \nVIVIANE LOZANO ESPASANDIN2 \n \n \n \n \n \n1. Discente - Acadêmicas de Medicina do Instituto de Educação Médica – IDOMED (Estácio de Sá, Campus Cittá), Rio \nde Janeiro, RJ. \n2. Docente – Departamento de Clínica Médica e Gastroenterologia do Instituto de Educação Médica – IDOMED (Está-\ncio de Sá, Campus Cittá), Rio de Janeiro, RJ. \n \n \n \n \n \n \nPalavras-chave  \nEndometriose Apendicular; Apendicite; Endometriose. \n \n \n\n \n9 \nINTRODUÇÃO \nA endometriose é um distúrbio ginecológi -\nco benigno comum, que pode ser sintomático \nou assintomático, caracterizado pela presença \nectópica de tecido endometrial funcional fora \nda cavidade uterina. É uma patologia hormônio \ndependente, sendo, por isso, encontrada sobre-\ntudo em mulheres em idade repr odutiva, com \numa estimativa de 10 a 15%. Afeta predomi-\nnantemente ovários, tubas uterinas e ligamentos \nútero-sacrais, podendo acometer órgãos intesti-\nnais, como o apêndice e a bexiga, o que dificulta \no diagnóstico clí nico devido à sintomatologia \ninespecífica. Além disso, pode estar diretamen-\nte ligada com a perda da qualidade de vida, tor-\nnando esse um dos aspectos mais importantes \nda doença, sendo multifatorial, e impactando \nprofundamente o bem -estar físico, emocional, \nsocial e profissional (SCHORGE et al., 2020). \nEmbora não exista relato preciso do primei-\nro caso descrito, a endometriose apendicular foi \ninicialmente documentada em 1860, e é uma \ncondição rara que pode simular quadros clíni-\ncos de apendicite aguda ou outras patologias \nabdominais. Deve ser considerada como diag-\nnóstico diferencial em mulheres jo vens que a -\npresentam dor abdominal recorrente, inespecí-\nfica, principalmente na região do quadrante in-\nferior direito, muitas vezes associada à história \nde infertilidade (DRUMOND et al., 2020; RO-\nMAN et al., 2020). \nSendo assim, é muito importante o diagnós-\ntico precoce, principalmente nas pacientes que \napresentam sintomas de apendicite aguda, a fim \nde que seja realizado o manejo correto, evitan -\ndo-se mais complicações. As manifestações clí-\nnicas podem incluir dor abdominal crônica ou \ncíclica, melena, intussuscepção cecal, obstru-\nção, perfuração apendicular e perda da qualida-\nde de vida (ALAHQOLI et al., 2023; HUMES \n& SIMPSON, 2006; NOGUEIRA et al., 2023). \nUm dos exames indicados, primeiramente, \nno momento da apresentação das manifestações \nclínicas, é a ressonância magnética (RM) pélvi-\nca para a confirmação do diagnóstico. O manejo \nterapêutico padrão para esta entidade clínica \nconsiste inicialmente em terapias hormonais e \nanti-inflamatórias.  \nO tratamento cirúrgico, geralmente por via \nde apendicectomia associada à análise histopa-\ntológica para confirmação diagnóstica, é indica-\ndo em casos de dor refratária, falha da terapia \nconservadora ou acometimento anatômico sig-\nnificativo (ASRM, 2022; DUNSELMAN et al., \n2014; DI SAVERIO et al ., 2020; BRASIL, \n2016). \n \nDEFINIÇÃO E CLASSIFICAÇÃO  \n \nA endometriose é definida pela implantação \nde tecido endometrial (glândulas e estroma) \nfuncional fora da cavidade uterina, inflamação \ncrônica e capacidade de responder aos estímu-\nlos hormonais. A endometriose pode se desen-\nvolver em qualquer sítio dentro da pelve e em \noutras superfícies peritoneais extrapélvicas. O \nmais comum é encontrá-la nas áreas dependen-\ntes da pelve, como ovário, peritônio pélvico e \nligamentos uterossacrais. Além disso, ureter, \napêndice, bexiga e pericárdio também podem \nser afetados. A si ntomatologia da doença está \nfrequentemente relacionada à localização das \nlesões. Embora a apendicite aguda seja a pato-\nlogia cirúrgica mais comum responsável por \ndor abdominal no quadrante inferior direito, a \nendometriose apendicular pode mimetizar seus \nsintomas, e representa uma apresentação extre-\nmamente rara da endometriose extragonadal. \nAfeta comumente mulheres em idade reprodu-\ntiva, com um amplo espectro de manifestações \nclínicas (ARAGONE et al., 2023; LOBRIGAT-\nTE et al., 2013; SCHORGE et al., 2020). \n \n\n \n10 \nEPIDEMIOLOGIA  \n \nA endometriose configura-se como uma pa-\ntologia de elevada prevalência e impacto signi-\nficativo no contexto epidemiológico. No cená-\nrio global, a doença se manifesta predominante-\nmente entre mulheres em idade reprodutiva, es-\ntimando-se que acometa entre 10 a 15% dessa \nfaixa etária. Sua ocorrência também é registra -\nda, embora com menor frequência, em mulhe-\nres pós-menopausa. Além disso, afeta de forma \nexpressiva cerca de 35 a 50% daquelas que a -\npresentam dor pélvica crônica e/ou infertilida -\nde, sendo uma das principais causas dessas con-\ndições no sexo feminino. Isso reflete a natureza \nda doença, diretamente relacionada à atividade \nhormonal, sobretudo ao estrogênio. Estudos a -\npontam também para a influência de fatores ge-\nnéticos na susceptibilidade a esta patologia. A -\nproximadamente 7% das pacientes apresentam \nhistórico familiar positivo, principalmente entre \nparentes de primeiro grau, como mães e irmãs \n(SMOLARZ et al., 2021). \nA apendicite aguda é uma das principais \ncausas de internação e cirurgia de emergência \nno Brasil, com uma incidência anual estimada \nde aproximadamente 80 casos por 100 mil habi-\ntantes. Entre 2019 e 2020, foram registradas \n155.430 hospitalizações pelo Sistema Único de \nSaúde (SUS), com predominância de faixa etá-\nria entre 18 e 29 anos. A evolução clínica foi fa-\nvorável na maioria dos casos (NOGUEIRA et \nal., 2023).  \nA endometriose apendicular pode muitas \nvezes simular um quadro de apendicite aguda. \nEmbora rara, ela representa uma manifestação \nclínica relevante dentro do espectro da doença. \nA sua prevalência varia conforme a população \nestudada, sendo estimada entre 0,05% e 1,69% \nnas mulheres com endometriose em geral, po-\ndendo alcançar índices superiores, de até \n13,2%, entre aquelas com diagnóstico de endo-\nmetriose profunda. Em contextos cirúrgicos, a \nendometriose do apêndice é identificada inci-\ndentalmente em aproximadame nte 7,23% dos \nprocedimentos ginecológicos, enquanto em ca-\nsos de apendicite aguda acometendo mulheres, \na presença de tecido endometriótico na região \napendicular é descrita em até 2,67% das pacien-\ntes. Esses dados ressaltam a importância da \nconsideração diagnóstica dessa condição frente \na quadros de dor abdominal, especialmente na \npopulação feminina jovem (ALAHQOLI et al., \n2023; DRUMOND et al., 2020; ROMAN et al., \n2020). \n \nETIOLOGIA E PATOGÊNESE  \nA endometriose caracteriza -se como uma \ndoença inflamatória crônica, estrogênio-depen-\ndente, cuja etiologia, embora estudada, ainda \npermanece não completamente esclarecida. Sua \npatogênese é complexa e multifatorial, susten-\ntada por diversas teorias que buscam explicar a \npresença de tecido endometrial fora da cavidade \nuterina. A teoria mais amplamente aceita é a da \nmenstruação retrógrada, proposta por Sampson, \nsegundo a qual fragmentos de endométrio mi-\ngram pelas tubas uterinas e se implantam na ca-\nvidade periton eal. Outras hipóteses incluem a \nmetaplasia celômica, que sugere a transforma-\nção de células peritoneais em tecido endome-\ntrial funcional, e a teoria embrionária, que atri-\nbui a origem da doença à persistência de células \nderivadas do ducto de Müller (Estrutura embri-\nonária que dá origem a alguns órgãos da pelve \nfeminina) em localizações ectópicas, ativadas \napós a puberdade. Além disso, é observado um \ncomponente genético importante, e a participa-\nção de fatores imunológicos e hormonais que \nfavorecem um ambiente pr ó-inflamatório e a \nmanutenção das lesões (ROLLA, 2019). \n\n \n11 \nAlém das localizações pélvicas clássicas, a \ninflamação crônica característica da endometri-\nose pode se estender a regiões extrapélvicas, in-\ncluindo o trato gastrointestinal, com destaque \npara o apêndice cecal. O tecido endometrial ec-\ntópico infiltra a parede apendicular, induzindo \nresposta inflamatória local com quadro clínico \ncompatível com apendicite. Essa disseminação \npoderia ocorrer por migração direta de células \nendometriais durante episódios de menstruação \nretrógrada, seguidas da implantação e prolifera-\nção em locais distantes sob a influência de fato-\nres imunológicos e hormonais típicos da endo-\nmetriose. Porém, a etiologia do tipo apendicular \nsegue os mesmos princípios multifatoriais da \nforma pélvica, envolvendo outras teorias. Acre-\ndita-se que, no caso do a pêndice, a migração e \nimplantação de tecido endometrial funcional \npossivelmente ocorra por mecanismos de disse-\nminação vascular (ALAHQOLI et al ., 2023; \nDRUMOND et al., 2020). \n \nMANIFESTAÇÕES CL ÍNICAS E \nCOMPLICAÇÕES  \nA endometriose é uma condição ginecoló-\ngica crônica caracterizada pela presença de te-\ncido endometrial fora da cavidade uterina. Suas \nmanifestações clínicas são bastante variáveis, \ndependendo da localização e da extensão das le-\nsões. Os sintomas mais comuns i ncluem dor \npélvica crônica, dismenorreia (cólica menstrual \nintensa), menorragia (sangramento uterino ex-\ncessivo), dispareunia (dor durante a relação se-\nxual), infertilidade e alterações gastrointestinais \ncomo constipação, diarreia, disquesia (dor à e -\nvacuação) e hematoquezia (sangue nas fezes). \nTambém podem ocorrer sintomas urinários, co-\nmo disúria, hematúria e incontinência urinária \n(DUNSELMAN et al., 2014). \nUma manifestação rara, porém, relevante, é \na endometriose abdominal, que acomete mulhe-\nres jovens em idade fértil. Essa variante pode \nincluir a endometriose apendicular, cujas mani-\nfestações muitas vezes simulam quadros de a -\npendicite aguda, como dor na fossa ilíaca direita \n(FID), náuseas e vômitos. Entretanto, essa for -\nma também pode ser assintomática e o diagnós-\ntico é feito apenas durante procedimentos cirúr-\ngicos, como a laparoscopia exploratória, ou por \nmeio de exames de imagem (DRUMOND et \nal., 2020). \nA diferenciação clínica entre endometriose \nabdominal e apendicite aguda é desafiadora, \npois ambas podem cursar com dor localizada \nem FID. Na apendicite clássica, a dor se inicia \nna região epigástrica ou periumbilical e migra \npara a FID em até 24 horas, sendo acompanha-\nda por náuseas, vômitos, anorexia e febre baixa. \nO exame físico pode revelar sinais típicos como \nBlumberg (dor à descompressão brusca), Rov -\nsing (dor na FID provocada pela palpação da \nfossa ilíaca esquerda), Psoas (dor na FID ao re-\nalizar movimento com a coxa direita) e Obtura-\ndor (dor na FID com flexão e rotação interna da \ncoxa direita), que são indicativos de irritação \nperitoneal ou posição atípica do apêndice \n(BALL et al., 2020). \nContudo, o diagnóstico diferencial pode ser \ndifícil em apresentações atípicas, como em cri-\nanças, idosos e gestantes, ou quando o apêndice \nse encontra em diferentes posições anatômicas, \ncomo retrocecais ou pélvicos, causando sinto-\nmas urinários ou intestinais semelhantes aos da \nendometriose. Quando não tratada precocemen-\nte, a apendicite pode evoluir com complicações \ngraves, como perfuração, peritonite difusa ou \nformação de abscesso (NOGUEIRA  et al ., \n2023). \nPortanto, é fundamental que o profissional \nde saúde reconheça as possíveis manifestações \nda endometriose abdominal, especialmente \n\n \n12 \nquando mimetizam quadros de apendicite. Um \ndiagnóstico preciso é essencial para evitar con-\ndutas inadequadas e garantir o tratamento corre-\nto, preservando a saúde da paciente. \n \nDIAGNÓSTICO DIFERENCIAL \nA endometriose abdominal, por sua locali-\nzação e variabilidade clínica, pode ser confun-\ndida com diversas condições ginecológicas, \ngastrointestinais e urinárias. O reconhecimento \nadequado de seus diagnósticos diferenciais é \nfundamental para evitar atrasos no tratamento e \ngarantir condutas apropriadas (SCHORGE et \nal., 2020). \nDo ponto de vista ginecológico, algumas \ndoenças apresentam sintomas muito semelhan-\ntes. A dismenorreia primária, por exemplo, ca-\nracteriza-se por dor pélvica cíclica associada ao \nciclo menstrual, geralmente em mulheres jo-\nvens, mas sem lesões anatômicas detectáveis, o \nque a diferencia da endometriose, que envolve \ntecido ectópico visível. A miomatose uterina, \nespecialmente quando envolve miomas submu-\ncosos ou intramurais, pode causar dor pélvica, \nsensação de peso abdominal e sangramento ute-\nrino anormal, sintomas  que também são co-\nmuns na endometriose (SCHORGE et al ., \n2020). \nOutra condição importante é a adenomiose, \nque envolve a invasão do tecido endometrial no \nmiométrio. Ela pode levar a dor pélvica crônica, \nsangramento uterino intenso e aumento do vo-\nlume uterino, o que muitas vezes gera confusão \ndiagnóstica com a endometriose profunda. Cis-\ntos ovarianos, por sua vez, geralmente são as-\nsintomáticos, mas podem causar dor aguda em \ncasos de torção ou ruptura, mimetizando crises \ndolorosas da endometriose, especialmente se \nlocalizados próximos ao apêndice ou intestino \n(DUNSELMAN et al., 2014). \nA doença inflamatória pélvica (DIP) tam-\nbém deve ser considerada, pois cursa com dor \npélvica crônica, febre, dispareunia e corrimento \nvaginal purulento, o que pode ser confundido \ncom endometriose associada a aderências e in-\nflamação pélvica crônica. Já condi ções como \ninfecção urinária e cistite intersticial comparti-\nlham sintomas como disúria, polaciúria e dor \nsuprapúbica. A cistite intersticial, em especial, \npode cursar com dor pélvica crônica sem infec-\nção aparente, o que aumenta a semelhança com \ncasos de end ometriose vesical (SCHORGE et \nal., 2020). \nNo grupo das doenças gastrointestinais, des-\ntaca-se a síndrome do intestino irritável (SII), \nque se manifesta por dor abdominal crônica as-\nsociada a alterações do hábito intestinal (diar-\nreia, constipação ou ambos), sem alterações in-\nflamatórias visíveis nos e xames de imagem. A \ndoença inflamatória intestinal (DII), incluindo \ndoença de Crohn e retocolite ulcerativa, pode \ncausar dor abdominal, diarreia crônica, sangra-\nmento e perda de peso. Quando a endometriose \nacomete o intestino, especialmente o reto ou o \nsigmoide, pode simular perfeitamente essas do-\nenças, inclusive em exames de imagem. A do-\nença de Crohn com acometimento do íleo ter-\nminal pode causar dor em fossa ilíaca direita, \ndiarreia crônica e emagrecimento, quadro se-\nmelhante ao da endometriose intestinal avança-\nda (BASSI et al., 2009). \nUm diagnóstico diferencial particularmente \nrelevante é a apendicite, especialmente na for -\nma aguda. A endometriose apendicular pode se \nmanifestar com dor localizada na fossa ilíaca \ndireita, náuseas e vômitos, sintomas pratica-\nmente idênticos aos da apendicite clássica. Em \nalguns casos, a apendicite crônica também entra \ncomo diagnóstico diferenci al, por apresentar \ndor recorrente na mesma região. Outras causas \nde dor abdominal, como gastroenterite, geral-\n\n \n13 \nmente vêm acompanhadas de sintomas sistêmi-\ncos e diarreia, mas em fases iniciais podem ser \nconfundidas com endometriose intestinal. A di-\nverticulite de Meckel, embora rara, pode mime-\ntizar apendicite quando inflamada, especial-\nmente em crianças e jovens adulto s. Diante de \ntantas possibilidades clínicas que se sobre-\npõem, a avaliação diagnóstica da endometriose \nabdominal deve ser criteriosa. Exames de ima-\ngem, como ultrassonografia transvaginal, to-\nmografia computadorizada e ressonância mag-\nnética de pelve, são fundamentais. Em casos de \ndúvida, a laparoscopia diagnóstica continua \nsendo o padrão-ouro, pois permite visualização \ndireta das lesões e, se necessário, tratamento ci-\nrúrgico imediato (BASSI et al., 2009). \n \nTRATAMENTO E MANEJO DA \nDOENÇA  \nO tratamento da endometriose abdominal \nexige uma abordagem individualizada e multi-\ndisciplinar, considerando fatores como a inten-\nsidade dos sintomas, o desejo de fertilidade, a \nextensão das lesões e a resposta aos tratamentos \nprévios. Diferentemente de outr as formas de \nendometriose restritas à pelve, essa pode aco-\nmeter órgãos como intestinos, apêndice e pare-\nde abdominal, exigindo condutas específicas e, \nem muitos casos, intervenção cirúrgica (DUN-\nSELMAN et al., 2014). \nDe forma geral, o manejo da endometriose \npode ser dividido em tratamento clínico, cirúr-\ngico ou uma combinação de ambos. O trata-\nmento clínico é considerado primeira linha na \nmaioria dos casos, com o objetivo de suprimir \no estímulo hormonal cíclico que alimenta a ati-\nvidade das lesões. Isso é feito principalmente \npor meio do uso de anticoncepcionais hormo-\nnais combinados (estrogênio e progestagênio) \nou à base apenas de progestagênios. Outra op-\nção eficaz é o uso de análogos do hormônio li-\nberador de gonadotrofina s (GnRH), que indu-\nzem um estado de hipoestrogenismo, levando à \natrofia das lesões endometrióticas. Além disso, \nanti-inflamatórios não esteroides (AINEs) são \namplamente utilizados para controle da dor, \nprincipalmente nos casos leves e moderados \n(SCHORGE et al., 2020). \nQuando o tratamento clínico não é suficien-\nte, ou quando as lesões são extensas, compro-\nmetem órgãos abdominais, ou provocam sinto-\nmas intensos e refratários, a cirurgia passa a ser \no procedimento indicado. A abordagem cirúr-\ngica da endometriose abdominal pode envolver \ndesde a remoção de nódulos até r essecções in-\ntestinais segmentares ou apendicectomia, no ca-\nso da endometriose apendicular. Nesses casos, \na técnica minimamente invasiva por videolapa-\nroscopia é preferida, por permitir melhor visua-\nlização das lesões, menor tempo de internação \ne recuperação mais rápida. A escolha pelo pro-\ncedimento também deve considerar o desejo re-\nprodutivo da paciente, sendo possível preservar \nestruturas anatômicas importantes em casos de \nmulheres que desejam engravidar futuramente \n(DUNSELMAN et al., 2014). \nÉ importante destacar que o acompanha-\nmento multidisciplinar, envolvendo ginecolo-\ngistas, cirurgiões, radiologistas e clínicos, é es-\nsencial para um manejo seguro e eficaz da en-\ndometriose abdominal. Essa cooperação permi-\nte não apenas um diagnóstico mais preciso, mas \ntambém a definição de um plano terapêutico \ncompleto e ajustado às necessidades de cada pa-\nciente, com foco na redução da dor crônica, ma-\nnutenção da fertilidade e melhora da qualidade \nde vida (ROLLA, 2019). \nAssim, a endometriose abdominal demanda \numa avaliação mais cuidadosa e personalizada, \nque leve em consideração os sintomas a longo \nprazo, o desejo reprodutivo e os impactos fun-\n\n \n14 \ncionais da doença. É importante reforçar a im-\nportância do diagnóstico precoce e da escolha \ndo tratamento mais adequado para garantir a se-\ngurança, eficácia e bem -estar dos pacientes \n(SCHORGE et al., 2020). \n \nMÉTODO \nForam coletados dados através de pesquisa \nbibliográfica nas plataformas PubMed e Sci-\nELO, utilizando os termos endometriose, apen-\ndicite por endometriose, apendicite, endometri-\nose ectópica, endometriosis, endometriosis ca-\nse report, sob diversas estratégias de busca. Fo-\nram incluídos artigos publicados em português \ne inglês no período entre 2004 e 2024 e excluí-\ndos aqueles que não atenderam à metodologia \nabordada no trabalho em desenvolvimento. \nAlém disso, utilizou-se a publicação Protocolo \nClínico e Diretrizes  Terapêuticas da Endome-\ntriose, disponibilizada pelo Ministério da Sa-\núde. \n \nDISCUSSÃO \nA endometriose apendicular permanece \nsubdiagnosticada e pouco discutida, em parte \ndevido à ausência de sinais clínicos específicos \ne pela falta de diretrizes claras que indiquem a \ninspeção sistemática do apêndice em pacientes \nsubmetidas à cirurgia por endometriose. A pre-\nsença de endometriose no apêndice é mais co-\nmum em mulheres com comprometimento in-\ntestinal ou profundo da doença. Isso indica que \na inspeção e a remoção profilática do apêndice \nem pacientes com endometriose intestinal e/ou \nprofunda poderima ser justificadas, dado o risco \nelevado de comprometimento simultâneo. Con-\ntudo, mesmo em pacientes com lesões limita-\ndas, o apêndice pode ser acometido de forma \nisolada, exigindo uma avaliação criteriosa du-\nrante o ato operatório (ROMAN et al., 2020). \nEmbora os critérios de imagem para endo-\nmetriose intestinal estejam mais bem definidos, \na detecção de lesões apendiculares ainda en-\nfrenta limitações técnicas. É relatado que, mes-\nmo com o avanço das técnicas de imagem, co -\nmo a ressonância magnética pélvica especiali-\nzada, a endometriose no apêndice é raramente \nvisualizada antes da cirurgia. A confirmação di-\nagnóstica depende, na maioria dos casos, da \nanálise histopatológica após a retirada do apên-\ndice. Isso reforça a importância de uma aborda-\ngem integrada entre ginecologia, cirurgia e pa-\ntologia, voltada não apenas para o controle da \ndor, mas também para prevenir recorrências e \nprogressão da doença. O acompanhamento es-\npecializado permite avaliar a indicação de trata-\nmento hormonal e monitorar o risco de novas \nlesões em outros locais (ALAHQOLI et al ., \n2023). \nOutro ponto pouco discutido, que diz res-\npeito à base genética e inflamatória da endome-\ntriose, sugere que o envolvimento do apêndice \npode não ser meramente anatômico, mas possi-\nvelmente relacionado à resposta imunológica \nexacerbada local. Essa hipótese ajuda  a enten-\nder por que mesmo pacientes sem endometriose \npélvica extensa podem apresentar comprometi-\nmento apendicular isolado (SMOLARZ  et al., \n2021). \nPor fim, a heterogeneidade das manifesta-\nções da endometriose extrauterina, como a a -\npendicular, reforça a urgência por classifica-\nções mais amplas que incluam localizações atí-\npicas. A classificação atual da ASRM, frequen-\ntemente utilizada, não contempla adequada-\nmente esses casos, o que pode impactar negati-\nvamente o planejamento terapêutico. A integra-\nção de dados clínicos, anatômicos, patológicos \ne imunológicos poderia contribuir para um sis-\ntema mais sensível e específico para guiar con-\ndutas, nesses casos raros, mas clinicamente re-\nlevantes (ASRM, 2022). \n\n \n15 \nCONCLUSÃO \nA endometriose tem inúmeras causas, que \naté o momento não são bem definidas. É uma \ndoença multifatorial e acredita -se que fatores \ngenéticos, imunológicos, hormonais e menstru-\nação retrógrada possam estar envolvidos. É \numa patologia bastante complexa, onde o tecido \nendometrial pode surgir em outras partes do \ncorpo, e, para pacientes que já lidam com sinto-\nmas dolorosos, impactos psicossociais e atraso \nno diagnóstico, a variedade de apresentações \npatológicas representam uma barreira para que \nrecebam tratamento adequado e oportuno, bem \ncomo alívio dos sintomas (ROLLA, 2019; \nSMOLARZ et al., 2021). \nA endometriose apendicular, embora rara, é \numa importante forma da doença que pode si-\nmular um quadro de apendicite aguda. Sua a -\npresentação clínica muitas vezes limita o diag-\nnóstico diferencial e leva a significativa redu-\nção da qualidade de vida, sobretudo quando a -\ncompanhada de abdome agudo com dor à des-\ncompressão no ponto de McBurney, evidenci-\nando a complexidade diagnóstica. Esses fatores \nressaltam a necessidade de maior atenção a suas \nformas atípicas, ficando claro que a endometri-\nose apendicular é um diagnóstico d iferencial e \nde caráter limitante, onde suas manifestações \nresultam em uma redução significativa da qua-\nlidade de vida (ALAHQOLI et al., 2023; RO-\nMAN et al., 2020). \nPortanto, apesar de ser a principal causa de \nabdome agudo cirúrgico em jovens, o diagnós-\ntico de apendicite pode ser desafiador, especial-\nmente em mulheres, devido à semelhança de \nsintomas com diversas condições ginecológicas \ne gastrointestinais, como gravidez ectópica, cis-\nto ovariano, endometriose apendicular, entre \noutras. Por isso, uma avaliação clínica cuida-\ndosa, com apoio de exames de imagem, e, quan-\ndo necessário, laparoscopia, são essenciais para \ndiagnóstico preciso e tratamento adequado \n(HUMES & SIMP SON, 2006; BALL et al. , \n2020; DI SAVERIO et al., 2020). \nQuando o apêndice não é considerado na \navaliação da doença, os pacientes apresentam \num risco aumentado de dor não resolvida e, \nconsequentemente, da necessidade de novos \nprocedimentos laparoscópicos. Portanto, uma \napendicectomia profilática deve ser conside ra-\nda em pacientes com dor pélvica crônica que já \nestão sendo submetidos à laparoscopia. A lapa-\nroscopia desempenha papel fundamental na in-\nvestigação diagnóstica de pacientes com dor  \npélvica crônica (CPP), especialmente naqueles \ncom achados clínicos ou radiológicos inespecí-\nficos (DUNSELMAN et al. , 2014; ASRM, \n2022; BRASIL, 2016).\n\n \n16 \nREFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS\nALAHQOLI, L. et al. 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